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Rafaela Silva, o feminismo, as cotas e a meritocracia

Acho importante repercutir por aqui no Hum Historiador, um texto com o qual me deparei e considero bastante instrutivo sobre a relação entre o feminismo, cotas e programas sociais com a conquista da medalha de ouro, ontem (08), pela judoca Rafaela Silva nos Jogos Olímpicos que vem ocorrendo no Rio de Janeiro.

O texto é de autoria de Hugo Fernandes-Ferreira, biólogo e doutorando em zoologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e o mesmo vem tendo grande repercussão através de seu perfil em uma rede social.

No texto, Fernandes-Ferreira responde a um meme que também vem circulando nas redes sociais e cujo objetivo principal é exaltar a meritocracia, afirmando que Rafaela Silva não teria necessitado nem do feminismo, nem de cotas, para atingir o resultado de ontem, que o mesmo veio exclusivamente por seu mérito próprio.

Abaixo o meme que vem circulando no Facebook, seguido pela íntegra do texto de Fernandes-Ferreira.

Rafaela Silva_Meritocracia

Vi esse meme algumas vezes na minha timeline (Hugo Fernandes-Ferreira) e acho importante elucidar algumas questões para evitar que esse tipo de chorume (não consigo definir de outra forma) se propague ainda mais.

Rafaela Silva precisou do feminismo e de cotas sim. Vou dizer em quais momentos.

1) Através do feminismo, mulheres puderam competir nos Jogos. Em 1900, seis mulheres feministas enfrentaram as regras olímpicas, obrigando a organização a criar um evento paralelo. Esse torneio paralelo foi levado até 1928. O Barão de Coubertim, criador das Olimpíadas Modernas, inclusive pediu demissão afirmando que a presença feminina era uma traição ao espírito olímpico. Ainda hoje, há muito a ser conquistado, como divergências nos valores de patrocínio.

2) Precisou do feminismo para entrar na Marinha. Com mulheres na corporação somente a partir da década de 80, apenas em 1996 foi aceita a promoção de oficiais mulheres, através de lutas feministas.

3) Precisou também de cotas. Ela foi, durante anos, beneficiária do Bolsa Atleta, programa do Ministério do Esporte que atende jovens promissores. O valor da bolsa, além do rendimento esportivo potencial do atleta, depende também de sua condição financeira, fornecendo valores maiores para aqueles promissores de baixa renda. Além disso, sua entrada na Marinha não se deu por meio tradicional e sim através de vagas fruto de uma parceria entre os Ministérios da Defesa e do Esporte. Ou seja, cotas.

4) Mas é claro que ela conquistou por mérito próprio. O fato de ela ter recebido bolsa, além dos benefícios históricos do feminismo, só ajudou para que ela pudesse estar em uma condição mais justa (ainda que esteja longe, muito longe do ideal) de competir com quem não enfrenta problemas de misoginia, pobreza e racismo. Mérito maior é ter vencido ainda em um patamar social muito inferior à maioria de suas concorrentes. Não há problema em você falar de meritocracia esportiva, desde que você entenda antes que ela só funciona isoladamente quando houver isonomia. De resto, ou você cita exceções como se fossem regras ou você solta chorumes como esse.

5) Enquanto você resolve soltar esse meme falando pela Rafaela, com esse tom conservador, é bom lembrar que a atleta é declaradamente de esquerda. Isso não faz dela melhor ou pior, mas significa que você, sem dúvida, está utilizando a imagem da atleta para propagar uma posição política contrária a dela, o que denota uma grande desonestidade intelectual.

É triste saber que, mesmo diante do choro de desabafo pelos atos racistas que ela sofreu, alguém ainda prefira ignorar isso e tirar um discurso conservador de onde não existe. É chorume… E todo chorume fede.

 


Hugo Fernandes-Ferreira é doutorando em zoologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).


Para finalizar o post, gostaria apenas de chamar atenção que a compreensão do texto (e o principal argumento do autor) passa apenas pela necessidade do leitor estar familiarizado com a noção de OPORTUNIDADE.

O feminismo, bem como os diferentes programas sociais (como o bolsa atleta recebido por Rafaela), buscam garantir OPORTUNIDADES a indivíduos que, na sociedade em que vivemos, são alijados de participarem ou ocuparem plenamente espaços por conta de seu gênero, da cor de sua pele ou em razão de pertencerem a uma classe social considerada inadequada a um espaço específico. Assim, numa sociedade como a nossa, algumas pessoas pertencem a alguns lugares, enquanto outras não. É justamente por vivermos em uma sociedade tão desigual que concordo plenamente com Fernandes-Ferreira ao afirmar que pessoas como Rafaela Silva precisam, sim, do feminismo, das cotas (sociais e raciais) e de programas sociais, pois sem eles, elas jamais teriam as oportunidades de ocupar determinados espaços (como uma academia de judô ou ser uma oficial da marinha, por exemplo) e mostrarem todo o seu talento e brilhantismo.

