É possível ensinar empatia?

Hoje, navegando pela Internet, descobri acidentalmente o blog Além do Roteiro, onde encontrei um post intitulado “A questão de prova que ensina empatia”. Achei o post tão instigante, que decidi repercuti-lo por aqui.

O texto descreve um experimento feito desde 2008 por Dylan Selterman, professor de psicologia na Universidade de Maryland. Segundo o post, esse professor aplica uma questão a todos os seus alunos, baseado na “Tragédia dos Comuns” ou “Dilema dos Comuns”, exercício usado em Teoria dos Jogos e em Psicologia há muitos anos, principalmente como analogia para solução de problemas de distribuição de recursos escassos, como comida, água ou terra.

Reproduzo a seguir a íntegra do post e gostaria de propor ao leitor que chegar até o fim desse texto, que fizesse um esforço de reflexão sobre o conteúdo discutido e a ideia do mérito individual, isto é, que refletissem como esse exercício proposto pelo professor da Universidade de Maryland toca na questão do mérito individual e de como isso pode (ou não) ser inconveniente se estivermos pensando no bem comum.

A QUESTÃO DE PROVA QUE ENSINA EMPATIA
publicado originalmente em Além do Roteiro | 21.jul.2015

No dia 1º de Julho, o usuário do Twitter @shaunhin postou a seguinte imagem:

Tweet 1
QUE TIPO DE PROFESSOR FAZ ISSO

Aqui você tem a oportunidade de ganhar um crédito extra em seu trabalho final. Escolha se quer adicionar 2 pontos ou 6 pontos em sua nota. No entanto, há uma pegadinha: se mais de 10% da classe escolher 6 pontos, então ninguém ganhará ponto algum. Suas respostas permanecerão anônimas para o resto da classe, somente eu verei suas respostas.

A questão é aplicada desde 2008 pelo professor Dylan Selterman para seus alunos de Psicologia na Universidade de Maryland. Tornou-se viral com o tweet, alcançando sites como o Buzzfeed, e a chuva de respostas que Dylan recebeu levou a um artigo seu no The Washing Post, onde reflete sobre o desafio.

A questão é modelada a partir da “tragédia dos comuns” (ou “dilema dos comuns”), exercício usado em Teoria dos Jogos e em Psicologia há muitos anos.

Em geral, é aplicada como analogia de um problema de distribuição de recursos escassos, como comida, água ou terra. O raciocínio padrão confronta a visão coletivista versus a visão individualista. O cenário onde todos os estudantes escolhem 2 pontos garante o aumento da nota para a classe inteira, sem ninguém obter um ganho máximo. Pensando nisso, um estudante pode escolher 6 pontos para maximizar seu benefício, acreditando na coletividade dos outros.

Porém, mais de um estudante procura maximizar seus ganhos, levando à tragédia: mais de 10% dos alunos escolhem 6 pontos, e assim a classe inteira fica de mãos vazias.

Portanto, melhor escolher 2 pontos e todos ganharem, deixando de lado possíveis ambições. Assim todos voltam felizes para casa e… espera, o Gilberto não passou na matéria mesmo com os dois pontos?

NECESSIDADE VERSUS GANÂNCIA

Primeiro, podemos reparar como os pontos da questão representam de fato um recurso escasso. Não sabemos o número de alunos da classe (que varia ano a ano), portanto vamos chamar de “y”.

Para que todos recebam pontos, o máximo de alunos que pode escolher a opção “gulosa” é de 10% de y, ou 0,1y. Com 6 pontos distribuídos para os 10%, e 2 pontos multiplicados pelos 90% restantes, chegamos à disponibilidade máxima de pontos, demonstrada na seguinte equação:

6 * 0,1y + 2 * 0,9y = P (pontos disponíveis)

Demonstrado que o número de pontos, ainda que variável, é escasso, fica a impressão anterior de que estamos no tal dilema da comunhão versus ganância. Não é simples assim.

Os problemas de Teoria dos Jogos costumam se basear na premissa de que os jogadores têm igual conhecimento das regras e contexto (mesmo que esse conhecimento seja zero, importa que seja igual). No caso dos alunos, não é igual.

A diferença reside no contexto individual. Se a média para passar na matéria do professor Dylan é 5 e eu estou com média 3.5, mais 2 pontos bastam para que eu seja aprovado. Já o Gilberto está com média 2, e só será aprovado conseguindo os 6 pontos extras. “Mas se o Gilberto, que tinha média menor que a sua, conseguir os 6 pontos, a média dele ficará maior que a sua!”. Sim. E daí? Fomos os dois aprovados, posso ficar bem com isso.

