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A dádiva da ignorância: a realidade pode ser fabricada?

Plena manhã de outono de um sábado de sol que brilha num céu sem nuvens, mas que não tem força para tirar aquela sensação de friozinho gostoso do outono. Você está em sua bela e espaçosa casa, apoiado na sacada, distraído com uma folha que se desprendeu da mangueira que há anos enfeita a praça em frente ao seu edifício. Como que hipnotizado, você vai acompanhando a queda caótica da folha que, levada pela brisa, vai serpenteando no ar, seguindo suavemente seu rumo até o chão. Aquela mesma brisa que empurrou a folha, também sopra em sua face e movimenta seus cabelos. De repente, você se vê agradavelmente surpreendido com uma música que um dos seus vizinhos está ouvindo e que você gosta muito: “DREAM ON, DREAM ON, DREAM ON, DREAM YOURSELF A DREAM COME TRUE” e só tem sua atenção desviada, pelo aroma do café que sua bela esposa está preparando na cozinha. Que excelente modo de começar um fim de semana, não? Exceto pelo fato de você não ser casado e não possuir uma casa espaçosa de frente a uma pracinha arborizada. Infelizmente, você se dá conta que toda essa bela manhã não passou de um sonho, muito coerente, mas que você só percebeu no momento em que surgiram essas inconsistências. Que pena! Parecia uma vida bastante agradável aquela do sonho: uma bela mulher, uma casa espaçosa, boa música, tranqüilidade. De sonhos assim, nem dá vontade de acordar e muitas vezes uma pessoa pode até mesmo chegar a questionar por que não continuar vivendo neste sonho, não é?

Dentre outros filmes mais recentes que tratam dessa temática, talvez o mais emblemático tenha sido Matrix, dos irmãos Wachowsky, lançado em 1999. No filme há uma cena clássica e provocante na qual Cypher, traindo o grupo rebelde, está reunido com os agentes da Matrix em um restaurante e, ao saborear um pedaço suculento de seu bife diz:“Ah! A ignorância é uma dádiva”. Essa é uma daquelas frases do cinema que são inesquecíveis. Com ela, Cypher diz que embora ele saiba que aquele bife não seja real, ele prefere ignorar a realidade da vida dura que levava na nave Nabucodonossor e continuar vivendo alienado, como todos os outros humanos imersos em suas ilusões projetadas pela Matrix. Neste caso específico, ele sabe distinguir sonho de realidade pois viveu fora da Matrix. Mas e você? Já teve um sonho tão real no qual você não saberia dizer se era sonho ou realidade? Mesmo agora, neste momento em que está diante do computador, você poderia me dizer se o que está vivendo neste momento é real?

Matrix brincou muito com este tema e tornou popular uma velha discussão filosófica que vem quebrando a cabeça de nossos melhores pensadores há séculos: O que é real? Como distinguir os limites entre sonho e realidade? Não por acaso, estas são as mesmas perguntas que Morpheus (personagem interpretado por Lawrence Fishburn, batizado com o nome do deus grego dos sonhos), faz a Neo quando eles entram a primeira vez no programa de simulação de realidade. “(…) se você está falando do que pode sentir, cheirar, saborear ou ver, então real são simplesmente sinais elétricos interpretados por seu cérebro.”

“Mas isso é só um filme”, você poderia responder, “feito para divertir e entreter as pessoas. Nada daquilo é real, vivemos no século XXI e não há nenhuma realidade diferente da nossa. Nós não vivemos em um software de simulação e você sabe muito bem disso!”, continuaria, já um pouco nervoso. Realmente, muito do que foi colocado no filme é pura ficção, feito para entreter os amantes de filmes de ação como as cenas de luta e violência extrema. Mas ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, o filme não propõem nenhum absurdo ao dizer que os humanos são escravos e enganados por seus sentidos que os fazem crer nessa realidade coletiva em que vivemos. Grandes filósofos dedicaram-se ao estudo deste tema e, ainda hoje, há pensadores que afirmam haver grandes chances de estarmos vivendo, neste exato momento, dentro de um software de simulação exatamente igual no filme Matrix. Provocante, não?

Entremos um pouco mais no assunto e vamos relembrar essas idéias instigantes e antigas sobre as quais o filme está apoiado. Platão (c. 428-c. 347), em seu livro A República, já se questionava há quase 2400 anos, sobre o que é  real e como atingir a verdadeira realidade. Para resolver suas inquietações, ele propôs um diálogo que é, hoje, um de seus mais famosos textos: O Mito da Caverna ou A Alegoria da Caverna, que tem inspirado muitas pesquisas, livros há mais de dois mil anos.

Neste diálogo Platão propõem que imaginemos pessoas que vivam presas em uma caverna, de costas para a entrada e de tal forma que elas não consigam se virar. Ficam ali todos os dias, vendo as sombras das pessoas ao passar pela estrada diante da entrada da caverna e refletidas na parede do fundo, julgando que a realidade são as sombras que viram durante toda sua vida naquela condição.

Para estes prisioneiros, o mundo é mesmo aquele monte de sombras, isto é, sua percepção da realidade está ligado ao conjunto das coisas puderam experimentar em suas vidas. Mesmo se um deles conseguisse sair e a muito custo resistir o impacto da luminosidade ferindo seus olhos, a dor lancinante das pernas atrofiadas e toda a falta de costume causada pelas privações da caverna, ainda assim, a maioria dos que conseguissem sair teriam dificuldades em aceitar aquele mundo novo sob seus olhos. Voltariam para a caverna e tentariam esquecer tudo o que viram lá fora. Alguns até poderiam se adaptar à difícil vida fora da caverna e, apiedando-se dos que ficaram na caverna, retornariam com o objetivo de avisá-los que o mundo que eles acreditam ser real não é nada além de uma ínfima parte da realidade. Se assim o fizessem, estes seriam motivos de risos e considerados verdadeiros lunáticos, tentando desvirtuar todo o conhecimento que aquele grupo formou após anos e anos vivendo na caverna.

De acordo com Platão, boa parte da humanidade vive na caverna, isto é, no mundo das coisas sensíveis, presos pelas amarras das aparências que não refletem a verdadeira realidade do mundo, que se encontra no mundo das ideias, de modo que, para ele, a maioria da humanidade vive na ignorância. Para solucionar essa questão, Platão propôs que somente através do conhecimento filosófico e da educação é que o ser humano pode superar sua condição de ignorância e atingir a realidade verdadeira do mundo, ou o mundo das ideias. Com este pensamento, contribuiu para criar aquilo que hoje conhecemos como Ciência.

Além de Platão, outra fonte ainda mais evidente para os irmãos Wachowsky, foi a de René Descartes (1594-1660). Em seu livro de 1641, Meditações Concernentes à primeira Filosofia, Descartes já escrevia que “tudo aquilo que, até o momento, aceitei como imbuído da mais alta verdade e certeza eu aprendi pelos sentidos ou por meio dos sentidos”. Neste momento ele se perguntou se o que os sentidos lhe transmitiam eram seguramente isentos de qualquer dúvida, e chegou à conclusão que não. “Às vezes os sentidos enganam, podemos sempre confiar neles totalmente? Além do mais, um sonho com plena coerência pode parecer perfeitamente real. Será que eu posso estar sempre sonhando quando eu acho que estou sempre acordado?”. Vemos essas mesmas inquietações na boca de Morpheus que, logo após dar a Neo a pílula vermelha, provoca-o: “Já teve um sonho, Neo, de que você não tinha certeza de ser real. (…) E se você não conseguisse acordar desse sonho, Neo, como saberia a diferença entre o mundo do sonho e o mundo real?”. Descartes puro!

Depois de muito refletir, Descartes chegou à conclusão deste enigma em sua famosa frase “Penso, logo existo”, na qual encerra o pensamento de que é impossível duvidar da própria experiência consciente – e que ninguém pode duvidar de sua existência como ser pensante. Quanto aos enganos que os sentidos podem nos pregar, conclui que eles podem enganar o quanto quiser, contudo nunca poderá obrigar a ser nada, desde que eu pense que sou alguma coisa. Para cada um de nós, a consciência é indubitavelmente real, seja qual for a realidade externa que ela pareça nos apresentar. Mas longe de ser uma unanimidade, as ideias de Descartes não são aceitas por todos e até hoje reina a dúvida quanto à pergunta “Como saber se vivemos no sonho ou na realidade?”

Alguns pensadores e cientistas modernos garantem que vivemos no mundo da ilusão. Em entrevista à Super Interessante de Maio de 2003, o psicólogo Victor S. Johnston da Universidade do Novo México (EUA) diz que “nossa consciência evoluiu para impor uma interpretação específica das energias que estão à nossa volta”. Segundo ele, nada no universo é vermelho ou verde, por exemplo. O que existem são ondas eletromagnéticas de determinadas frequências que são captadas pelos nossos olhos e interpretadas de modo a facilitar a identificação. Assim, os objetos que emitem determinadas ondas são chamados de vermelhos e outros, com ondas quase nada menores, são chamados de verde. Para Johnston, “Não existem cores, cheiros, gostos ou emoções sem um cérebro consciente. O mundo da nossa consciência é uma grande ilusão”.

Assim, de acordo com essa visão, somos escravos de nossa consciência da mesma forma como os humanos são escravos da Matrix no filme. Isso é perigoso porque nossa consciência pode ser, ou melhor, é moldada de acordo com as conveniências de quem detém o poder. Portanto, controlar o processo de formação das consciências é fundamental para os donos do poder. Nesse sentido, como interpretar o processo de educação dos seres humanos segundo essa perspectiva? Se analisarmos bem, talvez não estejamos vivendo em um mundo tão distinto daquele proposto no filme dos irmãos Wachowsky.

Há ainda, a intrigante teoria de Nick Bostrom, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que diz que há 25% de chances de que nossa realidade seja, de fato, um programa de simulação por computador. Em um artigo publicado na revista Philosophical Quarterly, ele estima haver apenas três futuros possíveis para a humanidade: 1) nós seremos extintos antes de construir esses programas, por azar ou porque eles são impossíveis; 2) mesmo que possamos faze-los, não haverá interesse da humanidade em inventa-los, por problemas éticos. 3) nós, um dia, inventaremos essas consciências simuladas e Universos virtuais inteiros para que elas tenham onde viver. Nesses casos, a chance de alguém já ter feito isso antes são muito grandes, e nós talvez fôssemos uma dessas simulações.

Pois bem, façam suas apostas em qual desses três futuros possíveis da humanidade, propostos por Nick Bostron, nós nos encontramos. Para o próprio Bostron, a segunda hipótese é a mais cabível, isto é, de que os humanos poderão criar as tais consciências artificiais, mas por questões éticas não o farão, com medo de extinguir todo o mundo como conhecemos. A meu ver, esta segunda hipótese não deixa de ser tão provocante e perturbadora quanto a outra pois, se a humanidade tem a capacidade de produzir tal tecnologia, acredito que ela jamais deixará de faze-lo por questões éticas. Pode ser proibido por lei, mas sempre haverá pessoas com conhecimento dispostas a burlarem as leis e regras da ética a um certo preço. E se isso for possível, não há quem possa negar que já foi feito e que a realidade em que vivemos não seja apenas uma simulação de computador.

Viver em uma realidade virtual não implicaria necessariamente viver uma vida ruim, uma vez que a presumida “realidade verdadeira” pudesse não ser tão distinta assim da “realidade virtual” na qual estaríamos vivemos, segundo a crença de termos sido criado à imagem e semelhança do Arquiteto. Por outro lado, a situação poderia ser ainda pior se imaginarmos que, conforme proposto no filme 13 Andar, o mundo de nosso Arquiteto também pode ser uma simulação feita por outro Arquiteto e aí, talvez jamais chegaremos à conclusão alguma quanto a origem desses mundos e seus criadores.

Mas no final, o que tudo isso importa para nossa vida cotidiana? Tomar consciência de que talvez estejamos vivendo em uma realidade virtual modificaria nossa forma de viver? Faz tanta diferença assim ser uma criatura divina ou produto de uma realidade virtual? Veja como essas perguntas tem o potencial de abalar os principais fundamentos da vida de boa parte da humanidade e, só o exercício de pensar nas possibilidades decorrentes de múltiplas realidades, importa para questionarmos justamente esses fundamentos que são as bases de nossa vida. Basta imaginar se lhe fosse dado a oportunidade de tomar a pílula azul ou a vermelha, isto é, se tal como Neo, você pudesse optar por saber ou não se vive dentro de uma realidade virtual (Matrix), qual pílula você escolheria? Não me resta dúvidas que boa parte da humanidade optaria por seguir vivendo no mundo das sombras, pois as implicações das descobertas seriam tão grandes, que poderiam tornar impossível continuar vivendo com tal conhecimento. Nessas condições, é até natural que muitas pessoas concordem com Cypher e concluam que para seguirem vivendo tranquilas, de fato, “A ignorância é uma dádiva!”