Portanto, ao contrário do que aqueles que fizeram o meme pensam, o feminismo, as cotas e os programas sociais não tiram o mérito das pessoas que fazem uso de suas conquistas, pelo contrário, concedem uma rara janela de oportunidade para que essas pessoas possam mostrar seu mérito e talento em um mundo injusto e desigual que, de antemão, lhe negam essa oportunidade. Repito: o fato de Rafaela Silva ter usado conquistas do feminismo e ser beneficiária de programas sociais não desmerece, em nada, sua conquista nos tatames. O que fazem, na verdade, é explicitar a necessidade de aumentarmos, cada vez mais, as oportunidades a grupos que vivem à margem da sociedade. Por todo o talento que Rafaela Silva demonstrou ter, não só no judô, mas na vida, ao aproveitar tão bem as oportunidades que lhe foram garantidas, vejo razões mais do que suficientes para termos AINDA MAIS ORGULHO dessa mulher, e não o contrário, como pretendem os autores do meme e seus apoiadores!!!! Por isso, não me canso de parabenizar a Rafaela Silva!!! Que ela possa aproveitar muito esse momento de glória, que é todo dela!!!

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A extrema direita estadunidense se desespera com o êxito do futebol no país

RACISTA E XENÓFOBA, PARA ANN COULTER, O AUMENTO NO INTERESSE DOS ESTADUNIDENSES PELO FUTEBOL É UM SINAL DA DECADÊNCIA MORAL DA NAÇÃO.

Um texto do portal Pragmatismo Político chamou minha atenção hoje. Trata-se de post que destaca um artigo produzido por uma celebridade estadunidense da extrema direita que conseguiu a proeza de escrever o artigo mais estúpido sobre a Copa do Mundo e o futebol, como acertadamente o classificou o pessoal do Pragmatismo Político.

Ann Coulter (reprodução)

Ann Coulter, advogada, colunista, escritora, apresentadora de TV, incomodada com o sucesso que a Copa do Mundo está fazendo nos Estados Unidos, forçou a mão ao falar sobre o assunto e fez uma caricatura grotesca sobre o esporte, seus praticantes e admiradores, além de demonstrar toda sua ignorância, preconceito e racismo, características tão comuns em membros da extrema direita estadunidense (e de qualquer outro país).

Como destacou o pessoal do Pragmatismo Político, não é novidade que os conservadores estadunidenses odeiam o futebol e o considerem algo fora do universo deles: “uma aberração no chamado ‘excepcionalismo’ dos EUA, coisa de imigrantes, pobres, liberais, etc.”. No entanto, Coulter pega todo o desespero que sente ao ver os estadunidenses gostando e se divertindo com o futebol, e despeja toda sua angústia partindo para o ataque através de um artigo racista e xenofóbico, para dizer o mínimo.

Abaixo, destaco alguns dos trechos do artigo original de Coulter (alguns já traduzidos pelo texto do Pragmatismo Político (PP), outros traduzidos livremente por mim (RB)), que foi publicado originalmente no The Clarion-Ledger em 26.jun.2014.

Começando pelo título do artigo:

  • Qualquer aumento de interesse no futebol é sinal da decadência moral da nação (trad. RB).

O destaque do artigo dizia o seguinte:

  • Se mais “americanos”* estão assistindo futebol hoje, é só por causa do intercâmbio demográfico que se tornou efetivo após a lei de imigração de Teddy Kennedy, em 1965. Eu lhe garanto: nenhum americano cujo bisavô nasceu aqui está assistindo futebol. Só podemos esperar que, além de aprenderem inglês, esses novos americanos deixem seu fetiche pelo futebol com o tempo (trad. RB).

* Cabe destacar que a palavra americanos, grafada com aspas, foi um recurso utilizado pela autora do artigo para colocar em dúvida se devem ser considerados estadunidenses aqueles que tem interesse por futebol. Também chamo atenção para o fato de toda vez que surgir a palavra “americano” em referência a nacionalidade do indivíduo com cidadania estadunidense, esta terá sido escrita pela autora do artigo, e não por mim.

