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Discutindo a Fundação Ford (Parte 4/4)

Continuando a repercutir o texto do amigo e historiador Marcus Correia, publicado originalmente no portal Esquerda Online.

Abaixo a quarta e última parte do texto que discute a Fundação Ford. Para ler os posts anteriores, clique nos links abaixo:

DISCUTINDO A FUNDAÇÃO FORD (PARTE 4/4)
por Marcus Correia | publicado originalmente em 22 jan. 2017 | Esquerda Online

Dos anos 1970 aos dias atuais

Conforme a proposta das partes anteriores do artigo, o objetivo aqui não é o de elencar financiamentos da Fundação Ford pelo mundo, mas apontar as relações existentes entre os principais membros da entidade, os órgãos do governo dos Estados Unidos (incluindo a CIA, o Pentágono e o Departamento de Estado) e as transnacionais do país.

Nas últimas décadas, em razão de os recursos da Fundação Ford direcionarem-se ao financiamento dos chamados direitos humanos, a entidade passou a aparecer aos olhos dos mais crédulos como tendo cortado os vínculos que manteve com o establishment estadunidense durante a Guerra Fria. Tal percepção, ora ingênua ora oportunista, mostra-se completamente equivocada, pois é possível identificar a permanência desses vínculos até os dias atuais.

De acordo com o que foi exposto nas partes 2 e 3 do artigo, entre 1966 e 1979, o presidente da Fundação Ford foi McGeorge Bundy, que, entre outros cargos que ocupou, foi Assessor de Segurança Nacional dos presidentes John F. Kennedy e Lindon Johnson e cujas relações com a CIA consistiram em monitorar e formular algumas de suas ações no exterior. Seu irmão William Bundy também era funcionário da agência [1].

Quando, em 1979, Bundy deixou a presidência da Fundação, o cargo foi ocupado por Franklin Augustine Thomas.

Durante dez anos (1967-77), Franklin A. Thomas dirigiu a Bedford Stuyvesant Restoration Corporation, em Nova York, uma organização “beneficente”, fundada por ninguém menos que Robert F. Kennedy, irmão de John F. Kennedy, e pelo então prefeito da cidade, John Lindsay [2].

Em 1967, Franklin  A. Thomas foi convidado por Robert F. Kennedy para presidir a Bedford Stuyvesant Restoration Corporation, que contava com aportes financeiros da Fundação Ford, à época presidida por McGeorge Bundy [3].

As relações entre Robert F. Kennedy, a CIA e a máfia também são bastante conhecidas, a exemplo de várias operações coordenadas por ele para o assassinato de Fidel Castro [4]. Em 1968, Robert F. Kennedy foi assassinado, assim como o irmão John F. Kennedy havia sido cinco anos antes.

Franklin A. Thomas serviu na Força Aérea dos Estados Unidos entre 1956 e 1960, chegando à patente de capitão. Ele também foi diretor do setor jurídico do Departamento de Polícia de Nova York, entre 1965 e 1967, no conturbado contexto de luta por direitos civis nos EUA. Enquanto ocupava a presidência da Fundação Ford, Franklin A. Thomas foi do conselho de diretores do Citibank e de várias outras grandes empresas estadunidenses [5].

Franklin A. Thomas ficou na presidência da Fundação Ford até o ano de 1996, quando passou o cargo para Susan Berresford, uma alta funcionária da entidade desde a gestão de McGeorge Bundy. Ela ficará na presidência da Fundação até 2007. Susan Berresford, entre outros cargos que ocupou, foi do conselho do Chase Manhattan Bank, hoje controlado pelo JP Morgan.

Como Susan Berresford foi funcionária da Fundação Ford por mais de trinta anos, seu vínculo mais conhecido com empresas privadas dos EUA foi com o referido banco. Como presidente da Fundação Ford, abriu o primeiro escritório da entidade na Rússia em 1996. Em 2005, Berresford entrou na lista da revista Forbes como uma das cem mulheres mais poderosas do mundo. [6]

Em 2008, foi a vez de Luis Ubiñas presidir a Fundação Ford. Ubiñas trabalhou durante dezoito anos como diretor da McKinsey & Company, a maior empresa de consultoria de negócios do mundo. Sua área de especialidade na companhia era mídia e telecomunicações [7].

Não é, portanto, coincidência que um dos principais pilares de financiamento da Fundação Ford pelo globo atualmente seja a mídia dita alternativa e movimentos de ampliação do espectro de mídia nos países periféricos.

Em 2013, Luis Ubiñas passou a presidência da entidade para Darren Walker, que ocupa o cargo até hoje.

No mesmo ano em que Walker assumiu a presidência, um dos representantes da entidade no Brasil, quando foi questionado sobre as relações entre a Fundação e a política externa estadunidense durante a Guerra Fria, admitiu que “certamente ocorreram erros na história  [da entidade]” ! [8] E afirmou que atualmente a Fundação opera apenas com recursos próprios da família Ford e não recebe aportes de nenhuma outra instituição ou governo.[9]

O que ele não mencionou é que em alguma cristaleira da família Ford está guardada a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã nazista que o patrono Henry Ford ganhou de Adolf Hitler (Cf. Parte 1).

Porém, mesmo pressupondo que a Fundação não receba recursos de outros organismos públicos e privados e opere apenas com dotação orçamentária própria, isso não significa que na atualidade suas ações não sejam coordenadas com os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, com o Pentágono, com o Departamento de Estado e com as megatransnacionais do país.

Prova disso é a atividade do atual presidente da Fundação, Darren Walker, como membro do Council on Foreign Relations, o principal órgão privado de formulação de política externa para os Estados Unidos [10].

É possível afirmar que este think tank é o principal formulador da parceria entre as transnacionais do país, as fundações privadas ditas filantrópicas e o aparato militar-diplomático estadunidense na aplicação de uma política global que beneficie o centro do império capitalista.

Entre os membros atuais do conselho encontram-se quer republicanos quer democratas, bem como acadêmicos, militares, ex-altos funcionários do governo (Pentágono e Departamento de Defesa), presidente de grandes órgãos de comunicação (CNN, Fox News, Times Warner), jornalistas, empresários, ex-ministros, ex-presidentes dos Estados Unidos etc. O conselho reúne, de fato, os principais articuladores geopolíticos da burguesia internacional na atualidade.

Para se ter uma idéia, entre os muitos indivíduos do setor de inteligência dos Estados Unidos no Council on Foreign Relations, do qual o atual presidente da Fundação Ford faz parte, estão: os dois ex-diretores da CIA na administração Jimmy Carter: Frank Carlucci e Stansfield Turner; Robert M. Gates, ex-diretor da CIA na administração George H. W. Bush (pai) e ex-ministro da Defesa de George W. Bush e Barak Obama; Michael Hayden, ex-diretor da NSA na administração Bill Clinton e ex-diretor da CIA na administração George W. Bush; James Woolsey, ex-diretor da CIA na administração Bill Clinton; John Negroponte, ex-diretor de inteligência nacional da administração George W. Bush; Porter Gross, ex-diretor da CIA na administração George W. Bush; David Patreaus, ex-diretor da CIA na administração Obama.[11]

General Motors, Chevron, ExxonMobil, Ford Motor, Texaco, Citibank, IBM, Coca-Cola, Soros Fund Management, JP Morgan, Goldman Sachs são apenas alguns exemplos das megatransnacionais que subsidiam o conselho do qual participa Darren Walker, que antes de ocupar o cargo de presidente da Fundação Ford foi ainda alto executivo do Union Bank of Switzerland. [12]

O importante a ser observado aqui é que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, existe um vínculo ininterrupto entre o alto escalão da Fundação Ford, os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, o Pentágono e o Departamento de Estado, o complexo industrial-militar e grandes transnacionais. Ao contrário do que comumente se imagina, a política externa conjunta entre fundações privadas e o governo estadunidense ampliou-se a partir da década de 1970.

Um dos objetivos da utilização de ONGs e fundações privadas para a política externa dos EUA é desburocratizar e encobrir atividades de inteligência no exterior, como o financiamento de grupos locais cujas causas coincidam com os interesses estratégicos do império, seja na aquisição de novos mercados seja na desestabilização de governos ou regimes considerados “não-alinhados” seja para uma política soft de contrainsurgência.

Este último caso consiste em influenciar pessoas, por meio de ONGs e entidades filantrópicas, a se engajarem em “causas” liberais, supostamente progressistas, embora não anticapitalistas tampouco comunistas e, assim, promover protagonistas políticos de orientação política não-classista, eclipsando e dificultando a militância das organizações comunistas-marxistas.

Vale, por fim, reeditar aqui a pergunta feita no artigo Open Society: sociedade aberta para quem [13]: Deve a esquerda brasileira receber recursos financeiros oriundos de fundações, ONGs, empresários e financistas das principais potências estrangeiras para lutas políticas no Brasil, considerando ainda o histórico desses ignóbeis filantropos?


