A Sociedade Industrial e o futuro da humanidade

O que pensar quando somos testemunhas de uma época na qual um economista, ex-membro da administração Reagan e ex-consultor do Ministério da Defesa dos Estados Unidos, afirma que “o Capitalismo Global está destruindo a raça humana”? Mais ainda, como não estranhar que tenha partido de um indivíduo com esse histórico uma frase como essa: “Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já enfrentou. Ele levou a ganância a um patamar de força determinante da história“?

É justamente esse estranhamento que me faz retornar ao tema levantado no post anterior, no qual vimos o republicano Paul Craig Roberts fazendo tais afirmações. Quero voltar, mais especificamente, a um ponto abordado pelo artigo, que é a substituição da mão-de-obra humana pela robótica, na qual Roberts afirma que seus temores quanto a esse tema teriam partido da leitura de Ralph E. Gomory – membro da divisão de pesquisas matemáticas da IBM, desde 1959, onde atingiu o posto de Diretor de Pesquisas, no qual após 18 anos de trabalho somente nesse cargo, aposentou-se em 1989.

Como vimos, ao comparar os atuais bancos “privados” subsidiados nos Estados Unidos às indústrias publicamente subsidiadas de outrora, na Grã Bretanha, França, Itália e países comunistas, Craig Roberts afirmou em seu artigo que:

“(…) as empresas socializadas na Inglaterra e na França eram dirigidas mais eficientemente, e nunca ameaçavam as economias nacionais, menos ainda o mundo inteiro de ruína, como os bancos privados dos EUA, os “grande demais para quebrar” o fazem.  Os ingleses, franceses e os comunistas nunca tiveram 1 bilhão de dólares anuais, para salvar um punhado de empresas financeiras corruptas e incompetentes.

Isso só ocorre no “capitalismo de livre mercado”, em que capitalistas, com a aprovação da corrupta Suprema Corte dos EUA, pode comprar o governo, que os representa, e não o eleitorado. Assim, a tributação e o poder de criação de dinheiro do governo são usados para bancar poucas instituições financeiras às custas do resto do país. É isso o que significa “mercados autorregulados”.

Há muitos anos, Ralph Gomory alertou que os danos para os trabalhadores estadunidenses dos empregos no exterior seria superado pela robótica. Gomory me disse que a propriedade de patentes tecnológicas é altamente concentrada e que as inovações tornaram os robôs cada vez mais humanos em suas capacidades. Consequentemente, a perspectiva para o emprego humano é sombria”.

Essa perspectiva sombria a qual se referiu Roberts, foi rapidamente descrita por ele mesmo da seguinte maneira:

“Do modo como o mundo está organizado, sob poucos e imensamente poderosos e gananciosos interesses privados, a tecnologia nada fará pela humanidade. A tecnologia significa que os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e que os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos e não há qualquer remorso quanto a destruir os humanos que os desenvolveram. O quadro que emerge é mais ameaçador que as previsões de Alex Jones. Diante da pequena demanda por trabalho humano, muito poucos pensadores preveem que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs”.

Bill Joy, fundador da Sun Microsystems.

Tal visão distópica do futuro não é uma novidade e já havia sido trazido à baila por Bill Joy em artigo intitulado “Por que o futuro não precisa de nós”, publicado na revista Wired em sua edição 8.04 (abril 2000). Nesse texto, o fundador da Sun Microsystems falava do seu temor no futuro da humanidade a partir do desenvolvimento de três novas tecnologias que, por conta de seu grande potencial de replicação descontrolada, poderiam por um fim à humanidade: são elas a genética, a nanotecnologia e a robótica (GNR).

Sem entrar no mérito da discussão sobre essas tecnologias em específico, gostaria de destacar que logo no princípio de seu texto, Joy chama atenção para a passagem de um trecho de um longo manifesto, publicado em 1995 conjuntamente pelo The New York Times e o Washington Post. Antes de revelar o nome do autor desse manifesto e do contexto no qual ele foi lançado, Joy sugere que façamos a leitura do mesmo com especial atenção para a argumentação utilizada pelo autor. Seguindo a proposta de Joy, transcrevi abaixo o trecho desse manifesto no intuito de evidenciar como as imagens do futuro distópico apresentada no artigo de Paul Craig Roberts estão, embora ele não tenha mencionado, bastante alinhada às ideias divulgadas por esse manifesto.

O NOVO DESAFIO DO LUDISMO [1]

Primeiro, suponhamos que os cientistas da computação tenham conseguido criar máquinas inteligentes que façam tudo melhor que os seres humanos. Nesse caso, é de prever que todo o trabalho será realizado por sistemas enormes e muito bem organizados constituído de máquinas e que nenhum esforço humano será necessário. Deve ocorrer uma de duas possibilidades: ou as máquinas devem ter a permissão para tomar todas as decisões sem supervisão humana ou, o controle humano sobre as maquinas será preservado.

