Arquivo do mês: fevereiro 2016

Vida cotidiana nos campos de refugiados da ONU na Palestina

Abro espaço no blog para repercutir uma matéria de dezembro de 2013, publicada no portal Brasil de Fato, que dá uma ideia de como é a vida cotidiana de humilhação, dor e sofrimento nos campos de refugiados palestinos mantidos pela ONU.

“TEM UMA COLÔNIA ISRAELENSE NO LUGAR DA MINHA VILA”
por José Coutinho Júnior, enviado especial à Palestina para o Brasil de Fato | 27.dez.2013

Foto: Brigada Gassan Kanafani

Nas próximas linhas, a esperança de refugiados em retornar à terra de origem, resistindo ao exército israelense e às difi culdades do dia a dia

“Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Esse era o lema do movimento sionista quando começou a ocupar os territórios palestinos em 1948, dando origem ao Estado de Israel. A justifi cativa de que não existia ninguém antes dos judeus na Palestina, e que eles estavam apenas retornando à sua terra sagrada, é amplamente aceita até hoje para justifi car os confl itos que ocorrem no local. A ocupação violenta de 532 vilas palestinas em 1948 por Israel expulsou mais de 750 mil palestinos de suas terras, destruindo suas casas, para que fossem criadas no lugar colônias israelenses, que se expandem em número e tamanho a cada ano.

Nessas colônias, moram civis israelenses que recebem incentivos para permanecer na área, como casa, dinheiro para produção agrária pelo governo de Israel e redução da carga de impostos, além de treinamento militar e armas. Pela proximidade com áreas palestinas, essas colônias têm a função de pressionar os palestinos a abandonar suas terras. “A história ofi cial de Israel diz que os israelenses chegaram aqui e não tinha ninguém nas casas, então eles entraram e ficaram. A história palestina diz que não tinha ninguém nas casas porque os palestinos tinham medo das mortes e dos ataques que estavam ocorrendo nas outras vilas. Ninguém ia sair de suas casas e deixar seus pertences sem motivo”, afirma Aysar Alsaif, refugiado do campo de Deheishe.

Desde 1984, os palestinos expulsos se tornaram refugiados e vivem em 59 campos espalhados pela Palestina, Líbano, Síria e Jordânia, na esperança de um dia retornarem a suas casas. Hoje, a população de refugiados palestinos ultrapassa os 5 milhões.

Os refugiados pensavam que, em algumas semanas, talvez meses, pudessem voltar para suas vilas e casas. Os anos foram passando, as tendas se tornaram casas e os campos de refugiados surgiram. “De 1948 até 1956, moramos em barracas. Em 1956 ocorreu a maior nevasca da Palestina e muitas pessoas morreram de frio. A ONU então  construiu abrigos de 9m² para cada família, não importando se esta tinha um ou dez fi lhos. Era um quartinho, e para cada 15 casas havia um banheiro. Não tinha eletricidade e a água fi cava em um tanque na rua principal. Em 1970, fi zemos a eletricidade funcionar e criamos uma rede de esgoto. Percebemos que demoraríamos para voltar, então queríamos uma vida um pouco mais confortável”, conta Alsaif.

A reportagem do Brasil de Fato visitou dois campos de refugiados próximos a Belém: Aida e Deheishe. Em Ainda vivem 5 mil pessoas, sendo que duas mil são menores de idade, numa área de 700 mil metros quadrados [mesmo espaço da Ceagesp, em São Paulo]. O campo se encontra ao lado do muro construído por Israel para segregar e oprimir os palestinos. A população do campo vem de 27 vilas ocupadas por Israel em 1948. Deheishe tem uma população de 13 mil pessoas que vive em uma área de 500 mil quadrados. É uma das áreas com maior densidade populacional não só da Palestina, mas de todo o mundo. Os campos têm em sua entrada uma chave, símbolo dos refugiados.

Em 1948, muitos foram expulsos violentamente e não tiveram tempo de pegar seus pertences, enquanto outros, ouvindo as histórias da brutalidade israelense, trancaram suas casas e foram embora. A única coisa que levaram foi a chave. A ex-primeira-ministra Golda Meir, uma das fundadoras do Estado de Israel, declarou que quando os velhos que foram expulsos de suas vilas morressem, os jovens esqueceriam da terra de onde vieram e não teriam mais o desejo de voltar.

