A extrema direita estadunidense se desespera com o êxito do futebol no país

RACISTA E XENÓFOBA, PARA ANN COULTER, O AUMENTO NO INTERESSE DOS ESTADUNIDENSES PELO FUTEBOL É UM SINAL DA DECADÊNCIA MORAL DA NAÇÃO.

Um texto do portal Pragmatismo Político chamou minha atenção hoje. Trata-se de post que destaca um artigo produzido por uma celebridade estadunidense da extrema direita que conseguiu a proeza de escrever o artigo mais estúpido sobre a Copa do Mundo e o futebol, como acertadamente o classificou o pessoal do Pragmatismo Político.

Ann Coulter (reprodução)

Ann Coulter, advogada, colunista, escritora, apresentadora de TV, incomodada com o sucesso que a Copa do Mundo está fazendo nos Estados Unidos, forçou a mão ao falar sobre o assunto e fez uma caricatura grotesca sobre o esporte, seus praticantes e admiradores, além de demonstrar toda sua ignorância, preconceito e racismo, características tão comuns em membros da extrema direita estadunidense (e de qualquer outro país).

Como destacou o pessoal do Pragmatismo Político, não é novidade que os conservadores estadunidenses odeiam o futebol e o considerem algo fora do universo deles: “uma aberração no chamado ‘excepcionalismo’ dos EUA, coisa de imigrantes, pobres, liberais, etc.”. No entanto, Coulter pega todo o desespero que sente ao ver os estadunidenses gostando e se divertindo com o futebol, e despeja toda sua angústia partindo para o ataque através de um artigo racista e xenofóbico, para dizer o mínimo.

Abaixo, destaco alguns dos trechos do artigo original de Coulter (alguns já traduzidos pelo texto do Pragmatismo Político (PP), outros traduzidos livremente por mim (RB)), que foi publicado originalmente no The Clarion-Ledger em 26.jun.2014.

Começando pelo título do artigo:

  • Qualquer aumento de interesse no futebol é sinal da decadência moral da nação (trad. RB).

O destaque do artigo dizia o seguinte:

  • Se mais “americanos”* estão assistindo futebol hoje, é só por causa do intercâmbio demográfico que se tornou efetivo após a lei de imigração de Teddy Kennedy, em 1965. Eu lhe garanto: nenhum americano cujo bisavô nasceu aqui está assistindo futebol. Só podemos esperar que, além de aprenderem inglês, esses novos americanos deixem seu fetiche pelo futebol com o tempo (trad. RB).

* Cabe destacar que a palavra americanos, grafada com aspas, foi um recurso utilizado pela autora do artigo para colocar em dúvida se devem ser considerados estadunidenses aqueles que tem interesse por futebol. Também chamo atenção para o fato de toda vez que surgir a palavra “americano” em referência a nacionalidade do indivíduo com cidadania estadunidense, esta terá sido escrita pela autora do artigo, e não por mim.

  • A realização individual não é um grande fator no futebol (trad. PP).
  • No futebol, a culpa é dispersa e quase ninguém pontua. Não há heróis, não há perdedores, não há responsabilidade e não se machuca a frágil autoestima de nenhuma criança (trad. PP).
  • Existe uma razão por trás do fato das mães eternamente preocupadas serem chamadas de “soccer moms” e não “football moms” (trad. RB).
  • Mães liberais gostam do futebol porque ele é um esporte no qual o talento atlético tem tão pouca expressão que garotas podem jogar juntas com os garotos. Nenhum esporte sério permite tal prática, mesmo no nível do jardim da infância (trad. RB).
  • A perspectiva de humilhação pessoal ou uma lesão séria é necessária para que um esporte seja considerado como tal (trad. RB).
  • O beisebol e o basquete apresentam uma ameaça constante de desgraça pessoal. No hóquei, há três ou quatro brigas por jogo. Depois de um jogo de futebol americano, as ambulâncias carregam os feridos. Após uma partida de futebol, cada jogador recebe uma fitinha e uma caixinha de suco (trad. RB e PP).
  • Você não pode usar as mãos no futebol. (…) O que diferencia o homem dos animais menores, além de uma alma, é que temos polegares opositores. Nossas mãos podem segurar as coisas. Aqui está uma ótima ideia: vamos criar um jogo em que você não tem permissão para usá-las! (trad. PP).

Depois dessa imensa demonstração de ignorância, preconceito e especismo, faço uma pausa para destacar um texto que escrevi em 2007 (quando ainda era aluno de graduação do curso de História), intitulado Brasil: uma nação podólatra. O texto trata justamente sobre essa questão dos esportes praticados com as mãos e com os pés, com especial atenção para o fato de o futebol ter se tornado extremamente popular e identitário no Brasil.

  • O futebol é como o sistema métrico, que os liberais também adoram porque é europeu. Naturalmente, o sistema métrico surgiu a partir da Revolução Francesa, durante os breves intervalos quando não estavam cometendo assassinatos em massa na guilhotina (trad. PP).
  • Liberais ficam furiosos e nos dizem que o sistema métrico é mais “racional” do que as medidas que todos compreendem. Isso é ridículo. Uma polegada tem o tamanho do polegar de um homem, um pé é a medida do tamanho do pé de um homem, uma jarda é o tamanho de seu cinto. Isso é fácil de se visualizar. Como é que você visualiza 147,2 centímetros? (trad. RB).

A conclusão do artigo é, justamente, o destaque que foi utilizado como chamariz para a matéria na Home do portal, e que já foi destacada anteriormente.

  • Se mais “americanos”* estão assistindo futebol hoje, é só por causa do intercâmbio demográfico que se tornou efetivo após a lei de imigração de Teddy Kennedy, em 1965. Eu lhe garanto: nenhum americano cujo bisavô nasceu aqui está assistindo futebol. Só podemos esperar que, além de aprenderem inglês, esses novos americanos deixem seu fetiche pelo futebol com o tempo (trad. RB).

Além de profundamente desrespeitoso e ofensivo, o artigo de Ann Coulter é ainda mais triste, pois sabemos que representa exatamente o que milhões de estadunidenses pensam sobre si mesmos, e sobre o resto do mundo. Seria cômico, se não fosse trágico, pois todo esse preconceito e racismo não fica restrito ao mundo do futebol, mas é externalizado no tratamento diário que esses indivíduos dão às comunidades de imigrantes que lhes prestam serviços cotidianamente. Em contrapartida, e saindo um pouco do desespero de quem está vendo seu mundo ser transformado, é bastante animador ver que há estadunidenses se deixando empolgar pelo futebol e que, diferentemente do que fala Coulter, não se tratam apenas de imigrantes latinos e italianos. Sinal dos tempos, sim, mas não da decadência de uma nação, mas de um momento histórico em que ela começa a se abrir para o resto do mundo. Oxalá.

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2 Comentários

Arquivado em Blogs, Esportes, Eventos, Preconceito

2 Respostas para “A extrema direita estadunidense se desespera com o êxito do futebol no país

  1. É apenas mais uma ignorante. De um jeito ou de outro, o tempo se encarregará de revelar as suas verdades para essa pessoa

  2. José

    Concordo que o futebol sempre foi usado pelos governos como uma forma de pacificar e acalmar as multidões, dessa maneira eles não verão os saques que fazem no nosso país.

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