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BRASIL: uma nação podólatra

Garrincha em partida amistosa da seleção brasileira contra o País de Gales, 1958.

Inspiradas pela experiência republicana francesa, as inúmeras bandeiras municipais confeccionadas no Brasil após a proclamação da República, traziam barretes frígios para representar a liberdade recém conquistada pelos cidadãos. No Brasil de 1889, apenas um ano após a abolição da escravatura, certamente  sapatos seriam ícones muito mais apropriados para representar a ideia de liberdade do que os tais barretes frígios importados da França.

Rogério Beier

ESCLARECIMENTOS INICIAIS

Esse texto nasceu imediatamente após uma provocação muito sadia feita pelo professor Nicolau Sevcenko durante uma de suas aulas de História Contemporânea na FFLCH-USP. Durante sua exposição, o professor pedia a seus alunos que parassem alguns instantes para refletir como os pés e seus produtos culturais são relegados, em nossa sociedade, a uma posição de inferioridade absoluta quando comparados ao cérebro, as mãos e os respectivos produtos atribuídos a estes órgãos. Mais do que isso, o professor nos lembrou que os pés são, invariavelmente, associados a ideias negativas como as de inferioridade, insuficiência, azar, morte ou, até mesmo, pejorativas, como revelam as expressões pé-rapado, pé-de-barro, pé-duro, pé-rachado e muitas outras.

O objetivo deste texto não é outro senão o de responder à provocação do professor de uma maneira bastante simples e despretensiosa. O método adotado para a produção deste pequeno ensaio foi o registro puro e simples das considerações e reflexões estimuladas durante a própria aula expositiva e que, posteriormente, foram melhor elaboradas em forma dissertativa durante a semana que separou a primeira da segunda aula. Portanto, pela própria característica que originou este texto e pela ausência de pretensão acadêmica, o mesmo segue livre de notas de rodapé e referências bibliográficas, já que o material consultado para produzir o texto, foi apenas de referência enciclopédica.

A ORIGEM DO FUTEBOL NA INGLATERRA

Apesar de não haver consenso entre os historiadores de quando e onde surgiu o futebol, muito significativo para este texto é uma das alegadas origens que, segundo alguns, teria se dado na Inglaterra. De acordo com algumas enciclopédias esportivas, historiadores apontam o documento Descriptio Nobilissimae Civitatis Londinae, escrito em 1175 por William Fitzstephen, como o mais antigo relacionado ao esporte. Este documento descreve um jogo que se disputava durante uma festa medieval, a Shrovetide (uma espécie de terça-feira de carnaval), quando ingleses chutavam pelas ruas da cidade uma bola feita de couro a fim de comemorar a expulsão dos dinamarqueses no período de dominação anglo-saxônica. Acredita-se que essa bola que era chutada pelas ruas simbolizava a cabeça de um oficial do exército invasor.

Muitos séculos depois, o costume de se chutar bolas de couro pelas ruas continuava a ser praticado no Reino Unido e, o que era um esporte violento durante a Idade Média, com o passar dos séculos, foi se tornando cada vez mais tranqüilo, até que escolas, clubes e universidades passaram a adotá-lo como prática desportiva no século XIX.

Um grande problema a se resolver nesta época era que cada escola, clube ou universidade utilizava uma regra diferente da adotada por outra. Em umas o uso das mãos era permitido, enquanto em outras, não. Tal indefinição provocava reações até mesmo de praticantes de outro esporte, o rugby, que pediam por uma definição urgente das regras do futebol que, até aquele momento, era muito semelhante ao que se praticava no rugby. Assim, em 1863, uma reunião entre dirigentes de escolas, universidades e clubes praticantes do football foi realizada para estabelecer e unificar as regras do jogo e, em dezembro daquele mesmo ano, fundou-se na Inglaterra a primeira associação de futebol (Football Assossiation) que teria a responsabilidade de definir as regras do esporte que, no século seguinte, acabaria se tornando o mais popular do planeta.

