Jorge Lourenço: saída de Cuba do programa Mais Médicos

Tem circulado pelas redes sociais um texto bastante interessante sobre a saída de Cuba do programa Mais Médicos, anunciada nessa última quinta-feira (15). O texto é de autoria do escritor Jorge Lourenço e traz algumas reflexões sobre a maneira como tem sido divulgado pela mídia o fim da parceria entre Cuba e Brasil no programa Mais Médicos.

Interessado nessa discussão e na difusão das reflexões propostas por Jorge Lourenço, o Hum Historiador tomou a liberdade de repercuti-lo, na íntegra, para seus leitores.

Mais Medicos_Cuba_Nov2018

Sobre a saída de Cuba do Mais Médicos
por Jorge Lourenço – originalmente publicado em sua página do Facebook, 15/11/2018

Vocês devem ter lido por aí que Cuba encerrou sua parceria o Programa Mais Médicos, certo? Pois bem, essa afirmação, por si só, já é a criação de uma narrativa estabelecida pelo nosso novo presidente, Jair Bolsonaro.

Cuba não acabou com sua participação no Mais Médicos. Jair Bolsonaro acabou com a participação cubana e agora quer fazer você acreditar que os cubanos o fizeram. Ele não quer ver a presidência dele manchada logo no começo pelos enormes prejuízos que isso vai trazer.

Vamos lá: o Mais Médicos é um programa criado pelos dois países. O que cada país ganha com essa ação?

– Cuba forma médicos de forma gratuita pelo seu sistema de educação e fornece essa mão de obra especializada para o Brasil. Qual é o retorno que o país recebe? 70% do salário dos profissionais, valor que deve ser reinvestido no sistema de bem-estar social da ilha (como saúde e educação pública gratuitos).

– O Brasil recebe mão de obra especializada para atuar em áreas isoladas e suprir a carência de médicos, além de se desamarrar de algumas limitações e problemas relacionados à contratação de funcionários públicos estatutários.

Bolsonaro é eleito depois de anos insultando Cuba. E quais são os termos que ele pede para a manutenção do programa? O Revalida é o de menos, vamos aos termos que importam:

– O salário integral deveria ser pago aos médicos;

– Os médicos poderiam trazer suas famílias para o Brasil.

Agora pergunto para vocês, o que acontece com o programa se Cuba aceita esses dois termos?

1 – Cuba cede mão de obra especializada de forma completamente gratuita para o Brasil;

2 – O sistema de bem-estar social de Cuba não recebe o reinvestimento para manter-se (afinal, saúde e educação gratuitos não se pagam com sorrisos);

3 – Caso as famílias venham para o Brasil e os médicos recebam o salário integralmente por aqui, todo esse dinheiro é utilizado na economia brasileira.

Você percebe a pegada? Não há nenhuma vantagem para Cuba. A não ser que se tratasse de uma missão humanitária – o que não é o caso, tendo em vista que Cuba é um país bem mais pobre pobre do que o Brasil – esse programa não faria sentido nenhum para eles sob esses termos.

Bolsonaro então oferece esses termos – inaceitáveis e completamente descabidos – e Cuba obviamente os recusa e sai do programa. E qual é a manchete dos jornais?

“Cuba abandona o Mais Médicos”.

Qual deveria ser uma manchete mais apropriada?

“Bolsonaro oferece acordo sem contrapartidas para Cuba e país abandona o Mais Médicos”.

Imagina uma narrativa onde você se recusa a trabalhar de graça para alguém e os jornais publicam que você “abandonou o emprego”? É basicamente o que estão fazendo agora. E os minions, impulsionados pelas redes de desinformação do candidato, já estão obviamente colocando a culpa do caos no governo cubano.

O que vocês viram agora foi o Bolsonaro prejudicar a vida de milhões de brasileiros a troco de nada. Ou melhor, a troco de um factoide político.

Os médicos cubanos estão em 2.885 municípios brasileiros. Centenas deles atuam em aldeais indígenas. Quase 150 municípios brasileiros sequer tinham médicos contratados e só receberam essa mão de obra especializada graças ao Programa Mais Médicos.

O Mais Médicos não era um programa de caridade. Era um acordo entre dois países que, apesar de não ser perfeito, trazia uma série de benefícios aos dois. Foi demonizado de maneira completamente irracional e agora extinto pela falta de bom senso do Bolsonaro.

E vocês acreditam que foi Cuba que decidiu meter o pé.

Jorge Lourenço é escritor e trabalha na Cajá agência de comunicação e Rio 2054.

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