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Biroliro tem um fuzil carregado em suas mãos: o que será de nós?

MACACO ATIRA COM UM FUZIL AK 47 - YouTube

Hoje decidi tentar escrever um post em forma de alegoria para representar esse nosso Brasil governado por Bolsonaro diante da grande crise da COVID-19, que se alastra por nossas terras como formiga.

Imaginem que vocês estão em uma reunião familiar, bem cheia mesmo, com toda a família e amigos presentes. Crianças de colo, criancinhas, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Todos à beira da piscina, desfrutando de um ótimo domingo de sol, com churrasco, cerveja e refrescos à vontade. Pois bem, Biroliro, o pet da família, também está presente. É um Chimpanzé brincalhão, normalmente inofensivo e que faz a alegria de todos da casa. As vezes joga fezes em visitas estranhas, mas isso faz parte do show de Biroliro.

Acontece que lá pro fim da tarde, depois de beberem muitas caipirinhas e cervejas, algumas pessoas tiveram uma ideia estranha de diversão. Decidiram pegar um fuzil automático carregado e dá-lo nas mãos de Biroliro para ver o que ocorria. Muitas pessoas logo protestaram. Avisaram que isso não ia terminar bem, pois Biroliro era um animal inconsequente. Certamente iria atirar à esmo e alguém poderia sair ferido. As demais pessoas que estavam na casa não se pronunciaram. Tanto faz. Assim, aqueles que tiveram a ideia de dar a arma a Biroliro eram maioria e acabaram colocando a ideia em prática. Chamaram o animalzinho, passaram a arma carregada e destravada pelo pescoço dele e a colocaram nas mãos da criatura.

Segundos depois, como se imaginava, começou a correria, os gritos, o choro e o ranger de dentes. Crianças, mulheres e idosos foram alvejados por não conseguirem se proteger a tempo das múltiplas balas que voavam para todos os lados. Biroliro atirava e sorria, feliz com a brincadeira, sem entender o que estava fazendo. Era muito melhor do que as costumeiras sessões de atirar fezes.

Entre mortos e feridos contavam-se alguns daqueles que tiveram a ideia de armar Biroliro. Pior ainda, filhos, pais e avós morreram cravejados de balas, enquanto os responsáveis pela tragédia choravam e se desesperavam. As pessoas mais sensatas, que haviam avisado que a ideia não iria terminar bem, sobreviveram. Antes mesmo de que Biroliro tomasse posse da arma, eles se retiraram para um ponto distante e observaram. Perguntados o que sentiam diante daquela verdadeira tragédia e se iriam ajudar, tinham dificuldade em decidir o que fazer. Não conseguiam ter empatia com os responsáveis pela tragédia que agora choravam e se desesperavam. Lembravam que haviam avisado insistentemente, e que tentaram de todos os modos dissuadi-los daquela louca ideia. Mas foram voto vencido. Agora que o pior havia ocorrido, o que podiam fazer de melhor era deixar que os causadores de tudo aquilo fossem responsabilizados pela tragédia e sofressem as consequências de suas escolhas. Quem sabe assim poderiam aprender algo disso. Não havia nada mais a fazer, a não ser lamentar pela estupidez dos responsáveis e pelo fim trágico de quase toda a família.

Pois bem, meus camaradas, nessa breve alegoria o Brasil é o fuzil carregado, Biroliro é o presidente Jair Bolsonaro e os brilhantes idealizadores da brincadeira de colocar o Brasil sob o comando de Bolsonaro, isto é, de dar a arma nas mãos do chimpanzé, são os eleitores de Bolsonaro e todos aqueles que se abstiveram de votar contra ele. Estamos diante de um momento em que, se a tragédia total ainda não aconteceu, ela já está bem à nossa vista. Sinto muito por tudo o que nos está ocorrendo. Sinto pela tragédia que se anuncia. No entanto, não tenho nenhuma empatia com eleitor de Bolsonaro e com quem se absteve nas eleições. Espero que todos tiremos lições dessa verdadeira tragédia que é e será o Brasil de 2019-2022. Eu não tenho boas expectativas e sou profundamente pessimista. Afinal de contas, o que devo esperar de 57 milhões de pessoas que acharam uma boa ideia dar um fuzil carregado nas mãos de um chimpanzé e outras 31 milhões que se colocaram indiferentes diante dessa verdadeira hecatombe?

