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O NÓ: ato humano deliberado

Documentário por Dilson Araújo
70 minutos – 2012

A introdução criminosa da doença vassoura-de-bruxa nas plantações de cacau do sul da Bahia e o fracasso da intervenção do Governo brasileiro através do Programa de Recuperação da Lavoura ocasionaram um desastre socioeconômico e ecológico sem precedentes, que inviabilizou mais de seiscentos mil hectares da cultura, destruindo as vidas e os sonhos de milhares de famílias de trabalhadores rurais, cacauicultores e comerciantes. O evento extinguiu 250.000 postos de trabalho, provocou o êxodo de aproximadamente 800.000 homens, mulheres e crianças que moravam nas fazendas e ainda quebrou a economia de quase cem municípios. As conseqüências da catástrofe continuam repercutindo desde 1989 e afetam uma importante zona biogeográfica, onde vivem quase três milhões de pessoas. Esse filmem de Dilson Araújo, aborda o fato a partir das evidências e dos argumentos contidos nos relatos dos depoentes e em documentos oficiais.

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O Oscar, o jornalismo e o racismo

por Fábio Nogueira para o blog Fazendo Media | 03.fev.2016

racismo oscarO ano mal iniciou e já começamos a levar uma série de baques. Mortes de personalidades que fizeram parte da minha juventude e simplesmente nos deixaram órfãos. A vida Continua. Fora isso, somos assolados por comentários que nos fazem duvidar de certos jornalistas. Um deles de certa emissora, ainda não conformado pela decisão massacrante do STF (Supremo Tribunal Federal) que deu parecer favorável à constitucionalidade das cotas raciais em universidades públicas, jorrou o seu veneno contra os alunos que optaram por essa política. Utilizou sua visibilidade televisa para afirmar que esses alunos seriam péssimos profissionais quando se formassem. É um daqueles periodistas mal intencionados que fizeram “profecias” catastróficas em referência à entrada de cotistas nas universidades. Tais previsões eram as piores possíveis, partiam dos conflitos raciais dentro das instituições de ensino superior, passavam pela queda da qualidade do ensino e divisão racial do país (como se esta não existisse ), até as desistências. A pergunta que fica é: cumpriram-se as profecias?

Doze anos já se passaram desde que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) adotou as políticas de cotas raciais. Para muitos, outras universidades públicas pareciam esperar quais seriam os primeiros resultados da UERJ para, somente então, seus conselhos universitários tomarem medidas similares. Como indica essa matéria publicada no portal Geledés.

De modo geral, as cotas são um sucesso. Tenho testemunhado a entrada de jovens e adultos que fazem parte da primeira geração da família a ingressar em uma universidade. Não entro mais naquela mesmice do contra ou a favor. Encerrou. Hoje a minha função é dizer o que são as políticas de ações afirmativas (incluindo cotas) e como outros países as têm adotado segundo suas necessidades e histórias.

Quanto àqueles que insistem em ficar na mesma discussão….. entendo que seja melhor deixar os cães latirem. Nunca saberão o que é viver em pé de igualdade e, aliás, a ideia de viver em uma sociedade que se pretende igualitária lhes causa pânico.

Tal como esses, há também quem pregue a meritocracia como parâmetro de igualdade. Soa como canto da sereia essa palavra. Chega a ser imoral pregar esta mentira num país tão desigual como o Brasil. Mesmo com os avanços sociais, ainda há muitos Brasis. Há um, bastante conhecido, em que se destaca uma minoria opressora que vem mandando há séculos no país. Esta, como se sabe, não está disposta a dividir os privilégios com ninguém. E há outro Brasil, o da maioria, que clama para que seja desatado o nó da desigualdade.

Atores e atrizes estadunidenses não perderam tempo em criticar a academia de arte e cinema de Hollywood. Pelo segundo ano consecutivo, a ausência negra (as) dentre todas as categorias foi percebida. Não há negros indicados sequer nas categorias técnicas. O resultado será o boicote de personalidades negras e brancas solidárias pela ausência da diversidade dentro da academia. Os protestos já estão gerando frutos. No próximo ano Hollywood fará várias alterações visando aumentar a pluralidade de sua premiação, buscando incluir mais negros e latinos.

Vale destacar o silêncio de nossos atores em relação a este assunto. Pouquíssimos abordam o tema, pois não há o compromisso de esconder e fingir que está tudo bem.Vejo atores veteranos repetindo os mesmos papéis em outras novelas, parecendo continuação da última interpretação. Talvez a regulamentação da mídia fosse umas das saídas para melhor trabalharmos a diversidade. Ainda tenho a esperança de que alguém da classe artística, sem vinculo com A ou B, toque nessa ferida e diga que há barreiras para que artistas negros possam mostrar seu valor.


Texto: Fábio Nogueira é  estudante de história da Universidade Castelo Branco e Militante da Educafro. E-mail. Historiadorfabioucb.49@outlook.com

Revisão: Rogério Beier é historiador, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo.

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Ana Muylaert coloca dedo na ferida nas relações entre empregadas domésticas e patrões no Brasil

por Cláudia Rocha e Guilherme Weimann | para o Brasil de Fato

Ana Muylaert, diretora de Que Horas Ela Volta. Foto: Guilherme Weimann.

Que horas ela volta? é rotulado pela crítica como um filme de arte. Para a diretora Anna Muylaert, entretanto, o longa precisa ser assistido também nas periferias do país. Nada mais justo, já que o roteiro conta a história de Val (Regina Casé), uma empregada doméstica que passou anos trabalhando na casa de uma família rica do Morumbi e tem sua vida alterada com a chegada de Jéssica (Camila Márdila), sua filha que foi deixada no Nordeste e está em São Paulo para prestar vestibular.

Ganhador do Festival de Berlim e com premiação também em Sundance, o filme é a representação brasileira na disputa pelo Oscar. A escolha rompeu uma hegemonia masculina de 30 anos de indicações de diretores homens e acendeu um debate sobre o machismo no cinema.

Mesmo com a agenda lotada, a diretora recebeu o Brasil de Fato SP em sua casa, no último sábado (12) à tarde, e falou sobre a repercussão do filme, que já ultrapassou 150 mil espectadores. Confira a entrevista:

Brasil de Fato SP – Quando você teve a ideia do filme, o objetivo era ter o foco no retrato das relações humanas ou a ideia já era debater questões políticas?

Anna Muylaert – Eu não pensei em política enquanto estava construindo o roteiro. Queria dar um destino melhor para a filha da empregada. Na minha cabeça de dramaturga, eu queria tirar o clichê da maldição da repetição. Durante muitos anos o caminho era igual, a filha vinha para cá ser cabeleireira e acabava como doméstica, assim como a mãe. Eu determinei a mudar isso. A partir do primeiro dia em que apresentei a ideia, a associação com o retrato do período pós-Lula foi imediata. O filme estava mais enraizado na realidade do que eu achava.

Falando um pouco sobre essa nova realidade, que foi alterada devido aos diversos programas sociais implantados na última década, você acredita que houve uma mudança na autoestima do brasileiro?

A partir do Lula, sem dúvida, houve um trabalho de melhoria da autoestima tanto pelo Bolsa Família e pelas cotas raciais nas universidades, como também pela Copa do Mundo e Olimpíadas. Acho que se há algo que o Lula fez foi subir a autoestima das classes menos favorecidas. Mas isso é um pequeno começo, a questão da educação ainda está muito atrasada em relação aos países europeus, por exemplo, que são socialmente mais democráticos. Aqui demos um pequeno passo para o direito à cidadania.

Sobre a personagem Jéssica, como você encara o fato de algumas pessoas a interpretarem como uma pessoa “metida”, quando na verdade ela só quer ser tratada como os outros hóspedes da casa? Como você pensou na personalidade dela?

Ela foi uma menina que teve educação, apesar de não ter dinheiro. Além disso, ela não teve empregada, portanto nem conhecia essas rígidas regras separatistas. A minha ideia é que ela chegaria com uma inocência. Mas, claro que ao perceber aquelas relações, ela simplesmente não acredita. Na cabeça dela, aquelas regras não significam nada. Há quem ache ela arrogante e há quem ache ela maravilhosa. Dependendo do que você acha da Jéssica fica claro em quem você vota.

Foram realizadas cabines [sessões de teste com o público] só com empregadas domésticas. Como foi a reação delas? E os patrões? Você chegou a ser vítima de algum discurso de ódio por causa do filme?

