Falta de memória parece afligir eleitores de Aécio Neves

Alguns colegas  que recomendam o voto em Aécio Neves – por serem contrários ao governo da presidenta Dilma Rousseff (ou do PT) – andaram publicando em perfis de redes sociais imagens retiradas de um telejornal da Globo trazendo alguns indicadores macroeconômicos como Taxa de Juros (SELIC) e Inflação (IPCA) para criticar a política econômica do governo Dilma.

GloboNews_Inflação_Juros_PIB

Foto de infográfico apresentado em telejornal da Globo News que circula nas redes sociais.

Na imagem, como se pode observar, os analistas da Globo e seus reprodutores comparam indicadores macroeconômicos do Brasil com os de outros países latino-americanos, como México, Chile, Peru e Colômbia levando o observador a concluir que a situação econômica brasileira é pior do que a desses outros países.

Sem entrar no mérito das críticas que se poderiam fazer a esse tipo de abordagem comparativa, gostaria de questionar apenas o que levaria alguém a acreditar que a eleição do candidato tucano mudaria o quadro da política econômica. Certamente, o histórico de políticas implantadas durante a última gestão do PSDB não é, uma vez que a receita era exatamente a mesma, só que com índices mais altos, como demonstram os dados na planilha que elaborei abaixo.

SELIC e IPCA_FHC x Dilma

Planilha que preparei com base em dados históricos sobre a Taxa SELIC e o IPCA fornecidos pelo Banco Central do Brasil e IBGE.

Eu, particularmente, não devo votar em Dilma Rousseff no primeiro turno. A muitos que me acusam de petista, adianto desde já que meu voto será em Luciana Genro, do PSOL. No entanto, a questão que propus acima diante do que me pareceu a incoerência de alguns colegas, me levou a preparar uma planilha contendo os dados da Taxa SELIC e do IPCA (Inflação) durante os quatro anos da última gestão de FHC (1999-2002) e os quatro anos da gestão de Dilma (2011-2014). Meu objetivo era apenas colocar em perspectiva o ponto que os eleitores de Aécio estão criticando no atual governo da Dilma Rousseff e, diante do resultado, vê-se que aquilo que hoje criticam era, com índices ainda mais elevados, a política econômica que o PSDB levou a cabo durante toda sua gestão.

Se olharem bem na planilha acima, perceberão que no ano em que FHC deixou o governo, a Taxa SELIC anual foi de 25% ao ano e a inflação a 12,53%. Em contrapartida, se considerarmos os dados do mês passado, veremos que a SELIC estava em 11% e o IPCA em 6,52%. Sim, a política econômica pode ser melhorada, não tenho dúvidas (embora os índices tenham caído gradativamente, como se viu), mas minha questão persiste: o que me levaria a crer que o candidato tucano mudaria o quadro atual?

Para facilitar a visualização da tabela acima, preparei dois gráficos comparativos com base nos mesmos dados.

SELIC_FHC x Dilma

Gráfico comparativo da taxa SELIC praticada durante os governos Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff no último mês de cada ano da gestão de cada presidente.

IPCA_FHC x Dilma

Gráfico comparativo do IPCA anual durante os quatro anos das gestões de Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff.

Por fim, gostaria de propor uma reflexão que vai em linha com esse tipo de estratégia para direcionar eleitores incautos a votar em determinado candidato. Trata-se da “tática do terror”, isto é, argumenta-se que se não se votar em determinado candidato, a situação econômica do Brasil vai piorar ainda mais. Tática que não é nova e que vemos ser utilizada reiteradamente em eleições polarizadas cujo resultado ainda está aberto. Durante a campanha de 1989, por exemplo, o empresário Mario Amato disse, em entrevista, que caso o candidato Luís Inácio Lula da Silva ganhasse as eleições, 800 mil empresários deixariam o Brasil. Em 2002 foi ainda pior. O mercado viu-se abalado com a possibilidade real de Lula vencer as eleições e todos os índices econômicos do país despencaram. Hoje, o Blog do Fernando Rodrigues traz um post revelando uma carta enviada aos clientes ricos do Banco Santander avisando-os de que, caso a presidenta Dilma Rousseff seja reeleita, a economia do Brasil irá piorar ainda mais (na mesma linha, embora mais explícita, que a notícia do telejornal da Globo replicada nas redes sociais).

Mensagem do Banco Santander aos Clientes Acima de 10mil

Carta enviada pelo Banco Santander a clientes que movimentam mais de R$10 mil mensais, publicada no Blog do Fernando Rodrigues.