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Um mundo às avessas: Dr. Drauzio Varella e seu abraço “criminoso”

Antes de escrever qualquer coisa sobre o tema desta postagem, entendo ser necessário fazer alguns esclarecimentos àqueles que não me conhecem ou jamais tenham acompanhado as postagens deste meu (abandonado) blog:

  1. Sou ateu;
  2. Racionalmente, defendo que devemos tratar todo e qualquer ser humano, independente do que este tenha feito em seu passado, com humanidade;
    • Logo, um tratamento humanitário a quem quer que seja, inclusive encarcerados, é dever de todos aqueles que se entendem como pertencentes ao gênero humano.
  3. Tratar com humanidade significa respeitar uma série de direitos básicos assegurados a todo e qualquer ser humano independente de sua classe social, etnia, nacionalidade, cultura, religião, profissão, gênero, orientação sexual ou qualquer outra variante que possa diferenciar os seres humanos.
    • Dito de outra forma, tratar o outro com humanidade significa, minimamente, respeitar os Direitos Humanos.

Isso posto, vamos direto ao tema! Me parece uma grande estupidez que alguém tenha esperado que o Dr. Drauzio Varella fosse reagir de outra forma ao ser informado que Suzy de Oliveira, a detenta que ele apresentou ao Brasil no programa Fantástico (01 mar. 2020), encontra-se detida na penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos (SP), por ter estuprado e matado uma criança de 9 anos em 2010. Segundo nota divulgada pelo médico:

Em todos os lugares em que pratico a medicina, seja no meu consultório ou nas penitenciárias, não pergunto sobre o que meus pacientes possam ter feito de errado. Sigo essa conduta para que meu julgamento pessoal me impeça de cumprir o juramento que fiz ao me tornar médico. […[ Sou médico, não juiz.

Ao ler a enxurrada de editoriais, postagens e comentários que inundou as redes sociais em resposta à nota do Dr Drauzio Varella, fica-se com a clara sensação de que boa parte dos brasileiros esperava uma retratação do médico. Uma nota, um vídeo ou mesmo um espaço em seu quadro no Fantástico no qual ele apareceria pedindo desculpas pelo “crime” de ter abraçado uma homicida em rede nacional. Pior, os comentários são tão cheios de ódio que chegam mesmo a defender como justificáveis as violências, a tortura, o estupro e a solidão sofridas por Suzy de Oliveira dentro da penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos (SP). Para muitos dos que deixaram suas opiniões nas redes sociais, Suzy não deveria sequer ter sido presa, mas sim morta com requintes de crueldade. O Dr Drauzio Varella, portanto, errou ao se comover com a série de violências e abandono sofrido por Suzy. Nessa forma torta de ver o mundo, o abraço oferecido por Drauzio à detenta é tão criminoso e ofensivo como ela própria.

Drauzio Varella abraça a detenta Suzy em reportagem do Fantástico - Reprodução

Dr. Dráuzio Varella abraça a detenta Suzy de Oliveira em reportagem do Fantástico. Imagem: reprodução.

Diante desse cenário é difícil não chegar à conclusão de que vivemos em uma sociedade hipócrita. Uma sociedade que fala muito de amor, cuja divindade insiste na prática do perdão e da empatia, mas que, ao contrário, pratica somente o ódio e a vingança. Se não é assim, como entender o modo como essa sociedade vem a público cobrar o arrependimento de um médico pela forma humana como ele tratou uma detenta? Como compreender o ódio que um simples abraço, fruto da compaixão que o Dr. Drauzio sentiu pelo sofrimento daquela detenta, despertou em milhares de brasileiros? Um crime hediondo, como o cometido por Suzy, deve tirar de cada um de nós a capacidade de nos sensibilizar com o fato de ela ter sido estuprada? De ela ter se prostituído por um sabonete ou uma pasta de dentes? De ela ter contraído AIDS na penitenciária? De ela não ter recebido uma única visita de parentes e amigos em mais de oito anos?  Não teria sido a própria divindade cristã aquela a ensinar o amor e o perdão em lugar da vingança, do olho por olho e dente por dente?

