Arquivo da categoria: Educação

Portal TCN: primeiras observações astronômicas da Capitania de São Paulo

AS PRIMEIRAS OBSERVAÇÕES ASTRONÔMICAS NA CAPITANIA DE SÃO PAULO

por José Rogério Beier

Publicado originalmente no portal Território, Ciência e Nação (MAST-RJ).

Se os séculos XVI e XVII foram marcados pela expansão marítima de alguns países europeus e a consequente conquista de novos territórios coloniais na África, Ásia e América, pode-se dizer que o século XVIII registra uma mudança desta “cultura de latitude”, ou expansão marítima, para uma “cultura de longitude”, ou expansão terrestre, como bem lembrou a historiadora e arquiteta urbanista Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno (2004, p. 230). Ainda segundo essa autora, o papel desempenhado por padres jesuítas e engenheiros-militares foi fundamental para o processo de interiorização e formação do território da América portuguesa, no qual se devassou os sertões e se levantou as potencialidades econômicas e informações geográficas que garantiram melhor controle do território sob o domínio português e auxiliaram nas negociações dos tratados de limites com Espanha.

Para o historiador português, Jaime Cortesão, a vinda de padres jesuítas e engenheiros militares à América portuguesa ganhou impulso a partir da leitura que o primeiro geógrafo do rei da França, Guillaume Delisle, fez de sua dissertação perante a Academia Real das Ciências de Paris, em 1720. Intitulada Determination géografique de la situation et l’entendue des diferentes parties de la Terre, esta dissertação marcou a primeira tentativa de remodelar toda a carta da Terra, compilando em um só mapa as alterações de posição dos territórios obtidas a partir das observações das longitudes por meios astronômicos. As correções feitas por Delisle expunham a transferência de soberania operada pela cartografia portuguesa em relação ao vasto território espanhol situado a oeste de Tordesilhas (CORTESÃO, 2006, p.274-276).

Tão logo foi informado das conclusões de Delisle em Paris, d. João V convenceu-se de que era indispensável renovar a cartografia portuguesa através dos novos métodos, especialmente da cultura astronômica, a fim de conferir base científica à diplomacia portuguesa no intuito de “obviar as futuras alegações do governo espanhol, fundadas na situação do meridiano de Tordesilhas” (CORTESÃO, 2006, p. 277-280).

Assim, já em 1722 d. João V manda vir a Portugal dois padres jesuítas napolitanos especialistas em matemática, astronomia, geografia e cartografia: João Batista Carbone (1694-1750) e Domingos Capacci (1694-1736). A eles juntou-se Diogo Soares (1684-1748), também jesuíta, natural de Lisboa e professor da “aula de Esfera” no Real Colégio de Santo Antão[1]. Por sete anos, os padres aguardaram em Portugal pela aquisição da aparelhagem técnica e a indispensável aprendizagem dos novos métodos de medição astronômica. Finalmente, em 1729, o rei português envia os padres matemáticos ao Estado do Brasil, com a tarefa de “fazerem-se mapas das terras do dito Estado não só pela marinha, mas pelos sertões; […] e para esta diligência nomeei dois religiosos da Companhia de Jesus, peritos em matemáticas, que são Diogo Soares e Domingos Capacci, que mando na presente ocasião para o Rio de Janeiro” (GESTEIRA, 2012, p. 207-224).

Assim, não se incorre em erro ao afirmar que as primeiras observações astronômicas realizadas na capitania de São Paulo remontam a vinda dos padres matemáticos à América portuguesa para o levantamento de suas famosas Cartas da Costa do Brasil, atualmente mantidas no acervo do Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa.

[1] “Aula” era o termo utilizado para representar as instituições e práticas educacionais no mundo português. (NEVES, 2000, p. 55-58).

Portal TCN_01

Figura 1: Uma das cartas da costa da América portuguesa elaboradas pelos padres Diogo Soares e Domingos Capacci, também conhecidos como padres matemáticos. Esta mapeia a costa da capitania de São Paulo desde Santos até a barra da Marambaia, no Rio de Janeiro, dando algum destaque à ocupação que já avançava pelo interior do continente, para além da antiga barreira que representava a Serra do Mar.