Eu soube que, após a sessão, rolou um desabafo de um grupo [das domésticas] com coisas que estavam presas por muito tempo na garganta. Mas, muitas ficaram bastante travadas. Esse jogo de regras é um jogo invisível. O filme mexe muito com os dois lados. Tanto com o patrão, que sai de lá e diz que vai aumentar o salário da empregada, quanto com elas que se enxergam no filme e ficam motivadas a deixar de aceitar humilhações. Eu esperava que eu fosse vítima [de discurso de ódio], mas estranhamente ainda não houve. Os patrões usam o filme como um momento de revisão de atitudes e valores. Mas já fiquei sabendo de duas mulheres que levantaram e saíram da sala revoltadas em uma das cenas da Val, o que eu achei bem chocante.

Você costuma brincar que o seu filme é um filme de “nadas”, porque os principais pontos estão relacionados a situações do cotidiano, que só têm importância pelo contexto, como é o caso da problemática em relação às personagens com a piscina da casa. Como foi essa construção do roteiro?

Eu estava girando atrás de uma solução quando, em agosto de 2013, seis meses antes da filmagem, minha fotógrafa, a uruguaia Bárbara Alvarez, me deu um livro do Cortázar com o conto Casa Tomada. Assim, achei uma solução para a Jéssica. Ela viria inocente das regras, e iria quebrando essas regras, até ser expulsa de volta. Quando a patroa entra na cozinha e a Jéssica está tomando sorvete, a cena é quase de um filme de terror. Mas a tensão está justamente na percepção das pessoas. Não há nada demais no fato de uma adolescente estar tomando sorvete.

Você optou por retratar uma família onde a mulher é protagonista e tem um papel mais autoritário. Teve algum motivo específico para a escolha?

Não foi uma opção consciente. Isso foi baseado na minha visão. Eu acho que os homens estão muito fragilizados perante as mulheres atualmente. Acho que as mulheres estão muito fortes. Eu, por exemplo, sou cineasta e criei dois filhos sozinha. Trabalhei com os meus dois braços, enquanto boa parte dos homens trabalha com um braço só, já que chegam em casa e dormem. Acho que na América Latina é muito forte esse conceito do homem não ajudar em casa. Apesar de estarmos poderosas, a gente ainda não quebrou o tênue fio dessa regra machista. Nós, mulheres, precisamos dizer “estamos fazendo o serviço, então não manda em mim”. Porque os homens não fazem, aí as mulheres fazem, e no final eles chegam e tiram a foto ao lado do prefeito. Isso acontece em todas as classes e em todos os países. Eu acho que a nova onda feminista é a missão da mulher dizer para o homem que ele está agindo de maneira ridícula.

Você deu uma declaração em que diz que está incomodando os homens por ter atingido a ‘esfera do dinheiro’ dentro do universo do cinema. Não só nesta área, mas em praticamente todas, observamos essa situação. Como foi sua trajetória, você esbarrou muitas vezes no machismo?

Tenho quase 25 anos de carreira. No começo, eu podia fazer o serviço, mas não podia receber o crédito. E eu não exigia. Acho que a mulher tem um excesso de humildade, enquanto o homem um excesso de arrogância. Isso precisa ser equilibrado. As mulheres acabam errando também porque há um conjunto de regras que dizem que o homem deve estar à frente e a mulher atrás. Depois passei para uma condição onde eu levava o crédito, mas ainda ganhava menos do que o homem, e achava normal. Há sempre uma valorização do masculino e desvalorização do feminino. Foram muitos anos para eu perder esse excesso de humildade, que na verdade é uma subserviência. Humildade é bom, subserviência não. Autoestima é bom, mas arrogância não. Quando meu filme começou a ter visibilidade, comecei a sofrer um bullying que nunca tinha sofrido antes, de parceiros meus dizendo que se eu cheguei lá era por responsabilidade deles. Hoje, com esse filme, eu alcancei um patamar do cinema onde só há homens como Walter Salles, Fernando Meirelles, Padilha e Hector Babenco.

Como foi a relação com a Regina Casé? Você havia pensado nela desde o início do projeto?

Eu decidi que a Regina [Casé] interpretaria a protagonista quando assisti o filme Eu, tu, eles. Depois disso, não pensei mais em outra pessoa para o papel da Val. Nosso processo de aproximação foi longo até chegar à filmagem que, por sinal, foi bastante complicada em decorrência do bebê que ela havia acabado de adotar. Tiveram momentos difíceis, principalmente pelo calor do verão. Mas o importante é que, artisticamente, a gente se deu maravilhosamente bem. Acho que é, talvez, a parceira mais incrível que eu já tive.

O filme retrata essa cultura escravista herdada do período colonial. Foram realizadas pesquisas sobre isso?

Fizemos uma pesquisa para encontrar a personagem principal, que é inspirada na Edna. Ela foi babá do meu filho por aproximadamente dois anos e acabou se tornando minha amiga. Quando era criança, foi deixada na Bahia pela mãe e buscada apenas dez anos depois. Sobre essa arquitetura colonial e os espaços de poder dentro da casa, não foi preciso praticamente nenhuma pesquisa, já que esses valores estão presentes em qualquer casa da classe alta brasileira.

Além do seu filme, vários outros abordaram essa mesma temática nos últimos anos. Domésticas, do Gabriel Mascaro, talvez seja o mais evidente. Mas também podemos citar O Som ao Redor, do Kleber Mendonça Filho, e Casa Grande, do Fellipe Barbosa. Algum deles te influenciou?

Eu tive uma influência muito grande do filme O Som ao Redor. Eu me conecto a ele porque eu realmente amei, saí do cinema tremendo. Apesar de completamente diferentes, ambos estão tirando diversas pessoas da invisibilidade. Já o documentárioDomésticas, que foi exibido para a nossa equipe durante a preparação, serviu de inspiração para o figurino da Val. O Casa Grande, entretanto, foi diferente. No início da sua exibição no Festival de Cinema de Paulínia, achei que alguém tivesse feito o mesmo filme que eu. Mas, passados os primeiros trinta minutos, o filme abandona o caráter crítico e assume o papel do herói adolescente que termina trepando com a empregada, o que eu considero retrógrado e machista. Na Europa, os espectadores perguntam se isto realmente existe ou se é pura ficção. Em suma, todo mundo está abordando um tema que urge porque o Brasil ainda está no século XIX. Essa é uma cultura gerada nos primórdios da colonização, quando os portugueses vieram para o Brasil explorar o ouro e comer as mulheres. A lógica era o ócio ao invés do negócio. Isso não dá mais, é 7 a 1 em todo o canto. É urgente profissionalizar, legislar e respeitar essas mulheres. No Brasil, ainda é normal homem pisar em mulher, branco em preto e rico em pobre. Os cineastas estão no cinema para isso e é ótimo que estes filmes estão dando certo, porque faz o mundo pensar e repensar estas atitudes.

Uma jovem, que também se chama Jéssica, publicou um artigo no blog Nós, Mulheres da Periferia relatando as semelhanças da sua história com a Jéssica do filme. Como está sendo a recepção do público?

Está incrível. Estou recebendo uma mensagem a cada cinco minutos. Ontem, um menino me escreveu relatando um episódio que ocorreu após a publicação de uma crítica muito bonita que fez sobre o filme. A patroa da sua mãe, que é empregada, achou seu texto em um blog, se reconheceu lá, e afirmou que mudaria completamente a sua postura. Isso, pra mim, já é um Oscar. Além disso, um pessoal da periferia me convidou para participar de um debate e, no final da mensagem, afirmou que ‘somos todas Val’. Enviei como resposta que também ‘somos todas Jéssica’. No geral, a periferia também quer ver o filme, mas ele ainda não chegou lá. No início, eu tinha a intenção de oferecer desconto para domésticas que apresentassem o cartão de trabalho. Mas, na primeira reunião, meu distribuidor descartou a ideia porque a patroa se sentiria mal em sentar ao lado da empregada. No mercado capitalista, Que horas ela volta? é um filme de arte. Apesar disso, estamos provando o contrário.

Você afirmou em algumas entrevistas que o roteiro começou a ser elaborado logo após o nascimento do seu segundo filho. Como foi esse processo?