Em uma sociedade democrática, que preza por valores republicanos e signatária da Declaração Universal dos Direitos Humanos, nenhum presidiário, por pior que tenha sido seu crime, deveria ser submetido à violências de qualquer natureza, tortura, estupro, prostituição e descaso, quer do Estado, quer de sua família. Ao contrário, todos merecem ser tratados, minimamente, como seres humanos. O Estado, por sua vez, não pode ser criminoso ou sequer conivente com crimes cometidos contra pessoas que estão sob sua custódia. A integridade física de seus detentos, bem como o respeito aos Direitos Humanos, é o mínimo que o Estado deve garantir a seus cidadãos. Fora disso é a barbárie!

Nesse sentido, o Dr. Drauzio Varella, muito mais do que um profissional exemplar, nos oferece uma lição de humanidade. Sendo ateu declarado, com um único abraço relembrou a imagem do Cristo crucificado em meio a dois criminosos. Sem se importar com o crime de Suzy, a deu um tratamento humano e digno. Ofereceu-lhe o que há de melhor em nós, humanos: amor incondicional. Essa, aliás, é também a última lição do Cristo na cruz. A Bíblia nos conta que Jesus jamais perguntou a Dimas qual fora o seu crime antes de lhe assegurar-lhe o perdão e uma passagem direta para o Paraíso. É realmente de se lamentar que boa parte do “Brasil cristão” não veja no abraço apertado dado pelo Dr Drauzio Varella em Suzy de Oliveira o exemplo máximo daquela que seria sua própria divindade.

Charge_Latuff_CristoCrucificado

Charge: Carlos Latuff (2020)

Por fim, queria apenas registrar minha tristeza ao constatar que estamos vivendo, há muitos anos já, em um mundo às avessas. Um mundo no qual um ateu parece ser mais cristão que muitos dos que se denominam seguidores de Jesus. Um mundo em que um simples abraço pode provocar tanto ódio. Pobre Jesus, cujo exemplo não floresce no coração de pedra de seus seguidores. Pobre Brasil, hipócrita até a medula. Pobre humanidade, que sonha com o amor, mas vive do ódio.

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09/03/2020 · 15:34

Tiago Mitraud e o negócio da educação

Tiago Lima Mitraud, deputado federal pelo NOVO-MG. Foto: João Victor Moura de Medeiros, disponível em Wikipedia.

Em artigo recentemente publicado pelo deputado Tiago Mitraud (NOVO-MG) no Nexo Jornal, o parlamentar vem à público defender que é preciso quebrar o que ele considera ser um “tabu” de que a educação pública precisa, necessariamente, ser estatal. Segundo Mitraud, fora do Brasil já seria uma realidade a educação pública oferecida pela rede privada, citando a Holanda como exemplo dessa opção de financiamento da educação básica. Para reforçar sua argumentação, menciona nas entrelinhas de seu artigo o ranking Pisa – um estudo realizado pela OCDE em diferentes países para medir o rendimento dos alunos em matemática, ciência e interpretação de texto – para afirmar que o Brasil investe mal os altos recursos públicos destinados à educação, concluindo, em seguida, se tratar de uma “ilusão” acreditar que o “Estado tem margem orçamentária” para aumentar o volume de recursos investido na educação básica.

Ora, para começarmos a discussão, devemos considerar que, ao contrário do que afirma o Mitraud, dentre os países no topo do ranking Pisa, a Finlândia, campeã do ranking há vários anos, tem seu financiamento todo bancado pelo Estado; já a Coréia do Sul, vice colocada, tem feito vultuosos investimentos estatais há mais de uma década, chegando a destinar 5% do PIB (mais de US$ 45 bilhões) na formação de professores, investimento em material de apoio e melhoria da estrutura, exatamente na contramão do que defende o deputado Tiago Mitraud.

Já no Canadá, terceiro colocado no ranking Pisa, seu sistema altamente descentralizado apresenta províncias nas quais 94% dos alunos estão matriculados em escolas públicas. Este é o caso de Ontário, por exemplo, que concentra 40% da população canadense. Segundo reportagem do El País, o orçamento destinado à educação infantil (primária e secundária) pelo Ministério da Educação de Ontário em 2018 foi equivalente a R$ 77,8 bilhões. Na província de Manitoba, por exemplo, as escolas públicas operam diretamente sob a tutela do Ministro da Educação da província e são financiadas por uma combinação de financiamento provincial direto e tributos especiais.

