A crise econômica no Brasil resulta do fracasso da estratégia liberal

Esta é a conclusão de Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp e integrante da Plataforma Política Social.

O texto a seguir foi publicado no portal da Carta Maior e teve como base a entrevista concedida pelo professor à repórter Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual.

O Hum Historiador repercute o texto na íntegra a seguir. No site da Carta Maior é possível ouvir o áudio da entrevista concedida à Rádio Brasil Atual.

LIBERAIS SÃO HIPÓCRITAS QUANDO SE DIZEM ASSUSTADOS COM A CRISE

Peter Ilicciev

São Paulo – Em entrevista à repórter Marilu Cabañas da Rádio Brasil Atual, o economista Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Unicamp e integrante da Plataforma Política Social, considera hipocrisia sem tamanho a atitude de economistas liberais de se assustarem com a atual crise econômica no país. “O que foi feito nada mais é do que aquilo que eles sempre receitaram; acham amarga uma comida cuja receita eles elaboraram”, afirma.

Fagnani é um dos autores do documento “Por um Brasil Justo e Democrático”, lançado no ano passado e elaborado por economistas, advogados, urbanistas, outros profissionais e intelectuais de diversas universidades. Para o professor da Unicamp, a crise econômica no Brasil é o fracasso da estratégia liberal.

O professor lembra que economistas ligados ao pensamento progressista defenderam o programa econômico da candidata Dilma Rousseff, por ser um contraponto ao projeto elaborado pelos economistas liberais, ligados aos candidatos Aécio Neves e Marina Silva. De cunho claramente recessivo e com o único objetivo de colocar a inflação no centro da meta a qualquer preço, os programas dos candidatos de oposição seguiam a lógica liberal: a renda cai, a demanda diminui e os preços são derrubados, mesmo que isso gere desemprego. Mas com a recessão as receitas do governo despencam, o que agrava o desequilíbrio fiscal.

O economista lembra que a tese liberal voltou em 2015, já que a oposição defendeu a “revisão do pacto social da redemocratização”, porque entende que as despesas das políticas sociais asseguradas pela Constituição de 1988 cresceram muito, e isso, para eles, explica o problema fiscal. Não aprenderam com o fato de que as políticas de austeridade afundaram a Europa, que vive uma crise há dez anos que ampliou a desigualdade, a pobreza e o destruiu o mercado de trabalho.

Segundo ele, o dado mais inusitado é que após a vitória eleitoral, essas ideias foram acatadas pelo governo Dilma. “Em 2014, foi lançado um manifesto de diversos economistas, que diziam que era um erro de estratégia, que a recessão seria aprofundada, haveria consequências enormes à sociedade. E nós da Plataforma Política Social começamos algumas revistas eletrônicas, uma com o título A virada neoliberal de Dilma, e infelizmente muitos acertaram as previsões.”

Em 2014, o Brasil não vivia uma crise com a gravidade que a oposição fazia crer, ressalta o economista. Ele acrescenta que a situação não era confortável, era o fim do ciclo de crescimento, em parte sustentado pelo mercado interno e o cenário internacional era desfavorável com os desdobramentos da crise de 2008. O comércio internacional, que crescia 8% ao ano na década passada, passou a 2% ao ano.

“Além disso, foram cometidos erros domésticos, como a política de desonerações e o aumento da taxa de juros a partir do início de 2013, mas nem assim era possível você afirmar que o Brasil vivia uma crise terminal, como passou a ser dito. Qual foi o grande indicador que dizia que o Brasil estava em uma crise fiscal enorme? É que em 2014 tivemos um déficit primário de 0,6%, esse foi o indicador que deflagrou o terrorismo econômico.”

De 2009 a 2013, o Brasil foi um dos únicos países do mundo que conseguiu um superávit primário, mas para o professor da Unicamp, prevaleceu a narrativa da crise terminal, e o governo Dilma não desenvolveu uma estratégia de comunicação para contrapor as críticas.

