Sobre meninos e a Copa do Mundo

Vinícius Mota, jornalista e Secretário de Redação da Folha de S. Paulo.

Novamente venho comentar uma coluna de muito mau gosto, assinada por Vinicius Mota, que foi publicada na Folha de S. Paulo de hoje (30), intitulada Volta, Dunga.

Começo meu comentário destacando um trecho do início da coluna, no qual Vinicius Mota afirma que o Brasil foi salvo pela trave, engrossando o coro daqueles que estão a dizer que a baliza do Mineirão é brasileira, (alguns chegando ao ridículo de afirmar que a dita trave seguramente foi feita de pau-brasil). Ora, todas as vezes que leio ou escuto isso sendo repetido na mídia me pergunto: a trave do Mineirão fez gol no excelente goleiro Bravo? A trave do Mineirão bateu algum pênalti? Mais ainda, a referida baliza defendeu algum dos pênaltis batidos pela ótima Seleção do Chile? Então por que raios parte da imprensa brasileira insiste em menosprezar o feito dos jogadores e minimizar a passagem do time de Felipão para as quartas-de-final, considerando que tudo não passou de uma mera questão de sorte?

O Brasil pode não ter jogado bem como se esperava, e é certo que a Seleção tem muitas deficiências, contudo esse time deve ter tido algum mérito para eliminar aquela que é considerada a melhor seleção chilena de todos os tempos e, vale lembrar, corresponsável pela eliminação precoce da atual campeã do mundo, Espanha.

Contudo, não foi o princípio dessa coluninha de Mota que me deixou abismado, mas o desenvolvimento da mesma, no qual o jornalista mostra um profundo desrespeito pelas pessoas que estão representando o Brasil nessa Copa do Mundo. Em um momento de profunda infelicidade, Mota chega ao extremo de chamar os jogadores brasileiros de…

“(…) meninos mimados [que] entram em pane. Deixam-se dominar por adversários mais fracos. Choram”.

Gostaria muito de ver se Vinícius Mota teria coragem de chegar na frente de um Thiago Silva, de um Fernandinho, de um Ramires, de um Luiz Gustavo e falar, cara-a-cara, olho-no-olho de cada um desses indivíduos, uma barbaridade dessas.

Embora tenham pouca idade, a maior parte desses jovens passaram por experiências mais duras do que muitos brasileiros. Conviveram com a pobreza extrema, perderam pais ou mães ainda muito jovens, viveram anos longe de suas famílias em busca de um sonho, em quartos compartilhados de CT’s e, até mesmo, debaixo de arquibancadas, tendo se tornado arrimo de família ainda na adolescência, responsabilizando-se pela vida financeira dos pais (para os que ainda os tem) e pelo futuro de irmãos mais jovens. Portanto, são pessoas já calejadas por percalços da vida que jamais poderiam ser chamadas inconsequentemente de “meninos mimados”, como fez o jornalista.

Vejam abaixo, algumas histórias dos “meninos mimados”, como os definiu Vinícius Mota. Em especial, vejam a história de Luiz Gustavo e Thiago Silva:

RAMIRES

LUIZ GUSTAVO

THIAGO SILVA

FERNANDINHO

DANTE

Depois de tudo isso, poderá alguém chamar esses homens de “meninos mimados”?

Como não poderia deixar de ser, a conclusão da coluna de Vinícius Mota é tão ruim como todo o resto do texto, e clama pela volta de Dunga. Segundo o jornalista, faltaria alguém com o perfil daquele jogador no comando da Seleção dentro das quatro linhas. Opiniões à parte, daqui destaca-se, uma vez mais, que o colunista faz questão de menosprezar os atuais jogadores da Seleção (em especial aqueles que exercem papel de liderança) apenas para reafirmar, na última linha de seu patético texto, que tratam-se de crianças e que resta-nos esperar que a experiência negativa vivida por esses jogadores no último sábado…

“(…) represente a passagem para a vida adulta dessa geração”.

Além de desrespeitoso, Vinícius Mota revela toda sua ignorância, em especial, em relação ao histórico dos jogadores dessa Seleção. Boa parte deles trata-se de gente sofrida para quem, a eliminação da Copa do Mundo, seria sim uma grande frustração, mas nada comparado à perda do pai, da mãe ou dos anos de pobreza e privação que viveram no começo de suas vidas. Homens que se tornaram adultos, ao contrário do que afirma o infeliz Mota, cedo demais.

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2 Comentários

Arquivado em Esportes, Eventos, Jornais

2 Respostas para “Sobre meninos e a Copa do Mundo

  1. Edu

    Acho que vc tem razão. Futebol todos acham que entendem e tudo vem para o emocional. Temos dificuldade de aceitar que o futebol brasileiro embora ainda de alto nível, já não é o melhor ( ainda que ganhe a Copa, o que não acredito). Faltam craques, faltam jogadores carismáticos e que crescem com a dificuldade ( tipo Pele, Romário, Ronaldo), embora estes que estão aí ( 1 ou 2) ainda possam vir a se tornar estrelas de 1.a grandeza, senão nesta Copa, talvez em outra. Quando as coisas não vão bem começam a criticar o técnico ( campeão do mundo, otina classificação com Portugal em Eurocopa e no Mundial), os jogadores e lembrando daqueles que não foram etc… Quem esta lá, tem algum mérito, mas na derrota ou maus resultados, fica tudo terra arrasada. Se o Brasil ganhar estes mesmos caras vão exaltar as qualidades que mais criticavam. Não leve a sério opiniões sobre Futebol; não são sérias. Nunca serão.

  2. Bom, o fato é que fomos salvos pela trave, mas ela faz parte do jogo. O que acho que estava no imaginário de todos é que daríamos show, oferendo um futebol alegre, feliz, organizado e vencedor. Jogamos mediocremente, vencemos de modo tímido e seguimos adiante contando com a sorte. É pouco pra quem quer ser campeão.

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