No Japão, país que aparece em quarto lugar na relação do Pisa, os recursos investidos pelo Estado no ensino público passam por uma gestão mais rigorosa. O volume de investimento é menor do que dos outros países citados acima (3,3% do PIB), mas a infraestrutura educacional é mais enxuta, o que permite maiores salários para os profissionais da educação. Lá os salários são pagos pelo governo federal em conjunto com a administração de cada província.

Portanto, trata-se de uma premissa falsa aquela utilizada pelo nobre deputado para defender a entrada da iniciativa privada no financiamento da educação pública básica brasileira. Falsa, pois nos países referenciais quanto à qualidade da educação pública, a maioria adota um sistema de financiamento público, gerido pelo Estado, quer em sua esfera federal, quer na estadual ou ambas. Ao contrário do que defendeu Mitraud, esses países referenciais investem pesadamente na estrutura escolar (professores, materiais de apoio, escolas, água, luz, etc.), entendendo os gastos na educação como investimento, e não como custo do Estado.

Aliás, é na parte final de seu artigo que o deputado Mitraud mostra claramente suas ideias de financiamento da educação pública e a quem ela serve. Segundo o parlamentar, a abertura do financiamento da educação pública à iniciativa privada permitirá que recursos como o do Fundeb (Fundo de Manutenção da Educação Básica e Valorização dos Profissionais de Educação) poderão financiar bolsas de estudo em escolas da rede privada (vouchers) e contratar escolas conveniadas para atender alunos da rede pública (charter schools). Ora, tal projeto visa transferir, diretamente, recursos públicos para instituições privadas e enriquecer um punhado de empresários ligados ao ramo da educação. (Nunca é demais lembrar, a propósito, que a família do atual ministro da economia, Paulo Guedes, possui investimentos no ensino privado). Na tentativa de justificar/legitimar sua proposta, Mitraud cita como exemplo de parceria público privada na educação o Prouni (Programa Universidade Para Todos), criado em 2005 durante a gestão do presidente Luís Inácio Lula da Silva. O deputado se esquece que, no campo progressista, essa tem sido uma das fortes críticas feitas à opção de financiamento do ensino superior adotado durante as gestões petistas. O principal descontentamento é, justamente, que o governo passou a enriquecer pequenos grupos de empresários ligados ao ensino privado, transformando a educação superior em um negócio altamente lucrativo em detrimento da qualidade dos cursos. Os governos Lula/Dilma, nesse sentido, teriam impulsionado a criação de universidades nas quais os títulos são comprados em suaves prestações em três ou quatro anos.

Pior que o uso indevido do Prouni para justificar sua proposta é a exposição clara que o deputado tem do financiamento da escola pública pelo Estado. Aqui não há pudores em expor o liberalismo. Para Mitraud,

“Quando investimos na construção de mais estrutura estatal, estamos aumentando nossos gastos com custeio para as próximas décadas […] mais escolas estatais significam mais professores na folha de pagamento, mais contas de água e luz, e, consequentemente, mais custeio no orçamento do Estado. Considerando a queda na taxa de natalidade no país, seria investir bilhões em uma estrutura permanente que ficaria em desuso rapidamente”.

Fica evidente a visão do deputado da escola pública como um “custo” que onera o Estado, sendo os principais gargalos aqueles qualificados como estruturais, tais como a folha de pagamento dos professores, água e luz. Percebam, tudo isso vem exatamente na contramão do que os países referenciais no que tange a qualidade da educação básica têm feito.  Como vimos, Finlândia, Coréia do Sul, Canadá e Japão estão, justamente, aumentando os investimentos em estrutura, investindo na formação dos professores e gerindo, eles mesmos, os recursos destinados à educação.

Percebe-se, então, que a proposta de educação pública defendida por Tiago Mitraud visa atender a grupos específicos, isto é, grupos de investidores e empresários ligados ao ramo da educação privada que querem entrar no negócio da educação. Não basta mais as universidades ou os materiais didáticos. Querem abocanhar um público que, segundo o próprio parlamentar, seria de 40 milhões de estudantes de ensino básico matriculados nas escolas públicas. É disso que se trata toda essa discussão, e não da melhoria da qualidade de ensino de nossas crianças e jovens, como o deputado quer fazer parecer.

