Arquivo do mês: março 2014

A Sociedade Industrial e o futuro da humanidade

O que pensar quando somos testemunhas de uma época na qual um economista, ex-membro da administração Reagan e ex-consultor do Ministério da Defesa dos Estados Unidos, afirma que “o Capitalismo Global está destruindo a raça humana”? Mais ainda, como não estranhar que tenha partido de um indivíduo com esse histórico uma frase como essa: “Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já enfrentou. Ele levou a ganância a um patamar de força determinante da história“?

É justamente esse estranhamento que me faz retornar ao tema levantado no post anterior, no qual vimos o republicano Paul Craig Roberts fazendo tais afirmações. Quero voltar, mais especificamente, a um ponto abordado pelo artigo, que é a substituição da mão-de-obra humana pela robótica, na qual Roberts afirma que seus temores quanto a esse tema teriam partido da leitura de Ralph E. Gomory – membro da divisão de pesquisas matemáticas da IBM, desde 1959, onde atingiu o posto de Diretor de Pesquisas, no qual após 18 anos de trabalho somente nesse cargo, aposentou-se em 1989.

Como vimos, ao comparar os atuais bancos “privados” subsidiados nos Estados Unidos às indústrias publicamente subsidiadas de outrora, na Grã Bretanha, França, Itália e países comunistas, Craig Roberts afirmou em seu artigo que:

“(…) as empresas socializadas na Inglaterra e na França eram dirigidas mais eficientemente, e nunca ameaçavam as economias nacionais, menos ainda o mundo inteiro de ruína, como os bancos privados dos EUA, os “grande demais para quebrar” o fazem.  Os ingleses, franceses e os comunistas nunca tiveram 1 bilhão de dólares anuais, para salvar um punhado de empresas financeiras corruptas e incompetentes.

Isso só ocorre no “capitalismo de livre mercado”, em que capitalistas, com a aprovação da corrupta Suprema Corte dos EUA, pode comprar o governo, que os representa, e não o eleitorado. Assim, a tributação e o poder de criação de dinheiro do governo são usados para bancar poucas instituições financeiras às custas do resto do país. É isso o que significa “mercados autorregulados”.

Há muitos anos, Ralph Gomory alertou que os danos para os trabalhadores estadunidenses dos empregos no exterior seria superado pela robótica. Gomory me disse que a propriedade de patentes tecnológicas é altamente concentrada e que as inovações tornaram os robôs cada vez mais humanos em suas capacidades. Consequentemente, a perspectiva para o emprego humano é sombria”.

Essa perspectiva sombria a qual se referiu Roberts, foi rapidamente descrita por ele mesmo da seguinte maneira:

“Do modo como o mundo está organizado, sob poucos e imensamente poderosos e gananciosos interesses privados, a tecnologia nada fará pela humanidade. A tecnologia significa que os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e que os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos e não há qualquer remorso quanto a destruir os humanos que os desenvolveram. O quadro que emerge é mais ameaçador que as previsões de Alex Jones. Diante da pequena demanda por trabalho humano, muito poucos pensadores preveem que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs”.

Bill Joy, fundador da Sun Microsystems.

Tal visão distópica do futuro não é uma novidade e já havia sido trazido à baila por Bill Joy em artigo intitulado “Por que o futuro não precisa de nós”, publicado na revista Wired em sua edição 8.04 (abril 2000). Nesse texto, o fundador da Sun Microsystems falava do seu temor no futuro da humanidade a partir do desenvolvimento de três novas tecnologias que, por conta de seu grande potencial de replicação descontrolada, poderiam por um fim à humanidade: são elas a genética, a nanotecnologia e a robótica (GNR).

Sem entrar no mérito da discussão sobre essas tecnologias em específico, gostaria de destacar que logo no princípio de seu texto, Joy chama atenção para a passagem de um trecho de um longo manifesto, publicado em 1995 conjuntamente pelo The New York Times e o Washington Post. Antes de revelar o nome do autor desse manifesto e do contexto no qual ele foi lançado, Joy sugere que façamos a leitura do mesmo com especial atenção para a argumentação utilizada pelo autor. Seguindo a proposta de Joy, transcrevi abaixo o trecho desse manifesto no intuito de evidenciar como as imagens do futuro distópico apresentada no artigo de Paul Craig Roberts estão, embora ele não tenha mencionado, bastante alinhada às ideias divulgadas por esse manifesto.

O NOVO DESAFIO DO LUDISMO [1]

Primeiro, suponhamos que os cientistas da computação tenham conseguido criar máquinas inteligentes que façam tudo melhor que os seres humanos. Nesse caso, é de prever que todo o trabalho será realizado por sistemas enormes e muito bem organizados constituído de máquinas e que nenhum esforço humano será necessário. Deve ocorrer uma de duas possibilidades: ou as máquinas devem ter a permissão para tomar todas as decisões sem supervisão humana ou, o controle humano sobre as maquinas será preservado.

Caso se permita que as máquinas tomem decisões, não podemos conjeturar sobre os resultados, pois é impossível adivinhar como elas se comportarão. Apenas ressaltamos que o destino da humanidade estará à mercê das máquinas. Pode-se argumentar que a humanidade nunca seria tola a ponto de confiar todo o poder às máquinas. Contudo, não estamos  confirmando nem que a humanidade daria voluntariamente o poder às máquinas, nem que as máquinas tomariam o poder intencionalmente. O que afirmamos é que a humanidade se deixaria levar facilmente a tal dependência das máquinas que não lhe restaria opção senão a de aceitar todas as decisões delas. À medida que a sociedade e todos os problemas que ela enfrenta se tornam cada vez mais complexos, e as máquinas cada vez mais inteligentes, as pessoas deixarão as máquinas tomarem mais decisões simplesmente porque as decisões delas terão melhores resultados que as tomadas pelos seres humanos. Talvez se chegue a um estágio em que as decisões necessárias para manter o sistema em funcionamento venham a ser tão complexas que os seres humanos não tenham inteligência suficiente para tomá-las. Neste estágio, as máquinas terão o controle total. As pessoas não poderão simplesmente desligá-las, porque estarão tão dependentes delas que desligá-las seria o mesmo que se suicidar.