FUTEBOL: PRODUTO CULTURAL DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL?

No mesmo local do globo e período da história a que nos referimos anteriormente, a Inglaterra estava passando por um estágio avançado de sua Revolução Industrial. Por volta de 1870, Londres contava com aproximadamente cinco milhões de habitantes e suas manufaturas produziam bens de consumo a todo vapor, utilizando-se da mão-de-obra de operários que cumpriam, àquela época, uma jornada de dez a doze horas diárias.

Como fizemos questão de destacar acima, as próprias expressões utilizadas para se referir às fábricas e aos trabalhadores não escondem quais partes do corpo eram privilegiadas nesses novos locais de trabalho que se espalharam por todo o Reino Unido. Assim, como não poderia deixar de ser, praticamente todo o trabalho realizado em uma manufatura era feito pelas hábeis mãos dos operários. Além disso, outra característica marcante do trabalho realizado nas manufaturas, era a fixação do operário em um único lugar durante as doze horas de sua jornada. Tal característica apresenta um diferencial com as formas anteriores de trabalho, uma vez que, durante o período feudal, além do trabalhador se deslocar pela terra em que produzia, ele ainda tinha contato com a terra e com a natureza. O trabalho nas fábricas não só é marcado pela fixação do trabalhador a um espaço ainda mais reduzido, mas também por ser afastado dos campos, da terra e do contato com a natureza. Desta forma, não é estranho ouvir que as associações de trabalhadores da época, com o passar dos anos, reivindicavam mais tempo livre para que os trabalhadores desfrutassem de momentos em contato com a natureza, seja nas florestas ou nas montanhas.

Também não nos causa estranheza alguma o fato de que a criação deste esporte, isto é, a organização de suas regras e seu controle através de um órgão associativo, tenha se dado justamente como produto cultural deste local específico do globo e deste período de tempo. Afinal, mesmo que sua criação tenha partido das elites, e não do povo, acreditamos não ser bastante equivocado imaginar o futebol como contrapartida dessa nova vida levada nas cidades. Talvez resida justamente aí a razão da imensa e rápida popularidade deste esporte que, com a implantação da regra onde se proibia o uso das mãos, transformava o jogo justamente em uma oposição ao modo de vida nas fábricas, não apenas por se privilegiar o uso dos pés em detrimento das mãos, mas também por conferir maior dinamicidade à vida de seu praticante.

Outra regra também bastante significativa neste sentido foi a determinação de um campo aberto como local de disputa dos jogos. De uma maneira ou de outra, ela também se contrapõe à nova maneira de viver das grandes cidades justamente por ser um momento onde o praticante teria um contato maior com a terra onde passaria a desempenhar uma atividade extremamente dinâmica, bem longe daquilo que representavam as fábricas e bem perto daquele anseio, que havíamos destacado anteriormente, pelo qual algumas associações de trabalhadores já lutavam.

GOLEIROS: OS INIMIGOS A SEREM BATIDOS

Goleiro, figura tão maldita que onde pisa, não nasce grama.

Frase atribuída a Neném Prancha, botafoguense.

Antes de passarmos ao tema deste texto, isto é, o Brasil e suas relações com os pés, não poderíamos deixar de destacar um jogador específico neste esporte que é o símbolo de tudo o que viemos destacando até o momento: o goleiro.

De acordo com as regras do futebol, os goleiros são os únicos permitidos a tocarem a bola com as mãos durante o jogo. Chama atenção o fato de o objetivo final deste jogador ser justamente evitar aquele que é o objetivo do jogo, isto é, o gol. Assim, o goleiro se torna, na verdade, o grande adversário a ser batido durante jogo. Os demais jogadores são meros obstáculos, há mesmo é que se bater o goleiro, o estraga-prazeres.