FONTE: SOARES, Diogo; CAPACCI, Domingos. Carta 9ª. da Costa do Brazil Ao Meridiano do Rio de Janeiro Dezde a Barra de Santos athe a da Marambaya. [c. 1738]. 1 carta ms. : color., desenho a nanquim; 18,7 x 31,5 cm. Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa

Para o levantamento das coordenadas geográficas dos principais povoamentos e fortalezas, em especial o da longitude, a técnica empregada pelos padres matemáticos era aquela desenvolvida por Galileu Galilei no final do século XVI, baseada na observação dos eclipses dos satélites de júpiter. Tal técnica acabou sendo adotada por geógrafos, cartógrafos e topógrafos de todo o mundo para a medição da longitude em terra.

Vale lembrar que quase um século antes dos padres matemáticos, em 1640, o naturalista e cosmógrafo de origem germânica, George Marcgrave, já realizara observações dos eclipses dos satélites de Júpiter e levantamentos de longitude empregando essa mesma técnica no observatório astronômico instalado na casa do Conde Maurício de Nassau, no Recife. A precisão das cartas geográficas elaboradas por Marcgrave a partir desse método, só voltariam a encontrar par na América portuguesa no segundo quartel do século XVIII, justamente com a produção dos padres matemáticos (CINTRA; PEREIRA, 2014, v.1, p. 197-226).

Depois da vinda dos padres matemáticos, dezenas de engenheiros-militares foram enviados à América portuguesa, sobretudo, no âmbito das partidas de demarcações de limites entre as possessões americanas das Coroas Ibéricas decorrentes do Tratado de Madri (1750) e Santo Ildefonso (1777). Ainda assim, poucas foram as cartas geográficas elaboradas na escala da capitania entre a década de 1730 e a primeira metade da década de 1780. Muitos desses engenheiros trabalharam nas partidas de demarcações dos tratados de limite e, quando não estavam nas demarcações, acabavam elaborando cartas que diziam respeito a porções de terrenos ou cursos de rios relacionados às expedições de exploração que comandavam, geralmente, com o fim de mapear uma região.

Exemplos claros dessa atuação são os mapeamentos do sertão de Guarapuava, do Iguatemi, do Ivay, do Tibagi ou o mapeamento do curso para a navegação fluvial do rio Tietê. Será apenas com a chegada do capitão-general Bernardo José de Lorena, em 1788, que se estabelecerá uma divisão de engenheiros, matemáticos e astrônomos na Capitania de São Paulo, que atuarão firmemente na elaboração de uma série de novas cartas na escala da capitania, consideradas bastante precisas para a época.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Educação, Universidade, USP

Manifesto da ANPUH-Brasil sobre a prisão de Lula

O Hum Historiador, blog de associado da ANPUH, repercute o manifesto da Associação dos Historiadores sobre a prisão de Lula. Abaixo segue a íntegra do manifesto tal como publicado no site da ANPUH-Brasil .

MANIFESTO DA ANPUH-BRASIL SOBRE A PRISÃO DE LULA
do site da ANPUH-Brasil – acesso em 6 de abril de 2018

A democracia brasileira tem sido, ao longo de nossa história, uma construção difícil. Anunciada nos discursos de rua e de cátedra e formalizada em parte de nossos textos constitucionais, sofreu contínuos ataques por parte de setores conservadores e autoritários. Inicialmente restrita à pequena parcela da população, cresceu como uma planta frágil que raramente conseguiu solo fértil para se consolidar. Ao longo de quase 200 anos de Independência e 130 anos de República, nossa história tem sido marcada por uma sucessão de golpes e quarteladas a ameaçarem o estado de direito, nos quais os regimes democráticos aparecem como meros intervalos entre um arbítrio e outro. A ausência de uma cultura cívica republicana e da aceitação da democracia como um valor universal têm nos levado a situações de imensa instabilidade, que por sua vez, abalam os já frágeis pilares de nossa cidadania.

Uma democracia se constrói por meio da livre competição eleitoral, onde há vencidos e vencedores. O custo da derrota deve ser menor que o do desrespeito às regras do jogo. Infelizmente, esse cálculo racional não foi bem equacionado por certos grupos, que indignados com mais uma vitória da oposição, partiram para o ataque contra as instituições.

A decretação em prazo recorde da prisão de Lula é a última expressão dos contínuos ataques que o regime instalado na Carta de 1988 estabeleceu. É por acreditarmos na preservação e consolidação da democracia, que nos solidarizamos hoje com Lula, vítima do arbítrio daqueles que não toleram o livre jogo do mercado político.