  • A realização individual não é um grande fator no futebol (trad. PP).
  • No futebol, a culpa é dispersa e quase ninguém pontua. Não há heróis, não há perdedores, não há responsabilidade e não se machuca a frágil autoestima de nenhuma criança (trad. PP).
  • Existe uma razão por trás do fato das mães eternamente preocupadas serem chamadas de “soccer moms” e não “football moms” (trad. RB).
  • Mães liberais gostam do futebol porque ele é um esporte no qual o talento atlético tem tão pouca expressão que garotas podem jogar juntas com os garotos. Nenhum esporte sério permite tal prática, mesmo no nível do jardim da infância (trad. RB).
  • A perspectiva de humilhação pessoal ou uma lesão séria é necessária para que um esporte seja considerado como tal (trad. RB).
  • O beisebol e o basquete apresentam uma ameaça constante de desgraça pessoal. No hóquei, há três ou quatro brigas por jogo. Depois de um jogo de futebol americano, as ambulâncias carregam os feridos. Após uma partida de futebol, cada jogador recebe uma fitinha e uma caixinha de suco (trad. RB e PP).
  • Você não pode usar as mãos no futebol. (…) O que diferencia o homem dos animais menores, além de uma alma, é que temos polegares opositores. Nossas mãos podem segurar as coisas. Aqui está uma ótima ideia: vamos criar um jogo em que você não tem permissão para usá-las! (trad. PP).

Depois dessa imensa demonstração de ignorância, preconceito e especismo, faço uma pausa para destacar um texto que escrevi em 2007 (quando ainda era aluno de graduação do curso de História), intitulado Brasil: uma nação podólatra. O texto trata justamente sobre essa questão dos esportes praticados com as mãos e com os pés, com especial atenção para o fato de o futebol ter se tornado extremamente popular e identitário no Brasil.

  • O futebol é como o sistema métrico, que os liberais também adoram porque é europeu. Naturalmente, o sistema métrico surgiu a partir da Revolução Francesa, durante os breves intervalos quando não estavam cometendo assassinatos em massa na guilhotina (trad. PP).
  • Liberais ficam furiosos e nos dizem que o sistema métrico é mais “racional” do que as medidas que todos compreendem. Isso é ridículo. Uma polegada tem o tamanho do polegar de um homem, um pé é a medida do tamanho do pé de um homem, uma jarda é o tamanho de seu cinto. Isso é fácil de se visualizar. Como é que você visualiza 147,2 centímetros? (trad. RB).

A conclusão do artigo é, justamente, o destaque que foi utilizado como chamariz para a matéria na Home do portal, e que já foi destacada anteriormente.

  • Se mais “americanos”* estão assistindo futebol hoje, é só por causa do intercâmbio demográfico que se tornou efetivo após a lei de imigração de Teddy Kennedy, em 1965. Eu lhe garanto: nenhum americano cujo bisavô nasceu aqui está assistindo futebol. Só podemos esperar que, além de aprenderem inglês, esses novos americanos deixem seu fetiche pelo futebol com o tempo (trad. RB).

Além de profundamente desrespeitoso e ofensivo, o artigo de Ann Coulter é ainda mais triste, pois sabemos que representa exatamente o que milhões de estadunidenses pensam sobre si mesmos, e sobre o resto do mundo. Seria cômico, se não fosse trágico, pois todo esse preconceito e racismo não fica restrito ao mundo do futebol, mas é externalizado no tratamento diário que esses indivíduos dão às comunidades de imigrantes que lhes prestam serviços cotidianamente. Em contrapartida, e saindo um pouco do desespero de quem está vendo seu mundo ser transformado, é bastante animador ver que há estadunidenses se deixando empolgar pelo futebol e que, diferentemente do que fala Coulter, não se tratam apenas de imigrantes latinos e italianos. Sinal dos tempos, sim, mas não da decadência de uma nação, mas de um momento histórico em que ela começa a se abrir para o resto do mundo. Oxalá.

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Sobre meninos e a Copa do Mundo

Vinícius Mota, jornalista e Secretário de Redação da Folha de S. Paulo.

Novamente venho comentar uma coluna de muito mau gosto, assinada por Vinicius Mota, que foi publicada na Folha de S. Paulo de hoje (30), intitulada Volta, Dunga.

Começo meu comentário destacando um trecho do início da coluna, no qual Vinicius Mota afirma que o Brasil foi salvo pela trave, engrossando o coro daqueles que estão a dizer que a baliza do Mineirão é brasileira, (alguns chegando ao ridículo de afirmar que a dita trave seguramente foi feita de pau-brasil). Ora, todas as vezes que leio ou escuto isso sendo repetido na mídia me pergunto: a trave do Mineirão fez gol no excelente goleiro Bravo? A trave do Mineirão bateu algum pênalti? Mais ainda, a referida baliza defendeu algum dos pênaltis batidos pela ótima Seleção do Chile? Então por que raios parte da imprensa brasileira insiste em menosprezar o feito dos jogadores e minimizar a passagem do time de Felipão para as quartas-de-final, considerando que tudo não passou de uma mera questão de sorte?

