Arquivo do mês: abril 2014

O ator CAIO BLAT revela como a Globofilmes está destruindo o cinema nacional

Publicado originalmente por PAULO NOGUEIRA no portal DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO em 21.Ago.2013

Duas coisas são notáveis num vídeo em que o ator Caio Blat fala sobre o papel predador da Globofilmes no cinema brasileiro.

A primeira é o assalto perpetrado pela Globofilmes. A segunda é que, tornado público isso, nada tenha acontecido exceto uma retratação de Blat que lembra as confissões dos acusados de crimes contra o comunismo na década de 1930 na Rússia de Stálin. Era claramente isso ou o fim da carreira.

O órgão que deveria coibir ações nocivas de monopólios, o Cade, é simplesmente inoperante quando se trata da Globo.

Sintetizarei o golpe aqui, tal como narrado calmamente por Blat.

Se você não fecha um contrato com a Globofilmes para a distribuição do seu filme, as mídias da Globo se fecham para você.

Tevê, jornal, revistas, internet: pode esquecer no trabalho de divulgação.

Então você é forçado a fazer.

Aí a Globofilmes coloca você no Jô, no Serginho Groisman, no Vídeo Show etc.

Ótimo. O detalhe é que sua ida àqueles programas é cobrada como se fosse publicidade.

Mercham, o que é ainda mais caro que a propaganda convencional porque se trata de enganar o espectador.

Depois, a Globofilmes se “ressarce” do investimento fictício na bilheteria.

Ela investiu quanto? Zero. Qual o custo de encaixar um diretor ou ator de um filme num programa da própria Globo? Nenhum, se descontarmos coisas subjetivas como a conversa com Jô Soares, por exemplo.

Mas a fatura vem, como conta candidamente Blat. E pesada. Acontece o seguinte: quem ganha, essencialmente, é apenas a Globofilmes, ou a Globo.

Para produtores é um negócio cruel.

Há, neste história, uma terrível injustiça, um comportamento que é a negação do capitalismo que a Globo, à luz do sol, tanto prega para, nas sombras, fazer tudo para extorquir os que têm a infelicidade de viver sob seu monopólio deletério.

O poder da Globo de fazer coisas malévolas com tem que ser combatido, em nome do interesse público.

Há que quebrar um monopólio que acaba dando em coisas como a Globofilmes.

Não enfrentar esse drama nacional, como sucessivos governantes fizeram, incluídos Lula e Dilma, é uma ação de lesa pátria.


O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

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[VERMELHO] José Mujica oferece saída ao mar para Bolívia e Paraguai

O presidente do Uruguai, José Mujica, pretende ajudar a Bolívia e o Paraguai a terem a tão almejada saída ao mar, para que estes países tenham a possibilidade de melhorar o escoamento de seus produtos. A ideia do mandatário uruguaio vai além: ele quer tornar o projeto do porto de águas profundas, no estado de Rocha, um espaço aberto para todos os países do Mercosul, como forma de integração regional. A informação foi publicada no início do mês pelo jornal El Observador.

Da redação do portal Vermelho
publicada originalmente em 24.dez.2013

José “Pepe” Mujica, presidente do Uruguai.

De acordo com Mujica, após uma reunião com a presidenta Dilma Rousseff, o Brasil irá financiar parte do porto. A proposta aos únicos países sem saída ao mar da América do Sul foi apresentada na semana passada pelo ministro de Transporte e Obras Públicas do Uruguai, Enrique Pintado. 

Paraguai e Bolívia são os maiores produtores de dormente (peças de madeira que formam parte do trilho do trem) da região. Portanto, o objetivo das autoridades uruguaias é realizar uma troca entre os países para que se criem rotas até o porto de Rocha, uma vez que a questão ferroviária será fundamental para a integração. 

“(Para isso) Temos de mudar a matriz da infraestrutura do Uruguai. Precisamos quebrar o desenho do inglês (ferroviário), por meio do qual as principais rotas convergentes de comunicação terrestre levam até o porto de Montevidéu”, afirmou Pintado em entrevista ao El Observador. 

“Precisamos substituir o modelo inglês por um modelo integracionista. Temos que dar prioridade à aproximação do rio Uruguai com a fronteira do Brasil, bem como priorizar o Uruguai transversal através do porto de águas profundas de Rocha”, agregou o ministro. Segundo ele, para que o porto seja a principal mudança estrutural dos próximos 200 anos, a infraestrutura deve ser planejada para tal.

Mujica, por sua vez, disse em seu programa de rádio desta segunda-feira (23) que deseja que o “Paraguai possa sair ao oceano Atlântico com a sua madeira, seus minerais e sua soja; e que a Bolívia possa fazer o mesmo. Isso significa desenvolvimento para a região e um trabalho logístico de mão de obra para o Uruguai”.

Para o presidente uruguaio, “integrar significa construir infraestrutura e oferecer com generosidade um porto que possa ser propriedade comum dos governos regionais”.

As autoridades uruguaias devem oficializar a obra do porto de águas profundas em 2014. A construção será iniciada ainda durante o mandato do presidente José Mujica. O cronograma oficial estima que a obra terá um custo inicial de US$ 1 bilhão.


Théa Rodrigues, da redação do VermelhoCom informações do El Observador

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Projeto chinês para a construção de um novo canal ligando Atlântico e Pacífico na Nicarágua ganha repercussão negativa nas revistas Nature e Smithsonian

Há umas semanas atrás, enquanto me reunia com a orientadora para definir os próximos passos de minha vida acadêmica, vi sobre a mesa da sala dela a edição da Revista Samuel, de dezembro de 2013, que trazia uma matéria sobre uma empresa chinesa que quer construir uma nova ligação entre os oceanos Pacífico e Atlântico através da Nicarágua. Na hora, por conta das atividades que estava desenvolvendo com a professora, não consegui ler a reportagem e deixei para ver na Internet, mas qual não foi minha surpresa quando descobri que o conteúdo da matéria não estava disponível para consulta online.

Buscando sobre o assunto no Google, encontrei duas reportagens publicadas em revistas estadunidenses que podem nos dar uma ideia sobre o assunto. Uma foi na revista Wired e outra foi na Smithsonian Magazine. A primeira diz respeito à já longa história do sonho de se construir um canal na Nicarágua e de como a trajetória desse sonho pode ser reconstituída a partir dos mapas de projetos de canais que pretendiam ligar o Oceano Pacífico e o Atlântico através daquele país; e a segunda trata mais dos impactos que a construção de um canal na Nicarágua podem legar àquele país centroamericano.

Abaixo, o Hum Historiador optou por repercutir uma tradução livre preparada a partir da íntegra da matéria tal como publicada na Smithsonian Magazine e, ao fim da mesma, adicionar uma galeria contendo as imagens dos mapas antigos coligidos em diferentes acervos cartográficos pela matéria da revista Wired.

Vale lembrar que a Smithsonian Magazine é uma revista estadunidense e a autora da matéria está tratando de um tema que afeta diretamente os interesses comerciais dos Estados Unidos em nível global, isto é, a criação de um canal interligando o Pacífico e o Atlântico sob o controle de uma companhia chinesa. Além dos impactos tratados pela reportagem de Nuwer, quais seriam os impactos para o comércio mundial de um novo Canal na América Central sob controle dos chineses? E para os Estados Unidos da América, qual seria o impacto?

NICARÁGUA PLANEJA DIVIDIR O PAÍS EM DOIS COM A CONSTRUÇÃO DE UM IMENSO CANAL

por Rachel Nuwer | tradução livre de matéria publicada originalmente na Smithsonian Magazine em 20.fev.2014.

O canal iria causar uma “devastação trágica” tanto para o patrimônio natural do país quanto para as comunidades indígenas, afirmam os cientistas.

Em breve a América Central poderá ter não apenas um, mas dois canais conectando o Oceano Pacífico ao Mar do Caribe. Em junho do ano passado a NICARÁGUA aprovou uma lei que garantiu a uma companhia chinesa, chamada The Hong Kong Nicaragua Canal Development Investment Company (HKND), a dividir o país com um canal de $40 bilhões de dólares.

De acordo com a HKND e o governo da Nicarágua, o Canal Inter-Oceânico da Nicaragua iria aumentar o PIB do país em 11% anualmente e gerar até um milhão de novos empregos nos que se seguiriam para a construção do canal. Esse seria um benefício significativo para o país, que é o segundo mais pobre nas Américas. O canal também agilizaria o comércio global, acrescentam os proponentes.