Resistência

No entanto, ao andar pelas estreitas vielas dos campos, não é isso que se percebe. As paredes e muros das casas estão cheias de frases contra a ocupação israelense. Pinturas dos líderes, mártires e presos políticos palestinos podem ser vistas a todo momento, além de grafites, charges e desenhos políticos denunciando a ocupação.

Os refugiados que vivem na Palestina não se consideram cidadãos daquele território. Segundo Mohammed Youssef, refugiado de Aida, “posso viver na Palestina, mas não vivo na minha vila. Minha vila se chama Deraban, é próxima a Jerusalém, e foi ocupada por Israel em 1948”.

Por não se considerarem cidadãos palestinos, os refugiados que vivem no campo não pagam impostos ao governo da Autoridade Nacional Palestina (ANP), o que gera atritos entre as duas partes. “Não pertencemos a esse lugar, pertencemos às nossas vilas. Por isso a ANP se recusa a fornecer água ou eletricidade para o campo. Estamos sob tutela da ONU, o que legitima a nossa condição de refugiados, não da Autoridade Palestina”, diz Aysar Alsaif. A vida no campo de refugiados é dura.

Em Aida, 65% dos refugiados estão desempregados – a maioria trabalhava no setor de construção em Israel. Após a segunda intifada, em 2003, e com o crescimento das ações de homens-bomba palestinos, eles foram proibidos de ir aos territórios israelenses. Hoje em dia, trabalham nas cidades mais próximas, em especial Belém, principalmente no setor de serviços.

As crianças não têm nenhum tipo de área de lazer, fi cando a maior parte do tempo na rua. Em Deheishe, além dos problemas com falta de água e luz, existe apenas um médico da ONU para atender toda a população. Não há privacidade, pois a área é muito pequena, e cada vez mais casas são construídas em cima de outras, pois os fi lhos dos refugiadosconstituem famílias e não têm condições fi nanceiras de morar nas cidades.

Mohammed Youssef conta que antes da construção do muro, o campo era maior. “Antes do muro, em 2000, lembro que ia jogar numa área, tinha uma praça para as crianças. Hoje o campo é muito pequeno, não há nenhuma área pública, as crianças brincam na rua. Quando a construção começou, houve muitos problemas. Os israelenses atiraram e mataram crianças”.

Relatos

Mas o maior problema dos dois campos é, sem dúvida, a violência. O exército israelense não respeita o fato dos refugiados estarem sob proteção da ONU ou de os campos se localizarem em territórios governados pela ANP. Em Aida, pela proximidade com o muro, há incursões todos os dias. Existe um portão azul em frente ao campo, do qual o exército sai para realizar prisões, jogar bombas de gás lacrimogênio e atirar nos refugiados.

Em julho deste ano, o exército quis entrar no centro cultural do campo, coordenado por Mohammed, pois como o prédio é alto, seria possível monitorar o campo com facilidade. Ele se recusou a abrir a porta, e foi alvejado com um tiro do soldado. Na porta do centro ainda há marcas das balas. Mohammed afi rma que “em 1948 Israel ocupou minha vila, matou pessoas, crianças. Hoje agem da mesma forma e fazem as mesmas coisas. Todas as famílias aqui têm histórias de parentes que já foram presos ou mortos pelo exército”.

Mohammed, ao andar pelo campo, para em diversos locais e conta histórias chocantes relacionadas à violência do exército. “Esta torre do muro está queimada porque um dia era aniversário de um adolescente de 15 anos, que saiu para comprar seu bolo. Ao passar por aqui, um soldado que estava na torre o matou com um tiro. Muitas crianças, revoltadas com o que aconteceu, botaram fogo na torre. Depois disso, no mesmo dia, o exército de Israel veio e prendeu 35 crianças – a mais velha tinha 14 anos”.