NOTAS:

  1. Sobre os irmãos Bundy, Cf.: MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974; E, BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.;
  2. Bedford Stuyvesant Restoration- History: https://www.restorationplaza.org/about/history  ; Franklin Augustine Thomas – Biography: http://biography.jrank.org/pages/2487/Thomas-Franklin.html
  3. Idem.
  4. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Idem, 2005.;
  5. Franklin Augustine Thomas – Biography: http://biography.jrank.org/pages/2487/Thomas-Franklin.html
  6. Revista Forbeshttp://www.forbes.com/lists/2005/11/YELG.html
  7. http://www.huffingtonpost.com/author/luis-ubi
  8. Nelson de Sá. Quem paga a conta? Observatório da Imprensa. http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/_ed762_quem_paga_a_conta/
  9. Idem.

10.Lista de membros do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/membership/roster.html

  1. Lista de membros do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/membership/roster.html
  2. Lista de membros comporativos do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/corporate/roster.html
  3. “Open Society”: sociedade aberta para quem? http://blog.esquerdaonline.com/?p=7704

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ANPUH: Carta aberta pela obrigatoriedade da História no Ensino Médio

CARTA ABERTA PELA OBRIGATORIEDADE DA HISTÓRIA NO ENSINO MÉDIO

A História, como disciplina escolar, integra o currículo do ensino brasileiro desde o século XIX. Sua presença, considerada fundamental para a formação da cidadania, foi gravemente ameaçada no período da Ditadura Militar, quando se deu a diluição da História na instituição dos Estudos Sociais.

A Medida Provisória nº 746/16, aprovada pelo Congresso Nacional, que instaura a Reforma do Ensino Médio, comete grave equívoco ao omitir do texto legal qualquer referência à disciplina, e, principalmente, ao excluí-la da relação de componentes curriculares obrigatórios, instalando fortes incertezas sobre a presença da História nesse nível de ensino.

Não menos preocupante é o rebaixamento das exigências para o exercício da profissão docente, ao permitir a admissão de “profissionais com notório saber”. Além disso, na prática, a Reforma do Ensino Médio está sendo subordinada a um documento (BNCC) que ainda não está concluído, cujo conteúdo final é desconhecido, e que está indicado como referência para a formação de professores.

Diante do exposto, a Associação Nacional de História – ANPUH-Brasil, contesta a aprovação da Reforma do Ensino Médio sem consultar a sociedade, em particular, os professores. E reivindica, com muita ênfase, a clara definição da História como componente curricular obrigatório no Ensino Médio.

Atenciosamente,

Diretoria da ANPUH Brasil

P.S.: Esta carta foi enviada ao Presidente da República, ao Chefe da Casa Civil, ao Ministro da Educação, à Secretária Executiva do Ministério da Educação e ao Secretário de Educação básica do Ministério da Educação.

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Discutindo a Fundação Ford (Parte 3/4)

Continuando a repercutir o texto do amigo e historiador Marcus Correia, publicado originalmente no portal Esquerda Online.

Abaixo a terceira parte (de quatro) do texto que discute a Fundação Ford. Para ler o post anterior, com as partes 1 e 2 do texto, clique aqui.

DISCUTINDO A FUNDAÇÃO FORD (PARTE 3/4)
por Marcus Correia | publicado originalmente em 22 dez. 2016 | Esquerda Online

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No Brasil

Depois da Revolução Cubana, a política externa estadunidense voltou-se mais atentamente para a América Latina e, em particular, para o Brasil. A pretexto de conter a ameaça comunista internacional, o Departamento de Estado, a CIA, o Pentágono e grandes corporações patrocinaram uma série de regimes militares sanguinários por todo o continente. Foi nesse contexto que a Fundação Ford passou a atuar como organização “filantrópica” no Brasil, em 1961, abrindo um escritório no país ano seguinte, mesmo período em que também o fez no Chile e no México.

Dois elementos que foram abordados nas partes anteriores do artigo merecem atenção aqui. O primeiro deles é o fato de, à época, a Fundação Ford deter a maior parte das ações da Ford Motor Company, diferente do que comumente se pensa (Cf. Parte 1). Em 1962, por exemplo, a Fundação Ford era proprietária de mais de 50% das ações das indústrias Ford e sua principal controladora [1]. O segundo elemento refere-se à relação desenvolvida no pós-Guerra entre a Fundação e os órgãos de inteligência dos Estados Unidos. Como já foi mencionado, depois da Segunda Guerra Mundial, a maior parte dos altos funcionários da entidade eram ou tinham sido agentes, tinham ligações com agentes ou trabalhavam em profunda conexão com os órgãos de inteligência, com o Departamento de Defesa, com o Departamento de Estado e com o complexo indutrial-militar privado dos Estados Unidos (Cf. Parte 2).

No Brasil, desde 1962, alguns executivos da Ford Motor do Brasil estiveram vinculados à conspiração civil-militar que levou ao golpe de Estado de 1964. Estavam ligados principalmente ao financiamento do chamado “complexo IPES/IBAD”, cujos recursos advinham, entre outras pessoas jurídicas, da Atlantic Community Development Group for Latin America (ADELA), da qual a Ford Motor era participante, e da American Chamber of Commerce, onde participavam vários diretores da Ford Motor do Brasil (Mario Bardella, Robert F. Carlson, Luiz B. Carneiro da Cunha, Joseph Radleigh Dent, H. H. Eichstaedt, John C. Goulden) [2]. Inclusive, em 1963, o Congresso brasileiro instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as atividades do IBAD no financiamento da campanha eleitoral anterior. O predidente da CPI foi o deputado federal Rubens Paiva.

Mas o principal nome vinculado à Ford Motor do Brasil com participação no golpe de 1964 foi Humberto Monteiro. Monteiro era membro-diretor da seção de São Paulo do IPES. Também integrava o Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Estado de São Paulo, da American Chamber of Commerce. [3] Monteiro foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Ademar de Barros e presidente da União Cultural Brasil-Estados Unidos. [4]

Logo após o golpe, em setembro de 1964, chegou ao Brasil, Peter Dexter Bell, um dos mais importantes representantes da Fundação Ford para a área internacional e responsável pela distribuição dos recursos da entidade no país. Antes de ocupar tal posto, Peter Bell havia estagiado na área de Relações de Segurança Internacional do Pentágono. Meses depois da sua chegada ao Brasil, no início de 1965, ele fez sua primeira visita a uma instituição de ensino superior, a Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Lá, foi recebido com a explosão de uma bomba, detonada por estudantes a fim de que ele “mantivesse distância”. [5]

É importante relembrar (Cf. Parte 2) que, em 1964, McGeorge Bundy, que assumiria a presidência da Fundação Ford dois anos depois, era Assessor de Segurança Nacional do presidente Lyndon Johnson e uma das suas prerrogativas era monitorar e assessorar as atividades da CIA ao redor do mundo. McGeorge Bundy compôs, também em 1964, um comitê especial da Casa Branca, junto com outros membros do governo e das agências de inteligência, a fim de determinarem ações clandestinas no Chile para auxiliar na eleição de Eduardo Frei.[6] É provável também que, ocupando o cargo, tenha sido um dos formuladores da parceria golpista para o Brasil.

Na mesma época, o irmão de McGeorge, William Bundy, compunha o Comitê Nacional de Avaliação da CIA. Os irmãos Bundy são ainda apontados como os formuladores de falsos pretextos apresentados ao Congresso dos Estados Unidos para justificar a escalada militar do país na Guerra do Vietnã a partir de 1964. [7] McGeorge ficará na presidência da Fundação Ford entre 1966 e 1979, período de maior influência da entidade no Brasil. Portanto, Peter Bell foi o principal representante, no Brasil e na América Latina, da administração de McGeorge Bundy na Fundação Ford.

Seguindo as diretrizes de internacionalização da Fundação, formuladas por Horace Rowan Gaither Jr. depois da Segunda Guerra Mundial (Cf. Parte 2), a principal atividade de Peter Bell no Brasil era promover o financiamento de atividades nos campos social, acadêmico e cultural. No pós-guerra, uma série de colaborações diplomático-empresariais foram firmadas entre o Brasil e os Estados Unidos. Duas delas foram a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico, criada em 1951, e ligada ao Ponto IV do Plano Marshall [8] e, em 1961, a Aliança para o Progresso. Ambas as parcerias, no entanto, destinavam-se sobretudo ao campo econômico-industrial. Logo, na estratégia da política externa dos Estados Unidos, um dos papéis a ser cumprido pela Fundação Ford no Brasil seria o de atuar em áreas que as iniciativas anteriores não abrangiam e essa foi a atuação de Bell.

Peter Bell ficou no Brasil entre 1964 e 1969 e ele próprio narra que encontrou-se com agentes da CIA por aqui, a pedido do embaixador dos Estados Unidos, a fim de conversarem sobre os financiamentos promovidos pela Fundação Ford. [9]

Em março de 1968, o presidente Arthur da Costa e Silva solicitou ao Congresso uma autorização, em caráter especial, para que a Fundação Ford fosse considerada de “utilidade pública”, o que era uma prerrogativa apenas de entidades nacionais. Na exposição de motivos formulada pelo ministro da Justiça, Luis Antônio da Gama e Silva justifica-se para tal medida em “face aos relevantes serviços prestados pela entidade através da realização de intenso programa social objetivando o bem estar humano…” [10]. Em junho, o Senado aprovou a solicitação do general.