Imagem retirada do filme Eu, Robô.

Imagem retirada do filme Eu, Robô.

Por outro lado, é possível que o domínio humano sobre as máquinas seja mantido. Neste caso, o homem comum poderá controlar certas máquinas suas, como o carro ou o computador, mas o controle sobre o vasto sistemas de máquinas estará nas mãos de uma pequena elite – assim como é hoje, mas com duas diferenças. Em razão das técnicas aprimoradas, a elite dominará ainda mais as massas; e, como o trabalho humano não será mais necessário, as massas serão supérfluas, um fardo inútil para o sistema. Se a elite for impiedosa, ela poderá simplesmente decidir exterminar o grosso da humanidade. Se for humana, poderá utilizar propaganda ou outras técnicas psicológicas ou biológicas para reduzir a taxa de natalidade, até que a maioria da humanidade desapareça, deixando o mundo para a elite. Ou, se for constituída de liberais generosos, a elite poderá assumir o papel de tutora bondosa do resto da humanidade. Fará questão de satisfazer as necessidades físicas de todos, de criar todas as crianças em boas condições psicológicas, de proporcionar um passatempo saudável para que todos se mantenham ocupados e de submeter a “tratamento” todos os que possam ficar insatisfeitos a fim de curar os seus “problemas”. Obviamente, a vida se tornará tão despropositada que as pessoas precisarão ser refeitas biológica ou psicologicamente, para retirar-lhes a necessidade de poder, ou para fazê-las “sublimar” o desejo de poder com algum passatempo inofensivo. Esses seres humanos refeitos poderão ser felizes em tal sociedade, mas com toda a certeza, não serão livres. Terão sido reduzidos à condição de animais domésticos.


Transcrição de trecho do manifesto “A Sociedade Industrial e o seu futuro”, de Theodore Kaczinsky, retirado de Por que o futuro não precisa de nós”, de Bill Joy, publicado em Glenn Yefeth (org). A pílula vermelha: questões de ciência, filosofia e religião em Matrix. São Paulo: Publifolha, 2003, pp. 216-252.

Theodore Kaczinsky ainda jovem. Fonte: Wikimedia

Theodore Kaczynski, também conhecido como Unabomber, é um matemático estadunidense condenado à prisão perpétua pela prática de terrorismo, na qual matou tês pessoas e feriu outras vinte e três em uma série de atentados a bomba entre 1978 e 1995. Neste ano, enviou uma carta coagindo os jornais The New York Times e Washington Post a publicarem o manifesto “A Sociedade Industrial e o seu futuro”, no qual argumentou que seus atentados foram extremos, mas necessários para atrair a atenção para a erosão da liberdade humana exigido pelas tecnologias modernas que exigem organização em larga escala.

Para quem nunca (ou pouco) tinha pensado sobre o assunto, o cinema pode ser útil para que se tenha algumas percepções do quanto esse futuro distópico do qual se está falando está distante ou não. Muitos filmes trabalharam a questão da extinção da humanidade pelo desenvolvimento da tecnologia robótica, como os casos das franquias Exterminador do Futuro e Matrix, ou ainda, a versão para as telonas de Eu, Robô, por exemplo; outros tantos optaram por retratar, se não o fim dos tempos, uma importante mudança na forma de vida e organização da sociedade através do desenvolvimento da engenharia genética, como os casos de Gattaca, O Sexto Dia e A Ilha; poucos, no entanto, se enveredaram a trabalhar esse mesmo caminho através da nanotecnologia.  Portanto, diferentemente do que propôs Craig Roberts em seu artigo, a ficção científica (especialmente os livros) já tratam deste assunto há décadas.

Retornando à questão do início desse post, é realmente inquietante ver um republicano, ex-membro da administração Reagan, escrevendo artigos contra o capitalismo global e fazendo referências direta ao Manifesto do Unabomber (ainda que ele não tenha admitido). Por mais que saibamos que o indivíduo escreve em um contexto de crise econômica e para defender o poder do Estado que, diante do capitalismo global, perdeu muito espaço para as grandes corporações até mesmo nos Estados Unidos, é de se assustar, pois quando até mesmo os ratos, que tanto se fartaram do capitalismo, começam a abandonar o navio, é um sinal de que ele está realmente prestes a afundar. Adicione a isso os constantes avanços da tecnologia, especialmente nas áreas da robótica e engenharia genética e, como paranoia pouca é bobagem, também nos faz pensar as constantes mensagens dos grandes meios de comunicação de que o mundo não precisa de mais gente e de que já não é mais possível sustentar a vida no planeta da forma insana como estamos vivendo desde o começo do século XX. Obviamente, não sou ludita tanto quando Bill Joy, mas pensar nesse tema sempre me deixa preocupado e assustado com as perspectivas de futuro da humanidade. Mais ainda quando vejo homens como Paul Craig Roberts conjecturando o fim da “raça humana” por conta do desenvolvimento do capitalismo global. Mais temor ainda por estarmos sentado em um continente repleto de recursos que interessam enormemente essas grandes corporações. Talvez, esperar para ver o que vai ocorrer nos próximos anos já não seja mais uma opção. Diante de um cenário como esse, cabe pensar o que podemos fazer para evitar esse futuro distópico. Difícil missão, especialmente com oponentes tão poderosos.


[1] Ludismo, ou o movimento ludita, é o nome dado a um movimento ocorrido na Inglaterra entre os anos de 1811 e 1812, no qual trabalhadores das indústrias contrários aos avanços tecnológicos em curso, no contexto da primeira Revolução Industrial, protestavam contra a substituição da mão-de-obra humana por máquinas. O nome derivaria de um trabalhador chamado Ned Ludd, que teria quebrado as máquinas de seu patrão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • JOY, Bill. “Por que o futuro não precisa de nós”. In: YEFFETH, Glenn (org). A pílula vermelha: questões de ciência, filosofia e religião em Matrix. São Paulo: Publifolha, 2003, p. 216-252.
  • JOY, Bill. “Why the future does not need us”. In: Wired 8.04 (April, 2000).
  • HILLIS, Danny. “Test of time”. In: Wired 8.03 (March, 2000).
  • KACZINSKY, Theodore. A Sociedade Industrial e seu futuro. s/l. s/e, 1995.
  • KAUFFMAN, Stuart. “Self-replication, even peptides do it“. In: Nature, 382, p. 496 (August 8, 1996).
  • KURZWEIL, Ray.  A era das máquinas espirituais. São Paulo: Aleph, 2007, 512p.