Ele conta que na época em que o muro estava sendo construído, muitos moradores do campo começaram a conversar com os trabalhadores, dizendo a eles que o muro só legitimaria ainda mais a opressão de Israel no campo, e que a construção deveria parar. O exército israelense rapidamente prendeu 186 pessoas que conversaram com os trabalhadores.  Destas, 100 eram crianças. Ao se aproximar da escola do campo, administrada pela ONU, Mohammed aponta para aonde deveriam estar as janelas.

“Toda escola do mundo tem janelas, certo? Em 2002, soldados nas torres israelenses atiraram nos vidros da escola e feriram 20 crianças. Assustadas, elas não queriam mais voltar à escola, porque diziam que não queriam morrer. A ONU perguntou ao exército por que eles atiraram na escola, se sabiam que lá só tinha crianças, e a resposta foi: ‘não sabíamos que era uma escola ali’”.

Ainda caminhando, Mohammed aponta para uma casa. “Aqui, Israel colocou uma bomba na porta, bateu, e quando a mulher abriu a porta para ver quem era, a bomba explodiu. Seis fi lhos estavam em casa nessa hora e viram a mãe morrer. Quando a ambulância palestina veio pegar o corpo, o exército impediu a passagem a balas. O corpo só foi retirado dois dias depois, quando a Cruz Vermelha conseguiu entrar”.

Aysar Alsaif afi rma que em Deheishe não é diferente. Lá, o exército entra no campo pelo menos duas vezes por semana. “Às vezes entram para prender pessoas e danifi car casas. Há um mês atrás, prenderam uma criança. Eles também entram por nada, e defi nimos ‘nada’ como o treinamento dos recrutas do exército. A maioria das pessoas nesse campo já foi presa. Uma ou duas pessoas de cada família já passou algum tempo na prisão. Cinco pessoas que estão presas daqui, se somadas a quantidade de anos das condenações, daria mais de 500 anos de prisão, e duas estão presas para sempre”.

Retorno

“Os refugiados que desejam retornar para suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser permitidos a fazê-lo, na data possível mais próxima, e os que escolherem não retornar devem ser indenizados por perdas de danos as quais, sob princípios da lei internacional de igualdade, devem ser cumpridos pelos governos ou autoridades responsáveis”.

Esse é o artigo 11 da Resolução 194 da ONU, que prevê a volta dos refugiados para seus territórios. No entanto, Israel ignora essa resolução. Um dos motivos é que, se Israel permitir o retorno dos refugiados, a população palestina irá praticamente dobrar: de 6 milhões, passarão a viver no mesmo território 11 milhões de palestinos.

Os refugiados não veem uma solução simples para sua situação. Acreditam que enquanto Israel existir, não irão retornar para suas terras de origem. A luta dos refugiados é, dessa forma, uma luta de resistência contra a ocupação israelense.

Ambos os campos contam com uma organização social. Há um grupo de esportes e dança para as crianças nos dois campos, e em Deheishe existe um departamento de mulheres e um comitê de saúde para suprir a demanda da população por médicos.

“Seguimos resistindo. Sei que esse campo é simbólico, mas eu odeio morar aqui. Não tenho escolha, estou preso aqui, minha vila está a 10 minutos de distância, mas tem uma colônia israelense no lugar dela”, diz Aysar Alsaif.

Segundo Mohammed, a ajuda de organizações de outros países é fundamental para que os refugiados atinjam seus objetivos. “Procuramos paz, queremos voltar para nossas vilas, e tenho certeza que vou voltar. Mas não vamos conseguir sozinhos. Precisamos da ajuda e da solidariedade do mundo todo, para que nós palestinos possamos obter paz e voltar às nossas terras”.

“Quando começamos a resistir por conta própria a tudo isso, nos chamam de terroristas e a lei internacional vai contra nós, mas quando tentamos aplicar esta lei aos crimes de Israel, ela não funciona. Não temos violência injetada no corpo. Somos normais, queremos amar, ser felizes, nos divertir. Mas é uma condição que nos leva à loucura. Não podemos viver por conta da ocupação, e quando reagimos, a comunidade internacional nos chama de terroristas que usam da violência, mas não olham para a ocupação que causa esse processo”, afirma Aysar Alsaif. E, na saída do campo de Aida, uma nuvem de gás lacrimogêneo cobre a visão. “É o exército de Israel que atira o gás nas crianças que jogam pedras no portão. Eles não sabem o que é humano”, lamenta Mohammed