Seis meses depois dessa aprovação, tanto Costa e Silva, como o professor e ex-reitor da USP, Gama e Silva, foram signatários do Ato Institucional n. 5 (AI-5), expressando a preocupação de ambos com o “bem estar humano” no país, promovendo expurgos, torturas, assassinatos, perseguições e toda a sorte de barbárie contra a população organizada contra o regime.

Em 1 de julho de 1969, na esteira do AI-5, foi criada a Operação Bandeirantes e a Ford Motor Co., cuja maior acionista era a Fundação Ford, tornou-se uma das suas principais financiadoras [11]. O intuito central da operação era o extermínio dos militantes comunistas do país. A Ford Motor Co. dispendeu recursos também para a criação dos DOI-CODI, conforme, entre outras fontes, o depoimento à Comissão da Verdade do ex-agente da repressão Merival Chaves, do setor de inteligência do Exército [12]. É desnecessário mencionar aqui as atrocidades perpetradas pelo órgão contra os revolucionários brasileiros do período.

Entre as muitas iniciativas “filantrópicas” da Fundação Ford no Brasil, a mais conhecida foram os recursos que, também em 1969, a entidade destinou à criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), cujo principal pesquisador veio posteriormente a ser presidente do país, o procônsul do império Fernando Henrique Cardoso. O centro foi fundado por professores que haviam sido demitidos da universidade em razão do AI-5 e, no primeiro momento, a embaixada dos Estados Unidos e a CIA no Brasil, talvez um pouco desinformados, viram com preocupação o auxílio da Fundação Ford. Porém, segundo o próprio Peter Bell, depois que ele se reuniu com um agente da CIA no país, a preocupação se desfez e a entidade destinou recursos à criação do centro de pesquisa. [13]

Em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo em 2012, Peter Bell afirmou, com toda razão: “No contexto do período, entendo que alguns brasileiros possam ter desconfiado de mim.” [14]

Conforme o processo de abertura política no país a partir de meados dos anos 1970, a Fundação Ford foi “camaleonicamente” adaptando-se ao novo ambiente e sua nova linha de atuação passou a ser os chamados “direitos humanos”. A quarta e última parte do artigo irá abordar alguns fatos relevantes da história da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais. É possível afirmar que também nesse período a promoção do “bem estar humano” e dos “direitos humanos” foi mais uma vez apenas uma cobertura na defesa dos interesses do imperialismo yankee.

NOTAS

[1] – O Estado de S. Paulo, 9 de março 1962

[2] – DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classes. Rio de Janeiro: Vozes, 1981.

[3] Idem.

[4] – O Estado de S. Paulo,

[5] – CANEDO, Leticia Bicalho. A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos.https://leticiabcanedo.wordpress.com/2016/04/25/a-fundacao-ford-e-as-ciencias-sociais-no-brasil-o-papel-dos-program-officers-e-dos-beneficiarios-brasileiros-para-a-construcao-de-novos-modelos-cientificos/ e Entrevista com Peter Bell. O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012.http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221

[6] – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 259, 318, 772 ; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974.

[7] – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op.cit. p. 259, 318, 772.

[8] – CANEDO, Leticia Bicalho. Op. cit.

[9] – Entrevista com Peter Bell, em O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012.http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221

[10] – O Estado de S. Paulo, 23 mar. 1968

[11] – BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório. Brasília: CNV, 2014. Vol. 1. e Vol. 2.

[12] – Comissão Nacional da Verdade. Tomada pública de depoimento de agentes da repressão: Merival Chaves. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pKcnTDCcDuw (a partir dos 21 minutos)

[13] – CANEDO, Leticia Bicalho. A Fundação Ford e as Ciências Sociais no Brasil: o papel dos program officers e dos beneficiários brasileiros para a construção de novos modelos científicos.https://leticiabcanedo.wordpress.com/2016/04/25/a-fundacao-ford-e-as-ciencias-sociais-no-brasil-o-papel-dos-program-officers-e-dos-beneficiarios-brasileiros-para-a-construcao-de-novos-modelos-cientificos/ ; E Entrevista com Peter Bell, em O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012.http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221

[14] – Entrevista com Peter Bell, em O Estado de S. Paulo, 16 set. 2012.http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,para-os-eua-brasil-era-campo-de-batalha-na-guerra-fria-imp-,931221

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Discutindo a Fundação Ford

Repercutindo aqui no Hum Historiador o texto indispensável do amigo, e também historiador, Marcus Correia, que acaba de ser censurado pelo Facebook. Simplesmente, sem mais nem menos, os posts que estavam circulando amplamente por aquela rede social foram excluídos.

Sem mais delongas, seguem as Partes I e II do texto que foram originalmente publicadas no site Esquerda Online em 10 e 13 de dezembro de 2016, respectivamente.

DISCUTINDO A FUNDAÇÃO FORD (PARTES 1 e 2 de 4)
por Marcus Correia

PARTE I

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É espantoso como entidades, ONGs, ativistas e pesquisadores no Brasil, identificados com a esquerda, em sentido amplo, ainda hoje permanecem recebendo recursos da Fundação Ford, mesmo diante de tantas informações e pesquisas disponíveis a propósito da estreita relação existente entre essa entidade, a política externa dos Estados Unidos e seus órgãos de inteligência.

Pressupondo que a razão para esse aparente paradoxo político decorra apenas de um profundo desconhecimento de fatos básicos da história dessa instituição, este artigo procura reunir alguns desses fatos, a maior parte deles recolhidos de importantes trabalhos já publicados.

O artigo apresenta-se dividido em quatro partes: a primeira aborda os primeiros anos da Fundação, do período que vai da sua criação no ano de 1936 até o término da Segunda Guerra Mundial em 1945; a segunda parte se debruça sobre o período entre o início da chamada Guerra Fria até os anos de 1960; a terceira traz fatos a respeito da atuação da Fundação Ford no Brasil, sobretudo, durante a ditadura militar; a quarta parte aborda as atividades da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais.

Cabe observar que, nesse delicado momento atual do país, é cada vez mais relevante que se avolumem discussões sobre o imperialismo, uma vez que, ao que consta, o Brasil não é o centro do capitalismo global e está mais sujeito às suas intempéries do que parece a muitos analistas da esquerda autóctone. E aqueles que não concordarem com essa breve história da Fundação Ford, que contem outra mais idílica.

As origens: de 1936 a 1945
Em uma cerimônia solene ocorrida na cidade de Dearborn, em Michigan, nos Estados Unidos, no dia 30 de julho de 1938, o cônsul da Alemanha acreditado em Cleveland, Karl Krapp, e seu congênere em Detroit, Fritz Heller, presentearam o industrial estadunidense Henry Ford pelo dia do seu aniversário. A pedido do führer, ofereceram-lhe a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã (Großkreuz des Deutschen Adlerordens). Essa alta condecoração do Estado alemão havia sido criada no ano anterior por Adolf Hitler com o intuito de homenagear estrangeiros que desfrutavam da sua admiração. Outros dois indivíduos que receberam a referida medalha honorífica foram Benito Mussolini e o espanhol Francisco Franco.

Adolf Hitler há muito manifestava uma forte simpatia por Henry Ford e manteve uma foto dele em seu escritório em Munique. No início dos anos 1920, Henry Ford escreveu execráveis escritos antisemitas, os panfletos The International Jews: The World`s Problem, transformados ulteriormente em livro e que inspiraram o líder nazista na sua perseguição implacável aos judeus na Europa. Traduzidos para a língua alemã, os escritos de Ford tiveram ampla circulação nos meios nazistas antes de 1933. Por essa razão, a primeira edição de Mein Kampf Hitler, dedicou a Henry Ford.

Afora as concepções lunáticas da existência de uma conspiração judaico-comunista internacional contra a qual ambos lutavam, a admiração de Hitler por Henry Ford advinha também dos métodos de racionalização industrial. Essa racionalização serviria como exemplo tanto ao modelo industrial do Reich, como ao sistema, igualmente fabril, de extermínio bárbaro de milhões de pessoas em campos de concentração, a exemplo de Auschwitz, Sobibor e Treblinka.

Desde os anos 1920, Ford vinha contribuindo com o financiamento do Partido Nacional-Socialista na Alemanha e enviava de 10 a 20 mil marcos alemães como presente de aniversário para Adolf Hitler todos os anos, até 1944. [1]

Nos Estados Unidos, Henry Ford manteve um sistema conhecido pelos críticos como a “Gestapo de Ford”, o que também lhe rendeu o apelido dado pelo New York Times, em 1928, de “Mussolini do Highland Park” [2].

