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[EXAME] Um quinto dos novaiorquinos dependem de ajuda para se alimentar diariamente

Sei que a notícia já tem mais de um ano, mas é que quando publiquei algo parecido por aqui em 2013, só faltaram me dar um tiro na testa, me chamando de petralha e ignorante. Usando o velho argumento do “você nunca veio aos EUA” ou “miséria aqui só com imigrantes”. Pois bem, agora quem publica é a queridinha da classe média, a Revista Exame dizendo que o American Dream está mais para American Nightmare…

DE CADA CINCO NOVAIORQUINOS, UM DEPENDE DE AJUDA PARA COMER
Texto original da EFE – Publicado na Revista Exame em 17/03/2014

Morador de rua come sopa após distribuição de voluntários em um centro comunitário de Manhattan, em Nova York.

Nova York – Quase um em cada cinco nova-iorquinos, cerca de 1,4 milhão de pessoas, depende diariamente das ajudas das autoridades e de ONGs para comer, em uma cidade onde se concentram algumas das maiores fortunas do mundo.

Nos últimos cinco anos se somaram à lista outras 200 mil pessoas que vão aos cerca de mil refeitórios populares e bancos de alimentos pela cidade, segundo dados publicados nesta segunda-feira pelo jornal “Daily News”.

Desse 1,4 milhão de pessoas, 400 mil são menores de idade, 160 mil, maiores de 60 anos e, 95 mil, veteranos de guerra.

Embora a demanda nos bancos de alimentos e nos refeitórios populares tenha aumentado 10% no ano passado, sofreram um corte de 56% de fundos privados e públicos, o que lhes impede de chegar aos mais necessitados de forma adequada.

Ao todo, “85% dos refeitórios populares reportaram um aumento drástico de pessoas em busca de ajuda, e quase metade ficou sem comida em novembro passado”, advertiu a presidente do Banco de Alimentos de Nova York, Margarette Purvis.

A radiografia da fome e da pobreza na Big Apple exibe dados preocupantes, já que 60% dos beneficiados do auxílio são mulheres e quase a metade dos menores de idade vive em famílias sem dinheiro suficiente para comprar alimentos.

Além disso, uma em cada cinco pessoas que vão a esses refeitórios populares trabalham e ganham em média US$ 1.500 ao mês e, delas, 54% têm algum emprego em período integral.

Nos últimos meses várias organizações e o próprio prefeito, Bill de Blasio, pediram o aumento do salário mínimo, que não permite os trabalhadores que o recebem saírem da pobreza em uma cidade cara como Nova York.

O Banco de Alimentos de Nova York, uma das principais organizações que lutam contra a fome na cidade, oferece diariamente cerca de 400 mil porções de comida gratuita que são distribuídas nos cinco condados da cidade.

A organização recebe cerca de 8.600 toneladas de comida enlatada do governo federal, assim como US$ 3 milhões em ajudas do governo estadual e doações de empresas privadas.

Enquanto o banco concentra seus esforços na distribuição de comida enlatada ou empacotada, outros grupos, como a ONG City Harvest, distribuem alimentos frescos graças à colaboração de restaurantes e supermercados.

Por outro lado, dos mais de 47 milhões de pessoas que se beneficiam nos Estados Unidos do programa federal de cupons de alimentos ou da Assistência de Nutrição Suplementar (Snap), 1,8 milhão moram em Nova York.

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O passado, essa grande nebulosa indiferenciada…

OS JOVENS QUE ESQUECEM A MEMÓRIA E A HISTÓRIA
por Umberto Eco – publicado em Geledés | 09 mai. 2015

umberto_eco

Umberto Eco é um filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano. Atualmente é diretor da Escola Superior de Ciências Humanas da Universidade de Bolonha. 

É um truísmo que os jovens carecem de conhecimento histórico geral. Mas, na minha experiência, para muitos jovens o passado se achatou em uma grande nebulosa indiferenciada. É por isso que, em uma carta aberta publicada recentemente na revista italiana “L’Espresso”, aconselhei meu neto adolescente a exercitar sua memória aprendendo de cor um longo poema.

