Arquivo do mês: junho 2014

Sobre meninos e a Copa do Mundo

Vinícius Mota, jornalista e Secretário de Redação da Folha de S. Paulo.

Novamente venho comentar uma coluna de muito mau gosto, assinada por Vinicius Mota, que foi publicada na Folha de S. Paulo de hoje (30), intitulada Volta, Dunga.

Começo meu comentário destacando um trecho do início da coluna, no qual Vinicius Mota afirma que o Brasil foi salvo pela trave, engrossando o coro daqueles que estão a dizer que a baliza do Mineirão é brasileira, (alguns chegando ao ridículo de afirmar que a dita trave seguramente foi feita de pau-brasil). Ora, todas as vezes que leio ou escuto isso sendo repetido na mídia me pergunto: a trave do Mineirão fez gol no excelente goleiro Bravo? A trave do Mineirão bateu algum pênalti? Mais ainda, a referida baliza defendeu algum dos pênaltis batidos pela ótima Seleção do Chile? Então por que raios parte da imprensa brasileira insiste em menosprezar o feito dos jogadores e minimizar a passagem do time de Felipão para as quartas-de-final, considerando que tudo não passou de uma mera questão de sorte?

O Brasil pode não ter jogado bem como se esperava, e é certo que a Seleção tem muitas deficiências, contudo esse time deve ter tido algum mérito para eliminar aquela que é considerada a melhor seleção chilena de todos os tempos e, vale lembrar, corresponsável pela eliminação precoce da atual campeã do mundo, Espanha.

Contudo, não foi o princípio dessa coluninha de Mota que me deixou abismado, mas o desenvolvimento da mesma, no qual o jornalista mostra um profundo desrespeito pelas pessoas que estão representando o Brasil nessa Copa do Mundo. Em um momento de profunda infelicidade, Mota chega ao extremo de chamar os jogadores brasileiros de…

“(…) meninos mimados [que] entram em pane. Deixam-se dominar por adversários mais fracos. Choram”.

Gostaria muito de ver se Vinícius Mota teria coragem de chegar na frente de um Thiago Silva, de um Fernandinho, de um Ramires, de um Luiz Gustavo e falar, cara-a-cara, olho-no-olho de cada um desses indivíduos, uma barbaridade dessas.

Embora tenham pouca idade, a maior parte desses jovens passaram por experiências mais duras do que muitos brasileiros. Conviveram com a pobreza extrema, perderam pais ou mães ainda muito jovens, viveram anos longe de suas famílias em busca de um sonho, em quartos compartilhados de CT’s e, até mesmo, debaixo de arquibancadas, tendo se tornado arrimo de família ainda na adolescência, responsabilizando-se pela vida financeira dos pais (para os que ainda os tem) e pelo futuro de irmãos mais jovens. Portanto, são pessoas já calejadas por percalços da vida que jamais poderiam ser chamadas inconsequentemente de “meninos mimados”, como fez o jornalista.

Vejam abaixo, algumas histórias dos “meninos mimados”, como os definiu Vinícius Mota. Em especial, vejam a história de Luiz Gustavo e Thiago Silva:

RAMIRES

LUIZ GUSTAVO

THIAGO SILVA

FERNANDINHO

DANTE

Depois de tudo isso, poderá alguém chamar esses homens de “meninos mimados”?

Como não poderia deixar de ser, a conclusão da coluna de Vinícius Mota é tão ruim como todo o resto do texto, e clama pela volta de Dunga. Segundo o jornalista, faltaria alguém com o perfil daquele jogador no comando da Seleção dentro das quatro linhas. Opiniões à parte, daqui destaca-se, uma vez mais, que o colunista faz questão de menosprezar os atuais jogadores da Seleção (em especial aqueles que exercem papel de liderança) apenas para reafirmar, na última linha de seu patético texto, que tratam-se de crianças e que resta-nos esperar que a experiência negativa vivida por esses jogadores no último sábado…

“(…) represente a passagem para a vida adulta dessa geração”.

Além de desrespeitoso, Vinícius Mota revela toda sua ignorância, em especial, em relação ao histórico dos jogadores dessa Seleção. Boa parte deles trata-se de gente sofrida para quem, a eliminação da Copa do Mundo, seria sim uma grande frustração, mas nada comparado à perda do pai, da mãe ou dos anos de pobreza e privação que viveram no começo de suas vidas. Homens que se tornaram adultos, ao contrário do que afirma o infeliz Mota, cedo demais.