Ford, além de perseguir e reprimir sindicalistas, organizou um sistema de vigilância e controle da vida privada de seus funcionários, por meio da criação de um Departamento de Sociologia da Ford Motor Company. Tal órgão procurava intervir nos aspectos privados dos trabalhadores das fábricas, como moradia, alimentação, lazer e modo de vida. Ford até mesmo contratou um ex-pugilista que serviu como “fiscalizador” do serviço privado de repressão política e social aos trabalhadores da Ford em Dearborn e que lhes fazia visitas inesperadas em seus lares. [3]

A condecoração de Henry Ford com o maior título honorífico dado a estrangeiros pelo governo nazista nada mais foi do que um reconhecimento inter pares. Dois anos antes, no início de 1936, Edsel Ford, filho de Henry Ford e então presidente da Ford Motor Company anunciou a criação da Fundação Ford, que tinha por objetivo dispender recursos “à caridade, à educação e à ciência”. Mas, de fato, a criação da fundação filantrópica familiar servia a interesses econômicos muito claros aos contemporâneos.

Em 1934, um grupo de empresários, banqueiros e oficiais militares estadunidenses patrocinaram uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Franklin D. Roosevelt, golpe esse que visava à instauração de um regime filofascista nos Estados Unidos.[4]

Malfadada a tentativa de golpe contra Roosevelt e no contexto econômico do New Deal, em 1935, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Revenue Act, uma espécie de taxação de grandes fortunas que chegava à casa dos 70%. [5]

O maior prejudicado com a nova legislação seria justamente a multimilionária família Ford. Para dissimular do fisco a cobrança dos novos impostos foi, portanto, criada a Fundação Ford, transferindo-se, assim, 90% das ações da Ford Motor Co. pertecentes à família para a nova entidade “filantrópica”.

Desde então, diferentemente do que se pensa, a Fundação Ford tornou-se a proprietária da Ford Motor Company. [6]

Os três únicos diretores da Fundação Ford no período eram Edsel Ford, presidente da Ford Motor Co. e igualmente presidente da Fundação; Bert J. Craig, secretário e tesoureiro da Ford Motor Co; e Clifford Longley, advogado da Ford Motor Co.

Pressionada pelo governo a dar, então, início a qualquer atividade filantrópica de relevo, a Fundação Ford anunciou, em dezembro de 1937, a doação de um terreno em Dearborn, Michigan, EUA, para a construção de quatro mil “moradias modelo” para operários locais. A Ford doou o terreno e o projeto, enquanto a construção ficaria a cargo de outros empresários que tivessem interesse no empreendimento.

Originalmente anunciado como filantropia a operários, pelos baixos custos de aluguel ou venda, logo o projeto foi desconfigurado, tornando-se um empreendimento imobiliário de mais alto padrão, com centro de negócios, escolas, clínicas médicas, lojas, entre outros. De acordo com uma matéria da época, a iniciativa passou a beneficiar trabalhadores de “white collar”, conforme a expressão do jornal [7].

Essa foi a única iniciativa “filantrópica” da entidade que teve ampla repercussão antes de 1945. O real interesse por trás da criação da Fundação, i.e., dissimular a fortuna familiar adquirida ao longo dos anos de exploração da classe trabalhadora pela Ford Motor Co., fez com que ela permanecesse inexpressiva nas suas ações “humanitárias” durante os primeiros dez anos de existência.

Já na Europa, a Ford Motor Co. mantinha fortes investimentos econômicos desde os anos 1920. Em particular, na Inglaterra e na Alemanha. Neste último, encontrou certas dificuldades decorrentes da ascensão do nacionalismo de ultra-direita no país, uma vez que parte da população sabotava a compra de produtos de empresas estrangeiras. Mesmo assim, a relação com o governo nazista que ascendeu em 1933 era mais amena e a Ford fabricou um terço dos caminhões do exército nazista, por exemplo, e dobrou de tamanho na Alemanha entre 1939 e 1945 [8].

Entre 1941 e 1945, a subsidiária da Ford Motor Co. em Colônia, na Alemanha, a FordWerke, utilizou, inclusive, trabalho escravo de presos estrangeiros e judeus, oriundos da Europa Oriental, da União Soviética, da Itália e da França [9].

Esses são alguns poucos e relevantes fatos do período de origem da Fundação Ford. Frente à oposição política que a família Ford mantinha ao governo de Franklin D. Roosevelt, até o final da II Guerra, a Fundação não atuou em parceria com o governo dos Estados Unidos. E suas atividades de caridade restringiam-se a poucas iniciativas em Michigan. A relação estreita com o Departamento de Estado e os órgãos de inteligência estadunidenses passaria a ocorrer a partir do início da chamada Guerra Fria.

NOTAS DA PARTE I:
1 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Desordem Mundial: o espectro da total dominação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. p. 44-46
2 – SAGER, Geshe. Henry Ford und die Nazis – Der Diktator von Detroit. Spiegel Online, 29, jul. 2008. 
3 – Idem.
4 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op. cit. p. 44-46
5 – CHAVES, Wanderson da Silva. O Brasil e a recriação da questão racial no pós-guerra: um percurso através da história da Fundação Ford. Tese (Doutorado). Programa de Pós Graduação em História Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011. p. 26-27
6 – Idem. p. 26-27
7 – De La Crosse Tribune, La Crosse, Winconsin, EUA, 6 jul. 1939.
8 – LIMA, Cláudia de Castro. Os aliados ocultos de Hitler. Revista Super Interessante.
9- REICH, Simon. Tha Nazi Party: Ford Motor Company and the Third Reich. Jewish Virtual Library. A própria Ford Motor Co. em 1998 abriu um amplo processo de investigação interna sobre a conduta da sua subsidiária na Alemanha, provocada por processos legais de sobreviventes do Holocausto que foram movidos contra a empresa por haverem trabalhado como escravos na FordWerke.


PARTE II

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Pós-Guerra e Guerra Fria: de 1945 aos anos 1960

Com o término da Segunda Guerra Mundial, grandes empresários e financistas estadunidenses, muitos dos quais haviam apoiado a ascensão do nazi-fascismo na Europa, bem como muitos quadros técnicos do partido nazista alemão, passaram a colaborar com os Estados Unidos num esforço pela hegemonia global e pelo combate à expansão do comunismo. Entre os frustrados com a derrota nazi-fascista encontrava-se a família Ford, que passaria então a atuar junto à política externa dos Estados Unidos a fim de justificar a série de isenções de impostos que obtivera com a criação da sua fundação “filantrópica” em 1936.

Em 1943, porém, faleceu Edsel Ford, o primeiro presidente da Fundação e presidente da Ford Motor Co. O patrono, Henry Ford, faleceu quatro anos depois, em 1947. Por esta razão, as presidências da Fundação Ford e da Ford Motor Co. ficaram a cargo do filho de Edsel, Henry Ford II. Ele é quem vai reestruturar a Fundação Ford, fazendo com que a entidade passasse a atuar na política internacional, como ocorre ainda hoje.

O intuito aqui não é o de enumerar as diversas atividades e financiamentos promovidos pela Fundação Ford ao longo dos anos, porque isso excederia muito os objetivos desse artigo, não havendo, ademais, um levantamento exaustivo dessas atividades. Optou-se apenas pela apresentação de dados dos principais indivíduos que compuseram o staff da Fundação Ford, destacando suas relações com o aparato estatal dos Estados Unidos e seu complexo industrial-militar-acadêmico.

A partir de 1947, no contexto do lançamento da Doutrina Truman, a Fundação Ford passou por uma reestruturação que, em razão da sua expansão à atuação internacional, necessitava operar em parceria com o Departamento de Estado e os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, como com a recém-fundada Agência Central de Inteligência, a CIA.

Essas novas diretrizes da entidade foram elaboradas por um conjunto de indivíduos, entre os quais o então presidente da entidade, Henry Ford II, Ernest Kanzler, antigo executivo da Ford Motor Co.,Donald K. David, da Harvard Business School, e Karl T.Compton, presidente do Massachusetts Institute of Technology. Mas, o principal formulador da perspectiva de internacionalização da Fundação foi Horace Rowan Gaither Jr.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Donald David e Karl Compton eram elementos de ligação entre a industria armamentista e as pesquisas acadêmicas nos Estados Unidos [1]. Já Horace Rowan Gaither Jr. era um executivo de corporações privadas ligadas ao Departamento de Defesa e ao Exército dos Estados Unidos, como a RAND Corporation e MITRE Corporation [2].

O primeiro presidente da Fundação, fora dos quadros de diretores da Ford Motor Co.,foi Paul G. Hoffmann. Entre 1948 e 1950, Paul Hoffmann havia sido diretor-chefe da Administração de Cooperação Econômica, organismo que administrava o Plano Marshall na Europa depois da Guerra [3]. No período em que ocupou a presidência da Fundação Ford, apareceram as primeiras denúncias da relação entre a entidade e atividades clandestinas do serviço secreto estadunidense no exterior.