O roteiro nasceu do amor pelo meu filho. Eu já tinha feito Castelo Rá-Tim-Bum e vários outros trabalhos, mas quando eu tive o bebê surgiu uma força que me fez decidir que não iria mais trabalhar por um tempo. Eu fiquei dois anos sem trabalhar, mas felizmente vieram os livros do Castelo Rá-Tim-Bum, que me renderam quatro ou cinco vezes mais do que o salário na TV Cultura, e me possibilitaram continuar trabalhando em casa. Eu senti que o processo da maternidade me faria crescer e me entreguei completamente. Somente depois de muita insistência decidi contratar uma babá para me ajudar uma vez por semana. Logo no primeiro dia, a menina veio toda de branco, pegou o bebê, entrou no quarto e fechou a porta. Nessa hora, eu deitei na minha cama e comecei a passar mal. No dia seguinte, eu abri o jogo e assumi que não daria para continuar. Eu não conseguia dar o meu bebê na mão de um desconhecido. Pelo menos nos dois primeiros anos é essencial o contato entre mãe e filho. Depois menos, porque é necessário aprender a se separar, desprender-se do filho. Mas por que a maternidade não é valorizada? Justamente porque a nossa sociedade exalta apenas o masculino. Muita mulher, e acho que eu não tive isso porque havia acabado de fazer sucesso, fica agoniada em casa enquanto o mundo lá fora está girando. Porque o sinônimo do mundo é sucesso, poder e riqueza, enquanto o da maternidade é amor, carinho e espiritualidade. Senti que isso é um tema muito forte, porque o mundo inteiro é regrado pelas leis masculinas, que são machistas. Na verdade, o filme não é baseado em ninguém, mas em uma vontade de expor tudo isso. Foram vinte anos de pesquisa, laboratório e contribuição de muitas pessoas.

Assim como o personagem Fabinho, as memórias da primeira infância de muitas crianças brasileiras são das babás. Existe uma solução para isso?

O Brasil é isso. A minha babá, a Dagmar, veio para casa quando eu tinha sete anos. Mas, mesmo assim, eu consegui criar um vínculo forte com a minha mãe porque ela não trabalhava. Já a minha irmã menor, que tinha três anos, tem uma conexão muito mais forte com a Dagmar. Meu pai, por exemplo, não me deixava assistir televisão e, por isso, até hoje eu não tenho esse hábito. Em compensação, a minha irmã senta com o marido e os quatro filhos na frente do aparelho, em decorrência de uma herança que não veio dos meus pais. Eu já vi vários filhos de amigas minhas descer do quarto para dormir com a empregada. Esse é um debate que temos que abrir, mas não tem uma saída pronta. Outro dia, uma jornalista inglesa me perguntou no meio da entrevista o que eu achava que ela deveria fazer em relação à filha de sete meses. Obviamente, eu falei que não tinha uma fórmula. Mas se os pais, os homens, pegassem metade da responsabilidade não precisaria de nenhuma babá. O pai dos meus filhos ajudou no máximo 2%. Eu aguentei a responsabilidade dos outros 98%, além de continuar minha carreira no cinema. Nos países nórdicos, por exemplo, os homens ganham seis meses de licença paternidade. Se um homem limpa a bunda de uma criança é claro que ele se transforma, amadurece e cria uma relação de intimidade com o filho. Além disso, na Europa existem mais creches disponíveis. Aqui no Brasil, ou a mulher deixa o filho na casa da mãe ou doa para alguém. Essa é uma discussão muito importante porque a mulher nunca mais vai parar de trabalhar, “somos todas Jéssica”.

Existe uma grande dificuldade de se fazer cinema independente no Brasil e, consequentemente, de pautar questões mais complexas. Nesse caso, apesar da crítica social, ele foi distribuído pela Globo Filmes. Como se construiu essa relação?

Toda a cadeia do cinema entende que ele é um filme de arte. Até a própria Regina Casé já deu entrevista afirmando que não sabia se ele ia chegar ao grande público. O que caracteriza o blockbuster brasileiro é ser televiso. Um filme de sucesso não pode ter apenas a Regina, mas deve ser filmado com enquadramento, luz e superficialidade das novelas. A indústria, por entender que as pessoas procuram produtos com uma linguagem familiarizada, coloca dinheiro apenas nessas produções. O meu filme não tem nada disso. Em relação à Globo Filmes, o filme chegou pronto por lá. O chefe, Edson Pimentel, é apaixonado pelo filme e acreditou na sua potência. Não houve um grande dinheiro investido em publicidade, não estamos em ônibus, outdoor, etc. Estamos apenas no facebook e no boca a boca. A Globo Filmes está abrindo portas dentro da sua programação, mas, no fundo, este é um filme de guerrilha. Apesar de ter sido tratado como um filme de arte, a bilheteria está provando exatamente o contrário.

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O ator CAIO BLAT revela como a Globofilmes está destruindo o cinema nacional

Publicado originalmente por PAULO NOGUEIRA no portal DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO em 21.Ago.2013

Duas coisas são notáveis num vídeo em que o ator Caio Blat fala sobre o papel predador da Globofilmes no cinema brasileiro.

A primeira é o assalto perpetrado pela Globofilmes. A segunda é que, tornado público isso, nada tenha acontecido exceto uma retratação de Blat que lembra as confissões dos acusados de crimes contra o comunismo na década de 1930 na Rússia de Stálin. Era claramente isso ou o fim da carreira.

O órgão que deveria coibir ações nocivas de monopólios, o Cade, é simplesmente inoperante quando se trata da Globo.

Sintetizarei o golpe aqui, tal como narrado calmamente por Blat.

Se você não fecha um contrato com a Globofilmes para a distribuição do seu filme, as mídias da Globo se fecham para você.

Tevê, jornal, revistas, internet: pode esquecer no trabalho de divulgação.

Então você é forçado a fazer.

Aí a Globofilmes coloca você no Jô, no Serginho Groisman, no Vídeo Show etc.

Ótimo. O detalhe é que sua ida àqueles programas é cobrada como se fosse publicidade.

Mercham, o que é ainda mais caro que a propaganda convencional porque se trata de enganar o espectador.

Depois, a Globofilmes se “ressarce” do investimento fictício na bilheteria.

Ela investiu quanto? Zero. Qual o custo de encaixar um diretor ou ator de um filme num programa da própria Globo? Nenhum, se descontarmos coisas subjetivas como a conversa com Jô Soares, por exemplo.

Mas a fatura vem, como conta candidamente Blat. E pesada. Acontece o seguinte: quem ganha, essencialmente, é apenas a Globofilmes, ou a Globo.

Para produtores é um negócio cruel.

Há, neste história, uma terrível injustiça, um comportamento que é a negação do capitalismo que a Globo, à luz do sol, tanto prega para, nas sombras, fazer tudo para extorquir os que têm a infelicidade de viver sob seu monopólio deletério.

O poder da Globo de fazer coisas malévolas com tem que ser combatido, em nome do interesse público.

Há que quebrar um monopólio que acaba dando em coisas como a Globofilmes.

Não enfrentar esse drama nacional, como sucessivos governantes fizeram, incluídos Lula e Dilma, é uma ação de lesa pátria.


O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

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A Sociedade Industrial e o futuro da humanidade

O que pensar quando somos testemunhas de uma época na qual um economista, ex-membro da administração Reagan e ex-consultor do Ministério da Defesa dos Estados Unidos, afirma que “o Capitalismo Global está destruindo a raça humana”? Mais ainda, como não estranhar que tenha partido de um indivíduo com esse histórico uma frase como essa: “Fora as armas nucleares, o capitalismo é a maior ameaça que a humanidade já enfrentou. Ele levou a ganância a um patamar de força determinante da história“?

É justamente esse estranhamento que me faz retornar ao tema levantado no post anterior, no qual vimos o republicano Paul Craig Roberts fazendo tais afirmações. Quero voltar, mais especificamente, a um ponto abordado pelo artigo, que é a substituição da mão-de-obra humana pela robótica, na qual Roberts afirma que seus temores quanto a esse tema teriam partido da leitura de Ralph E. Gomory – membro da divisão de pesquisas matemáticas da IBM, desde 1959, onde atingiu o posto de Diretor de Pesquisas, no qual após 18 anos de trabalho somente nesse cargo, aposentou-se em 1989.