A ANPUH, entidade que agrega historiadores de várias regiões do país, não poderia estar indiferente a esta difícil conjuntura pela qual passa o país. Na defesa das instituições, da liberdade de expressão, do estado de direito e do equilíbrio entre os poderes, nos manifestamos pela liberdade de Lula.

1 comentário

Arquivado em Educação, Internet, Universidade, USP

Stella Maris: ação contra professora de Santa Catarina é mais uma ameaça contra a liberdade de expressão e de crítica na universidade

O Hum Historiador abre espaço para repercutir a entrevista da professora Stella Maris Scatena Franco, professora de História da Universidade de São Paulo, ao jornalista Luiz Carlos Azenha, do portal Viomundo, nesta última quarta (07). Nessa entrevista, a professora comenta o caso da aluna de pós-graduação da Universidade Estadual de Santa Catarina (UDESC), Ana Caroline Campagnolo, que move processo por danos morais contra sua ex-orientadora, a professora Marlene de Fáveri, que teria tentado prejudicá-la academicamente, segundo a autora do processo.

captura-de-tela-2017-06-07-axxs-14-33-37

Com fotos do portal Catarinas (por Dieini Andrade e Chris Mayer) e reprodução da TV Cultura: Marlene, Stella Maris, um protesto de colegas de Marlene em Santa Catarina e a mestranda Ana Caroline

Anexei uma prova fonográfica, e-mails e documentos como prova. Na prova fonográfica é possível ouvir a professora dizendo que se eu não concordo que “poder usar um vibrador” e “poder estar numa Universidade” são conquistas feministas, eu não deveria estar naquela Universidade. Marlene também diz que minhas convicções cristãs são inconsistentes e ridículas e que ela não gosta de gente ridícula, embora algumas pessoas – meus companheiros de fé, obviamente – gostem. Ana Caroline, que move a ação, em entrevista ao portal Catarinas.

Tudo isso mexe comigo, com minha história de vida, com a feminista que tem dentro de mim, me constrange publicamente. Me sinto muito prejudicada, injuriada, desqualificada como mulher, como professora. Sinto todas as mulheres desqualificadas também porque o feminismo é uma luta muito importante, que vem de muito tempo e que tem como alvo emancipar as mulheres e por fim a qualquer tipo de violência. Feminismo é uma prática política que tenta diminuir as dores e violências do mundo. Espero que isso termine, porque é muito cansativo. Estou deixando de fazer coisas muito importantes desde o início do processo como ler dissertações e participar de bancas. Marlene de Fáveri, também ao portal Catarinas.

por Luiz Carlos Azenha | Viomundo – 07/06/2017

Acadêmicos, alunos e integrantes da ANPUH, a Associação Nacional de História, estão mobilizados em torno do processo movido por uma mestranda de Santa Catarina, Ana Caroline Campagnolo, contra a orientadora Marlene de Fáveri, acusada de danos morais. Ana Caroline pede indenização de R$ 17.600 por “discriminação, intimidação, ameaça velada via e-mail, exposição discriminatória, humilhação em sala de aula e tentativa de prejudicar academicamente a autora”.

Além de manifestarem solidariedade à orientadora, os colegas se preocupam com a repercussão que uma decisão judicial possa ter nas salas-de-aula das universidades brasileiras, provocando autocensura, ameaçando a liberdade de expressão e prejudicando a liberdade de crítica que é essencial e justifica a própria existência da universidade.

Para tratar do caso, entrevistamos a professora Stella Maris Scatena Franco, professora do Departamento de História da Universidade de São Paulo.

Viomundo: Qual é a acusação?

A ex-orientanda de mestrado de Marlene de Fáveri a acusa por danos morais. A abordagem de gênero pressupõe, como todas as outras no âmbito acadêmico, uma perspectiva analítica crítica, que não vinha sendo explorada pela aluna, claramente associada a grupos de tendência conservadora (o que pode ser evidenciado na entrevista concedida por ela a um canal intitulado justamente Conexão Conservadora).

Até onde sei, esta situação, quando percebida pela professora, levou-a a solicitar ao seu Programa de Pós-Graduação a interrupção da orientação, visto que as pré-concepções da orientanda podiam comprometer seriamente os resultados da pesquisa. A orientação foi transferida e, ao fim, a pesquisadora foi reprovada pela banca que a avaliou.

Viomundo: Quem é a acusadora?

A acusadora chama-se Ana Caroline Campagnolo. Trata-se de uma estudante que cursava pós-graduação na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Na entrevista mencionada acima, afirma-se como uma pessoa “conservadora e de direita” e fala do feminismo como “um grande engodo”.

