Zumbi e a luta contra a distorção da verdade no século XXI

por Jaime Rodrigues – publicado originalmente em 14 mai. 2020

Escrever sobre o passado é um ofício e requer um método que possa ser checado pelos outros que exercem o mesmo ofício. O atual governo federal não reconhece isso. Considera opiniões distorcidas e violência verbal e física como métodos de escrita da História. Por isso, os historiadores de ofício e os aliados desse governo estão em campos opostos. No site da Fundação Palmares, há uma chamada para “A verdade sobre Zumbi dos Palmares”. Nela, lemos o título “Zumbi foi um herói?” e um artigo intitulado “A narrativa mítica de Zumbi dos Palmares”. Títulos devem se referir ao conteúdo do texto que se segue, mas há quem não faça assim por querer ofuscar suas próprias más intenções.

Faz mais de um século que historiadores não se preocupam com “a verdade”. Não me entendam mal. Não me refiro à verdade como antônimo de mentira. Historiadores não advogam mentiras. Quem faz assim são os fascistas. Historiadores não se preocupam com “a verdade” no singular, por saberem que o passado não pode ser acessado de uma única perspectiva, como se todos os sujeitos históricos tivessem o mesmo envolvimento e a mesma perspectiva em relação aos acontecimentos do passado. Os sujeitos não atuaram sempre nas mesmas trincheiras, e isso é parte crucial do movimento da História e das transformações na vida social. Palmares é a expressão disso na história da exploração dos trabalhadores.

Aproximações absurdas entre autores não equivalentes não fazem parte do método do historiador. Lévi-Strauss e um certo Carvalho não dizem a mesma coisa nem são complementares. A tentativa tosca de aproximá-los distorce a realidade, o que é paradoxal para que advoga a existência da verdade única. A verdade única que querem nos fazer engolir só pode ser uma distorção.

Palmares não existiu a partir de um simples desejo e suas lideranças não eram voluntaristas como autores de textos que destroem a verdade. Desde a Restauração portuguesa, em 1640, episódios ocorridos nos domínios coloniais levaram a Coroa a tentar impor sua autoridade sobre os súditos, usando de determinação e força, mas evitando estimular o ódio. Uma monarquia absolutista como a lusitana tinha compreensão política disso: não é bom estimular o ódio dos súditos se a intenção for construir governabilidade e alianças.

A intenção da Coroa parecia ser a centralização do poder, diminuindo as autonomias locais e ampliando o alcance das intervenções da metrópole. Houve reações a isso por parte de câmaras municipais, proprietários de terra, negociantes e gente da Igreja, por exemplo, mesmo que todos acreditassem que os súditos tinham de obedecer ao rei e este deveria administrar a justiça aos povos. Cabia ao rei respeitar os usos e costumes, o direito natural e as regras tradicionais. Caso contrário, a rebelião estaria legitimada. Sigo até aqui o historiador Luciano Figueiredo.

O que foi dito acima permite compreender parte da dinâmica imperial portuguesa e as relações entre súditos/colonos brancos e as autoridades da colônia e do Reino. Mas as contestações à ordem no mundo colonial não se restringiam a isso. Palmares é o maior exemplo de contestação abrangendo sujeitos históricos excluídos do respeito e do amor do rei aos seus súditos. Refiro-me, é claro, aos escravizados, nascidos na África ou na América portuguesa. Sem entender a escravidão, seus significados e decorrências, não entendemos a História do Brasil.

Palmares é um emblema. É também um processo histórico de múltiplos significados. Quem não entende isso não compreende o movimento da História e o ofício do historiador. Há visões diversas e não necessariamente opostas sobre Palmares na historiografia e na militância negra, e é salutar que seja assim. Nada diminui o fato de que o quilombo existiu por cerca de 100 anos, enfrentando inimigos poderosos como os invasores flamengos, os donos de terras, as autoridades coloniais da capitania de Pernambuco, as inúmeras expedições militares enviadas para destruí-los e as divisões internas no próprio quilombo. Os palmarinos foram habilidosos na construção de seu Estado, articulando o poder político interno às alianças externas, inclusive com índios e brancos, para sobreviver, construir e manter seus próprios modos de vida.