“O governo abriu a mão da hegemonia do debate, a narrativa liberal foi vitoriosa e contou com a ampla divulgação dos meios de comunicação; e, como sabemos, os meios de comunicação erradicaram a pluralidade das ideias econômicas, isso é gravíssimo. O que nos deixa preocupados é a unanimidade rasteira, sem consistência, ideológica. E o mais grave é que não leva em conta a complexidade e a gravidade externa desde 2008. Atualmente, estamos vivendo o aumento da taxa de juros americana.”

“O pacote mercadológico é de que a economia mundial está bem, e o problema brasileiro, em 2014, era fruto exclusivo do excesso da intervenção do Estado. A crise fiscal é fruto de políticas ‘populistas’, que visam a enfrentar a desigualdade social. É isso que foi vendido. Era possível fazer um ajuste mais gradual, e que não perdesse a perspectiva do longo prazo: qual o problema de o Brasil ter um déficit primário de 1% durante três anos? Se fosse problema, o Japão já tinha sumido do mapa, pois já possui déficits primários de 8% há dez anos.”

Em 2015, o quadro muda, surge uma grave crise que tem nome e sobrenome, diz Eduardo. “Essa crise é fruto da implantação do receituário ortodoxo liberal, que tem sido defendido por economistas liberais. O ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy é formado em Chicago, representa essa corrente de pensamento, e ele fez o que os economistas diziam que deveria ser feito. O que é mais paradoxal é que hoje quando você lê os jornais, os economistas liberais ficam assustados com a crise econômica, mas esquecem que o que foi feito é o que sempre receitaram. Eles acham amarga uma comida cuja receita é deles. É uma hipocrisia.”

O professor prevê que em 2016 não será fácil alterar a expectativa negativa plantada na econômica brasileira pela oposição. Para ele, fator promissor é que o debate amadureceu, e os movimentos sociais incorporaram a discussão, defenderam mudanças na política econômica, e a pressão social chegou ao governo. A saída de Levy e entrada de Nelson Barbosa no Ministério da Fazenda é promissora.

“Acho um fato positivo a reativação do Conselho de Desenvolvimento Social, vi com bons olhos os anúncios dos jornais de que o ministro Nelson Barbosa irá apresentar o projeto que ele tem para reativar a econômica e irá discutir isso no conselho. Acredito que abre uma perspectiva para que 2016 seja melhor que 2015, e interrompa o processo de deterioração, para começar um processo de retomada em 2017. É difícil reverter, mas abre uma perspectiva favorável.”

 

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20 Comentários

Arquivado em Economia, Internet, Política, Revistas

20 Respostas para “A crise econômica no Brasil resulta do fracasso da estratégia liberal

  1. Gallo

    quaquaqua! liberal? quando? nova matriz econômica não existiu?

    Gallo

    >

  2. Donaldo M Dagnone

    ah-ah-ah-AH!!! Este blog virou um blod de humor!!!! Treze anos de PT e querem por a culpa nos Liberais????

    • Ora Donaldo, se você ler e compreender o que o professor está argumentando, verá que faz todo o sentido. 😉

      Att.

      RB

      • Donaldo M Dagnone

        Eu li. E compreendi. Compreendi que o artigo é de um professor da UNICAMP e a Economia da UNICAMP é conhecida pelo ideário de esquerda.
        Fato: o principal problema de 2015 não foi o receituário liberal do Levy – ele estava mais do que certo; o problema é que praticamente nada que ele propôs saiu do papel – e o Mercado não é trouxa. Quem vai por dinheiro em um país cuja inflação não dá para prever?
        Exemplo: eu tenho US$1,000 e o câmbio está a US$1=R$4 – eu converto e tenho agora R$4mil; uma inflação de 20% vai fazer o câmbio ir para US$1=R$4,80 – quando eu converter meus R$4mil para dólares, vou ter apenas US$833 – ou seja, PERDI DINHEIRO. Para evitar isto, eu precisaria investir em um negócio que me desse 20% de LUCRO – o que não é fácil.
        Melhor deixar o dinheiro na Suiça. Ou na Argentina do Macri. 😉

      • Tá certo, Donaldo. 😉

        Att.

