[Tim Vickery] O Brasil de 2015 e a Inglaterra dos anos 1960

O Hum Historiador repercute uma coluna escrita pelo correspondente e colunista da BBC no Brasil, Tim Vickery, sobre as semelhanças que ele vê no Brasil atual e a Inglaterra da década de 1960, onde ele viveu.

Acho interessante a percepção de Vickery a respeito da Classe Média na Inglaterra dos anos 60 e no Brasil, ano passado.

Eduardo Martino

MINHA PRIMEIRA GELADEIRA E POR QUE O BRASIL DE HOJE LEMBRA A INGLATERRA DOS ANOS 60
por Tim Vickery | publicado originalmente no portal da BBC | nov.2015

Acho que nasci com alguma parte virada para a lua. Chegar ao mundo na Inglaterra em 1965 foi um golpe e tanto de sorte. Que momento! The Rolling Stones cantavam I Can’t Get no Satisfaction, mas a minha trilha sonora estava mais para uma música do The Who, Anyway, Anyhow, Anywhere.

Na minha infância, nossa família nunca teve carro ou telefone, e lembro a vida sem geladeira, televisão ou máquina de lavar. Mas eram apenas limitações, e não o medo e a pobreza que marcaram o início da vida dos meus pais.

Tive saúde e escolas dignas e de graça, um bairro novo e verde nos arredores de Londres, um apartamento com aluguel a preço popular – tudo fornecido pelo Estado. E tive oportunidades inéditas. Fui o primeiro da minha família a fazer faculdade, uma possibilidade além dos horizontes de gerações anteriores. E não era de graça. Melhor ainda, o Estado me bancava.

Olhando para trás, fica fácil identificar esse período como uma época de ouro. O curioso é que, quando lemos os jornais dessa época, a impressão é outra. Crise aqui, crise lá, turbulência econômica, política e de relações exteriores. Talvez isso revele um pouco a natureza do jornalismo, sempre procurando mazelas. É preciso dar um passo para trás das manchetes para ganhar perspectiva.

Será que, em parte, isso também se aplica ao Brasil de 2015?

Não tenho dúvidas de que o país é hoje melhor do que quando cheguei aqui, 21 anos atrás. A estabilidade relativa da moeda, o acesso ao crédito, a ampliação das oportunidades e as manchetes de crise – tudo me faz lembrar um pouco da Inglaterra da minha infância.

Por lá, a arquitetura das novas oportunidades foi construída pelo governo do Partido Trabalhista nos anos depois da Segunda Guerra (1945-55). E o Partido Conservador governou nos primeiros anos da expansão do consumo popular (1955-64). Eles contavam com um primeiro-ministro hábil e carismático, Harold Macmillan, que, em 1957, inventou a frase emblemática da época: “nunca foi tão bom para você” (“you’ve never had it so good”, em inglês).

É a versão britânica do “nunca antes na história desse país”. Impressionante, por sinal, como o discurso de Macmillan trazia quase as mesmas palavras, comemorando um “estado de prosperidade como nunca tivemos na história deste país” (“a state of prosperity such as we have never had in the history of this country”, em inglês).

Macmillan, “Supermac” na mídia, era inteligente o suficiente para saber que uma ação gera uma reação. Sentia na pele que setores da classe média, base de apoio principal de seu partido, ficaram incomodados com a ascensão popular.

Em 1958, em meio a greves e negociações com os sindicatos, notou “a raiva da classe média” e temeu uma “luta de classes”. Quatro anos mais tarde, com o seu partido indo mal nas pesquisas, ele interpretou o desempenho como resultado da “revolta da classe média e da classe média baixa”, que se ressentiam da intensa melhora das condições de vida dos mais pobres ou da chamada “classe trabalhadora” (“working class”, em inglês) na Inglaterra.

Em outras palavras, parte da crise política que ele enfrentava foi vista como um protesto contra o próprio progresso que o país tinha alcançado entre os mais pobres.

Mais uma vez, eu faço a pergunta – será que isso também se aplica ao Brasil de 2015?