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Clóvis Rossi: exemplo do jornalismo mau intencionado

Clóvis Rossi, jornalista da Folha.

Nesse domingo, o jornalista Clóvis Rossi, da Folha de S. Paulo, escreveu um artigo exemplar de toda sua má intenção ao cobrir a participação do Brasil na Copa do Mundo: Brasil vai indo, medíocre até nos pênaltis.

O título do artigo, repleto de sentidos, já indica que embora se trate de um texto sobre o jogo mais recente do Brasil na Copa do Mundo, também contará com algumas pitadas sobre como o país vem sendo conduzido politicamente (que, pelo que indica o título, vai indo mediocremente).

Uma rápida olhada no texto bastaria para perceber a mediocridade (não do Brasil, mas de Clóvis Rossi) e a má intenção do articulista ao falar do tema que se propõe, a Copa do Mundo:

“[o Brasil foi] Tão mal que não conseguiu vencer o Chile, derrotado com folga em três Copas anteriores”.

Como se o Chile que entrou no gramado do Mineirão ontem fosse o mesmo que atuou em três edições de Copas anteriores e que, coincidentemente, o Brasil derrotou. Para quem não vem acompanhando as notícias da Copa, a imprensa especializada vem justamente destacando de como esta seleção do Chile é a melhor de todos os tempos. Então, como Rossi pode vir a público e escrever parvoices como essa? Desconhecimento ou má-intenção? Ah, sim! Deve-se levar em conta que o que fez Rossi acima, é uma prática normal da Folha e de muito de seus jornalistas. Vê-se, frequentemente, textos de jornalistas que buscam tirar a complexidade dos eventos passados, tornando-os como se fossem algo homogêneo e previsíveis, que podem ser trazidos para o presente ao bel prazer de qualquer um, para justificar uma impressão ou opinião do presente. Segundo essa operação, se o Chile perdeu em algumas oportunidades jogos contra o Brasil na Copa do Mundo, logo ele está fadado a perder eternamente para a Seleção Canarinho e, se algum dia o Chile ousar a ganhar, não será por mérito próprio, mas por um vexame do Brasil.

Não satisfeito com as primeiras tolices que disse, Rossi complementa os absurdos de seu texto afirmando que:

“[a partida] teve que ir aos pênaltis e, ainda assim, esgotar toda a série de cinco”.

Como se os jogadores brasileiros fossem obrigados a converterem seus pênaltis, independente das condições e do contexto (tal como a forte pressão sobre os jogadores de ter que ganhar uma Copa realizada no Brasil) e, pior ainda, por considerar que seja mais do que natural que alguns jogadores do Chile tenham que perder seus pênaltis (já que segundo a interpretação de Rossi, o certo seria sequer precisar dos cinco pênaltis).

A conclusão do artigo consegue ser ainda pior do que todo o resto, especialmente quando Rossi diz que:

“(…) o futebol do Brasil, até agora, dá para eliminar os sul-americanos (nem que seja nos pênaltis), mas parece pouco para enfrentar Alemanha ou França, um dos prováveis rivais na semi-final”.

Como se o futebol praticado por europeus fosse de um nível muito superior àquele jogado pelos sul-americanos. Parece que o articulista não tem acompanhado a Copa e não viu que velhos campeões europeus como Itália, Espanha e Inglaterra já voltaram para suas respectivas casas, eliminados da Copa do Mundo justamente por sul-americanos como Costa Rica, Uruguai e Chile. Revelando um já vencido “complexo de vira-latas”, na expressão de Nelson Rodrigues, no qual o futebol sul americano é menosprezado diante do futebol europeu, quando o desenrolar da Copa das Copas tem mostrado justamente o reverso dessa moeda.

