[I. Wallerstein]: A democracia em declínio e os tambores da guerra

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Desarmados pelas finanças, governos veem-se impotentes, desgastam-se com rapidez, são derrotados. Espalha-se uma tentação: e se saída estiver no ódio ao outro e nas armas?

por Immanuel Wallerstein | tradução Inês Castilho | imagem Alex Cherry
publicado originalmente em 05.jan.2016 no portal Outras Palavras

Foi um mau ano para os partidos no poder que enfrentaram eleições. Eles vêm sofrendo derrotas completas ou ao menos relativas. O foco tem se voltado para as eleições em que os chamados partidos de direita saem-se melhor — às vezes, muito melhor — que partidos no poder considerados de esquerda. Exemplos notáveis são Argentina, Venezuela e Dinamarca. Talvez possa-se acrescentar os Estados Unidos.

Menos comentada tem sido a situação opostas: partidos no poder que são “de direita” perdendo para forças de esquerda ou, ao menos, reduzindo seu percentual e número de cadeiras em plano nacional e ou local. Isso é verdade, de distintas maneiras, no Canadá, Austrália, Espanha, Portugal, Holanda, Itália e Índia.

O problema talvez não sejam os programas implementados pelos partidos, mas o fato de que os partidos no poder estão sendo culpados pela má situação das economias. Uma reação que vimos em quase todo lugar é o populismo xenófobo, de direita. Outra reação é demandar mais — e não menos — medidas do Estado de bem-estar social, conhecidas como “anti-austeridade”. Claro, é possível ser xenófobo e anti-austeridade ao mesmo tempo.

Mas quando um partido chega ao poder e precisa governar, espera-se que faça diferença na vida de quem o elegeu. E se não consegue fazê-lo, pode enfrentar reação severa nas eleições futuras, muitas vezes num breve prazo de tempo. É o que o primeiro ministro Modi, da Índia, aprendeu quando, menos de um ano depois de uma eleição nacional arrebatadora, seu partido teve mau desempenho nas eleições provinciais de Nova Deli e Bihar, onde acabara de vencer.

Não penso que essa volatilidade vá acabar tão cedo. A razão é bastante simples. Os mantras neoliberais de crescimento e competitividade não são capazes de reduzir significativamente os níveis de desemprego. Como resultado, podem forçar a transferência de riqueza dos estratos mais baixos para os mais ricos. Isso é muito visível e é o que leva à denúncia dos programas de austeridade.

A reação xenófoba responde a uma necessidade psíquica, mas não leva à elevação do nível de emprego, e portanto também não ao aumento da renda real. Os eleitores podem então retirar esses partidos do poder, como podem aqueles que lutam por objetivos de esquerda, como a elevação dos impostos pagos pelos muito ricos. Por sua vez, os governos – de esquerda, centro ou direita – têm menos dinheiro para as medidas de proteção social.

A combinação desses elementos não é muito negativa apenas para aqueles que se encontram na base da pirâmide de renda. Significa também o chamado declínio da classe média – ou seja, a queda de muitas famílias para as fileiras dos estratos mais baixos. Note-se, porém, que o modelo de eleições parlamentares disputadas basicamente por dois partidos mainstream é baseado na existência de um estrato de classe média numericamente grande, pronto para deslocar seus votos leve e calmamente entre dois partidos de centro, bastante semelhantes. Sem esse modelo funcionando, o sistema político torna-se imprevisível, tal como estamos vendo agora.

Acabo de descrever a cena intra-Estados. Mas há também a cena inter-Estados – o poder global relativo dos diferentes Estados. Assim como deve-se olhar para os níveis reais de emprego dentro de cada Estado, as taxas de câmbio entre as moedas são a chave para avaliar o poder entre Estados. O dólar mantém-se no topo, principalmente porque não há nenhuma boa alternativa no curto prazo. Contudo, a moeda norte-americana não é estável, e está também sujeito a mudanças súbitas e voláteis, assim como a um declínio relativo, no longo prazo.