        RB

      • Donaldo M Dagnone

        Com certeza. E agora com o Nelson Barbosa na Fazenda, vamos ter um 2016 praticamente tão ruim quanto 2015. Quero ver em quem vocês de Esquerda vão por a culpa no final do ano…

      • Senti de sua parte um medo do que pode fazer o Nelson Barbosa??? Segundo o autor do texto desse post, Eduardo Fagnani, o Nelson Barbosa parece estar interessado em reverter a política liberal tocada pelo Levy no ano passado, fazendo com que 2016 seja melhor que 2015 e preparando o ambiente para que a retomada se dê em 2017. É isso que o aflige?

        Att.

        RB

      • Donaldo M Dagnone

        Vamos aguardar o final de 2016 para avaliar a Economia. O problema é que 2015 foi tão ruim (pior ano desde 1500) que vai ser difícil que 2016 seja pior (há um efeito de represamento das compras por parte das empresas e pessoas).
        Mas é fato: 2016 terá PIB negativo novamente. E Barbosa é o culpado disto.

      • Claro que sim, Donaldo. O bom é que você já o considera culpado com 10 dias que ele está no cargo. rsrsrs

        Achei curioso o seu recorte temporal: “pior ano desde 1500”. Isso é baseado no quê? Pior ano pra quem? Aliás, porque desde 1500, se o Brasil, na melhor das hipóteses, deve completar 194 anos em 2016?

        Att.

        RB

      • Donaldo M Dagnone

        Nelson Barbosa está no Governo Federal desde 2003. E fazendo besteira.
        Sobre o PIB, veja este grático: https://media.licdn.com/mpr/mpr/AAEAAQAAAAAAAAY4AAAAJGI0MzE2YWE1LWFkOGEtNDU4NS1iYjg3LTJiNTQ2MTI4ZjRiOA.png

      • Então tá explicado. A culpa nunca foi do Mantega. Foi sempre o Barbosa. O Levy, coitado, não teve tempo de desarmar a bomba que o Nelson implantou em 2003. #TáSerto

      • Isto mesmo Beier! Mantega TAMBÉM é culpado!!!! E Dilma-PT também é culpada porquê não manteve o Meirelles no BACEN.

  3. Republicou isso em Poética de Botequime comentado:
    Talvez ajude algumas pessoas a entender melhor o assunto

    • É simples de entender: o governo de Dilma-PT gastou no cartão de crédito, não pagou a fatura e agora ninguém quer emprestar dinheiro para ele ou mesmo sair para tomar um cerveja porquê este governo não vai pagar a cerveja dele…

      • Não, Donaldo. O governo fez ajuste fiscal quando a economia não está crescendo. Quando você faz isso, ocorre a recessão. Reformas são feitas quando a economia está aquecida, e não quando está estagnada.

        Sabe o que os USA fizeram? Justamente tudo ao contrário do que os liberais receitaram.

      • Não, Luiz Santos. A economia NÃO está crescendo JUSTAMENTE por causa da FALTA de ajuste fiscal.
        Me fala: você emprestaria dinheiro para alguém devendo R$200mil na praça?
        E sabe o que os USA fizeram: imprimiram dólares – por quê eles podem, gerando déficits que são funcionados pelo mundo, em especial a China. O Brasil NÃO pode fazer isto por quê NINGUÉM quer Reais…

  4. Brasil não é liberal, nunca foi liberal e com “professores” desse nível é que nunca será mesmo. Levy só queria aumentar impostos. Não sabia que isso é ser liberal. E é desonestidade intelectual das brabas. Liberais sempre criticaram as medidas do Governo e disseram que iam levar o país pra crise. Agora que não deu mesmo, a culpa é dos liberais???

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