Em dezembro de 1951, por exemplo, o presidente Harry Truman nomeou como embaixador na União Soviética George F. Kennan. Kennan era um especialista em política soviética e foi o formulador da política de “contenção” do comunismo. Em 1944, Kennan já havia composto a embaixada dos Estados Unidos em Moscou. Quando retornou aos Estados Unidos, em 1946, ocupou cargo no Colégio de Guerra e no Departamento de Estado. Entre 1949 e 1950, Kennan “licenciou-se” das suas funções públicas, passando a trabalhar para a Fundação Ford, no seu Fundo do Oriente Europeu para o Entedimento Internacional.

Quando foi novamente nomeado ao cargo de embaixador em Moscou no final do ano de 1951, o Pravda, órgão oficial de imprensa soviética, denunciou Kennan como sendo o responsável pela distribuição de fundos da Fundação Ford para auxiliar “organizações anti-soviéticas” [4]. A nota dizia ainda que o objetivo de tais doações era o de “fomentar atividades clandestinas” no país [5].

Em 1952, com a campanha presidencial do ex-comandante supremo das Forças Aliadas na Europa e ex-comandante supremo da OTAN, o general Dwight Eisenhower, Paul Hoffmann fundou, e igualmente presidiu, a Liga dos Cidadãos Favoráveis a Eisenhower. No mesmo ano, Hoffman trouxe para a Fundação Ford ninguém menos que Richard Bissel, chefe do serviço clandestino da CIA [6] e que havia trabalhado com ele na administração do Plano Marshall. Como membro da agência de inteligência, Richard Bissel era muito próximo de Allen Dulles, que, com a administração Eisenhower, tornou-se o diretor geral da CIA. Bissel recebeu o convite de Dulles para ser seu principal assistente na agência em 1954 e deixou a Ford. [7] Na Fundação, Bissel obteve o auxílio de Allen Dulles e outros altos oficiais colegas seus da CIA na formulação de várias ações da Fundação Ford pelo mundo [8].

Também em 1953, ingressou na Fundação Ford, Frank Lindsay, antigo veterano do OSS – Office of Strategic Service (órgão precursor da CIA). Como Bissel, Lindsay foi um dos primeiros formuladores, em 1947, de técnicas de operações encobertas do serviço secreto dos Estados Unidos. Lindsay foi levado para a Fundação Ford por um de seus diretores, Waldemar Nielsen, também um agente da CIA [9].

Em 1954, foi empossado o novo presidente da Fundação Ford: John McCloy. Antes de ocupar esse cargo, McCloy havia sido Secretário Assistente do Ministério da Guerra dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Depois do conflito, foi Alto Comissário da Alemanha ocupada, foi presidente do Banco Mundial e presidente do Chase Manhattan Bank, pertencente à família Rockefeller. Além de ser diretor de grandes corporações, McCloy foi advogado em Wall Street, representando nessa posição as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos. Como Alto Comissário da Alemanha ocupada, trabalhou junto com os órgãos de inteligência dos Estados Unidos na Europa no final da Segunda Guerra Mundial, período em que vários quadros técnicos do nazismo passaram a trabalhar para os Estados Unidos [10].

Em 1953, com John McCloy a frente da Fundação Ford, Shepard Stone também ingressou na instituição na área de Relações Internacionais. Shepard Stone havia trabalhado com McCloy como assessor de relações públicas no período em que o segundo fora alto comissário da ocupação da Alemanha depois da Guerra e, depois de ter “recusado” ocupar um cargo na área de operações psicológicas (psy-ops) na CIA, passou a trabalhar para a Fundação Ford [11].

O presidente seguinte da Fundação Ford foi Horace Rowan Gaither Jr. Além de ter sido o responsável pela formulação das diretrizes que estabeleceram o vínculo entre a entidade e o aparato estatal estadunidense em 1947, uma ação sua que vale menção foi que, em novembro de 1957, o presidente Eisenhower encarregou um grupo de cientistas para um estudo, altamente sigiloso, a respeito de possíveis ataques nucleares da União Soviética contra os Estados Unidos. Foi encarregado da presidência do grupo de pesquisadores justamente Horace Rowan Gaither Jr, [12].

O relatório final do grupo, apresentado ao Conselho Nacional de Segurança e ao Departamento de Defesa, previa que, sob risco de uma ameaça nuclear soviética, era necessário um forte aumento dos gastos militares pelos próximos treze anos, ou seja, até 1970, [13], o que fortaleceu a posição do complexo industrial-militar e, em particular, da indústria bélica.

Nesse mesmo ano em que Horace Rowan Gaither Jr. ocupava a presidência da Fundação Ford, em fevereiro, o ministro das Relações Exteriores da União Soviética, Dmitri Shepilov, havia apresentado uma nota à imprensa internacional em Moscou em que denunciava que “organismos oficiais do governo dos Estados Unidos desenvolvem atividades subversivas e de espionagem, sob o disfarce de toda sorte de comissões, fundações e instituições particulares”. A nota citava como cobertura do serviço secreto a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller e a Fundação Carnegie. A nota ainda dizia que a chamada “libertação das democracias populares” havia se convertido na “pedra fundamental da política exterior norte-americana” [14]

Depois de H. Rowan Gaither Jr. o presidente da Fundação Ford foi Henry T. Heald, que ficará no cargo até 1965. Não existem muitos dados a respeito da sua relação com o aparato estatal e de inteligência dos Estados Unidos, apenas que era um indivíduo igualmente vinculado ao chamado complexo industrial-militar-acadêmico estadunidense, uma vez que, entre 1940 e 1952, presidiu o Illinois Institute of Technology [15]. Mas é lícito afirmar que essa relação não deixou de acontecer durante sua administração como presidente da Fundação, a exemplo da atuação da entidade no Brasil desde 1961, como se verá na próxima parte do artigo.

Em 1966, McGeorge Bundy tornou-se presidente da Fundação Ford, ficando no cargo até 1979.Imediatamente antes de ocupar a presidência da Fundação Ford, McGeorge foi Assistente de Segurança Nacional dos presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson, cargo que,entre outras funções, tinha como prerrogativa o monitoramento das atividades da CIA.

Bundy também havia trabalhado na organização do Plano Marshall e, posteriormente, como reconhecido intelectual de política exterior nos meios conservadores nos Estados Unidos, a ele e ao irmão também é atribuída a formulação de falsos pretextos que justificaram ao Congresso a escalada militar do país na Guerra do Vietnã em 1964 [17].

No mesmo ano, McGeorge Bundy compôs um comitê do governo para formular ações encobertas no Chile para a eleição de Eduardo Frei.[18]. Seu irmão, William Bundy, era membro do Conselho de Avaliação Nacional da CIA e genro do antigo secretário de Estado Dean Achenson [19].

Os dados aqui apresentados são apenas breves exemplos. O fato é que a maior parte dos funcionários de alto escalão da Fundação Ford entre 1945 e 1979 eram ou tinham sido agentes, tinham ligações com agentes ou trabalhavam em profunda conexão com a CIA, com o Pentágono, com o Departamento de Estado e com o alto escalão do complexo indutrial-militar privado dos Estados Unidos. Essas redes de relações do poder imperialista foram estabelecidas durante a Segunda Guerra Mundial e, no pós-Guerra e na Guerra Fria, estenderam-se e aprofundaram-se em decorrência da disputa contra a União Soviética por hegemonia global.

Conforme aponta ainda Frances Stonor Saunders, um dos intuitos principais que movia a relação orgânica entre a Fundação Ford, a CIA e o Departamento de Estado era livrar-se de eventuais embaraços na política interna dos Estados Unidos em relação a ações de inteligência no exterior. As fundações, em particular, a Fundação Ford, e outras entidades privadas, desburocratizavam ações sigilosas (na maioria das vezes ilegais) em outros países, sobretudo, na área cultural e de operações psicológicas (psy-ops), uma vez que não precisavam prestar contas das suas ações ao Congresso do país.

NOTAS DA PARTE II:

1– CHAVES, Wanderson da Silva. O Brasil e a recriação da questão racial no pós-guerra: um percurso através da história da Fundação Ford. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em História Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011. p. 28

2 – CHAVES, Wanderson da Silva. Idem.p.28 ;História da RAND Corporation no seu sítio eletrônico.

3 – O Estado de S. Paulo, 18 mar. 1952

4 – O Estado de S. Paulo, 28 dez. 1951

5 – Jornal do Brasil, 28 dez. 1951, p. 7.

6 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 655 ; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974. Este último livro traz muitas informações sobre Bissel.

7 – STONOR, Francis Saunders. The Cultural Cold War: the CIA and the world of arts and letters. New York/London: The New Press, 1967.

8 – STONOR, Francis Saunders. Op. Cit. ; PETRAS, James. The Ford Foundation and the CIA. Rebellion, 5 dez. 2001.

9 – STONOR, Francis Saunders. Op. cit. p. 119

10–Biografia de John McCloy no sítio eletrônico do Bando Mundial; PETRAS, James. The Ford Foundation and the CIA. Rebellion, 5 dez. 2001; STONOR, Francis Saunders. Op. cit. p. 120.