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ANPUH-SP emite nota de repúdio a declarações do ministro da educação e do presidente da República

O Hum Historiador repercute a nota de repúdio divulgada ontem (26) pela página da ANPUH-SP nas redes sociais.

NOTA DE REPÚDIO A DECLARAÇÕES DO MINISTRO DA EDUCAÇÃO E DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA SOBRE AS FACULDADES DE HUMANIDADES, NOMEADAMENTE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA

A Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF) e associações abaixo mencionadas repudiam veementemente as falas recentes do atual presidente da república e de seu ministro da educação sobre o ensino e a pesquisa na área de humanidades, especificamente em filosofia e sociologia.

As declarações do ministro e do presidente revelam ignorância sobre os estudos na área, sobre sua relevância, seus custos, seu público e ainda sobre a natureza da universidade. Esta ignorância, relevável no público em geral, é inadmissível em pessoas que ocupam por um tempo determinado funções públicas tão importantes para a formação escolar e universitária, para a pesquisa acadêmica em geral e para o futuro de nosso país.

O ministro Abraham Weintraub afirmou que retirará recursos das faculdades de Filosofia e de Sociologia, que seriam cursos “para pessoas já muito ricas, de elite”, para investir “em faculdades que geram retorno de fato: enfermagem, veterinária, engenharia e medicina”. O ministro apoia sua declaração na informação de que o Japão estaria fazendo um movimento desta natureza.

De fato, em junho de 2015 o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão enviou carta às universidades japonesas recomendando que fossem priorizadas áreas estratégicas e que fossem cortados investimentos nas áreas de humanidades e ciências sociais.

Após forte reação das principais universidades do país, incluindo as de Tóquio e de Kyoto (as únicas do país entre as cem melhores do mundo), e também da Keidanren (a Federação das Indústrias do Japão) – que defendeu que “estudantes universitários devem adquirir um entendimento especializado no seu campo de conhecimento e, de forma igualmente importante, cultivar um entendimento da diversidade social e cultural através de aprendizados e experiências de diferentes tipos” – o governo recuou e afirmou que foi mal interpretado.

A proposta foi inteiramente abandonada quando o ministro da educação teve de renunciar ao cargo, ainda em 2015, por suspeita de corrupção. Da forma como o ministro Abraham Weintraub apresenta o caso trata-se, portanto, de uma notícia falsa.

O ministro foi seguido pelo presidente, que mencionou que o governo “descentralizará investimentos em faculdades de filosofia”, sem especificar o que isto significaria, mas deixando claro que se trata de abandonar o suporte público a cursos da área de humanidades, nomeadamente os de Filosofia e de Sociologia. O presidente indica que investimentos nestes cursos são um desrespeito ao dinheiro do contribuinte e, ao contrário do que pensa a Federação das Indústrias do Japão, afirma que a função da formação é ensinar a ler, escrever, fazer conta e aprender um ofício que gere renda.

O ministro e o presidente ignoram a natureza dos conhecimentos da área de humanidades e exibem uma visão tacanha de formação ao supor que enfermeiros, médicos veterinários, engenheiros e médicos não tenham de aprender sobre seu próprio contexto social nem sobre ética, por exemplo, para tomar decisões adequadas e moralmente justificadas em seu campo de atuação. Ignoram que os estudantes das universidades públicas, e principalmente na área de humanidades, são predominantemente provenientes das camadas de mais baixa renda da população. Ignoram, por fim, a autonomia universitária, garantida constitucionalmente, quando sugerem o fechamento arbitrário de cursos de graduação.

Uma das maiores contribuições dos cursos de humanidades é justamente o combate sistemático a visões tacanhas da realidade, provocando para a reflexão e para a pluralidade de perspectivas, indispensáveis ao desenvolvimento cultural e social e à construção de sociedades mais justas e criativas.