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Em busca do ouro negro: uma aventura luso-brasileira de reconquista de Angola

Este texto tem como objetivo contar um pouco a história de uma expedição militar transatlântica movida por um Império com o objetivo de invadir e ocupar uma cidade em outro continente em busca do tão cobiçado ouro negro, muito abundante naquela região.

Não, não se trata de mais uma invasão estadunidense a algum país cheio de petróleo no Oriente Médio, mas de uma força expedicionária luso-brasileira composta, em sua maioria, por voluntários do Rio de Janeiro que decidiram, em 1648, partir em uma viagem de reconquista de Angola, principal centro de tráfico de escravos e fonte de mão-de-obra para os engenhos de açúcar brasileiros, que havia sido tomada pelos holandeses anos antes.

Antes de iniciarmos o texto, vale explicar que o mesmo foi escrito quando ainda cursava o primeiro semestre da faculdade de História, para a disciplina de História Ibérica e acabou sendo, naquele mesmo ano (02/05/2006), publicado no site Duplipensar. Por ter sido divulgando na Internet para um público não especializado em História, fui solicitado a retirar as notas de rodapé presentes no texto originalmente escrito. Contudo, solicitei que ao menos fossem publicadas as referências bibliográficas ao final do artigo. Espero que o texto possa interessar aos leitores do blog, mesmo tendo sido escrito ainda em um momento em que principiava meu caminho na pesquisa em História e os trabalhos ainda eram produzidos sem o uso de fontes primárias.

GRANDE AVANÇO HOLANDÊS NO SÉCULO XVII

Para entendermos um pouco melhor esta história, será necessário viajarmos quase seis séculos no tempo e recordar que foi ainda no século XV que Portugal iniciou sua expansão marítima pela África conquistando Ceuta, no ano de 1415. Nos anos seguintes, foram estabelecendo diversas feitorias ao longo da costa ocidental africana, cujos principais objetivos eram explorar comercialmente as riquezas locais e formar monopólios comerciais controlados pela coroa, sendo o ouro, o marfim e os escravos os principais monopólios portugueses na África.

Bandeira da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) com representação de soldado dos Países Baixos

A situação que era muito favorável a Portugal nos séculos XV e XVI, se transformou completamente com a entrada da Holanda na disputa pelo monopólio do comércio de produtos coloniais já no princípio do século XVII. Depois de ter tomado posse de quase todos os domínios portugueses nas Índias Orientais na disputa pelo mercado de especiarias, os holandeses invadem também o Recife e tomam das mãos dos portugueses o lucrativo mercado açucareiro, em 1630. Com Recife nas mãos, não tarda para que os holandeses percebem a forte relação que havia entre o açúcar brasileiro e o tráfico de escravos na África. Em uma de suas cartas, o Padre Antônio Vieira chegou a dizer que sem negros não havia Pernambuco, e sem Angola não havia negros.

Assim, uma vez que consolidaram definitivamente sua posição em Pernambuco, os holandeses começaram a montar novas armadas para também tomar os portos africanos que abasteciam os engenhos brasileiros de escravos. Em 1637, iniciam a conquista de praças portuguesas pela tomada do forte de São Jorge da Mina, na Guiné.

Em pouco tempo, os holandeses perceberam que São Jorge da Mina não era capaz de, sozinho, suprir as necessidades de mão-de-obra dos engenhos pernambucanos. Seja porque “Os negros de Guiné são mais difíceis de reduzir à escravidão do que os Bantos de Congo e Angola.”, como diz o historiador Pedro Puntoni em seu trabalho sobre a escravidão africana no Brasil holandês, seja porque a capacidade de oferta deste centro negreiro simplesmente não atendia à demanda brasileira. O fato é que, rapidamente, ficou claro aos holandeses que seria necessário tomar também outros centros mais importantes como a Ilha de São Tomé e Angola. Desta forma, em maio de 1641, quatro anos após a tomada de São Jorge da Mina, os holandeses enviam direto do Recife, uma frota composta por vinte e um navios e três mil homens, sob o comando de Cornelis Jol, com o objetivo de tomar dos portugueses a cidade de São Paulo de Luanda, em Angola.

Após levar dez semanas em uma travessia complicada do Atlântico, os holandeses atingiram a costa africana e procuravam a entrada da baía de Luanda. Foi somente neste momento que o comandante Jol descobriu que ninguém, em toda sua frota, conhecia a localização exata da entrada desta baía. Depois de algum tempo de indecisão vagueando pela costa africana, Jol se alegrou ao ver que dois de seus navios haviam apreendido o Jesus Maria José, navio mercante que vinha abastecer Luanda com 160 pipas de vinho . A grande sorte de Jol foi que, o capitão desta embarcação, um espanhol, não só lhe indicou a localização exata da entrada da baía de Luanda, mas também o ponto ideal em que os holandeses deveriam desembarcar, numa praia localizada à meia distância de dois fortes onde os canhões não poderiam atingi-los, segundo informa Charles Boxer em seu clássico Salvador Correia de Sá e a luta pelo Brasil e Angola.

Ao verem os holandeses desembarcando em seu ponto mais vulnerável, os portugueses pouco puderam resistir e, na manhã do dia 26 de agosto de 1641, tendo encontrado a cidade praticamente abandonada, os holandeses tomaram Luanda tendo perdido apenas três homens.

Assim que a notícia da tomada de Luanda se espalhou, Portugal, Espanha e os grandes senhores de engenho no Brasil entraram em desespero. Tendo em suas mãos Pernambuco, principal centro produtor do açúcar brasileiro, e Angola, fonte quase exclusiva da mão-de-obra dos engenhos no Brasil, os holandeses se transformaram nos senhores da situação, tal como afirma Jorge Caldeira: “os donos de engenho que quisessem continuar produzindo, agora dependiam dos holandeses”.

Mapa da cidade de São Paulo de Luanda, Angola, conquistada em 26 de agosto de 1641, por uma esquadra holandesa partida do Recife e publicada no livro de Gaspar Barleus. Autor desconhecido, s. d.

PORTUGAL RESPONDE COM PADRE ANTÔNIO VIEIRA 

Padre Antônio Vieira

Tendo perdido para os holandeses muitas de suas fontes de rendas ultramarinas, estando em constante ameaça de guerra com a coroa espanhola, da qual havia acabado de se tornar independente, e envolvidos até o pescoço em uma guerra não declarada contra os holandeses, Portugal se encontrava em uma situação bastante desconfortável. Economicamente arruinados, não tinham navios de guerra em número suficiente para montar uma frota, não tinham, sequer, pilotos experientes e gente especializada para seguir nesta expedição. Ao falar da armada que a coroa portuguesa estava preparando para defender a Bahia, Boxer ilustra bem a situação em que se encontrava Portugal: “a intenção era mandar mais de trinta navios, dos maiores, mas não foi possível encontrar para isso quantidade suficiente de homens e dinheiro, verificando-se que só se poderia dispor da metade do referido número”. É neste cenário desfavorável que entra em cena a figura do Padre Antônio Vieira, que desempenhou importante papel não só na diplomacia, ao tentar acordos de paz entre Portugal e Holanda, mas também atuando no campo estratégico da defesa de Brasil e Angola.

Um fato curioso envolvendo o Padre Antônio Vieira no caso da reconquista de Angola foi que, apesar dele ser favorável à celebração de um acordo amigável com os holandeses, onde estes entregariam as praças do Brasil e de Angola em troca de uma vultosa soma em dinheiro, foi ele quem levantou a soma de 300.000 cruzados para preparar a armada que partiria em defesa da Bahia. Em uma de suas cartas, chegou mesmo a dizer que iria buscar com sua roupeta remendada o que não conseguiam os ministros de Portugal. Para tanto, recorreu a mercadores criptojudeus (cristãos-novos) dizendo-lhes que “el rei carecia de um empréstimo daquela quantia a serem reembolsados por uma taxa sobre o açúcar”. Em dois dias recebeu resposta positiva de tais mercadores que, curiosamente, alguns anos depois, foram perseguidos pelos tribunais do Santo Ofício.

DUAS ARMADAS RUMO AO BRASIL 

Salvador Correia de Sá e Benevides, também conhecido como o restaurador de Angola

Em 1647, após ser nomeado capitão-geral e governador de Angola, Salvador Correia de Sá e Benavides, fidalgo português e também governador da capitania do Rio de Janeiro, começa a preparar uma frota às margens do Tejo, com o objetivo oficial de atingir um ponto na costa de Angola e montar uma fortaleza, de onde se tentaria contato com uma força portuguesa que resistia bravamente aos holandeses em Massangano desde a invasão em 1641. Todavia, secretamente, a missão de Salvador de Sá era expulsar os holandeses definitivamente de Angola, restaurando às mãos de Portugal o tráfico de escravos no Atlântico Sul.

Ao mesmo tempo em que Salvador de Sá preparava sua armada em Lisboa, os holandeses também preparavam uma frota muito poderosa em seus territórios. Composta por cinqüenta e três navios e 6000 homens, sob a liderança do experiente almirante de guerra Witte With, o objetivo dos holandeses era conquistar de vez o Brasil e manter o domínio sobre Angola, afastando qualquer pretensão portuguesa de retomar esta colônia de suas mãos. Com tamanha força, se a frota de With chegasse ao Brasil antes das frotas portuguesas que ainda estavam se preparando em Lisboa, tanto Brasil quanto Angola estariam irremediavelmente perdidos para os holandeses. A sorte dessas colônias seria decidida, então, em favor da frota que atingisse primeiro as costas de Brasil e Angola.

Como é de se supor, foram os portugueses com o conde de Villa-Pouca e Salvador de Sá que conseguiram mobilizar primeiro suas armadas e deixar a Europa antes do inverno de 1647. Tendo se atrasado na mobilização dos armamentos, os holandeses permitiram a chegada do inverno, o que impediu a saída da frota de With até fins de dezembro. A urgência de enviar tropas ao Brasil e Angola era tão premente que, mesmo com o rigoroso inverno, os holandeses acabaram se lançando ao mar no dia 26 de dezembro, o que acabou resultou em uma verdadeira catástrofe para eles. Durante a viagem, muitos homens morreram em razão das violentas tormentas. Um dos principais navios de guerra da frota perdeu-se juntamente com toda sua tripulação. Os navios que não naufragaram ou desapareceram no mar, refugiaram-se nos portos europeus antes de seguir viagem ao Brasil, o que acabou causando a morte de muitos outros homens pelo frio, umidade e falta de provisões. Foi somente no final de março de 1648 que começaram a chegar ao Brasil os navios remanescentes da tropa de With, tendo os últimos chegado somente em junho.

SALVADOR DE SÁ CHEGA AO RIO DE JANEIRO

Do lado português, em janeiro de 1648, assim que Salvador de Sá chegou ao Rio de Janeiro, cinco galeões da armada real que haviam servido na proteção da Bahia já o esperavam no porto. Junto com os navios, havia também uma carta do governador geral do Brasil, reforçando a necessidade urgente da partida da frota de Salvador à Angola antes que os holandeses soubessem dessa expedição e enviassem uma esquadra desde Pernambuco para impedi-la. Mesmo com as notícias vindas da Bahia, Salvador demoraria ainda quatro meses para que pudesse angariar todas as provisões, recrutar os homens necessários e levantar os fundos que custeariam a expedição de reconquista de Angola.

Tendo partido de Lisboa já com “800 infantes espalhados em sete navios”, Salvador iniciou a recrutar mais homens para sua esquadra. Obteve melhor êxito no Rio de Janeiro e região, talvez por estas regiões estarem com maior carência de mão-de-obra escrava do que em São Paulo. Os paulistas pouco se interessaram pela expedição de Salvador de Sá, o que lhe causou um grande desapontamento, uma vez que Antônio Vieira havia recomendado “os paulistas como os melhores combatentes existentes no Brasil àquela época”.

Salvador também recorreu ao povo do Rio de Janeiro para angariar os fundos de sua expedição. “O povo do Rio de Janeiro (…) recebeu bem a proposta e logo levantou-se um donativo de 55.000 cruzados”. Com esse dinheiro, Salvador fretou mais seis navios e comprou, às suas próprias custas, outros quatro, compondo finalmente a esquadra com quinze navios e 1400 homens.

