Desabafo de fim de ano

por Liana Machado para o Hum Historiador | 30.dez.2014

contra_a_violencia2Meu penúltimo dia do ano foi marcado por um resumo de tudo que aconteceu nesse país durante o ano de 2014.

Eram quase 23h30min e uma confusão na rua chamou minha atenção. Fui à janela e vi um garoto que se escondia num muro vizinho da minha casa. Olhei mais acima e vi um casal que se exaltava com outro garoto de forma virulenta. Disse ao garoto que fosse embora, e ele assustado me pediu que o deixasse ficar. Não disse nada, afinal ele estava na rua. Minha atenção novamente se voltou ao casal. Debaixo de tapas vi o garoto agachando para o chão, enquanto o homem que nele batia empunhava uma arma. Um tiro. Do lado do garoto. No chão. Pedi a minha mãe para chamar a polícia, mas logo percebi que o tal garoto era acusado de roubo. A aglomeração começou. Uma senhora ensandecida, com um cachorro nos braços agredia e xingava o menino desesperadamente. Sai de casa e fui em direção. Cada vez mais juntava gente, Ia rolar um linchamento. Com muito custo, consegui enfiar a mulher do cachorro dentro do carro e pedi a amigos dela que a levassem embora, pois estava muito nervosa. Era ela que havia sido a vítima de um roubo perpetrado por três garotos. O casal foi atrás e encontrou esse menino. O outro, o que estava encostado no meu muro, já havia sumido. Talvez fosse ele. Talvez não. Quando a senhora saiu, a polícia chegou. O menino agachado se escondia entre as mãos, ouvia todo tipo de xingamentos. Prostrei-me ao lado dele e fiquei em silêncio. Ao todo nove policiais chegaram e perguntavam o que acontecia. O homem armado era da polícia. Sem camisa, suado e visivelmente bêbado, continuava empunhando seu revólver, resolveu dar um tapa no garoto. Na frente dos policiais. Minha mãe protestou e o tal cara foi pra cima dela. “E se fosse com você?” É o argumento de sempre. Eu olhava para os policiais com cara de desespero. Perguntei se iam levar o moleque para a delegacia, era tudo que eu queria.  “Ele é seu parente?” perguntaram-me. Não. Eu olhava para os policiais e para a multidão em cima dele, e, consequentemente, em cima de mim. Nove policiais de braços cruzados, olhando e deixando o cara sem camisa dominar a situação. “Ele é seu parente?” perguntaram-me novamente. Não, ele não é. Minha cara de desolamento deveria ser tal, que eu parecia ser parente? “Levem ele preso”. Disse. A multidão que até a pouco o xingava freneticamente foi se dissipando. Os ânimos acalmando. Um vizinho me puxou pelo braço. “Deixa os policiais fazerem o trabalho deles”. Mas que trabalho? Acho que se não for para dar porrada e tiro a polícia não sabe muito o que fazer. Desci para casa. Tinha deixado meu filho em casa em desespero. Daí advém uma daquelas discussões surreais com a coxinhice de todo dia. Um menino que eu conhecia desde os 10, e que deve ter agora seus 20, destilava todo seu ódio contra mim. “Vocês gostam de bandido” e todo aquele resto que vocês já sabem, vou poupar vocês. Ao final me chamou de comedora de alface e do alto da sua arrogância procurava me ofender. Daí me vi sozinha com 6 pessoas que relinchavam. Agora o linchamento era contra mim. Meu filho viu tudo.  Fui pra casa. Pela janela vi que levaram o garoto, que soube ter 17, pela viatura. Passei mal a noite toda. Não dormi. E cheguei a chorar. Pela primeira vez na minha vida um garoto de 20 anos me fez perder toda a esperança na humanidade.

Senti-me uma idiota por defender a paz, e tive a sensação forte, nunca tinha sentido isso, de que eu estou presa no planeta terra com um mundo de seres humanos clamando por sangue. Jesus sempre me vem à cabeça, porque, apesar de ateia, eu concordo muito com ele. Onde você está Jesus? Hoje é o último dia de 2014, e eu nem aguento pensar no que vem por aí. Tomara que algum ser supremo me faça voltar a ter esperança, mas por hora… sou pura depressão. O texto é assim corrido porque foi desabafo. Peço desculpas por mais uma história. Mas eu tinha que falar com alguém.

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3 Comentários

Arquivado em Opinião

3 Respostas para “Desabafo de fim de ano

  1. Filipe

    Grande parte das pessoas, a massa, não tem consciência de classe e não conhece a dinâmica da sociedade. Os principais canais da televisão aberta, as igrejas (especialmente as evangélicas) e até mesmo as escolas não ensinam as pessoas a raiz do problema da criminalidade. Se não houvesse pobreza, exclusão social e falta oportunidade de vida igualitárias entre a população em geral, não haveria crimes.