Caso se permita que as máquinas tomem decisões, não podemos conjeturar sobre os resultados, pois é impossível adivinhar como elas se comportarão. Apenas ressaltamos que o destino da humanidade estará à mercê das máquinas. Pode-se argumentar que a humanidade nunca seria tola a ponto de confiar todo o poder às máquinas. Contudo, não estamos  confirmando nem que a humanidade daria voluntariamente o poder às máquinas, nem que as máquinas tomariam o poder intencionalmente. O que afirmamos é que a humanidade se deixaria levar facilmente a tal dependência das máquinas que não lhe restaria opção senão a de aceitar todas as decisões delas. À medida que a sociedade e todos os problemas que ela enfrenta se tornam cada vez mais complexos, e as máquinas cada vez mais inteligentes, as pessoas deixarão as máquinas tomarem mais decisões simplesmente porque as decisões delas terão melhores resultados que as tomadas pelos seres humanos. Talvez se chegue a um estágio em que as decisões necessárias para manter o sistema em funcionamento venham a ser tão complexas que os seres humanos não tenham inteligência suficiente para tomá-las. Neste estágio, as máquinas terão o controle total. As pessoas não poderão simplesmente desligá-las, porque estarão tão dependentes delas que desligá-las seria o mesmo que se suicidar.

Imagem retirada do filme Eu, Robô.

Imagem retirada do filme Eu, Robô.

Por outro lado, é possível que o domínio humano sobre as máquinas seja mantido. Neste caso, o homem comum poderá controlar certas máquinas suas, como o carro ou o computador, mas o controle sobre o vasto sistemas de máquinas estará nas mãos de uma pequena elite – assim como é hoje, mas com duas diferenças. Em razão das técnicas aprimoradas, a elite dominará ainda mais as massas; e, como o trabalho humano não será mais necessário, as massas serão supérfluas, um fardo inútil para o sistema. Se a elite for impiedosa, ela poderá simplesmente decidir exterminar o grosso da humanidade. Se for humana, poderá utilizar propaganda ou outras técnicas psicológicas ou biológicas para reduzir a taxa de natalidade, até que a maioria da humanidade desapareça, deixando o mundo para a elite. Ou, se for constituída de liberais generosos, a elite poderá assumir o papel de tutora bondosa do resto da humanidade. Fará questão de satisfazer as necessidades físicas de todos, de criar todas as crianças em boas condições psicológicas, de proporcionar um passatempo saudável para que todos se mantenham ocupados e de submeter a “tratamento” todos os que possam ficar insatisfeitos a fim de curar os seus “problemas”. Obviamente, a vida se tornará tão despropositada que as pessoas precisarão ser refeitas biológica ou psicologicamente, para retirar-lhes a necessidade de poder, ou para fazê-las “sublimar” o desejo de poder com algum passatempo inofensivo. Esses seres humanos refeitos poderão ser felizes em tal sociedade, mas com toda a certeza, não serão livres. Terão sido reduzidos à condição de animais domésticos.


Transcrição de trecho do manifesto “A Sociedade Industrial e o seu futuro”, de Theodore Kaczinsky, retirado de Por que o futuro não precisa de nós”, de Bill Joy, publicado em Glenn Yefeth (org). A pílula vermelha: questões de ciência, filosofia e religião em Matrix. São Paulo: Publifolha, 2003, pp. 216-252.

Theodore Kaczinsky ainda jovem. Fonte: Wikimedia

Theodore Kaczynski, também conhecido como Unabomber, é um matemático estadunidense condenado à prisão perpétua pela prática de terrorismo, na qual matou tês pessoas e feriu outras vinte e três em uma série de atentados a bomba entre 1978 e 1995. Neste ano, enviou uma carta coagindo os jornais The New York Times e Washington Post a publicarem o manifesto “A Sociedade Industrial e o seu futuro”, no qual argumentou que seus atentados foram extremos, mas necessários para atrair a atenção para a erosão da liberdade humana exigido pelas tecnologias modernas que exigem organização em larga escala.

Para quem nunca (ou pouco) tinha pensado sobre o assunto, o cinema pode ser útil para que se tenha algumas percepções do quanto esse futuro distópico do qual se está falando está distante ou não. Muitos filmes trabalharam a questão da extinção da humanidade pelo desenvolvimento da tecnologia robótica, como os casos das franquias Exterminador do Futuro e Matrix, ou ainda, a versão para as telonas de Eu, Robô, por exemplo; outros tantos optaram por retratar, se não o fim dos tempos, uma importante mudança na forma de vida e organização da sociedade através do desenvolvimento da engenharia genética, como os casos de Gattaca, O Sexto Dia e A Ilha; poucos, no entanto, se enveredaram a trabalhar esse mesmo caminho através da nanotecnologia.  Portanto, diferentemente do que propôs Craig Roberts em seu artigo, a ficção científica (especialmente os livros) já tratam deste assunto há décadas.

