Sobre o vereador eleito Fernando Holyday (DEM) e os capitães do mato

Repercutindo texto do cantor e compositor Nêggo Tom, publicado no portal Brasil 247 nessa última sexta (4).

O CAPITÃO DO MATO DO NEOLIBERALISMO GOLPISTA
por Nêggo Tom | publicado originalmente em Brasil 247 | 04.nov.2016

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A figura do capitão do mato surgiu na sociedade brasileira por volta de 1694, após a destruição do Quilombo dos Palmares, com o intuito de impedir a fuga de escravos e resgatar escravos fugidos. E ganhavam bem para isso. O pagamento poderia ser em dinheiro ou até mesmo algum pedaço de terra. Os senhores de engenho e outras autoridades da corte portuguesa, estavam preocupados com o número cada vez mais crescente de seres humanos escravizados querendo se libertar e resolveram criar uma espécie de política de segurança pública da época. Tanto é que não seria nenhuma bobagem afirmar que a figura do capitão do mato deu origem a policia militar, também criada ainda no período do Império, em 1809.

O capitão do mato, em sua maioria, eram escravos libertos, o que lhes dava uma falsa impressão de melhor posicionamento social e superioridade pessoal sobre os demais. Claro que a escolha de escravos libertos para policiar escravos não libertos foi proposital. É claro, também, que esses escravos “promovidos” a capitães do mato fizeram por merecer tal recompensa. Entregar a cabeça de seus pares, por exemplo. Pura meritocracia. Trazendo para os dias de hoje, é como aquele seu colega de trabalho que puxa o saco do chefe e cagueta a turma toda para subir na empresa. Digamos ainda que para chegar a capitão do mato, o indivíduo tinha que ter um perfil evolutivo.

O neo liberalismo vive tentando produzir remakes dessa personagem de nossa história. Pelé, mesmo não oficialmente, foi empossado no cargo e como se comporta bem do jeitinho que a casa grande gosta, nunca perderá sua Majestade. Tanto que ganhou o título de rei. O ministro Joaquim Barbosa foi “sondado” para ocupar essa função, mas graças a Deus e a sua inteligência acima da média, percebeu que estava sendo usado e declinou a tempo do convite. Tudo parecia ir bem, mas quando ele declarou apoiar a política de cotas, reconheceu resultados nas políticas afirmativas criadas pelo governo do PT e se posicionou publicamente contra o impeachment de Dilma, a decepção foi geral no reino de Dom João. Esse não serve mais! Precisamos de alguém com menos personalidade, com mais necessidade de ascensão, sem muita estima as suas origens e sem nenhum sentimento pelo sofrimento de seus antepassados.

Assim nasce Fernando Holiday. O capitão do mato do neo liberalismo. A escolha do rótulo do produto é sensacional. Negro, pobre e gay. Um legítimo representante das minorias exaltado pela direita conservadora, sempre acusada de preconceito e de elitismo. Como somos injustos com eles. Só que não! Não precisa raciocinar muito para perceber o que o jovem, coordenador nacional do movimento Brasil livre, tem por missão.Enquanto acusa a esquerda de promover uma divisão na sociedade, promovendo uma guerra entre classes, raças e gêneros, a direita promove a divisão entre os próprios membros das classes, das raças e dos gêneros. E eles são bons nisso.

Fernando Holiday publica vídeos cheios de atitude na internet, grita, sapateia, esperneia, põe o dedo em riste para a câmera. Seu discurso tem uma estrutura tucana, verbetes bolsonaristas e muitos malafaiagismos. Já rasgou o hino à negritude em plena tribuna da câmara dos deputados, já tentou desmoralizar Eduardo Suplicy, já se declarou contrário às cotas raciais, já disse que Zumbi era um assassino e que preto gosta de se fazer de vítima. Só faltou dizer que é branco. Talvez ele até acredite que seja, pelo fato de ser o capitão do mato do momento, movido pela vaidade e financiado por algum senhor de engenho preocupado com a perda de seus escravos e empenhado em captura-los ou recuperar alguns, através da lei da oferta e da procura.