Alguns anos atrás, encontrei um conterrâneo em uma pousada no litoral carioca. Ele, já senhor de idade, trabalhava como corretor da bolsa de valores. Me contou que saiu da Inglaterra no início da década de 70, revoltado porque a classe operária estava ganhando demais.

No Brasil semifeudal, achou o seu paraíso. Cortei a conversa, com vontade de vomitar. Como ele podia achar que suas atividades valessem mais do que as de trabalhadores em setores menos “nobres”? Me despedi do elemento com a mesquinha esperança de que um assalto pudesse mudar sua maneira de pensar a distribuição de renda.

Mais tarde, de cabeça fria, tentei entender. Ele crescera em uma ordem social que estava sendo ameaçada, e fugiu para um lugar onde as suas ultrapassadas certezas continuavam intactas.

Agora, não preciso nem fazer a pergunta. Posso fazer uma afirmação. Essa história se aplica perfeitamente ao Brasil de 2015. Tem muita gente por aqui com sentimentos parecidos. No fim das contas, estamos falando de uma sociedade com uma noção muito enraizada de hierarquia, onde, de uma maneira ainda leve e superficial, a ordem social está passando por transformações. Óbvio que isso vai gerar uma reação.

No cenário atual, sobram motivos para protestar. Um Estado ineficiente, um modelo econômico míope sofrendo desgaste, burocracia insana, corrupção generalizada, incentivada por um sistema político onde governabilidade se negocia.

A revolta contra tudo isso se sente na onda de protestos. Mas tem um outro fator muito mais nocivo que inegavelmente também faz parte dos protestos: uma reação contra o progresso popular. Há vozes estridentes incomodadas com o fato de que, agora, tem que dividir certos espaços (aeroportos, faculdades) com pessoas de origem mais humilde. Firme e forte é a mentalidade do: “de que adianta ir a Paris para cruzar com o meu porteiro?”.

Harold Macmillan, décadas atrás, teve que administrar o mesmo sentimento elitista de seus seguidores. Mas, apesar das manchetes alarmistas da época, foi mais fácil para ele. Há mais riscos e volatilidade neste lado do Atlântico. Uma crise prolongada ameaça, inclusive, anular algumas das conquistas dos últimos anos. Consumo não é tudo, mas tem seu valor. Sei por experiência própria que a primeira geladeira a gente nunca esquece.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

