Golpistas em ação: as manifestações de 15 de março

Quem fizer uma breve consulta no Google Images por fotos tiradas durante as manifestações realizadas em várias cidades neste último domingo (15), facilmente encontrará imagens de muitas pessoas que saíram às ruas para pedir a derrubada de um governo legitimamente eleito através de uma intervenção militar.

Uma das imagens que circulou amplamente pela rede mundial de computadores, pedia às Forças Armadas que libertassem o Brasil ou o mundo iria sangrar (???). Tal faixa, como se pode ver abaixo, trazia uma suástica de um lado e, do outro, a foice e o martelo dentro do tradicional símbolo de proibição. Uma segunda frase, escrita em inglês, alertava ao perigo que a “União das Repúblicas Socialistas da América Latina” (URSAL) representam para a paz mundial (???).

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Imagem capturada a partir da cobertura do canal Globo News de participantes da manifestação no Rio de Janeiro neste último domingo, 15 de março.

Ora, ainda que ao portar tal faixa os manifestantes estivessem buscando associar o nazismo ao socialismo, como já me apontaram pelas redes sociais, parece que a junção de tais elementos não foi a melhor estratégia para comunicar esta ideia. Na verdade, se essa era mesmo a intenção, o tiro parece ter saído pela culatra, uma vez que a imagem está sendo bastante explorada no sentido de relacionar tais manifestantes a grupos simpatizantes às ideias nazistas. Ainda mais quando se vê, na mesma faixa, uma suástica, seguida da defesa de intervenções militares para destruir governos latino-americanos eleitos democraticamente e um símbolo indicando a proibição de governos socialistas.

Outras imagens que chamaram bastante minha atenção, pela recorrência dos cartazes e gritos de ordem que ecoaram por diversas capitais do país, foram as que apareceram em cartazes lembrando que a bandeira do Brasil não é vermelha, mas verde e amarela, na tentativa de associar o atual governo a ditaduras comunistas. Para os indivíduos que portavam estes cartazes (e muitos dos presentes nas manifestações), tal associação seria razão suficiente para uma intervenção militar no país, uma vez que é preferível um governo militar do que a presente “ditadura comunista” em que vivemos.

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Cartaz exibido durante manifestações realizadas em São Paulo, 15 de março.

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Rapaz envolto na bandeira brasileira segura cartaz durante manifestações realizadas em São Paulo, 15 de março.

Fora o “erro” grosseiro ao interpretar os últimos governos petistas como “ditaduras comunistas”, vê-se que estamos diante de indivíduos que se dizem apolíticos, que teriam sido impulsionados às ruas por um sentimento nacionalista em defesa de uma pátria que estaria sob o risco de se desmantelar pela ação de um governo dito comunista. No entanto, quem vem acompanhando a conjuntura política do país desde as campanhas eleitorais de 2014, percebe que as manifestações não foram promovidas por grupos apolíticos, que tais grupos estão em defesa da pátria ou, tampouco, que o país corre risco de se desmantelar em razão de uma ditadura comunista. Tal construção é tão falsa quanto uma nota de R$ 3,00. Tais ideias (grupos apolíticos, nacionalismo, combate ao comunismo) são utilizadas como instrumentos para que o intuito golpista penetre amplamente na sociedade, conquistando corações e mentes. Como já disseram alhures, o nacionalismo é, de fato, o esconderijo preferido de golpistas e fascistas.

Por fim, uma faixa vergonhosa, novamente escrita em inglês e português, pede socorro às forças armadas sob a justificativa de que uma “verdadeira reforma política” apenas poderia ser feita pelas mãos dos militares.

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Faixa exibida nas manifestações de março de 2015 em defesa de reformas políticas, contudo, através dos militares.

Ora, vê-se novamente o paradoxo de pessoas que saem às ruas em um ato democrático, nutrindo total desprezo pela democracia. Pelo que demonstram, ao invés de lutarem por maior participação política, de juntarem forças aos movimentos sociais e clamarem por lideranças coletivas, desejam ver implantado regimes baseados em lideranças individuais e fortes, que imponham a ordem com armas na mão. Como se isso não fosse suficiente, a faixa ainda apela ao uso de imagens desrespeitosas, tal como a mão com quatro dedos dentro do círculo de proibição para fazer referência ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Fica claro, uma vez mais, que parte do problema é o ódio que uma porção da sociedade nutre em relação a este homem. Mais do que isso, o terror que sentem ante a possibilidade de Lula vir a assumir novo mandato presidencial em 3 anos e meio, colocando em xeque o pretenso apolitismo do movimento. Se não for possível derrubar agora, o objetivo é o enfraquecimento do partido de Lula, o quanto for possível, de modo que até mesmo uma candidatura seja inviável no pleito de 2018.

Imagens como são constrangedoras. Confesso que não imaginava ver uma parte significativa da população brasileira saindo às ruas, apenas 30 anos após a derrocada do regime militar, clamando por uma intervenção militar. Ao contrário do que uma das faixas propunha no último domingo, penso que a Reforma Política deve ser feita pelo povo de modo a reforçar as instituições e não enfraquecê-las ou destruí-las. Precisamos urgentemente dessas reformas, mas não para limitar ainda mais o poder popular. Parece estranho ter que vir aqui defender o óbvio.

Tudo isso me entristece muito, pois vejo que no fundo do problema, como sempre, está a ignorância da população, sendo utilizada como instrumento pelas poucas pessoas que sempre estiveram no poder. Portanto, a conclusão a que chego é que nossa luta, em boa medida, ainda é contra a ignorância. Foi por isso, aliás, que passei a dedicar minha vida à docência. No entanto, a maneira como a educação vem sendo encaminhada no Brasil (e no resto do mundo), não oferece muitas perspectivas para uma mudança significativa em direção a uma sociedade mais crítica e com maior participação na vida política. Muito pelo contrário, cada vez mais os jovens são estimulados a deixarem a vida política nas mãos de quem ela sempre esteve.

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2 Comentários

Arquivado em Brasil, Política

2 Respostas para “Golpistas em ação: as manifestações de 15 de março

  1. Beatriz

    Olá Rogério,
    Achei o blog procurando alguma indignação semelhante a minha com esses pedidos de intervenção militar.
    Já dei uma olhada geral e gostei muito das postagens, vou seguir.
    O que mais me chamou a atenção foi que os pedidos de intervenção militar não estavam apenas em pequenos cartazes individuais. Estavam também em grandes faixas em locais privilegiados.
    Cito aqui os que mais me chocaram:
    – em Brasília no carro de som;
    – no Rio de Janeiro na “comissão de frente” da passeata, bem na frente da bandeira do Brasil e bem atrás do “Fora Dilma” (todos na medida certa de uma mão da Avenida Atlântica);
    – em São Paulo (você não mostrou essa imagem!) uma faixa gigantesca que podia ser lida das imagens aéreas com os dizeres “Fora Dilma e Fora Lula! Presidente Militar”.
    Acho que essas faixas são a prova de que os grupos que organizaram os eventos querem ver o fim da democracia!
    E eu fico pensando: e os participantes em geral? Como se submeteram a isso?
    Eu poderia estar lutando contra o abuso infantil ou qualquer outra causa que eu julgasse absolutamente nobre e digna, se alguém aparecesse com dizeres a favor da ditadura, eu me retitaria imediatamente (ou saia na mão:)
    É de dar frio na espinha!

  2. Pingback: Golpistas em ação: as manifestações de 15 de março | Imagem Política

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