Quando Holiday diz que os negros não precisam de favores ou de cotas e devem conquistar os seus objetivos apenas por mérito, ele não está querendo dizer que você pode e basta lutar. Na verdade ele apenas reproduz o discurso dos racistas, que de maneira inteligente, usam um negro para conter os outros descontentes, fazendo-os crer que toda luta por igualdade e respeito não passa de uma bobagem, afinal, somos todos iguais, as oportunidades são iguais e racismo é coisa da cabeça de gente complexada e incapaz. Ao mesmo tempo em que é “vendido” como o preto exemplar ou negro de alma branca, Fernando Holiday se submete ao que há de mais deprimente para a honra de um homem.

A sua eleição para a câmara dos vereadores de São Paulo, foi um prêmio à sua fidelidade canina a agenda golpista e uma tapa na cara dos movimentos esquerdistas. Uma forma de a direita conservadora dizer, falsamente, vinde a mim todos os pretos, pobres e outras minorias, e eu vos elegerei. Não temos nada contra vocês! Desde que estejam ao nosso lado. Desde que adotem o nosso discurso. Jesus Cristo também fora tentado de forma semelhante quando o diabo o levou ao topo de uma montanha e de lá, apresentando as belezas do seu reino, o propôs abandonar os seus e a sua missão, em troca de toda a riqueza e status que ele poderia lhe oferecer. Vai ficar nessa de lutar pelos pobres, pelas minorias e de ficar pregando justiça e igualdade social? Os ricos vão te odiar e os poderosos vão pedir a sua cabeça. Sai dessa! Eu tenho coisa melhor pra você. Como Jesus não era golpista e muito menos se esquecia de suas origens, seguiu em frente. Sai diabo!

A direita sempre contra ataca, e na maioria das vezes, o intuito é retroceder. Trazer o país que eles acham que é só deles, de volta. Quando os mais pobres começam a ter acesso à educação superior, eles cortam os investimentos. Quando as mulheres conquistam independência, eles dizem que elas devem ser belas, recatadas e do lar. Quando os negros e pobres decidem lutar por igualdade e respeito, sem hipocrisia e falsa meritocracia, eles apresentam Fernando Holiday. Essa postagem em sua página do Facebook, talvez diga alguma coisa:

“Como Vereador, lutarei para:

– Combater o vitimismo:

Todos, independente de cor de pele, podem alcançar o sucesso sem precisar de migalhas do Estado para isso.

– Acabar com as cotas raciais em concursos públicos municipais:

Chega de segregacionismo institucionalizado. Todos somos iguais!

– A revogação do dia da consciência negra em São Paulo:

É um absurdo que exista uma data como esta, e que acima de tudo, homenageie um homem assassino escravagista.”

É a personificação do padrão meritocrata dos golpistas. Ou seja, só está lá porque pensa como eles, age como eles, se sente como eles e gostaria de ter nascido como eles. Mas sabe que nunca será de fato, como eles. Será sempre visto como um agregado social, que deve favores aos seus senhores e mentores. Exagero? Ele que ouse a contrariá-los.

Até lá, ele seguirá como paradigma da elite para ilustrar como deve ser e se comportar, os pobres e os negros desse país, para serem bem aceitos pela casa grande. Ele é realmente um fenômeno. É negro e não sofre racismo. É pobre e é bem vindo à alta roda. É gay e agrada aos radicais conservadores da direita. Já prevejo um globo repórter especial com a tradicional chamada de Sergio Chapelin dizendo: quem é, onde vive, do que se alimenta e qual é o segredo de Fernando Holiday? Que não é feijão, mas se tornou o preto mais querido de alguns brasileiros.

Dez entre dez golpistas o preferem. Feijão, quer dizer, Fernando Holiday, tem gosto de festa, é melhor e mal não faz aos interesses dos senhores de engenho da nova era. E ainda combate o vitimismo. Oi?

Que não sirva de exemplo a resistência.

“Libertei mil escravos. Podia ter libertado mais mil, se eles soubessem que eram escravos.” Harriet Tubman


Nêggo TomNêggo Tom, é Cantor e compositor. É pobre, detesta doença e mais ainda camarão

 


Nota do Hum Historiador: Após ler esse texto, difícil não associar Fernando Holiday ao personagem Stephen, do filme Django Livre, de Quentinn Tarantino. Deixo a imagem do personagem para que reflitam no papel que esse indivíduo irá desempenhar na Câmara de Vereadores de São Paulo.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Sobre o vereador eleito Fernando Holyday (DEM) e os capitães do mato

  1. Obrigado pelo texto, Roger.

  2. EDU

    Rogério. Desculpe , mas o texto é de uma intolerãncia extrema. Não aceita a existência de opiniões diferentes e acima de tudo define que qualquer negro que pense fora da cartilha da esquerda é um capitão do mato. Desculpe, mas isto é totalitário e nojento, Só ofensas ao rapaz , sem nenhum argumento contra suas idéias. Vcs lutam por democracia, mas qualquer um que pensa diferente, descarregam toda sua intolerância e totalitarismo.Qualquer um sabe que o rapaz não é capitão do mato. Não está no campo da esquerda, mas isto não é aceitável. Só há uma comportamento; o definido por vocês. Defensores da democracia……….