ARTIGOS EM BLOG


NOTA DE ESCLARECIMENTO

Embora possa parecer óbvio, o autor desse blog não é ludita tampouco está fazendo apologia às práticas terroristas ou ao manifesto de Theodore Kaczinsky. Contudo, como afirmou Bill Joy em seu artigo, os tristes atos levados à cabo por Kaczinsky para dar visibilidade à suas ideias, não invalidam, por si, a argumentação utilizada no manifesto ou, se preferirmos, na passagem recortada para a discussão encetada nesse post.

Aliás, minha intenção ao criar esse post foi, movido pelo estranhamento causado pelo artigo de Paul Craig Roberts, evidenciar como algumas das ideias ali contidas estão, na verdade, diretamente relacionadas com o futuro distópico descrito por Kaczinsky no conhecido Manifesto Unabomber. Mais que isso, ao lembrar que essa discussão não é nova e que já era feita por Bill Joy desde o ano 2000 (em franco diálogo com os textos de Ray Kurzweil e Hans Moravec), busquei trazer ao leitor do Hum Historiador um referencial teórico sobre o assunto que ele talvez desconhecesse, no intuito de dar credibilidade às preocupações levantadas no post e, é claro, expor minha opinião diante do tema em discussão.

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O capitalismo global está destruindo a raça humana

Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já enfrentou. Ele levou a ganância a um patamar de força determinante da história.

Paul Craig Roberts, presidente do Instituto for Political Economy.

A frase acima não foi escrita por nenhum comunista ou “esquerdista”, como muitos gostam de chamar aqueles que escrevem contra o capitalismo, mas por Paul Craig Roberts, presidente do Institute for Political Economy e um republicano que, durante os anos 1980, trabalhou para a administração Reagan como Secretário Adjunto do Tesouro para Política Econômica, tendo também servido posteriormente ao governo estadunidense como consultor para os ministérios da defesa e do comércio.

O texto de onde essa frase foi tirada, foi publicado originalmente como artigo no site pessoal de Roberts (fev.2014) e, após ter sido traduzido por Louise Antônia León, foi republicado no Brasil pela revista Carta Maior (mar.2014).

Dentre outros pontos levantados por Roberts em seu artigo, chama atenção a passagem na qual cita Ralph Gomory e a problemática da substituição da mão-de-obra humana pela robótica. Digno das visões distópicas de alguns escritores de ficção científica, Craig Roberts aponta que se o desenvolvimento da tecnologia financiada pelo capitalismo global avançar no caminho que está trilhando, os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos sem que haja qualquer remorso quanto a destruição dos humanos desnecessários. Nesse cenário, por enquanto, sci-fi, diante da pequena demanda por trabalho humano, pode-se prever que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs. Não estamos tão distante assim como se pode pensar, pois como conclui seu artigo, os capitalistas já declaram em seus encontros de cúpula que “há bastante gente no mundo”.

Paul Craig Roberts também toca em outro assunto bastante importante que é o fracasso total da economia de livre mercado, em que “capitalistas, com a aprovação da corrupta Suprema Corte dos EUA, podem comprar o governo, que os representa, e não o eleitorado. Assim, a tributação e o poder de criação de dinheiro do governo são usados para bancar poucas instituições financeiras às custas do resto do país. É isso o que significa “mercados autorregulados””.

Aliás, o próprio Roberts é autor de livro intitulado The failure of laissez faire capitalism, no qual detalha melhor as razões que levaram ao fracasso desse capitalismo de livre mercado.

Abaixo, o Hum Historiador repercute a íntegra do texto de Paul Craig Roberts, tal como publicado na revista Carta Maior, com o objetivo de promover a reflexão sobre as consequências do capitalismo global não apenas para a organização de nossa sociedade, mas também, para a continuação de nossa espécie nesse planeta.

O CAPITALISMO GLOBAL ESTÁ DESTRUINDO A RAÇA HUMANA
por Paul Craig Roberts | publicado na revista Carta Maior em 14.mar.2014

A teoria econômica ensina que os movimentos financeiros a preços e lucros livres garantem que o capitalismo produz o maior bem-estar para o maior número de pessoas. Perdas indicam atividade econômica em que os custos excedem o valor da produção, de modo que investimentos nestas áreas devem ser restritos. Lucros indicam atividades em que o valor de produção excede o custo, que fazem o investimento crescer. Os preços indicam a escassez relativa e o valor das entradas e saídas, servindo assim para organizar a produção mais eficientemente.

Essa teoria não é o que funciona quando o governo dos EUA socializa custos e privatiza lucros, como vem sendo feito com o apoio do Banco Central aos bancos “grandes demais para quebrarem” e quando um punhado de instituições financeiras concentram tamanha atividade econômica. Bancos “privados” subsidiados não são diferentes das outrora publicamente subsidiadas indústrias da Grã Bretanha, França, Itália e dos países então países comunistas. Os bancos impuseram os custos de sua incompetência, ganância e corrupção sobre os contribuintes.

Na verdade, as empresas socializadas na Inglaterra e na França eram dirigidas mais eficientemente, e nunca ameaçavam as economias nacionais, menos ainda o mundo inteiro de ruína, como os bancos privados dos EUA, os “grande demais para quebrar” o fazem.  Os ingleses, franceses e os comunistas nunca tiveram 1 bilhão de dólares anuais, para salvar um punhado de empresas financeiras corruptas e incompetentes.