Brasil vence Chile

Brasileiros comemoram classificação após vitória nos pênaltis contra o Chile. 28.jun.2014. Foto: Flávio Florido (UOL)

Para concluir, me parece evidente que Clóvis Rossi está escrevendo sobre o jogo de ontem, com olho na vida política do Brasil. Especialmente meses antes das eleições presidenciais. Como já mencionado, ao falar que o Brasil “vai indo, mediocremente”, ele parece referir-se não apenas à Seleção Canarinho, mas também ao país. Sabe-se que o resultado dessa Copa do Mundo terá, inevitavelmente, alguma influência nas urnas. Muitas pessoas que se opõem ao governo de Dilma Rousseff acreditam que uma eliminação precoce do Brasil poderia diminuir a popularidade da presidenta a ponto de colocar em risco sua reeleição. Eu, particularmente, não acredito nisso. No entanto, jornalistas e veículos que fazem oposição sistemática ao governo (como Rossi e a Folha), exploram qualquer possibilidade que possa tirar alguns votos de Dilma, mesmo que seja através de um artigo mal escrito, buscando associar uma alegada mediocridade da apresentação da Seleção Brasileira, com a mediocridade da condução política brasileira, na opinião do jornalista. Vergonhoso!

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Baixe livros gratuitamente direto da Biblioteca Digital do Senado Federal

Livro_Senado_FederalO Senado Federal disponibilizou para download gratuito os livros das coleções “Edições do Senado Federal”, bem como os da “Biblioteca Básica Brasileira”. Ambas coleções contém títulos clássicos do pensamento brasileiro, além de contribuições recentes de pensadores contemporâneos. Na coleção é possível encontrar nomes como Raimundo de Farias Brito (1862-1917), Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), Francisco José de Oliveira Viana (1883-1951), Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), dentre outros.

Os títulos da coleção podem ser adquiridos no Portal de Publicações da Biblioteca do Senado. No entanto, alguns deles estão disponíveis para download grátis na biblioteca digital do Senado. Na lista abaixo se encontram os títulos gratuitamente disponibilizados:

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Mapas disponibilizados para download na Biblioteca Pública de Nova York

NOTÍCIA RETIRADA DO BLOG DA BIBLIOTECA PÚBLICA DE NOVA YORK | 28.03.2014
tradução livre por José Rogério Beier | 20.06.2014

A divisão de mapas Lionel Pincus & Princess Firyal anunciou o lançamento de mais de 20,000 trabalhos cartográficos que foram disponibilizados para downloads em alta definição. Por acreditar que esses mapas não possuem restrições de copyrights, a Biblioteca Pública de Nova York (NYPL) está distribuindo essas imagens sob a licença: Creative Commons CC0 1.0 Universal Public Domain Dedication.

Os mapas podem ser visualizados através da página de Coleções Digitais da Biblioteca Pública de Nova York e baixados (em alta resolução), através do sistema Map Warper. Primeiro, crie uma conta, em seguida clique sobre o título do mapa e pronto.

Plano da Baía Ridge Parkway, Olmsted, Olmsted & Eliot Landscape Architects, 1895

O que isso tudo significa?

Significa que você pode ter os mapas, todos eles se assim o preferir, de graça, em alta resolução. Os mapas foram escaneados para habilitar o seu uso das maneiras mais amplas pelo maior número de pessoas.

Embora não seja requerido, se você quiser creditar a Biblioteca Pública de Nova York, você pode utilizar o seguinte texto: “Da Divisão de Mapas da Lionel Pincus & Princess Firyal, The New York Public Library.” Fazendo isso você nos ajuda a rastrear o que ocorre quando lançamos coleções como essa ao público e gratuitamente de baixo sob termos bastante abertos. Tais coleções inspiram todos os tipos de criatividade, inovação e descoberta, valores bastante caros à Biblioteca Pública de Nova York (segundo o blog).

Carta social e sanitária do quarto quarteirão da cidade de Nova York, para acompanhar um relatório da Inspeção Sanitária do Quarto Distrito. 1864.

Um pequeno histórico de como eles chegaram até esse ponto. A biblioteca vem escaneando mapas há cerca de quinze anos, tanto como parte do trabalho geral da Biblioteca Pública, mas também por conta de projetos de financiamento como o de 2001, intitulado National Endowment for the Humanities (NEH) que financiou American Shores: Maps of the MidAtlantic to 1850, o de 2004 Institute of Museum and Library Services (IMLS) que financiou Building a Globally Distributed Historical Sheet Map Set e o de 2010 que financiou New York City Historical GIS.