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O Oscar, o jornalismo e o racismo

por Fábio Nogueira para o blog Fazendo Media | 03.fev.2016

racismo oscarO ano mal iniciou e já começamos a levar uma série de baques. Mortes de personalidades que fizeram parte da minha juventude e simplesmente nos deixaram órfãos. A vida Continua. Fora isso, somos assolados por comentários que nos fazem duvidar de certos jornalistas. Um deles de certa emissora, ainda não conformado pela decisão massacrante do STF (Supremo Tribunal Federal) que deu parecer favorável à constitucionalidade das cotas raciais em universidades públicas, jorrou o seu veneno contra os alunos que optaram por essa política. Utilizou sua visibilidade televisa para afirmar que esses alunos seriam péssimos profissionais quando se formassem. É um daqueles periodistas mal intencionados que fizeram “profecias” catastróficas em referência à entrada de cotistas nas universidades. Tais previsões eram as piores possíveis, partiam dos conflitos raciais dentro das instituições de ensino superior, passavam pela queda da qualidade do ensino e divisão racial do país (como se esta não existisse ), até as desistências. A pergunta que fica é: cumpriram-se as profecias?

Doze anos já se passaram desde que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) adotou as políticas de cotas raciais. Para muitos, outras universidades públicas pareciam esperar quais seriam os primeiros resultados da UERJ para, somente então, seus conselhos universitários tomarem medidas similares. Como indica essa matéria publicada no portal Geledés.

De modo geral, as cotas são um sucesso. Tenho testemunhado a entrada de jovens e adultos que fazem parte da primeira geração da família a ingressar em uma universidade. Não entro mais naquela mesmice do contra ou a favor. Encerrou. Hoje a minha função é dizer o que são as políticas de ações afirmativas (incluindo cotas) e como outros países as têm adotado segundo suas necessidades e histórias.

Quanto àqueles que insistem em ficar na mesma discussão….. entendo que seja melhor deixar os cães latirem. Nunca saberão o que é viver em pé de igualdade e, aliás, a ideia de viver em uma sociedade que se pretende igualitária lhes causa pânico.

Tal como esses, há também quem pregue a meritocracia como parâmetro de igualdade. Soa como canto da sereia essa palavra. Chega a ser imoral pregar esta mentira num país tão desigual como o Brasil. Mesmo com os avanços sociais, ainda há muitos Brasis. Há um, bastante conhecido, em que se destaca uma minoria opressora que vem mandando há séculos no país. Esta, como se sabe, não está disposta a dividir os privilégios com ninguém. E há outro Brasil, o da maioria, que clama para que seja desatado o nó da desigualdade.

Atores e atrizes estadunidenses não perderam tempo em criticar a academia de arte e cinema de Hollywood. Pelo segundo ano consecutivo, a ausência negra (as) dentre todas as categorias foi percebida. Não há negros indicados sequer nas categorias técnicas. O resultado será o boicote de personalidades negras e brancas solidárias pela ausência da diversidade dentro da academia. Os protestos já estão gerando frutos. No próximo ano Hollywood fará várias alterações visando aumentar a pluralidade de sua premiação, buscando incluir mais negros e latinos.

Vale destacar o silêncio de nossos atores em relação a este assunto. Pouquíssimos abordam o tema, pois não há o compromisso de esconder e fingir que está tudo bem.Vejo atores veteranos repetindo os mesmos papéis em outras novelas, parecendo continuação da última interpretação. Talvez a regulamentação da mídia fosse umas das saídas para melhor trabalharmos a diversidade. Ainda tenho a esperança de que alguém da classe artística, sem vinculo com A ou B, toque nessa ferida e diga que há barreiras para que artistas negros possam mostrar seu valor.


Texto: Fábio Nogueira é  estudante de história da Universidade Castelo Branco e Militante da Educafro. E-mail. Historiadorfabioucb.49@outlook.com

Revisão: Rogério Beier é historiador, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo.

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É possível ensinar empatia?

Hoje, navegando pela Internet, descobri acidentalmente o blog Além do Roteiro, onde encontrei um post intitulado “A questão de prova que ensina empatia”. Achei o post tão instigante, que decidi repercuti-lo por aqui.