Isso só ocorre no “capitalismo de livre mercado”, em que capitalistas, com a aprovação da corrupta Suprema Corte dos EUA, pode comprar o governo, que os representa, e não o eleitorado. Assim, a tributação e o poder de criação de dinheiro do governo são usados para bancar poucas instituições financeiras às custas do resto do país. É isso o que significa “mercados autorregulados”.

Há muitos anos, Ralph Gomory alertou que os danos para os trabalhadores estadunidenses dos empregos no exterior seria superado pela robótica. Gomory me disse que a propriedade de patentes tecnológicas é altamente concentrada e que as inovações tornaram os robôs cada vez mais humanos em suas capacidades. Consequentemente, a perspectiva para o emprego humano é sombria.

As palavras de Gomory reverberam em mim quando leio o informe da RT, de 15 de fevereiro último (Russia Today), com especialistas de Harvard que construíram máquinas móveis programadas com termos lógicos de auto-organização e capazes de executarem tarefas complexas sem direção central ou controle remoto.

A RT não entende as implicações. Em vez de levantar uma bandeira vermelha, a RT se entusiasma:

“as possibilidades são vastas. As máquinas podem ser feitas para construir qualquer estrutura tri-dimensional por si sós, e com mínima instrução. Mas o que é realmente impressionante é a sua capacidade de adaptação ao seu ambiente de trabalho e a cada um deles; para calcular perdas, reorganizar esforços e fazer ajustes. Já está claro que o desenvolvimento fará maravilhas para a humanidade no espaço, e em lugares de difícil acesso e em outras situações difíceis”.

Do modo como o mundo está organizado, sob poucos e imensamente poderosos e gananciosos interesses privados, a tecnologia nada fará pela humanidade. A tecnologia significa que os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e que os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos e não há qualquer remorso quanto a destruir os humanos que os desenvolveram. O quadro que emerge é mais ameaçador que as previsões de Alex Jones. Diante da pequena demanda por trabalho humano, muito poucos pensadores preveem que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs. Se essa história ainda não foi escrita como ficção científica, alguém deveria se dedicar a fazê-lo, antes que se torne algo comum da realidade.

Os cientistas de Harvard estão orgulhosos de sua conquista, assim como sem dúvida estavam os participantes do Projeto Manhattan, em relação à conquista por terem produzido uma arma nuclear. Mas o sucesso dos cientistas do Projeto Manhattan não foi muito bom para os residentes de Hiroshima e Nagasaki, e a perspectiva de uma guerra nuclear continua a lançar uma nuvem negra sobre o mundo.

A tecnologia de Harvard provará que é inimiga da raça humana. Esse resultado não é necessário, mas os ideólogos do livre mercado pensam que qualquer planejamento ou antecipação é uma interferência no mercado, que sempre sabe melhor (daí a atual crise financeira e econômica). A ideologia do livre mercado alia-se ao controle social e serve a interesses de curto prazo de gananciosos grupos privados. Em vez de ser usada para a humanidade, a tecnologia será usada para o lucro de um punhado.

Essa é a intenção, mas qual é a realidade? Como pode haver uma economia de consumo se não há emprego? Não pode, que é o que estamos aprendendo gradativamente com a exportação de empregos pelas corporações globais, para o exterior. Por um período limitado uma economia pode continuar a funcionar na base de empregos de meio turno, rebaixamento de salários, cartões de benefícios sociais – de segurança alimentar e auxílio-desemprego (ver esse post de Hum Historiador).

Quando a poupança cai, no entanto, quando os políticos sem coração que demonizam os pobres cortam esses benefícios, a economia deixa de produzir mercado para consumir os bens importados que as corporações trazem para vender.

Aqui vemos o fracasso total da mão invisível de Adam Smith. Cada corporação em busca de vantagens gerenciais maiores, determinadas pelos lucros obtidos em parte pela produção da destruição do mercado consumidor dos EUA e da miséria maior de todos.

A economia smithiana aplica-se a economias nas quais os capitalistas têm algum sentido de vida comum com outros cidadãos do país, como o tinha Henry Ford.

Algum tipo de pertencimento a um país ou a uma cidade. A globalização destrói esse sentido. O capitalismo evoluiu ao ponto em que os interesses econômicos mais poderosos, os interesses que controlam o próprio governo, não têm sentido de obrigação com o país nos quais seus negócios estão registrados. Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já teve diante de si.

O capitalismo internacional levou a ganância a um patamar de força determinante da história. O capitalismo desregulado e dirigido pela ganância está destruindo as perspectivas de emprego no mundo desenvolvido e no mundo em desenvolvimento, cujas agriculturas se tornaram monoculturas para exportação a serviço dos capitalistas globais, para alimentarem a si mesmos. Quando vier a quebradeira, os capitalistas deixarão “a outra” humanidade à míngua.

Enquanto isso, os capitalistas declaram, em seus encontros de cúpula, “que há muita gente no mundo”.


(*) Diretor do Institute for Political EconomyVersão original do artigo aqui.

(**) Tradução: Louise Antônia León

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Câmara dos Deputados aprova projeto de lei que regulamenta profissão de historiador

“Fazer história; ensinar história; revolver cinzas, umas já frias, outras ainda mornas: todas cinzas, resíduos inertes de existências destruídas.”

Lucien Febvre em Combates pela História

Tomei a liberdade de “surrupiar” a citação acima que minha namorada, companheira e também historiadora, Célia Regina, utilizou para divulgar a notícia da aprovação do projeto de lei de regulamentação da profissão de historiador.

Abaixo, segue comunicado na íntegra divulgado pela Associação Nacional dos Historiadores (ANPUH) à respeito da aprovação do projeto de lei que regulamenta a profissão do historiador.

CTASP da Câmara dos Deputados aprova o projeto de lei de regulamentação profissional dos historiadores.

Prezados (as) associados (as) e amigos (as),

Temos a satisfação de informar que a CTASP (Comissão de Trabalho, de Administração e de Serviço Público) da Câmara dos Deputados aprovou o nosso projeto de regulamentação profissional.

A CTASP aprovou por unanimidade o relatório do deputado Roberto Policarpo, que incorporou as emendas que nós havíamos acordado para aperfeiçoar o projeto original.