Por sua vez, os holandeses já tinham a informação de que Salvador de Sá estava preparando uma armada para enviar a Angola, tanto que, em fevereiro de 1648, despacharam um navio com provisões e reforço de 135 homens para proteger Luanda. Além disso, em maio daquele ano, o comandante holandês Witte With, que àquela altura já havia chegado a Pernambuco, soubera por intermédio de prisioneiros que a esquadra de Salvador já estava a caminho de Angola. Ao receber esta notícia, With avisou imediatamente ao conselho administrativo no Recife, sugerindo que o enviassem em perseguição a Salvador. Temendo deixar Recife desguarnecido à frota do conde de Villa-Pouca ancorada na Bahia, o conselho decide não enviá-lo, acreditando que Salvador de Sá não seria capaz de mover um ataque organizado a Luanda por ele não ser um soldado, mas sim, um fidalgo.

Preparada a frota e com provisões para seis meses, Salvador de Sá se lança ao mar em 12 de maio de 1648, atingindo a costa africana no dia 12 de julho com apenas onze dos quinze navios que haviam partido do Rio de Janeiro.

Às vésperas do desembarque em Luanda, os portugueses ainda sofreriam um grande revés em sua expedição. Ao entardecer do dia 1º de agosto eles fizeram uma breve parada em Quicombo para se abastecerem de água e lenha. No momento em que baixavam as âncoras, foram surpreendidos por um “violento maremoto” que impingiu duras perdas aos portugueses como o “naufrágio do navio Almiranta (galeão São Luís) e a morte de mais de trezentos homens, dentre eles o almirante da armada”. Por muito pouco as ondas não põem toda a expedição à perder ao quase causar o naufrágio da nau capitânia, onde se encontrava Salvador de Sá. Robert Southey, historiador inglês do século XIX, descreve a tragédia de Quicombo de tal modo, que seu relato se assemelha muito aos dos sobreviventes das Tsunamis que afligiram o sudeste asiático em dezembro de 2004.

A RECONQUISTA DAS PRAÇAS DE LUANDA E SÃO TOMÉ 

Apesar dessa terrível tragédia, Salvador de Sá decide continuar a expedição de reconquista e parte definitivamente para a tomada de Luanda, chegando à baía da cidade aos 12 de agosto de 1648. No porto, dois navios faziam a guarda da cidade. Tendo os navios holandeses avistado a chegada da frota de Salvador de Sá, partiram em direção desta para lhes reconhecerem a nacionalidade e, ao descobrir se tratar de frota armada portuguesa, bateram em retirada deixando a defesa de Luanda desfalcada em 50 soldados.

Rainha Ginga, Nzinga Mbandi Ngola (1587-1663)

Da mesma forma como os holandeses haviam contado com a providência ao tomar Luanda em 1641, Salvador de Sá também foi agraciado pela sorte ao aprisionar dois pescadores negros que lhe daria todas as notícias do que se passava em terra. Soube por eles que a defesa de Luanda contava apenas com 250 homens naquele momento e que todos estavam encerrados nos fortes do Morro e da Guia. Soube também que o sargento-mor, Symon Pieterszoon, responsável pela guarda de Luanda, estava no interior combatendo os resistentes de Massangano com uma força de 225 holandeses e milhares de nativos da tribo dos Jagas, da Rainha N’Zinga, e que tão logo soubessem da chegada de Salvador em Luanda , estes viriam atacar os portugueses por terra.

Tendo recebido todas essas informações, Salvador de Sá percebeu que teria que agir rapidamente e, no dia seguinte, atracou no porto de Luanda, enviando três emissários incumbidos de conseguir uma rendição pacífica daquela praça. Os holandeses, desprotegidos, pediram oito dias para tomarem uma decisão, mas os portugueses ofereceram somente dois. Passado o prazo, nem esperaram resposta dos holandeses, no dia 15 de agosto desembarcaram no mesmo ponto onde os holandeses haviam aportado sete anos atrás e, com uma força de 1000 homens, Salvador ordenou que sua tropa marchasse à cidade que, estando praticamente desguarnecida, pouco resistiu. A verdadeira luta por Luanda estaria reservada aos fortes do Morro e da Guia, onde os holandeses haviam se encerrado e se preparado para a batalha naqueles dois dias que Salvador ofereceu de prazo para sua rendição.

Na madrugada de 17 para 18 de agosto, com três colunas de soldados, os portugueses iniciaram o ataque aos holandeses encerrados nos fortes de Luanda. Até o raiar do dia avançaram sobre os fortes, perdendo muitos homens na batalha. Ao perceber a ineficácia do combate, Salvador fez a chamada geral para a retirada. Tendo perdido quase cento e cinqüenta homens, dos quatrocentos alocados para a batalha, sua situação começa a se complicar em relação ao número de efetivos para a batalha. Por sua vez, as baixas holandesas foram insignificantes, totalizando três mortos e alguns poucos feridos. As piores perdas para os holandeses foram, talvez, os vários canhões que os portugueses haviam logrado explodir durante o combate . Para espanto geral, poucas horas após o malogrado ataque do morro, Salvador de Sá e sua tropa vêem uma bandeira branca ser hasteada pelos holandeses no alto do morro. Estes enviam seus mensageiros para anunciar sua disposição de entregar os fortes de Luanda e mais as posições avançadas de Kwanza e Benguela, desde que fossem permitido fazê-lo em condições favoráveis. Nem é preciso dizer que Salvador de Sá não só aceitou a proposta na hora, mas ainda permitiu que os holandeses estipulassem todas as condições da rendição.

Assim, no dia 21 de agosto foram assinadas por ambos os lados as condições de entrega que davam as seguintes garantias, conforme descrito por Charles Boxer:

“os holandeses evacuariam toda a colônia, levando consigo os seus pertences, obrigando-se os portugueses a fornecer navios apropriados para a viagem. (…) Os holandeses retirar-se-iam com honras militares, ao toque de tambores e com as bandeiras desfraldadas, sendo concedidos cinco dias para fazerem a completa evacuação e esperar a coluna de Pieterszoon, que vinha por terra. Durante todo esse tempo, Salvador devia evitar que fossem alvo de insultos ou ofensas da parte dos vencedores. (…) Concedeu-se ao sargento-mor (Pieterszoon) a alternativa de aceitar ou não as condições da rendição; mas tanto Ouman como Lens (comandantes holandeses que assinaram a rendição) se comprometeram a não ajudá-lo contra os portugueses. Aos soldados católico-romanos, na sua maioria franceses e alemães, e mais ou menos em número de cem, que estavam a serviço dos holandeses, deu-se a permissão de, se assim preferissem, passarem a servir aos portugueses”.

Todas as condições estipuladas na rendição foram cumpridas à risca e os holandeses saíram de Luanda no dia 24 de agosto de 1648, exatamente sete anos após o desembarque dos holandeses naquela mesma cidade. Ao receberem as notícias da capitulação de Luanda, os holandeses de Benguela e da Ilha de São Tomé também abandonaram estas praças por não se julgarem em segurança de manter suas posições. Assim que soube da ausência dos holandeses nessas praças, Salvador de Sá ordenou a preparação de uma Nau com soldados e munições para ocupá-las de tal forma que, após estas ocupações, a situação de Portugal na África voltava a ser a mesma que existia antes das invasões holandesas em 1641.

Após reconquistar Luanda, Salvador de Sá permaneceu ainda por três anos e quatro meses como governador de Angola e “pôs ordem nessas terras rehavidas em tão admiráveis circunstâncias”. A reconquista de Luanda deu muito prestígio a Salvador de Sá tanto em Portugal quanto no Brasil, pois mais do que simplesmente reconquistar uma feitoria perdida, ele havia reaberto a rota do tráfico negreiro do Atlântico Sul, que abastecia os engenhos brasileiros com a mão-de-obra escrava proveniente de Angola, o verdadeiro ouro negro do século XVII.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A reconquista de Luanda significou algo muito além das pretensões portuguesas. Em primeiro lugar, deu ânimo, forças, fundos e argumentos políticos para que os portugueses movessem outras batalhas contra os holandeses, como foi o caso da reconquista de Pernambuco, em 1654. Posteriormente, a reconquista garantiu a permanência de Brasil e Angola sob domínio português. Como viemos destacando, sem o acesso aos escravos de Angola, Portugal veria o negócio do açúcar inviabilizado no Brasil e, sem o dinheiro do açúcar e dos escravos, os portugueses não conseguiriam defender nenhuma de suas colônias da cobiça das outras potências europeias. Quiçá, sem estes lucros, os portugueses não conseguiram defender sequer seu próprio território destas mesmas potências, especialmente da Espanha. Teria sido impossível comprar os serviços de “proteção” prestados pelos ingleses, que não só garantiu as fronteiras de Portugal na Europa, mas também de suas colônias no Ultramar.

Assim, entendemos que a reconquista de Angola pela frota luso-brasileira comandada por Salvador Correia de Sá, teve uma importância vital para a própria existência de Portugal não só como metrópole, mas também como reino independente no cenário europeu do século XVII. Embora não cabe ao historiador julgar o que teria ocorrido se a história não tivesse se dado de uma maneira, mas de outra, é certo que sem Angola, tal como dizia o Padre Antônio Vieira, não haveria Brasil e, não havendo Brasil, a situação de Portugal ficava bastante enfraquecida diante de Espanha, França, Inglaterra e dos próprios holandeses.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOXER, Charles R. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686. São Paulo: Editora Nacional, Editora da Universidade de São Paulo, 1973.

BARLAEUS, Gaspar. Historia dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980.

CALDEIRA, Jorge. Viagem pela História do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

CARDONEGA, Antonio de Oliveira. História geral das guerras angolanas vol.2; Lisboa: Ed. Agência Geral das Colônias, [s.d.]

NORTON, Luís. A dinastia dos Sás no Brasil (1558-1652). Lisboa: Ed. Agência Geral das Colônias, 1943.

PUNTONI, Pedro. A mísera sorte: escravidão africana no Brasil holandês e as guerras do tráfico no Atlântico Sul. São Paulo: Ed. Hucitec, 1999.

SOUTHEY, Robert. História do Brasil Vol.2. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981.

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O Integralismo e a introdução de estratégias inovadoras de mobilização doutrinária (1932-1937)

“A principal tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. (…) Compreender a era nazista da história alemã e enquadrá-la em seu contexto histórico não é perdoar o genocídio. De toda forma, não é provável que uma pessoa que tenha vivido este século extraordinário se abstenha de julgar:  o difícil é compreender.”

Eric J. Hobsbawn
A Era dos Extremos: o breve Século XX (1914-1991)

INTRODUÇÃO

Em tempo de campanha eleitoral para os cargos eletivos municipais, sabemos que os principais partidos políticos vão mobilizar mundos e fundos (legais ou não) para veicular a imagem de seus candidatos nos principais meios de comunicação, tais como jornais, revistas, rádio, cinema, televisão e internet. Isso para não mencionar as tradicionais exibições de logos, camisetas, bandeiras e toda espécie de publicidade em obras públicas, hospitais, eventos esportivos, musicais e, até mesmo, cerimônias religiosas.

Assim, depois de falarmos sobre o crescimento da extrema direita na Europa e das políticas xenófobas e racistas de certos partidos políticos daquele continente, o Hum Historiador traz um breve ensaio que tem como objeto a Ação Integralista Brasileira e o uso de estratégias inovadoras de mobilização doutrinária introduzidas por este grupo na corrida eleitoral para a campanha presidencial de 1937, que pretendia, via eleitoral, colocar no poder seu “chefe máximo”, Plínio Salgado (1895-1975).

No Brasil, a utilização de tais estratégias de propaganda política começa logo após a Revolução de 30, que acabou por desbancar a República Velha, dominada pelas elites paulista e mineira, e colocou em seu lugar o gaúcho Getúlio Vargas. Foi justamente neste contexto que surgiu a Ação Integralista Brasileira (A.I.B), um grande partido de massa, de cunho nacionalista, autoritário e totalitário que introduziu estratégias inovadoras na mobilização doutrinária de sua militância através dos veículos de comunicação da época em questão.

É importante deixar claro que o texto a seguir não pretende entrar no mérito se o Integralismo é, de fato, um movimento de tipo fascista extra-europeu ou mero mimetismo ideológico. Busca apresentar a utilização de novas formas de mobilização doutrinária, tornadas possíveis a partir da revolução tecnológica – em especial a dos meios de comunicação – e influenciada por movimentos autoritários/totalitários surgidos na Europa no período entreguerras (1918-1939).