  2. Edu

    2 coisas Liana- Como você acha que deveria ser o desenrolar desta cena? Como os atores que participaram do episódio deveriam se comportar idealmente para você? Alguém perguntou se a violência ( assalto, roubo, agressão ao seu filho , marido etc…) fosse dirigida a você; como reagiria? Eu pergunto de novo. Como agiria?

    Filipe- A violência nada tem a ver com conciência de classe ( um conceito marxista bastante discutível). Com probreza tem, mas não vamos ser primários a correlacionar 1 a 1 pois não se sustenta. A violência existe muito antes da TV e se você não sabe a Europa tinha violência e injustiças piores no século XIX, porém a polícia era durísssima e é até hoje. Não tenho clareza absoluta porque a violência no Brasil é persistentemente alta, mesmo quando em baixa ( caso de SP). Há muitos países com problemas sociais muito superiores ao Brasil ( Na Am. Latina inteira, na Ásia e nem sempre são acompanhados destes índices de vilência e sobretudo desta culutra do roubo, do golpe, da fraude, da propina etc…..)

  3. Debora

    Pois é Liana imagino como deve ter sido ruim sua passagem de ano após esse episódio. No momento em que as coisas acontecem nunca sabemos a maneira correta de se agir. Será que agimos certo, será que agimos errado? Mas, e aquelas pessoas descontando sua raiva em você? Tantos questionamentos. E, cada um com suas respostas.

    Concordo em partes com o Filipe que a questão seja a falta de consciência de classe, temos sim que deixarmos de ser classe em si para tornarmos classe para si. Mas, isso falha na questão da ostentação tão na moda hoje, muito mais que na questão de roubar para comer, ou para alimentar a família. Hoje somos bombardeados muito mais que tempos atrás com propagandas para o consumo. A vontade do ter vence qualquer vontade de ter uma sociedade igualitária. Talvez então que o termo correto, ou a ideia, não seja que a consciência de classe falhe, mas o fato é que, para alcançarmos essa consciência, temos que dissipar ainda muitas visões de mundo que são sutilmente colocadas nas cabeças das pessoas. E bem mais que isso, cada pessoa tem o seu mundo particular, sua guerra diária de sobrevivência. Pois, se por um lado mesmo que boa parte da população adquira a consciência de que a raiz do problema seja a extração da mais-valia que gera lucro para determinada classe, que gera a exploração do trabalhador, que gera a miséria da classe trabalhadora, e a desigualdade social, ainda haverá uma parcela que estará a margem da sociedade. E dessa margem, haverá aqueles que vão acreditar que o roubar, será a única saída para o ter, independente do que “ele” que ter.

    E aí entra a questão que o Edu colocou. O que você faria se fosse com você? Gente é uma contradição de emoções ruins, que sabe-se lá o que cada um faria. Mesmo eu não acreditando na lei, sei que é ela que nos assegura mesmo que de forma ilusória, que a justiça possa ser feita. (mas a justiça para quem? Alguém poderia perguntar! Se aquele que rouba já sofre injustiça quando nasce?!) Todos sofremos dessa injustiça. Se eu fui roubada sofro injustiça, sofro a violência que foi consequência daquele que me roubou. Mas, cada caso deve ser solucionado, também creio que não podemos “tapar o sol com a peneira” como dizem, e sempre ficar do lado de quem rouba. E na verdade essas soluções são medidas paliativas. Quem rouba e mata deve pagar pelo que fez, mas também deve ser levado a obter consciência de que o fez que não é o certo. Alguns podem dizer mas claro que aquele que comete um crime sabe que é errado. Será? E se para eles essa é a única solução visível, e possível? Uma vez que as pessoas pensam conforme o meio em que vivem, não estou usando de nenhum teórico para fazer essa afirmação, mas de exemplos cotidianos mesmo (não estou aqui para fazer citações e mais citações). Entendam que não estou justificando, apenas refletindo em todos os pontos do caso. E assim creio que deva ser feito, mas esses casos não podem se encerrar por aí. É algo que deve ser trabalhado do micro para o macro. Mas, claro essa é uma forma de se pensar friamente, quando os ânimos estão frios. Quem tem essa capacidade? A quem cabe a isso resolver? Policia? Sociedade? Bom essas palavras foram só pensamentos, como disse, apenas reflexões. Certa ou errada, eu não sei.

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