Trata-se apenas de uma etapa no caminho da aprovação final do projeto, que deverá ainda ser analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania – CCJC e pelo próprio Plenário da Câmara, porém, podemos ficar satisfeitos porque conquistamos uma importante vitória ontem.

A DIRETORIA DA ANPUH

Link para o relatório:http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=559424

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Publicidade infantil: a formação de consumidores precoces e a antecipação do fim da infância

Mestre em psicologia clínica pela PUC-RIO, Laís Fontenelle Pereira acaba de publicar um texto interessantíssimo tratando sobre a problemática formação de consumidores precoces através da publicidade infantil que, com o bombardeio de comerciais feitos sob medida a este público, acaba por inibir outras maneiras de socialização, contribuindo para que as crianças, historicamente vistas e tratadas como um vir a ser que precisavam ser preparadas para o mundo adulto, fossem elevadas pelo mercado ao status de consumidoras – antes mesmo de poderem exercer plenamente sua cidadania.

Abaixo, o Hum Historiador repercute a íntegra desse texto que, originalmente, foi publicado no portal Outras Palavras nessa última segunda-feira, dia 17 de março de 2014.

SOBRE CRIANÇAS E MENTES COLONIZADAS
por Laís Fontenelle | para o portal Outras Palavras

No dia 15 de março comemorou-se o Dia Internacional dos Direitos do Consumidor. Nessa mesma data, em 1962, o então presidente dos EUA, John F. Kennedy, enviou uma mensagem ao congresso norte-americano chamando atenção da sociedade para garantias básicas, até então pouco conhecidas e negligenciadas como o direito de proteção contra propagandas e embalagens fraudulentas, o direito de escolha e informação frente aos produtos e o direito de ser ouvido.

A mensagem deixava evidente a urgência da questão. Porém, a primeira comemoração da data se deu em 1983, e foi somente dois anos depois que a ONU reconheceu os direitos dos consumidores, legitimando internacionalmente a causa. Já no Brasil, o Código de Defesa do Consumidor, um dos mais completos e ousados do mundo, entrou em vigência em 1990, dois anos após a promulgação da atual Constituição Federal, e pode ser visto como resposta do poder público aos anseios da sociedade civil em relação aos avanços desgovernados da sociedade de consumo.

Curiosamente, é também dos anos 90 que muitos autores datam a crise conceitual da infância, pois foi quando as crianças, historicamente vistas e tratadas como um vir a ser que precisavam ser preparadas para o mundo adulto, foram elevadas pelo mercado ao status de consumidoras – antes mesmo de poderem exercer plenamente sua cidadania. Tidas até então como filhas de cliente, as crianças passaram a ser consideradas como consumidoras finais, tornando-se um alvo importante do mercado de consumo de produtos e serviços – um potencial nicho comercial.

Foi nesse contexto que a publicidade dirigida às crianças entrou em cena com grande força. Passou a endereçar ao público infantil mensagens de apelo ao consumo, que se aproveitam da vulnerabilidade infantil para vender. Tornou-se, segundo pesquisa da Intersciense, de 2003, a principal influência de compras dos produtos infantis com embalagens e personagens famosos. Hoje, contudo, a publicidade não endereça às crianças somente mensagens de produtos infantis, mas também de objetos adultos. Isso deve-se ao fato deste público estar sendo encarado pelo mercado como porta de entrada para a influência nos hábitos de consumo de toda a família.

Dados mundiais a esse respeito apontam que a influência das crianças nas compras realizadas pela família chega a 80% em relação a tudo o que é consumido, inclusive em relação a bens e serviços de interesse exclusivo dos adultos, como, por exemplo, marcas de automóvel, imóveis, produtos de limpeza etc. No Brasil, só a moda infanto-juvenil movimenta a soma anual de R$10 bilhões, o que corresponde a um terço de toda a roupa consumida no país.

A partir desses dados podemos dizer que o mercado enxergou nas crianças uma rentável fonte de lucros, já que quanto mais cedo você fideliza a criança a uma marca, mais chances tem dela ser fiel à mesma do berço ao túmulo, como dizem os publicitários. Assim, aproveitando-se da fragilidade e vulnerabilidade infantil, o mercado passou, então, não somente a atrair os olhares das crianças, como a dirigir-se diretamente a elas com peças publicitárias feitas “sob medida”.

Não foi à toa, portanto, que o Código de Defesa do Consumidor Brasileiro previu proteger as crianças de apelos de consumo, instituindo no Art. 37: “É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva (…)”, e explicando no seu parágrafo§2º que “É abusiva, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeite valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança. (…)”.

As crianças são convidadas pela publicidade – que lhes é ilegalmente dirigida – a ingressar cada vez mais cedo no complexo mundo adulto do consumo. A lógica do consumo domina as relações infantis e acaba restringindo a criatividade e as trocas afetivas das crianças, além de queimar etapas importantíssimas do seu desenvolvimento.

A criança será, em função do tempo em que vivemos, uma consumidora no futuro. Logo, além de protegê-la legalmente da comunicação mercadológica, como já fizeram 28 países do mundo, incluindo os dez com melhor qualidade de vida –,precisamos prepará-la para que seja uma cidadã e consumidora consciente e responsável. Isso é feito com Educação, principal ferramenta no processo de transformação social. Lembre-se: educar, assim como consumir, é um ato político.

Precisamos começar a educar nossas crianças para que tenham responsabilidade ao comprar. O direito à educação para um consumo consciente é não só um desafio, como também a solução para os problemas morais e ambientais de nossos tempos.

O principal direito das crianças é o direito à infância. Pensemos no direito de escolha e de proteção de nossas crianças frente ao bombardeio publicitário que as convida a tornar-se adultas antes do tempo. Elas são o prefácio para um mundo mais ético e sustentável, e têm nas mãos o poder de reinventar as relações de consumo. Tudo depende de vontade política e atuação conjunta em duas frentes: regulação e educação.