A construção estava prevista para começar em Dezembro de 2013 e seguiria pela próxima década. Centros industriais, aeroportos, novas ferrovias, oleodutos e os direitos de qualquer recurso natural que envolvem o novo canal também estão incluídos no acrdo. Após construir o canal, a HKND manteria os direitos de operá-lo pelos próximos 50-100 anos.

Muitas são as preocupações sociais e ambientais sobre um projeto de tal envergadura. Muitos detalhes sobre o projeto ainda estão faltando, nomeadamente, onde o canal será construído. Atualmente, uma rota de 177 milhas que cortaria através do Lago Nicarágua – de onde vem a maior parte da água potável do país – é a opção favorita. Os impactos que recairiam sobre a biodiversidade e as comunidades locais ainda não foram discutidos publicamente.

Um artigo opinativo publicado recentemente na Nature, “Canal da Nicaragua poderia levar a ruína ambiental”, explicita as preocupações de Jorge A. Huete-Perez, presidente da Academia de Ciências da Nicarágua, e de Axel Meyer, zoólogo na Universidade de Konstanz na Alemanha. Para começar, eles apontam que nenhuma avaliação independente dos potenciais impactos da construção do canal foi realizada até o momento. O governo da Nicarágua, por sua vez, afirma que planeja confiar na avaliação de impacto ambiental realizada pela HKND, e os autores apontam que “a companhia não tem obrigação de revelar os resultados ao público nicaraguense”.

O canal como planejado, escreveu Huete-Perez e Meyer, iria destruir por volta de 400 mil hectares de florestas tropicais e áreas úmidas. A Reserva da Biosfera Bosawa, localizada logo ao norte da rota proposta para o canal, abriga numerosas espécies ameaçadas pelo projeto tais como as antas de Baird, macacos-aranha, onças e algumas espécies de águias. Já a Reserva Biológica Indio Maiz, localizada para o sul da rota, abriga um conjunto similar de espécies ameaçadas.

O canal sequer se preocupou em circundar a Reserva Natural Cerro Silva – lar dos mais antigos carvalhos da América Central, inúmeras espécies de macacos e populações dos verde-claros quetzals – apontaram os autores. Os planos para a hidrovia cortam exatamente a seção norte daquele parque.

O canal e os portos que o acompanham também arrasariam praias berçários de tartarugas ameaçadas tanto na costa do Pacífico quanto na costa do Atlântico, bem como impactar ou destruir recifes de corais e manguezais, que – além de sua importância para a biodiversidade – ajudam a proteger a Nicarágua de tempestades tropicais. Quanto aos animais terrestres, eles que já não podem voar, também não poderão mais migrar de norte a sul, tirando populações inteiras de espécies de um lugar ou de outro, como se fosse um muro de Berlin líquido.

Além dos impactos à vida selvagem, comunidades indígenas – incluindo os Rama, Garifuna, Mayangna, Miskitu e Ulwa – dependem das áreas onde se localizará o proposto canal. Nenhuma prova ainda surgiu de que seus os direitos dessas populações foram levados em consideração ou alocações foram feitas para compensar as interrupções em suas vidas, observaram os autores. “Centenas de aldeias terão que ser evacuadas e seus habitantes indígenas realocados”. Essa perturbação pode até ser suficiente para causar rebeliões civis.

Canal da Nicaragua_Smithsonian

Rotas propostas para o novo Canal da Nicarágua (vermelho) e o Canal do Panamá (azul). Foto: Soerfm Wikicommons.

A água também é um problema. A maior parte da água potável do país vem do Lago Nicarágua, cujo fundo de 15 metros será dragado quase o dobro dessa profundidade para abrir caminho aos imensos navios containeres. Toda aquela lama tem que ir para algum lugar, e os autores estão procupados de que ela será apenas jogada em outras áreas do lago ou até mesmo na terra. “De qualquer modo, a lama acabará como uma sedimentação perigosa”, escrevem.

Barragens, também seriam construídas no lago para a criação do sistema de bloqueio do canal. Tal como acontece com o canal do Panamá, água salgada em conjunto com a poluição dos navios iriam provavelmente infiltrar as áreas ao redor desses bloqueios, transformando “um ecossistema de água doce de fluxo livre em um reservatório artificial de água-parada combinada com água salgada”, predizem os autores. Isso significa adeus à água doce potável – infraestrutura teria de ser criada para dessalinizá-la e purificá-la – representaria também um adeus aos animais nativos do lago como os tubarões touro, peixe-serra, ciclídeos e tarpon.

Acrescente a isso a possível chegada de espécies invasoras que irão de carona nos barcos -um problema ambiental comum – e você terá uma receita para a “devastação trágica” da flora e fauna do lago, e tudo o que depende dele, escrevem os autores.

Por fim, a companhia por trás do próprio canal pode não ser tudo aquilo que parece, outros apontam. O presidente, Wang Jing, até agora não conseguiu acompanhar o desenvolvimento de uma companhia telefônica que comprou concessões para entrar na Nicarágua no ano passado, e da mesma forma não há sinais de progresso em 12 dos 20 países onde Wang se comprometeu com outros projetos de larga escala, como reporta o South China Morning Post.

No caso do canal, Wang tem por vezes feito planos “implausíveis”, escrevem os autores da Nature, tais como dizer que o canal terá 520 metros de largura. O projeto inteiro tem sido envolvido em um manto de segredo, acrescenta o Bangkok Post, desde seus impactos ambientais até sua logística, e o governo parece ansioso para apressá-lo.

“Não há qualquer justificativa para um novo canal através da Nicarágua”, disse ao Bangkok Post Ralph Leszczynski, chefe de pesquisa na Banchero Costa, uma agencia marítima internacional. “Nós já temos um canal que cruza o Panamá que funciona bastante bem”.

O Canal do Panamá, disse Leszczynski ao Post, lida apenas com uma pequena fração da navegação mundial, por isso construir uma hidrovia equivalente seria redundante. Cerca de 550 milhas ao sul do Lago Nicarágua, a hidrovia do Canal do Panamá tem um terço a menos do comprimento daquele que está sendo proposto na Nicarágua, e atualmente está sendo alargado e aprofundado para expandir sua capacidade para acomodar navios de grande porte.

Assim, na pior das hipóteses, Nicarágua terá um canal imenso que poderá trazer devastação ambiental ao país e poderá até mesmo “reascender a violência civil que por muito tempo marcou a região”, escrevem os autores da Nature. Na melhor das hipóteses, por outro lado, os planos simplesmente vão fracassar como os muitos outros empreendimentos de Wang. De qualquer modo, os pesquisadores não querem correr o risco de que um projeto como esse seja sequer considerado.

Eles clamam a comunidade internacional a se unirem a eles em um protesto contra o canal, e também em um “brainstorming” de soluções que poderiam trazer mais investimentos à Nicarágua, incluindo turismo, aquicultura e irrigação estendida. Em dezembro último, os autores relataram que o governo dispensou as reclamações judiciais apresentadas no ano passado por ambos os grupos internacionais e comunidades indígenas da Nicarágua, indicando a necessidade de uma “ação internacional rápida e decisiva”. Adicionalmente, Huete-Perez decidiu tomar o assunto em suas próprias mãos e conduzir sua própria investigação de avaliação ambiental com o auxílio da Rede Interamericana de Academias de Ciências, e apela para que mais grupos de conservação se juntem a ele.

“Pode haver uma rota econômica, geográfica e politicamente viável para o canal, ferrovias e oleodutos propostos que implicaria em uma redução significativa de risco? O concenso geral na Nicarágua é que não”, concluem os autores. “Habitantes – de todas as espécies – com laços ancestrais à tera serão arrancados da terra de qualquer maneira.


Abaixo, publicamos uma galeria de imagens selecionadas pelo site da revista Wired, contendo mapas do século XIX e XX que ilustravam as possíveis localizações de um Canal na Nicarágua

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Seis formas de discutir gênero na sala de aula

da redação do Porvir | publicado originalmente em 04.abr.2014

Para professores que desejam trabalhar questões de gênero com os seus alunos em sala de aula, uma lista com dicas de conteúdos sobre tolerância, violência contra a mulher e desigualdades.

O resultado de uma pesquisa divulgada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada) no dia 27 de março causou polêmica e indignação. O estudo então revelou que 65% dos brasileiros concordam com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas.” No dia 4, depois de já ter causado inúmeras reações e discussões nas redes sociais, esse índice foi corrigido para 26%.