11–; STONOR, Francis Saunders. Op. cit. p.120

12 – O Estado de S. Paulo, 27 nov. 1957, p. 2

13 – O Estado de S. Paulo, 21 dez. 1957, p.5

14 – O Estado de S. Paulo, 7 de fev. 1957, p. 2

15 – Henry T Heald

16 – BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz.Op. cit. p. 270,318, 772.

17 – MARCHETTI, Victor & MARKS, John D.Op. Cit. Este livro traz muitas referências sobre os irmãos Bundy.

18 – STONOR, Francis Saunders. Op. Cit. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op. Cit.; MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974

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O GLOBO pede fim do ensino superior gratuito

Em editorial publicado neste domingo (24), O Globo pede o fim do ensino superior gratuito no Brasil. Embora não seja surpresa que tal instituição defenda a privatização das universidades públicas, uma vez que ela já demonstrou, em diversas oportunidades, estar sempre na contramão do interesse público, do acesso democrático às instituições e da democracia, em si, como já tivemos oportunidade de escrever neste blog (O Globo saúda Golpe Militar; Globofilmes destrói cinema nacional; Globo manipula dados na cobertura das eleições venezuelanas), o destaque é a maneira cruel e covarde como ela argumenta pela extinção do ensino superior gratuito.

Segundo o texto, o que justificaria o fim do ensino superior gratuito é a sua “injustiça” e o gatilho que está dando oportunidade ao governo golpista de Michel “Fora” Temer privatizá-lo é a crise, como indica o título do editorial. O argumento principal do editorialista é que a maior parte das vagas das universidades públicas é, atualmente, ocupada pelos alunos de renda mais alta, enquanto aos pobres restam apenas pagar pelas universidades privadas. A crueldade e a covardia do editorial está justamente no fato de O Globo usar uma injustiça cometida contra as camadas mais pobres da sociedade, alijadas desde sempre do ensino superior brasileiro, não para reparar a injustiça, mas para mantê-la e fazer retroceder as recentes conquistas que pobres, pretos e índios tiveram dentro do espaço universitário, antes restrito apenas a um grupo social (com raríssimas exceções).

O argumento, evidentemente, não é novo. Frequentemente o vejo na boca da classe média para justificar a privatização e, com isso, o fim das cotas sociais e raciais. Mais e pior que isso, o tenho visto cotidianamente em minha vida institucional universitária dentro da Universidade de São Paulo (que caminha a largos passos para a privatização daquele espaço público de excelência) e, também, na imprensa paulista, sobretudo na Folha de S. Paulo, que dia sim, outro também, publica uma notícia enviesada no intuito de justificar a privatização das universidades públicas.

Não raro, Folha de S. Paulo, Globo, Band e outros veículos de mídia, juntamente com o poder estadual (que há mais de 20 anos tenta encampar a privatização), criaram a imagem de uma universidade pública sucateada que não serve para mais nada além de gastar dinheiro público. Evidentemente, trata-se de uma grande mentira. A verdade é que, apesar dos constantes ataques da mídia e do Estado, que tem, sim, buscado sucatear a universidade pública, justamente para se livrar dela e dos hospitais universitários, tais instituições tem mantido seu padrão de excelência graças aos esforços sobre-humanos de muitos de seus funcionários, professores e alunos. Se hoje, universidades como USP, Unicamp, Unesp, UFF, UFMG, UFOP, UFRGS, UnB e tantas outras conseguem se manter como referências mundiais, nacionais e regionais em diferentes áreas do conhecimento, é por conta dessas pessoas.

Como bem disse o professor Renato Janine Ribeiro, ao comentar o malfadado editorial em sua página de uma rede social:

A USP recebe o mesmo porcentual do ICMS paulista desde a década de 1980, e neste tempo criou novos campi, novas faculdades, aumentou muito o número de alunos, deu saltos de qualidade científica e tudo o mais. Sua pior gestão foi a de um reitor nomeado pelo governador José Serra, contra a vontade da maioria dos votantes na universidade. Não representava as forças vivas da USP.

Em suma, o que O Globo reproduz aqui é justamente o que temos visto em São Paulo há muitos anos. Se no princípio usa a crise como justificativa para agora se realizar o antigo projeto de privatizar o ensino superior, logo abaixo afirma que, mesmo se a economia vier a se recuperar, seria necessário “reformar o Estado” para não recorrer a aumento de impostos (não deixa de ser cômico, se não fosse trágico, a grande sonegadora Globo falando de não querer mais pagar impostos). E é assim, pateticamente reclamando contra o pagamento dos impostos que ela costuma não pagar, que as Organizações Globo introduz seu argumento sem nenhum pudor: “[…] para combater uma crise nunca vista (?) necessita-se de ideias nunca aplicadas. Nesse sentido, porque não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito”.

Quem lê o editorial percebe claramente que a discussão não passa pelo acesso das camadas populares ao ensino de qualidade (seja o superior ou o fundamental e médio, que é justamente onde está o problema), mas sim pela questão fiscal. Desta forma, a injustiça social é mera desculpa à qual a O Globo recorre em seu editorial, a fim de pretensamente colocar-se em defesa dos interesses da população, quando na verdade encampa uma luta contra o uso dos impostos para financiar o acesso das camadas populares à universidade superior de qualidade. A estes, se tiverem interesse, que vão pedir bolsas nas universidades privadas, pois segundo O Globo, trata-se de um sistema que funciona bem ao redor do mundo (sobre o assunto, ver o que o documentário Torre de Marfim, do cineasta estadunidense Andrew Rossi, tem a dizer sobre o sistema educacional dos Estados Unidos da América, epítome de um modelo que os plutocratas brasileiros querem adotar e, segundo o editorialista de O Globo, funciona muito bem).

Novamente lembramos a postagem do professor Janine Ribeiro, para quem:

Cobrar anuidade dos alunos com mais dinheiro parece justo, mas penso que seria bem melhor aumentar o imposto de renda das pessoas que ganham mais dinheiro. Assim, façam ou não (eles e seus filhos) a universidade, pagarão mais. E serão então estimulados a cursar o ensino superior, o que só lhes fará bem, pessoal e profissionalmente. Deve-se tributar a renda, é melhor do que cobrar pela educação (não se cobra aquilo que você quer incentivar!)

Abaixo reproduzimos a postagem que nos chamou atenção a mais esse ataque ao ensino e ao povo brasileiro, perpetrado por defensores de oligopólio, bem como à manutenção da profunda desigualdade social que cliva o Brasil desde seu nascimento até os dias que correm, por uma elite que pouco mudou nas últimas décadas, como bem apontou a historiadora Maria Aparecida de Aquino.

EDITORIAL DO GLOBO PEDE FIM DO ENSINO SUPERIOR GRATUITO NO BRASIL

publicado originalmente na Revista Forum em 24 de julho de 2016

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Por Redação (da Revista Fórum)

Em editorial publicado neste domingo (24), o jornal O Globo defende o fim do ensino superior gratuito no Brasil como uma forma de equilibrar as contas públicas.

“Por que não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito, também um mecanismo de injustiça social? Pagará quem puder, receberá bolsa quem não tiver condições para tal. Funciona assim, e bem, no ensino privado. E em países avançados, com muito mais centros de excelência universitária que o Brasil”, diz o texto.

“O momento é oportuno para se debater a sério o ensino superior público pago. Até porque é entre os mecanismos do Estado concentradores de renda que está a universidade pública gratuita. Pois ela favorece apenas os ricos, de melhor formação educacional, donos das primeiras colocações nos vestibulares”, continua.

“Já o pobre, com formação educacional mais frágil, precisa pagar a faculdade privada, onde o ensino, salvo exceções, é de mais baixa qualidade. Assim, completa-se uma gritante injustiça social, nunca denunciada por sindicatos de servidores e centros acadêmicos”, conclui.

Para ler o editorial na íntegra, clique aqui.

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[MILTON SANTOS] Ser negro no Brasil

Cristiano das Neves Bodart foi um dos muitos alunos que fez graduação em Geografia e que teve a oportunidade de cursar uma disciplina com o saudoso professor Milton Santos. O que faz dele especial para estarmos mencionando-o aqui é que. ao mexer em seus pertences da graduação, Cristiano encontrou uma fita contendo a gravação de uma palestra do professor Milton Santos na qual ele trata, brevemente, a questão de como é ser negro no Brasil.

Após ter encontrado a fita, Cristiano Bodart logo transcreveu seu conteúdo que, em seguida, foi publicado no portal Café com Sociologia. Por seu ineditismo e por abordar reflexões sobre diversas temáticas tratadas neste blog, entendi que valeria a pena repercutir o texto no Hum Historiador. Espero que aproveitem!