Aqui percebemos claramente a presença de uma disputa entre pés e mãos. Uma tensão que precisa ser resolvida e que foi criada em função da introdução, dentro do próprio jogo, de um elemento com valores opostos e objetivos distintos aos de todos os demais e ao do próprio jogo em si. A presença desse jogador transforma-o, é claro, no vilão do jogo, no inimigo a ser batido.

Analisando outros esportes coletivos, vemos que em poucos há a presença de um elemento causador de tamanha tensão inseridos no próprio jogo. No basquete, por exemplo, o objetivo é atirar a bola ao cesto e, ao fim, disputar, uns contra os outros, quem converte mais cestas. Não há a presença de um jogador postado frente às cestas com o objetivo de evitar, com os pés, a conversão dos arremessos. Podemos dizer o mesmo do voleibol, do beisebol ou do futebol americano, por exemplo.

Assim, acreditamos que essa tensão gerada pela presença do goleiro, traz para o jogo a mesma tensão vivida na própria sociedade que criou o esporte. Como viemos expondo até o momento, no futebol os pés ganham sentido de liberdade, mobilidade e contato com a terra, enquanto as mãos representam as fábricas, a rigidez e a vida urbana, caótica e sem perspectiva das grandes cidades. Talvez a grande popularidade conquistada muito rapidamente por esse esporte se justifique exatamente por isso, por dar a seu praticante este sentido de liberdade, mesmo que temporária, de uma sociedade que o cativa, que o impede de se expressar. Ao menos ali, durante o jogo, ele poderá bater o goleiro. Ao menos ali, ele poderá se vingar, aos pontapés, das mãos que o aprisiona.

Não poderíamos deixar de mencionar aqui o fato de, atualmente, alguns goleiros estarem ganhando extrema popularidade e respeito por demonstrarem também possuir habilidades com os pés. No Brasil, grande popularidade ganhou o goleiro do São Paulo Futebol Clube, Rogério Ceni, por ser um jogador que apesar de atuar como goleiro, apresenta enorme facilidade em jogar com os pés fazendo, inclusive, inúmeros gols em cobranças de faltas e penalidades máximas.

BRASIL: CARNAVAL, FUTEBOL E SAMBA

Quem não gosta de samba bom sujeito não é.
É ruim da cabeça ou doente do pé.

Dorival Caymmi em Samba da minha terra.

Ao nos provocar durante a aula, o professor alerta para o fato de que talvez não tivéssemos nos dado conta da mencionada posição de desprezo e submissão dos pés em relação às mãos e ao cérebro e que, até mesmo, nos horrorizaríamos ao constatá-la aqui no Brasil, produto da grande influência cultural e dos valores europeus brutalmente impingidos à nossa sociedade.

De fato, como bem salientou o professor, é inegável que também em nossa sociedade os pés e seus produtos culturais estejam submetidos àquela posição de inferioridade e cheguem, até mesmo, a simbolizar pobreza, miséria ou azar, como já destacamos. Contudo, não podemos deixar de destacar que, diferentemente de outros lugares do globo, o Brasil talvez seja o único país que se identifique e seja identificado intimamente com produtos culturais oriundos dos pés. Afinal de contas, quem nunca ouviu um estrangeiro, ao comentar sobre o Brasil, associá-lo ao carnaval, futebol e samba?

Assim, acreditamos que em nossa sociedade há ainda alguns espaços que resistem a esta imposição cultural das mãos proveniente da Europa. Espaços estes, não por acaso, conquistados pelas camadas mais populares da sociedade, que expressam os produtos desta cultura, de maneira geral, em grupos ou comunidades e nas ruas.

O samba, por exemplo, ganha sua expressão máxima nas ruas. É nas ruas que ele se populariza rapidamente e conquista todo o país, não nos salões e nem nas cortes, como ocorria geralmente com as músicas européias. Através do samba a população deixa a vida particular de lado, suas atribulações cotidianas com o trabalho e sai às ruas para dançar e sociabilizar. Em um dos seus momentos máximos, uma grandiosa festa é organizada e milhões de pessoas em todo o país vão às ruas para dançar o samba, gozar a vida e celebrar intensamente o simples fato de se estar vivo. Eis aí o grande objetivo dessa “ofegante epidemia” que se chama carnaval.