Como vimos, ao comparar os atuais bancos “privados” subsidiados nos Estados Unidos às indústrias publicamente subsidiadas de outrora, na Grã Bretanha, França, Itália e países comunistas, Craig Roberts afirmou em seu artigo que:

“(…) as empresas socializadas na Inglaterra e na França eram dirigidas mais eficientemente, e nunca ameaçavam as economias nacionais, menos ainda o mundo inteiro de ruína, como os bancos privados dos EUA, os “grande demais para quebrar” o fazem.  Os ingleses, franceses e os comunistas nunca tiveram 1 bilhão de dólares anuais, para salvar um punhado de empresas financeiras corruptas e incompetentes.

Isso só ocorre no “capitalismo de livre mercado”, em que capitalistas, com a aprovação da corrupta Suprema Corte dos EUA, pode comprar o governo, que os representa, e não o eleitorado. Assim, a tributação e o poder de criação de dinheiro do governo são usados para bancar poucas instituições financeiras às custas do resto do país. É isso o que significa “mercados autorregulados”.

Há muitos anos, Ralph Gomory alertou que os danos para os trabalhadores estadunidenses dos empregos no exterior seria superado pela robótica. Gomory me disse que a propriedade de patentes tecnológicas é altamente concentrada e que as inovações tornaram os robôs cada vez mais humanos em suas capacidades. Consequentemente, a perspectiva para o emprego humano é sombria”.

Essa perspectiva sombria a qual se referiu Roberts, foi rapidamente descrita por ele mesmo da seguinte maneira:

“Do modo como o mundo está organizado, sob poucos e imensamente poderosos e gananciosos interesses privados, a tecnologia nada fará pela humanidade. A tecnologia significa que os humanos não serão mais requeridos na força de trabalho e que os exércitos de robôs sem emoção tomarão o lugar dos exércitos humanos e não há qualquer remorso quanto a destruir os humanos que os desenvolveram. O quadro que emerge é mais ameaçador que as previsões de Alex Jones. Diante da pequena demanda por trabalho humano, muito poucos pensadores preveem que os ricos pretendem aniquilar a raça humana e viver num ambiente dentre poucos, servidos por seus robôs”.

Bill Joy, fundador da Sun Microsystems.

Tal visão distópica do futuro não é uma novidade e já havia sido trazido à baila por Bill Joy em artigo intitulado “Por que o futuro não precisa de nós”, publicado na revista Wired em sua edição 8.04 (abril 2000). Nesse texto, o fundador da Sun Microsystems falava do seu temor no futuro da humanidade a partir do desenvolvimento de três novas tecnologias que, por conta de seu grande potencial de replicação descontrolada, poderiam por um fim à humanidade: são elas a genética, a nanotecnologia e a robótica (GNR).

Sem entrar no mérito da discussão sobre essas tecnologias em específico, gostaria de destacar que logo no princípio de seu texto, Joy chama atenção para a passagem de um trecho de um longo manifesto, publicado em 1995 conjuntamente pelo The New York Times e o Washington Post. Antes de revelar o nome do autor desse manifesto e do contexto no qual ele foi lançado, Joy sugere que façamos a leitura do mesmo com especial atenção para a argumentação utilizada pelo autor. Seguindo a proposta de Joy, transcrevi abaixo o trecho desse manifesto no intuito de evidenciar como as imagens do futuro distópico apresentada no artigo de Paul Craig Roberts estão, embora ele não tenha mencionado, bastante alinhada às ideias divulgadas por esse manifesto.

O NOVO DESAFIO DO LUDISMO [1]

Primeiro, suponhamos que os cientistas da computação tenham conseguido criar máquinas inteligentes que façam tudo melhor que os seres humanos. Nesse caso, é de prever que todo o trabalho será realizado por sistemas enormes e muito bem organizados constituído de máquinas e que nenhum esforço humano será necessário. Deve ocorrer uma de duas possibilidades: ou as máquinas devem ter a permissão para tomar todas as decisões sem supervisão humana ou, o controle humano sobre as maquinas será preservado.

Caso se permita que as máquinas tomem decisões, não podemos conjeturar sobre os resultados, pois é impossível adivinhar como elas se comportarão. Apenas ressaltamos que o destino da humanidade estará à mercê das máquinas. Pode-se argumentar que a humanidade nunca seria tola a ponto de confiar todo o poder às máquinas. Contudo, não estamos  confirmando nem que a humanidade daria voluntariamente o poder às máquinas, nem que as máquinas tomariam o poder intencionalmente. O que afirmamos é que a humanidade se deixaria levar facilmente a tal dependência das máquinas que não lhe restaria opção senão a de aceitar todas as decisões delas. À medida que a sociedade e todos os problemas que ela enfrenta se tornam cada vez mais complexos, e as máquinas cada vez mais inteligentes, as pessoas deixarão as máquinas tomarem mais decisões simplesmente porque as decisões delas terão melhores resultados que as tomadas pelos seres humanos. Talvez se chegue a um estágio em que as decisões necessárias para manter o sistema em funcionamento venham a ser tão complexas que os seres humanos não tenham inteligência suficiente para tomá-las. Neste estágio, as máquinas terão o controle total. As pessoas não poderão simplesmente desligá-las, porque estarão tão dependentes delas que desligá-las seria o mesmo que se suicidar.

Imagem retirada do filme Eu, Robô.

Imagem retirada do filme Eu, Robô.

Por outro lado, é possível que o domínio humano sobre as máquinas seja mantido. Neste caso, o homem comum poderá controlar certas máquinas suas, como o carro ou o computador, mas o controle sobre o vasto sistemas de máquinas estará nas mãos de uma pequena elite – assim como é hoje, mas com duas diferenças. Em razão das técnicas aprimoradas, a elite dominará ainda mais as massas; e, como o trabalho humano não será mais necessário, as massas serão supérfluas, um fardo inútil para o sistema. Se a elite for impiedosa, ela poderá simplesmente decidir exterminar o grosso da humanidade. Se for humana, poderá utilizar propaganda ou outras técnicas psicológicas ou biológicas para reduzir a taxa de natalidade, até que a maioria da humanidade desapareça, deixando o mundo para a elite. Ou, se for constituída de liberais generosos, a elite poderá assumir o papel de tutora bondosa do resto da humanidade. Fará questão de satisfazer as necessidades físicas de todos, de criar todas as crianças em boas condições psicológicas, de proporcionar um passatempo saudável para que todos se mantenham ocupados e de submeter a “tratamento” todos os que possam ficar insatisfeitos a fim de curar os seus “problemas”. Obviamente, a vida se tornará tão despropositada que as pessoas precisarão ser refeitas biológica ou psicologicamente, para retirar-lhes a necessidade de poder, ou para fazê-las “sublimar” o desejo de poder com algum passatempo inofensivo. Esses seres humanos refeitos poderão ser felizes em tal sociedade, mas com toda a certeza, não serão livres. Terão sido reduzidos à condição de animais domésticos.


Transcrição de trecho do manifesto “A Sociedade Industrial e o seu futuro”, de Theodore Kaczinsky, retirado de Por que o futuro não precisa de nós”, de Bill Joy, publicado em Glenn Yefeth (org). A pílula vermelha: questões de ciência, filosofia e religião em Matrix. São Paulo: Publifolha, 2003, pp. 216-252.

Theodore Kaczinsky ainda jovem. Fonte: Wikimedia

Theodore Kaczynski, também conhecido como Unabomber, é um matemático estadunidense condenado à prisão perpétua pela prática de terrorismo, na qual matou tês pessoas e feriu outras vinte e três em uma série de atentados a bomba entre 1978 e 1995. Neste ano, enviou uma carta coagindo os jornais The New York Times e Washington Post a publicarem o manifesto “A Sociedade Industrial e o seu futuro”, no qual argumentou que seus atentados foram extremos, mas necessários para atrair a atenção para a erosão da liberdade humana exigido pelas tecnologias modernas que exigem organização em larga escala.

Para quem nunca (ou pouco) tinha pensado sobre o assunto, o cinema pode ser útil para que se tenha algumas percepções do quanto esse futuro distópico do qual se está falando está distante ou não. Muitos filmes trabalharam a questão da extinção da humanidade pelo desenvolvimento da tecnologia robótica, como os casos das franquias Exterminador do Futuro e Matrix, ou ainda, a versão para as telonas de Eu, Robô, por exemplo; outros tantos optaram por retratar, se não o fim dos tempos, uma importante mudança na forma de vida e organização da sociedade através do desenvolvimento da engenharia genética, como os casos de Gattaca, O Sexto Dia e A Ilha; poucos, no entanto, se enveredaram a trabalhar esse mesmo caminho através da nanotecnologia.  Portanto, diferentemente do que propôs Craig Roberts em seu artigo, a ficção científica (especialmente os livros) já tratam deste assunto há décadas.