Seguiremos combatendo diuturnamente os ataques à universidade pública e aos cursos de humanidades movidos pelo ressentimento, pela ignorância e pelo obscurantismo, também porque julgamos que esta é uma contribuição maiúscula da área de humanidades para o melhoramento da sociedade à nossa volta.

Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR)
Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (SOCINE)
Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE)
Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC)
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd)
Associação Brasileira de Estudos Sociais das Ciências e das Tecnologias (ESOCITE)
União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc-Brasil)
Associação Nacional de História (ANPUH)
Centro de Investigaciones Filosóficas (CIF/Argentina)
Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP)
Fórum Nacional de Diretores de Faculdades, Centros de Educação ou Equivalentes das Universidades Públicas Brasileiras (FORUMDIR)
ODARA – Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura, Identidade e Diversidade
Associação Brasileira de Antropologia (ABA)
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde – Cebes
Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (ABRAPEC)
Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR)
Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR)
Asociación Costarricense de Filosofía (Acofi)
Associação Brasileira de Psicologia Política (ABPP)
Sociedade Brasileira de Ensino de Química (SBEnQ)
Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (Anfope)
Associação dos Professores da UDESC (Aprudesc – ANDES-SN)
Fórum Nacional dos Coordenadores Institucionais do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (FORPIBID)
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM)
Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP)

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Nordeste, filosofia, sociologia: o pensamento contra a deseducação

por Marcos Silva – publicado originalmente em 10/04/2019 no portal GGN

Jair Bolsonaro (esquerda) e o novo ministro da Educação, Abraham Weintraub. FOTO: Valter Campanato Agência Brasil.

O economista Abraham foi nomeado para o Ministério da Educação por Carlos (perdão pelo cacófato!) e em fala anterior ao ato, agiu como se mudasse antecipadamente o nome do órgão para Ministério da Deseducação: anunciou e garantiu que o Nordeste brasileiro não deveria se dedicar a Filosofia nem a Sociologia, e sim a convênios com Israel no campo da Agronomia.

É um trajeto de velocidade espantosa, entre Hermes/Mercúrio (que também cuidava de negócios, embora fosse mais sábio, promovesse relações entre povos, não apenas com um povo) e o personagem de quadrinhos e cinema Flash.

Em termos geográficos, onde é mesmo que se pensa?

Em qualquer lugar! Europa, França e Bahia, na antiga metáfora popular.
E quem escolhe como pensar?
Os Pensadores!
Quem são esses Pensadores?
Todas as mulheres e todos os homens do mundo!

Ministério da Educação (ou da Deseducação, como Abraham parece preferir) pode contribuir para o Pensamento com verbas e profissionais da primeira área (a Deseducação fica a cargo de qualquer burocrata), jamais com normas definidoras de áreas e tarefas. Ministério da Deseducação não pensa no lugar dos outros.

Alguns homens e mulheres, naquela parte do Brasil que costumamos designar como Nordeste, pensaram filosófica e sociologicamente sem autorização de Abraham, bem antes de seu nascimento. Houve mesmo quem se antecipasse ao conceito de Nordeste, às universidades propriamente ditas (mais que soma de unidades de ensino superior dedicadas a diferentes especialidades) e, já no século XIX e no começo do século XX – quando as regiões geográficas começavam a ser discutidas sistematicamente e os cursos de ensino superior no Brasil antecipavam universidades ao abordarem Filosofia e Sociologia nos quadros de Direito, Medicina e Engenharia -, ousasse filosofar ou sociologizar. Sylvio Romero (1851/1914), advogado, foi um deles, escreveu sobre uma cultura brasileira que mesclava elementos portugueses, africanos e indígenas. Manoel Bomfim (1868/1932), médico, combateu o racismo ao debater a História do Brasil nos quadros da América Latina, e comentou criticamente a Educação na sociedade republicana. Depois, já no tempo de região e universidade mais consolidadas, vieram Gilberto Freyre (1900/1987), graduado em Artes Liberais nos EEUU, que falou sobre africanos como formadores do Brasil; Nise da Silveira (1905/1999), médica, que articulou o trabalho terapêutico em Psiquiatria com Arte e Trabalho, tratando loucos com dignidade; Josué de Castro (1908/1973), médico, que mapeou fome e sociedade, saber de combte; Celso Furtado (1920/2004), advogado, que repensou Economia e Região; e Paulo Freyre (1921/1997), advogado, que ressignificou a Educação no universo popular São Pensadores tão diferentes cada um do outro, tão insistentes em percorrerem Sociologias e Filosofias, referências para universidades no Brasil e no mundo! E até hoje, inúmeros outros Pensadores nordestinos transitam por Filosofia, Sociologia e mais campos de saber em seu trabalho cotidiano, agora com cursos específicos, sem estribos governamentais sobre como pensar. Filosofia e Sociologia existem no Nordeste porque os Nordestinos (como os demais homens e mulheres do mundo) pensam!