Laís Fontenelle Pereira é mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e autora de livros infantis e especialista no tema Criança, Consumo e Mídia. Ativista pelos direitos da criança frente às relações de consumo, é consultora do Instituto Alana, onde coordenou durante 6 anos as áreas de Educação e Pesquisa do Projeto Criança e Consumo.

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Paris adota TARIFA ZERO por três dias como medida de saúde pública

O governo francês anunciou que vai adotar a TARIFA ZERO no transporte público da cidade de Paris em razão da poluição.

Torre Eifel é fotografada em meio à poluição de Paris. Foto: AP Photo/Jacques Brinon

Segundo notícia divulgada pela revista Época, a medida do governo francês de não cobrar tarifa do transporte público por três dias, busca estimular os franceses a deixarem seus carros na garagem. Deste modo, desde a última sexta-feira (14) até hoje (16), metrôs, ônibus e trens são gratuitos na região de Paris e nas cidades de Caen e Rouen.

Para Bruno Calixto, autor de post intitulado A poluição do ar de Paris é mais chique publicado no Blog do Planeta, esta é uma decisão que não deve ser comemorada, como ocorreu nas redes sociais durante a semana, por tratar-se de uma medida emergencial de combate à poluição e não de uma política ambiental de fato. Ao comparar as reações da opinião pública através das redes sociais em relação às crises de qualidade do ar na China e na França, Calixto questiona a razão do tratamento dos dois casos ser tão diferente, argumentando que, no caso chinês, ao invés de louvar as medidas adotadas pelo governo, normalmente relatam-se os problemas de saúde decorrentes da poluição e as restrições vividas diariamente pela população atingida por este grave problema. Assim, ironicamente, o autor conclui que provavelmente a diferença de tratamento dado pelas redes sociais às medidas adotadas pelos governos chinês e francês para mitigar o problema da poluição do ar nesses países, deve-se provavelmente ao fato da poluição do ar parisiense ser mais chique do que o das cidades chinesas, conforme já indicava o título do post.

Ora, embora Bruno Calixto não tenha mencionado em seu texto, as reações de apoio às medidas adotadas pelo governo chinês podem não ter repercutido nas redes sociais com o mesmo vigor da medida francesa, pois não se teve notícias de que uma cidade tão relevante para a economia chinesa como Beijing ou Xangai, por exemplo, tenha liberado a tarifa de seus transportes público, tal como ocorreu com Paris nessa semana. De modo que a comparação feita por Calixto fica totalmente comprometida por não estar tratando de medidas compatíveis (como comparar proibição de fazer churrasco ao ar livre com a liberação da tarifa no transporte público)?

Entendo que, embora a medida seja emergencial e temporária, ela deve sim ser comemorada. Em primeiro lugar, porque trata-se de uma oportunidade para que a população tenha a experiência de se locomover livremente pela cidade, tendo acesso a qualquer ponto da urbe sem pagar nada a mais por isso além dos impostos já recolhidos. Em segundo lugar, pois não há notícias de que uma cidade tão grande e importante como Paris, ainda que de modo emergencial, tenha decidido liberar o pagamento das tarifas do transporte público e, portanto, trata-se de uma experiência que pode ser marcante para as lutas travadas pela população daquela cidade num futuro próximo, justamente por suscitar questionamentos sobre a real necessidade da cobrança dessas tarifas: a quem as tarifas do transporte atendem? No que elas nos limitam? Que tipo de problemas sociais elas podem causar?

Em nota divulgada nas redes sociais, o Movimento Passe Livre-RJ lembra bem que os reais motivos pelos quais a TARIFA ZERO não seja implementada mundialmente não são de ordem técnica, mas essencialmente políticos e econômicos. Destaque, por exemplo, para o interesses no favorecimento de empresários para a manutenção de uma população controlada e restrita em seu direito de ir. Interesses esses que, muito mais do que a solução para o atual caos urbano em que vivemos, privilegiam o domínio do automóvel particular sobre o transporte coletivo, aumentando não só a poluição do ar, como vinhamos falando, mas gerando um trânsito caótico e, sobretudo, não atendendo a população em suas necessidades mais básicas: locomoção. Nesse sentido, o do desserviço à população, vale destacar que uma das estratégias dos empresários do transporte público para terem mais pagantes por ônibus ou trem, é reduzir as frotas e a qualidade do serviço prestado. Além disso, a manutenção das tarifas no transporte público também podem ser responsabilizadas por diversos problemas sociais vivenciados pelos cidadãos, como o aumento do desemprego e a segregação sócio-espacial, culminando com o favorecimento da intensificação da violência policial como controle social e à violência urbana decorrente dela.

Enfim, diferentemente do que defendeu Bruno Calixto em sue post, entendo que apenas por suscitar tais questionamentos e um debate mais amplo sobre as reais necessidades de se manter a cobrança das tarifas no transporte público, a medida tomada pelo governo francês na suspensão dessas tarifas, ainda que de modo temporário, deve, sim, ser comemorada e servir de estímulo para que a população perceba cada vez mais a falta de necessidade da cobrança dessas tarifas e lute para a revogação total delas o quanto antes.

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O Gabinete Topográfico de São Paulo (1835-1849)

Revista da SBHCGostaria de compartilhar com os leitores do blog um artigo de minha autoria que acaba de ser publicado na edição mais receite da Revista Brasileira de História da Ciência (2013 – Volume 6 – No. 2).

Trata-se de um subcapítulo de minha dissertação de mestrado que traz a reconstituição da trajetória do Gabinete Topográfico de São Paulo, uma repartição de obras públicas da então província de São Paulo, criada por lei provincial de 1835, que continha anexo a ela uma escola destinada a formar engenheiros práticos para dirigirem as diversas obras públicas provinciais, em especial, a construção e manutenção das estradas visando comunicar o interior da província ao porto de Santos para escoamento da produção destinada a exportação.