O texto descreve um experimento feito desde 2008 por Dylan Selterman, professor de psicologia na Universidade de Maryland. Segundo o post, esse professor aplica uma questão a todos os seus alunos, baseado na “Tragédia dos Comuns” ou “Dilema dos Comuns”, exercício usado em Teoria dos Jogos e em Psicologia há muitos anos, principalmente como analogia para solução de problemas de distribuição de recursos escassos, como comida, água ou terra.

Reproduzo a seguir a íntegra do post e gostaria de propor ao leitor que chegar até o fim desse texto, que fizesse um esforço de reflexão sobre o conteúdo discutido e a ideia do mérito individual, isto é, que refletissem como esse exercício proposto pelo professor da Universidade de Maryland toca na questão do mérito individual e de como isso pode (ou não) ser inconveniente se estivermos pensando no bem comum.

A QUESTÃO DE PROVA QUE ENSINA EMPATIA
publicado originalmente em Além do Roteiro | 21.jul.2015

No dia 1º de Julho, o usuário do Twitter @shaunhin postou a seguinte imagem:

Tweet 1
QUE TIPO DE PROFESSOR FAZ ISSO

Aqui você tem a oportunidade de ganhar um crédito extra em seu trabalho final. Escolha se quer adicionar 2 pontos ou 6 pontos em sua nota. No entanto, há uma pegadinha: se mais de 10% da classe escolher 6 pontos, então ninguém ganhará ponto algum. Suas respostas permanecerão anônimas para o resto da classe, somente eu verei suas respostas.

A questão é aplicada desde 2008 pelo professor Dylan Selterman para seus alunos de Psicologia na Universidade de Maryland. Tornou-se viral com o tweet, alcançando sites como o Buzzfeed, e a chuva de respostas que Dylan recebeu levou a um artigo seu no The Washing Post, onde reflete sobre o desafio.

A questão é modelada a partir da “tragédia dos comuns” (ou “dilema dos comuns”), exercício usado em Teoria dos Jogos e em Psicologia há muitos anos.

Em geral, é aplicada como analogia de um problema de distribuição de recursos escassos, como comida, água ou terra. O raciocínio padrão confronta a visão coletivista versus a visão individualista. O cenário onde todos os estudantes escolhem 2 pontos garante o aumento da nota para a classe inteira, sem ninguém obter um ganho máximo. Pensando nisso, um estudante pode escolher 6 pontos para maximizar seu benefício, acreditando na coletividade dos outros.

Porém, mais de um estudante procura maximizar seus ganhos, levando à tragédia: mais de 10% dos alunos escolhem 6 pontos, e assim a classe inteira fica de mãos vazias.

Portanto, melhor escolher 2 pontos e todos ganharem, deixando de lado possíveis ambições. Assim todos voltam felizes para casa e… espera, o Gilberto não passou na matéria mesmo com os dois pontos?

NECESSIDADE VERSUS GANÂNCIA

Primeiro, podemos reparar como os pontos da questão representam de fato um recurso escasso. Não sabemos o número de alunos da classe (que varia ano a ano), portanto vamos chamar de “y”.

Para que todos recebam pontos, o máximo de alunos que pode escolher a opção “gulosa” é de 10% de y, ou 0,1y. Com 6 pontos distribuídos para os 10%, e 2 pontos multiplicados pelos 90% restantes, chegamos à disponibilidade máxima de pontos, demonstrada na seguinte equação:

6 * 0,1y + 2 * 0,9y = P (pontos disponíveis)

Demonstrado que o número de pontos, ainda que variável, é escasso, fica a impressão anterior de que estamos no tal dilema da comunhão versus ganância. Não é simples assim.

Os problemas de Teoria dos Jogos costumam se basear na premissa de que os jogadores têm igual conhecimento das regras e contexto (mesmo que esse conhecimento seja zero, importa que seja igual). No caso dos alunos, não é igual.