OS NOVOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A TRANSFORMAÇÃO DA POLÍTICA EM ESPETÁCULO

A Primeira Guerra Mundial está sendo reinterpretada por seus estudiosos que passaram a destacar a grande expansão do operariado industrial em função da revolução científico-tecnológica. Tais interpretações também destacam o desenvolvimento de várias formas de associação, organização, conscientização e construção de plataformas políticas radicais e projetos de transformação de toda a ordem social e econômica modelada pelas desigualdades, pela exploração e pelas injustiças do sistema capitalista.

Assim, em texto intitulado “O Renascimento modernista de São Paulo na década de 20”, Nicolau Sevcenko salienta a articulação de dois tipos de movimentos:

  • O movimento operário, que acabou se articulando para além das fronteiras e compondo programas de ação coordenada cujas tônicas eram a fraternidade, o internacionalismo, o pacifismo e o socialismo.
  • A direita conservadora, que respondeu financiando agitadores e partidos integristas, sustentando pela ação direta e repressiva o nacionalismo agressivo, o militarismo, o centralismo, o anti-socialismo e o anti-semitismo.

Dessa forma, a Primeira Guerra Mundial ganha uma utilidade, segundo a visão dos partidos emergentes após o seu término:

“Se a guerra servira para alguma coisa, proclamavam as novas lideranças dos partidos emergentes, foi para enterrar de vez a velha Europa liberal. Sobre as cinzas da guerra se haveria de construir a ‘Nova Ordem’: integrista, centralista, militarista, nacionalista e intolerante[1].”

Com as novas técnicas de comunicação de massa, a política se transforma em espetáculo e há, em contrapartida, a politização da estética:

“A versatilidade e a capacidade de sedução dos novos meios de comunicação social, associados às técnicas publicitárias, transformariam a política em espetáculo e politizariam a estética. A celebração da nova civilização industrial pelas formas do art-decó e pela linguagem truncada da cacofonia publicitária selariam a preponderância da nova ortodoxia do pós-guerra: o modernismo[2].”

Segundo Hobsbawn, “o velho liberalismo estava morto, ou parecia condenado. Três opções competiam agora pela hegemonia intelectual-política[3].”

  • Comunismo marxista;
  • Capitalismo reformado, sem a crença na otimização de livres mercados e ligado a social democracia não comunista;
  • Fascismo, que havia sido transformado pela grande depressão em movimento mundial.

A A.I.B. COMO REAÇÃO DA ELITE PAULISTA

A reação da elite vem através de “um grande processo de investimento, numa compensação simbólica, na forma de grandes superproduções no Teatro Municipal, envolvendo as principais famílias como patronos e até como artistas que participavam das encenações[4].”

Dentro desta reação, a própria Semana de Arte Moderna, realizada em 1922 no Teatro Municipal, está ligada a este contexto de tensão entre a elite paulista e as organizações do movimento operário, de um lado, e a ameaça dos empresários e industriais estrangeiros de outro. Sevcenko relembra que a Semana foi propiciada pelos esforços combinados de Washington Luís (governador do Estado) e Paulo Prado (filho do mais rico cafeicultor paulista).

Deste clima de instabilidade social do pós-guerra, emerge “uma ideologia nacionalista conservadora e autoritária disposta a bloquear quaisquer ameaças de mudança social[5].”

Abaixo esquematizamos em poucos tópicos o contexto econômico e ideológico que propiciaram a ascensão da A.I.B. justamente no período entreguerras:

Domínio estrangeiro da economia paulista:

No pólo industrial:

  • Expansão do operariado
  • Grandes greves em 1917, 1918 e 1919
  • Nova camada de industriais (catálogo da 1ª Grande Exposição Industrial de São Paulo)

No pólo agrícola

  • Nova camada emergente de imigrantes estrangeiros passam a dominar a agricultura.
  • Donos das áreas mais prósperas/férteis do Estado no extremo oeste paulista.

Plano econômico

  • Esgotamento da economia primário-exportadora apoiada na cafeicultura.
  • Processos de urbanização e industrialização afetam a composição social
  • Ampliação da classe operária
  • Diversificação da classe média

Plano ideológico

  • Erupção do nacionalismo cultural e econômico.
  • Revolução estética (modernismo).
  • Exaltação do civismo (Liga da Defesa Nacional).
  • Renovação na Igreja Católica (integrismo).

Assim, como bem nos lembra Hélgio Trindade, famoso estudioso da Ação Integralista Brasileira:

 “Num contexto histórico de mudanças econômicas e sociais significativas, emerge um processo de crise ideológica que está na origem do movimento integralista[6].”

A IMPRENSA INTEGRALISTA: NOVAS ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO DOS MILITANTES

Rosa Maria Feiteiro Cavalari, em seu livro sobre a ideologia e a organização da A.I.B. nos informa como os integralistas faziam uso do livro e dos periódicos para transmitir a doutrina do partido:

 “O livro veiculava as idéias produzidas pelos teóricos do partido e o jornal as popularizava. A doutrina mantinha-se viva para o integralista graças a sua materialização através do jornal[7].”

Segundo Cavalari, a função dos periódicos integralistas eram:

  • Periódico tinha função de atualização e popularização do “corpus teórico” integralista junto ao militante.
  • Transmitir a doutrina de modo uniforme
  • Não basta veicular as idéias integralistas, mas que esta veiculação ocorresse da mesma maneira em todos os periódicos.
  • Conteúdo & Forma.

Eis a visão de Plínio Salgado sobre as publicações do partido e a sua função quanto a doutrina integralista, emitida em um periódico local que repetia as diretrizes publicadas no Órgão Oficial do partido:

“O Integralista não obedece a um programa seu. Não se afastará nunca dos postulados da Ação Integralista Brasileira, que, de fato, dá um sentido único a todas as suas publicações.” O Integralista – Órgão da A.I.B. (Província do Paraná). Ano I, n. 1, Curitiba, 16 de agosto de 1934.

COMO SE ORGANIZAVA A A.I.B. PARA A TRANSMISSÃO DE SUA DOUTRINA

A estratégia de unificação e controle da A.I.B. tinha nas comunicações em massa um fator importante não apenas para atingir seus militantes instruindo-os quanto a doutrina e quais as posições que deveriam ter, mas também uma maneira de fazer proselitismo atraindo para si um número cada vez maior de militantes. Era a primeira vez que uma estratégia que abarcava meios de comunicação de massa como rádio e jornais era utilizado para atrair militantes políticos. Abaixo um esquema da estratégia adotada pela A.I.B. de unificação e controle:

Sigma-Jornais Reunidos

  • Compreendia um conjunto de 88 jornais em circulação em todo o território nacional
  • Função de padronização e orientação doutrinária.

Secretaria Nacional de Imprensa (S.N.I)

  • Função de orientar os periódicos.
  • Também acumulava função punitiva.

Comissões de Imprensa

  • Censurar e selecionar toda matéria de caráter doutrinário ou partidário a ser publicada.

Segundo Plínio Salgado, no Órgão Oficial da A.I.B.:

 “O século XIX foi o século do jornal disponível à praça pública onde se erguiam as vozes de todas as opiniões; mas este século, cheio de angústias, é o século do jornal doutrinário, porque o povo quer se orientar.” (SALGADO, Plínio. In: Monitor Integralista, ano V, n. 17, 20 de fevereiro de 1937, p. 14.)

ALGUNS NÚMEROS DA IMPRENSA INTEGRALISTA

  • 8 grandes diários
  • 105 hebdomanários e quinzenários espalhados por todas as Províncias;
  • 3 revistas ilustradas: Anauê! e Brasil Feminino no RJ e Sigma em Niterói.
  • Uma revista de alta-cultura: Panorama em São Paulo.
  • O Monitor Integralista, jornal oficial da A.I.B.
  • Cerca de 3.000 boletins, semanais e quinzenais, impressos ou mimeografados, referentes ao serviço de cada núcleo.

FONTE: Monitor Integralista, n. 22, 7 de outubro de 1937, p. 7. Apud. CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 87.

PERFIL DA REVISTA PANORAMA

Para exemplificar o que viemos destacando até o momento, vou utilizar a Revista Panorama, a qual obtive acesso à coleção completa entre os anos de 2007/2008, o que me permitiu traçar um breve perfil para contextualizar os exemplos que virão mais adiante neste texto.

Tida pelos integralistas como uma revista de “alta cultura”, a Panorama:

  • Revista mensal publicada pela A.I.B., em São Paulo, sob a direção de Miguel Reale
  • Circulou entre Jan/36 a Out/37
  • Jan/1936 – Marcada pela tentativa de golpe impetrada pelos comunistas em Nov/1935
  • Out/1937 – Fim marcado pelo golpe de Getúlio Vargas, em Nov/1937, e instauração do Estado Novo.
  • Destinada a um público mais intelectualizado.
  • Segundo Plínio Salgado, Panorama era uma “Revista de alta cultura”.
  • Seus principais objetivos era:
  1. Veicular idéias e teorias defendidas por teóricos e dirigentes do partido.
  2. Formar os quadros dirigentes da A.I.B.

Capa da primeira edição da revista Panorama pertencente ao acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO DO MILITANTE

Ao buscar persuadir o militante para aderir a Ação Integralista Brasileira, o partido fazia uso de estratégias que podem ser verificadas em praticamente todos os seus periódicos. Abaixo algumas das estratégias mais utilizadas nos periódicos que analisamos:

Repetição

  • Repetição constante de determinadas idéias no mesmo jornal ou em jornais diferentes.

Transcrição

  • Transcrição ipsis litteris de determinados artigos, matérias e colunas de outros periódicos e/ou capítulos de livros.

Lembretes

  • Uso constante de lembretes para fixar determinadas idéias

Propaganda comercial aliada à doutrina

  • Aliar o movimento ou a doutrina integralista a propaganda comercial
  • A marca do produto lembrava a existência do movimento. (Café Anauê, Cigarros Sigma, etc.)
  • Recomendação do produto lembra ao militante algum aspecto da doutrina.
  • É comum nos depararmos, em diferentes periódicos, com os mesmos artigos ou capítulos dos livros de Plínio Salgado, Gustavo Barroso, Miguel Reale e outros líderes do movimento.
  • Esses lembretes, que obedeciam os mesmos dispositivos tipográficos, eram publicados em destaque em jornais das mais diferentes localidades.
  • Integralistas, a pátria precisa de homens vigorosos e fortes! Força e Vigor só se obtém bebendo quino ferrol palomone. Cumpra o seu dever usando-o com frequencia.

EXEMPLOS DAS ESTRATÉGIAS DE PERSUASÃO DO MILITANTE ENCONTRADOS NOS PERIÓDICOS

Abaixo seguem exemplos de algumas das estratégias as quais nos referimos para a persuadir o militante: repetições e lembretes presentes na Revista Panorama.

EXEMPLOS DE PRODUTOS CUJAS MARCAS LEMBRAVAM A EXISTÊNCIA DO MOVIMENTO E ASPECTOS DA DOUTRINA.

Muito comum encontrarmos nos periódicos integralistas comerciais de produtos que utilizavam palavras ou lemas do integralismo, revertendo dinheiro para o partido e as marcas ganhando a fidelidade dos partidários da A.I.B. Abaixo alguns exemplos:

Outra forma de produtos se associarem a A.I.B. era simplesmente através da veiculação de seus produtos nos periódicos integralistas. Não eram produtos do partido, não adotavam os nomes de lemas ou palavras de ordem, mas, por outro lado, permitiam que o partido veiculasse mensagens que incentivassem os seus seguidores a comprar o produto. Abaixo alguns exemplos dessa modalidade:

OUTRAS ESTRATÉGIAS INOVADORAS NA PERSUASÃO DO MILITANTE

Ao analisarmos fotos da época em periódicos ou na bibliografia sobre o assunto, verificamos que o Integralismo estava presente em toda a vida do militante: desde o nascimento, participando com seus símbolos, uniformes e rituais em batizados, casamentos e funerais.

Batizados:

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 74.

Casamentos:

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 178.

Funerais:

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 180.

Vida Cotidiana:

Abaixo vemos um jogo de café, utilizado durante as reuniões dos militantes. Não conhecemos outro partido político que havia se utilizado de tais estratégias de comunicação de massa com seus militantes durante a década de 30.

Acervo Plínio Salgado. Arquivo Público e Histórico do Município de Rio Claro/São Paulo

Abaixo vemos integrantes do partido vergando seus uniformes juntamente com enfermeiras devidamente trajadas com o distintivo integralista, além de adesivos colados nas balanças de lactário financiado pela Ação Integralista Brasileira. O partido se preocupava sempre em divulgar a foto de sua presença em todos os setores da vida do brasileiro em seus periódicos de circulação local, regional e nacional.

CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Bauru: Edusc, 1999, p. 74.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: Edusc, 1999.
  • HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
  • PAXTON, Robert O. A Anatomia do Fascismo. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2007.
  • SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento Modernista de São Paulo na década de 1920. In: BUENO, Eduardo (org.). Os nascimentos de São Paulo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
  • TRINDADE, Hélgio. O Nazi-fascismo na América Latina: mito e realidade. Porto Alegre: UFRGS, 2004.

[1]  SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento Modernista de São Paulo na década de 1920. In: BUENO, Eduardo (org.). Os nascimentos de São Paulo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, pp. 197.

[2]  SEVCENKO. Op. Cit., pp. 198.

[3]  HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX – 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[4]  SEVCENKO. Op. Cit., pp. 200-201.

[5]  SEVCENKO. Op. Cit., pp. 203.

[6]  TRINDADE, Hélgio. O Nazi-fascismo na América Latina: mito e realidade. Porto Alegre: UFRGS, 2004, pp. 61.

[7]  CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: Edusc, 1999, pp. 79.

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Temos o direito de escolher quando e como morrer?

Após conversar com familiares de um vizinho do condomínio onde moro (após um grave acidente automobilístico há mais de um ano, meu vizinho entrou em estado de coma do qual jamais retornou), lembrei de um texto que escrevi há algum tempo e no qual fazia algumas considerações sobre a eutanásia no Brasil. Decidi republicá-lo aqui, pois foi impossível não pensar nisso após ver o sofrimento da família deste antigo vizinho com toda esta situação vivida no último ano e a desesperança total em ver seu ente querido voltar dessa longa viagem em que entrou desde que saiu de casa para ir trabalhar, em 2011, e não mais retornou.

Temos o direito de escolher quando e como morrer?
por Rogério Beier – publicado originalmente em duplipensar.net em 28/out/2006

Para falarmos um pouco mais sobre eutanásia é importante entendermos melhor, de maneira geral, o que é considerado a eutanásia.

Eutanásia é uma palavra grega cujo significado em português é “boa morte”. Pode-se entender a eutanásia como sendo a morte provocada pelo médico, com o consentimento do paciente, ou família, quando o sofrimento físico ou psíquico é incurável e insuportável.

De acordo com a legislação brasileira, a eutanásia é proibida e, caso algum médico seja pego praticando o “homicídio piedoso”, poderá pegar de quatro a dezessete anos de prisão, além de sofrer processo e a provável cassação do CRM, sendo proibido de exercer a medicina em território nacional. Apesar disso, é sabido que a eutanásia é praticada nos hospitais brasileiros. Não de maneira deliberada, mas de forma velada, muitas vezes apenas como a opção de não aplicar técnicas de ressuscitação em pacientes que sofrem uma parada cárdio-respiratória, por exemplo. Então, a pergunta que se faz é: Em que medida a eutanásia é praticada no Brasil? Infelizmente, não é possível obtermos uma resposta precisa a esta questão. Sabemos apenas que ela ocorre com bastante freqüência em nosso país. Para confirmar essa afirmação, basta perguntar a qualquer médico, enfermeira ou auxiliar de enfermagem de um hospital público ou privado no Brasil à sua escolha.

Na Holanda, onde a eutanásia foi legalizada há alguns anos, sabe-se que 3,5% das mortes anuais são apressadas por um médico. Em 1995, uma enorme pesquisa revelou que das 140 mil mortes anuais, 3600 tinham ocorrido por meio da eutanásia autorizada, 400 por suicídio assistido e 900 por eutanásia não consentida (sem a concordância do paciente por estar em estado de coma irreversível).

A morte, na maioria dos casos, é um evento traumático e excessivamente doloroso para muitas pessoas. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e Europa têm revelado que cerca de 40% dos óbitos ocorridos nesses países foram descritos como sendo extremamente dolorosos ou com grande sofrimento. Por isso que é importante discutir a eutanásia de maneira ampla e irrestrita em nossa sociedade. Será que não há uma forma de morrer na qual não haja tanto sofrimento desnecessário ao ser humano?

Para responder essa pergunta, é necessário enfrentar um grande tabu, que é justamente a discussão aberta da eutanásia sem que se escandalizem com as posições de ambas as partes. Ainda hoje, nos corredores hospitalares brasileiros, evita-se a discussão aberta, pois a eutanásia toca diretamente em um tema puramente econômico. Morrer, em qualquer hospital do mundo, custa muito dinheiro.

Em reportagem da revista Super Interessante (Maio de 2001), “definhar em um leito de hospital custa 2 mil reais ao dia, seis vezes mais se for em uma UTI”. Nos últimos meses de vida, um paciente terminal de câncer gastará mais dinheiro com medicamentos e tratamento do que em toda sua vida. Nos Estados Unidos, uma pesquisa realizada pela CNN/Time revelou que cerca de 1/3 dos estadunidenses levam sua família à falência ao morrer. Há quem se questione sobre os reais motivos pelos quais os médicos tentam fazer de tudo para salvar um paciente, mesmo sabendo que o tratamento não trará resultado algum. Seria pura dedicação profissional ou uma política cruel visando apenas aumentar os lucros do hospital? Eis uma dúvida difícil de responder, pois certamente, ambas as possibilidades podem estar ocorrendo.

Na Inglaterra, onde a Eutanásia ainda não é legalizada, o governo decidiu deixar de pagar hemodiálise para as pessoas com idade acima de 65 anos, e investir o dinheiro em campanhas antitabagistas, cujas doenças associadas podem ser evitadas e os custos governamentais com saúde reduzidos. Praticamente, uma sentença de morte aos idosos com problemas renais.

Apesar da questão financeira desempenhar papel importante na transformação da eutanásia em tabu, ele ainda não está nem perto de ser o problema central da questão. Discutir a eutanásia é muito difícil pois toca fundo na religiosidade das pessoas, fazendo com que muitos se calem, ou até mesmo, ignorem totalmente a questão, para não entrarem em contradição com suas convicções religiosas.

A discussão ganha uma nova dimensão ao entrar no mérito de quem decide como e quando a morte deve acontecer. Todas as grandes religiões, com exceção do budismo, discordam da possibilidade do ser humano decidir o fim de sua própria vida. Para eles, essa decisão cabe exclusivamente a Deus.

Além da religião, há outros argumentos utilizados contra a legalização da eutanásia. Celso Ferenczi, em entrevista à  Super Interessante, afirma que a legalização da eutanásia no Brasil é inconstitucional.

“O que se chama de morte piedosa, vai contra a declaração dos direitos humanos da ONU. A declaração estabelece o direito fundamental à vida. Esse tipo de direito é inalienável, isto é, não se pode abrir mão dele. Como os direitos humanos são cláusula pétrea de nossa Constituição, não podem ser modificados nem se todos os deputados votarem a favor – só uma nova assembléia constituinte teria poder para aboli-los”.

O ex-senador Gilvam Borges, PMDB-AP, não só discorda como, em 1996, propôs um projeto de lei para legalizar a eutanásia no Brasil. De acordo com o projeto, só seria autorizada eutanásia depois que uma junta de cinco médicos atestassem a inutilidade do sofrimento físico ou psíquico do doente. O texto ainda prevê que o próprio paciente requisite a eutanásia ou, caso esteja inconsciente, sua família tome a decisão pró morte. Este projeto jamais foi colocado em votação no senado federal e caducou. Gilvam acredita que seu projeto não tenha mobilizado os parlamentares porque ele traz “prejuízos eleitorais”.

Contudo, ao contrário do que acontece no Brasil, mesmo em lugares onde a eutanásia é proibida, como nos Estados Unidos, a sociedade se organiza em associações que se mobilizam de acordo com suas opiniões para defender ou atacar a eutanásia. São os grupos pró-escolha ou pró-vida, respectivamente.

Os militantes do grupo pró-vida alertam para o fato de que a legalização da eutanásia poderia abrir um precedente enorme que acabaria justificando a eutanásia não consentida. Eles temem que ocorra a execução sumária de deficientes e, pior, um novo holocausto. Há quem diga que são temores histéricos e injustificados, porém, convém lembrarmos que em 1939, a Alemanha nazista instituiu um plano de eutanásia chamado Aktion 4 para matar quem tivesse “uma vida que não merecia ser vivida”. A partir desse ano, crianças deficientes físicas e mentais passaram a ser mortas. Pouco tempo depois, em 1940, o plano de eutanásia não-voluntária se estendeu aos adultos deficientes e depois para negros, judeus, ciganos e homossexuais, que foram executados aos milhares, na chamada Solução Final, nos campos de concentração nazistas.

Já o grupo pró-escolha, defende a liberdade de cada um decidir a forma e o momento de morrer. Não entendem a necessidade de prolongar o sofrimento de um ser humano que não tem mais meios de voltar à vida como a conhecemos. O escritor inglês Derek Humphry, ativista pró-escolha, escreveu em 1991 o livro Solução Final. Nessa obra ele vai muito além de defender a eutanásia, ensina as diversas formas como um indivíduo pode se matar, dando inclusive as doses certas de cada medicamento e até sugere que o paciente faça uso de um saco plástico na cabeça, para que a asfixia diminua as chances de um suicídio mal sucedido. Obviamente Humphry desperta a ira dos militantes pró-vida, mas isso prova, ainda mais, o quanto o tema necessita ser discutido amplamente.

Um tema recente que vêm dando mais argumentos aos grupos pró-vida, são os novos medicamentos para auxiliar no tratamento da dor. José Oswaldo de Oliveira Júnior, neurologista do Hospital do Câncer, também em entrevista à mesma edição da Super Interessante, de maio 2001, diz que

“é possível controlar a dor em 96% dos pacientes, usando drogas novas e antigas. Nosso trabalho não é dar mais dias à vida – é dar mais vida aos dias (…) Morrer não é uma opção terapêutica. Quando o paciente diz ‘me mata’, ele quer socorro, não quer morrer”.

Outro avanço que está auxiliando no tratamento de doentes terminais é o conhecimento cada vez maior do cérebro humano. Pessoas que desejam a própria morte normalmente estão depressivas e a depressão é uma doença que pode se tratar com remédios que, cada vez mais, têm mostrado sua eficiência. A psiquiatra Maria Tereza da Cruz, na mesma entrevista, afirma categoricamente: “Jamais tive um paciente que quisesse morrer de forma tão firme que sua convicção resistisse a uma longa conversa ou a remédios apropriados”.

Particularmente, no caso do vizinho que mencionei logo no início deste post, não consigo pensar outra solução, uma vez que os médicos já afirmaram que o estado dele é irreversível. Claro que, longe de viver uma situação parecida com a dos meus vizinhos, minha posição é favorável à prática da eutanásia, mas confesso que não sei como reagiria se o mesmo estivesse ocorrendo em minha família ou com amigos muito próximos.

Para concluir este post, deixo um clássico do Rock que trata dessa temática e que sempre me impactou muito, desde que o vi pela primeira vez lá por volta de 1990.

(…)
Darkness imprisoning me
All that I see
Absolute horror
I cannot live
I cannot die
Trapped in myself
Body my holding cell
(…)

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Reflexões sobre o trabalho: de maldição divina a uma louca paixão (Parte II)

“As nações pobres são aquelas onde o povo se sente à vontade;  as nações ricas são aquelas onde ele é, normalmente, pobre.”

Destutt de Tracy

No post anterior, começamos a contar o caminho que o trabalho percorreu de maldição divina, quando segundo a tradição judaico-cristã Deus expulsa Adão e Eva do Éden até chegar a essa visão que temos hoje na qual o trabalho se transformou em uma louca paixão na qual

Começamos essa trajetória com a tradição judaico-cristã e a maldição divina; passamos pela visão de sociedades antigas escravistas (Grécia e Roma), até chegarmos ao momento de virada, quando a ética protestante, juntamente com o espírito do capitalismo, transformou a visão do trabalho de algo vil e desprezível, digno apenas dos escravos, na maior das virtudes a ser perseguida pela humanidade.

Terminamos a primeira parte deste post apresentando um contraponto a esta visão de trabalho das sociedades europeias dominadas pela ética protestante (em especial a inglesa e a francesa), no diálogo estabelecido pelo calvinista francês Jean de Lery com um velho Tupinambá que vivia na Baía da Guanabara por volta dos anos 1557-58.

A segunda parte deste post tratará de como aquela visão de trabalho proposto pela ética protestante tal como proposta por Max Weber, transformou-se, com a distribuição social do trabalho imposta pelo modo de produção capitalista, nessa estranha e louca paixão que faz com que os trabalhadores lutem pelo direito de ser explorados.