Não estamos diante de ecletismo ou indefinição intelectual. Quando advogados, médicos e outros profissionais apelam para Filosofia e Sociologia, apenas demonstram que possuem rigorosa formação universitária.

O que é mesmo uma Universidade?

Mais que aglomerado de cursos e tarefas, universidades são conjuntos de núcleos de estudos sobre múltiplos saberes, articulados uns aos outros.

Cada campo de conhecimento está na universidade porque precisa dos outros e é invocado pelos demais.

E o que é mesmo Nordeste?

Existe uma região que é definida administrativamente – órgãos e verbas governamentais, respectivos poderes.

Outra que é invocada ideologicamente, justificativa para práticas de poder.
E também outra nasce inventada pelo preconceito, em nome de dominação e atos de excluir.

Mas não é possível esquecer a região recuperada por dominados e preconceituados, contra essa prática, como afirmação de poderes alternativos e críticos, presente tanto no cotidiano dos designados como paraíbas ou baianos quanto na produção artística reflexiva.

O Nordeste de administração e ideologia pode dispensar Filosofia e Sociologia porque essa é sua lógica instrumental e produtora da ignorância. Algo semelhante ocorre no mundo do preconceito, alheio ao Pensamento. Mas o Nordeste crítico, dos preconceituados, contra os dominantes, reivindica para si aqueles e outros universos de Pensamento porque… pensa.

Nordeste não é apenas um lugar físico do mapa, é um universo de homens e mulheres portadores de culturas que são mais que região e estão além daquele recorte. Nordestinos estão em New York e Paris, assim como New York e Paris estão nos Nordestes – textos, imagens, danças, cantos, lutas… E regiões não apagam Gêneros, Classes Sociais, Etnias e tantas outros faces de experiências humanas.

O desejo de Abraham não sobreviverá ao fazer crítico dos Nordestes. Filosofia e Sociologia existem ali porque os Nordestinos pensam, contra a Deseducação governamental e preconceituosa.

Convênios universitários podem e devem ser feitos com todos os países, inclusive Israel e Autoridade Palestina. Convênio não é parasitismo: existem pesquisas no Brasil sobre irrigação e outros campos de Agronomia. O Nordeste recebe pesquisadores estrangeiros nessa e noutras áreas de estudos e envia seus pesquisadores para tantos outros país. Existem Filósofos e Sociólogos em diferentes universidades do Nordeste brasileiro e do resto do planeta, assim como Físicos, Linguistas, Historiadores, Psicólogos e demais pensadores gabaritados.

Todo apoio aos convênios entre as universidades brasileiras nordestinas (e de outras regiões do país) e suas congêneres do mundo inteiro. Universidade é para isso mesmo, para ser universo.

Marcos Silva é professor no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

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Bolsonaro é Ustra e Ustra é Bolsonaro

mulheres ditadura (Foto: Reprodução/Facebook)

Reprodução: Facebook

O candidato Jair Bolsonaro rendeu homenagem ao ex-coronel do exército Carlos Alberto Brilhante Ustra. Seus filhos, deputados, são vistos trajando camisetas com os dizeres Ustra Vive. Esse militar foi condenado pela justiça brasileira pela prática de tortura durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985).

Aos desavisados, Ustra foi responsável pelo estupro, espancamento e todo tipo de violência contra mulheres. Muitas mortes são creditadas diretamente à sua ação. Vítimas de Ustra relatam que ele tinha a prática de inserir ratos nas vaginas de mulheres. Também levava os filhos menores das presas políticas para assistirem as mesmas sendo torturadas, como revela o depoimento de Maria Amélia Teles, cujos filhos foram levados para vê-la enquanto ela e o marido eram torturados por agentes do Estado ditatorial.