É realmente difícil compreender as razões que levaram esta jovem a buscar a abordagem de gênero como embasamento para a sua investigação.

Viomundo: Quais são os argumentos da acusadora?

Os argumentos se aproximam aos utilizados pelos defensores do movimento Escola Sem Partido, de que os professores, sob o pretexto de realizarem uma leitura crítica da realidade, “doutrinam” os alunos. Por esta lógica, os docentes deveriam ministrar os conteúdos de forma “neutra”, para que as análises não entrem em confronto com as convicções pessoais (e religiosas, inclusive) dos alunos.

A situação é, no mínimo, irônica, pois aqueles que defendem a neutralidade são os que mais tem ligações com posturas preconcebidas, valorativas e fechadas. O pensamento crítico pressupõe questionamentos, reflexões e uma visão da história enquanto campo constituído por conflitos das mais diferentes ordens, inclusive de ideias.

Viomundo: Como os colegas da professora Marlene encaram essa denúncia?

Essa denúncia pode ser encarada de múltiplas formas: como uma postura “reacionária”, no sentido lato do termo, isto é, que reage a um movimento de expansão do ensino crítico, que vimos praticando com maior liberdade desde o processo de abertura democrática.

Curiosamente, este caso que envolve Marlene de Fáveri, é associado à abordagem da história das relações de gênero, que perturba os grupos tradicionalistas e religiosos, pois rompe com a ideia do essencialismo biológico, que pressupõe a determinação dos comportamentos e papeis sociais pela natureza, isto é, pelo próprio sexo. Esta questão é analisada por especialistas em reflexões teóricas bastante complexas e sofisticadas.

Tudo isso incomoda pessoas avessas a transformações, principalmente comportamentais, o que às vezes as leva a saídas “reativas”, de um lado, e “corretivas”, de outro, como nas campanhas que defendem a “cura gay”.

Combinado a essa percepção, também pode-se entender que há um interesse da aluna em se projetar publicamente, atraindo adesão de pessoas simpáticas às vertentes conservadoras.

Assim, a denúncia poderia ser encarada como uma atitude oportunista.

Finalmente, acredito que haja um receio quanto a uma possível vitória da aluna, pois isso estimularia a vigilância sobre os professores, fazendo generalizar e institucionalizar o que tem sido chamado de Lei da Mordaça.

Há muitos professores e professoras empenhados(as) na defesa da Marlene, pois sabem que este tipo de constrangimento pode levar à censura ainda maior em sala de aula, o que, em última instância, acabaria por ferir a liberdade de expressão e de ensino.

Esse tipo de relação comprometeria o processo de ensino-aprendizagem, lembrando, ademais, os contextos de autoritarismo político e de estado de exceção, que supúnhamos superados.

No momento atual vivemos um contexto político no qual as regras democráticas foram colocadas em xeque.

O controle do pensamento é parte importante desse mesmo processo. Nesse sentido, são muito significativos os ataques aos historiadores.

Uma história contestadora, que deflagra contradições (como a absoluta falta de neutralidade nas propostas do Escola Sem Partido, o mesmo que demanda a neutralidade no ensino), uma atitude que instiga o questionamento das verdades prontas e acabadas, que analisa os processos de autoritarismo nos diferentes momentos e reflete sobre suas consequências para a sociedade é, no mínimo, incômoda.

Não parece fortuito o fato desse governo defender o fim da obrigatoriedade da disciplina de História no Ensino Médio (o que afeta também o ensino no nível superior, sobretudo as licenciaturas em História, que formam os professores que depois vão atuar na rede básica).

Assim, pelo fato desse movimento propor o fim da autonomia dos docentes e espelhar o próprio cerceamento do exercício de cidadania por meio das restrições à democracia, os professores encaram esta ação como ilegítima, falha em fundamentos conceituais coerentes e perigosa do ponto de vista político.

No entanto, este é um processo que ao mesmo tempo uniu colegas das diferentes partes do Brasil, que se manifestaram nesta semana e, particularmente no dia 06, quando da audiência em que foram ouvidas as testemunhas de Marlene, para prestar solidariedade, para defender a liberdade de ensino e o reconhecimento de demandas colocadas pelos movimentos sociais, como o feminismo.

Viomundo: Quais as consequências que o caso poderá ter para ela em particular e para a comunidade acadêmica em geral?