Taxas de câmbio caóticas significam que resta uma última solução, extremamente perigosa, para reforçar o poder relativo entre Estados: a guerra. A guerra é ao mesmo tempo intimidadora e remuneradora no curto prazo, ainda que seja devastadora humanamente e leve à exaustão, no longo prazo. De modo que, quando os Estados Unidos debatem como perseguir seus interesses na Síria ou no Afeganistão, é muito forte a pressão para ampliar o envolvimento militar, ao invés de reduzi-lo.

Não é, em suma, um cenário bonito. A questão, para os partidos políticos, é que não é um bom tempo para realizar eleições. Alguns partidos no poder estão começando a julgar que não deveriam realizá-las, ou ao menos evitar eleições que sejam, ainda que marginalmente, competitivas.

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6 Comentários

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6 Respostas para “[I. Wallerstein]: A democracia em declínio e os tambores da guerra

  1. Questões Relevantes

    O artigo começa bem e parece caminhar para a nada sutil e célebre conclusão do estrategista de Bill Clinton na campanha americana de 1992, James Carville sobre a chave para vencer uma eleição: “É a economia, estúpido!.”

    No entanto, da metade para a frente, se perde.

    Primeiro envereda pela antiga tese de que guerras são propositalmente geradas como uma forma de movimentar a economia em tempos de crise, o que faz menos sentido do que se costuma imaginar.

    No último parágrafo, desfralda a tese de, digamos, dar um freio na democracia, ao dizer, sobre eleições próximas, que “Alguns partidos no poder estão começando a julgar que não deveriam realizá-las, ou ao menos evitar eleições que sejam, ainda que marginalmente, competitivas”. É como se imaginasse os EUA e países europeus agindo como a Venezuela de Nicolás Maduro. Pensar nisso com relação às democracias Americana e Européias é, no mínimo, um delírio.

    Aproveito para deixar um convite para a leitura de um artigo que aborda o Liberalismo Econômico por outro prisma e que, curiosamente, usa uma ilustração de temática similar à utilizada aqui.
    FUJA DE UM MUNDO MELHOR. http://wp.me/p4alqY-mF

    • Caro Paulo,

      Acho que temos interpretações distintas do texto do Wallerstein. Só para falar do último parágrafo, por exemplo, ele não propõe dar um freio na democracia, ele observa que “alguns partidos no poder começam a julgar que não deveriam realizá-las, ou ao menos evitá-las”. Isso é claro no texto dele. Não é uma tese dele, é uma observação a partir do posicionamento de alguns partidos europeus. Enfim, acho que realmente temos grandes divergências de interpretação desse texto.

      Att.

      RB

      PS: Devo dizer que acho curioso sua estratégia de fazer propaganda do seu blog liberal em praticamente cada post do meu blog. Tá com pouco acesso?

      • Questões Relevantes

        Rogerio, duas coisas: controle seu ego e leia de novo o que escrevi. Destaquei entre aspas exatamente a frase que você citou, e é justamente esta frase que deprecia totalmente o último parágrafo. Qual o sentido dela se não dar um jeito de impedir o correto funcionamento da democracia?

      • Meu ego está controladíssimo, brother. hahahahahaha Não sou eu que estou indo em blog alheio divulgar meus posts.

      • Questões Relevantes

        Rogério, nesta quinta meu blog teve 118 visitantes que leram 198 artigos. Nenhum deles veio do seu. Minha participação no seu blog, se trouxer leitores, ótimo, mas o motivo principal é contribuir para um debate plural. Costumo dizer que debate com quem concorda conosco não é debate, é confraria.

      • Paulo,

        Foi só uma observação. É que eu não me imagino entrando no seu blog pra promover o Hum Historiador, no entanto, fique à vontade para continuar promovendo o seu por aqui.

        Att.

        RB

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