O Brasil pode não ter jogado bem como se esperava, e é certo que a Seleção tem muitas deficiências, contudo esse time deve ter tido algum mérito para eliminar aquela que é considerada a melhor seleção chilena de todos os tempos e, vale lembrar, corresponsável pela eliminação precoce da atual campeã do mundo, Espanha.

Contudo, não foi o princípio dessa coluninha de Mota que me deixou abismado, mas o desenvolvimento da mesma, no qual o jornalista mostra um profundo desrespeito pelas pessoas que estão representando o Brasil nessa Copa do Mundo. Em um momento de profunda infelicidade, Mota chega ao extremo de chamar os jogadores brasileiros de…

“(…) meninos mimados [que] entram em pane. Deixam-se dominar por adversários mais fracos. Choram”.

Gostaria muito de ver se Vinícius Mota teria coragem de chegar na frente de um Thiago Silva, de um Fernandinho, de um Ramires, de um Luiz Gustavo e falar, cara-a-cara, olho-no-olho de cada um desses indivíduos, uma barbaridade dessas.

Embora tenham pouca idade, a maior parte desses jovens passaram por experiências mais duras do que muitos brasileiros. Conviveram com a pobreza extrema, perderam pais ou mães ainda muito jovens, viveram anos longe de suas famílias em busca de um sonho, em quartos compartilhados de CT’s e, até mesmo, debaixo de arquibancadas, tendo se tornado arrimo de família ainda na adolescência, responsabilizando-se pela vida financeira dos pais (para os que ainda os tem) e pelo futuro de irmãos mais jovens. Portanto, são pessoas já calejadas por percalços da vida que jamais poderiam ser chamadas inconsequentemente de “meninos mimados”, como fez o jornalista.

Vejam abaixo, algumas histórias dos “meninos mimados”, como os definiu Vinícius Mota. Em especial, vejam a história de Luiz Gustavo e Thiago Silva:

RAMIRES

LUIZ GUSTAVO

THIAGO SILVA

FERNANDINHO

DANTE

Depois de tudo isso, poderá alguém chamar esses homens de “meninos mimados”?

Como não poderia deixar de ser, a conclusão da coluna de Vinícius Mota é tão ruim como todo o resto do texto, e clama pela volta de Dunga. Segundo o jornalista, faltaria alguém com o perfil daquele jogador no comando da Seleção dentro das quatro linhas. Opiniões à parte, daqui destaca-se, uma vez mais, que o colunista faz questão de menosprezar os atuais jogadores da Seleção (em especial aqueles que exercem papel de liderança) apenas para reafirmar, na última linha de seu patético texto, que tratam-se de crianças e que resta-nos esperar que a experiência negativa vivida por esses jogadores no último sábado…

“(…) represente a passagem para a vida adulta dessa geração”.

Além de desrespeitoso, Vinícius Mota revela toda sua ignorância, em especial, em relação ao histórico dos jogadores dessa Seleção. Boa parte deles trata-se de gente sofrida para quem, a eliminação da Copa do Mundo, seria sim uma grande frustração, mas nada comparado à perda do pai, da mãe ou dos anos de pobreza e privação que viveram no começo de suas vidas. Homens que se tornaram adultos, ao contrário do que afirma o infeliz Mota, cedo demais.

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Como é ser menina no país do futebol

por Liana Machado especialmente para o Hum Historiador

Brasileiras comemoram gol contra o Chile no Torneio Internacional de Futebol Feminino. Foto: André Borges/Com Copa

Ontem zapeando a TV descobri que o time brasileiro de futebol feminino realizava um jogo contra o Chile. O jogo faz parte do Torneio Internacional de Futebol, no qual o Brasil tentará o tetracampeonato. O jogo aconteceu em Brasília diante de arquibancadas praticamente vazias e uns poucos torcedores apáticos. Não vi o jogo, mas vi o primeiro gol de Marta. Eu não entendo de futebol, mas a calma com que ela planejou o ataque demonstra além de talento, muita experiência. Em uma pesquisa rápida na internet, descobri que a Copa do Mundo feminino é realizada desde 1991, e que apesar de nunca ter ganhado o título a Marta foi eleita a melhor jogadora do mundo por cinco vezes consecutivas. Nenhum homem conseguiu a mesma proeza. Será que um dia vai?

Mas no Brasil não existe machismo!

