O Oscar, o jornalismo e o racismo

por Fábio Nogueira para o blog Fazendo Media | 03.fev.2016

racismo oscarO ano mal iniciou e já começamos a levar uma série de baques. Mortes de personalidades que fizeram parte da minha juventude e simplesmente nos deixaram órfãos. A vida Continua. Fora isso, somos assolados por comentários que nos fazem duvidar de certos jornalistas. Um deles de certa emissora, ainda não conformado pela decisão massacrante do STF (Supremo Tribunal Federal) que deu parecer favorável à constitucionalidade das cotas raciais em universidades públicas, jorrou o seu veneno contra os alunos que optaram por essa política. Utilizou sua visibilidade televisa para afirmar que esses alunos seriam péssimos profissionais quando se formassem. É um daqueles periodistas mal intencionados que fizeram “profecias” catastróficas em referência à entrada de cotistas nas universidades. Tais previsões eram as piores possíveis, partiam dos conflitos raciais dentro das instituições de ensino superior, passavam pela queda da qualidade do ensino e divisão racial do país (como se esta não existisse ), até as desistências. A pergunta que fica é: cumpriram-se as profecias?

Doze anos já se passaram desde que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) adotou as políticas de cotas raciais. Para muitos, outras universidades públicas pareciam esperar quais seriam os primeiros resultados da UERJ para, somente então, seus conselhos universitários tomarem medidas similares. Como indica essa matéria publicada no portal Geledés.

De modo geral, as cotas são um sucesso. Tenho testemunhado a entrada de jovens e adultos que fazem parte da primeira geração da família a ingressar em uma universidade. Não entro mais naquela mesmice do contra ou a favor. Encerrou. Hoje a minha função é dizer o que são as políticas de ações afirmativas (incluindo cotas) e como outros países as têm adotado segundo suas necessidades e histórias.

Quanto àqueles que insistem em ficar na mesma discussão….. entendo que seja melhor deixar os cães latirem. Nunca saberão o que é viver em pé de igualdade e, aliás, a ideia de viver em uma sociedade que se pretende igualitária lhes causa pânico.

Tal como esses, há também quem pregue a meritocracia como parâmetro de igualdade. Soa como canto da sereia essa palavra. Chega a ser imoral pregar esta mentira num país tão desigual como o Brasil. Mesmo com os avanços sociais, ainda há muitos Brasis. Há um, bastante conhecido, em que se destaca uma minoria opressora que vem mandando há séculos no país. Esta, como se sabe, não está disposta a dividir os privilégios com ninguém. E há outro Brasil, o da maioria, que clama para que seja desatado o nó da desigualdade.

Atores e atrizes estadunidenses não perderam tempo em criticar a academia de arte e cinema de Hollywood. Pelo segundo ano consecutivo, a ausência negra (as) dentre todas as categorias foi percebida. Não há negros indicados sequer nas categorias técnicas. O resultado será o boicote de personalidades negras e brancas solidárias pela ausência da diversidade dentro da academia. Os protestos já estão gerando frutos. No próximo ano Hollywood fará várias alterações visando aumentar a pluralidade de sua premiação, buscando incluir mais negros e latinos.

Vale destacar o silêncio de nossos atores em relação a este assunto. Pouquíssimos abordam o tema, pois não há o compromisso de esconder e fingir que está tudo bem.Vejo atores veteranos repetindo os mesmos papéis em outras novelas, parecendo continuação da última interpretação. Talvez a regulamentação da mídia fosse umas das saídas para melhor trabalharmos a diversidade. Ainda tenho a esperança de que alguém da classe artística, sem vinculo com A ou B, toque nessa ferida e diga que há barreiras para que artistas negros possam mostrar seu valor.


Texto: Fábio Nogueira é  estudante de história da Universidade Castelo Branco e Militante da Educafro. E-mail. Historiadorfabioucb.49@outlook.com

Revisão: Rogério Beier é historiador, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo.

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