O capitalismo global está destruindo a raça humana

Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já enfrentou. Ele levou a ganância a um patamar de força determinante da história.

Paul Craig Roberts, presidente do Instituto for Political Economy.

A frase acima não foi escrita por nenhum comunista ou “esquerdista”, como muitos gostam de chamar aqueles que escrevem contra o capitalismo, mas por Paul Craig Roberts, presidente do Institute for Political Economy e um republicano que, durante os anos 1980, trabalhou para a administração Reagan como Secretário Adjunto do Tesouro para Política Econômica, tendo também servido posteriormente ao governo estadunidense como consultor para os ministérios da defesa e do comércio.

O texto de onde essa frase foi tirada, foi publicado originalmente como artigo no site pessoal de Roberts (fev.2014) e, após ter sido traduzido por Louise Antônia León, foi republicado no Brasil pela revista Carta Maior (mar.2014).

Dentre outros pontos levantados por Roberts em seu artigo, chama atenção a passagem na qual cita Ralph Gomory e a problemática da substituição da mão-de-obra humana pela robótica. Digno das visões distópicas de alguns escritores de ficção científica, Craig Roberts aponta que se o desenvolvimento da tecnologia financiada pelo capitalismo global avançar no caminho que está trilhando, os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos sem que haja qualquer remorso quanto a destruição dos humanos desnecessários. Nesse cenário, por enquanto, sci-fi, diante da pequena demanda por trabalho humano, pode-se prever que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs. Não estamos tão distante assim como se pode pensar, pois como conclui seu artigo, os capitalistas já declaram em seus encontros de cúpula que “há bastante gente no mundo”.

Paul Craig Roberts também toca em outro assunto bastante importante que é o fracasso total da economia de livre mercado, em que “capitalistas, com a aprovação da corrupta Suprema Corte dos EUA, podem comprar o governo, que os representa, e não o eleitorado. Assim, a tributação e o poder de criação de dinheiro do governo são usados para bancar poucas instituições financeiras às custas do resto do país. É isso o que significa “mercados autorregulados””.

Aliás, o próprio Roberts é autor de livro intitulado The failure of laissez faire capitalism, no qual detalha melhor as razões que levaram ao fracasso desse capitalismo de livre mercado.

Abaixo, o Hum Historiador repercute a íntegra do texto de Paul Craig Roberts, tal como publicado na revista Carta Maior, com o objetivo de promover a reflexão sobre as consequências do capitalismo global não apenas para a organização de nossa sociedade, mas também, para a continuação de nossa espécie nesse planeta.

O CAPITALISMO GLOBAL ESTÁ DESTRUINDO A RAÇA HUMANA
por Paul Craig Roberts | publicado na revista Carta Maior em 14.mar.2014

A teoria econômica ensina que os movimentos financeiros a preços e lucros livres garantem que o capitalismo produz o maior bem-estar para o maior número de pessoas. Perdas indicam atividade econômica em que os custos excedem o valor da produção, de modo que investimentos nestas áreas devem ser restritos. Lucros indicam atividades em que o valor de produção excede o custo, que fazem o investimento crescer. Os preços indicam a escassez relativa e o valor das entradas e saídas, servindo assim para organizar a produção mais eficientemente.

Essa teoria não é o que funciona quando o governo dos EUA socializa custos e privatiza lucros, como vem sendo feito com o apoio do Banco Central aos bancos “grandes demais para quebrarem” e quando um punhado de instituições financeiras concentram tamanha atividade econômica. Bancos “privados” subsidiados não são diferentes das outrora publicamente subsidiadas indústrias da Grã Bretanha, França, Itália e dos países então países comunistas. Os bancos impuseram os custos de sua incompetência, ganância e corrupção sobre os contribuintes.