Iniciemos pelo início. Sabe o que Pelé disse sobre a atuação de Marta no Pan de 2007? “Ela é o Pelé de saias”, ou seja, ela é um homem, ou tem atitude de homem, ou é tão bom quanto um homem, só que ela não tem pênis. Ótimo! Então, podemos dizer que Neymar é uma Marta de calças? Claro que não. A referência é o homem, a mulher é o outro. Mas continuemos com a Copa.

Quanto alarde fazemos com a Copa do Mundo, heim? Fosse aqui ou não. Copa essa, aliás, que nem precisa dizer que é masculina. Mas a Copa é aqui. Quanta preocupação com os estádios! Vão ficar prontos, ou não vão? Precisamos cobrar as autoridades, gastar dinheiro, desapropriar barracos (não, nem vou entrar no mérito de como eu acho que a Copa do Mundo é um evento elitista para o qual não fui convidada, o assunto é outro). Milhares de turistas virão para ver os homens jogando. Paga-se caro por passagens aéreas, hospedagens, alimentação. O evento é grande e reúne muita gente.

E na semana passada a TV transmitiu o sorteio das chaves (acho que é assim que chamam). E ficou-se uma hora dizendo coisas do tipo E2, B4, C1. Importante, né? Depois do sorteio, enquanto eu jogava paciência no PC a Rede Globo ficou fazendo milhões de prognósticos: quem vai pra final com quem, quem vai para as oitavas, quem joga com o Brasil nas quartas de final. Uma hora da programação da maior rede de transmissão brasileira para pura futorologia. Incrível. O mundo realmente dá muita atenção a esse torneio. O masculino, claro.

O feminino não merece a mesma atenção, o mesmo respeito, o mesmo incentivo. Não provoca a mesma alegria. Ninguém falta às aulas para assistir a copa do mundo feminino (com letra minúscula mesmo). Ninguém sai do trabalho. Ninguém vai para o bar ver o jogo com a galera, ninguém compra fogos de artifício. A coca-cola não envia 100 amigos para ver o jogo, o cabelo de Formiga (jogadora da seleção, caso você não saiba) não faz a cabeça de ninguém. O número 10 de Marta não faz o mesmo sucesso. Não! Mulheres e homens vão torcer pelos homens. Não pelas mulheres. Que ridículo seria um estádio como o Maracanã lotado de gente, as ruas vazias, todo o Brasil na frente da TV para ver Marta jogando!  Você leitor, se imagina viajando ao Canadá em 2015 para ver a copa do mundo?

Mas aqui não existe machismo.

Só pra terminar, o narrador do jogo de ontem fez muito elogios às jogadoras brasileiras. Elogios do tipo “como ela é bonita”, “mas que sorriso lindo ela tem”. Elogios certos para as mulheres. Porque mulher que é mulher prefere ser apreciada pelos seus atributos físicos. Mesmo que ela seja a melhor jogadora de futebol do mundo.

Abaixo, os dois gols da seleção no jogo contra o Chile.


Liana Machado é historiadora e está concluindo seu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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O futebol é do povo?

INGRESSOS CARÍSSIMOS E UMA EVIDENTE EXPULSÃO DOS POBRES DOS ESTÁDIOS, VAMOS DEIXAR BARATO?
por Carlos Carlos | para o blog Bola e Arte

Os preços exorbitantes para a final da Copa do Brasil entre Flamengo x Atlético-PR, suscitaram discussões e suspiros de preocupação em muitos torcedores. O que complica mais um pouco, é quando constatamos que isso não é novidade. Ingressos com inflação galopante em jogos decisivos não são de hoje e não vêm de um time só. Como muitos sabem, sou santista, e isso já aconteceu com o meu time em várias ocasiões, quando o ingresso na bilheteria vende-se a preço de ingresso de cambista, e sei que vários outros torcedores de diversos times já passaram por isso.

Mas vamos aos fatos reais: isso tudo não é de hoje e tem a ver com o evidente processo de elitização dos estádios brasileiros, que vê a Copa do Mundo como o grande trunfo pra embarcar de vez nessa barca furada.

No Brasil, o futebol só cresceu por causa do povo e sem o povo nada haveria, tanto torcendo, como jogando. E contraditoriamente aos fatos da história, o capital e seus agentes de expansão promovem o processo de expulsão dos pobres dos estádios, que acontece a todo vapor, desumanamente e burramente varrendo o povo brasileiro, esse que sempre habitou a “Geral” do Maracanã, essa que foi extinta e era como um símbolo de resistência popular nos estádios. Afinal, hoje não é mais simplesmente “Maracanã”, e sim “Complexo Maracanã Entretenimento”.

