A USP e o SISU

por Célia Regina da Silva, especialmente para o Hum Historiador.

Sabe, eu fico pensando….

Lá se vão quase dez anos (2006) que eu entrei no curso de História da USP via vestibular da FUVEST.

Ainda me lembro das caras, em sua grande maioria, imberbes e chocadas de quando eu, com esta minha aparência (um pouco mais jovem e mais magra) de militante do Sendero Luminoso, pisei em praticamente todos os locais dentro da universidade. Mesmo em um lugar como o alojamento do CEPEUSP, embaixo do velódromo, onde fiquei morando durante intermináveis seis meses com mais umas vinte meninas (de acordo com a COSEAS todas pobres, porém de acordo com meu tirocínio NENHUMA negra), eu era olhada de maneira estranha, curiosa. Eu sempre notei isso, porque percepção sempre foi uma coisa que tive de sobra, mas eu achava divertido aquilo: Os cochichos, os olhares fortuitos, risinhos…

No fundo eu entendia o quanto era desconcertante para um garoto (a) de classe média, criado no último andar de um prédio ou em um sobrado de classe média pintado de amarelo, ter que assistir às solenes aulas do DH que duravam quatro terríveis horas, dependendo da disciplina, ao do lado de uma pessoa que tinha a cara da moça que lavava a louça que sujavam em casa, mas que nem sequer sabiam o nome dela.  Admito que isso me dava um certo prazer…

Mas o que me mantinha segura, longe dos ataques racistas “sérios” era o fato de eu estar ali por ter conseguido transpor as barreiras colocadas pelos mesmos. Por eu ter jogado o jogo deles e ter ganhado, tendo entrado em uma posição na carreira melhor do que a de muitos não mestiços e não pobres dali. Como diria aquele tiozinho do futebol que nunca morre: “Eles tinham que me engolir”. E devo dizer que o faziam num eterno e, porque não dizer, doloroso esforço de demostrar um falso sentimento de igualdade.

Todavia, em todas as ocasiões, mesmo quando eu abria a boca para polemizar em alguma aula (admito, coisa não rara), eu estava respaldada pela grandiosidade de um deus perfeito ao qual eu tinha conseguido agradar corajosamente. Tinha recitado para ele normas gramaticais impecáveis, nomes de rios que eu nunca tinha visto e versado sobre a importância do vulcanismo para um país do qual eu só conhecia a Biork. Um deus chamado FUVEST, que ninguém tinha a pachorra de contestar. Eu estava a salvo, tinha ganhado o jogo jogando com as regras deles. Bom pra mim que podia sapatear à vontade. E assim eu fiz.

Agora, eu fico pensando que depois que estas 1.489 vagas destinadas ao SISU, forem efetivamente distribuídas na USP, os alunos que fizerem jus a este direito, especialmente aqueles que tiverem uma aparência “desfavorável” como a minha, vão ter que ir às aulas, ao bandejão, ao CEPEUSP, à biblioteca, às  mesinhas da história e ao Facebook armados até os dentes para poderem se defender de todo tipo de observação injuriosa que poderá ser feita contra a sua pessoa e intelecto. O preconceito não será mais cuidadosamente disfarçado como era no meu tempo, pois agora essa gente chã, que não passou pelo crivo da aprovação do deus mais implacável da segregação universitária está sujeita não só ao risinho insolente, aos comentários insidiosos e perversos, porém abafados: Sem este respaldo estas pessoas podem ser atacadas frontalmente, de forma agressiva, o tempo todo.

Não se iludam os ativistas achando que isso foi uma vitória, isso foi só o início de um combate sangrento do qual já não se pode e nem se deve fugir. As coisas vão piorar e vão ficar feias de se ver. As máscaras da polidez vão, em algum momento, cair e os “alunos SISU” (não duvido que fiquem conhecidos por tal alcunha) que não estiverem preparados para lutar serão dizimados. Estejam cientes, senhores e senhoras que praguejam contra a injustiça que grassa na universidade, de que eles precisarão de apoio, não porque são inferiores ou menores do que o resto da corja, mas porque estão ousando jogar com outras regras que não foram aprovadas por quem sempre deu e ainda dá as cartas na sociedade. Eles terão que travar luta constante diante de olhares de ódio ou condescendência (sendo esta última pior, em minha opinião).

Sinto muito orgulho de todos que vão para a arena lutar o bom combate e fazer espirrar muita sujeira na cara branca e machista dessa universidade. Tenho plena consciência que as batalhas que travei nunca se igualarão a estas.  Mas o que sinto mesmo é alívio por não estar entre eles, uma vez que diante de uma situação destas, eu, dificilmente, sairia viva ou sem matar alguém.

E que venha o SISU!


Célia Regina da Silva é bacharel e licenciada em História pela Universidade de São Paulo.

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2 Comentários

Arquivado em Educação, Universidade, USP

2 Respostas para “A USP e o SISU

  1. Edu

    Li o artigo e fiquei bastante chocado. Não vou desmentir a experiência dela, pois não conheço, mas estranho muito. Do que conheço a USP, o depoimento parece uma grande mentira.
    Estudei na Unicamp na área de Humanas e de fato na época tinham poucos alunos negros ou de origem social muito pobre,, mas havia sim. Não só havia como eram tremendamente bem tratados e nunca tiveram qualquer preconceito; eu diría até que eram admirados, respeitados e procurados por todos. Ninguém olhava para eles como seres extraterrestres ou com qualquer agressividade. Estou chocado com este depoimento, porque me parece que o problema esta muito mais em quem escreveu , uma pessoa rancorosa, ela sim com raiva e problemas com seus pares e dificuldade de relacionamento e vvendo em conflito com o mundo. Não consegue se relacionar com naturalidade e tem traços psicológicos bem complicados, vendo a todos como inimigos. Sugiro que seu caso esta mais na área de humanas que lida com psicologia. Ademais há uma ignorância ao citatar o ENEN/SISu, esquecendo que os mesmos que fazem Fuvest,também participam deste exame que também na média premia os bons alunos ( pelo menos em princípio é o objetivo do exame). Os selecionados neste exame que eu saiba , não o são por cor de pele, nem raiva, mas estudantes que estudaram e querem a partír do seu esforço e caácidade entrar numa boa universidade. Não é Nós X Eles, mas sim entrar numa universidade de primeira linha onde cada um desempenhará igualmente por seus esforço e capacidade e terá uma experiência de relacionamento num período que definiria como o melhor da vida, especialmente se for positiva, construtuva e não rancorosa.

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