Na verdade, as empresas socializadas na Inglaterra e na França eram dirigidas mais eficientemente, e nunca ameaçavam as economias nacionais, menos ainda o mundo inteiro de ruína, como os bancos privados dos EUA, os “grande demais para quebrar” o fazem.  Os ingleses, franceses e os comunistas nunca tiveram 1 bilhão de dólares anuais, para salvar um punhado de empresas financeiras corruptas e incompetentes.

Isso só ocorre no “capitalismo de livre mercado”, em que capitalistas, com a aprovação da corrupta Suprema Corte dos EUA, pode comprar o governo, que os representa, e não o eleitorado. Assim, a tributação e o poder de criação de dinheiro do governo são usados para bancar poucas instituições financeiras às custas do resto do país. É isso o que significa “mercados autorregulados”.

Há muitos anos, Ralph Gomory alertou que os danos para os trabalhadores estadunidenses dos empregos no exterior seria superado pela robótica. Gomory me disse que a propriedade de patentes tecnológicas é altamente concentrada e que as inovações tornaram os robôs cada vez mais humanos em suas capacidades. Consequentemente, a perspectiva para o emprego humano é sombria.

As palavras de Gomory reverberam em mim quando leio o informe da RT, de 15 de fevereiro último (Russia Today), com especialistas de Harvard que construíram máquinas móveis programadas com termos lógicos de auto-organização e capazes de executarem tarefas complexas sem direção central ou controle remoto.

A RT não entende as implicações. Em vez de levantar uma bandeira vermelha, a RT se entusiasma:

“as possibilidades são vastas. As máquinas podem ser feitas para construir qualquer estrutura tri-dimensional por si sós, e com mínima instrução. Mas o que é realmente impressionante é a sua capacidade de adaptação ao seu ambiente de trabalho e a cada um deles; para calcular perdas, reorganizar esforços e fazer ajustes. Já está claro que o desenvolvimento fará maravilhas para a humanidade no espaço, e em lugares de difícil acesso e em outras situações difíceis”.

Do modo como o mundo está organizado, sob poucos e imensamente poderosos e gananciosos interesses privados, a tecnologia nada fará pela humanidade. A tecnologia significa que os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e que os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos e não há qualquer remorso quanto a destruir os humanos que os desenvolveram. O quadro que emerge é mais ameaçador que as previsões de Alex Jones. Diante da pequena demanda por trabalho humano, muito poucos pensadores preveem que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs. Se essa história ainda não foi escrita como ficção científica, alguém deveria se dedicar a fazê-lo, antes que se torne algo comum da realidade.

Os cientistas de Harvard estão orgulhosos de sua conquista, assim como sem dúvida estavam os participantes do Projeto Manhattan, em relação à conquista por terem produzido uma arma nuclear. Mas o sucesso dos cientistas do Projeto Manhattan não foi muito bom para os residentes de Hiroshima e Nagasaki, e a perspectiva de uma guerra nuclear continua a lançar uma nuvem negra sobre o mundo.

A tecnologia de Harvard provará que é inimiga da raça humana. Esse resultado não é necessário, mas os ideólogos do livre mercado pensam que qualquer planejamento ou antecipação é uma interferência no mercado, que sempre sabe melhor (daí a atual crise financeira e econômica). A ideologia do livre mercado alia-se ao controle social e serve a interesses de curto prazo de gananciosos grupos privados. Em vez de ser usada para a humanidade, a tecnologia será usada para o lucro de um punhado.

Essa é a intenção, mas qual é a realidade? Como pode haver uma economia de consumo se não há emprego? Não pode, que é o que estamos aprendendo gradativamente com a exportação de empregos pelas corporações globais, para o exterior. Por um período limitado uma economia pode continuar a funcionar na base de empregos de meio turno, rebaixamento de salários, cartões de benefícios sociais – de segurança alimentar e auxílio-desemprego (ver esse post de Hum Historiador).

Quando a poupança cai, no entanto, quando os políticos sem coração que demonizam os pobres cortam esses benefícios, a economia deixa de produzir mercado para consumir os bens importados que as corporações trazem para vender.