Isso tudo nos faz lembrar de fatos recentes, quando mobilizações populares em torno da resistência do povo no futebol andaram aparecendo, como é o caso da ANT – Associação Nacional de Torcedores, que já foi extinta. O povo e os movimentos sociais organizados tem que se unir contra esse processo escroto que está em curso, onde juntos poderemos gritar forte o “Não vai ter Copa” e ir pra cima contra o processo de elitização nos estádios.

Uma iniciativa existente e que precisa da força de adeptos combatentes é o Arquibancada Em Resistência (cliquem e confiram).

Não há tempo para esperarmos mais, a hora é agora e a Copa da FIFA fascista, dinheirista e separatista taí! Vamos pra cima mostrar que é o povo quem manda!

E pra finalizar esse post, disponibilizo um relato do face do Pedro Rios, flamenguista, desabafando quanto aos ingressos caríssimos e ao fato do povo ser expulso dos estádios! E a linda foto a seguir, que mostra os verdadeiros donos do futebol brasileiro

Eu torço pro Flamengo. Muito. Todo mundo sabe disso. 
Mas torço muito mais para a torcida do flamengo.
Esse título, ganho dentro de uma cena de crime, ganho dentro de um dos maiores ASSALTOS ao patrimônio público, o ex-maracanã, vale bem menos que o esporte. E vale bem menos que a mulambada que não consegue ir ao estádio.

Eu amo o flamengo porque amo a torcida do flamengo. Não foi outro motivo que me prendeu ao time.

O título e a festa na favela valem.

Mas eu torço para que esse povo encontre a felicidade da emancipação. A verdadeira festa na favela.

E espero poder ver um flamengo popular, em um brasil popular, voltar a comemorar seus títulos com negros, desdentados, com o suburbio, com o morro, e com a malandragem do asfalto, todo mundo junto, dentro do estádio.

Pedro Rios.

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“Menos democracia é melhor para organizar uma Copa”

Para secretário-geral da FIFA, o francês Jérôme Valcke, a democracia brasileira pode ser um problema para a organização da Copa de 2014 e prevê menos dificuldade para organizar o torneio de 2018, a ser realizado na Rússia.

“Eu vou dizer uma coisa que é maluca, mas menos democracia, às vezes, é melhor para organizar uma Copa. Quando você tem um chefe de estado forte, que pode decidir, como talvez Vladimir Putin na Rússia em 2018, é mais fácil para nós, organizadores, do que em um país como a Alemanha, onde você tem que negociar em várias esferas. A principal dificuldade que temos é quando entramos em um país com estrutura política dividida, como é no Brasil, com três níveis, federal, estadual e municipal – disse o francês. (…) Há pessoas diferentes, movimentos diferentes, interesses diferentes e é um pouco difícil organizar a Copa do Mundo nestas condições.”

Foto: Agência EFE

Notabilizado por haver dito que o Brasil precisava receber um chute na bunda, por conta dos atrasos nas obras dos estádios, Valcke e a FIFA penaram para conseguirem aprovar a venda de bebidas alcoólicas nos estádios brasileiros durante o torneio de futebol.

A notícia ganha ainda mais peso uma vez que nesta quarta-feira, Joseph Blatter, o presidente da FIFA, também comentou sobre democracia e lembrou a Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina durante período de ditadura no país. Segundo reportagem publicada no portal do Globo Esporte, Blatter afirmou ter ficado feliz com a vitória da seleção da casa.

É um tipo de reconciliação do público, do povo da Argentina, com o sistema político, militar na época. Eu não sei o que poderia ter acontecido se eles tivessem perdido a final para a Holanda. O jogo e o mundo mudaram, este era o meu sentimento na época.

Como desgraça pouca é bobagem, o suíço descreveu a Fifa como sendo uma instituição conservadora, liberal e socialista, tudo ao mesmo tempo.

Joseph Blatter, presidente da FIFA.

“Somos conservadores, como os católicos, quando se trata das regras do jogo e arbitragem. E somos liberais quando vamos ao mercado”, disse ele, referindo-se às relações comerciais da entidade que controla o futebol mundial.

Somos Marx e Engels quando se trata da distribuição do dinheiro, 70 por cento de toda a renda é distribuída para as associações nacionais para programas de desenvolvimento.”

Durma-se com um barulho desses!

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A morte de Kevin Espada, o Corinthians e a escravização de bolivianos em São Paulo

O jornalista e historiador Lúcio de Castro, publicou em seu blog um excelente texto que nos chama a refletir sobre a morte do jovem Kevin Espada, torcedor boliviano atingido por um sinalizador lançado da arquibancada onde estavam torcedores corinthianos.

O texto propõe que, para muito além do futebol, a trágica morte de Kevin seja capaz de mobilizar o Corinthians, time envolvido na tragédia, e seus torcedores para uma luta contra a escravização de bolivianos no Brasil.