Entre as reações, a jornalista Nana Queiroz, moradora do Distrito Federal, criou um evento no Facebook que convocava mulheres a se fotografarem seminuas segurando um cartaz com a frase “eu não mereço ser estuprada.” O protesto virtual contou com a adesão de mais de 42 mil usuários, entre mulheres e homens que também decidiram abraçar a causa. No domingo (30/3), o tema foi um dos mais mencionados no Twitter. Até a presidente Dilma Rousseff se manifestou pela rede social em apoio a jornalista Nana Queiroz e a todas as mulheres ameaçadas ou vítimas de violência.

Crédito: Trimbaldi /Fotolia.com.

Para professores que desejam aproveitar o momento para trabalhar questões de gênero com os seus alunos em sala de aula, o Porvir preparou uma lista com 6 dicas de conteúdos sobre tolerância, violência contra a mulher e desigualdades. As dicas foram pesquisadas na plataforma Escola Digital e em recentes sugestões ligadas ao tema. Confira a lista para o ensino fundamental e médio:

1 – Panorama geral sobre nova mulher brasileira

Baseado em dados do censo 2010, realizado pelo IBGE, o infográfico apresenta aspectos e perfil da nova mulher brasileira. Com navegação interativa pelas ilustrações, o usuário pode acessar dados sobre o espaço da mulher no mercado de trabalho, as disparidades de salários entre gêneros e a presença feminina no ensino superior.

2 – Narradores de Javé – Questão de Gênero

A partir de um trecho do filme Narradores de Javé, obra brasileira dirigida por Eliane Caffé, é possível trabalhar as discussões sobre minorias e preconceito de gênero. O filme narra acontecimentos da pequena cidade de Javé, que seria submersa pelas águas de uma represa. No decorrer da obra são apresentadas questões que mostram o esquecimento das mulheres na história da cidade, que foi fundada pela heroína Maria Dima.

3 – Lei Maria da Penha em Cordel

De forma divertida e bem humorada, o vídeo apresenta a legislação sobre a violência contra a mulher em forma de cordel. O vídeo está disponível no YouTube e possui duração de 5:56. Ele faz parte do DVD Mulher de Lei, do cantor e educador cearense Tião Simpatia. A linguagem é ilustrativa e simples de entender.

4 – Women in the 19th Century: Crash Course US History #16

Se o professor desejar estabelecer um paralelo sobre as discussões sobre gênero nos EUA, o vídeo Women in the 19th Century, disponibilizado no YouTube, pode ser uma boa ferramenta. Ele apresenta como as questões de igualdade de direitos e sufrágio universal foram abordadas pelas mulheres do século XIX, nos EUA.

Para dar base as discussões do ensino superior, também selecionamos duas opções:

5 – Mooc colaborativo online sobre feminismo

O mooc Diálogos sobre Feminismo e Tecnologia conta com a colaboração de participantes para destacar o protagonismo feminino. Na plataforma, os próprios estudantes conseguem escrever e compartilhar informações adicionais sobre o tema.

6 – Colunas sobre Sexismo

A coluna publicada on-line por Kelly J. Baker, Ph.D. em religião da Universidade Estadual da Flórida, se propõe a discutir questões sobre gênero, o papel da mulher no século 21 e desigualdades. Os textos podem servir de base para análises e discussões em sala de aula.

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[BLOG DA AMAZÔNIA] Anchieta: santo do pau oco?

Em texto publicado originalmente no Blog da Amazônia neste último domingo (06), o professor dos programas de pós-graduação da UNI-Rio e UERJ, José Ribamar Bessa Freire comenta a canonização do padre Anchieta promovida recentemente pelo papa Francisco.

Em um texto provocativo, Bessa Freire nos explica porque não vê motivos para comemoração da canonização do “terceiro santo brasileiro” e, também, argumenta porque acredita que o Padre Anchieta se trata, na verdade, de um “santo do pau oco”.

CANONIZADO PELO PAPA, ANCHIETA NÃO É SANTO PARA OS ÍNDIOS
por José Ribamar Bessa Freire | para o Blog da Amazônia

 

Que Nhanderu me perdoe, mas não consigo me alegrar com a canonização de Anchieta decretada na quinta-feira pelo Papa Francisco. Enquanto a cerimônia era celebrada lá no Vaticano, aqui no Brasil os sinos das igrejas bimbalhavam festivamente, sem que as badaladas tocassem meu coração. Bem que me esforcei para compartilhar o júbilo de meus compatriotas com “o terceiro santo do Brasil”. Inutilmente.

A incapacidade de participar da comunhão nacional gera um angustiante sentimento de exclusão. Já havia acontecido comigo na morte de Tancredo Neves espetacularizada pela mídia. O Brasil inteiro em prantos e eu, de olhos secos, coração endurecido. Só chorei a morte de Ulisses Guimarães, o homem que enfrentou os cães da polícia e que tinha nojo da ditadura. Mas por que não festejar o novo santo? Porque creio que ele é do pau oco. A expressão usada aqui como metáfora não pretende desrespeitar a fé de ninguém. Acontece que para alguém ser santo, precisa comprovar pelo menos dois milagres. Anchieta foi dispensado disso pelo ‘poder de chave’ do Papa que usou o sensus fidelis, isto é, o sentimento dos fiéis, entre os quais estão minhas nove irmãs. Porém, como a sabedoria popular já comprovou que santo de casa não faz milagre, não é por isso que ele é do pau oco. É por causa do contrabando, do que está por trás da canonização.

Santo do pau oco – nos ensina Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro – se refere às “imagens de santos, esculpidas em madeira, que eram ocas e vinham de Portugal cheias de dinheiro falso”. Essas estátuas, de diversos tamanhos, serviam também para contrabandear ouro e pedras preciosas. Sendo o poder da religião incomensurável, os fiscais não tinham coragem de abrir o santo para checar a muamba que continha. Se é assim, cabe perguntar: qual é o contrabando trazido de Roma com a canonização de Anchieta?

Devagar com o andor

É preciso abrir a imagem do novo santo para verificar o que ela esconde em seu interior. O diretor da Faculdade de Teologia da PUC/SP, padre Valeriano Costa, deu uma pista, quando definiu que a canonização “é uma grande oportunidade para a Igreja cultuar esse santo e se lembrar de alguns dos valores que pregava” (O Globo, 04/04/14). O que se está canonizando com Anchieta, portanto, é o trabalho missionário de catequização, conversão e “civilização” dos povos indígenas.

É disso que se trata. Dentro da imagem do santo, estão os valores da catequese empreendida pelos jesuítas sob os auspícios da Coroa de Portugal. Segundo o historiador Gabriel Bittencourt, autor de um livro sobre Anchieta, ele foi “um homem que soube lidar de forma diplomática com os índios, aprendeu o tupi-guarani, escreveu a primeira gramática da língua e estudou as crenças para montar peças teatrais que ajudassem os nativos a entender as lições de catecismo”.

Onde vais tão apressado, periquito tangedor? Devagar com o andor, que o santo é de barro. Os meios usados por Anchieta nem sempre foram diplomáticos, como comprovam as cartas que ele escreveu, algumas delas publicadas em agosto de 1980 pelo Porantim, jornal do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) editado, na época, em Manaus. Numa delas, Anchieta trata os Tupinambá como “inimigos carniceiros” e se rejubila por haver conseguido jogar os índios uns contra os outros nos conflitos entre portugueses e franceses: “E foi coisa maravilhosa que se achavam e encontravam a flechadas irmãos com irmãos, primos com primos, sobrinhos com tios e mais ainda dois filhos que eram cristãos e estavam do nosso lado contra seu pai que estava contra nós”.

A representação dos índios no discurso de Anchieta pode ser avaliada nos versos do poema épico “De gestis Mendi de Saa”, escrito em latim para elogiar o poder na pessoa do governador-geral Mem de Sá. Lá os índios são “lobos vorazes, furiosos cães e cruéis leões que nutriam o ávido ventre com carnes humanas”. Estes índios “selvagens e animalescos” abandonaram Deus e precisavam ser catequizados para escaparem “das garras de Satanás”.

O inquestionável trabalho de Anchieta no campo da linguística, longe de servir para reconhecer as culturas indígenas, foi usado para destruí-las. A gramática que ele fez da língua geral se tornou ferramenta eficaz para veicular valores que negavam e satanizavam as religiões locais, o pensamento, a cosmovisão e os saberes indígenas. Suas peças de teatro, de caráter pedagógico, encenadas pelos índios catequizados, classificaram como “demônios” os personagens da mitologia tupi, condenando o fumo, a medicina indígena, as malocas coletivas, o cauim e os rituais.