Hoje já virou uma prática relativamente comum os professores serem sujeitos a gravações de suas aulas, por alunos que têm em mente levar a cabo ações judiciais. Os alunos são instigados a isso pelo Escola Sem Partido. Essa é uma prática que pode aumentar e isso causaria muitos problemas.

No caso do acirramento dessas tensões, alguns docentes, eventualmente, poderiam vir a se auto-censurar por temerem processos ou até mesmo demissões. Atualmente, os professores de ensinos Fundamental II e Médio, que passam por entrevistas em algumas escolas mais tradicionalistas, são questionados sobre suas posições político-ideológicas. Isso vem se tornando um critério para a contratação de professores em algumas escolas.

O silenciamento, a censura, trazem consequências irreparáveis para os próprios formandos. No entanto, neste ponto sou otimista.

Não acredito que liberdades e direitos conquistados a tão duras penas possam simplesmente desaparecer sem contestação. E é por isso que as mobilizações em torno de Marlene foram e são importantes. Para mostrar o quanto é vital nos unirmos.

Agora, para aquela que sofre este processo — a própria Marlene –, o custo pessoal é imenso. Tempo, dinheiro e muita energia dispendidos em torno de uma demanda destrutiva e cerceadora.

PS do Viomundo: O Portal Catarinas entrevistou tanto a professora Marlene quanto Ana Caroline. Leia aqui e aqui.

1 comentário

Arquivado em Educação, Política, Universidade

Escola Sem Partido impulsiona a perseguição e coação de professores de História nas escolas do país

O Hum Historiador abre espaço para repercutir a nota de preocupação da Associação Nacional de História (ANPUH) com o processo de coação e perseguição que está sendo movido contra professores de História em instituições públicas e privadas do país nos últimos meses. Segundo a nota, tal processo é estimulado e impulsionado pelo movimento Escola Sem Partido que promove eventos e produz conteúdos digitais incitando a coação, o constrangimento e a censura aos professores de História em todo o país.

Segue abaixo a íntegra da nota tal como publicado no site oficial da ANPUH.

NOTA DA ANPUH: PERSEGUIÇÃO E COAÇÃO

Os profissionais da História brasileiros representados pela ANPUH vem a público demonstrar sua profunda preocupação com o processo de coação e perseguição sofrido por professores de História ao longo dos últimos meses.

Esse processo, certamente, é estimulado pelo movimento Escola Sem Partido que organiza eventos, produz conteúdo digital divulgado em seu sítio eletrônico etc. e patrocina ações legislativas que estimulam a coação, o constrangimento e a censura aos professores de História em todo o território nacional. Já temos registro de casos de professores que sofreram e ainda sofrem esse tipo de ação.

No momento, três casos nos preocupam profundamente.

O primeiro é o do Colégio Pedro II na cidade do Rio de Janeiro. Lá, professores de História, há alguns meses, foram interpelados pelo Ministério Público Federal, que acaba de abrir um processo administrativo contra esses servidores públicos federais por supostos delitos.

O segundo é o processo civil contra a professora Marlene de Faveri no Estado de Santa Catarina, por suposta propaganda do feminismo em sua atividade docente.

E, finalmente, o afastamento da atividade docente do Professor José Mineiro da rede pública estadual do Rio Grande do Sul, em função também do conteúdo de sua atividade docente.

Todos esses eventos de censura e perseguição a professores são baseados principalmente na “crença” do “Escola sem Partido” de que os docentes estariam fazendo “doutrinação esquerdista” dos seus alunos.

A ANPUH registra sua indignação com a desvalorização e a criminalização do trabalho dos profissionais da História presentes nesse tipo de ação e chama a atenção para os resultados catastróficos para o futuro da democracia e do pensamento crítico e emancipador na sociedade brasileira.

2 Comentários

Arquivado em Educação, Política

Tese destaque USP: unidos pela escravidão

A página do Ciência USP lançou uma série de quatro vídeos buscando resumir uma das melhores teses da USP defendidas em 2016: a do doutor Tâmis Peixoto Parron, intitulada “A política da escravidão na era da liberdade: Estados Unidos, Brasil e Cuba, 1787-1846”. Como descrito na página, a tese mostra que esses países usaram laços comerciais para sustentar a política escravocrata, apesar de o século XIX ser marcado pela aspiração à liberdade.