Lafargue e o Direito à Preguiça

Ao escrever este panfleto revolucionário em 1880, Paul Lafargue chegou a pensar em nomeá-lo como direito ao lazer e, depois, direito ao ócio. Contudo, como explica Marilena Chaui, ao propor como direito um pecado capital para intitular seu panfleto, o autor visava atacar frontalmente o que ele chamava de “religião do trabalho”, o credo da burguesia para dominar as mãos, os corações e as mentes do proletariado, em nome da nova figura assumida por Deus, o Progresso.

Neste sentido, O Direito à Preguiça, surge como uma tentativa de Lafargue em responder justamente como os proletários podem reivindicar o trabalho como um direito. Trata-se, portanto, de um panfleto cujo objetivo é realizar a crítica materialista do trabalho assalariado ou do trabalho alienado.

Trabalho Alienado

Para entendermos o que é trabalho alienado é preciso, em primeiro lugar, entendermos o conceito de alienação a que se refere Lafargue quando escreve sua obra. Tal como nos ensina Marilena Chaui

“as palavras “alienação” e “alienado” são derivados de um pronome da língua latina, alienus, aliena, alienum, que significa “outro, outra”, no sentido de “alheio, alheia”. Quando se diz que um doente mental é um alienado, o que se quer dizer é: 1) ou que ele se tornou um outro para si mesmo, tornou-se alheio a si mesmo, não se reconhece tal como é, mas se imagina como um outro (por exemplo, aquele que imagina que é Cristo, Napoleão ou Hitler); 2) ou que ele imagina a existência de um outro superpoderoso ou uma existência alheia à sua que pode dominá-lo, forçá-lo a fazer o que não quer, matá-lo, etc. A paranóia é um dos casos clínicos da primeira forma da alienação, e a esquizofrenia é um dos casos clínicos da segunda. Não será por acaso que Lafargue se refira à “paixão pelo trabalho” como um caso de loucura. O trabalho de que ele fala é o trabalho alienado.

Outra coisa que é necessário entender antes de seguirmos com a definição de trabalho alienado, é entendermos que para Marx e Lafargue, o trabalho, em si mesmo, é uma das dimensões da vida humana que revela nossa humanidade, pois é por ele que dominamos as forças da natureza e que satisfazemos nossas necessidades vitais básicas e é nele que exteriorizamos nossa capacidade inventiva e criadora. Portanto, segundo esta visão, o trabalho exterioriza numa obra a interioridade do criador, isto é, o sujeito que produziu uma determinada obra se reconhece como produtor daquele objeto.

Assim sendo, para que o trabalho se torne alienado, isto é, para que oculte, em vez de revelar, a essência dos seres humanos e para que o trabalhador não se reconheça como produtor das obras, é preciso que a divisão social do trabalho, imposta historicamente pelo capitalismo, desconsidere as aptidões e capacidades dos indivíduos, suas necessidades fundamentais e suas aspirações criadoras e os force a trabalhar para outros como se estivessem trabalhando para a sociedade e para si mesmos. Resumindo de maneira bem esquemática tal como proposto por Chaui: “sob os efeitos da divisão social do trabalho e da luta de classes, o trabalhador individual pertence a uma classe social – a classe dos trabalhadores -, que, para sobreviver, se vê obrigada a trabalhar para uma outra classe social – a burguesia -, vendendo sua força de trabalho no mercado”. Ao proceder desta forma, o trabalhador aliena para um outro sua força de trabalho que, ao ser vendida e comprada, se torna uma mercadoria destinada a produzir mercadorias. É justamente por este motivo que o trabalho, reduzido à condição de mercadoria produtora de mercadorias, não realiza nenhuma capacidade humana do próprio trabalhador, mas sim as exigências impostas pelo mercado capitalista. Por este motivo também, os trabalhadores não se reconhecem nos produtos que produzem, pois estes não exprimem suas necessidades e capacidades.

Além disso tudo, as condições que o mercado de trabalho impõem ao trabalhador são tão competitivas que estes vendem sua força de trabalho por um preço muito inferior ao trabalho que realizam e justamente por isso se empobrecem à medida que vão produzindo riqueza para os outros. Os produtos que produz, de maneira geral, não estão ao seu alcance, seus preços seguem a lei do mercado impostas pelos capitalistas e como o trabalhador precisa de muitos desses produtos para sobreviver (em especial alimentação e vestuário), passam a aceitar as piores condições de trabalho, os piores salários, a pobreza, a miséria, o frio, a doença só para terem o DIREITO AO TRABALHO, com o que terão salário para comprar o mínimo daquilo que eles mesmos produziram. Os trabalhadores são dominados pelo mercado. pois se veem obrigados a aceitar qualquer condição para trabalhar, e são dominados pelos produtos do trabalho, pois precisam adquiri-los a preços exorbitantes no mercado.

Marcelo Masagão, em seu excelente Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (1999), conseguiu exemplificar magnificamente em uma cena de 90 segundos tudo isso que levei três ou quatro parágrafos para descrever sobre a alienação do trabalho e seus efeitos. Veja a cena a que me refiro abaixo:

Trabalho Assalariado

Em O Capital, Karl Marx explica que a especificidade do capitalismo consiste justamente em acumular e reproduzir riqueza social e assegurar os meios para a apropriação privada dessa riqueza. Portanto, a marca que distingue o capitalismo de outras formas econômicas é justamente a de produzir cada vez mais capital.

Há duas maneiras como a riqueza pode ser acumulada: 1) uma classe social poderosa expropria outras classes sociais dos seus meios de produção (terra, instrumentos de trabalho) e se apropria privadamente desses meios com os quais aquelas classes produziam sua subsistência e um excedente para trocar no mercado; 2) os proprietários privados dos meios de produção forçam as classes expropriadas a trabalhar para eles, mediante um salário, para produzir os bens que também serão propriedade privada do empregador. O trabalho se torna assalariado e submetido às leis da propriedade privada capitalista.

O trabalho assalariado é justamente o responsável pela mágica do crescimento do capital, obviamente, não nas mãos dos trabalhadores. Como nos ensina Marilena Chaui, o salário do trabalhador é calculado levando em conta o tempo socialmente necessário para a produção de uma mercadoria e as necessidades do produtor. Se imaginarmos, por exemplo, que para a produção de uma mercadoria qualquer fossem necessárias oito horas de trabalho e que cada hora de trabalho vale R$2,00 (isto é, para alimentar-se bem, vestir-se bem, transportar-se bem, cuidar bem da família, frequentar escolas, ter férias e lazer, ter bons cuidados com a saúde pessoal e da família, etc., o trabalhador deveria receber essa quantia por hora de trabalho). Dessa forma, em nosso exemplo, ele deveria receber R$16,00 pelas oito horas de trabalho. No sistema capitalista, o que acontece é que ele receberá por essas oito horas trabalhadas, na melhor das hipóteses, R$ 8,00 e, na pior, R$ 2,00. Portanto, o tempo socialmente utilizado pela força de trabalho não foi totalmente pago pelo salário. É exatamente esse tempo de salário não pago à força de trabalho – o que o Marx chama de mais-valia – que faz crescer o capital, isto é, o que chamamos de lucro. É um engano, portanto, acreditar que o lucro se dá no momento em que o produto final é comercializado. O lucro se dá, na verdade, no exato momento em que a força de trabalho não foi remunerada pelo salário correspondente.

Desta forma, respondemos como é mágica que faz o capital crescer e se multiplicar: através da exploração da força de trabalho. Exploração essa a que chamamos TRABALHO ASSALARIADO. Que fique muito claro: a riqueza é produzida, mas sua apropriação não é social, mas sim privada, ficando na mão de quem possui os meios de produção (terra, instrumentos de trabalho, etc.).

McLuham

Frase atribuída a McLuhan, retirada do documentário Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (Marcelo Masagão / 1999).

Vale lembrar, como fez o amigo Munhoz nos comentários da primeira parte deste post, que mesmo em países socialistas o trabalho foi cultuado como dogma e imposto de formas degradantes e, até mesmo, criminosa. Como fala Marilena Chaui, ainda hoje os trabalhadores precisam lutar pelo direito à preguiça, especialmente se considerarmos o que se passou na história dos movimentos de esquerda. Não só os partidos socialistas e comunistas ergueram mundo a fora a bandeira do direito ao trabalho, como o stalinismo glorificou a virilidade do trabalhador que se esfalfa até o fim de suas forças para ganhar prêmios de produtividade e construir a sociedade livre do futuro, construção que incluía campos de trabalho forçado para todos os dissidentes, considerados “inimigos internos” do proletariado e de sua revolução. Justamente por isso que, ainda hoje, O Direito à Preguiça, este panfleto de alerta publicado na França em 1880, reforça a minha convicção de que as ideias de Lafargue e Marx estão mais vivas do que nunca.

Uma outra visão de mundo: a vida social dos Tupinambás no “Brasil” e sua visão de trabalho 

Para finalizar o post, gostaríamos novamente de contrapor essa maneira de ver o trabalho, tal como nos foi imposto pelo capitalismo através da divisão social do trabalho e da luta de classes, com uma outra visão de mundo. Recorremos, uma vez mais, à vida social dos Tupinambás e a visão que estes grupos humanos, dispersos em uma larga extensão do território que viria a ser o Brasil, do mundo e do trabalho.

Utilizamos trechos de imagens selecionadas do documentário “O Povo Brasileiro”, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro, nas quais aparecem o jornalista Washington Novaes e o próprio Darcy Ribeiro, relatando, com base em suas pesquisas de campo, como era viver com esses índios em uma sociedade autossuficiente e com um desejo de beleza em tudo o que fazem.

A edição das partes selecionadas fez com que o vídeo ficasse com um pouco mais de 9 minutos. Sugiro que assistam ele todo, pois é bastante rápido e muito emocionante. Confesso que mesmo depois de ter assistido inúmeras vezes, ainda fico com os olhos úmidos ao final da exibição da entrevista do Washington Novaes.

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Reflexões sobre o trabalho: de maldição divina a uma louca paixão. (Parte I)

“Trabalhadores do mundo, uni-vos!”

Com esta célebre frase do Manifesto Comunista (1848), Karl Marx e Friedrich Engels chamavam a atenção dos trabalhadores para a necessidade premente deles se organizarem a fim de lutarem por seus direitos contra a exploração de sua força de trabalho por uma burguesia cada vez mais ávida por acumular riqueza.

Os operários de 1933 - Tarsila do Amaral

Nos 164 anos que nos separam da publicação deste manifesto, tanta coisa já se passou: revoluções (sociais e tecnológicas), o comunismo, guerras mundiais, o nazismo, a guerra fria e, até mesmo, o “Fim da História”. Tudo isso já aconteceu e, ainda assim, mesmo depois de todo este tempo com todas as mudanças que ele trouxe consigo, as ideias de Marx e o seu clamor por união entre os proletários de todo o mundo continuam ainda mais atuais hoje do que talvez jamais estiveram. Afinal de contas, os trabalhadores continuam sendo a base sobre a qual toda a riqueza do mundo é produzida e aumentada ano após ano tal como prevê as regras do capitalismo. Neste sentido, os proletários continuam tendo sua força de trabalho explorada e, pior de tudo, passaram a acreditar, como diria Paul Lafargue, na “Religião do Trabalho”. Passaram a ter tanta fé nesta religião, que aceitam livremente ser explorados e, mais do que isso, como se estivessem movidos por uma estranha loucura, lutam pelo direito de trabalhar, chegando até mesmo a abrir mão de conquistas históricas para manter este estranho direito de servir voluntariamente aos interesses burgueses que os mantém cada vez mais pobres.

Basta folhear qualquer jornal para colhermos exemplos frescos do que estou falando, ainda mais nesses tempos de profunda crise econômica na Europa e nos EUA. No caderno Mundo da Folha de S. Paulo de hoje, por exemplo, vemos a manchete “Credor exige corte de 15% de custos trabalhistas gregos”. Já no caderno Mercado, de 27/03, via-se esta outra: “Sindicalistas discutem setor automotivo com governo”. Nesta última, surpreende o fato de que os representantes de centrais sindicais e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC pretendem, dentre outras coisas, negociar com o governo medidas para aumentar o consumo de veículos automotores (???) e, também, um programa para “modernizar” o seguro-desemprego para que se transforme em um sistema de manutenção de emprego e renda.

Além de manchetes como estas, também é comum acompanharmos, através dos jornais, a movimentação de políticos com propostas de reduções no valor da aposentadoria ou aumento no número de anos de contribuição, propostas de cortes de programas sociais ou, ainda, propostas de isenção de impostos para empresas privadas sob a ameaça destas saírem das cidades onde estão estabelecidas. Enfim, notícias que demonstram cada vez mais o aprofundamento da pobreza dos trabalhadores ao redor do mundo e o enraizamento da crença de que só o trabalho, mesmo que em condições cada vez piores, é capaz de retirá-los desta condição de miséria em que se encontram.