O santo é de barro

Se a canonização de Anchieta serve para fazer a apologia da catequese, então estamos mesmo diante de contrabando. O catolicismo guerreiro, arrogante, só admitia um caminho para Deus: o de Roma. As religiões indígenas foram desprezadas, perseguidas, extirpadas a ferro e fogo.

Outro jesuíta, o padre Antônio Vieira, defendeu a catequese como única via para transformar o “índio bárbaro”, considerado tábula rasa, folha de papel em branco. O missionário era o escultor que daria feições humanas aos índios: “É uma pedra, como dizeis, o índio rude? Pois trabalhai e continuai com ele. Aplicai o cinzel um dia e outro dia; dai uma martelada e outra martelada e vereis como dessa pedra tosca e informe fazeis não só um homem senão um cristão e pode ser um santo”, escreveu Vieira.

Apesar da quantidade massiva de mártires indígenas, não se tem notícias de nenhum deles declarado santo, oficialmente reconhecido pela Igreja, mas o barulho de algumas “marteladas” chegaram até os dias de hoje, com notícias sobre as violências cometidas contra os índios, cujas religiões eram consideradas como “superstições”, perseguidas pela intolerância.

O resultado da catequese foi avaliado por outro jesuíta brilhante, João Daniel, que viveu 16 anos na Amazônia (1741 a 1757) e relatou suas andanças. Os castigos corporais sistemáticos e o batismo não criaram cristãos que Anchieta e Vieira queriam: “a religião ficou pouco intrinsicada no coração dos índios”, com uma “fé morta no uso das cousas sagradas e na pouca reverência aos sacramentos”. Segundo João Daniel, os índios gostavam muito “de medalhas, de verônicas, de escapulários, mas não era por respeito e devoção” e sim para “com eles enfeitar seus macacos e cachorrinhos, atando-lhes ao pescoço”.

A muamba que vem escondida dentro do novo santo é essa: um contrabando ideológico, que faz a apologia da prática missionária de Anchieta, sem o menor senso crítico, quando o próprio CIMI, em sua 3ª Assembleia Geral realizada em Goiânia, em julho de 1979, produziu um documento final, assinado também pelos luteranos ali presentes, que diz tudo no seu primeiro parágrafo: “Reconhecendo os erros que cometemos como Igreja na nossa atuação missionária junto aos povos indígenas, pedimos perdão a eles e a Deus”. O CIMI se compromete a mudar sua prática e a respeitar as religiões indígenas “que inclui assumir necessariamente os mitos e a vida religiosa através dos quais cada povo recebe a Revelação de Deus”.

Anchieta é um dos responsáveis por esses erros. Foi um fiel servidor do sistema colonial, ao contrário de Bartolomé De Las Casas, o dominicano espanhol que na mesma época ousou romper com o sistema. Anchieta pode até ser santo, desde que venha sem esse contrabando. E mesmo assim jamais será santo para os índios. Canonizá-lo para reforçar essas práticas é um retrocesso, uma reafirmação daquilo que o sociólogo Anibal Quijano chama de colonialidade, que é mais profunda e duradoura do que o colonialismo. Esse santo quer reza. De mim, não terá nenhuma.


José Ribamar Bessa Freire é professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indigenas.

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Uma entrevista com Jacques Le Goff

Pouco antes de morrer, nessa última terça-feira (01.Abr), o famoso medievalista francês Jacques Le Goff concedeu uma entrevista a Guilherme Freitas, do jornal O Globo, que acaba de ser publicada no site do periódico carioca.

Como é de se imaginar, o Hum Historiador não poderia deixar de repercutir a íntegra dessa entrevista, ainda inédita, também como forma de homenagear esse grande historiador que, embora tenha desaparecido na semana, nos deixou como legado uma vasta obra que nos ensinou muito, não apenas sobre a Idade Média, mas principalmente sobre o presente.

Jacques Le Goff, historiador francês morto aos 90 anos

Nesta entrevista inédita, concedida ao GLOBO há duas semanas, o historiador francês Jacques Le Goff, morto na terça-feira, repassa sua obra, que desmonta lugares comuns a respeito da Idade Média. Com dois livros recém-lançados no Brasil sobre os protagonistas e a economia da era medieval, ele sugere que as origens do capitalismo na Europa da época ajudam a entender a crise do mercado e da democracia no mundo atual 

Uma entrevista inédita com Jacques Le Goff, morto aos 90 anos
Por Guilherme Freitas | Originalmente publicado em O GLOBO em 05.Abr.2014

A Idade Média de Jacques Le Goff não é o período de trevas e decadência enraizado no senso comum ocidental. Com cinco dezenas de livros publicados sobre religião, economia, política, artes, lendas, costumes e outros aspectos das sociedades europeias da época, o historiador francês, que morreu na terça-feira, aos 90 anos, afirmou-se como um dos mais reconhecidos medievalistas de nosso tempo. Em mais de seis décadas de carreira, ele se esforçou para destacar os traços criativos e dinâmicos de uma era que, como sempre disse, tem mais ligações com o presente do que se costuma acreditar.

Popular no Brasil, onde parte significativa de sua obra já foi traduzida, Le Goff teve mais dois títulos lançados no país este ano: “Homens e mulheres da Idade Média” (Estação Liberdade, tradução de Licia Adan Bonatti) e “A Idade Média e o dinheiro” (Civilização Brasileira, tradução de Marco de Castro). Em meados de março, o historiador concedeu entrevista ao GLOBO, por e-mail, sobre estes livros, que sintetizam vertentes importantes de sua obra.

Artigo: O fim da saga de um herói da história

“Homens e mulheres da Idade Média” é um volume coletivo, coordenado por Le Goff para a editora francesa Flammarion, com textos de 43 autores sobre figuras de relevo daquele período. Papas, santos, reis e teólogos foram “os grandes personagens” do mundo medieval, escreve o historiador, mas o livro abre espaço também para artistas, que deixam de ser vistos como artesãos anônimos e passam a ser reconhecidos como “autores”, e para o imaginário da época, relacionando mitos pagãos e religiosos, como o rei Arthur, o mago Merlin e Satã.

Já em “A Idade Média e o dinheiro”, Le Goff dá sequência a uma linha de pesquisas que vem desde seu primeiro trabalho, “Mercadores e banqueiros na Idade Média” (1956). O novo livro mostra o surgimento do capitalismo nas cidades medievais, onde o mercado em expansão entrou em atrito com a condenação da usura pela Igreja. O historiador contrasta a busca crescente de Estados e indivíduos por lucro com ícones religiosos da época, como a imagem, recorrente em narrativas e pinturas, de um homem que chega ao Inferno com um saco de dinheiro.

Le Goff foi um dos herdeiros da escola dos “Annales”, que na primeira metade do século XX revolucionou a historiografia deslocando seu foco para as ideias e os processos sociais. Nos anos 1970, foi um dos líderes do movimento conhecido como “Nova História”, que lançava mão de análises abrangentes para traçar a “história das mentalidades”. Em clássicos como “A civilização do Ocidente medieval” (1964) e “Para uma outra Idade Média” (1977), Le Goff buscou iluminar as particularidades daquele período, mas também ressaltar como as transformações ocorridas naquele tempo reverberam até hoje:

— A História é uma sequência de continuidades e mutações. E, raramente, de rupturas — disse Le Goff ao GLOBO.

Em “Homens e mulheres da Idade Média”, o senhor afirma que aquele foi um período “criativo e dinâmico”, ao contrário da visão “obscurantista” dominante. Por que ainda temos uma visão negativa da Idade Média? E quais são os elementos mais “criativos” e “dinâmicos” dela?

A visão negativa da Idade Média se manifesta com intensidade a partir do século XIV, quando o poeta italiano Petrarca cria a expressão “Idade das Trevas” [que retratava a Idade Média como uma fase decadente da Europa, entre os períodos “luminosos” do Império Romano e do Renascimento]. Os lugares comuns sobre a Idade Média prosseguiram do Renascimento ao racionalismo do século XIX, apesar da reabilitação iniciada pelo Romantismo, com autores como Walter Scott, Victor Hugo, Augustin Thierry… E esses lugares comuns chegaram até nossos dias. Em todos os setores da sociedade repete-se como se fosse óbvio: “Não estamos mais na Idade Média”. No entanto, uma mudança de atitude dos pesquisadores em relação a essa época foi se consolidando ao longo do século XIX, a partir do esforço de instituições científicas como a École des Chartes e a coleção de estudos medievais “Monumenta Germaniae Historica”. Com a renovação do método e do espírito histórico em torno da revista “Annales”, fundada em 1929 por Marc Bloch e Lucien Febvre, o estudo da Idade Média passou por uma revisão. O progresso da economia rural e da economia monetária, a ascensão das cidades, o brilho da criação artística do estilo românico ao gótico nas catedrais, palácios e praças, tudo isso atesta o espírito criativo e dinâmico de uma longa Idade Média.