Através desses projetos, foi construída uma grande coleção de: 1,100 mapas dos Estados Unidos centro-atlântico e suas cidades desde o século XVI até o XIX, a a maioria retirada da coleção Lawrence H. Slaughter; uma coleção bastante completa, contendo mais de 700 mapas topográficos do Império Austro-Húngaro criados entre 1877 e 1914; uma coleção de 2,800 atlas do estado, condado e cidade (na maioria de Nova York e Nova Jersey); uma coleção imensa contendo mais de 10,300 mapas de propriedades, zoneamento, topográficos, mas sobretudo de atlas compostos por mapas de seguro contra incêndio da cidade de Nova York datando de 1852 a 1922; e uma coleção incrivelmente diversificada de mais de 1,000 mapas da cidade de Nova York, e sua vizinhança, datados de 1660 a 1922, detalhando transportes, desenvolvimento real do estado, urbanização, desenvolvimento industrial e poluição, geopolítica entre muitas outras áreas.

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[GIANNOTTI] A USP deveria cobrar mensalidades dos alunos?

Em sua já tradicional coluna TENDÊNCIAS E DEBATES, o jornal Folha de S. Paulo trouxe hoje a opinião do professor de filosofia da USP, José Arthur Giannotti, sobre a polêmica questão de se cobrar mensalidade dos alunos da Universidade. Para o professor, a universidade pública NÃO deveria cobrar mensalidades de seus alunos, posição diferente de Leandro Tesser, 52, professor de física da Unicamp.

O autor do Hum Historiador gostaria de deixar claro que é frontalmente contrário à cobrança de mensalidades em universidades públicas, alinhando-se, portanto, com a opinião do professor Giannotti.

Abaixo, a repercussão na íntegra dos textos do professores Giannotti e Tessler tal como publicada no jornal FOLHA DE S. PAULO desse último sábado (07).

POR QUE NÃO VENDAR A USP?
NÃO

por José Arthur Giannotti

A USP tem gasto mais com seu pessoal do que recebe do Estado. Muitos de seus alunos podem arcar com os estudos. Não seria natural que viessem a pagar por eles? Segundo qual critério? A renda de suas famílias? Em vez de adotar uma medida paliativa, por que não vender a própria universidade, transformá-la numa dessas instituições de ensino que distribuem diplomas como vendem bananas?

Como estamos vendo, basta levar ao limite a proposta de cobrança das mensalidades para que se evidencie o absurdo dessa medida. A ideia não leva em consideração que, assim como a Unicamp e a Unesp, a USP é pública. Apenas revela como a noção de espaço público está desparecendo do imaginário e da política brasileiros. E parte de um diagnóstico errado, como se a crise da USP e de tantas outras instituições de ensino fosse provocada antes de tudo por falta de verba.

Uma instituição pública é aquela em que os cidadãos, cumprindo requisitos necessários publicamente estipulados, podem frequentá-la independentemente de diferenças de classe, cor, sexo, religião e assim por diante. Por certo esse seu caráter foi trincado por louváveis ações afirmativas facilitando o ingresso de grupos desfavorecidos, mas são medidas provisórias que, no fundo, resolvem gargalos que deveriam ter sido resolvidos no ensino fundamental e secundário.

Em virtude de seu mandado, a universidade pública, encarregada de promover ensino de qualidade, promover pesquisas e a extensão, é um dos espaços privilegiados da República, onde a nação também apreende o que ela é, projeta seu futuro e se integra ao contexto mundial. Privatizá-la equivale a arrancar o coração de nossa nacionalidade e transformar o país num grande mercado.

Mas, infelizmente, a USP e outras instituições de ensino têm sido privatizadas, não pelo capital, mas por suas próprias burocracias, que se aglutinam para disputar vantagens nas carreiras e nas facilidades instaladas nos campi. Grupos burocráticos e ideológicos de professores disputam cargos e se apropriam deles, constroem suas carreias nem sempre segundo o estatuto universitário.

Assessorias cuidam mais de si mesmas do que dos assessorados. E não deixa de ser sintomático que o sindicado dos professores pressione para que os avanços nas carreiras sejam obtidos sobretudo por tempo de serviço. Mutatis mutandis.

O mesmo não acontece com certos funcionários que se instalam em seus cargos como se fossem o sofá de casa? Professores e funcionários pertencem à universidade ou ao departamento onde dão expediente? Por que um bom pesquisador deve ter a mesma carreira que um bom professor? Nem sempre eles possuem as mesmas qualificações. Por fim, não se deve esquecer aqueles alunos que usam o espaço da universidade como palco de suas divergências ideológicas e opções pessoais.