Como explicar esse paradoxo de uma classe que reconhece ser explorada (e que esta é a razão de sua miséria), mas que, apesar disso, ainda exige e luta pelo direito de trabalhar? Nas palavras de Paul Lafargue: “Como explicar que os trabalhadores reivindiquem o trabalho como um direito? Como explicar que aquilo mesmo que os destrói lhes apareça como conquista revolucionária de um bem?”

As respostas para estas questões exigem a compreensão do caminho percorrido pela ideia que as diferentes sociedades da Europa ocidental faziam a respeito do trabalho e que, a partir de um determinado momento específico na história, acabou por se transformar de maldição de Deus contra a humanidade, em uma virtude quase sagrada e sem a qual, hoje em dia, a vida como a conhecemos seria impossível.

Embora tenhamos mencionado de passagem o tema deste post em um texto anterior (A disseminação do ódio contra os pobres nas redes sociais), o objetivo deste pequeno ensaio é tratar mais detalhadamente este paradoxo. O texto foi preparado tomando como base o capítulo de Introdução feito pela professora Marilena Chauí para o livro Direito à Preguiça, de Paul Lafargue, sendo que cada uma das partes do texto é pouco mais do que uma breve síntese do exposto por Chaui em sua Introdução. Para adicionar algo novo e não ficar apenas na síntese, trago o diálogo de Jean de Lery com um velho Tupinambá (1578) e, também, trechos que editei de um documentário dirigido por Iza Ferraz, no ano 2000, inspirado na obra de maior sucesso de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro, trazendo as considerações deste antropólogo a respeito da vida em sociedade dos Tupinambás. Acredito que a comparação entre a visão atual que temos sobre trabalho, criticada por Chaui em sua Introdução ao Direito à Preguiça, e a visão que grupos indígenas tinham a respeito da vida em sociedade e do papel do trabalho neste âmbito, são bastante significativos e revelam claramente como ele se converteu em uma louca paixão que transforma a todos humanos em mercadorias descartáveis.

O PRINCÍPIO: O Trabalho como maldição na tradição judaico-cristã

Segundo a visão judaico-cristã, o trabalho aparece na vida do homem quando Adão e Eva são expulsos do Paraíso por terem desobedecido a Deus e cometido o assim chamado “Pecado Original”. Antes de partirem definitivamente do Jardim do Éden, Deus amaldiçoa especificamente cada uma de suas criaturas, dizendo à mulher:

“(…) Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos hão-de nascer entre dores. Procurarás com paixão a quem serás sujeita, o teu marido.”

E, em seguida, diz ao homem:

“Porque ouviste as palavras da tua mulher e comeste o fruto da árvore a respeito da qual eu te havia ordenado: ‘Nunca deveis comer o fruto desta árvore’ maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida. Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar”.

Gênesis. 3:16-19.

Adão e Eva expulsos do Paraíso em Ilustração de Gustave Doré.

O trabalho para gregos e romanos

Se considerarmos outras sociedades antigas, como as gregas e romanas, baseadas no escravismo, o trabalho era visto como pena que cabe aos escravos e desonra que cai sobre homens livres e pobres. Nestas sociedades, poetas e filósofos proclamavam o ócio como um valor indispensável para a vida livre e feliz, para o exercício da nobre atividade da política, para o cultivo do espírito (pelas letras, artes e ciências) e para o cuidado com o vigor e a beleza do corpo (pela ginástica, dança e arte militar).

Como bem lembra Marilena Chaui, são estes últimos que, em Roma, eram conhecidos como os humiliores (humildes ou inferiores) em contraposição aos honestiores (os homens bons porque livres, senhores da terra, da política e da guerra).

A origem de nossa palavra trabalho, aliás, vem do latim “tripalium”, que era um instrumento de tortura utilizado para empalar escravos rebeldes. E o “labour”, da língua inglesa, também tem sua origem no latim, na palavra “labor”, cujo significado é esforço penoso, dobrar-se sob o peso de uma carga, dor, sofrimento, pena e fadiga. Como lembra Chaui, é bastante significativo que línguas modernas latinas tenham recuperado a maldição de Deus contra Eva ao utilizar a expressão “trabalho de parto” para designar as dores que antecedem o nascimento de uma criança.

O trabalho em Weber e sua ética protestante

Essa visão do trabalho como algo socialmente desprezado, vil e mesquinho persiste por séculos nas sociedades europeias ocidentais e, segundo o sociólogo alemão Max Weber, só vai efetivamente passar a se transformar em virtude quando um vínculo entre a moral protestante calvinista (especialmente do puritanismo) e a economia é finalmente estabelecido. Será a partir deste momento que o trabalho se transforma de castigo em virtude e vocação divina. Chaui destaca que para Weber,

“(…) o puritanismo passa a valorizar a vida secular como um dever e, assim, a partir daquele momento ser um cristão virtuoso é seguir um conjunto de normas de conduta nas quais o trabalho surge não apenas como obrigação moral, mas como poderoso racionalizador da atividade econômica geradora de lucro. Aquele que faz seu trabalho render dinheiro e, em lugar de gastá-lo, o investe em mais trabalho para gerar mais dinheiro e mais lucro, vivendo frugalmente e honestamente, é um homem virtuoso. Portanto, trabalhar é ganhar para poupar e investir para que se possa trabalhar mais e investir mais.”

Tal ética que mudou a percepção do trabalho, coincidiu com o advento do capitalismo e acabou dando ao ócio um aspecto muito mais terrível do que ele tivera até então. Como prova disso, Chaui menciona as diversas legislações iniciais do capitalismo que transformaram a mendicância e a preguiça em crimes sujeitos à pena de prisão e, em certos casos, de morte. Portanto, nesta nova ética burguesa do trabalho, o homem honesto, que trabalha, poupa e investe, é a auto-imagem do burguês e não aqueles que trabalham para que o burguês poupe e invista.

Um encontro entre dois mundos muito distintos: o diálogo de Jean de Lery e um velho Tupinambá

Jean de Léry (1534-1611), foi um membro de um grupo formado por catorze calvinistas que vieram da Suíça na tentativa frustrada de fundar uma colônia francesa na Baía da Guanabara: a França Antártica, comandada por Nicolas de Villegagnon.

No capítulo XIII de seu livro, o “Viagem à Terra do Brasil”, publicado em 1578 na França, Léry transcreve um diálogo entre ele e “um velho Tupinambá”, através da qual podemos observar um grande estranhamento e impasse cultural entre o mundo de Jean de Lery e o mundo do velho Tupinambá, especialmente em relação às ideias de trabalho e ócio.

Tendo permanecido na América Portuguesa entre fevereiro de 1557 e janeiro de 1558, este diálogo ajuda a demonstrar a ideia do trabalho com o objetivo de acumulação de riqueza pessoal, tal como descrito por Max Weber, já no século XVI. Como dissemos anteriormente, é esta nova ética em relação ao trabalho, em conjunto com o “espírito do capitalismo”, que vai dar origem à transformação da visão do trabalho de maldição em virtude.

Antes de partirmos à transcrição do diálogo de Lery com o Tupinambá, vale mencionar um pequeno trecho da obra Discurso da Servidão Voluntária, de Etienne de La Boétie (Download PDF), onde este compara e contrapõe o francês servil e tiranizado aos indígenas do Novo Mundo, livres, fortes, saudáveis e felizes que, se tivessem de escolher entre liberdade e servidão, não hesitariam em escolher a primeira e somente pela violência seriam rendidos à segunda. Para La Boétie, é estranho que homens, nascidos livres, vivam em servidão como se esta fosse natural assim como para Lafargue é estranho que o proletário se deixe dominar pelo dogma do trabalho.

Vamos à transcrição do diálogo retirado de LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. Biblioteca Histórica Brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1960. p. 153-154. (1ª edição em francês: 1578).

“Os nossos Tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar o seu arabutan [Pau Brasil]. Uma vez um velho perguntou-me: por que vindes vós outros, maírs e perós (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas.
 
Retrucou o velho imediatamente: – e porventura precisais de muito? – Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. – Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, – acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: – Mas esse homem tão rico de que me falais não morre? – Sim, disse eu, morre como os outros.
 
Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: – e quando morrem para quem fica o que deixam? – Para seus filhos, se os têm, respondi; na falta destes, para os irmãos ou parentes mais próximos. – Na verdade – continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo – agora vejo que vós outros maírs [franceses] sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalham tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois de nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados […]
 
A SER CONTINUADO NA PARTE II
 
Para que o post não fique muito extenso, decidi dividi-lo em duas partes. No próximo texto, trataremos de como a visão de trabalho proposto pela ética protestante nos moldes discutidos por Max Weber, transformaram-se, com a distribuição social do trabalho imposta pelo modo de produção capitalista, na forma como enxergamos o trabalho atualmente, isto é, numa estranha paixão que faz com que os trabalhadores lutem pelo direito de ser explorados. Eis o paradoxo do servilismo voluntário conforme apresentamos logo no início deste post.
 
Além disso, pretendo apresentar uma edição que preparei com trechos do documentário dirigido por Iza Ferraz baseado na obra de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro. Assim como o diálogo que apresentamos entre Jean de Lery e o velho Tupinambá, para comparar o mundo daquele francês que entrava em contato com os grupos humanos que habitavam a América no século XVI, o objetivo é mostrar como era o modo de vida em sociedade dos Tupinambás e a maneira como estes enxergavam o trabalho, não como modo de acumulação de riqueza de um determinado grupo, mas sim como instrumento através do qual expressavam a si mesmos, isto é, exteriorizavam sua capacidade inventiva e criadora – o produto do trabalho como algo que represente a interioridade de seu produtor, que se reconhece neste produto.

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BRASIL: uma nação podólatra

Garrincha em partida amistosa da seleção brasileira contra o País de Gales, 1958.

Inspiradas pela experiência republicana francesa, as inúmeras bandeiras municipais confeccionadas no Brasil após a proclamação da República, traziam barretes frígios para representar a liberdade recém conquistada pelos cidadãos. No Brasil de 1889, apenas um ano após a abolição da escravatura, certamente  sapatos seriam ícones muito mais apropriados para representar a ideia de liberdade do que os tais barretes frígios importados da França.

Rogério Beier

ESCLARECIMENTOS INICIAIS

Esse texto nasceu imediatamente após uma provocação muito sadia feita pelo professor Nicolau Sevcenko durante uma de suas aulas de História Contemporânea na FFLCH-USP. Durante sua exposição, o professor pedia a seus alunos que parassem alguns instantes para refletir como os pés e seus produtos culturais são relegados, em nossa sociedade, a uma posição de inferioridade absoluta quando comparados ao cérebro, as mãos e os respectivos produtos atribuídos a estes órgãos. Mais do que isso, o professor nos lembrou que os pés são, invariavelmente, associados a ideias negativas como as de inferioridade, insuficiência, azar, morte ou, até mesmo, pejorativas, como revelam as expressões pé-rapado, pé-de-barro, pé-duro, pé-rachado e muitas outras.

O objetivo deste texto não é outro senão o de responder à provocação do professor de uma maneira bastante simples e despretensiosa. O método adotado para a produção deste pequeno ensaio foi o registro puro e simples das considerações e reflexões estimuladas durante a própria aula expositiva e que, posteriormente, foram melhor elaboradas em forma dissertativa durante a semana que separou a primeira da segunda aula. Portanto, pela própria característica que originou este texto e pela ausência de pretensão acadêmica, o mesmo segue livre de notas de rodapé e referências bibliográficas, já que o material consultado para produzir o texto, foi apenas de referência enciclopédica.

A ORIGEM DO FUTEBOL NA INGLATERRA

Apesar de não haver consenso entre os historiadores de quando e onde surgiu o futebol, muito significativo para este texto é uma das alegadas origens que, segundo alguns, teria se dado na Inglaterra. De acordo com algumas enciclopédias esportivas, historiadores apontam o documento Descriptio Nobilissimae Civitatis Londinae, escrito em 1175 por William Fitzstephen, como o mais antigo relacionado ao esporte. Este documento descreve um jogo que se disputava durante uma festa medieval, a Shrovetide (uma espécie de terça-feira de carnaval), quando ingleses chutavam pelas ruas da cidade uma bola feita de couro a fim de comemorar a expulsão dos dinamarqueses no período de dominação anglo-saxônica. Acredita-se que essa bola que era chutada pelas ruas simbolizava a cabeça de um oficial do exército invasor.