A diferença reside no contexto individual. Se a média para passar na matéria do professor Dylan é 5 e eu estou com média 3.5, mais 2 pontos bastam para que eu seja aprovado. Já o Gilberto está com média 2, e só será aprovado conseguindo os 6 pontos extras. “Mas se o Gilberto, que tinha média menor que a sua, conseguir os 6 pontos, a média dele ficará maior que a sua!”. Sim. E daí? Fomos os dois aprovados, posso ficar bem com isso.

Mesmo que não saibamos nossa média ainda, em geral sabemos o nível da nossa necessidade. Não conhecemos de fato a necessidade dos outros, e é aí que entra a empatia (no caso, direcionada a todos os outros alunos).

Alguém pode estar precisando dos 6 pontos, quase como uma questão de sobrevivência. Se eu não estou, por que correr o risco de perder 2 pontos, mais os pontos da classe inteira, para não me sentir “passado para trás” pelo Gilberto?

Vamos voltar na equação, assumindo que temos 20 alunos (ou seja, y = 20). Podemos encontrar então aquele P, o número de pontos disponíveis:

6 * 0,1*20 + 2 * 0,9*20 = 12 + 36 = 48

Temos 48 pontos distribuíveis. Além do Gilberto, a Paloma também precisava dos 6 pontos, e os dois juntos configuram os 10%. Até que eu, rapaz esperto, escolho a opção dos 6 pontos, fazendo o número de alunos com essa resposta ultrapassarem os 10% (agora somos 15%). Minha decisão malandra não faz apenas com que eu perca 2 pontos. Fiz a turma perder até 48 pontos. Gilberto e Paloma não passaram na matéria, muitos alunos que precisavam dos meros dois pontos também não, e eu mesmo, se tinha média 3.5, me prejudiquei.

É como uma comunidade onde cada família têm 2 filhos, mas menos de 10% das famílias têm 6 filhos. Estas famílias precisam de 6 lotes de água, enquanto aquelas necessitam de apenas 2 lotes. Cada família de 6 filhos que escolher os 6 lotes está apenas sobrevivendo. Cada família de 2 filhos que escolher os 6 lotes prejudicará o grupo (daí a tragédia dos comuns), até o ponto em que o recurso acaba, e as próprias famílias gananciosas sofrerão da falta de água.

Os 2 pontos poderiam ser todos os direitos básicos que o governo deveria nos dar. Os 6 pontos seriam os direitos básicos + programas sociais pra os desprivilegiados.

Quantitativamente, os desprivilegiados no Brasil estão mais próximos de serem 90% do que 10%, mas se pensarmos na proporção de renda de cada grupo, a pirâmide se inverte.

EMPATIA VERSUS GANÂNCIA

Desde 2008, apenas uma turma do professor Dylan conseguiu os pontos. Todas as outras tiveram mais alunos escolhendo 6 pontos. Esse ano, foram cerca de 20%:

Tweet 2

Cerca de 20% da classe escolheu os 6 pontos, apesar de que muitas pessoas aleatórias responderam a pergunta após o seu post

 

Talvez isso ocorra por ganância demais dos alunos. Talvez a matéria seja tão difícil que mais de 10% acreditaram precisar dos 6 pontos. Ambas as opções podem ser verdade, contudo, ainda acredito que mais empatia ajudaria a todas as turmas.

Termino com o final do artigo do professor Dylan (tradução própria):

Eu não acredito que escolher os 6 pontos torna uma pessoa egoísta, imoral. Gosto de pensar neste exercício como similar à primeira tentativa de Neo de pular entre arranha-céus em Matrix. Os outros personagens explicam que todos falham no primeiro pulo. Claro, Neo falha previsivelmente. Todavia, no final do filme, ele voa. Pelo mesmo raciocínio, é duro fazer com que um grande grupo de jovens cooperem na primeira tentativa. Mas, mesmo que os alunos não ganhem pontos extras na nota desta vez, fico esperançoso de que cada estudante que assistiu minhas aulas estará mais hábil para navegar na sociedade e efetivamente colaborar com outros no futuro, graças às lições que aprenderam a partir de psicologia social. Como Morpheus, quero libertar a mente deles. Quando as pessoas saem da minha sala de aula, quero que elas percebam que têm as ferramentas para mudar o mundo para melhor, e que nos ajudem a buscar uma sociedade mais iluminada.

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