Retornando à questão do início desse post, é realmente inquietante ver um republicano, ex-membro da administração Reagan, escrevendo artigos contra o capitalismo global e fazendo referências direta ao Manifesto do Unabomber (ainda que ele não tenha admitido). Por mais que saibamos que o indivíduo escreve em um contexto de crise econômica e para defender o poder do Estado que, diante do capitalismo global, perdeu muito espaço para as grandes corporações até mesmo nos Estados Unidos, é de se assustar, pois quando até mesmo os ratos, que tanto se fartaram do capitalismo, começam a abandonar o navio, é um sinal de que ele está realmente prestes a afundar. Adicione a isso os constantes avanços da tecnologia, especialmente nas áreas da robótica e engenharia genética e, como paranoia pouca é bobagem, também nos faz pensar as constantes mensagens dos grandes meios de comunicação de que o mundo não precisa de mais gente e de que já não é mais possível sustentar a vida no planeta da forma insana como estamos vivendo desde o começo do século XX. Obviamente, não sou ludita tanto quando Bill Joy, mas pensar nesse tema sempre me deixa preocupado e assustado com as perspectivas de futuro da humanidade. Mais ainda quando vejo homens como Paul Craig Roberts conjecturando o fim da “raça humana” por conta do desenvolvimento do capitalismo global. Mais temor ainda por estarmos sentado em um continente repleto de recursos que interessam enormemente essas grandes corporações. Talvez, esperar para ver o que vai ocorrer nos próximos anos já não seja mais uma opção. Diante de um cenário como esse, cabe pensar o que podemos fazer para evitar esse futuro distópico. Difícil missão, especialmente com oponentes tão poderosos.


[1] Ludismo, ou o movimento ludita, é o nome dado a um movimento ocorrido na Inglaterra entre os anos de 1811 e 1812, no qual trabalhadores das indústrias contrários aos avanços tecnológicos em curso, no contexto da primeira Revolução Industrial, protestavam contra a substituição da mão-de-obra humana por máquinas. O nome derivaria de um trabalhador chamado Ned Ludd, que teria quebrado as máquinas de seu patrão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • JOY, Bill. “Por que o futuro não precisa de nós”. In: YEFFETH, Glenn (org). A pílula vermelha: questões de ciência, filosofia e religião em Matrix. São Paulo: Publifolha, 2003, p. 216-252.
  • JOY, Bill. “Why the future does not need us”. In: Wired 8.04 (April, 2000).
  • HILLIS, Danny. “Test of time”. In: Wired 8.03 (March, 2000).
  • KACZINSKY, Theodore. A Sociedade Industrial e seu futuro. s/l. s/e, 1995.
  • KAUFFMAN, Stuart. “Self-replication, even peptides do it“. In: Nature, 382, p. 496 (August 8, 1996).
  • KURZWEIL, Ray.  A era das máquinas espirituais. São Paulo: Aleph, 2007, 512p.

ARTIGOS EM BLOG


NOTA DE ESCLARECIMENTO

Embora possa parecer óbvio, o autor desse blog não é ludita tampouco está fazendo apologia às práticas terroristas ou ao manifesto de Theodore Kaczinsky. Contudo, como afirmou Bill Joy em seu artigo, os tristes atos levados à cabo por Kaczinsky para dar visibilidade à suas ideias, não invalidam, por si, a argumentação utilizada no manifesto ou, se preferirmos, na passagem recortada para a discussão encetada nesse post.

Aliás, minha intenção ao criar esse post foi, movido pelo estranhamento causado pelo artigo de Paul Craig Roberts, evidenciar como algumas das ideias ali contidas estão, na verdade, diretamente relacionadas com o futuro distópico descrito por Kaczinsky no conhecido Manifesto Unabomber. Mais que isso, ao lembrar que essa discussão não é nova e que já era feita por Bill Joy desde o ano 2000 (em franco diálogo com os textos de Ray Kurzweil e Hans Moravec), busquei trazer ao leitor do Hum Historiador um referencial teórico sobre o assunto que ele talvez desconhecesse, no intuito de dar credibilidade às preocupações levantadas no post e, é claro, expor minha opinião diante do tema em discussão.

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2 Comentários

Arquivado em Cinema, Economia, Sociedade, Tecnologia

2 Respostas para “A Sociedade Industrial e o futuro da humanidade

  1. Olá Rogério.
    Eu próprio guardo uma ampla e profunda concordância com o pensamento de Ted Kaczynski; contudo, considero muito importante poder ler algo sério e bem elaborado acerca desse pensamento que não venha de um estrito defensor de Ted Kaczynski.
    Tomei a liberdade de postar em meu blog, o “Gente chimarrona”, uma nota sobre e o link para esse seu artigo — feitas as devidas referências ao seu blog e à você próprio.
    Espero que esteja bem para você; apesar de ser algo indelicado, deixo aqui o link para essa mina postagem, caso você queira vê-la:
    http://gentechimarrona.blogspot.com.br/2014/05/a-sociedade-industrial-e-o-futuro-da.html
    Abraço,
    Rui.

    • Muito obrigado pelo comentário e por ter utilizado meu texto em seu blog. Fico feliz que meus textos estejam sendo lidos, utilizados e repercutidos.

      Grande abraço,

      Rogério Beier

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