A crise da USP é maior que seu deficit. Há tempos que a pesquisa, no mundo inteiro, tem abandonado as universidades para se concentrar em centros mais autônomos e menos burocratizados. Se quisermos resolver pela raiz os problemas das universidades públicas paulistas, é preciso executar uma reforma que vá além da simples infusão de novas verbas. O cerne da questão reside em como a universidade pública está exercendo o mandato que a sociedade lhe confere.

Para que ela se reforme a si mesma, encontre seu enorme potencial, hoje desbaratado, necessita de maior autonomia, contrabalançada por um forte sistema de avaliação externa. Autonomia ampla, isolada dos alinhavos da burocracia do Estado, que force seus membros a virem a ser o que devem ser –antes de tudo, consciência e sementes de uma nação.

José Arthur Giannotti, 84, é professor de filosofia da USP e membro do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

Na mesma edição, a Folha também trouxe a opinião de Leandro Tesser, professor de física da Unicamp, para quem as universidades públicas deveriam SIM cobrar mensalidades de seus alunos. Abaixo a repercussão na íntegra da opinião do professor Tesser

UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIO
por Leandro Tesser

Não demorou muito para a Folha sugerir que a cobrança de mensalidades pode ser uma solução para a crise financeira da USP (e por tabela das demais universidades estaduais paulistas). Segundo o jornal, pelo menos 60% dos estudantes poderiam pagar mensalidades. A universidade poderia arrecadar 44% do repasses do governo a partir desse modelo. O assunto é delicado e exige uma reflexão mais profunda.

Nunca vou esquecer a expressão de espanto que vi no rosto de uma alta autoridade da educação superior brasileira quando soube que nos Estados Unidos e na maior parte da Europa o ensino superior público é pago. Os brasileiros acostumaram-se a pensar que ensino público é sinônimo de gratuito. Não é.

O raciocínio que sustenta a gratuidade do ensino superior público brasileiro envolve duas premissas: (1) o Estado deve prover educação gratuita em todos os níveis para garantir o acesso equitativo, inclusive de quem não tem condições financeiras e (2) a sociedade deve arcar com esses custos para garantir a formação de profissionais competentes que devolverão o investimento ao longo de sua atuação profissional.

O modelo de financiamento da universidade pública brasileira, em particular das estaduais paulistas, onde temos uma parcela fixa da arrecadação, é único no mundo. Ao contrário dos poucos demais países onde o ensino superior público é gratuito, aqui o ingresso é sujeito ao sucesso numa bateria de testes escritos para garantir “acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um”.

A citação é da Constituição de 1988. O processo resulta num dos mais perversos mecanismos de transferência de renda das classes mais pobres para as mais abastadas no mundo. Como o Estado não é capaz de prover educação fundamental pública de qualidade similar à privada (por quê?), a maior parte das vagas no ensino superior público e gratuito é ocupada por egressos de escolas privadas cujas mensalidades podem custar mais do que nas instituições de ensino superior.

Segundo estudo recente do Banco Mundial, cada ano passado numa instituição de ensino superior resulta no Brasil em um bônus salarial médio de 12%. Esse é o maior valor entre os países estudados. É correto que o Estado seja o financiador exclusivo das vantagens que a universidade proporciona ao indivíduo?

Nas melhores universidades públicas do mundo, os estudantes pagam para estudar. No entanto, o volume do pagamento das mensalidades (a palavra em português para isso é propina, apesar da conotação que ela tem na variante brasileira da língua) raramente ultrapassa 30% do orçamento.

Não é possível financiar pesquisa e desenvolvimento de ponta apenas com propinas, como bem demonstra o modelo de ensino superior privado brasileiro. O Estado não pode se isentar de sua responsabilidade com o financiamento do desenvolvimento, da inovação e da inclusão, sob pena de as instituições tornarem-se meramente centros de ensino onde não se faz pesquisa de ponta, fundamental para o desenvolvimento da sociedade.

Alunos que financiam ainda que parcialmente sua educação têm em média um maior comprometimento com o aprendizado. Eles sabem que o eventual fracasso numa ou noutra disciplina terá consequências financeiras, maiores que simplesmente uma nova matrícula. Isso muda sua relação com a instituição.

Sempre pode-se argumentar que cobrar propinas excluiria quem não tem condições de pagá-las. O sucesso do Prouni está aí para provar o contrário.

Com bons mecanismos de assistência social, é possível garantir que nenhum talento seria desperdiçado. É uma questão de princípio.

LEANDRO TESSLER, 52, é professor de física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

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