Retornando à questão do início desse post, é realmente inquietante ver um republicano, ex-membro da administração Reagan, escrevendo artigos contra o capitalismo global e fazendo referências direta ao Manifesto do Unabomber (ainda que ele não tenha admitido). Por mais que saibamos que o indivíduo escreve em um contexto de crise econômica e para defender o poder do Estado que, diante do capitalismo global, perdeu muito espaço para as grandes corporações até mesmo nos Estados Unidos, é de se assustar, pois quando até mesmo os ratos, que tanto se fartaram do capitalismo, começam a abandonar o navio, é um sinal de que ele está realmente prestes a afundar. Adicione a isso os constantes avanços da tecnologia, especialmente nas áreas da robótica e engenharia genética e, como paranoia pouca é bobagem, também nos faz pensar as constantes mensagens dos grandes meios de comunicação de que o mundo não precisa de mais gente e de que já não é mais possível sustentar a vida no planeta da forma insana como estamos vivendo desde o começo do século XX. Obviamente, não sou ludita tanto quando Bill Joy, mas pensar nesse tema sempre me deixa preocupado e assustado com as perspectivas de futuro da humanidade. Mais ainda quando vejo homens como Paul Craig Roberts conjecturando o fim da “raça humana” por conta do desenvolvimento do capitalismo global. Mais temor ainda por estarmos sentado em um continente repleto de recursos que interessam enormemente essas grandes corporações. Talvez, esperar para ver o que vai ocorrer nos próximos anos já não seja mais uma opção. Diante de um cenário como esse, cabe pensar o que podemos fazer para evitar esse futuro distópico. Difícil missão, especialmente com oponentes tão poderosos.


[1] Ludismo, ou o movimento ludita, é o nome dado a um movimento ocorrido na Inglaterra entre os anos de 1811 e 1812, no qual trabalhadores das indústrias contrários aos avanços tecnológicos em curso, no contexto da primeira Revolução Industrial, protestavam contra a substituição da mão-de-obra humana por máquinas. O nome derivaria de um trabalhador chamado Ned Ludd, que teria quebrado as máquinas de seu patrão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • JOY, Bill. “Por que o futuro não precisa de nós”. In: YEFFETH, Glenn (org). A pílula vermelha: questões de ciência, filosofia e religião em Matrix. São Paulo: Publifolha, 2003, p. 216-252.
  • JOY, Bill. “Why the future does not need us”. In: Wired 8.04 (April, 2000).
  • HILLIS, Danny. “Test of time”. In: Wired 8.03 (March, 2000).
  • KACZINSKY, Theodore. A Sociedade Industrial e seu futuro. s/l. s/e, 1995.
  • KAUFFMAN, Stuart. “Self-replication, even peptides do it“. In: Nature, 382, p. 496 (August 8, 1996).
  • KURZWEIL, Ray.  A era das máquinas espirituais. São Paulo: Aleph, 2007, 512p.

ARTIGOS EM BLOG


NOTA DE ESCLARECIMENTO

Embora possa parecer óbvio, o autor desse blog não é ludita tampouco está fazendo apologia às práticas terroristas ou ao manifesto de Theodore Kaczinsky. Contudo, como afirmou Bill Joy em seu artigo, os tristes atos levados à cabo por Kaczinsky para dar visibilidade à suas ideias, não invalidam, por si, a argumentação utilizada no manifesto ou, se preferirmos, na passagem recortada para a discussão encetada nesse post.

Aliás, minha intenção ao criar esse post foi, movido pelo estranhamento causado pelo artigo de Paul Craig Roberts, evidenciar como algumas das ideias ali contidas estão, na verdade, diretamente relacionadas com o futuro distópico descrito por Kaczinsky no conhecido Manifesto Unabomber. Mais que isso, ao lembrar que essa discussão não é nova e que já era feita por Bill Joy desde o ano 2000 (em franco diálogo com os textos de Ray Kurzweil e Hans Moravec), busquei trazer ao leitor do Hum Historiador um referencial teórico sobre o assunto que ele talvez desconhecesse, no intuito de dar credibilidade às preocupações levantadas no post e, é claro, expor minha opinião diante do tema em discussão.

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O caso Hakani e as lições de Chinua Achebe: o mundo jamais parou de se despedaçar…

Neste mês de outubro, trechos de um documentário produzido em 2010 voltaram a circular vivamente nas redes sociais . Trata-se de trechos do documentário Hakani, de David Cunningham, produzido por uma organização estadunidense chamada Youth with a Mission, atuante no Brasil desde 1975 e mais conhecida aqui no Brasil pelo nome de Jocum.

Hakani foi produzido por um grupo de missionários protestantes que explorou a prática do infanticídio entre algumas tribos indígenas, não tão difundida entre os distintos grupos étnicos brasileiros, como instrumento para arrecadar fundos para a missão evangélica e aumentar a capacidade de disseminar sua crença religiosa na região, visando substituir não apenas esse aspecto da cultura dos grupos indígenas sob sua influência, mas praticamente toda a cultura ancestral dessas sociedades.

Ao deparar-me com tal notícia, foi impossível não recordar do livro magistral do nigeriano Chinua Achebe, O Mundo se Despedaça, publicado originalmente em 1958, e reeditado mais recentemente no Brasil pela Companhia das Letras (2009).

O objetivo desse post é, portanto, dar um pouco mais de detalhes sobre a repercussão do vídeo Hakani para, em seguida, destacar trechos da obra de Achebe visando promover uma reflexão sobre as culturas indígenas (a partir da cultura das tribos africanas) e de como esta última acabou substituída a partir da catequização promovida pelos missionários cristãos que, a partir da religião, introduziram os valores da cultura ocidental implementando nas localidades em que chegavam, além da própria instituição religiosa, as jurídico-administrativas.

O CASO HAKANI

O trecho do vídeo mostra índios enterrando crianças de sua própria tribo com problemas mentais ou físicos ainda vivas. As cenas mostram um índio adulto pegando uma criança, aparentemente portadora de uma deficiência física nas mãos, e atirando-a em uma vala recém-cavada. Após deixar a criança desacordada, o adulto joga terra sobre o corpo e o rosto da criança inconsciente até que ela esteja completamente enterrada.

O vídeo em questão trata-se de uma farsa. Hakani foi um filme produzido com indígenas de verdade, porém, pagos para atuarem no filme. Segundo o site do projeto Hakani, a terra utilizada para enterrar a criança que atuou no documentário é, na verdade, bolo de chocolate.

Foto: hakani.org

Embora o filme tenha sido encenado, a prática do infanticídio em comunidades indígenas ainda é uma realidade, cada vez menos comum, mais ainda realizada. O filme recebeu esse nome em função de uma pequena índio da tribo Suruwaha adotada por missionários evangélicos. Segundo os pais adotivos de Hakani, membros de sua própria tribo tentaram matá-la enterrando-a viva aos dois anos de idade, porque ela ainda não havia começado a andar e falar àquela época.

Apesar da afirmação da família, o jornal USA Today reportou que embora a família adotiva possua os registros hospitalares e fotos do estado debilitado de saúde na qual encontraram a garotinha, não há como verificar se o que dizem a respeito da tribo é verdade ou não.

Após adotar Hakani, a família decidiu juntar-se ao diretor David Cunningham para a produção do filme com o objetivo de recriar uma “tentativa de assassinato” de uma criança para ilustrar como o infanticídio é uma prática recorrente entre as tribos indígenas do Brasil.

Segundo noticiou o site e-farsas.com, o documentário foi exibido em diversas igrejas nos Estados Unidos para arrecadar fundos e chamar atenção para o infanticídio no Brasil. A Fundação Nacional do Índio (FUNAI), por sua vez, teria considerado “escusa” a origem do filme e teme a generalização inadequada de uma tradição indígena e garante que o assassinato de crianças com deficiência não é comum a todas as etnias. Mesmo entre as tribos que ainda tem esse costume, já existem alternativas de adoção das crianças doentes por outras famílias para evitar as mortes, afirma a fundação.