Os historiadores refletem sobre os significados de Palmares desde o início do século XVIII, quando o quilombo tinha sido recém destruído. Rocha Pita, em 1724, escreveu uma história de Palmares na qual o principal personagem era o governador de Pernambuco que derrotou os quilombolas. Ao longo do século XIX, a vitória sobre Palmares tornou-se um símbolo usado pelo governo imperial escravista para glorificar a unidade territorial do Brasil. A historiadora Silvia Lara faz uma pergunta fundamental: por que Palmares foi trazido para o campo de História e não o do esquecimento? Porque o perigo representado por Palmares e sua memória continuou a se fazer sentir no Brasil escravista e parecia igual ou maior do que o perigo da invasão holandesa no século XVII, e poderia diluir a ideia-força da unidade territorial da colônia e do Império brasileiro que herdara essa “unidade”. Palmares foi vitorioso e vive até hoje como emblema porque o racismo, a perseguição, a falta de acesso à terra pelos trabalhadores e a desigualdade permanecem. É essa a vitória de Zumbi e o motivo de ele ser tão incômodo para os fascistas de hoje: ser lembrado séculos depois da sua morte como um defensor da liberdade, para os afro-brasileiros e para todos os que estão na trincheira da luta por direitos iguais para todos.

No século XX, Palmares continuou em pauta e, como todos os acontecimentos do passado, foi revisitado a partir de novas perguntas postas pelo tempo presente. A militância negra e a luta pela liberdade tinham em Palmares um emblema e em Zumbi um herói porque a população afro-brasileira continuava a enfrentar o racismo e a desigualdade. Zumbi lutou pela liberdade dos palmarinos como uma liderança em seu tempo e espaço. Ele tornou-se também o emblema da luta contra o racismo e pela liberdade não apenas dos afro-brasileiros, mas também na luta contra a ditadura civil-militar. Agora Zumbi permanece como um emblema da luta pela liberdade para todos os brasileiros que se opõem ao fascismo e à distorção da verdade no século XXI.


Há muitos bons textos discutindo Palmares e suas lideranças, nenhum deles abrigado no site da Fundação Palmares atualmente. Sugiro alguns títulos:

GOMES, Flávio dos Santos. De olho em Zumbi dos Palmares: histórias, símbolos e memória social. São Paulo: Claro Enigma, 2011.

MOURA, Clóvis. Dicionário da escravidão negra no Brasil. São Paulo: Edusp, 2004.

REIS, João José & GOMES, Flávio dos Santos. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie faz um alerta poderoso sobre o perigo da história única. Devemos ouvi-la: https://www.youtube.com/watch?v=EC-bh1YARsc

#13demaio #abusosdahistória


Jaime Rodrigues é professor de História do Brasil e do programa de Pós-Graduação em História da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo.

3 Comentários

Arquivado em Educação, Racismo

3 Respostas para “Zumbi e a luta contra a distorção da verdade no século XXI

  1. Wright Maior que Zico

    Um historiador serve para estudar história ou para criar santos e heróis nacionais? Vocês falam que a coroa portuguesa pensava assim e assado, que o quilombo era deste jeito e daquele e enfim…mas tem alguma documentação comprovando? Você pensa que os outros pensavam assim naquela época

    • Caro,

      Diante de sua pergunta posso apenas voltar-me para o senhor e respondê-la com duas outras questões:

      1) o senhor saberia dizer o que faz um historiador?

      2) sabe como o historiador realiza o seu ofício?

      Fico no aguardo de suas respostas.

      Att.,

      R.B.

  2. jose petrini rodrigues

    excelente texto como sempre

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