COMO É SER NEGRO NO BRASIL
por Milton Santos | publicado no portal Café com Sociologia em Fev.2016

Eu tive a sorte de ser negro em pelo menos quatro continentes e em cada um desses é diferente ser negro e; é diferente ser negro no Brasil. Evidente que a história de cada um de nós tem um papel haver com a maneira como cada um age como indivíduo, mas a maneira como a sociedade se organiza é que dá as condições objetivas para que a situação possa ser tratada analiticamente permitindo o consequente, um posterior tratamento político. Porque a política para ser eficaz depende de uma atividade acadêmica… acadêmica eficaz! A política funciona assim! A questão negra não escapa a essa condição. Ela é complicada porque os negros sempre foram tratados de forma muito ambígua. Essa ambiguidade com que a questão foi sempre tratada é o fato de que o brasileiro tem enorme dificuldade de exprimir o que ele realmente pensa da questão.

O professor Florestan Fernandes e o professor Otavio Ianni, escreveram, ambos, que os brasileiro, de um modo geral, não tem vergonha de ser racista, mas tem vergonha de se dizer racista. E acho que isso é algo permanente das relações inter-étnicas no Brasil e que traz uma dificuldade de aproximação da questão e da análise, inclusive dos próprios negros, que podem se deixar possuir por uma forma de reação puramente emocional diante da questão, dentro do problema, quando é necessário buscar, analisar, a condição do negro dentro da formação social brasileira. Porque a política não se faz no mundo, não é no mundo que dita as regras da política que se faz em cada país. E não é o outro continente. Não é o olhar para a África que vai ajudar na produção de uma política brasileira para o negro, nem um olhar para os Estados Unidos que vai também permitir essa produção de uma política. É o estudo do negro dentro da sociedade brasileira. É evidente que esse estudo passa pela categoria que se chama “formação socioeconômica”, a qual eu modifiquei propondo a categoria de “formação socioespacial”, porque eu creio que o território tem um papel muito grande na compreensão do que é uma nação.

A formação socioeconômica tem relações com todo o mundo. É evidente que o aporte africano no Brasil vai ter um papel na compreensão com o que se passa no Brasil, como o aporte europeu e hoje o aporte estadunidense. Mas isso resulta numa produção que se chama “o Brasil”. É nele que eu quero estar como brasileiro integral! É nele que devemos estar, todos, independente da nossas origens étnicas, como brasileiros integrais, sem sermos olhados vesgamente em função de nossa, repito, origem étnica. Por conseguinte é esse tipo de aproximação que eu privilegio naquilo que faço, e faço pouco porque não sou um especialista da questão negra. Eu sou apenas um negro a mais no Brasil que tem uma experiência de ser negro, mas que não sou especialista da questão negra. O meu trabalho, como todo mundo sabe, é outro, eu me especializei em outra coisa, é a minha história, mas não sou indiferente a essa questão, longe disto. Creio que as contribuições teóricas que por ventura tenha elaborado para o entendimento da sociedade possa ser de alguma valia no tratamento da questão do negro no Brasil; que não será resolvido se os negros forem sozinhos na luta. A luta dos negros só pode ter eficácia se envolver todos os brasileiros, inclusive os negros, mas não só os negros. Não cabe aos negros, aliás, fazer essa luta. Essa luta tem que ser feita sobretudo por todos. Creio que essa etapa seguinte, a de reclamar de todos que participem; e não só em um dia ou uma semana. Eu não tenho simpatia por treze de maio e nem semana do mês de novembro, porque tenho uma enorme dificuldade em aceitar que o país celebre uma semana, celebre um dia e os resto dos 357 dias se descuide da questão. Eu creio que é importante que haja esses dias no sentido de mobilização. Só que a mobilização não é obrigatoriamente aquilo que produz a consciência. Com frequência a mobilização cria um elã emocional e o que permite uma luta continuada é a produção da consciência que não pode ser, digamos, obtida em um dia, treze de maio, uma semana, semana da consciência negra, por que não é questão de consciência negra, é questão de consciência nacional; o negro sabe perfeitamente a sua situação. É por isso que eu me recuso a vir em reuniões como essa, ou quando me convidam na imprensa ou na televisão, a ficar choramingando, “ah nós somos assim, somos acolá, nós estamos em baixo”. Todo mundo sabe disso, então vamos usar o tempo para outro tipo de preocupação.

Inclusive como estava dizendo a meu colega da Bahia, da gloriosa universidade da Bahia, onde ele foi aluno do meu filho, o que para mim é uma grande satisfação intelectual e moral, que a questão passa por aí, da questão do negro brasileiro, porque assim que me intitulo, eu sou um negro brasileiro, não quero ser outra coisa se não um negro brasileiro, mas quero ser um brasileiro integral. A luta que tem que ser feita passa por criar uma consciência nacional e não por, digamos, nos limitarmos à produção de uma consciência negra, porque os negros já estão cansados de saber qual é sua condição na sociedade. Para isso é necessário preparar outro discurso.

Eu estou muito mal satisfeito com maior parte dos discursos dos movimentos negros porque são repetitivos esses discursos, são pobres e não são mobilizadores realmente, exceto para choramingas. De que adianta continuar dizendo que os negros ganham menos no mercado de trabalho? Muito pouco! Todo mundo já sabe disso. Com pequenas variações é a mesma coisa sempre. De que adianta sair dizendo que há um preconceito aberto ou larvar? Todo mundo sabe disso, inclusive aqueles que cometem sabem que estão fazendo preconceito; muitos não sabem. Ai entra o papel de outro discurso, que é o discurso da conscientização a partir de novas palavras de ordem.

Por exemplo, peço desculpa por falar de mim mesmo, mas quando nessa entrevista que tive o prazer de dar ao Roberto D’Ávila que me perguntou a respeito do ressentimento dos negros em relação a sociedade branca. Eu disse, não, ao contrário, são os brancos que têm o ressentimento com relação aos negros que conseguem ascender socialmente, que já era um ensaio de produzir um outro discurso. Eu não vou aceitar discutir que os negros tem ressentimento por uma razão muito simples: porque o nosso ressentimento, se existe, ele não é eficaz, ele não tem o poder! O ressentimento que tem eficácia é o de quem tem poder. Então quando eu falo que é o branco que tem ressentimento, e tem, em relação ao negro que triunfa, não digo o branco em geral, mas um bonito grupo de pessoas brancas (bonito no sentido de grande). É para exatamente reverter o discurso. É um exemplo de, como creio haveria que, digamos assim, trabalhar nessa coisa do discurso que acho muito importante, inclusive para a recriação daquilo que repetem com muita frequência, a questão da autoestima.

A autoestima ela pode ser parcialmente enfrentada a partir de outro discurso também. É por isso que, por exemplo, não perdoo o governo federal e aos governos estaduais. É que não ponham seus recursos jornalísticos a disposição da produção do discurso da autoestima, o que não custaria muito, mas que tem que ver com a condição de nosso tempo, que tem que ser analisada para entender o que está se passando e propor outra coisa. Eu paro por aqui e fico à sua disposição!


Palestra proferida pelo professor Milton Santos e transcrita por Cristiano das Neves Bodart a partir de um audio que guardava desde a época que cursava a graduação. Infelizmente não sabemos onde foi proferida essa palestra.


O Jornal GGN, do Luís Nassif, também publicou a transcrição da palestra e, mais do que isso, localizou um vídeo contendo essa fala do professor Milton Santos, a qual também repercuto abaixo com os leitores do Hum Historiador.

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O significado de Raízes do Brasil, por Antônio Cândido

Navegando pela internet encontrei um blog chamado Resumo da Obra que traz uma preciosidade que gostaria de compartilhar por aqui com meus leitores. Trata-se de um resumo do famoso prefácio que Antônio Cândido escreveu para a obra seminal Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Nele, além de sintetizar os capítulos da obra e compará-la com outras sínteses explicativas do país produzidas na época, como Casa Grande & Senzala e Formação do Brasil Contemporâneo, Antônio Cândido vai além e explica o significado de Raízes do Brasil. Certamente essa é uma das razões pela qual o prefácio ficou tão clássico quanto o próprio livro.

A quem possa interessar, transcrevo a íntegra do post a seguir:

AntonioCandido

O SIGNIFICADO DE RAÍZES DO BRASIL
por Antônio Cândido

Raizes do BrasilEm meados do século XX, três livros levaram uma geração a refletir e se interessar pelo Brasil, obras que pareciam exprimir a mentalidade ligada ao “sopro” de radicalismo intelectual e análise social impulsionado após a Revolução de 1930.

A anticonvencional composição extremamente livre e franca de Casa Grande e Senzala, como no tratamento dado à vida sexual do patriarcalismo, e a importância decisiva atribuída ao escravo na formação do modo de ser do brasileiro causou forte impacto na época. Informações e dados que ensejavam noções e pontos de vistas inovadores no Brasil de então. Entretanto, a preocupação do autor com problemas de fundo biológico (raça, aspectos sexuais da vida familiar, equilíbrio ecológico alimentação) dialogava com o naturalismo dos velhos intérpretes da nossa sociedade, como Sílvio Romero,Euclides da Cunha e Oliveira Vianna.