Eu temo que as gerações mais jovens de hoje corram o risco de perder o poder da memória, tanto a individual quanto a coletiva. Pesquisas revelaram os tipos de enganos que persistem entre jovens ostensivamente educados: por exemplo, li que muitos universitários italianos acreditam que Aldo Moro foi líder da organização militante Brigadas Vermelhas, quando na verdade ele foi primeiro-ministro da Itália e as Brigadas Vermelhas foram responsáveis por sua morte em 1978.

Escrevi a carta para meu neto em dezembro, mais ou menos na época em que um certo vídeo se tornou viral no YouTube. Era um episódio de “L”Eredità”, um programa de perguntas e respostas da TV italiana que parece escolher os concorrentes com base na boa aparência e na simpatia natural, além de um módico conhecimento geral. (Supostamente isto é para evitar encher o programa com pessoas lindas mas sem noção que espremem seus cérebros só para responder a perguntas de múltipla opção como: Giuseppe Garibaldi foi um ciclista, um explorador, um líder militar ou o inventor da água quente?)

Em um episódio, o anfitrião, Carlo Conti, pediu que os concorrentes identificassem o ano em que Adolf Hitler foi nomeado chanceler da Alemanha. As quatro opções de respostas eram: 1933, 1948, 1964 ou 1979. Os quatro concorrentes que tiveram a oportunidade de responder foram: Ilaria, uma jovem muito bonita; Matteo, um homem forte de cerca de 30 anos, cabeça raspada e corrente no pescoço; Tiziana, uma jovem atraente que também parecia ter cerca de 30 anos; e outra garota chamada Caterina, que usava óculos e tinha um ar de sabe-tudo.

Deveria ser universalmente conhecido que Hitler morreu no fim da Segunda Guerra Mundial, por isso obviamente a resposta só poderia ser 1933 – sendo as outras datas avançadas demais. Mas Ilaria respondeu 1948, Matteo 1964 e Tiziana 1979. Quando chegou a vez de Caterina, ela foi obrigada a escolher 1933, mas fingiu incerteza ao fazê-lo, fosse por ironia ou por surpresa.

Conti também perguntou aos candidatos em que ano o ex-primeiro-ministro italiano Benito Mussolini se encontrou com Ezra Pound; novamente, as opções eram 1933, 1948, 1964 ou 1979. Ninguém é obrigado a saber quem foi Ezra Pound (para constar, um poeta e crítico americano), e se não tivesse sido um teste de múltipla opção eu não poderia ter dado o ano exato. Mas, como Mussolini foi assassinado em 1945, a única resposta possível era 1933. (Confesso que fiquei incrédulo ao saber a extensão em que o ditador se mantinha atualizado sobre poesia americana.) A bela Ilaria, suplicando indulgência com seu doce sorriso, chutou 1964.

Conti não pôde esconder sua incredulidade, nem muitas das pessoas que assistiram e comentaram o vídeo no YouTube. Mas esse momento foi o indício de um problema maior: os quatro concorrentes, que tinham todos aproximadamente de 20 a 30 anos e que podemos supor fossem bastante representativos de sua faixa etária, viram as quatro datas como parte de um passado genérico que ocorreu antes de eles nascerem. Quem sabe se não teriam caído na mesma armadilha se uma das opções de resposta fosse 1492?

Nossa era não é a primeira a experimentar essa homogeneização do passado. Considere por exemplo “O Casamento da Virgem”, que Rafael concluiu em 1504: a pintura mostra pessoas vestidas em trajes da era renascentista, apesar de a cena que retrata evidentemente ter ocorrido muito antes do Renascimento. Hoje é muito mais difícil justificar essa imprecisão das linhas, diante da quantidade de informação histórica amplamente disponível na Internet, em filmes e na televisão. Será possível que nossos quatro candidatos não soubessem distinguir entre o período em que Hitler entrou em cena e aquele em que o homem fez o primeiro pouso na lua? Será que para alguns (ou mesmo muitos) jovens de hoje o conceito de história é unidimensional?

Ainda tenho esperanças, porque soube desse vídeo no YouTube por meu neto de 13 anos e seus colegas de escola, que riram e zombaram quando me contaram a respeito. Talvez alguns jovens estejam aprendendo o valor da memória, afinal.

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