Repercuto aqui os vídeos, sobretudo, por ver dia após dia inúmeros equívocos de interpretação sobre a escravidão africana e o escravismo sendo divulgados na Internet, alimentando pessoas que tentam minimizar os efeitos da escravidão na formação das sociedades americanas sob o argumento de que “eram os próprios africanos quem capturavam, escravizavam e vendiam os negros para os europeus”.

Portanto, recomendo vivamente a todos que dispuserem de alguns minutos para assistirem a esses vídeos, que o façam e reflitam sobre tudo o que têm ouvido por aí na Internet.

DICA: Lembrem-se, em primeiro lugar, que a “escravidão africana” não é um fenômeno homogêneo, isto é, diferentes períodos trazem particularidades que não permitem compreender o escravismo praticado nos séculos XV e XVI da mesma forma que aquele praticado no século XIX. Os vídeos aqui compartilhados tratam, sobretudo, do período final, que se estende de 1787 a 1846.

VÍDEO 1: Cuba, Estados Unidos, Brasil: unidos pela escravidão.

VÍDEO 2: Unidos pela escravidão: a crise do Misouri

VÍDEO 3: A crise da nulificação

VÍDEO 4: História Total: uma inovação na produção acadêmica

4 Comentários

Arquivado em Educação, Universidade

Discutindo a Fundação Ford (Parte 4/4)

Continuando a repercutir o texto do amigo e historiador Marcus Correia, publicado originalmente no portal Esquerda Online.

Abaixo a quarta e última parte do texto que discute a Fundação Ford. Para ler os posts anteriores, clique nos links abaixo:

DISCUTINDO A FUNDAÇÃO FORD (PARTE 4/4)
por Marcus Correia | publicado originalmente em 22 jan. 2017 | Esquerda Online

Dos anos 1970 aos dias atuais

Conforme a proposta das partes anteriores do artigo, o objetivo aqui não é o de elencar financiamentos da Fundação Ford pelo mundo, mas apontar as relações existentes entre os principais membros da entidade, os órgãos do governo dos Estados Unidos (incluindo a CIA, o Pentágono e o Departamento de Estado) e as transnacionais do país.

Nas últimas décadas, em razão de os recursos da Fundação Ford direcionarem-se ao financiamento dos chamados direitos humanos, a entidade passou a aparecer aos olhos dos mais crédulos como tendo cortado os vínculos que manteve com o establishment estadunidense durante a Guerra Fria. Tal percepção, ora ingênua ora oportunista, mostra-se completamente equivocada, pois é possível identificar a permanência desses vínculos até os dias atuais.

De acordo com o que foi exposto nas partes 2 e 3 do artigo, entre 1966 e 1979, o presidente da Fundação Ford foi McGeorge Bundy, que, entre outros cargos que ocupou, foi Assessor de Segurança Nacional dos presidentes John F. Kennedy e Lindon Johnson e cujas relações com a CIA consistiram em monitorar e formular algumas de suas ações no exterior. Seu irmão William Bundy também era funcionário da agência [1].

Quando, em 1979, Bundy deixou a presidência da Fundação, o cargo foi ocupado por Franklin Augustine Thomas.

Durante dez anos (1967-77), Franklin A. Thomas dirigiu a Bedford Stuyvesant Restoration Corporation, em Nova York, uma organização “beneficente”, fundada por ninguém menos que Robert F. Kennedy, irmão de John F. Kennedy, e pelo então prefeito da cidade, John Lindsay [2].

Em 1967, Franklin  A. Thomas foi convidado por Robert F. Kennedy para presidir a Bedford Stuyvesant Restoration Corporation, que contava com aportes financeiros da Fundação Ford, à época presidida por McGeorge Bundy [3].

As relações entre Robert F. Kennedy, a CIA e a máfia também são bastante conhecidas, a exemplo de várias operações coordenadas por ele para o assassinato de Fidel Castro [4]. Em 1968, Robert F. Kennedy foi assassinado, assim como o irmão John F. Kennedy havia sido cinco anos antes.

Franklin A. Thomas serviu na Força Aérea dos Estados Unidos entre 1956 e 1960, chegando à patente de capitão. Ele também foi diretor do setor jurídico do Departamento de Polícia de Nova York, entre 1965 e 1967, no conturbado contexto de luta por direitos civis nos EUA. Enquanto ocupava a presidência da Fundação Ford, Franklin A. Thomas foi do conselho de diretores do Citibank e de várias outras grandes empresas estadunidenses [5].

