[SAFATLE]: Quem está fazendo o jogo da direita?

Em sua coluna semanal da Folha, o professor Vladimir Safatle faz uma crítica justíssima à uma parte da esquerda com a qual concordo integralmente. Uma coisa é atacar a direita, suas falácias e más intenções, outra bem diferente é fechar os olhos para os erros do governo e virar as costas para bandeiras que sempre foram tão caras para a esquerda sob a justificativa de, se assim não o fizermos, estaremos “fazendo o jogo da direita”.

Ora, fazer o jogo da direita é apoiar as grandes corporações; fazer o jogo da direita é favorecer especuladores imobiliários e ignorar as remoções de populações sem-teto; fazer o jogo da direita é voltar-se contra trabalhadores em greve contra más condições de trabalho; fazer o jogo da direita é  ignorar que pessoas estão sendo feridas e presas injustamente por protestarem contra a Copa do Mundo. Seria realmente cômico (se não fosse trágico), o uso ad nauseam dessa argumentação por parte de alguns indivíduos que são, antes de tudo, governistas e não identificados com os valores da esquerda.

Abaixo, a repercussão na íntegra da coluna publicada pelo professor Vladimir Saflatle na Folha de hoje (01).

Vladimir Safatle, professor do depertamento de filosofia da USP

ESQUERDA PADRÃO FIFA
por Vladimir Safatle para a Folha de S. Paulo | 01.jul.2014

Aqueles dispostos a permanecer de esquerda e defender o governo federal deveriam pensar melhor sua maneira de compreender as críticas feitas à Copa do Mundo. A tentativa de desqualificar toda a crítica a partir do clássico sintagma “você está fazendo o jogo da direita” deveria ser motivo de vergonha. Tal argumentação estratégica só aparece quando não é mais possível utilizar raciocínios realmente programáticos.

Muitas das críticas mostraram com clareza como tais grandes eventos esportivos são um presente envenenado por potencializar um modelo de desenvolvimento excludente. Remoções brutais de populações, estádios construídos em condições deploráveis de trabalho, cidades atravessadas por megaprojetos feitos a partir da lógica da rentabilização máxima da especulação imobiliária, relações incestuosas entre recursos públicos e interesses de pequenos grupos de grandes empresários, incompetência gerencial feita expressamente para ajudar empreiteiras a lucrar mais: esta foi a mesma história encontrada na África do Sul, no Brasil e, certamente será repetida na Rússia.

Nos primeiros dois casos, ela conta como antigos grupos de esquerda, tais quais o partido CNA (Congresso Nacional Africano) sul-africano e o PT brasileiro, naturalizaram o fato de se transformarem em parceiros privilegiados da hiper-rentabilização do capital por meio do esporte. Hiper-rentabilização comandada por uma entidade eivada até a medula por acusações pesadas de corrupção.

Como se não bastasse, é triste não estranhar mais que uma política que se veja de esquerda abrace sem complexos a dinâmica anestesiante da sociedade do espetáculo.

Parece o sintoma mais acabado de falência ideológica usar megaeventos como dispositivo de mobilização nacional. Tentar reeditar a luta de classes por meio da defesa da Copa do Mundo é uma situação patética que alguns defensores do governo deveriam nos poupar. Mais um pouco e teremos gente que se dizia de esquerda gritando: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Enquanto isso, temos pessoas que são presas como criminosos por participarem de protestos e funcionários públicos que são demitidos por utilizarem a visibilidade da Copa a fim de organizarem greves cuja função era expor suas péssimas condições de trabalho. Seria bom nos atentarmos primeiramente para eles neste momento.

Eles não procuravam “estragar a festa” da população, mas lembrar que há muita gente que não foi convidada para dela participar.

A esquerda morre quando negocia sua força crítica por alguns ingressos de futebol.

VLADIMIR SAFATLE é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo.

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