Aproveitando a excelente ideia de Lúcio de Castro, entendo que poderíamos ir além. Não apenas o Corinthians poderia gritar em nome dos bolivianos escravizados no Brasil, mas todos os times e seus respectivos torcedores deveriam aderir a essa luta. Em cada jogo, em cada oportunidade, times e torcedores poderiam lembrar nossas autoridades que não deve haver espaço para trabalho escravo em nossa sociedade.

Antes de repercutir o texto de Lúcio de Castro, gostaria de finalizar do mesmo modo como ele encerra seu texto, isto é, lembrar que Kevin Espada já morreu e não volta mais, mas que apesar disso podemos fazer muito por ele dentro do futebol, mas ainda mais importante, muito além do próprio futebol.

Segue a íntegra do texto de Lúcio de Castro conforme publicado em seu blog no dia 26/12/2013.

MILHARES DE BOLIVIANOS SÃO ESCRAVOS EM SP. EM NOME DE KEVIN, CORINTHIANS PODIA GRITAR POR ELES

A óbvia ideia de que a morte de alguém muito jovem é uma aberração, algo absolutamente sem propósito, absurdo, veio pela primeira vez lá atrás para mim de forma pouco usual. Pelos versos de Ednardo, com seu belo “Pavão Misterioso”, parei pra pensar naquele pedido. “Me poupe do vexame/de morrer tão moço”. O complemento do verso é absolutamente arrebatador: “Muita coisa ainda quero olhar”.

A estupidez de poucos e a omissão de muitos (ou quem sabe de todos nós) não pouparam Kevin Espada de morrer tão moço. Catorze anos. Muita coisa ainda pra olhar…

Nem é preciso repetir o chavão de que nada a ser feito traz essa vida de volta. Mas é possível que muita coisa se faça em nome de Kevin.

Aqui já não estão em questão eventuais decisões da justiça, o destino do Corinthians em uma competição, uma eventual punição para o San Jose. Tudo isso deve ser exemplar. Mas é possível ir além, muito além.

Alguns pronunciamentos foram exemplares e transpiravam sentimento de nobreza no dia da tragédia. Ainda que a vida e a profissão tenham me ensinado a desconfiar muito de tudo o que se fala diante das câmaras e de bons moços do pau oco com os quais cruzei por esses anos todos e me ensinaram a preferir os gauches, não dava para não se impressionar ou não acreditar nas palavras e posicionamento de Tite, Edu Gaspar e outros. E ainda também que jamais me pareça correto cobrar de alguém gestos que devem ser espontâneos ou naturais, tais posturas me inspiram a pedir algo mais para eles, muito além das decisões esportivas. Junto a eles o zagueiro Paulo André, sujeito de ideias claras e sempre disposto a boas causas, poderia se engajar nisso.

Desde que a notícia explodiu, não paro de pensar na estação de ônibus de El Paso, perto de La Paz. Os ônibus partindo para Oruro, Cochabamba…Kevin deve ter passado naquele pedaço esquecido de mundo quando ia em busca do sonho em ver seu time.

Passei por lá quando fiz o documentário “Escravos do Século XXI”, para mostrar onde eram arregimentados os bolivianos que vinham para o Brasil, onde viram escravos. É isso mesmo, trabalho em regime análogo à escravidão, em pleno século XXI. Em São Paulo. Milhares de bolivianos no auge de sua força. Escravizados. Em Itaquera, no Braz, na Mooca, Pari, Liberdade. Na cara de onde teremos uma Copa do Mundo. Ladeado por escravos. Vi tudo isso e digo: que ninguém pense que falar em escravidão é exagero. Fica o convite para quem tiver dúvida para o vídeo no you tube:

Quando uma tragédia dessas acontece, ficamos sempre a pensar no absurdo da morte aos 14 anos. No que um menino desses podia se transformar. Médico, engenheiro, jogador, advogado. Não conheço a história pessoal de Kevin, se é de uma minoria que tem alguma condição para tanto. Assim, sem conhecer, pensando em milhares de jovens de seu país, digo que uma imensa possibilidade para Kevin era tragicamente virar um escravo numa fétida confecção clandestina de São Paulo. Que revenderia o produto de seu trabalho ilegalmente tomado para uma grande corporação. Que em busca dos lucros fingiria não saber de onde vem os frutos da “flexibilização laboral” que alimentam. Milhares de meninos e meninas de La Paz, Cochabamba, Oruro viram escravos aqui. Em pleno século XXI.