O futebol, por sua vez, ganha no Brasil, e também na África, imensa popularidade. Nessas localidades valoriza-se muito a forma como se joga em contraposição ao objetivo do jogo, ou seja, a vitória. Muitos expectadores destas regiões preferem muito mais assistir a um jogo tecnicamente bem jogado por seus times, do que vê-los vitoriosos jogando um futebol de péssima qualidade. Maior exemplo não pode haver do que os muitos torcedores brasileiros que dizem valorizar mais a seleção brasileira derrotada na Copa do Mundo de 1982 do que a campeã mundial de 1994. Outro exemplo que demonstra essa valorização da técnica é aquele que ouvimos de comentaristas esportivos que insistem em qualificar as seleções africanas de ingênuas, tal como faziam com Garrincha, por estas sobrevalorizarem jogadas bem executadas tecnicamente e com grande efeito plástico em detrimento do gol. Não por acaso Garrincha é reconhecido o ícone máximo do futebol brasileiro. Pelé é “o Rei”, isto é, aquele que praticou o esporte com soberania. Garrincha é, contudo, a “alegria do povo”. Aquele a quem todos gostam de ver jogar. Aquele a quem até mesmo os adversários aplaudem ao vê-lo desferir um drible contra um zagueiro incauto. Sábio é o povo que alcunha seus maiores ídolos distinguindo-os precisamente como o “Rei” e a “alegria do povo”.

Neste sentido, também não deixa de ser curioso e representativo o fato de que, atualmente, a demonstração de extrema habilidade técnica com os pés por parte de um jogador, passe a ser interpretada por seus adversários como um ato de desrespeito e pretensa humilhação destes diante do público em geral. Tal inversão de valores pode demonstrar, mesmo dentro do futebol, como os pés ainda são mal vistos por alguns membros da sociedade, que reprimem a qualidade técnica com violência. Também podemos ver tal fato como uma forma que os menos habilidosos com os pés conseguiram de reverter, através de discursos e práticas, violentas ou não (valorização de jogada aérea), aquilo que inicialmente era valorizado e visto como máxima demonstração de habilidade técnica por parte de um jogador, atuando, desta forma,  como agentes de uma reação da cultura manual dentro do futebol.

No samba, esta reação também pode ser vista com a tentativa de transformação do carnaval em um espetáculo comercial – com local de exibição próprio onde, inclusive, se paga ingresso para participar – que acabaria por restringir a espontaneidade e a liberdade dessa que é, junto com o futebol, uma das expressões mais características de nossa sociedade e que, apesar de não terem sido criados aqui, foram logo acolhidos e ganharam uma expressividade que insiste em resistir bravamente aos influxos culturais cerceadores da liberdade provindos de um velho mundo cada vez mais preso aos grilhões de um sistema individualista e alienante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, gostaríamos de concluir este pequeno ensaio dizendo que concordamos, em parte, com a afirmação de que os pés e seus produtos culturais estão, nas sociedades ocidentais, submetidos a uma condição de inferioridade quando comparados aos produtos culturais das mãos e do cérebro. Dizemos em parte porque, como viemos destacando acima, no Brasil é possível verificar um forte espaço de resistência por parte de produtos culturais característicos dos pés que, apesar de não terem sido criados aqui, ganharam grande popularidade chegando até mesmo a se alçarem como produtos identitários de toda uma nacionalidade. Ainda hoje, apesar de uma reação esboçada por esta sociedade controlada por mãos e cérebro no intuito de modificar a expressão tipicamente popular do Carnaval, Futebol e Samba, estes continuam sendo sinônimos, não só de Brasil e dos brasileiros, mas também da não submissão à um sistema que tolhe as liberdades em busca, cada vez mais, da anulação da humanidade em seu sentido mais profundo.