O senhor defende que o Renascimento dos séculos XV e XVI não representou o fim da Idade Média, como se costuma pensar, mas sim o “terceiro” e mais importante Renascimento da Idade Média. Por quê?

Acredito que o Renascimento inventado no século XIX por Michelet [historiador francês que cunhou a expressão em sua “História da França”, de 1855] não começa nos séculos XV e XVI. E que a “longa” Idade Média dura até meados do século XVIII. O primeiro Renascimento da Idade Média ocorreu nos séculos VIII e IX, com um pequeno núcleo de pensadores e cientistas agrupados em torno do imperador Carlos Magno. O segundo Renascimento, no século XII, é marcado pelo progresso agrícola, pelo desenvolvimento das cidades e pelo início das realezas nacionais. O Renascimento dos séculos XV e XVI é um período importante no campo das artes e na afirmação das nações, mas nos planos econômico e ideológico permanece essencialmente rural e marcado pelo cristianismo, ainda que no século XVI ele se divida em dois ramos: a Igreja Católica e a Reforma.

O senhor escreve que os grandes personagens da Idade Média são “santos, reis, Papas e teólogos”. Que condições permitem a ascensão dessas figuras históricas?

Os santos são uma novidade, uma criação do cristianismo; os reis são uma nova figura de chefe político; os Papas lideram a Igreja cristã; os teólogos substituem os filósofos da Antiguidade. Portanto, Deus como criador da Humanidade e do mundo é o principal mote do pensamento da época. A ascensão dessas categorias foi possibilitada, por um lado, pela cristianização da maior parte da Europa e, por outro, pela constituição de Estados que, ao longo da Idade Média, tornaram-se nações. Se pensamos nas obras que parecem dominar o pensamento cristão medieval, o que vem à mente são as sumas teológicas. E se há uma obra que se afirma como sua coroação, é a “Suma Teológica” de São Tomás de Aquino.

“Homens e mulheres da Idade Média” tem um capítulo sobre Francisco de Assis, que o senhor já havia estudado em outro livro. Na sua opinião, o que significa a decisão do cardeal Jorge Mario Bergoglio de adotar como Papa o nome de Francisco? Como o senhor avalia o papado de Bergoglio?

Acredito que, ao escolher o nome Francisco, o cardeal Bergoglio quis retirar da Santa Sé a imagem de riqueza e poder que ela havia adquirido. O caráter único deste nome na lista de Papas nos faz pensar sobre semelhanças entre a situação de crise no mundo atual, principalmente na Europa, e certos traços do avanço da pobreza na Idade Média, no tempo de Francisco de Assis. O gesto de escolher o nome Francisco é, ao mesmo tempo, o resgate de uma tradição de humildade da Igreja e uma concepção original do pontificado.

Há mais homens que mulheres no livro, uma diferença que o senhor justifica dizendo que isso é também “uma representação do lugar que elas ocupavam”. Que lugar era esse?

Embora a mulher não tenha sido tão depreciada na sociedade cristã medieval como costumamos acreditar, é fato que a Idade Média cristã é uma era masculina. A mulher é vista como um ser degradado pela memória do pecado de Eva, e nem a devoção por Virgem Maria é suficiente para mudar isso. A impossibilidade institucional e espiritual de as mulheres exercerem o sacerdócio as rebaixa a uma categoria inferior à dos homens.

Também há poucos artistas no livro (Dante, Giotto e Bocaccio, por exemplo). Mas há toda uma seção dedicada a personagens imaginários, como mitos de origem histórica (Rei Arthur), figuras religiosas (Satã) e lendas populares (o mago Merlin). O senhor explica que é durante a Idade Média que emergem as noções de “autor” e “artista”. Como? E quais são os traços mais fortes do imaginário das sociedades medievais?

A onomástica no mundo dos artistas durante a Idade Média é um assunto delicado. Por muito tempo, o artista é anônimo ou é considerado apenas um artesão. É a partir da difusão da noção de “beleza”, a partir do século XIII, como bem mostrou Umberto Eco [em “História da beleza”, de 2004], que o personagem do artista adquire em certas cidades italianas prestígio social e profissional. O primeiro a se beneficiar disso foi o pintor Giotto (1266-1337), em Florença. O imaginário de qualquer sociedade humana, em qualquer época, reflete a experiência, o pensamento e o sentimento de seus integrantes. Na Idade Média, acrescenta-se a isso um mundo de maravilhas que recupera parte do que chamamos de “cultura popular”, da qual o cristianismo medieval se beneficiou muito. Ao prestígio do homem como criatura à imagem e semelhança do Deus cristão, juntou-se o prestígio dessa dimensão maravilhosa do humano.

O senhor descreve a universidade como “um novo poder” na sociedade medieval. Quem eram seus personagens mais representativos?

Foram os próprios homens e mulheres da Idade Média que concederam à universidade um status de poder equivalente ao do sacerdócio e da realeza. O intelectual da Idade Média se retira do studium monástico da Alta Idade Média para ser formado ou pelas universidades ou pelas novas ordens mendicantes urbanas, sobretudo os franciscanos, ou “frades menores”, e os dominicanos, ou “pregadores”. O nome desta última ordem sublinha o fato de que na Idade Média a oralidade tinha um papel essencial no mundo intelectual, no qual sermões eram tão importantes quanto exercícios universitários.

O senhor define a cidade como “uma grande criação da Idade Média”. Qual é a herança mais importante da cidade medieval para a cidade contemporânea?

A cidade medieval é um centro de produção econômica, principalmente de artesanato. Além disso, é o centro da emergência de uma classe social que surge disposta a governar a si mesma, a burguesia. Mas, com sua tendência de alastramento da pobreza e do crime, é também centro de miséria e delinquência. É ainda um centro festivo, espaço de sociabilidade manifestada na praça pública. A ideia da cidade como grande centro se reforçou até nossos dias.

Em “A Idade Média e o dinheiro”, o senhor observa que a forma como pensamos no dinheiro hoje é “produto da modernidade”. Mas afirma que foi na Idade Média que a busca de indivíduos e Estados por dinheiro começou a ser legitimada. Como o dinheiro era visto na Idade Média?

O dinheiro começou a adquirir na Idade Média um valor e um uso econômico, insuflados pelas cidades, mas também era visto como incitação ao pecado da usura. A cidade medieval estava dividida entre a prosperidade e a condenação do dinheiro. O desejo de não reprimir o progresso econômico e a marcha dos indivíduos rumo à riqueza leva a Igreja e as instituições urbanas a distinguir entre o que há de legítimo na cobrança de juros pelos credores e o uso ilegítimo que fazem dele os usurários. No que diz respeito à poupança e ao uso do dinheiro, a Idade Média evoluiu da itinerância das feiras à estabilidade dos bancos. Esse processo pode ser visto como uma “sedentarização” da vida econômica, simultânea ao desenvolvimento comercial.

O senhor escreve que até o século XII as sociedades medievais eram divididas entre “poderosos” e “fracos”. Depois disso, surge a distinção entre “ricos” e “pobres”. Quais são as consequências dessa mudança?

No início da Idade Média, as distinções são sobretudo institucionais, como aquelas entre senhor e servo. O fato de possuir terras ou não era o critério essencial. Depois, com o desenvolvimento do comércio e a ascensão das cidades, surge a discriminação pelo dinheiro. O pobre substitui o servo. Essa mudança conduz a uma sociedade dominada pelo capitalismo.

“A Idade Média e o dinheiro” retoma o tema de seu primeiro livro, “Mercadores e banqueiros na Idade Média” (1956). Nele, o senhor analisava a “revolução comercial” promovida por essas duas categorias naquele período. Como a análise das origens do capitalismo na Idade Média pode ajudar a compreender a fase atual do capitalismo?

