A “aula de política” Anitta-Priolli e o desmonte do sistema de educação pública

Anitta promoveu aula de política básica com Gabriela Prioli nas redes sociais (Foto: Reprodução/Instagram @anitta)
Foto: Reprodução/Instagram @anitta

Quando o antibolsonarismo passou a dar likes, inscritos e views, passou-se a observar uma inundação cotidiana de Nettos, Priollis, Anittas e que tais no campo dito progressista. Devemos usá-los como instrumentos para a consecução dos nossos objetivos? Devemos rechaçá-los? Devemos marchar ao lado deles na luta antifascista e civilizatória? As respostas à essas perguntas são difíceis e cada um tem a sua. Não vou e nem quero entrar no mérito dessas questões. No entanto, de uma coisa eu estou certo: não aceito, de forma alguma, que comparem a minha competência e profissionalismo no ensino de História com a Gabriela Priolli. Sobretudo se isso vier de gente que jamais entrou ou sequer tem a mínima ideia do que é dar aulas na rede pública de ensino no Brasil.

Isto posto, vamos direto a algumas considerações sobre a live da Anitta com a Gabriela Priolli. Uma das coisas que muito me intrigou na repercussão dessa transmissão foi notar a quantidade de pessoas que, sem pestanejar, logo jogou a culpa da ignorância da funkeira nas costas do sistema público de educação e, em decorrência disso, dos professores. Ora, imaginar que um brasileiro qualquer tenha passado todo o ensino fundamental e médio entre 2000 e 2013 (eras FHC-Lula) sem ter acesso a conteúdos de como se organiza a República, seus poderes, a função de cada instituição e de seus agentes, dentre outras coisas é, no mínimo, uma grande besteira. Então como explicar a ignorância de Anitta que, na live, representava milhões de pessoas que passaram pelo ensino público e se encontram na mesma situação que ela? Bom, ela mesmo respondeu a essa pergunta ao afirmar que naquela época ela achava tudo isso muito chato; que ela não tinha interesse algum nessas discussões e que estava preocupada com outros assuntos da adolescência, etc. etc. etc.

Nós, professores, vivenciamos isso cotidianamente ao enfrentar cara a cara o desinteresse generalizado dos alunos por praticamente tudo aquilo que os cercam e que faz parte da vida adulta. Ainda assim, nos esforçamos para produzir aulas cada vez mais atrativas, com conteúdos mais adaptados ao grupo de estudantes com os quais estamos trabalhando, com métodos novos (usando músicas, computadores, tablets, internet, YouTube, debates, visitas às instituições, cobertura das eleições, montagem e participações em grêmios estudantis, etc.). No entanto, nada disso garante que os alunos irão reter esse conteúdo até a idade adulta. Tudo vai depender do interesse deles. Sempre.

No caso em questão, a Gabriela Priolli pegou uma Anitta interessada, curiosa e disposta para [re]aprender o conteúdo que ela já havia visto na escola. Seria curioso ver todo o “didatismo” de Priolli em diversas salas de aula repletas de alunos dos oitavos anos durante um ano seguido. Digo mais. Seria bem interessante ver se todos esses alunos que tivessem acesso ao conteúdo de sua aula se lembrariam de algo depois de dez anos. Na verdade, penso que mesmo se considerarmos a aula dada para a Anitta durante a live, se alguém tivesse feito um teste para avaliar o quanto a interessada aluna reteve do conteúdo abordado por Priolli, é bem possível que os resultados surpreendessem negativamente.

Portanto, camaradas da esquerda dita progressista, não desprestigiem o trabalho de todos os professores da rede pública [e do próprio sistema de ensino público] tomando por base o desinteresse pessoal dos alunos durante a infância/adolescência e a incapacidade de muitas pessoas em reter/recuperar conteúdos que lhes foram ministrados durante o processo de aprendizagem formal nas escolas. Ainda que tenhamos boa vontade e consideremos um bom exemplo a Anitta promover uma live para correr atrás do tempo perdido reconhecendo, humildemente, o seu desinteresse e a sua falha em dominar esse conhecimento aos 27 anos de idade, não vejo nada de positivo no resumão mal-acabado da Gabriela Priolli. Tampouco vejo nesse movimento Anitta-Priolli um modelo a ser seguido. Não é! Ao contrário. Penso que a esquerda devia estar chamando atenção para investimentos na educação pública, gratuita e de qualidade, bem como na formação de professores e em planos de carreira cada vez mais compensadores para aqueles que optassem por dedicar suas vidas profissionais à docência na rede pública.

Que fique claro, a questão aqui não é atacar a Anitta ou a Priolli, mas sim refletir acerca do “modelo de ensino-aprendizagem” que elas estão chancelando com essa live. Toda discussão sobre a “aula da Anitta” que tenho visto repercutir nos blogs, canais e perfis de gente ligada à esquerda, por incrível que pareça, acaba por desvalorizar o trabalho feito diariamente pelos professores dentro dos equipamentos de ensino público. Nesse sentido, algumas questões implícitas na live e nos diversos vídeos e textos que a repercutiu foram:

  1. Pra quê perder tempo e recursos públicos com professores e com a manutenção de um sistema público de educação se, quando for necessário, todos poderão recorrer à tecnologia para buscar aprender tudo o que precisam através de uma live, seja quem for a Gabriela Priolli da vez?
  2. Pra quê investir em professores e carreiras docentes quando você pode ter uma “cabeça falante” dispensando conteúdos mínimos sobre qualquer assunto?
  3. Por que não acabar com toda essa estrutura educacional, alfabetizar as crianças e ensinar as quatro operações em casa mesmo? O resto elas podem muito bem aprender quando sentirem/tiverem a necessidade. Daí elas recorrem à um totem da Gabriela Priolli ou similar.

O que estamos tentando fazer aqui, portanto, é chamar a atenção para um modelo educacional que se pretende nos fazer engolir. Já que o sistema público de educação não funciona com esses professores mal preparados, então vamos acabar com essa estrutura e investir pesado em EAD. A nosso ver, essa é a mensagem perigosa por trás da “aula com Anitta”. É esse modelo que estamos atacando.

Por fim, não se deve esquecer que por trás disso tudo há, sim, o interesse no aumento do número de views, inscrições, likes e compartilhamentos. Aproveitando a tendência crescente de “malhar o judas da vez”, também conhecido como Bolsonaro, a Anitta é só mais uma celebridade a fazer um vídeo se arrependendo de omissões e buscando afastar sua imagem da indiferença política e da direita bolsonarista. Não há como afirmar se ela está sendo sincera, mas sua atitude deverá, seguramente, manter ou aumentar o número de seguidores. Agindo dessa forma ela consegue, a um só tempo, se posicionar politicamente sem causar muito alarde e aumentar sua influência nas mídias sociais. No fim, parece ser disso que se trata toda essa onda que está trazendo antigos desafetos da esquerda para o campo progressista. O que fazer com isso, como disse no começo desse post, é outra questão.

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Arquivado em Educação, Internet, Política

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