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We don’t need another hero

Neste último domingo, o programa Esporte Espetacular, da Rede Globo, veiculou uma matéria sobre um jovem jogador de futebol americano que abriu mão de um contrato de US$3,6 milhões para ir lutar na “guerra” do Afeganistão, onde acabou morrendo por “fogo amigo”.

O nome deste jovem era Pat Tillman e, de modo bastante previsível, o governo dos EUA está realizando uma operação para transformá-lo em mais um herói estadunidense para conseguir alavancar o recrutamento de milhares de jovens que se inspirariam em sua história para colocarem suas vidas à disposição do Tio Sam.

Como se sabe, o alistamento militar nos Estados Unidos não é obrigatório e, justamente em função disso, o governo daquele país acaba tendo que realizar estratégias heterodoxas para atrair jovens soldados para o US Army. Quem assistiu ao documentário Fahrenheit 9/11, do cineasta Michael Moore, viu algumas destas estratégias sendo colocadas em prática, tais como a visita de recrutadores a bairros pobres, destroçados pela crise, oferecendo a carreira nas forças armadas como a única oportunidade de emprego para pessoas sem experiência e/ou especialização; ou então, a cooptação de jovens negros e pobres através da oferta de carreiras universitárias nas melhores instituições do país (alistamento como única forma de conseguirem pagar cursos universitários), ou ainda a atração de jovens negros e pobres que sonham com uma carreira atlética/esportiva, isso para não mencionarmos outras estratégias menos nobres, não abordadas pelo filme, como a troca da cidadania americana (green card) para imigrantes ilegais que se alistarem.

Tendo tudo isso em mente, imaginem então a capacidade de atração da história de um ídolo do esporte mais popular dos Estados Unidos da América, que deixou seu contrato de milhões de dólares para se alistar no exército e lutar na Guerra do Afeganistão. Imaginou? Pois então, é justamente a capacidade de atração desta história que está sendo utilizada pelo governo estadunidense como propaganda veiculada até mesmo fora das fronteiras daquele país, como é o caso desta reportagem da Globo.

Infelizmente esta é a história de mais um indivíduo que, iludido por um sentimento patriótico forjado no pós 11 de setembro, tomou uma decisão bastante duvidosa em relação a sua própria vida, trocando-a por uma causa da qual certamente não percebia a visão completa, ocultada que era pelos discursos de que os militares estadunidenses levavam a democracia e a liberdade a países dominados por terroristas.

Como se não fosse suficiente, sua tragédia pessoal agora é utilizada por homens inescrupulosos que, no controle de uma máquina de guerra que nunca para, seguem criando histórias de honra e glória para recrutar outros indivíduos como Pat Tillman. Pessoas dispostas a matar e a morrer por acreditarem em uma ideia envelhecida de pátria, que já parece descabida em um mundo como o de hoje, mas que ainda segue cativando milhares e milhares de pessoas.

Finalizo este post da mesma forma como comecei, isto é, relembrando uma canção dos anos 80, de Tina Turner, cujo título decidi utilizar para nomear este texto, no intuito de lembrar que não precisamos deste tipo de heróis. Pessoas como Pat Tillman e os milhares de recrutas estadunidenses são muito mais necessárias em suas casas, com suas famílias, criando seus filhos, exercendo suas profissões e não morrendo em “guerras” que sequer guerras são. É lamentável que a Globo, ciente destes mecanismos, veicule em seu programa esportivo dominical, visto por milhões de crianças em todo o país, uma mensagem que estimula um patriotismo vazio, que oculta por trás da imagem do auto-sacrifício, aquilo que existe de mais podre na humanidade: o extermínio de milhares de seres humanos em troca de mais poder e dinheiro a um pequeno grupo, ou seja, a guerra.

PS: Deixo abaixo link para a íntegra do documentário Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, disponibilizado no YouTube. Quem tiver interesse em acompanhar especificamente a questão do recrutamento militar nos EUA, basta avançar a execução até 1:20:00 e acompanhar o filme por aproximadamente uns dez minutos.

