Breves notas sobre execução de jornalistas, fundamentalismos e indignação na imprensa

por Flávia Cláudia, especialmente para o Hum Historiador.

Charlie Hebdo 001

Uma das capas da revista Charlie Hebdo que motivou dois homens a realizarem um ataque terrorista à redação da revista.

A população de Paris foi pra rua protestar pela morte dos jornalistas, aparentemente 15 mil manifestantes, assim, instantânea e espontaneamente, no mesmo dia dos eventos, todos nós sabemos (a direita brasileira na sofrência) o quanto é difícil colocar mil pessoas na rua. Ok.

Bom, vamos lá, a população geralmente vai às ruas protestar exigindo posicionamento do poder público (há exceções, já falo delas) nesse sentido há duas coisas que se poderiam estar em pauta na manifestação, o terrorismo e a liberdade de imprensa, não conheço tanto da França, mas que me conste já há leis que dão conta das duas coisas.

No caso, a manifestação é organizada pela esquerda francesa, não pela direita xenofóbica que aumenta a quantidade de votos por lá ano a ano, uma espécie de Bolsonarismo francês, só que mais grave uma vez que na França há leis de um grau de xenofobia de cair o cu da bunda, especialmente nesses tempos de crise econômica na Europa, que a gente sabe que sempre pode acabar muito mal. De qualquer modo, aparentemente se menciona, liberdade de imprensa, repito lá eu avaliaria que a imprensa é bem livre e se fala da segregação, por outro lado também dizem que o que aconteceu é resultado da segregação e criticam a sociedade francesa e a falta de integração na sociedade francesa que é excludente. Aí sim eu já vejo alguma chance do diálogo avançar.

Em miúdos, estamos falando de charges políticas cujos episódios mais polêmicos ridicularizam o profeta da religião, não os dirigentes nacionais em si… Se pode? Não sei, mas ontem mesmo ridicularizamos a Lógica Didi Mocó do “Por Que Esses Grupos Oprimidos Não Se Ofendiam Antes?” E por mais que estejamos falando de fundamentalistas que controlam Estados, exércitos e imprensa, a população islamizada na França é altamente perseguida e eu tomaria sim, muito mais cuidado com o tom da minha sátira.

As mortes foram horríveis e é óbvio que não acho nem de perto aceitável esse tipo de resposta, então vou poupa-los de detalhar o que acho que está com cheiro de Indignação Seletiva da Morte de Jornalistas/Cartunistas Ícone Hipster. Sim, lamento muito a morte deles, como de qualquer pessoa, mas acho tudo muito dentro do que seria de se esperar.

A repercussão das mortes já estamos começando a ver, essa manifestação que não tem muito o quê pedir para o poder público (a não ser leis mais rígidas de combate ao terrorismo – ou seja, mais islamofobia), mas podem pressionar a opinião pública a acirrar ainda mais na direção da xenofobia já que por um instante aproximou esquerda e direita em uma “revolta” que nem por um instante pode ser comparada com a causada pelas mortes hoje mesmo no Iêmem (29 mortos que pouco importam), muito diferentes mortes como as dos jornalistas e sua repercussão mundial sobre a liberdade e o terrorismo anteriormente já provaram ser o combustível que alimenta o fogo de um outro fundamentalismo, me desculpem os pesarosos com as mortes, mas tenho mais medo desse.

Por fim, tenho que reconhecer que no meio disso tudo, o que realmente me deixa intrigada é que esses dois homens armados tenham feito esse estrago todo, terem saído do prédio sem a menor ideia de pra onde poderiam ter ido. Sério mesmo que dois homens mascarados, armados com fuzis e um lança-foguetes, mataram 12 pessoas (incluindo dois policiais) e feriram mais dez NA FRANÇA e ninguém viu pra que lado foram?

PS: Se começar polêmica eu juro que deleto porque já me bastam as polêmicas da passagem que estão por vir.


Flávia Cláudia é bacharel em História pela Universidade de São Paulo.