    • Olha Edu, discordo integralmente de você, mas respeito sua livre-expressão por aqui. É tudo o que posso dizer.

      Att,

      RB

      • EDU

        Não tem argumentos. É um manifesto. A diferença de opiniões é válida. O que não é válido é chamá-lo de Capitão do Mato. O problema hoje é que esta todo mundo entrincheirado e discutindo a partir de dogmas. Os argumentos morrem e a qualidade da discussão vira fla-flu.

      • Edu, o fato de você não enxergar os argumentos no texto do Nêggo Tom, não significa que eles não estão lá. Sua discordância quanto à validade de chamar Holiday de Capitão do Mato, ainda que não justificada e argumentada por você, é respeitada aqui. Não por acaso aprovei e publiquei seus comentários aqui. No entanto, diferentemente de você, penso que Nêggo Tom tem razão nos argumentos dele. Não por dogma, ou por qualquer uma das coisas que você apontou aqui, mas porque concordo que o deputado Fernando Holiday age tal como a personagem histórica ao virar as costas para as demandas das lutas do movimento negro e fazer justamente o jogo da elite branca que sempre comandou este país. Enfim, mais do que já se discutiu em diferentes posts deste blog.

        Att.

        RB

      • EDU

        Pensamos diferente. O seu pressuposto é um jogo da elite branca contra os negros pobres. Tecnicamente falando , Vc claramente faz parte da elite branca sob qualquer critério, seja pela cor, seja pela posição social. Isto é um dogma, ver um complô da elite branca contra negros. Cotas raciais são de fato uma discussão que pode ser séria, Vc mesmo , embora não concorde ( também é capitão do mato?) colocou ou citou um artigo de Thomas Sodwell, um negro respeitado em todo o mundo que é contrário as cotas.Dia da Consciência negra é na minha visão e de muitos , uma demagogia política feita por políticos para fazer mais um feriado. Motivos para decretar feriados , podemos encher todos os dedos da mãos e dos pés. E aí , quem vai trabalhar para gerar riqueza? Vc na Universidade, pode ter feriado todo dia. nada vai acontecer. Na agricultura, Na indústria, no Comércio e no serviço, cada feriado novo é um desastre para o país. Quem não depende disto , nem entende o problema. Estar ao lado dos pobres é uma frase. Observe que os países ricos são justamente os supostos opressores e aqueles que dizem falar em nome dos pobres estão todos na miséria. Não estou abrindo uma discussão política com vc, mas mostrando que não há monopólio da verdade que justifique que vc classifique seus oponentes de racistas ou capitão do mato ou porque acreditam em caminhos diferentes do seu. Eu acredito em cotas ( no Brasil) , mas jamais por cor, mas por desigualdade social.

  3. ari

    Na verdade, só o fato de pertencer ao DEM já diz muito. Nos últimos anos, esse partido vem se posicionamento sistematicamente contra toda e qualquer ação afirmativa em favor dos mais pobres, dos excluídos e abandonados, inclusive tentando reverter, no judiciário, decisões do próprio congresso, como o Mais Médicos, neste momento em fase de destruição pelos golpistas. É o partido por excelência dos 1% mais ricos. Aliás, o DEM e esse cidadão se merecem. Um cidadão do povo não percebe que, ao votar nesse partido, entre outros, está votando literalmente em seu inimigo
    Recentemente alguém me dizia que Joaquim Barbosa é a prova de que negro não precisa de “favores”. Respondi-lhe que Joaquim Barbosa é exatamente a evidência da necessidade de apoio, justamente por haver tão poucos deles como magistrados, engenheiros, médicos, padres e bispos, advogados, etc e, por outro lado, serem as vítimas prediletas da polícia e as prisões serem ocupadas majoritariamente por eles.

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