Ainda de acordo com a notícia do e-farsas.com, a ONG Survival International afirma que:

“Há décadas que os missionários evangélicos escondem seu trabalho, especialmente em lugares como América do Sul, que tem uma tradição católica muito forte. A Jocum foi expulsa de certas áreas do Brasil, mas continua lá ilegalmente.”

Banner do site hakani.org pede doação para instituição.

Banner do site hakani.org pede doação para instituição.

Essa mesma organização acusa o filme de ser “uma ferramenta feita para grupos cristãos evangélicos aumentarem a sua capacidade de espalhar a sua crença religiosa, apesar das preocupações do governo brasileiro sobre os seus métodos!”. A ONG afirma ainda que a questão do infanticídio amazônico tem sido distorcida e inflada e, por isso, as pessoas pensam que a matança de bebês é comum entre os índios, enquanto que na prática isso é raro de acontecer. Segundo a Survival International:

“enquanto que as tribos indígenas do Brasil estão sendo expulsas de suas terras ou mortas por fazendeiros, mineradores e madeireiros… A questão do infanticídio é apenas uma distração destrutiva”.

CHINUA ACHEBE: O MUNDO SE DESPEDAÇA

Chinua Achebe, autor nigeriano morto em março de 2013. Foto: AP/Axel Seidemann

Chinua Achebe, autor nigeriano morto em março de 2013. Foto: AP/Axel Seidemann

Neste livro, Achebe descreve como era a sociedade dos ibos, a economia, seus líderes e, como não poderia deixar de ser, suas crenças mitológicas. Descreve como eram os deuses, os rituais de purificação, as festas, a plantação, a colheita, as interdições, o casamento, os chefes espirituais e muitos outros aspectos da vida daquela tribo. Como analisa Lucas Deschain, o mundo descrito por Achebe era “um mundo em que a sociedade ibo ainda mantinha-se “intocada” pela colonização europeia, de modo que havia uma preservação muito forte e socialmente endossada das tradições dos antepassados. Aquele arranjo social e histórico, que era mantido por gerações e gerações, havia se estabelecido e se arraigado fortemente nos corações e nas mentes de seus habitantes e cultivadores”. Contudo, mais marcante para este post é a descrição que Achebe faz da chegada do “homem branco” tal como observada pelos ibos. De princípio, os brancos se disseminaram através dos missionários cristãos e suas tentativas de catequização dos indivíduos mais fracos, rejeitados por doenças e/ou proscritos da tribo por alguma violação dos costumes.

Abaixo destacamos alguns trechos de como Achebe descreve a cultura de uma das vilas do povo ibo, na Nigéria, e de como os grupos de missionários ingleses conseguiram se infiltrar no meio deles, disseminando sua fé e, aos poucos, transformando a cultura dos ibos.

O COSTUME DE ABANDONAR OS GÊMEOS NA FLORESTA À PRÓPRIA SORTE

Voltavam para a casa com as cestas dos inhames desenterrados de uma roça distante, na outra margem do rio, quando ouviram uma criança chorando na densa floresta. Fizera-se um súbito silêncio entre as mulheres que vinham a conversar, e elas apressaram o passo. Nwoye tinha ouvido contar que os gêmeos eram colocados em potes de barro e atirados bem longe, na floresta, mas nunca lhe acontecera de encontrá-los no caminho. (p. 81).

* * *

Obirieka era um homem que costumava refletir sobre as coisas. Após a vontade da deusa da terra ter sido cumprida, sentou-se em seu obi e pôs-se a lamentar a desgraça do amigo. Por que alguém deveria passar por tamanho sofrimento por causa de uma ofensa cometida inadvertidamente? Porém, embora pensasse longo tempo sobre isso, não encontrou resposta. Tais pensamentos o levaram a refletir sobre problemas ainda mais complexos. Lembrou-se dos filhos gêmeos que sua mulher tivera e que ele jogara no mato. Que crime eles tinham cometido? A terra decretava que os gêmeos constituíam uma ofensa ao mundo e que precisavam ser destruídos. E se, por acaso, a tribo não punisse rigorosamente qualquer ultraje à poderosa deusa, sua ira cairia sobre toda a região, e não apenas sobre o ofensor, pois, como diziam os anciãos, se um dedo estiver sujo de óleo, manchará os demais. (pp. 144-145).

A CHEGADA DO HOMEM BRANCO

– Durante a última estação de plantio, um homem branco apareceu na terra deles.

– Um albino – sugeriu Okokwo.

– Não, não era um albino. Era um homem completamente diferente. – Bebericou o vinho. – E chegou montado num cavalo de ferro. (p. 158).

* * *

– Mas tudo isso me deixou receoso. Todos nós temos ouvido histórias sobre homens brancos que fazem espingardas poderosas e bebidas fortes, e que levam escravos para longe, através dos mares; mas nunca nenhum de nós pensou que fossem histórias verdadeiras. (p. 161).

CHEGADA DOS MISSIONÁRIOS EM UMUÓFIA

Os missionários tinham chegado a Umuófia. Ali construíram uma igreja, lograram algumas conversões e já começavam a enviar catequistas às cidades e aldeias vizinhas. Isso constituía motivo de grande pesar para os líderes do clã, embora muitos deles acreditassem que aquela estranha fé, bem como o deus do homem branco, não durariam. (…) Chielo, a sacerdotisa de Agbala, chamara os convertidos de excrementos da tribo, e a nova fé, para ela, era um cachorro raivoso que viera devorar os excrementos. (p. 163).

CATEQUIZANDO OS IBOS

A essa altura, um velho disse que tinha uma pergunta a fazer:

– Qual é esse deus de vocês? – indagou. – É a deusa da terra? O deus do céu? Amadiora, o do trovão? Qual é, afinal?

O intérprete transmitiu a pergunta ao homem branco, que imediatamente deu sua resposta.

Todos os deuses que o senhor citou não são deuses de forma alguma. São, isto sim, falsas divindades, que lhes ordenam que matem seus semelhantes e destruam crianças inocentes. Só existe um Deus verdadeiro, e Ele possui a terra, o céu, o senhor, eu e todos nós.

– Se abandonarmos os nossos deuses e resolvermos seguir o seu – indagou outro ouvinte -, quem vai nos proteger contra a ira dos nossos deuses abandonados e dos nossos ancestrais?

– Os deuses de vocês não existem e, portanto, não lhes podem causar nenhum mal – retrucou o homem branco. – São meros pedaços de madeira e de pedra.

Quando essas declarações foram traduzidas para os homens de Mbanta, eles se puseram a rir. Esses sujeitos devem ser doidos, pensaram. Caso contrário, como poderiam acreditar que Ani e Amadiora fossem inofensivos? E que também o fossem Idemili e Ogwugwu? E, assim pensando, alguns homens começaram a ir embora.

Então, os missionários puseram-se a cantar. Era uma dessas músicas alegres e animadas dos evangelistas, que têm o poder de tocar certas cordas mudas e empoeiradas do coração dos ibos. (pp. 166-167).

A INSTALAÇÃO DE IGREJAS E A CRISTIANIZAÇÃO DOS IBOS

– Agora, nós já construímos uma igreja – dizia o sr. Kiaga, o intérprete, que havia tomado a seu cargo a nascente congregação. O homem branco voltara para Umuófia, onde estabelecera seu quartel-general e de onde fazia visitas regulares à congregação de Kiaga, em Mbanta.

– Agora que já temos a nossa igreja – dizia o sr. Kiaga –, queremos que todos vocês venham para cá, de sete em sete dias, adorar o verdadeiro Deus. (p. 171).

OS IBOS QUE SE REFUGIAVAM ENTRE OS MISSIONÁRIOS

O Mundo se Despedaça. Companhia das Letras (2009).

O Mundo se Despedaça. Companhia das Letras (2009).

(…) Nneka engravidara quatro vezes anteriormente, e quatro vezes dera à luz. Em cada uma dessas vezes tivera gêmeos, e as crianças tinham sido jogadas fora logo após o nascimento. Tanto o marido quanto a família dele já começavam a olhar a mulher com desagrado e estranheza, e não ficaram nem um pouco perturbados ao descobrirem que ela havia fugido para juntar-se aos cristãos. Livraram-se de boa. (p. 172).

* * *

O homem branco trouxera não apenas uma religião mas também um governo. Dizia-se que os missionários tinham construído um local de julgamento em Umuófia, a fim de proteger os prosélitos de sua religião. Dizia-se até mesmo que tinham enforcado um homem que matara um dos missionários. (…) Tais problemas tiveram início com a admissão de parias em seu seio.