Mesmo que não saibamos nossa média ainda, em geral sabemos o nível da nossa necessidade. Não conhecemos de fato a necessidade dos outros, e é aí que entra a empatia (no caso, direcionada a todos os outros alunos).

Alguém pode estar precisando dos 6 pontos, quase como uma questão de sobrevivência. Se eu não estou, por que correr o risco de perder 2 pontos, mais os pontos da classe inteira, para não me sentir “passado para trás” pelo Gilberto?

Vamos voltar na equação, assumindo que temos 20 alunos (ou seja, y = 20). Podemos encontrar então aquele P, o número de pontos disponíveis:

6 * 0,1*20 + 2 * 0,9*20 = 12 + 36 = 48

Temos 48 pontos distribuíveis. Além do Gilberto, a Paloma também precisava dos 6 pontos, e os dois juntos configuram os 10%. Até que eu, rapaz esperto, escolho a opção dos 6 pontos, fazendo o número de alunos com essa resposta ultrapassarem os 10% (agora somos 15%). Minha decisão malandra não faz apenas com que eu perca 2 pontos. Fiz a turma perder até 48 pontos. Gilberto e Paloma não passaram na matéria, muitos alunos que precisavam dos meros dois pontos também não, e eu mesmo, se tinha média 3.5, me prejudiquei.

É como uma comunidade onde cada família têm 2 filhos, mas menos de 10% das famílias têm 6 filhos. Estas famílias precisam de 6 lotes de água, enquanto aquelas necessitam de apenas 2 lotes. Cada família de 6 filhos que escolher os 6 lotes está apenas sobrevivendo. Cada família de 2 filhos que escolher os 6 lotes prejudicará o grupo (daí a tragédia dos comuns), até o ponto em que o recurso acaba, e as próprias famílias gananciosas sofrerão da falta de água.

Os 2 pontos poderiam ser todos os direitos básicos que o governo deveria nos dar. Os 6 pontos seriam os direitos básicos + programas sociais pra os desprivilegiados.

Quantitativamente, os desprivilegiados no Brasil estão mais próximos de serem 90% do que 10%, mas se pensarmos na proporção de renda de cada grupo, a pirâmide se inverte.

EMPATIA VERSUS GANÂNCIA

Desde 2008, apenas uma turma do professor Dylan conseguiu os pontos. Todas as outras tiveram mais alunos escolhendo 6 pontos. Esse ano, foram cerca de 20%:

Tweet 2

Cerca de 20% da classe escolheu os 6 pontos, apesar de que muitas pessoas aleatórias responderam a pergunta após o seu post

 

Talvez isso ocorra por ganância demais dos alunos. Talvez a matéria seja tão difícil que mais de 10% acreditaram precisar dos 6 pontos. Ambas as opções podem ser verdade, contudo, ainda acredito que mais empatia ajudaria a todas as turmas.

Termino com o final do artigo do professor Dylan (tradução própria):

Eu não acredito que escolher os 6 pontos torna uma pessoa egoísta, imoral. Gosto de pensar neste exercício como similar à primeira tentativa de Neo de pular entre arranha-céus em Matrix. Os outros personagens explicam que todos falham no primeiro pulo. Claro, Neo falha previsivelmente. Todavia, no final do filme, ele voa. Pelo mesmo raciocínio, é duro fazer com que um grande grupo de jovens cooperem na primeira tentativa. Mas, mesmo que os alunos não ganhem pontos extras na nota desta vez, fico esperançoso de que cada estudante que assistiu minhas aulas estará mais hábil para navegar na sociedade e efetivamente colaborar com outros no futuro, graças às lições que aprenderam a partir de psicologia social. Como Morpheus, quero libertar a mente deles. Quando as pessoas saem da minha sala de aula, quero que elas percebam que têm as ferramentas para mudar o mundo para melhor, e que nos ajudem a buscar uma sociedade mais iluminada.

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2 Comentários

Arquivado em Blogs, Cultura, Educção

2 Respostas para “É possível ensinar empatia?

  1. mas o bolsa família é pra vagabundo e as cotas são injustas para quem tem mérito próprio…

    • Pois é, César. Justamente esse o ponto. Como o tal “mérito próprio” pode estar acima do bem comum e justificar as desigualdades. Acho que Mises explica isso bem.

      Abraço,

      Roger

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