Três anos depois aparecia Raízes do Brasil. Livro curto, de poucas citações, mas que, entre outras influências, fornecia indicações importantes para compreenderem o sentido de certas posições políticas daquele momento, em que se se buscava soluções novas, fosse à direita, no integralismo, fosse à esquerda, no socialismo e no comunismo.

Seis anos depois do livro de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. lançava Formação do Brasil Contemporâneo. Interpretação do passado em função das realidades básicas da produção, da distribuição e do consumo. Nele, o autor afasta-se do ensaísmo (marcante nos outros dois livros), prioriza dados e argumentos em detrimento de categorias qualitativas como “feudalismo” ou “família patriarcal”. O materialismo histórico aparecia como forma de captação e ordenação do real, desligado do compromisso partidário ou desígnio prático imediatista.

No pensamento latino-americano, a reflexão sobre a realidade social foi marcada pelo senso dos contrastes e mesmo dos contrários – apresentados como condições antagônicas em função das quais se ordena a história dos homens e das instituições. “Civilização e barbárie” formam o arcabouço do Facundo e de Os Sertões. O pensamento do autor não foge a esse modelo, se constitui pela abordagem dialética de conceitos polares, não como se eles fossem mutuamente excludentes. A visão de um determinado aspecto da realidade histórica é obtida pelo enfoque simultâneo dos dois; um suscita o outro. Sérgio Buarque aproveita o critério tipológico de Max Weber ao focar pares de tipos ao invés de pluralidades de tipos, para trata-los de maneira dinâmica e ressaltar a interação dentro do processo histórico. Com este instrumento, o autor analisa os fundamentos do nosso destino histórico e suas diversas manifestações: trabalho e aventura, método e capricho, rural e urbano, burocracia e caudilhismo, norma impessoal e impulso afetivo – são pares destacados na estrutura social e política pelos quais é possível analisar e compreender o Brasil e os brasileiros.

Em “Fronteiras da Europa”, o primeiro capítulo, Espanha e Portugal são o ponto de partida para tratar, por exemplo, das diversas formas de colonização da América, e de pontos que serão desenvolvidos ao longo da obra, como o tradicional personalismo e a consequente frouxidão das instituições e baixa coesão social.

A ausência do princípio de hierarquia e a exaltação do prestígio pessoal que implica em privilégio seria outra característica ibérica de grande impacto na colônia. Isso fez com que a nobreza permanecesse aberta ao mérito e ao êxito, o que favoreceu a mania de fidalguia, ou seja, a repulsa ao trabalho regular e às atividades utilitárias, de que decorre a falta de organização. O ibérico não renuncia às veleidades em benefício do grupo ou dos princípios. Aos preteridos de tal privilégio, cabe a obediência cega: “A vontade de mandar e a disposição para cumprir ordens são-lhes igualmente peculiares [aos ibéricos]” (p. 39). A escravidão matou de uma vez a necessidade no homem livre de cooperar e organizar-se.

No capítulo seguinte, “Trabalho & aventura”, está a tipologia básica do livro, a distinção entre o trabalhador e o aventureiro e suas éticas opostas: a que busca novas experiências, acomoda-se no provisório e prefere descobrir a consolidar; e a que estima a segurança, o esforço e a compensação a longo prazo. O continente americano foi colonizado por homens mais próximos do primeiro tipo, o que foi positivo para o Brasil, pois o português manifestou uma adaptabilidade excepcional, ainda que “com desleixo e certo abandono”. Dada a diversidade reinante, o espírito de aventura foi o “elemento orquestrador por excelência” (p. 46). Assim, a lavoura de cana foi mais um aproveitamento de espaço do que ação de uma civilização agrícola.

“Herança rural” é o próximo capítulo que analisa o impacto da vida rural na sociedade brasileira, e suas diferenças em relação à mentalidade urbana.

A agricultura acompanhou a escravidão em seu declínio, promovido por políticos e intelectuais de família fazendeira. O capital ocioso migrou para as cidades, promovendo progresso social e investimento técnico. Isso não refletiu em um desenvolvimento coeso em função da “radical incompatibilidade entre as formas de vida copiadas de ações socialmente mais avançadas, de um lado e o patriarcalismo e personalismo fixados entre nós por uma tradição de origens seculares” (p. 79).

“O semeador e o ladrilhador” é o quarto capítulo. A cidade é entendida como instrumento de dominação já a partir de sua concepção. Ladrilhador refere-se ao espanhol, que vê a cidade como empresa da razão, como as que fundou aqui, planejadas rigorosamente e contrárias à ordem natural; como se correspondessem a um prolongamento da metrópole. Os portugueses, agarrados ao litoral, foram “semeadores” de uma cidade irregular, cuja “silhueta se enlaça na linha da paisagem” (p. 110). O aparente desleixo corresponde a uma prudência condicionada por um realismo não imaginativo ou regido por regra, fruto de um desejo pela fortuna e ascensão social rápida que coíbe a formação de uma mentalidade específica, como em outros países.

O capítulo “Homem cordial” apresenta características do brasileiro resultantes do que foi tratado anteriormente. As “relações de simpatia” reinam, ou seja, as relações impessoais, características do Estado, são suscetíveis de serem levadas para o padrão pessoal e afetivo. Isso impede a formação de uma sociedade urbana moderna. O “homem cordial” pressupõe, de fato, o predomínio do comportamento de aparência afetiva, não necessariamente sincera.

O capítulo 6, “Novos tempos”, analisa o choque nos velhos padrões coloniais causado pela vinda da família real.

A sociabilidade é aparente, uma vez que não se impõe ao indivíduo, tampouco contribui para a estruturação de uma ordem coletiva. Encontra séria barreira na individualidade que emerge na relutância perante a lei que o contraria. A isso também está ligada a satisfação no saber aparente, cujo fim está em si mesmo e, por isso, deixa de ser aplicado em um objetivo concreto. A mudança de atividade torna-se constante, por buscar a satisfação pessoal. As profissões liberais se aproximam dessas características, tanto por permitirem a manifestação individual quanto por prestarem-se ao saber de fachada. É a opção dos membros da classe dominante em função da crise das velhas instituições agrárias, por prescindirem do trabalho direto sobre as coisas, que lembra a condição servil.

A força adquirida pelo positivismo também pode estar relacionada a esse contexto. Uma confiança consistente às ideias, mesmo quando inaplicáveis, ajuda a entender o liberalismo que, no Brasil, se constituía como uma oposição à autoridade incômoda. Da mesma forma, tratou-se de importar a democracia e acomodá-la aos privilégios aristocráticos, sendo que, em outros países, elas eram conflitantes.

O capítulo 7, “Nossa revolução”, mais compacto, sugere que a dissolução da ordem tradicional ocasiona contradições não resolvidas na estrutura social, que surtirão efeitos nas instituições e ideias políticas. A passagem do rural para o urbano representa a passagem da tradição ibérica, baseada em instituições agrárias, para um modo vida próprio, americano. Está ligada a esse momento a passagem da exploração da cana de açúcar, como produto principal de exportação, para o café. Os modelos políticos do passado se adaptam aos novos tempos. Isso é possível através da combinação não harmoniosa entre leis formalmente perfeitas e uma organização administrativa ideal com o mais extremo personalismo. A Abolição tornou inviável a velha sociedade agrária, o que foi o início da “nossa revolução”. Trata-se de superar o passado, adotar o ritmo urbano e propiciar, ao mesmo tempo, a ruptura do predomínio das oligarquias e a emergência das camadas oprimidas da população, únicas com capacidade para revitalizar a sociedade, tornando viável uma vida democrática no Brasil. Contra essa tendência, poderia surgir uma resistência saudosa do antigo modelo, que, de acordo com a intensidade de sua força, poderia se traduzir em formas que comprometam as esperanças de qualquer transformação profunda. O caudilhismo, expressão maior do personalismo que intervém no processo democrático, é um exemplo dessa resistência. A repulsa pela hierarquia e a relativa ausência dos preconceitos de raça e cor são elementos que permitem a convergência rumo à democracia.

Raízes do Brasil escapa ao dogmatismo e abre o campo para a meditação dialética. O autor baseou sua análise na psicologia e na história social, com um senso agudo de estruturas, vinculando dessa forma o conhecimento do passado aos problemas atuais. Propôs que a liquidação das raízes era um imperativo para o desenvolvimento histórico. Perder as características ibéricas era o caminho para a evolução moderna brasileira, cuja trajetória não incluiu um louvor ao autoritarismo, como solução para sua organização. Sérgio Buarque afirmou, em 1936, estar na fase aguda da decomposição da sociedade tradicional. Em 1937 veio o golpe de Estado e o advento da fórmula rígida e conciliatória, que encaminhou a transformação das estruturas econômicas pela industrialização. Era o primeiro passo para a modernização.

LINK PARA DOWNLOAD DO LIVRO:

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26a. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

BIBLIOGRAFIA: 

CANDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil. In: HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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