Franklin A. Thomas ficou na presidência da Fundação Ford até o ano de 1996, quando passou o cargo para Susan Berresford, uma alta funcionária da entidade desde a gestão de McGeorge Bundy. Ela ficará na presidência da Fundação até 2007. Susan Berresford, entre outros cargos que ocupou, foi do conselho do Chase Manhattan Bank, hoje controlado pelo JP Morgan.

Como Susan Berresford foi funcionária da Fundação Ford por mais de trinta anos, seu vínculo mais conhecido com empresas privadas dos EUA foi com o referido banco. Como presidente da Fundação Ford, abriu o primeiro escritório da entidade na Rússia em 1996. Em 2005, Berresford entrou na lista da revista Forbes como uma das cem mulheres mais poderosas do mundo. [6]

Em 2008, foi a vez de Luis Ubiñas presidir a Fundação Ford. Ubiñas trabalhou durante dezoito anos como diretor da McKinsey & Company, a maior empresa de consultoria de negócios do mundo. Sua área de especialidade na companhia era mídia e telecomunicações [7].

Não é, portanto, coincidência que um dos principais pilares de financiamento da Fundação Ford pelo globo atualmente seja a mídia dita alternativa e movimentos de ampliação do espectro de mídia nos países periféricos.

Em 2013, Luis Ubiñas passou a presidência da entidade para Darren Walker, que ocupa o cargo até hoje.

No mesmo ano em que Walker assumiu a presidência, um dos representantes da entidade no Brasil, quando foi questionado sobre as relações entre a Fundação e a política externa estadunidense durante a Guerra Fria, admitiu que “certamente ocorreram erros na história  [da entidade]” ! [8] E afirmou que atualmente a Fundação opera apenas com recursos próprios da família Ford e não recebe aportes de nenhuma outra instituição ou governo.[9]

O que ele não mencionou é que em alguma cristaleira da família Ford está guardada a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã nazista que o patrono Henry Ford ganhou de Adolf Hitler (Cf. Parte 1).

Porém, mesmo pressupondo que a Fundação não receba recursos de outros organismos públicos e privados e opere apenas com dotação orçamentária própria, isso não significa que na atualidade suas ações não sejam coordenadas com os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, com o Pentágono, com o Departamento de Estado e com as megatransnacionais do país.

Prova disso é a atividade do atual presidente da Fundação, Darren Walker, como membro do Council on Foreign Relations, o principal órgão privado de formulação de política externa para os Estados Unidos [10].

É possível afirmar que este think tank é o principal formulador da parceria entre as transnacionais do país, as fundações privadas ditas filantrópicas e o aparato militar-diplomático estadunidense na aplicação de uma política global que beneficie o centro do império capitalista.

Entre os membros atuais do conselho encontram-se quer republicanos quer democratas, bem como acadêmicos, militares, ex-altos funcionários do governo (Pentágono e Departamento de Defesa), presidente de grandes órgãos de comunicação (CNN, Fox News, Times Warner), jornalistas, empresários, ex-ministros, ex-presidentes dos Estados Unidos etc. O conselho reúne, de fato, os principais articuladores geopolíticos da burguesia internacional na atualidade.

Para se ter uma idéia, entre os muitos indivíduos do setor de inteligência dos Estados Unidos no Council on Foreign Relations, do qual o atual presidente da Fundação Ford faz parte, estão: os dois ex-diretores da CIA na administração Jimmy Carter: Frank Carlucci e Stansfield Turner; Robert M. Gates, ex-diretor da CIA na administração George H. W. Bush (pai) e ex-ministro da Defesa de George W. Bush e Barak Obama; Michael Hayden, ex-diretor da NSA na administração Bill Clinton e ex-diretor da CIA na administração George W. Bush; James Woolsey, ex-diretor da CIA na administração Bill Clinton; John Negroponte, ex-diretor de inteligência nacional da administração George W. Bush; Porter Gross, ex-diretor da CIA na administração George W. Bush; David Patreaus, ex-diretor da CIA na administração Obama.[11]

General Motors, Chevron, ExxonMobil, Ford Motor, Texaco, Citibank, IBM, Coca-Cola, Soros Fund Management, JP Morgan, Goldman Sachs são apenas alguns exemplos das megatransnacionais que subsidiam o conselho do qual participa Darren Walker, que antes de ocupar o cargo de presidente da Fundação Ford foi ainda alto executivo do Union Bank of Switzerland. [12]

O importante a ser observado aqui é que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, existe um vínculo ininterrupto entre o alto escalão da Fundação Ford, os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, o Pentágono e o Departamento de Estado, o complexo industrial-militar e grandes transnacionais. Ao contrário do que comumente se imagina, a política externa conjunta entre fundações privadas e o governo estadunidense ampliou-se a partir da década de 1970.