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2 Comentários

Arquivado em Jornais, Opinião, Política

2 Respostas para “Breves notas sobre execução de jornalistas, fundamentalismos e indignação na imprensa

  1. Flávia, ficarei honrada se vc puder ler e até opinar sobre meu artigo hoje, no meu blog: http://blogsandrapaulino.blogspot.com.br/2015/01/como-o-brasil-vai-reagir-ao-atentado.html
    “…AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA PSEUDO-RELIGIOSA – O desrespeito do pasquim à fé muçulmana é liberdade de imprensa ou inconformismo pela perda da colônia? É um FATO que poucos irão abordar, mas no fundo dessas reações de extrema violência, há um componente inafastável e que a maioria dos indignados de ocasião finge nunca ter estudado ou sequer conhecido. A Guerra da Argélia foi um movimento de libertação nacional da Argélia do domínio francês, que tomou curso entre 1954 e 1962…”

    p.s. tive conhecimento de seu artigo através de um post do querido Rogério Béier e aviso: se vc deletar, vou bater em vc! ❤

    Saudações,

    Sandra Paulino

  2. Devo dizer que quando soube do atentado de ontem meu primeiro pensamento foi justamente de desconfiança. A primeira pergunta que me fiz foi: “quem sai ganhando com um ataque como esses?”, e nenhuma das respostas, evidentemente, é boa. Não duvido que haja doentes capazes de perpetrarem crimes hediondos como os de ontem em nome de um deus ou de sua religião. No entanto, também não duvido que grupos político-econômicos do ocidente, se eles mesmos não estiverem por trás dos ataques, possam fazer uso desse atentado para justificar políticas xenofóbicas na Europa, extermínio de civis em países árabes e promoção de guerras pelo controle de regiões petrolíferas no Oriente Médio.

    Aliás, já faz um tempo que intelectuais de todo o planeta vem alertando para a possibilidade real de estourar uma nova Guerra Mundial proximamente. Não só por conta do petróleo, mas também por causa dele, o clima de tensão entre Estados Unidos e Rússia vem subindo há mais de ano e já está prestes a culminar em uma guerra generalizada, que levaria países da Europa, Oriente Médio e até mesmo a China, a reboque. Ora, o problema é que a opinião pública europeia, como de costume, não aprova que seus países entrem em guerras ou apoie países beligerantes sem uma boa justificativa. Dificilmente países como França, Alemanha e Reino Unido, entrariam do lado dos EUA em uma guerra contra o ISIS (Estado Islâmico), ou contra países como a Rússia e Irã, por exemplo. Seria necessário uma agressão ou um ataque de grandes proporções, que causasse comoção nacional, para fazer com que a opinião pública mudasse de lado e desse apoio à uma resposta mais enérgica, que apoiassem medidas islamofóbicas ou, até mesmo, aprovassem a mobilização e o envio de tropas para zonas de conflito (em especial no Oriente Médio). É justamente aqui que entra a conveniência dos ataques de ontem.

    Ainda que se possa dizer que estou exagerando e que não chega a tanto, desde a tarde de ontem temos visto marchas e manifestações de milhares de europeus clamando por políticas que impeçam a entrada de muçulmanos em seus países e, até mesmo, pela expulsão dos que lá se encontram. Milhares de pessoas que pouco se manifestavam, agora juntam suas mentes e corações com os representantes da direita fascista que querem apertar o cerco contra imigrantes ditos “indesejados” como os muçulmanos. É realmente aflitivo ver as notícias e constatar o perigo real do crescimento de grupos neonazistas por toda Europa e, pior, a possibilidade de tais grupos elegerem representantes em seus respectivos parlamentos.

    Triste e desapontado, meu pensamento volta-se para encarar de frente a pergunta inicial de quem saia ganhando em um ataque como estes, na vã esperança de que a resposta fosse NINGUÉM, mas consciente de que há sim grupos que saíram ganhando com o atentado à Charlie Hebdo. Resta saber se tais grupos, ou até mesmo governos de alguns países, não tiveram participação nos tristes eventos. Mas isso, creio que jamais saberemos.

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