A História é uma sequência de continuidades e mutações — e, raramente, de rupturas. Uma das diferenças essenciais entre a sociedade medieval e a nossa é a industrialização, que alargou muito a base do funcionamento econômico e social, enquanto na Idade Média essa atividade era essencialmente rural, militar e religiosa. A sociedade de classes analisada por Marx no século XIX é muito diferente da sociedade de três estados da Idade Média, composta pelos que pregam, os que lutam e os que trabalham (oratores, bellatores, laboratores). Uma longa mutação conduziu à Revolução Francesa, que inspirou mutações no resto do mundo. A situação social das cidades medievais unia poder político e poder econômico. Hoje, democracia e capitalismo são, acima de tudo, antagonistas.


 

Fonte: O Globo, suplemento literário Prosa & Verso.

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Do Golpe Militar e o enraizamento da revolução burguesa no Brasil à fagulha incendiária

por Daniel Mafra | Exclusivo para o Hum Historiador | 01.Abr.2014

INTRODUÇÃO

O presente texto pretende transitar temporalmente e em movimento pendular, ora no passado, ora no presente, entre a sombria bruma condensada pelo Golpe Militar no Brasil, o qual instaurou uma ignominiosa Ditadura Militar entre os anos de 1964 e 1985 e o movimento político, social e cultural na primeira metade da segunda década do século XXI.

Não obstante este texto ter sido motivado pela dolorosa, mas imprescindível e imperativa lembrança dos 50 anos do Golpe Militar, não é nosso intuito remontar cronologicamente os fatos que se apresentaram. Qualquer manual poderá suprir tal necessidade. Nosso intuito é refletir como, a partir do golpe, se solidificou (ainda mais) o ideal reacionário, conservador e golpista no Brasil. Faz-se míster ressaltar o papel da imprensa ontem e hoje. Demonstraremos que a retórica de hoje sobre uma pretensa imparcialidade e defesa das instituições democráticas no país é somente uma das mais cândidas formas da grande mídia burguesa de manipular o discurso em prol do status quo, da ordem estabelecida.

Por fim, mas certamente não menos importante, refletiremos também sobre o árduo caminho a ser percorrido pela esquerda, para que esta retome seu papel atuante na política brasileira (e por que não dizer internacional, oras, se o programa original do socialismo se propõe como internacionalista?) e se faça presente e eficaz como modelo de contestação à ordem vigente e destrutiva da estrutura sócio-metabólica do capital. Àqueles que torcem o nariz, achando demasiado radical a bipolaridade deste texto, em sua exegese marxista capital x social, recorro à Mészáros: “Os que falam a respeito de uma “terceira via” como solução ao nosso dilema, e que afirmam não haver espaço para a revitalização de um movimento radical de massa, ou querem nos enganar cinicamente ao dar o nome de “terceira via” à aceitação submissa da ordem dominante, ou não entendem a gravidade da situação, acreditando num sonhado resultado positivo que vem sendo prometido por quase um século, mas que não dá sinais de se realizar.” (MÉSZÁROS, István. O Século XXI: Socialismo ou Barbárie? Boitempo Editorial. 2003. p. 108).

Antes de darmos início ao que já se iniciou nas entrelinhas, fica a reflexão sobre a liberdade imposta (o paradoxo não é coincidência) pelo capitalismo, resguardado pelo conceito conveniente de democracia: “A igualdade é uma palavra oca a não ser que por igualdade se entenda a abolição de classes. Só destruindo as classes haverá igualdade.” (LÊNIN, Vladimir Ílitch. Como iludir o povo – com os slogans de liberdade e igualdade. Global Editora, 1979. p. 33).

UM GOLPE. 21 ANOS.

Há exatos 50 anos, no dia 1º de abril de 1964 (não há data mais sugestiva para aqueles que até hoje tentam macular os fatos históricos) caía o governo democrático brasileiro, na figura de seu presidente João Goulart, o Jango, após a burlesca marcha do General Mourão Filho, que articulara o golpe em vestes de dormir (imagino-o numa ceroula de seda, nas cores do Brasil, declamando de si para si seu ato heróico diante do espelho, numa espécie de devaneio sem maiores aspirações) no dia anterior, mas que se tornaria o estopim bem-sucedido para o estupefato golpe.
Apoiados pelo governo dos EUA, os militares marcharam para a vitória sem disparar tiros, sem ir ao campo de batalha, num silêncio que se seguiria por 21 anos. Fosse esta uma rapsódia, dar-se-ia a impressão de que o silêncio corroborara com o vergonhoso ato. Um silêncio de vergonha e das mordaças da tortura. Mas mais adiante veremos que ecoaram pelos cantos urbanos de algumas capitais, gritos delirantes da classe média, sempre reprodutora bajuladora das classes dominantes contra as reformas de base propostas por Jango. Estas aviltavam o poder consolidado da grande propriedade privada e especulativa da classe burguesa. Colocavam em xeque as enormes e vergonhosas inversões de capital em prol de uma minoria que se banhava em rios de ouro, enquanto outros e muitos bebiam água barrenta. Na verdade, era delírio da direita ultraconservadora. João Goulart vivia sob uma enorme pressão de ambos os lados (ambos os lados estavam insatisfeitos com seus posicionamentos – a crise política crescia e arremessava uma névoa obscura e pouco inteligível aos olhos de quem a analisava). Numa medida drástica para seus padrões, sendo muito influenciado por Leonel Brizola, Jango vociferou no famoso comício da Central do Brasil. Aparentemente escolhera pelo povo. Estava lançada a semente última para o Golpe. Dos gritos, sobraram somente os ecos que foram silenciados pela lógica nefasta dos porões, das torturas e das sistemáticas execuções realizadas pelos mecanismos de repressão da Ditadura.

Ao lermos, relermos a exaustão, refletirmos sobre o período, sempre enojados e desconcertados pela imundice daqueles anos, é quase impossível acreditar que um indivíduo minimamente pensante possa conceber tal ignomínia para seu país e seus concidadãos novamente. Porém…

SAUDOSISMO TOSCO E O PAPEL DA IMPRENSA

É da natureza de uma sociedade que possui memória desviar seus olhares para o passado, para analisar o presente e vislumbrar o futuro. No entanto, por vezes, este saudosismo pode ser tosco, pois que se pauta no desconhecimento de um período, ou até mesmo estúpido, por se pautar nos valores ideais do tempo presente, propagados pelos meios de comunicação elevados a poder inquestionável, quase que divino. Oras, durante os anos de chumbo a novela das oito (hoje, das nove, mas que sempre recebe os láureos horários nobres da emissora) e o Jornal Nacional da Rede Globo terão espaço e influência direta no enraizamento da despolitização do cidadão brasileiro, que como bem se sabe, já não era lá o povo mais bem educado politicamente das Américas.

As Organizações Globo, que desde os anos que precederam o golpe já se manifestavam tendenciosas a favor de um golpe reacionário, foi quase que elevada à condição de porta-voz do governo, mas, sempre, sob os auspícios inescrupulosos da retórica da “imparcialidade”. Vale a pena ressaltar que aqueles que defendem esta maniqueísta “imparcialidade”, são aqueles que estão sempre no topo da pirâmide. Não manifestar-se é necessariamente comprar a idéia do status quo, do poder estabelecido. A imparcialidade é uma das formas mais escusas e repulsivas de manutenção das castas burguesas no poder, da falsa moralidade e ética da estética pseudo-democrática, que por sua natureza é seletiva, branca, eurocêntrica. O mesmo se pode dizer da Revista Veja e congêneres, que trabalham sob o discurso falacioso da imparcialidade. Neste sentido, podemos mui brevemente citar a desarticulação dos movimentos orgânicos de contracultura dos anos 1960 e 1970 e a substituição desses por um padrão de consumo cultural meramente mercadológico, arquétipo do lixo artificial e estéril dos anos 1990 em diante. De Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zé Celso, Glauber Rocha, O Pasquim (e tantos outros, tão importantes) à Luan Santana, Ivete Sangalo, Luciano Huck, Xuxa (e tantos outros tão desimportantes), ou qualquer lixo que se queira nomear.