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O legado da Copa e das Olimpíadas ao Brasil: sem-tetos

Certamente o maior legado que a Copa do Mundo e as Olimpíadas deixarão para o Brasil será o número exorbitante de famílias sem teto. Como temos acompanhado recentemente, as desapropriações já começaram e o rastro de violência, destruição e morte já se faz perceber. Segundo o Portal Popular da Copa e das Olimpíadas, duas mil pessoas já foram despejadas e estima-se que, até o final do processo, 170 mil pessoas tenham seu direito a moradia atingido.

No caso de Pinheirinho, não é de surpreender que São José dos Campos esteja justamente como uma das paradas obrigatórias na rota prevista para o Trem de Alta Velocidade (TAV), que ligará Campinas e São Paulo ao Rio de Janeiro. Não restam dúvidas de que o projeto do TAV (estimado em R$ 33 bilhões) contribuiu para colocar ainda mais pressão ao supervalorizar um terreno com mais de um milhão de metros quadrados em São José dos Campos.

São José dos Campos, uma das paradas na rota proposta para o TAV que liga Campinas ao RJ

Embora o projeto não deva ser concluído a tempo para as Olimpíadas no Rio de Janeiro, já que teve sua licitação adiada para abril de 2012, todo ele foi proposto, justificado à opinião pública e vendido às autoridades esportivas como um grande esforço do Brasil para melhorar a infraestrutura de transporte para os jogos olímpicos, o que faz com que Pinheirinho seja incluído nessa conta dos 170 mil despejados levantados pelo dossiê nacional de violações dos direitos humanos.

A notícia sobre os despejos já realizados no Brasil chamou atenção para o fato de que para os movimentos populares, a maior ameaça de violação do direito de moradia viria em decorrência de grandes projetos urbanos com impactos econômicos, fundiários, urbanísticos, ambientais e sociais. “Além das obras públicas em si, é esperada a proliferação de condomínios de luxo e centros empresariais”. Não por acaso,  o destino que se pretende dar ao terreno desocupado do Pinheirinho é justamente a criação de uma extensão de um centro empresarial que já existe na região. Como bem apontada a reportagem: “as empresas do setor imobiliário atuam para retirar ou isolar populações pobres na região, ou podem até “atropelar” comunidades para se expandir.”

O crescimento econômico brasileiro, no qual a construção civil e propriedade privada desempenham um papel cada vez maior, está por trás de todo esse caso do Pinheirinho, como aponta Rodrigo Nunes em seu artigo para a versão online do jornal britânico The Guardian.  A escolha do Brasil como sede para a Copa do Mundo e Olimpíadas somente acelerou este processo sendo que o Estado brasileiro vem atuando neste processo repassando áreas públicas – inclusive aquelas ocupadas pelos pobres – à iniciativa privada e também concedendo isenções de impostos para financiar boa parte das obras. O estádio do Corinthians, em Itaquera, é só mais um exemplo.

O direito à moradia adequada é sistematicamente violado quando os países se preparam para sediar grandes eventos como Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos. Já havia sido assim em Beijing e também na África do Sul, portanto não seria diferente no Brasil, como reportou às Nações Unidas a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e também relatora especial da ONU para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik. Para ela, na história dos megaeventos esportivos, o propalado legado urbanístico e socioeconômico é a exceção, não a regra. Muito mais frequentes são os casos em que as populações desassistidas se transformam em vítimas de um processo atropelado de remoção e as contas das cidades mergulham no vermelho.

Como relatora da ONU, Rolnik denunciou a violação de direitos humanos ocorrida na reintegração de posse do Pinheirinho e também lançou um “apelo urgente” para que as autoridades interrompam a atuação em São José dos Campos. A relatoria pedirá explicações sobre as ocorrências na região e alertará para violação de direitos humanos ao se usar polícia e confronto na reintegração.