Um dos objetivos da utilização de ONGs e fundações privadas para a política externa dos EUA é desburocratizar e encobrir atividades de inteligência no exterior, como o financiamento de grupos locais cujas causas coincidam com os interesses estratégicos do império, seja na aquisição de novos mercados seja na desestabilização de governos ou regimes considerados “não-alinhados” seja para uma política soft de contrainsurgência.

Este último caso consiste em influenciar pessoas, por meio de ONGs e entidades filantrópicas, a se engajarem em “causas” liberais, supostamente progressistas, embora não anticapitalistas tampouco comunistas e, assim, promover protagonistas políticos de orientação política não-classista, eclipsando e dificultando a militância das organizações comunistas-marxistas.

Vale, por fim, reeditar aqui a pergunta feita no artigo Open Society: sociedade aberta para quem [13]: Deve a esquerda brasileira receber recursos financeiros oriundos de fundações, ONGs, empresários e financistas das principais potências estrangeiras para lutas políticas no Brasil, considerando ainda o histórico desses ignóbeis filantropos?


NOTAS:

  1. Sobre os irmãos Bundy, Cf.: MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974; E, BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.;
  2. Bedford Stuyvesant Restoration- History: https://www.restorationplaza.org/about/history  ; Franklin Augustine Thomas – Biography: http://biography.jrank.org/pages/2487/Thomas-Franklin.html
  3. Idem.
  4. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Idem, 2005.;
  5. Franklin Augustine Thomas – Biography: http://biography.jrank.org/pages/2487/Thomas-Franklin.html
  6. Revista Forbeshttp://www.forbes.com/lists/2005/11/YELG.html
  7. http://www.huffingtonpost.com/author/luis-ubi
  8. Nelson de Sá. Quem paga a conta? Observatório da Imprensa. http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/_ed762_quem_paga_a_conta/
  9. Idem.

10.Lista de membros do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/membership/roster.html

  1. Lista de membros do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/membership/roster.html
  2. Lista de membros comporativos do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/corporate/roster.html
  3. “Open Society”: sociedade aberta para quem? http://blog.esquerdaonline.com/?p=7704

Deixe um comentário

Arquivado em Economia, Educação, Ensino, Política, Universidade

ANPUH: Carta aberta pela obrigatoriedade da História no Ensino Médio

CARTA ABERTA PELA OBRIGATORIEDADE DA HISTÓRIA NO ENSINO MÉDIO

A História, como disciplina escolar, integra o currículo do ensino brasileiro desde o século XIX. Sua presença, considerada fundamental para a formação da cidadania, foi gravemente ameaçada no período da Ditadura Militar, quando se deu a diluição da História na instituição dos Estudos Sociais.

A Medida Provisória nº 746/16, aprovada pelo Congresso Nacional, que instaura a Reforma do Ensino Médio, comete grave equívoco ao omitir do texto legal qualquer referência à disciplina, e, principalmente, ao excluí-la da relação de componentes curriculares obrigatórios, instalando fortes incertezas sobre a presença da História nesse nível de ensino.

Não menos preocupante é o rebaixamento das exigências para o exercício da profissão docente, ao permitir a admissão de “profissionais com notório saber”. Além disso, na prática, a Reforma do Ensino Médio está sendo subordinada a um documento (BNCC) que ainda não está concluído, cujo conteúdo final é desconhecido, e que está indicado como referência para a formação de professores.

Diante do exposto, a Associação Nacional de História – ANPUH-Brasil, contesta a aprovação da Reforma do Ensino Médio sem consultar a sociedade, em particular, os professores. E reivindica, com muita ênfase, a clara definição da História como componente curricular obrigatório no Ensino Médio.

Atenciosamente,

Diretoria da ANPUH Brasil

P.S.: Esta carta foi enviada ao Presidente da República, ao Chefe da Casa Civil, ao Ministro da Educação, à Secretária Executiva do Ministério da Educação e ao Secretário de Educação básica do Ministério da Educação.

Deixe um comentário

Arquivado em Educação, Ensino