Sobre a arte de comparar elefantes e coelhos

Voltando a tratar de um tema que havia abordado no post da falta de memória que aflige os eleitores do Aécio, gostaria agora de entrar no mérito da validade da abordagem comparativa realizada nos telejornais e jornais da Grande Mídia, que vem sendo replicada com vontade nas redes sociais pelos opositores do governo.

GloboNews_Inflação_Juros_PIB

Foto de infográfico apresentado em telejornal da Rede Globo que circula nas redes sociais.

Como se pode ver pela imagem acima, telejornais utilizam alguns indicadores macroeconômicos como Inflação, Juros e PIB de diferentes países da América Latina, para avaliar o desempenho da política econômica brasileira. Às vésperas de uma eleição polarizada como a atual, a mensagem é bastante clara: se você está satisfeito com os rumos dessa política econômica, continue votando nos que aí estão, caso contrário, é chegada a hora de uma mudança.

Como havia apontado no post a que me referi, essa não tem sido uma abordagem exclusiva da Grande Mídia, mas também de bancos como o Santander e o Deutsche Bank, que alertaram seus clientes CLASSE A o que fazer com seus investimentos em caso de reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Trata-se da velha conhecida estratégia do “terror econômico” contra eventuais eleitores do governo na classe média.

No entanto, a tal comparação feita pelos telejornais suscitam questões primordiais como: os demais países da América Latina são boas referências para avaliarmos o desempenho da política econômica brasileira? Em caso afirmativo, devemos copiar o modelo de crescimento desses países e adotá-los em nossa política econômica?

José Luís Fiori. Fonte: Revista Bula.

José Luís Fiori. Fonte: Revista Bula.

Para o professor titular e coordenador do Programa de Pós-Graduação de Economia Política Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Luís Fiori, a resposta é bem clara: NÃO. Tais comparações macroeconômicas são, na opinião de Fiori, “simplórias e fora do contexto estrutural e geopolítico de cada país”.

Em sua coluna na Revista Valor da última quinta-feira (30), Fiori discute a retórica de tais comparações. Para o professor, antes de proceder tais comparações, é importante lembrar que países como Uruguai, Bolívia, Equador, Chile, Colômbia e Peru são “pequenas economias exportadoras de commodities, com baixíssimo grau de industrialização e limitados a mercados internos de consumo”.

A utilização de comparações como método de conhecimento e aprendizado social e político ganhou impulso na segunda metade do século XX com os avanços quantitativos da Contabilidade Nacional que permitiram fazer comparações abstratas entre países. Contudo, tais comparações só tem sentido e permitem algum aprendizado, continua Fiori, “se elas tomam em conta as bases materiais concretas sobre as quais se sustentam e constroem estas abstrações macroeconômicas”.

Justamente por essa razão, José Luís Fiori conclui que “tem pouca utilidade comparar o Brasil com estes pequenos países e seria uma insensatez ainda propor que o Brasil seguisse o modelo de crescimento destas verdadeiras ‘ilhas monoexportadoras’. A economia do Uruguai é do tamanho da de Santa Catarina, e as do Chile e do Peru são mais ou menos do tamanho da economia do Rio de Janeiro. Comparar o Brasil com estes países seria como comparar um elefante com um coelho, e comparar seu modelo de crescimento seria como tentar dirigir um caminhão usando um manual de instruções de um patinete”.

Ora, mais claro que isso impossível ou, segundo a expressão popular, “só desenhando”.

Uma vez que se reconhece que os países da América Latina não são o grupo de referência com o qual o Brasil deve se comparar para avaliar o desempenho de sua economia, deve-se perguntar: qual deve ser o referencial do Brasil então? O próprio José Luís Fiori responde a essa questão ao demonstrar como, segundo dados recentes do Banco Mundial, o Brasil passou a ser a sétima economia do mundo nessa última década (2004-2013). Fora isso, deve-se levar em conta que o país foi o quinto país com maior taxa média de crescimento anual do PIB e da renda per capita entre as dez maiores economias do mundo nesse mesmo período. Se considerarmos 2013/2014, o país obteve a quarta maior taxa de crescimento entre as grandes potências econômicas mundiais em 2013, e está mantendo a sétima maior taxa em 2014.

Desta forma, quer queiram os simpatizantes do governo ou não, o novo grupo de referência do Brasil é aquele composto pelas dez maiores economias do mundo que, aliás, é o mesmo grupo de países que disputam com o Brasil os mercados mundiais. Grupo que, como bem lembra Fiori, apresenta cinco (das seis economias que estão na frente do Brasil) que seguem estratégias econômicas fortemente nacionalistas e “devem ser considerados casos típicos de capitalismos de Estado”.

Entendo que com a breve referência aos argumentos propostos na coluna de Fiori, atingimos o fim proposto por este post, isto é, apontar como são inadequadas – e até carentes de qualquer sentido – as comparações de indicadores macroeconômicos do Brasil com países da América Latina propostas pela Grande Mídia. No entanto, recomendo muitíssimo a leitura da coluna de José Luís Fiori na íntegra, que está disponível no site da Revista Valor. Para lê-la, basta fazer um cadastro gratuito no próprio site.

MAIS SOBRE O ASSUNTO

  • Entrevista de FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA  ao Jornal Brasil Econômico.
    Publicada em 07.jul.2014, nesta entrevista o economista da Unicamp afirma que crescimento de 2% do PIB é padrão normal e critica a comparação do Brasil aos emergentes. Para o professor, o Brasil deve ser comparado aos países que já tem indústria madura.
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Arquivado em Economia, Política, Revistas

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