Portanto, caro colega, preste atenção no que você lê, escuta e assiste por aí. Não se deixe intimidar por táticas de “terrorismo econômico” como essas que estão infestando jornais, tv’s e internet.  Avalie seu candidato, reflita, veja qual é o que tem propostas de governo que lhe representam melhor. Não vote no menos pior, tampouco vote com medo. Vote consciente!

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5 Comentários

Arquivado em Blogs, Economia, Opinião, Política

5 Respostas para “Falta de memória parece afligir eleitores de Aécio Neves

  1. Edu

    Rogério. Não se trata de comentar históricos. cada um teve sua época e peculiaridades. O que se critica na Dilma é que ela persistiu num modelo econômico que insistiu no consumo ( que deu certo no período Lula, porque este enxergou que o governo anterior apesar das críticas havia lhe deixado margem para crescimento baseado em consumo sem reformas) num momento que não havia mais margem de endividamento, ao invés de procurar um modelo baseado no investimento Dado o endividamento do governo e o risco de inflação, o caminho seria atrair capitais privados para que realizassem parte de tais investimentos ( Portos. estradas, Ferrovias, Eletrecidade, Aeroportos e etc..). Acontece que com a falta de clareza jurídica, a burrice da condução das elétricas, a dificuldade de privatizar do PT ( alguns casos como os aeroportos, vieram muito tarde), a dificuldade de enfrentar a inflação achando que enfrentá-la gera desemprego, criaram um governo tímido, casuístico e sem coragem de enfrentar as reformas que o país necessita,mesmo tendo fácil maioria no congresso.O próximo governo PT terá 2 caminhos: Enfrentar o problema e tentar mudar as bases e o discurso ou manter o modelo atual e iniciar uma campanha tipo Bolivariana culpando os agentes econômicos e imprensa pelos problemas do país. Se a oposição ganhar , só conseguirá fazer reformas se conseguir maioria no congresso, algo improvável. Sem reformas, deve ir para reorganizar as contas via política, monetária, fiscal e cambial. As perspectivas não são boas.
    Comparar com vizinhos tem valor, pois são países que estão trabalhando com outro modelo de economia, ainda que as economias não são iguais.

    • Edu,

      Deixa eu ver se entendi: para decidir o voto nas próximas eleições, você me diz que não é válido comparar as decisões do atual governo com as do partido do Aécio quando este esteve no poder (base para saber como estes agem quando no poder, uma vez que os nomes do partido ainda são praticamente os mesmos); comparar com modelo adotado por outros países com economia bastante distinta, isso sim é valido.

      Olha, sinto muito, minha pergunta continua a mesma. Não tenho razão nenhuma para acreditar que o PSDB, se eleito, vai fazer alguma reforma para mudar o modelo de política econômica do país. Vai, isso sim, fazer o que sempre fez: dar prioridade para políticas voltada à infraestrutura através da iniciativa privada, diminuir a quantidade de recursos investida em programas sociais e, sobretudo, diminuir investimento em educação, continuar o sucateamento do sistema de ensino no país, em especial nas universidades públicas e privatizar tudo aquilo que for gerido pelo Estado que for possível privatizar.

      Por outro lado, como disse, não sou eleitor da Dilma. As soluções que deveriam ser adotadas para o país estão em outro modelo que não esse que o PT decidiu seguir. Minha alternativa seria ir muito mais à esquerda.

      Att.

      RB

  2. Acho qualquer tentativa de manipulação um porre. Mas também não preciso de nenhum analista pra entender que a situação política/econômica se deteriorou, muito em função dos equívocos (pra ser civilizado) que a gestão pt provocou.

  3. Pingback: Sobre a arte de comparar elefantes e coelhos | Hum Historiador

  4. Flavio Barros

    Uma inflação de 12,53% no último mandato do FHC foi uma vitória perto da hiperinflação que experimentamos não muito antes. O problema era a taxa SELIC extremamente elevada. Entretanto não posso culpar o FHC por ter de enfrentar pelo menos três grandes crises internacionais em um momento que a economia brasileira estava muito frágil, não por conta da política econômica, mas legado da hiperinflação que foi praticamente a única agenda da economia brasileira por um bom tempo.

    Agora uma sugestão: não use tabelas, use gráficos! Seria muito mais fácil comparar, não só as taxas em alguns anos, como também visualizar a tendência da curva.

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