Sérgio Moro em um país tropical

por Flávio de Campos – publicado originalmente no Facebook

Sérgio Moro em foto por Jota Camelo
Foto: Jota Camelo

Escrevo no calor da hora. A saída de Moro é a principal baixa do governo fascista que se instalou no Brasil a partir de 2019. A campanha e o governo de Bolsonaro estiveram apoiados em quatro patas: o antipetismo, a negação da política (e consequentemente, da própria democracia), o tenentismo togado (autoritário, persecutório e seletivo) e a agenda de reformas ultraliberais. A figura de Sérgio Moro está indissociavelmente ligada aos três primeiros membros citados.

O governo Bolsonaro cambaleia. Talvez caia em breve. Bozo não deu um tiro no pé. Ao enfrentar Moro, atirou em três das suas patas. Mas as ideias, práticas e seguidores fascistas parecem não ter se abalado. Moro faz hoje o lançamento oficial de sua campanha presidencial para 2022. Não fala apenas de Brasília. Aliás, sua fala parece ser o melhor discurso já proferido pelo divulgador do substantivo “conge”. Dá a impressão de que já tinha esse discurso ensaiado (e já esboçado) há pelo menos três anos.

Sérgio Moro fala do lugar da não política, de um lugar imaginário, simbólico e inatacável. Por subtração, uma vez que todos os problemas do país são imputados aos políticos e aos partidos, e a corrupção é essencializada às práticas políticas – pelo raciocínio simplista e binário que se disseminou nos últimos anos – a solução se encontra na sua negação. No limite, na negação da democracia.

Sérgio Moro fez um breve balanço de sua gestão à frente do ministério. Por óbvio, essa não é a principal parte de seu pronunciamento. O núcleo duro da sua fala é a dura crítica que faz a Bolsonaro: a sua intenção de estabelecer uma interferência política na Polícia Federal. Note-se que escapou até um ligeiro elogio aos governos petistas: nenhum dos seus presidentes ou ministros teria ousado aparelhar a Polícia Federal. Palavras de Moro.

Moro acusa Bolsonaro de trair a sua palavra. Teria prometido carta branca ao ministro todo-poderoso e não cumpriu. Mas Moro acusa Bolsonaro de trair sua base fascista: traiu a anti-política, acabou tragado pelas engrenagens do poder e procura macular os procedimentos técnicos da Polícia Federal com os imundos interesses que são a matriz de todos os problemas do Brasil, sobretudo da corrupção.

Moro poderia ter aproveitado para retomar a demissão de Mandetta, pelos mesmos motivos. Preferiu deixar isso no ar. Não quer alimentar eventuais adversários políticos.

Como um vírus, o fascismo requer um enfrentamento preciso, rigoroso e disciplinado. Isso vai exigir muita atenção de nossa parte. Enquanto Bolsonaro é evidentemente um fascista infectado, devemos perceber que Sérgio Moro é um fascista assintomático.


Flávio de Campos é professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

7 Comentários

Arquivado em Brasil, Opinião, Política

7 Respostas para “Sérgio Moro em um país tropical

  1. uru valizas

    Análise pouco consistente e simplório da figura de Moro, com suposições triviais. Um pouco mais de complexidade não faria mal a ninguém.

    • Verdade. Fique à vontade para adicionar toda a complexidade que o senhor entendeu faltar à análise feita pelo professor Flávio de Campos.

      Att.,

      RB

      • v

        Até agora não está demostrado que SM seja fascista. O fato de “colaborar” com Bolsonaro não prova nada. Não existe nenhuma documentação até agora para sustentar essa interpretação. Documentos, por favor. Falaram também que queria chegar ao STJF. Se comprobou que não, pois Carla Zambelli quis comprar ele e não se vendeu. Agora se “supõe” que quer chegar a ser presidente. A formidável Marilena Chaui até achou que praticamente ele era um agente do imperialismo norte-americano. Como é possível tanta impunidade intelectual? Só porque são uspianos acham que podem dizer qualquer coisa? Esse tipo de interpretações levianas e interessadas só degrada a universidade brasileira. Agradeço a oportunidade de me manifestar.

      • uruguay cortazzo

        Obrigado, Rogério pela gentileza.

        Abrazo! ________________________________

      • uruguay cortazzo

        https://www.lanacion.com.ar/el-mundo/sergio-moro-suspension-su-charla-uba-me-nid2371450?utm_source=n_&utm_medium=nl_titulares_del_dia&utm_campaign=nota_imagen_6

        Prezado,

        seria generalizar se se fala da Faculdade de Direito da UBA como “dispositivo” medieval e inquisitorial?

        Abraço, UC ________________________________ De: uruguay cortazzo Enviado: quinta-feira, 28 de maio de 2020 19:55 Para: Hum Historiador Assunto: RE: [Novo comentário] Sérgio Moro em um país tropical

        Obrigado, Rogério pela gentileza.

        Abrazo! ________________________________

  2. Prezado,

    Creio que as mensagens trocadas entre SM e CZ foram feitas justamente com fins de uso político pelo ex-juiz. A deputada, ainda que tivesse procuração do PR, como se tem dito, não apita nada. Tanto não apita que sua tentativa de intermediação com SM deu errado. Ao contrário do que você sinalizou acima, o malogro da operação de Zambelli não quer dizer que o Moro não se vendeu. A meu ver, quer dizer apenas que, mesmo que Bolsonaro acabasse lhe indicando para o STF (o que o próprio Moro parecia colocar em dúvida), ele não acreditava que permanecer associado com este governo, no atual contexto de naufrágio, valia o prejuízo à sua imagem. Por fim, penso que sua posição sobre a professora Marilena Chauí e os “uspianos” é generalizante e, como tal, pouco inteligente. O que degrada a universidade brasileira é o sucateamento e a completa falta de investimento que ela vem sofrendo há anos. O pensamento da professora Chauí é muito mais complexo do que a meia dúzia de palavras que você destinou para desqualificá-la. Mais complexo ainda é a diversidade de pensamentos e posições existentes entre os chamados “uspianos”. Qualquer tentativa de colocá-los em um único “balaio de gatos” é, apenas, uma bobagem.

    Um abraço,

    R.B.

    • uru valizas


      Prezado Rogério,
      concordo que o pensamento de Chaui é complexo. Só mostrei o delírio ideológico e a irresponsabilidade da Profa. nesse afirmação específica. Adjunto um vídeo que mostra a sua histeria descontrolada
      (também é um caso específico, claro), mas acho ilustrativo do que eu chamo “impunidade” ou “imunidade” intelectual.
      Também concordo com o Sr. em que a universidade está sendo sucateada, com certeza, mas fazer passar opiniões partidárias e suposições amparados em títulos de historiadores colabora em outro tipo de sucateamento: o intelectual. Além disso, favorece a erosão do respeito social pelas academias, coisa nefasta neste momento de trevas.
      Outro abraço,
      UC

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