Esses párias, ou osu, ao verem que a nova religião recebia gêmeos e outras abominações semelhantes, pensaram que também poderiam ser aceitos por ela. (…) Um osu era uma pessoa dedicada a um deus, uma coisa posta de lado – um tabu para sempre, assim como todos os filhos que viesse a ter. Jamais poderia se casar com um nascido-livre. Na realidade era um proscrito que vivia numa área especial da aldeia, próxima ao Grande Santuário. Aonde quer que fosse, levava em si a marca de sua casta marginalizada: cabelos longos, emaranhados e sujos. As navalhas eram-lhe proibidas. Um osu não podia assistir a uma assembleia dos nascidos-livres, e estes, por sua vez, jamais poderiam abrigar-se sob o teto de um osu. (…) Quando ele morria, era enterrado pelos de sua espécie na Floresta Maldita. Como poderia um homem semelhante tornar-se um dos prosélitos de Cristo?

– Ele precisa de Cristo muito mais do que você ou eu – retrucou o sr. Kiaga.

– Nesse caso, retornarei ao clã – declarou o convertido. E foi-se embora. O sr. Kiaga ficou firme, e foi essa sua firmeza que salvou a jovem igreja. Os convertidos hesitantes receberam inspiração e confiança dessa sua fé inquebrantável. (pp. 178-179).

* * *

[Após sete anos] não apenas os de baixa extração ou os proscritos tinham aderido à nova fé, mas também alguns homes de valor. Um exemplo era Ogbuefi Ugonna, que recebera dois títulos e que, num ato de loucura, cortara a tornozeleira de seus títulos e a jogara fora para se juntar aos cristãos. O missionário branco orgulhava-se muito dele, que fora um dos primeiros homens em Umuófia a receber o sacramento da Sagrada Comunhão, ou Sagrada Festa, como se dizia em ibo. (p. 196).

A REAÇÃO DOS PAIS QUANDO OS FILHOS ABANDONAVAM AS TRIBOS E SE RECOLHIAM NAS IGREJAS

Agora que tinha tido tempo para pensar no caso, o crime do filho destacava-se ainda mais em sua rematada enormidade. Ter abandonado os deuses do próprio pai e sair por aí com um bando de sujeitos efeminados, a cacarejarem como galinhas velhas, era atingir as profundezas da abominação. E se quando ele, Okonkwo, morresse, todos os seus filhos machos resolvessem seguir os passos de Nwoye e abandonassem os ancestrais? Okonkwo sentiu um calafrio diante de tão terrível probabilidade, probabilidade que, para ele, significava uma total aniquilação. Via-se a si próprio e a seu pai, juntos, no santuário dos antepassados, a esperarem inutilmente pelo culto ou pelos sacrifícios de seus descendentes, nada restando ali senão as cinzas do passado, enquanto seus filhos rezavam ao deus do homem branco. Se tal coisa acontecesse, ele, Okonkwo, os faria desaparecer da face terrestre. (p. 174).

O TEMOR DOS MAIS VELHOS PELO DESTINO DOS IBOS

(…) Mas temo por vocês, os jovens, porque vocês não compreendem como são fortes os laços de família. Não sabem o que é falar com uma só voz. E qual é o resultado disso? Uma religião abominável instalou-se entre vocês. De acordo com essa religião, um homem pode abandonar o pai e os irmãos. Pode blasfemar contra os deuses de seus pais e contra os antepassados, como se fosse um cachorro de caça que de repente ficasse louco e se voltasse contra o dono. Temo por vocês e temo pelo nosso clã. (p. 189).

A IMPOSSIBILIDADE DE EXPULSAR O HOMEM BRANCO DEPOIS DE ALGUNS ANOS

(…) Os antepassados deles jamais ousaram enfrentar os nossos ancestrais. Precisamos lutar contra aqueles homens e expulsá-los de nossa terra.

– Acho que agora é tarde demais – referiu Obierika, tristemente.  Nossos prórios canaradas e nossos filhos já se juntaram às fileiras do forasteiro. Adotaram a religião dele e ajudam a apoiar o seu governo. Não será difícil tentar expulsar os homens brancos de Umuófia, pois só há dois deles. Mas que dizer da nossa própria gente, que segue o mesmo caminho e a quem eles deram poder? Iriam a Umuru e trariam soldados, e aconteceria conosco o mesmo que aconteceu em Abame. – Fez uma longa pausa e, depois, continuou:  Penso que já lhe contei, em minha última visita a Mbanta, como foi que enforcaram Aneto.

– O que aconteceu, afinal, com aquele pedaço de terra em disputa?  perguntou Okwonkwo.

– A corte do homem branco decidiu que deverá pertencer à família de Nnama, que tem dado muito dinheiro aos funcionários e ao intérprete do homem branco.

– Por acaso o homem branco entende os nossos costumes no que diz respeito à terra?

– Como é que ele pode entender, se nem sequer fala a nossa língua? Mas declara que nossos costumes são ruins; e nossos próprios irmãos, que adotaram a religião dele, também declaram que nossos costumes não prestam. De que maneira você pensa que poderemos lutar, se nossos próprios irmãos se voltaram contra nós? O homem branco é muito esperto. Chegou calma e pacificamente com sua religião. Nós achamos graça nas bobagens deles e permitimos que ficasse em nossa terra. Agora, ele conquistou até nossos irmãos, e o nosso clã já não pode atuar como tal. Ele cortou com uma faca o que nos mantinha unidos, e nós nos despedaçamos. (p. 198).

A HISTÓRIA DE UMUÓFIA CONTADA POR UM DOS COMISSÁRIOS INGLESES

(…) Durante os muitos anos em que arduamente vinha lutando para trazer a civilização a diversas regiões da África, tinha aprendido várias coisas. Uma deles era que um comissário distrital jamais deveria presenciar cenas pouco dignas, como, por exemplo, o ato de cortar a corda de um enforcado. Se o fizesse, os nativos teriam uma pobre opinião dele. No livro que planejava escrever, daria ênfase a esse ponto. Enquanto percorria o caminho de volta ao tribunal, ia pensando em seu livro. Cada dia que passava trazia-lhe um novo material. A história desse homem que matara um guarda e depois se enforcara daria um trecho bem interessante. Talvez rendesse até mesmo um capítulo inteiro. Ou, talvez, não um capítulo inteiro, mas, pelo menos, um parágrafo bastante razoável. Havia tantas coisas mais a serem incluídos, que era preciso ter firmeza e eliminar os pormenores.

O comissário, depois de muito pensar, já havia escolhido o título do livro: A pacificação das tribos primitivas do Baixo Níger.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Prefiro deixar que os leitores façam suas próprias considerações finais [se é que chegaram até o fim do post] após comparar o caso Hakani com os trechos que destaquei do livro de Chinua Achebe. Acho que, de modo bastante claro, deixei minha opinião expressa no título deste post.

Entendo que  não é fácil posicionar-se em uma situação como esta, pois há, aqui, uma sobreposição [ou um choque] de valores fundamentais. Se acreditamos que a vida é um valor universal e, ao mesmo tempo, entendemos que devemos respeitar as culturas e tradições de outras sociedades, isto é, ter respeito pela alteridade cultural, como devemos nos posicionar diante de uma situação em que a cultura do outro, em algumas situações específicas, atentará contra a vida de alguns entes de seu próprio corpo social? Isso é ou não é de nossa conta? Devemos interferir? Se sim, o que nos leva a crer que nossos valores são superiores ao do outro? Não teremos nós, em nosso meio, costumes ou práticas tão abomináveis quanto essa? O preço que o outro deve pagar pelo azar de ter encontrado a nossa sociedade é a submissão de seus valores e a transformação absoluta dos mesmos pela assimilação dos nossos valores até um ponto onde a sua cultura ancestral vire apenas uma longínqua lembrança, traços e reminiscências, como o nome de uma praça, uma dança típica ou um prato de comida?

Quaisquer que sejam as respostas a essas perguntas, não creio que passem por um grupo de missionários evangélicos. Aliás, essa é a pior forma e a que trará maiores prejuízos aos Suruwahas. Tão ou mais violento que as mortes provocadas pelo infanticídio, é o maldito proselitismo cristão que, ao desrespeitar a alteridade cultural dos povos, transforma-os ao ponto de seus próprios membros não mais se reconhecerem como tal e, com o tempo e a catequização dos infantes, simplesmente deixarem de ter uma existência física.