Aqui vemos o fracasso total da mão invisível de Adam Smith. Cada corporação em busca de vantagens gerenciais maiores, determinadas pelos lucros obtidos em parte pela produção da destruição do mercado consumidor dos EUA e da miséria maior de todos.

A economia smithiana aplica-se a economias nas quais os capitalistas têm algum sentido de vida comum com outros cidadãos do país, como o tinha Henry Ford.

Algum tipo de pertencimento a um país ou a uma cidade. A globalização destrói esse sentido. O capitalismo evoluiu ao ponto em que os interesses econômicos mais poderosos, os interesses que controlam o próprio governo, não têm sentido de obrigação com o país nos quais seus negócios estão registrados. Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já teve diante de si.

O capitalismo internacional levou a ganância a um patamar de força determinante da história. O capitalismo desregulado e dirigido pela ganância está destruindo as perspectivas de emprego no mundo desenvolvido e no mundo em desenvolvimento, cujas agriculturas se tornaram monoculturas para exportação a serviço dos capitalistas globais, para alimentarem a si mesmos. Quando vier a quebradeira, os capitalistas deixarão “a outra” humanidade à míngua.

Enquanto isso, os capitalistas declaram, em seus encontros de cúpula, “que há muita gente no mundo”.


(*) Diretor do Institute for Political EconomyVersão original do artigo aqui.

(**) Tradução: Louise Antônia León

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9 Comentários

Arquivado em Economia

9 Respostas para “O capitalismo global está destruindo a raça humana

  1. Pingback: A Sociedade Industrial e o futuro da humanidade | Hum Historiador

  2. Bandler

    Em seu livro “The Failure of Laissez Faire Capitalism” o Paul Craig Roberts cita como possíveis causas de alguns problemas a interferência econômica na forma de: subsídios, protecionismo e outros. Ora, isso já é mencionado pelo liberalismo, principalmente da escola austríaca, como sendo corruptível para o próprio mercado e sociedade.

    Mais explicações detalhadas aqui: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1876

  3. Ora, caro Bandler, incrível seria se um membro da administração Reagan tivesse defendido o oposto. Por um lado, postei o texto dele aqui no blog por conta justamente de ver um ex-membro da administração Reagan fazendo um ataque bastante forte à maneira como ele próprio, em companhia dos coleguinhas da administração do presidente-ator, começaram a montar o sistema financeiro que aí está, contribuindo para o atual modelo do capitalismo global (que, aliado ao Estado, provocou aquele que deve ter sido o maior assalto ao dinheiro público já registrado nos anais da História, e tudo para salvar as corporations, revelando a indecente farra das instituições financeiras estadunidenses garantidas pela incrível falta de regulação do mercado e resgatadas com o dinheiro do contribuinte daquele país).

    Por outro lado, e isso foi o mais importante para que eu fizesse esse post, meu interesse recaía sobre o trecho onde ele analisa o impacto da tecnologia/robótica não só para os empregos dos estadunidenses (e do resto do mundo), mas para a existência da própria humanidade. De modo mais preciso, o fato dele revelar explicitamente as intenções dos mais ricos (que ele conhece profundamente, por viver com eles) em relação ao restante da humanidade no caso dos cientistas desenvolverem uma maneira de substituir vantajosamente a exploração da força de trabalho humana, por outra (no caso, robótica). E aqui está o lado lúgubre, o lado sombrio desse post. Abaixo destaco um dos parágrafos que revela exatamente como Paul Craig Roberts vê a maneira como pensam seus iguais:

    “Do modo como o mundo está organizado, sob poucos e imensamente poderosos e gananciosos interesses privados, a tecnologia nada fará pela humanidade. A tecnologia significa que os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e que os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos e não há qualquer remorso quanto a destruir os humanos que os desenvolveram. O quadro que emerge é mais ameaçador que as previsões de Alex Jones. Diante da pequena demanda por trabalho humano, muito poucos pensadores preveem que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs.”