Nessa campanha eleitoral tenho visto colegas defendendo a candidatura de Bolsonaro e assumindo seus discursos. Há, até mesmo, quem tenha dito que a ditadura só foi ruim para “vagabundos” que não estavam “fazendo a coisa certa”. Devo dizer a quem divulga esse tipo de absurdo que sua ignorância ofende a milhares de pessoas que morreram ou foram brutalmente torturadas no Brasil.Estudem, camaradas! Não passem a vergonha de se colocarem lado-a-lado de candidatos violentos, homofóbicos, racistas e misóginos. Vocês só tem a perder com isso. A ignorância tem remédio, basta estudar. Não vamos colocar crápulas no comando deste país.

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BBC: Brasileiros importam sêmen de brancos estadunidenses

O Hum Historiador abre espaço para repercutir notícia produzida pela BBC e divulgada no site da Socialista Morena em 22 março de 2018. Trata-se do crescimento de mais de 3000%, nos últimos anos, na procura de sêmen de brancos estadunidenses por brasileiros que desejam ter filhos pelo processo de inseminação artificial. As principais interessadas são mulheres ricas solteiras e casais de lésbicas, que indicam preferir crianças brancas de olhos azuis e sardas.

Segue o texto na íntegra, como publicado no site da Socialista Morena.

Eugenia: brasileiros que importam sêmen de brancos dos EUA viram notícia internacional

Wall Street Journal diz que número de brasileiros que prefere doadores brancos e de olhos azuis cresceu 3000% nos últimos anos.

A “LIGA DAS GAROTAS ALEMÃS” DE HITLER

Parece a Alemanha nazista, mas é o Brasil de 2018: o Wall Street Journal traz nesta quinta-feira uma reportagem sobre como a procura por sêmen importado dos Estados Unidos explodiu em nosso país nos últimos anos, graças ao interesse de gente que deseja “branquear” os filhos e garantir que tenham olhos claros e aspecto europeu. Em outras palavras, eugenia. Hitler ficaria orgulhoso.

“Com olhos claros, cabelos loiros e algumas sardas no rosto, o doador número 9601 é um dos mais requisitados por mulheres ricas do Brasil que estão importando o DNA de jovens norte-americanos em números sem precedentes”, diz a reportagem assinada por Samantha Pearson. Baseada em dados da Anvisa, a repórter afirma que a importação de esperma gringo subiu 3000% desde 2011, sobretudo entre mulheres ricas solteiras e casais de lésbicas que preferem perfis de doadores com “pele clara” e “olhos azuis”.

A reportagem cita a política de “branqueamento” que teve lugar em nosso país nos séculos 19 e 20, e o “racismo persistente” em nossos dias para explicar o desejo por filhos arianos. O Brasil foi um dos primeiros países a ter um movimento de “melhoria da raça” organizado, com o surgimento da Sociedade Eugênica de São Paulo, criada em 1918. Entre as iniciativas propostas estava impedir a imigração de pessoas que não fossem brancas. As famílias que estão importando esperma de doadores caucasianos parecem seguir à risca esta orientação.

Além de querer branquear os descendentes, o complexo de vira-latas também é uma razão para a importação: os brasileiros que compram esperma gringo dizem “não confiar” no “produto nacional”, como se estivessem tratando de um produto eletrônico ou tênis de corrida. Segundo uma mãe que importou esperma dos EUA, enquanto aqui as informações sobre o doador seriam precárias, ela conseguiu coletar 29 páginas sobre o doador norte-americano.

“O Brasil compra quase todo o esperma importado de doadores caracterizados como caucasianos. Quase um terço dos espécimes são de doadores loiros e 52% de homens com olhos azuis. O país também aparece como um dos mercados que mais crescem em importação de sêmen nos últimos anos. Mais de 500 tubos de sêmen congelado em nitrogênio líquido chegaram ao Brasil no ano passado, contra 16 em 2011”, diz a reportagem. “Em 2016, casais heterossexuais compraram 41% do esperma importado, mulheres solteiras, 36% e casais lésbicos, 21%, mas a demanda está crescendo entre os dois últimos grupos.”

Leia a reportagem completa, em inglês, aqui.

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