Com a escola funcionando a partir de 1836, o Gabinete Topográfico acabou desempenhando um papel relevante na transição da engenharia militar para a engenharia civil em São Paulo, uma vez que boa parte dos alunos formados por esta instituição eram civis e, na segunda metade do século XIX, foram contratados pela administração provincial para coordenarem a construção e/ou manutenção de pontes e estradas como engenheiros civis. Além disso, cabe lembrar que a primeira escola superior de engenharia de São Paulo com currículo separado para a formação de engenheiros civis, foi a Escola Politécnica, inaugurada apenas no final do século, em 1894. De modo que, nas primeiras décadas dos Oitocentos, a formação de engenheiros, tanto em Portugal quanto no Brasil (a partir de 1822), ainda se dava dentro das instituições militares, como a academia fundada por D. João VI, em 1810, a Academia Militar do Rio de Janeiro.

O texto relaciona-se com o tema de pesquisa de minha dissertação na medida em que o Gabinete Topográfico, assim como a estatística (1838) e o mapa provincial (1841) que estudo, também teve sua criação determinada por uma lei promulgada em 1835, durante a primeira legislatura (1835-1837) que assumiu a Assembleia Legislativa da Província de São Paulo, que acabara de ser instituída pelo Ato Adicional de 1834. Além disso, um dos principais responsáveis pela organização do Gabinete Topográfico foi justamente o engenheiro militar luso-brasileiro Daniel Pedro Müller (1785-1841), principal personagem estudado em minha dissertação.

Meu objetivo com este artigo é, portanto, demonstrar que a criação do Gabinete Topográfico, assim como a estatística e o mapa, foi parte de uma política levada adiante pela elite paulista, em um contexto de relativa autonomia política e tributária conquistada através das reformas liberais que culminaram com o Ato Adicional, para ser um instrumento de governo da administração provincial visando a formação de quadros aptos ao trabalho nas obras públicas, especialmente na construção e conservação de estradas provinciais.

Antes de concluir esse post, gostaria de deixar meu agradecimento à minha orientadora, a historiadora Prof. Dra. Iris Kantor, que desde o começo acreditou em minha ideia e ajudou no desenvolvimento de minha dissertação.

Abaixo, deixo o resumo do artigo publicado na Revista e, para quem tiver interesse, também o link para o download do artigo completo em PDF.

RESUMO

Este artigo reconstitui a história do Gabinete Topográfico de São Paulo no âmbito da criação das Assembleias Legislativas Provinciais, em 1835. A partir da análise da legislação provincial, de ofícios de agentes das diferentes administrações e também dos discursos dos presidentes da província, pretende-se demonstrar como o Gabinete Topográfico, primeira escola a conceder cartas de engenheiros construtores de estrada na província, foi projetado pela elite política paulista para ser um instrumento de governo da administração provincial na medida em que seu principal objetivo era formar quadros aptos ao trabalho nas obras públicas, especialmente na construção e conservação de estradas provinciais.

PALAVRAS-CHAVE

Gabinete topográfico | Escolas de engenharia | Estradas | São Paulo | Brasil imperial

DOWNLOAD EM FORMATO PDF

O Gabinete Topográfico de São Paulo: a formação de engenheiros construtores de estradas como instrumento de governo da província de São Paulo (1835-1849)

PARA SABER MAIS

Para saber maiores detalhes à respeito da pesquisa de mestrado que venho conduzindo, consulte a página MESTRADO deste blog.

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A última floresta e brejos nativos do Rio Pinheiros estão condenados a virar concreto em frente ao Parque Burle Marx no Panamby

Repercutindo post publicado por Ricardo Cardim no blog ÁRVORES DE SÃO PAULO.

Vista da área em frente ao Parque Burle Marx

Vista da área em frente ao Parque Burle Marx – restos de um Rio Pinheiros que já teve curvas sinuosas, brejos e muita biodiversidade

Aquilo que na verdade todo paulistano frequentador do Parque Burle Marx, no Panamby – Zona Sul, pensava que era um pedaço do querido parque repleto de Mata Atlântica não passava infelizmente de uma farsa. A área com 5000 árvores é privada e não tem nada a ver legalmente com o parque… Mais uma pegadinha para o já tão sofrido verde e qualidade de vida da metrópole. E a sentença de morte da área já parece que está anunciada com a intenção de se construir ali mais algumas torres e shopping.

Área que está sendo ameaçada de desaparecer junto com sua raríssima fauna e flora

Dentro do tracejado amarelo, a área que está sendo ameaçada de desaparecer junto com sua raríssima fauna e flora

O absurdo dos absurdos em qualquer país civilizado. A convite do advogado Roberto Delmanto,  que representa três associações de moradores da região, visitamos a área e elaboramos um laudo técnico sobre sua biodiversidade. O resultado foi totalmente surpreendente. Começou com a interessante mata ciliar (um tipo de Mata Atlântica que habita a beira dos rios, áreas alagáveis) repleta de espécies típicas das antigas margens do Rio Pinheiros quando ainda era selvagem, há cerca de 80 anos atrás. Exemplos são árvores como ingá, copaíba, jacatirão e figueira-brava.

Entre a mata, pequenos riachos cristalinos desembocavam em lagoas habitadas por peixinhos e pererecas, cercadas por brejos com plantas extintas na atual malha urbana, e tudo isso a poucos metros do poluído trânsito da  marginal pinheiros e o seu finado rio. Saindo dos brejos chega-se a um campo com várias espécies típicas dos ameaçados campos cerrados de São Paulo, como a rara língua de tucano mirim (Eryngium elegans). Em meio ao capim, assustada, uma marreca-caneleira sai de cima de seu ninho com 11 grandes ovos, pássaro aquático que já foi abundante no Rio Pinheiros. Realmente um pedaço do passado da maior metrópole brasileira, uma área que reúne diversas paisagens naturais desaparecidas pela nossa intensa urbanização.

Além de ser obviamente protegida pela legislação devido a condição do terreno com seus riachos e lagoas, nada pode autorizar legalmente ou justificar economicamente a destinação do local senão como parte do Parque Burle Marx.

Abaixo, a conclusão de nosso Laudo:

“A área avaliada contempla diversos elementos importantes da biodiversidade original da cidade de São Paulo. Entretanto, dentre esses elementos, um deles apresenta imenso valor ambiental e histórico para os paulistanos: os trechos remanescentes das várzeas e florestas inundáveis do Rio Pinheiros, únicos sobreviventes dessa formação ecológica tão dilapidada.