Como está no impressionante depoimento de Maria Eugenia (que segue com parte transcrita abaixo) , que conseguiu fugir de uma dessas senzalas e chegou até a Pastoral do Migrante, (cujo trabalho tão maravilhoso nos faz ainda acreditar na espécie) são de jovens do interior como Oruro que os escroques que escravizam mais gostam, pela ingenuidade deles. (O depoimento parece cena de novela das oito e denúncias de tráfico humano mas estão no nosso nariz).

É claro que o exercício de falar em tal destino para Kevin é algo torto. Mas aqui se justifica. Porque me ocorre que algo que daria um pouco de sentido ao que não tem sentido (“nem nunca terá…”), é que alguns desses corintianos tão lúcidos como Tite, Paulo André, Edu Gaspar, viessem a se mobilizar contra a escravidão de bolivianos em São Paulo. Tenham certeza de que muitos deles a essa hora nos porões do Braz, Bom Retiro, Mooca, Pari, Itaquera, se apegaram ao Corinthians. Kevin poderia acabar ali. Cada voz que se levante contra isso, uma faixa entrando em campo contra o trabalho escravo de bolivianos em São Paulo, uma entrevista contra essa aberração… Seria em nome de quem morreu tão moço e não pode olhar muita coisa que queria, como ensinou Ednardo.

Kevin não volta. Mas há muito para se fazer por ele. No futebol e muito além dele.

TRECHOS DO DEPOIMENTO DE MARIA EUGENIA – BOLIVIANA VÍTIMA DE TRABALHO ESCRAVO EM OFICINA DE ITAQUERA

“Eu trabalhava na cozinha em Bolívia, e veio uma senhora, 2, 3 vezes se fez de amiga. Eu ganhava uns 100 reais lá. Ela falou que ia pagar 300 dólares no Brasil. Eu achei que era boa oportunidade. Tenho seis filhos, falei com eles, era boa oportunidade.”

“disse que ia pagar 350 dolares pra uma filha que viesse, são 650 dólares ao mês. Ela pagou a vacina de febre amarela”“pagou as passagens de La Paz”

“quando entramos na sua casa, apenas passamos pela porta, ela passou o cadeado na porta. Botou o cadeado e eu perguntei. Ela disse que entra muitos ladrões, eu disse tá bom…”

“uma semana, sábado, não podíamos sair, estávamos presa. Trabalhávamos desde as 7 da manha até meia-noite, uma da manhã, quando tinha que se entregar o trabalho. Eu cozinhava pra muitas pessoas. “

“quando se cumpriu 1 mês, ela não quis me pagar, a despeito deu ter trabalhado. A comida era muito ruim, não me dava coisas pra cozinhar. Me dava um pouco de carne pra 20 pessoas”

“você tem que ficar 2, 3 meses pra que paguem a passagem, mas fechadas, sem ir a nenhum lugar.”

“passou o segundo mês, agora me pague. Não que você não tem direito.”

“em total era 400 reais, que nos devíamos. Como não podíamos pagar em dois meses?”

“é escravidão; você acorda as 6h30, toma café, as 7h está nas máquinas de costura, ate as 12h. das 12 as 12h30, almoço, meia-hora. Na máquina te trazem o café as 17h. E das 17 a meia-noite, está na maquina. Diga-me: o que se chama isso?

“é escravidão. Não pode imaginar que existem pessoas que vão na Bolívia, botem anúncios na radio, jornal: ‘viaje para Brasil, 400 dolares,” e quando chega aqui com essa ilusão, te põe a chave. Isso é muito ruim”

“eles fechavam o telefone. Abaixo era a oficina, em cima os quartos”

“onde eu trabalhava em Itaquera, as mulheres ficavam aqui, os homens aqui. “

“Um banheiro pra 20 pessoas. Um lugar pequeno, você não sabe como é, sofri muito”

“quando um se resfria, se adoece, todos adoecem. E as trabalhando até meia-noite, as costas doem…voce não sabe, é muito doloroso pros bolivianos. Eu vi muita dor ali”

“imagina quem vem do interior, Oruro, outros estados, chegam a La Paz. A esses são os que buscam, os donos de oficinas, os que não estão integrados, por isso eles se calam, abaixam a cabeça”

“nos trouxeram nós duas. No outro ônibus, trouxeram 5 meninos, 17, 18 anos, 15 anos. Vieram até santa cruz com a gente, depois passaram por Paraguai. Mas os menores passaram por Paraguai.”

“muita gente sofrendo, presa. Mais do que tudo, eles procuram meninos, o que me mais me dói é que eles procuram meninos de 15 anos, 18 anos, 17, 15 anos. É muito ruim, não pode ser…Quando eu voltar a Bolívia, vou fazer uma denúncia, a todos…Eles anunciam nas rádios, na tv, nos jornais, oferecendo 400, 500 dolares…”

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