Um mundo às avessas: Dr. Drauzio Varella e seu abraço “criminoso”

Antes de escrever qualquer coisa sobre o tema desta postagem, entendo ser necessário fazer alguns esclarecimentos àqueles que não me conhecem ou jamais tenham acompanhado as postagens deste meu (abandonado) blog:

  1. Sou ateu;
  2. Racionalmente, defendo que devemos tratar todo e qualquer ser humano, independente do que este tenha feito em seu passado, com humanidade;
    • Logo, um tratamento humanitário a quem quer que seja, inclusive encarcerados, é dever de todos aqueles que se entendem como pertencentes ao gênero humano.
  3. Tratar com humanidade significa respeitar uma série de direitos básicos assegurados a todo e qualquer ser humano independente de sua classe social, etnia, nacionalidade, cultura, religião, profissão, gênero, orientação sexual ou qualquer outra variante que possa diferenciar os seres humanos.
    • Dito de outra forma, tratar o outro com humanidade significa, minimamente, respeitar os Direitos Humanos.

Isso posto, vamos direto ao tema! Me parece uma grande estupidez que alguém tenha esperado que o Dr. Drauzio Varella fosse reagir de outra forma ao ser informado que Suzy de Oliveira, a detenta que ele apresentou ao Brasil no programa Fantástico (01 mar. 2020), encontra-se detida na penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos (SP), por ter estuprado e matado uma criança de 9 anos em 2010. Segundo nota divulgada pelo médico:

Em todos os lugares em que pratico a medicina, seja no meu consultório ou nas penitenciárias, não pergunto sobre o que meus pacientes possam ter feito de errado. Sigo essa conduta para que meu julgamento pessoal me impeça de cumprir o juramento que fiz ao me tornar médico. […[ Sou médico, não juiz.

Ao ler a enxurrada de editoriais, postagens e comentários que inundou as redes sociais em resposta à nota do Dr Drauzio Varella, fica-se com a clara sensação de que boa parte dos brasileiros esperava uma retratação do médico. Uma nota, um vídeo ou mesmo um espaço em seu quadro no Fantástico no qual ele apareceria pedindo desculpas pelo “crime” de ter abraçado uma homicida em rede nacional. Pior, os comentários são tão cheios de ódio que chegam mesmo a defender como justificáveis as violências, a tortura, o estupro e a solidão sofridas por Suzy de Oliveira dentro da penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos (SP). Para muitos dos que deixaram suas opiniões nas redes sociais, Suzy não deveria sequer ter sido presa, mas sim morta com requintes de crueldade. O Dr Drauzio Varella, portanto, errou ao se comover com a série de violências e abandono sofrido por Suzy. Nessa forma torta de ver o mundo, o abraço oferecido por Drauzio à detenta é tão criminoso e ofensivo como ela própria.

Drauzio Varella abraça a detenta Suzy em reportagem do Fantástico - Reprodução

Dr. Dráuzio Varella abraça a detenta Suzy de Oliveira em reportagem do Fantástico. Imagem: reprodução.

Diante desse cenário é difícil não chegar à conclusão de que vivemos em uma sociedade hipócrita. Uma sociedade que fala muito de amor, cuja divindade insiste na prática do perdão e da empatia, mas que, ao contrário, pratica somente o ódio e a vingança. Se não é assim, como entender o modo como essa sociedade vem a público cobrar o arrependimento de um médico pela forma humana como ele tratou uma detenta? Como compreender o ódio que um simples abraço, fruto da compaixão que o Dr. Drauzio sentiu pelo sofrimento daquela detenta, despertou em milhares de brasileiros? Um crime hediondo, como o cometido por Suzy, deve tirar de cada um de nós a capacidade de nos sensibilizar com o fato de ela ter sido estuprada? De ela ter se prostituído por um sabonete ou uma pasta de dentes? De ela ter contraído AIDS na penitenciária? De ela não ter recebido uma única visita de parentes e amigos em mais de oito anos?  Não teria sido a própria divindade cristã aquela a ensinar o amor e o perdão em lugar da vingança, do olho por olho e dente por dente?

Em uma sociedade democrática, que preza por valores republicanos e signatária da Declaração Universal dos Direitos Humanos, nenhum presidiário, por pior que tenha sido seu crime, deveria ser submetido à violências de qualquer natureza, tortura, estupro, prostituição e descaso, quer do Estado, quer de sua família. Ao contrário, todos merecem ser tratados, minimamente, como seres humanos. O Estado, por sua vez, não pode ser criminoso ou sequer conivente com crimes cometidos contra pessoas que estão sob sua custódia. A integridade física de seus detentos, bem como o respeito aos Direitos Humanos, é o mínimo que o Estado deve garantir a seus cidadãos. Fora disso é a barbárie!

Nesse sentido, o Dr. Drauzio Varella, muito mais do que um profissional exemplar, nos oferece uma lição de humanidade. Sendo ateu declarado, com um único abraço relembrou a imagem do Cristo crucificado em meio a dois criminosos. Sem se importar com o crime de Suzy, a deu um tratamento humano e digno. Ofereceu-lhe o que há de melhor em nós, humanos: amor incondicional. Essa, aliás, é também a última lição do Cristo na cruz. A Bíblia nos conta que Jesus jamais perguntou a Dimas qual fora o seu crime antes de lhe assegurar-lhe o perdão e uma passagem direta para o Paraíso. É realmente de se lamentar que boa parte do “Brasil cristão” não veja no abraço apertado dado pelo Dr Drauzio Varella em Suzy de Oliveira o exemplo máximo daquela que seria sua própria divindade.

Charge_Latuff_CristoCrucificado

Charge: Carlos Latuff (2020)

Por fim, queria apenas registrar minha tristeza ao constatar que estamos vivendo, há muitos anos já, em um mundo às avessas. Um mundo no qual um ateu parece ser mais cristão que muitos dos que se denominam seguidores de Jesus. Um mundo em que um simples abraço pode provocar tanto ódio. Pobre Jesus, cujo exemplo não floresce no coração de pedra de seus seguidores. Pobre Brasil, hipócrita até a medula. Pobre humanidade, que sonha com o amor, mas vive do ódio.

6 Comentários

09/03/2020 · 15:34

6 Respostas para “Um mundo às avessas: Dr. Drauzio Varella e seu abraço “criminoso”

  1. Cicero Aldemir Machado da Silva.

    “De todos os homens maus, os homens maus religiosos são os piores.”
    C.S. Lewis

  2. paulo

    Não sabia que Jesus tinha perdoado pedófilos serial killers. Vivendo e aprendendo com a Esquerda…

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