Preservar tal área, em sua totalidade, é de suma importância como patrimônio ambiental, cultural e histórico que constitui, e se nos espelharmos na imagem da personalidade que batizou o parque adjacente ao terreno, Roberto Burle Marx, defensor e divulgador incansável da nossa biodiversidade, torna-se ainda mais emblemático e necessário o seu tombamento e preservação para aproveitamento das atuais e futuras gerações de paulistanos.”

Ninho com 11 ovos que a marreca-caneleira está chocando na área

Ninho com 11 ovos que a marreca-caneleira está chocando na área

Desenho da marreca-caneleira, uma ave do tamanho de um pato doméstico. Fonte livro Fauna Silvestre

Desenho da marreca-caneleira, uma ave do tamanho de um pato doméstico. Fonte: livro Fauna Silvestre – Quem são e ondem vivem os animais na metrópole paulistana

Brejo natural em frente a Marginal do rio Pinheiros,  próximo aonde foi encontrado ninho.

Brejo natural em frente a Marginal do rio Pinheiros, próximo aonde foi encontrado ninho e deve ser fonte de alimento da marreca.

Riacho com água cristalina e peixinhos ao lado do morto Rio Pinheiros

Riacho com água cristalina e peixinhos ao lado do morto Rio Pinheiros

Lagoa com pererecas e peixes que parece ter saído de uma São Paulo de 200 anos atrás.

Lagoa com pererecas e peixes que parece ter saído de uma São Paulo de 200 anos atrás.

Uma surpresa: orquídea nativa das antigas florestas do Rio Pinheiros. A árvore onde ela está já tem uma demarcação com um número suspeito.

Uma surpresa: orquídea nativa sobrevivente das antigas florestas do Rio Pinheiros. A árvore onde ela está já tem uma demarcação com um número suspeito.

Uma imponente figueira-brava da Mata Atlântica, uma Ficus organensis, da mesma espécie da Figueira-das-Lágrimas e da Figueira do Largo da Memória

Uma imponente figueira-brava da Mata Atlântica, uma Ficus organensis, da mesma espécie das emblemáticas Figueira-das-Lágrimas e Figueira do Largo da Memória

língua-de-tucano-mirim (Eyngium elegans) em frente ao Parque Panamby

língua-de-tucano-mirim (Eyngium elegans) em frente ao Parque Burle Marx – planta rara típica dos antigos “Campos de Piratininga”

arbusto frutífero dos campos cerrados, a pixirica (Leandra lacunosa)

Um antigo sabor esquecido dos campos cerrados, o arbusto frutífero conhecido como pixirica (Leandra lacunosa)

Assim eram as amrgens dos rios paulistanos antes de serem sepultados sob o asfalto.

Assim eram as margens dos rios paulistanos antes de serem sepultados sob o asfalto. Só sobrou ali, nesse pequeno terreno em frente ao Parque Burle Marx, Panamby, que agora pode virar um shopping

EMPREENDIMENTOS AMEAÇAM EMPAREDAR PARQUE BURLE MARX E CORTAR 5 MIL ÁRVORES
por Bruno Ribeiro e Diego Zanchetta para O Estado de S. Paulo

A última reserva de Mata Atlântica às margens do Rio Pinheiros, na zona sul de São Paulo, está marcada para morrer. São cerca de 5 mil árvores, numeradas uma a uma, com placas de ferro, em uma área de proteção ambiental de 717 mil metros quadrados, vizinha do Parque Burle Marx, no Panamby.

Um dos terrenos com mata fechada ainda abriga cursos d’água e espécies raras de árvores, algumas com mais de 50 anos. Segundo representação feita por moradores da região ao Ministério Público Estadual (MPE), esse respiro verde vai dar lugar a dois empreendimentos com 16 torres, criando um paredão ao redor do parque, tombado pelo patrimônio histórico desde 1994.

O promotor do Meio Ambiente José Roberto Rochel instaurou inquérito civil para apurar denúncia de que o desmatamento teve início no mês passado. A área pertencia ao Fundo Imobiliário Panamby, gerido pelo Banco Brascan, e foi fatiada em duas partes: uma delas foi vendida para a Cyrela e outra para a Camargo Corrêa.

Um alvará para nova construção na parte do terreno que pertence à Camargo Corrêa já tramita na Prefeitura. Em julho de 2013, o governo indeferiu um pedido para obras na área, mas a empresa continua tentando obter a licença.

As duas incorporadoras confirmam a intenção de ocupar os terrenos, mas garantem que vão respeitar a legislação ambiental.

Os terrenos estão em área inundável de várzea e eram parte da bacia do Rio Pinheiros. Os registros do Departamento de Áreas Verdes (Depave) da Prefeitura apontam os terrenos como de proteção permanente. Mesmo assim, em 2003 o governo municipal concedeu uma autorização para a edificação da área. No caso da Camargo Corrêa, são necessárias ainda as licenças ambientais para o início do desmatamento.

A Cyrela ainda não fez o pedido de licença para construção no terreno que fica bem na frente do Parque Burle Marx. Mas moradores vizinhos da área relatam ao MPE, com fotos e vídeos, um suposto desmatamento que teria sido iniciado em fevereiro pela empresa Agrotexas Ambiental, que nega a acusação.

Roberto Delmanto, advogado que representa três associações de moradores da região e morador do Panamby, conseguiu fotos e plantas do megaempreendimento planejado na área – seriam torres e também um shopping center.

“Quem entra na floresta do terreno observa claramente que estão abrindo clareiras, para tentar descaracterizar a Mata Atlântica. Isso é uma prática comum do mercado antes de fazer o pedido de licença. Aí, quando vier alguém da Prefeitura fazer o laudo das espécies, vão ver bem menos árvores”, afirma o advogado.

Para saber mais leia a íntegra da matéria que saiu no Jornal O Estado de S. Paulo de domingo (09):

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