Anúncios

10 Comentários

Arquivado em Cultura, Economia, Política

10 Respostas para “[Tim Vickery] O Brasil de 2015 e a Inglaterra dos anos 1960

  1. Joo Luiz Santos

    A vida é feita de escolhas. Não podemos escolher o que a vida vai colocar à nossa frente, mas podemos escolher como reagimos ao que ela nos apresenta. Se a situação atual é boa ou ruim, isso se deve à qualidade das escolhas que fizemos; portanto, se desejamos construir a melhor versão do futuro, precisamos melhorar a qualidade das nossas escolhas. Atitudes limitadoras são as que restringem nossas possibilidades de sucesso e felicidade. Elas estão ligadas aos nossos medos e mecanismos de defesa. Como o ser humano não quer sofrer ele se protege, e ingenuamente, não percebe que o excesso de proteção é mais perigoso que o que ele temia. Quem se protege demais não ousa, não inova… não vive! Abrir mão dos nossos mecanismos de defesa consiste em compreender que corajoso não é quem não sente medo, mas quem segue em frente mesmo sentido medo. A coragem é um medo que não paralisa!Enquanto nos defendemos, não crescemos, apenas fugimos das responsabilidades arrumando desculpas nobres para atitudes pobres. O filósofo Aristóteles dizia: “Nós nos tornamos aquilo que repetidamente fazemos!”. Sócrates propunha: “O exercício contínuo da virtude, torna virtuoso o coração!”. Arquimedes proclamava: “Me dê um ponto fixo e uma alavanca e eu moverei o mundo!”. Nenhum ser humano deve passar pela vida em que o futuro de paz em seu rastro torne-se um obstáculo, principalmente a sua realidade nada o explica e nada o aporta e não tão pouco o chama. E sobre tudo quando a lua alheia verte a luz que tudo dissipa e nada vence o lugar onde estou e não me permite identificar se estou no abismo ou cume. Quem impediu quem nunca fui à expectativa das medidas humanas? Quem, dentro de mim, é que me desviou? Quem ao ser o que conheço por quem eu sou na vida, me trouxe, em estratagemas de descida? Ao passar na vida pensando o impreciso, fico a questionar qual é a chave para que possamos reorientar nossas vidas não para uma linha reta, mas para o zigue- zague que se move em diferentes ângulos de acordo com as contingências locais em mudanças. Viva de modo que, entrando em suas catedrais de tranquilidade icônica, possa identificar se o seu destino final é de ser exitoso ou fracassado, e faça novas promessas, consciente que entre mim e o que sou há a escuridão. Daí o desejo espasmódico do Quase Verdadeiro nasce como reação neurótica ao vazio das lembranças, o Falso Absoluto é filho da consciência infeliz do presente sem consciência. Existe um consenso no pensar migrante? Se existe, qual é e como se aplica à vida da vida atual? Que dúvida, percebe-se que nada evoca, a não ser o mistério que o tempo tem fechado em sua mão, mas a incerteza é maior! Ressignificação da leitura de vários autores por João Luiz Fonseca dos santos. Recife, 20/12/2015.

    Date: Sat, 9 Jan 2016 18:56:09 +0000 To: jolufose@hotmail.com

  2. A Esquerda Brasileira inventou uma LUTA DE CLASSES que nunca existiu… e agora que PTitanic afunda, querem por a culpa nos passageiros da 1. classe…

    • Gozado que esse argumento de que “a esquerda brasileira inventou a luta de classes que nunca existiu”. Fico me perguntando onde vivem as pessoas que utilizam esse argumento. Incrível!!!

      • Aqui na Vila Mariana, São Paulo-SP. Luta de Classes remonta ao séc. XIX, Marx etc etc. Isto em uma Inglaterra em que a mobilidade social era baixíssima por diversos mecanismos que não existe no Brasil.
        Volto a insistir: meus avós eram carpinteiro/dona-de-casa e meu pai conseguiu fazer USP. Em uma geração, com esforço, se muda de classe social neste país.

      • As rodas da História são movidas pela meritocracia. #TáSerto.

      • Você por exemplo… entrou na História-USP por cota ou porquê estudou?

      • Sua frase traz um equívoco muito comum entre os que atacam a política das cotas raciais, que é tomar como pressuposto que cotistas não estudam. Primeiro você deveria entender sobre o assunto que pretende discutir para, somente então, passar a discuti-lo.

        Postei em outro comentário 10 links para posts que escrevi neste blog sobre as cotas raciais e minha posição em relação a elas. Além disso, se você soubesse como a USP se posiciona em relação ao tema, não teria feito essa pergunta. Portanto, sigo recomendando a leitura dos posts sobre cotas raciais que publiquei por aqui.

        Att.

        RB

  3. Pingback: O Hum Historiador repercute uma coluna escrita pelo correspondente e colunista da BBC no Brasil, Tim Vickery, sobre as semelhanças que ele vê no Brasil atual e a Inglaterra da década de 1960, onde ele viveu. Acho interessante a percepção de Vickery a

  4. Pingback: O Hum Historiador repercute uma coluna escrita pelo correspondente e colunista da BBC no Brasil, Tim Vickery, sobre as semelhanças que ele vê no Brasil atual e a Inglaterra da década de 1960, onde ele viveu. Acho interessante a percepção de Vickery a

  5. Pingback: O Hum Historiador repercute uma coluna escrita pelo correspondente e colunista da BBC no Brasil, Tim Vickery, sobre as semelhanças que ele vê no Brasil atual e a Inglaterra da década de 1960, onde ele viveu. Acho interessante a percepção de Vickery a

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s