Golpismo e o aumento da renda média do trabalhador brasileiro

Se, por um lado, o antipetismo e a forma como o PT vem reagindo a ele é um dos fatores que ajuda a compreender melhor a atual crise política, como bem apontou o professor Lincoln Secco em sua entrevista a revista Carta Capital, por outro, o aumento do salário mínimo e da renda média do trabalhador também são indicadores que, historicamente, causam reações em setores da sociedade no intuito de derrubar os governos que o promoveram. Ao menos, é o que aponta o artigo do economista e pesquisador da Fundação Economia e Estatística (FEE), Róber Iturriet Ávila.

Em texto recentemente publicado na revista Carta Maior, Ávila compara os atuais valores do salário mínimo e da renda média do trabalhador com outros momentos de instabilidade política (governos de Getúlio Vargas e João Goulart), sugerindo haver uma relação entre as quedas desses governos e o aumento da renda média do trabalhador.

O Hum Historiador repercute abaixo a íntegra do texto de Róber Ávila tal como publicado no portal da revista Carta Maior.

ÓDIO AO PT?
por Róber Iturriet Ávila | publicado em Carta Maior em 11.mar.2015

Três intelectuais de relevo trataram recentemente acerca do ódio ao PT: Leonardo Boff, Luis Fernando Veríssimo e Luiz Carlos Bresser Pereira. Suas palavras têm a lucidez de quem enxerga além das aparências e do senso comum. Embora o momento corrente não seja corriqueiro, um olhar histórico traz ensinamentos.

Na Revolução Francesa, por exemplo, na aparência havia uma ruptura lastreada em novos valores: Liberté, Egalité, Fraternité. O pano de fundo real era, entretanto, a emergência de um novo grupo. Em meio a um período econômico conturbado, a burguesia degolou o poder político e o status social da aristocracia.

No Brasil, a constatação de que a escravidão foi excessivamente longa já sinalizava que o arranjo da sociedade é deveras estamental. Políticas progressistas sempre encontraram fortes barreiras conservadoras.

Os conflitos de 1954, por exemplo, foram intensos. Na superfície, o governo estava cercado diante dos “escândalos” de corrupção. A constante oposição na imprensa desgastava Vargas. Em 1954, o então presidente aumentou o salário mínimo em 100%. Quem não é ingênuo sabe que Vargas estava contrariando interesses empresariais, tanto com a concessão de direitos trabalhistas e civis, quanto com ampliações salariais. O suicídio foi a saída honrosa ao cerco montado.

João Goulart foi presidente em um período de conflitos. Seu governo concedia elevados aumentos salariais, prometia reforma urbana, voto de analfabetos, elegibilidade de todos brasileiros, reforma agrária, concessão de terras a trabalhadores rurais, justiça social, emancipação dos brasileiros. Caiu! O receio do “golpe comunista” foi o discurso raso que justificava.

Vargas e Goulart saíram do poder ao tempo em que concediam direitos sociais, sobretudo aos menos favorecidos. Não é novidade que durante os governos do PT, os trabalhadores ampliaram sua renda, o salário mínimo cresceu de maneira contínua e houve uma série de programas sociais. Não surpreende que, mais uma vez, setores da sociedade brasileira se ergam contra tais políticas, ainda que, escamoteadamente, o bordão seja “contra a corrupção”.

Evidentemente, existem elementos factuais dos governos Lula e Dilma que causaram desconforto e indignação a todos os cidadãos. Contudo, é preciso muita inocência para imaginar que as manifestações contra o governo são incentivadas pelo descontentamento com a corrupção, pela elevação do preço do combustível ou da energia. Quem tem conhecimento histórico e compreensão profunda da sociedade não ignora a ojeriza existente a um programa que garante R$ 35,00 para os pobres. O ódio não é ao PT.

Conhecendo um pouco mais dos dados do Brasil se observa que houve dois momentos de crescimento relevante do nível dos salários: no período Getúlio Vargas – João Goulart e nos governos do Partido dos Trabalhadores. Os gráficos abaixo não apenas demonstram esses movimentos como indicam que presentemente o excedente operacional bruto caiu em relação ao produto total em detrimento do incremento nos salários. Interesses poderosos estão sendo feridos. Não apenas segmentos estão perdendo, em termos relativos, como também regiões. Será mesmo preciso pintar de azul em um mapa qual região perde mais com a solidariedade distributiva?
C:\Users\rober\Desktop\renda media do trabalho.pngC:\Users\rober\Desktop\sal minimo.png
C:\Users\rober\Desktop\distribuição funcional.png


Róber Iturriet Ávila é doutor em economia, pesquisador da Fundação de Economia e Estatística e professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (RS).

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Blogs, Economia, Internet, Política

Uma resposta para “Golpismo e o aumento da renda média do trabalhador brasileiro

  1. Vale atentar que o golpe de 1992, ainda chamado de Impeachment (já que Collor foi inocentado), não contava com aumento de renda do assalariado, mas as políticas de bloqueio de contas e liberação de importações (principalmente de carros) minou a relação do governo com os maiores anunciantes da TV Brasileira.

    Daí para se constituir um clima de insatisfação geral, foi um pulo, ainda mais com a esquerda (inclusive o PT e Lula) dominando os movimentos sociais.

    Caras pintadas e políticos ávidos pelo golpe não faltaram para destituir um presidente baseados em indícios e acusações sem provas.

    Claro que condenação sem prova não é nenhuma novidade no Brasil. Nem deixará de ser.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s