Vale lembrar que neste pêndulo histórico, pouco se tem abordado sobre a manifestação da imprensa à época do Golpe Militar. Uma significativa parte da imprensa, mais uma vez respaldada pelo discurso da “imparcialidade”, foi absolutamente acrítica, evasiva e conivente ao golpe. Uma vez mais, os epítomes são a Rede Globo e a Revista Veja. Por muito tempo, ambas as mídias se esquivaram da matéria, apoiando-se nos efeitos certamente limitadores da censura, sobretudo a partir do AI-5. Não obstante, as manifestações de Junho do ano passado não deixam espaço para quaisquer dúvidas (se é que alguém tem alguma dúvida) sobre as inclinações destes dois veículos dominantes de comunicação. A começar pela clarividente apropriação da legítima reivindicação do MPL (Movimento Passe Livre) e subseqüente desfoco para uma pauta artificializada, sem mote e blasé. O discurso de que a luta não era por 20 centavos (o que não deixa de ser uma verdade, evidentemente) foi tão bem articulado, que antes mesmo de findar aquele mês, pôde-se assistir ao vivo (e com grande audiência) a desmobilização da população, num primeiro momento por reivindicar a absurda despolitização do movimento (dá pra acreditar?), depois ao deslegitimizar as ações “violentas”, enquadrando-as todas como atos de “vandalismo” e por fim (ah, por essa ninguém esperava) o ataque do conservadorismo ao Governo Dilma, à corrupção, aos mensaleiros… Jogada de mestre. O povo brasileiro é novo no jogo. Os caras são ases. Só faltou o Maluf na TV pra dizer que “foi ele que fez”. Pra findar esta digressão, que já nos embrulha o estômago, vale ressaltar o infeliz e trágico acidente mortal ocorrido com um cinegrafista da TV Bandeirantes. Fez-se primeiro parecer que aquela luta era a luta de “forças invisíveis” contra a imprensa livre e imparcial (olha a “imparcialidade” aqui de novo). Segundo fez-se sugerir que a esquerda estava envolvida em financiamentos escusos ao aparelhamento de movimentos apolíticos (oras, se são apolíticos, por que raios seriam financiados por partidos e por que, necessariamente, tinha que ser um partido da esquerda?), como os Black-Blocs. E em terceiro, a partir da imagética abstrata, mas muito bem desenhada, fez parecer que as manifestações eram subterfúgios inquestionáveis para ações de “vândalos” e “criminosos”. Pronto. O Brasil volta-se para o Carnaval e tudo volta à normalidade (ou seja, às normas de que a parcimônia popular está a serviço de quem detém interesses maiores por detrás da sujeira maculada pela imprensa em seu benefício próprio). O tempo livre, potencial destruidor das verdades incontestáveis, é substituído pelo valor e necessidade do labor, “na sociedade capitalista, produz-se tempo livre para uma classe transformando todo o tempo de vida das massas em tempo de trabalho” (MARX, Karl. O Capital. Livro I. Boitempo Editorial. 2013. p. 597), ou pelo famoso Panis et Circensis da Roma Antiga. E não se esqueça, logo mais vem a Copa do Mundo. A gente se vê por aqui…

SAUDOSISMO TOSCO E O TIRO DO PT NO PRÓPRIO PÉ

Como nós pudemos verificar, o risco de um saudosismo tosco como este é não compreender as especificidades históricas de dado tempo. É chamar a Ditadura brasileira de “Ditabranda”, como o fez o jornal Folha de São Paulo. É reeditar a vexatória Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade (quão geniais são estes indivíduos: convocar a volta dos milicos – ou seja, do regime ditatorial – para instaurar uma liberdade guiada pela família cristão-burguesa. Ridículo, esdrúxulo, risível, mas extremamente perigoso). É desenhar com os lápis de ontem nos papéis de hoje a ascensão de grupelhos da direita ao Congresso Nacional sob a nomenclatura estapafúrdia de “bancadas religiosas” inseridas num estado laico, ou de “bancadas ruralistas” (sim, os mesmos grupos latifundiários que outrora apoiaram a derrubada de Jango no Golpe de 1964), mas com relações tão promíscuas politicamente, que se esquece da necessidade urgente de uma reforma política que impeça as aberrações que temos visto no Circo que se tornou a Política Nacional nos últimos anos (será que em algum momento ela foi algo senão um banquete da palhoça engravatada?). Eis uma das críticas que se pode fazer ao PT: a eterna demora para realizar uma reforma política que atenda aos interesses verdadeiros da nação.

Desde a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder, certo se fez verificar o incômodo que este trouxe à direita (faz-se necessário esclarecer que este sempre foi uma pedra no sapato da direita, desde a curva descendente do regime militar). Não pelo fato de o PT ser um partido originário da esquerda, pois, como bem sabemos, o PT tem cada vez mais decepcionado no quesito ideológico, relacionando-se promiscuamente com partidos ligados historicamente ao fétido (de sangue das torturas e assassinatos) ARENA. Embora seja inevitável reconhecer alguns importantes, mas por vezes, vacilantes avanços do Brasil no Governo do PT, há de se lembrar que este teve a “faca e o queijo na mão”, chegando ao poder e deixando atordoados todos os reacionários de plantão, que agonizavam desesperadamente diante da possibilidade de uma real modificação no país, do desbaratamento das estruturas tão bem disseminadas das relações de poder burguesas. No entanto, o PT preferiu “trocar um Plano de Governo, por um Plano de Poder”, nas sempre sábias palavras de Frei Betto, em palestra proferida no Itaú Cultural, no dia 15/03/2014, às 20h30, numa das peças que compuseram a I Mostra Internacional de Teatro de São Paulo.

As esperanças de que o PT modificaria o Brasil esbarraram em questões que merecem uma reflexão mais aprofundada, mas fica aqui uma provocação: será possível chegar ao poder pelas vias democráticas sem sujar as mãos com aqueles que até mesmo as têm sujas de sangue? O que eu quero dizer é que, para chegar ao poder, o PT aparentemente teve que abrir mão de muitas de suas convicções, afastando-se de suas bases e programas originais… Mas esta é outra história, a qual lanço o desafio ao amigo Roger de colocá-la em pauta aqui no Hum Historiador tão logo seja possível.

Mas antes que “tucanos” e demais aves silvestres regurgitem seu reacionarismo moralista em favor de seus aliados políticos nas bancadas de uma oposição que notadamente é tão ou até mais mensaleira que a bancada petista e bebam a cicuta socrática e saudosa de seus tempos no poder, vale lembrar que o PSDB já fizera uma política tão promíscua quanto à do PT com os filhotes da Ditadura, nos tempos de Fernando Henrique Cardoso, motivo pelo qual parceiros de tantos anos, como Octávio Ianni e Florestan Fernandes, romperam relações com o ex-presidente diante de sua postura paradoxal-esquizofrênica: presidente x sociólogo. O próprio FHC parece ter se desviado pelas ígneas relações do poder ao escrever um novo prefácio para a sua tese de doutorado, o clássico “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional”, re-publicado pela Civilização Brasileira em 2003, demonstrando tendências bem mais conservadoras e certamente mais alinhadas com o presidente do que com o sociólogo. O ex-presidente recentemente concedeu uma entrevista ao site UOL (http://tvuol.uol.com.br/video/ninguem-sabia-de-que-lado-viria-o-golpe-diz-fhc-04020D9B3668D8C94326) falando sobre o golpe militar, sugere que se não fossem os milicos, seria a esquerda radical que o faria, e parece realmente achar que não há como fazer política no jogo democrático senão sujando as mãos…

O fato é que o PT, com todos os defeitos e críticas que podem ser apontados, incomoda as classes dominantes por dar visibilidade àqueles que sempre foram invisíveis. Não quero parecer o defensor-mor do Partido dos Trabalhadores. Boa parte de tudo o que me agradava no partido foi desfeito, redesenhado, repaginado. Mas há como contestar historicamente, dentro das linhas mestras metodológicas e sob a luz do conhecimento científico de que o PT desempenha o melhor governo da História do Brasil? Para a direita o pensamento, por mais que bisonho, parece ser a de  que “aquele partido com origens vermelhas, mesmo se tratando de mencheviques, chegaram e conquistaram democraticamente o poder. Quão perigosos podem ser o bolcheviques tupiniquins, caso estes pousem em Brasília?”. Eis um grande problema. Eis o cerne da distinção de julgamentos: o porquê de o mensalão do PT ser devassado ao passo que o mensalão tucano nem ao menos foi julgado. Ora, a “opinião pública” é encabeçada pelas mesmas elites dominantes de outrora, que permeiam o imaginário coletivo em sua forma impositiva e conservadora, e que desta feita, de forma taciturna e muito bem articulada pelo monopólio dos meios de comunicação, se faz presente sob a égide da falaciosa retórica da imparcialidade, mero discurso da perpetuação do mesmo poder velho e caduco através dos mecanismos de opressão e despolitização das massas. Como bem nos explica Mészáros, numa releitura de Marx, “[…] as pessoas estão “acostumadas a se movimentar” dentro das relações estabelecidas da vida cotidiana capitalista, por mais que sejam irracionais e absurdas as equações práticas impostas a elas pelos processos metabólicos dominantes do referido sistema.” (MÉSZÁROS, István. O poder da ideologia. Boitempo Editorial. 2004. p. 481).