Muitos séculos depois, o costume de se chutar bolas de couro pelas ruas continuava a ser praticado no Reino Unido e, o que era um esporte violento durante a Idade Média, com o passar dos séculos, foi se tornando cada vez mais tranqüilo, até que escolas, clubes e universidades passaram a adotá-lo como prática desportiva no século XIX.

Um grande problema a se resolver nesta época era que cada escola, clube ou universidade utilizava uma regra diferente da adotada por outra. Em umas o uso das mãos era permitido, enquanto em outras, não. Tal indefinição provocava reações até mesmo de praticantes de outro esporte, o rugby, que pediam por uma definição urgente das regras do futebol que, até aquele momento, era muito semelhante ao que se praticava no rugby. Assim, em 1863, uma reunião entre dirigentes de escolas, universidades e clubes praticantes do football foi realizada para estabelecer e unificar as regras do jogo e, em dezembro daquele mesmo ano, fundou-se na Inglaterra a primeira associação de futebol (Football Assossiation) que teria a responsabilidade de definir as regras do esporte que, no século seguinte, acabaria se tornando o mais popular do planeta.

FUTEBOL: PRODUTO CULTURAL DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL?

No mesmo local do globo e período da história a que nos referimos anteriormente, a Inglaterra estava passando por um estágio avançado de sua Revolução Industrial. Por volta de 1870, Londres contava com aproximadamente cinco milhões de habitantes e suas manufaturas produziam bens de consumo a todo vapor, utilizando-se da mão-de-obra de operários que cumpriam, àquela época, uma jornada de dez a doze horas diárias.

Como fizemos questão de destacar acima, as próprias expressões utilizadas para se referir às fábricas e aos trabalhadores não escondem quais partes do corpo eram privilegiadas nesses novos locais de trabalho que se espalharam por todo o Reino Unido. Assim, como não poderia deixar de ser, praticamente todo o trabalho realizado em uma manufatura era feito pelas hábeis mãos dos operários. Além disso, outra característica marcante do trabalho realizado nas manufaturas, era a fixação do operário em um único lugar durante as doze horas de sua jornada. Tal característica apresenta um diferencial com as formas anteriores de trabalho, uma vez que, durante o período feudal, além do trabalhador se deslocar pela terra em que produzia, ele ainda tinha contato com a terra e com a natureza. O trabalho nas fábricas não só é marcado pela fixação do trabalhador a um espaço ainda mais reduzido, mas também por ser afastado dos campos, da terra e do contato com a natureza. Desta forma, não é estranho ouvir que as associações de trabalhadores da época, com o passar dos anos, reivindicavam mais tempo livre para que os trabalhadores desfrutassem de momentos em contato com a natureza, seja nas florestas ou nas montanhas.

Também não nos causa estranheza alguma o fato de que a criação deste esporte, isto é, a organização de suas regras e seu controle através de um órgão associativo, tenha se dado justamente como produto cultural deste local específico do globo e deste período de tempo. Afinal, mesmo que sua criação tenha partido das elites, e não do povo, acreditamos não ser bastante equivocado imaginar o futebol como contrapartida dessa nova vida levada nas cidades. Talvez resida justamente aí a razão da imensa e rápida popularidade deste esporte que, com a implantação da regra onde se proibia o uso das mãos, transformava o jogo justamente em uma oposição ao modo de vida nas fábricas, não apenas por se privilegiar o uso dos pés em detrimento das mãos, mas também por conferir maior dinamicidade à vida de seu praticante.

Outra regra também bastante significativa neste sentido foi a determinação de um campo aberto como local de disputa dos jogos. De uma maneira ou de outra, ela também se contrapõe à nova maneira de viver das grandes cidades justamente por ser um momento onde o praticante teria um contato maior com a terra onde passaria a desempenhar uma atividade extremamente dinâmica, bem longe daquilo que representavam as fábricas e bem perto daquele anseio, que havíamos destacado anteriormente, pelo qual algumas associações de trabalhadores já lutavam.

GOLEIROS: OS INIMIGOS A SEREM BATIDOS

Goleiro, figura tão maldita que onde pisa, não nasce grama.

Frase atribuída a Neném Prancha, botafoguense.

Antes de passarmos ao tema deste texto, isto é, o Brasil e suas relações com os pés, não poderíamos deixar de destacar um jogador específico neste esporte que é o símbolo de tudo o que viemos destacando até o momento: o goleiro.

De acordo com as regras do futebol, os goleiros são os únicos permitidos a tocarem a bola com as mãos durante o jogo. Chama atenção o fato de o objetivo final deste jogador ser justamente evitar aquele que é o objetivo do jogo, isto é, o gol. Assim, o goleiro se torna, na verdade, o grande adversário a ser batido durante jogo. Os demais jogadores são meros obstáculos, há mesmo é que se bater o goleiro, o estraga-prazeres.

Aqui percebemos claramente a presença de uma disputa entre pés e mãos. Uma tensão que precisa ser resolvida e que foi criada em função da introdução, dentro do próprio jogo, de um elemento com valores opostos e objetivos distintos aos de todos os demais e ao do próprio jogo em si. A presença desse jogador transforma-o, é claro, no vilão do jogo, no inimigo a ser batido.

Analisando outros esportes coletivos, vemos que em poucos há a presença de um elemento causador de tamanha tensão inseridos no próprio jogo. No basquete, por exemplo, o objetivo é atirar a bola ao cesto e, ao fim, disputar, uns contra os outros, quem converte mais cestas. Não há a presença de um jogador postado frente às cestas com o objetivo de evitar, com os pés, a conversão dos arremessos. Podemos dizer o mesmo do voleibol, do beisebol ou do futebol americano, por exemplo.

Assim, acreditamos que essa tensão gerada pela presença do goleiro, traz para o jogo a mesma tensão vivida na própria sociedade que criou o esporte. Como viemos expondo até o momento, no futebol os pés ganham sentido de liberdade, mobilidade e contato com a terra, enquanto as mãos representam as fábricas, a rigidez e a vida urbana, caótica e sem perspectiva das grandes cidades. Talvez a grande popularidade conquistada muito rapidamente por esse esporte se justifique exatamente por isso, por dar a seu praticante este sentido de liberdade, mesmo que temporária, de uma sociedade que o cativa, que o impede de se expressar. Ao menos ali, durante o jogo, ele poderá bater o goleiro. Ao menos ali, ele poderá se vingar, aos pontapés, das mãos que o aprisiona.

Não poderíamos deixar de mencionar aqui o fato de, atualmente, alguns goleiros estarem ganhando extrema popularidade e respeito por demonstrarem também possuir habilidades com os pés. No Brasil, grande popularidade ganhou o goleiro do São Paulo Futebol Clube, Rogério Ceni, por ser um jogador que apesar de atuar como goleiro, apresenta enorme facilidade em jogar com os pés fazendo, inclusive, inúmeros gols em cobranças de faltas e penalidades máximas.

BRASIL: CARNAVAL, FUTEBOL E SAMBA

Quem não gosta de samba bom sujeito não é.
É ruim da cabeça ou doente do pé.

Dorival Caymmi em Samba da minha terra.

Ao nos provocar durante a aula, o professor alerta para o fato de que talvez não tivéssemos nos dado conta da mencionada posição de desprezo e submissão dos pés em relação às mãos e ao cérebro e que, até mesmo, nos horrorizaríamos ao constatá-la aqui no Brasil, produto da grande influência cultural e dos valores europeus brutalmente impingidos à nossa sociedade.

De fato, como bem salientou o professor, é inegável que também em nossa sociedade os pés e seus produtos culturais estejam submetidos àquela posição de inferioridade e cheguem, até mesmo, a simbolizar pobreza, miséria ou azar, como já destacamos. Contudo, não podemos deixar de destacar que, diferentemente de outros lugares do globo, o Brasil talvez seja o único país que se identifique e seja identificado intimamente com produtos culturais oriundos dos pés. Afinal de contas, quem nunca ouviu um estrangeiro, ao comentar sobre o Brasil, associá-lo ao carnaval, futebol e samba?

Assim, acreditamos que em nossa sociedade há ainda alguns espaços que resistem a esta imposição cultural das mãos proveniente da Europa. Espaços estes, não por acaso, conquistados pelas camadas mais populares da sociedade, que expressam os produtos desta cultura, de maneira geral, em grupos ou comunidades e nas ruas.

O samba, por exemplo, ganha sua expressão máxima nas ruas. É nas ruas que ele se populariza rapidamente e conquista todo o país, não nos salões e nem nas cortes, como ocorria geralmente com as músicas européias. Através do samba a população deixa a vida particular de lado, suas atribulações cotidianas com o trabalho e sai às ruas para dançar e sociabilizar. Em um dos seus momentos máximos, uma grandiosa festa é organizada e milhões de pessoas em todo o país vão às ruas para dançar o samba, gozar a vida e celebrar intensamente o simples fato de se estar vivo. Eis aí o grande objetivo dessa “ofegante epidemia” que se chama carnaval.

O futebol, por sua vez, ganha no Brasil, e também na África, imensa popularidade. Nessas localidades valoriza-se muito a forma como se joga em contraposição ao objetivo do jogo, ou seja, a vitória. Muitos expectadores destas regiões preferem muito mais assistir a um jogo tecnicamente bem jogado por seus times, do que vê-los vitoriosos jogando um futebol de péssima qualidade. Maior exemplo não pode haver do que os muitos torcedores brasileiros que dizem valorizar mais a seleção brasileira derrotada na Copa do Mundo de 1982 do que a campeã mundial de 1994. Outro exemplo que demonstra essa valorização da técnica é aquele que ouvimos de comentaristas esportivos que insistem em qualificar as seleções africanas de ingênuas, tal como faziam com Garrincha, por estas sobrevalorizarem jogadas bem executadas tecnicamente e com grande efeito plástico em detrimento do gol. Não por acaso Garrincha é reconhecido o ícone máximo do futebol brasileiro. Pelé é “o Rei”, isto é, aquele que praticou o esporte com soberania. Garrincha é, contudo, a “alegria do povo”. Aquele a quem todos gostam de ver jogar. Aquele a quem até mesmo os adversários aplaudem ao vê-lo desferir um drible contra um zagueiro incauto. Sábio é o povo que alcunha seus maiores ídolos distinguindo-os precisamente como o “Rei” e a “alegria do povo”.

Neste sentido, também não deixa de ser curioso e representativo o fato de que, atualmente, a demonstração de extrema habilidade técnica com os pés por parte de um jogador, passe a ser interpretada por seus adversários como um ato de desrespeito e pretensa humilhação destes diante do público em geral. Tal inversão de valores pode demonstrar, mesmo dentro do futebol, como os pés ainda são mal vistos por alguns membros da sociedade, que reprimem a qualidade técnica com violência. Também podemos ver tal fato como uma forma que os menos habilidosos com os pés conseguiram de reverter, através de discursos e práticas, violentas ou não (valorização de jogada aérea), aquilo que inicialmente era valorizado e visto como máxima demonstração de habilidade técnica por parte de um jogador, atuando, desta forma,  como agentes de uma reação da cultura manual dentro do futebol.

No samba, esta reação também pode ser vista com a tentativa de transformação do carnaval em um espetáculo comercial – com local de exibição próprio onde, inclusive, se paga ingresso para participar – que acabaria por restringir a espontaneidade e a liberdade dessa que é, junto com o futebol, uma das expressões mais características de nossa sociedade e que, apesar de não terem sido criados aqui, foram logo acolhidos e ganharam uma expressividade que insiste em resistir bravamente aos influxos culturais cerceadores da liberdade provindos de um velho mundo cada vez mais preso aos grilhões de um sistema individualista e alienante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, gostaríamos de concluir este pequeno ensaio dizendo que concordamos, em parte, com a afirmação de que os pés e seus produtos culturais estão, nas sociedades ocidentais, submetidos a uma condição de inferioridade quando comparados aos produtos culturais das mãos e do cérebro. Dizemos em parte porque, como viemos destacando acima, no Brasil é possível verificar um forte espaço de resistência por parte de produtos culturais característicos dos pés que, apesar de não terem sido criados aqui, ganharam grande popularidade chegando até mesmo a se alçarem como produtos identitários de toda uma nacionalidade. Ainda hoje, apesar de uma reação esboçada por esta sociedade controlada por mãos e cérebro no intuito de modificar a expressão tipicamente popular do Carnaval, Futebol e Samba, estes continuam sendo sinônimos, não só de Brasil e dos brasileiros, mas também da não submissão à um sistema que tolhe as liberdades em busca, cada vez mais, da anulação da humanidade em seu sentido mais profundo.

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