    Craig Roberts fala, de modo bastante explícito, como pensam os “donos do mundo”. Do alto de sua experiência nos diz que se não fosse pelo interesse dos grupos dominantes sobre a exploração da força de trabalho do resto da humanidade, esta seria totalmente dispensável. Evidente que não há novidade nisso, uma vez que Marx já revelava o funcionamento da sociedade capitalista tal como ela estava organizada desde o século XIX. No entanto, achei bastante útil de ser explorado pela raridade de tais afirmações virem justamente de um dos membros dessa elite desalmada.

    Não sei se você teve o interesse de ler o artigo retirado do site dele e que foi publicado aqui, ou ainda, se leu o livro dele (com o qual discordo quase que integralmente), mas se não o fez, recomendaria fortemente. Não estou discutindo aqui as “possíveis causas de ALGUNS problemas” do capitalismo, como você tentou minimizar em seu comentário, apenas para atacar os “subsídios e protecionismo”, revelando uma leitura bastante pobre do que aqui foi exposto. O objeto da discussão me parece um tanto quanto mais amplo e preocupante…

    Att.

    RB

  4. André

    O capitalismo está aí a anos, e nesse sistema há a possibilidade de sua manutenção com a finalidade de melhoria. No capitalismo existe essa possibilidade, se as pessoas tomarem consciência da responsabilidade individual de cada um e deixarem de ser menos dependentes do governo.
    Já o socialismo/comunismo, o dito sistema alternativo, foi posto a prova e não deu certo em lugar algum. Só proporcionou desgraça social e privações dos direitos individuais. Sem contar que é uma ideologia genocida.

    • Mas que senso comum mais desmotivante, não é meu caro André?

      • André

        Senso comum está surgindo desse pessoal que está achado que o socialismo/comunismo é a salvação para as crises sociais.
        Posso até estar indo pelo senso comum, mas querer simplesmente ser do contra e se apegar a algo nocivo, na esperança de que os males do passado não se repitam, por que na teoria a ideia é “generosa”, é querer chegar a sete somando 1 + 1.
        São os fatos e a lógica da qual não se pode e nem se deve fugir.
        Se há alguma insatisfação no sistema que está ai, sou totalmente a favor que se discuta formas de melhorias para que cada um responda por suas atitudes. Afinal, se estivesse falindo, a revolta seria geral. É o que acontece na Venezuela e outros países que aderiram a ideologias “generosas”; revolta.
        Claro, tudo isso com a conscientização de TODO e não induzindo politicamente as pessoas e se aproveitando das emoções das massa. Colocando uma contra as outras, incitando o ódio, segregando e responsabilizando outros pelos males que as assolam. Como diz o senso comum: ninguém está nessa vida a passeio. Afinal isso seria leviano. As leis que trazem a luz os direitos e deveres estão ai. Resta o governo incentivar essa tomada de consciência. E estarem apostos para que se cumpra a lei.
        Mas não se pode conversar com marxistas. Pra eles, ou você é a favor ou é do cotra. Se do contra, deve ser ignorado e calado. Para Marx, a vida é uma bunda; só tem dois lados.

      • Caro André,

        Diante de tudo isto que você postou, gostaria apenas de sugerir-lhe a leitura de uma única notícia, divulgada recentemente no caderno de economia da Folha e repercutida no portal do UOL, cuja manchete foi: Riqueza de 1% deve ultrapassar a dos outros 99% no mundo até 2016, diz ONG.

        FONTE: http://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2015/01/19/riqueza-de-1-deve-ultrapassar-a-dos-outros-99-ate-2016-alerta-ong.htm

        Daí eu lhe pergunto e convido a reflexao: o capitalismo funciona pra quem, colega?

        Att.

        RB

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