ANISTIA E A FALSA VITÓRIA

Ao final de sua dramática experiência no poder, através de uma anistia tendenciosa que os protegia juridicamente dos crimes cometidos, respaldados pela estéril volta da democracia (esta que serviria aos mesmos interesses daqueles que haviam realizado o golpe), os militares conseguiram solidificar as raízes da revolução burguesa no Brasil. A volta da democracia, embora significativa, não representava uma vitória verdadeira de fato, pois esta respaldava aqueles que seqüestraram o Brasil por 21 anos e institucionalizava aquilo que os militares preconizavam desde o início: uma vitória a qualquer custo da conservação do status quo da sociedade brasileira sobre as reformas imperativas que permitissem ao Brasil um desenvolvimento popular, mais justo e equânime, que não consentiria com o atual gigantesco abismo de concentração das riquezas nas mãos de tão poucos, em detrimento de outros em condições tão precárias. Do ponto de vista da luta de classes, o golpe militar estancou ao longo dos anos de chumbo a vitalidade da esquerda que, outrora ativa, se desconcertou e até hoje se indaga sobre seus rumos. Com a volta da democracia, ao invés de se ter a liberdade sobre o debate a respeito das vias socialistas para a sociedade brasileira, propondo a continuidade dos debates acerca da necessidade de se distribuir melhor as riquezas depois do interregno militar, parece ter triunfado o capitalismo, como se este estivesse indiscutivelmente atrelado a um suposto ideal democrático unívoco. Mas, como já vimos, a liberdade no capitalismo é uma ilusão: “A sociedade capitalista contemporânea procura dar aos sujeitos a impressão de eles terem possibilidades infinitas, de poderem decidir sobre tudo, a todo o momento. Um pouco como as decisões de consumo, cada vez mais “customizadas” e particularizadas. No entanto, talvez seja correto dizer que essa ação não é um verdadeiro agir, pois é incapaz de mudar as possibilidades de escolha, que já foram previamente determinadas. Ela não produz seus próprios objetos, apenas seleciona objetos que já foram previamente postos na mesa, Por isso, essa ação não é livre.” (SAFATLE, Vladimir. A Esquerda que não teme dizer seu nome. Três Estrelas, 2012. p. 18).

Sobre este tema, fica a sugestão de, se puderem, assistirem à peça “Escola”, peça chilena presente na I Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Pautada na reflexão da ditadura chilena, assim como esta nossa última reflexão, aborda-se o plebiscito nacional que decidiria o rumo da ditadura no país. Claro está que seja pra que lado for o plebiscito (para a manutenção da ditadura ou a restauração democrática), somente um lado será vitorioso: o dos milicos, afinal, não se discute a fundo as causas e, sobretudo as conseqüências da ditadura militar naquele país. Com a volta da democracia, esquece-se a luta, pois se tem a falsa impressão de vitória e liberdade. Recorro a Lênin: “Qualquer espécie de Liberdade é uma fraude, se é contrária aos interesses da emancipação do Trabalho da opressão do Capital.” (LÊNIN, Vladimir Ílitch. Como iludir o povo – com os slogans de liberdade e igualdade. Global Editora, 1979. p. 26-27).

A ESQUERDA E A NECESSIDADE DE SE REVIGORAR A LUTA E A CONSCIÊNCIA DE CLASSE

A mídia burguesa, bem amparada pelos mecanismos de repressão do golpe militar, fez acreditar por todas as instâncias que a luta de classes não mais existe. Esta é talvez a mais descarada e descabida alegação da direita para a manutenção de seu poder estabelecido. A esquerda precisa lutar pelo revigoramento da luta e da consciência de classes, embora o trabalho seja árduo e cada vez mais difícil de ser atingindo. Acima, pude provocá-los quanto ao questionamento de ser ou não possível modificar radicalmente os rumos políticos de uma nação pelas vias democráticas. Pensar em uma modificação de caráter radical usualmente é pensar em revolução. Mas é possível no atual cenário conceber uma revolução? Desde o restabelecimento democrático no Brasil jamais havíamos nos deparado com um posicionamento tão claro dos setores conservadores do país, sobretudo das grandes mídias, serviçais das estruturas panópticas que trabalham exaustivamente pela conservação do poder hegemônico nacional. Nasce, pois, uma esperança burlesca, mas bela e poética, de uma mudança dramática nos rumos da sociedade. Não obstante, assim parece, todos os dias, que uma melancólica constatação da realidade nos esbofeteia. Por que somos presas de tal sentimento? A resposta nos parece óbvia: o golpe militar instituiu nas entranhas da cultura política brasileira, e por conseqüência, na cultura social dos cidadãos brasileiros, uma incapacidade de se mobilizar politicamente contra a estrutura sócio-metabólica do capital. No entanto, as brechas, embora mais escassas, de tempos em tempos reaparecem. Como professor, e acreditando em meu papel social, sendo instrumento propulsor de contestação da ordem vigente para as novas gerações, posso afirmar que através da educação podemos, ainda, politizar os indivíduos ao ponto de serem eles a próxima vanguarda para uma política verdadeiramente revolucionária.

CONCLUSÃO: A FAGULHA INCENDIÁRIA

Como historiador, consigo somente me pautar pelo o que vi, pelos longos estudos das ações humanas ao longo dos séculos, dos milênios, pelas noites mal dormidas, pela angústia perene de um conhecimento tão vasto, o qual conheço somente uma ponta mínima e que me arrebata de felicidade e tristeza, simultaneamente, e ao vasculhar o passado e tentar (quase sempre em vão, ou ao menos, em pretensos momentos de epifania, que evaporam no momento seguinte) interpretá-lo no presente. Minha impressão é de que a direita teve um êxito quimérico ao nos fazer acreditar que a democracia é a vitória de todos. Infelizmente, como sabemos, a democracia está a serviço daqueles que persistem no poder. No caso de nosso tempo, os burgueses, desde a Revolução Francesa de 1789. Sob a bandeira melíflua da liberdade, igualdade e fraternidade, fazem-nos crer, com um cinismo que beira à ridicularização, de que somos iguais, livres e, de fato, fraternos. A sociedade meritocrática atual parte do pressuposto de que temos todos as mesmas oportunidades. Brancos e negros, a despeito de séculos de escravidão dos últimos. Homens e mulheres, a despeito do machismo disseminado ao longo dos últimos (pelo menos) 2500 anos. Ricos e pobres. Ocidentais e Orientais. A díade dos contrários pode se estender por muitas e muitas linhas. Como vimos, sob a perspectiva marxista, pensar a liberdade passa necessariamente por eliminar por completo a sociedade burguesa. Revogar imediatamente as caducas concessões dos meios de comunicação que servem somente aos interesses dos poderosos e que alimentam com prato raso refeições insuficientes. Estatizar todos os meios de produção e de reprodução sócio-metabólica do capital, destituindo assim todas as suas forças endógenas, inclusive aquelas que permeiam as relações estruturais antagônicas da agonizante (mas ainda viva) luta de classes, revigorando um movimento radical de massa e recolocando o socialismo em sua trajetória histórica revolucionária em contraste à permissiva postura social democrata da “nova esquerda”. “Por isso a atualidade histórica da ofensiva socialista tem imenso significado. Pois, sob as novas condições de crise estrutural do capital, torna-se possível ganhar muito mais do que algumas grandes (mas, no fim das contas, terrivelmente isoladas) batalhas, como as Revoluções Russa, Chinesa e Cubana.” (MÉSZÁROS, István. Atualidade Histórica da Ofensiva Socialista. Boitempo Editorial. 2010. p. 68).

A fagulha incendiária apenas aguarda a palha seca pra se disseminar, mas encontra-se muito mais nas batidas descompassadas do peito, do que necessariamente na análise criteriosa e intelectual das diversas possibilidades. Quem sabe ambas não se encontram fortuitamente e mudam os rumos deste mundo que beira à extinção? Pelo futuro da humanidade, que assim seja.


Daniel Mafra é professor de História, vocalista e guitarrista do duo hardcore DANO, músico, compositor, falso poeta e proto-escritor. Graduado em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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