Brasil, um país sabotado: a moral, o resto e o patriarcalismo

por Lucas Freitas

Compreender a sociedade e a política brasileira é algo extremamente complexo, existem diversos fatores envolvidos, 200 milhões de pessoas e realidades regionais tão diferentes que seria mais fácil falar em um multiplicidade do que em uma unidade chamada Brasil. Porém, há elementos comuns. Estes são mais evidentes no seleto grupo que fica no topo da pirâmide, sua conduta funciona dentro de uma lógica de manutenção e acumulação de privilégios. Dentro deste jogo não existe a constituição, as regras sociais ou qualquer tipo de ética, tudo é valido desde que um certo verniz de legitimidade seja mantido. O problema seria como definir e explicar o comportamento do resto da população?

Um dos elementos mais básicos de nossa sociedade é o patriarcalismo, característica que data de nossa colonização e se faz presente em nossos meios mais conservadores. O patriarcalismo estabelece uma estrutura verticalizada e hierarquizada de sociedade, nesta há um núcleo no qual está o patriarca e, a partir deste, formasse uma rede de contatos que se espalha pela sociedade se relacionando com outras redes patriarcais (1). Quanto mais próximo do centro, maior será o acesso do indivíduo a recursos e a privilégios. Esta estrutura depende da obediência ao núcleo que controla e distribui os recursos para os participantes da rede.

Vamos tomar como exemplo as ocupações de escolas públicas de São Paulo. Tal iniciativa seria uma afronta a estrutura patriarcal pois, primeiro, quebra com a regra da obediência ao ousar questionar uma ordem dada (2). Segundo, estabelece uma forma de organização e atuação totalmente independente do centro, o que coloca em xeque a exclusividade do patriarca em distribuir os recursos e privilégios (3). Terceiro, expõe a distribuição de recursos enquanto injusta, o que ataca diretamente a legitimidade do núcleo patriarcal (4). E, quarto, inverte a ordem estabelecida ao demonstrar que os participantes da rede tem poder de negociação (5). A verticalização e hierarquização da qual depende o patriarcalismo, portanto, inverteria-se no momento em que o resto exige mais direitos do centro (6). Algo que jamais pode ser tolerado.

A primeira resposta do patriarcalismo ao ser contestado é sempre a violência (7), atos de intimidação – física e moral – feitos para tornar o rebelde em um exemplo daquilo que vai acontecer com todo aquele que seguir o mesmo caminho. Porém, o terrorismo patriarcal mal começou. É exatamente quando a a violência e o medo não surtem efeito desejado que os pit bulls são soltos. Os alunos, pais e professores envolvidos nas ocupações passarão a ser alvos de toda a perversidade que o patriarcalismo é capaz. Todo verniz é descartado e todas as armas poderão e serão utilizadas.

Tradicionalmente, três elementos são usados simultaneamente. O primeiro deles é o sistema judiciário, este atua para garantir os privilégios de nossa elite patriarcal, na manutenção da ordem estabelecida em sua verticalidade e hierarquia, e, por fim, na perseguição jurídica dos rebeldes (8). Para legitimar as ações do judiciário, os meios de comunicação de massa (Tvs, rádios e jornais) são utilizados para destruir a imagem e o apoio que as ocupações tem junto a população. Notícias de vandalismo serão inventadas (9) e os erros serão maximizados, pouco a pouco, o movimento será transformado de pacifico legítimo e justo em algo violento (10) e criminoso (11). Com base na ação do judiciário e da mídia, uma nova rodada de violência e intimidação é feita através da PM, estabelecendo um ciclo que será mantido até que o movimento e todos os seus participantes estejam completamente destruídos, submissos, mais uma vez, a ordem patriarcal.

Em meio a este ciclo atua o mais importante elemento patriarcal: o escravo da casa grande. Oliveira Viana demonstra que para o patriarca todo o resto são escravos, porém há os escravos da senzala e os da casa grande. A chave da manutenção da ordem está no escravo da casa grande que, convencido de que não é escravo, atua contra seus próprios interesses e defende a estrutura social. Para isso, vai denunciar o escravo rebelde, intimidá-lo e aterrorizá-lo, esperado que, pelo seu bom comportamento, seja recompensado pelo seu senhor. Ele é um escravo como qualquer outro, mas atua como um capitão do mato combatendo qualquer possibilidade de mudança, tornando impossível a liberdade para os escravos e para ele mesmo.

Para os movimentos sociais como as ocupações, consequentemente, sobram duas possibilidades: ou os mecanismos patriarcais esmagam o movimento; ou os alunos, pais e professores conseguem desgastar a legitimidade do patriarca o suficiente para obrigá-lo a um recuo momentâneo. O que determinará qual das duas possibilidade se tornarão realidade é a capacidade do movimento em manter o apoio da sociedade e desgastar a legitimidade do Patriarca – no caso, Geraldo Alckimim.

 

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2 Comentários

Arquivado em Educação, Opinião, Política, Sem categoria

2 Respostas para “Brasil, um país sabotado: a moral, o resto e o patriarcalismo

  1. Estou é na torcida por esses jovens que lutam pelo direito à Educação, de qualidade e pública!

    E belíssimo texto!

  2. Pingback: Do blog Hum Historiador, “Brasil, um país sabotado: a moral, o resto e o patriarcalismo” | otempodasideias

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