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O documentário PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS acaba de ser lançado na íntegra no YouTube

É com grande prazer que o Hum Historiador anuncia o lançamento da íntegra do documentário PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS no YouTube para todos que quiserem acompanhar o trabalho que o Lucas Lespier, eu e uma equipe de grandes amigos realizamos para dar voz aos moradores da antiga comunidade do Pinheirinho, de São José dos Campos, que foi massacrada pela Polícia Militar de São Paulo à mando do governador Geraldo Alckmin.

O filme é de livre divulgação e gostaríamos muito que cada um pudesse ajudar a espalhá-lo para tornar a história das pessoas que foram desalojadas do Pinheirinho ainda mais conhecida.

SOBRE O FILME

Pinheirinho – um ano depois é um documentário que tem o objetivo de registrar como vivem as famílias que moravam na antiga comunidade do Pinheirinho um ano após a violenta reintegração de posse realizada pela Polícia Militar de São Paulo, em 22 de janeiro de 2012.

Através desse registro documental, queremos dar voz  às pessoas que viveram o trauma da desocupação para que contem suas histórias e relembrem à sociedade que elas seguem vivendo sob o risco de retornarem à condição de desabrigadas, além de permanecerem sem nenhuma perspectiva de solução definitiva para o seu problema de habitação após a desocupação.

Ilustração final do Pinheirinho um ano depois

Arte: Juliana Amoasei Reis

O filme tem como foco central os ex-moradores da comunidade do Pinheirinho e seus depoimentos de como tem sobrevivido desde que foram retirados de suas casas. No entanto, para darmos uma ideia mais aprofundada sobre o que ocorreu logo após a desocupação e quais as reais oportunidades de resolução definitiva do acesso à moradia adequada, também demos voz a outros atores que participaram ativamente de todo o processo de desocupação, como os políticos envolvidos nas negociações que antecederam a reintegração de posse, intelectuais e estudiosos da questão da habitação e moradia no Brasil, jornalistas que cobriram o caso, representantes de órgãos de proteção aos Direitos Humanos, líderes comunitários, advogados, juízes, defensoria pública, promotores de justiça.

BREVE HISTÓRICO DO DOCUMENTÁRIO PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS

Num domingo, às 6 horas da manhã, Alckmin manda a PM desocupar violentamente a comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos. Era o dia 22 de janeiro. Acompanhei as notícias estarrecido pela Internet, jornal e televisão. No mesmo dia estava na Avenida Paulista me manifestando contra esse ato criminoso realizado contra cidadãos que lutam pelo direito de uma moradia adequada.

Os dias foram se passando e eu ia registrando no blog todas as atividades que participei no decorrer daquele mês logo após a desocupação do Pinheirinho (ver histórico abaixo). O amigo Lucas Lespier já tinha uma ideia de fazer um documentário, ao ver meus relatos no blog, me chamou para conversarmos e ver se eu topava fazer parte de um projeto para documentar a história daquelas pessoas. Daí por diante, foram várias reuniões para decidirmos qual linha seguiria o filme e como o realizaríamos. A ideia principal era que o filme não seria sobre o que ocorreu no Pinheirinho, mas sobre as pessoas que foram desocupadas e ainda sofriam, por tempo indeterminado, a violência da desocupação iniciada na truculenta ação da Polícia Militar de São Paulo à mando do governador do estado.

Em julho de 2012, ocorreu uma ato na Câmara Municipal de São José dos Campos, sobre os seis meses da desocupação do Pinheirinho. Foi a oportunidade que imaginamos de fazer contatos com as lideranças da comunidade e tentar ajeitar as primeiras entrevistas com moradores e alguns outros envolvidos, como defensor público, advogado da comunidade e ex-procurador do estado de São Paulo. Foi assim que eu e Lucas partimos pela primeira vez a São José dos Campos, como mostra o pequeno vídeo amador que eu fiz abaixo, em um caminho que ainda seria trilhado tantas outras vezes pela equipe.

Feitos os contatos iniciais, precisávamos levantar a grana para a realização do documentário. Dentre as opções possíveis, decidimos pelo financiamento coletivo através do sistema de crowdfunding, no Brasil muito conhecido através da plataforma Catarse. Através desse sistema, cadastramos um projeto no site da plataforma por um tempo determinado e, todos aqueles que se interessarem, podem colaborar com qualquer quantia para a realização do projeto. Nossa meta era a captação de R$ 10.000,00 para realizarmos o filme praticamente inteiro com trabalho voluntário dos envolvidos. Abaixo segue o vídeo que fizemos para chamar colaboradores que se interessassem em contribuir com projeto.

Enquanto a grana não saía, começamos a realizar as primeiras entrevistas no final de julho de 2012 em São Paulo mesmo, para evitar grandes despesas. Começamos com a relatora da ONU para a moradia adequada e professora da FAU-USP, Raquel Rolnik. Foi uma ótima entrevista e, com base nela, começamos oficialmente nosso projeto.

Entrevistando o Suplicy

Foto: Jean Gold

Em agosto de 2012 já estávamos entrevistando algumas das personalidades que apareceram no filme, como o Senador Eduardo Suplicy.

Quando o projeto conseguiu atingir sua meta no Catarse, ficamos aliviados. Com o dinheiro foi possível comprar alguns equipamentos para poder fazer melhores entrevistas na realização do filme. Além disso, também seria possível pagar um lanche para a equipe que se deslocasse até São José dos Campos para as filmagens que duravam um dia inteiro.

Muitas entrevistas se sucederam até 22 de janeiro de 2013, data que marcaria o primeiro ano após a desocupação dos moradores do Pinheirinho e quando pretendíamos fazer as últimas gravações do documentário. Um ato foi marcado para ser realizado neste dia e lá estava nossa equipe fazendo as filmagens em diferentes locações e aproveitando para fazer mais contatos para garantir o lançamento do filme alguns meses depois em São José dos Campos e São Paulo.

Terminadas as filmagens, o filme entrou em período de edição, onde Lucas trabalhou muito para conseguir finalizar o filme com a qualidade que vocês podem verificar agora. O filme teve algumas exibições em pré-lançamento para verificarmos o resultado de como ficou a produção na tela-grande.

Assim, em homenagem aos moradores do Pinheirinho, a primeira projeção foi feita ao ar livre em São José dos Campos no Campão, local histórico de reunião dos moradores do Pinheirinho que fica no bairro do Campo dos Alemães, ao lado de onde era a comunidade que foi desocupada. Depois disso, tivemos uma pré-estréia no baixo-centro, também ao ar livre em São Paulo, e no Museu da Imagem e do Som, no MIS.

Agora o documentário está disponível na íntegra no YouTube para que todos possam acompanhar essa produção que começou há mais de um ano, que valeu muito esforço pessoal de cada um dos envolvidos, mas que nos enche de orgulho de ter participado.

Meu abraço carinhoso e sincero agradecimento à todos que participaram, em especial aos amigo Lucas Lespier, Felipe Gil, Patrícia Brandão e Juliana Lima.

Abaixo a foto do último dia de gravação que participei do filme, feita no começo de 2013, no escritório da revista Caros Amigos, quando entrevistávamos uma das jornalistas que cobriram o caso Pinheirinho para a revista.

Roger na CarosAmigos para PinheirinhoUmAnoDepois

POSTS NO HUM HISTORIADOR SOBRE O DOCUMENTÁRIO

Aqui segue uma relação de quatro posts que foram publicados no Hum Historiador referentes aos diferentes momentos em que estávamos produzindo o documentário.

Gostaria de lembrar que o projeto já foi concluído e, portanto, não há mais como colaborar com o mesmo. A relação dos posts abaixo é só para registrar o histórico do desenvolvimento do projeto.

POSTS NO HUM HISTORIADOR SOBRE O PINHEIRINHO

Abaixo segue uma relação de quinze posts publicados no Hum Historiador que tiveram como tema o Pinheirinho (em ordem decrescente de data de publicação). Os posts de janeiro e fevereiro de 2012 foram escritos no calor do momento e registram minha participação nos protestos e atividades de solidariedade aos antigos moradores do Pinheirinho. A partir de julho de 2012, nasce a ideia de fazer o documentário e há inclusive um post trazendo o primeiro vídeo amador que fizemos de nossa primeira ida a São José dos Campos para estabelecer os primeiros contatos.

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