Com a transformação do Brasil em um imenso canteiro de obras, o fato de existirem pessoas vivendo onde se deseja construir acaba se tornando um grande problema, como lembra um post no Blog do Sakamoto. Dessa forma, o autor pondera que para não interromper o caminho do crescimento brasileiro, remove-se, expulsa-se, retira-se sem se importar onde estas pessoas passarão a viver, sendo que a única coisa realmente importante é que elas não atrapalhem a marcha de crescimento do Brasil, seja na construção de casas, escritórios, estradas, hidrelétricas ou estádios de futebol.

Sakamoto lembra bem ao falar que a política higienista no governo de São Paulo, seja na instância municipal ou estadual, não é novidade. Sabemos que empreiteiras e especuladores imobiliários há tempos doam recursos para as campanhas dos políticos, emprestam parentes para cargos públicos, influenciam o cumprimento ou  não de regras como no caso do plano diretor da cidade de São Paulo. Concordo totalmente com ele que a conclusão que podemos chegar a partir disso é que neste país, infelizmente, a Constituição Federal é letra morta, especialmente se levarmos em consideração que a função social da propriedade, conforme descrito na Constituição, não é levada em conta nas decisões judiciais e justamente por isso os direitos das comunidades não são preservados.

O pessoal do Pinheirinho ousou resistir, mesmo sabendo que seriam massacrados, como realmente o foram. O exemplo desta comunidade é paradigmático ao ilustrar muito bem como o Estado vai reagir se alguém se interpor no caminho do Brasil que vai pra frente. Tendo isso em mente, enquanto vejo a apoplexia da maior parte da população brasileira, só posso formular uma pergunta que me deixa extremamente angustiado: quantos Pinheirinhos mais teremos que testemunhar daqui até 2014 e 2016?

Infelizmente, não há como saber quantos haverão, mas sei que muitas desapropriações repletas de violência e morte são certas. Aguardem porque notícias sobre desocupações violentas no Rio de Janeiro, Fortaleza, Brasília, Natal, Salvador e Manaus são só questão de tempo e quando 2014 chegar, haverão aqueles que ao ouvir o Galvão Bueno se ufanando sobre as qualidades do Brasil e do seu povo, vão estufar o peito e sentir orgulho de ser brasileiro, preferindo ignorar que o verdadeiro legado que estes megaeventos nos deixarão será um número exorbitante de famílias sem-teto e, consequentemente, um enorme rastro de violência, destruição e morte, até mesmo em locais por onde eles não vão passar, como em São José dos Campos.

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A obscenidade da F1, a fome e Sísifo

Nesta semana muita gente festejou a notícia de que Bruno Senna vai permanecer por mais um ano no circo da Fórmula 1, após ter conseguido uma vaga na escuderia Williams. Infelizmente não posso celebrar tal notícia ao tomar conhecimento de que foi necessário comprar, à peso de ouro, esta vaguinha no cockpit da Williams. Nada contra Bruno Senna, que até parece ser um rapaz simpático e é só mais um que usa do expediente de recorrer a patrocinadores bilionários que tem na Fórmula 1 o seu hobby. Outro brasileiro que fez o mesmo no passado foi Pedro Paulo Diniz, filho de ninguém menos do que Abílio Diniz.

No caso mais recente, o negócio foi realizado por um pool de bilionários formado por OGX (Eike Batista), MRV (Rubens Menin) e Embratel (Carlos Slim), além da Procter & Gamble. Segundo levantou a reportagem da Folha de S. Paulo, especula-se que o valor para garantir a permanência de Bruno Senna na Fórmula 1 tenha girado em torno dos R$ 30 milhões.

A verdade é que essa notícia me passaria despercebida, não fosse uma frase bastante infeliz proferida meses atrás por Eike Batista, sobre o que pretende fazer em relação à sua fortuna pessoal depois de compará-la à de seu colega (e copatrocinador de Bruno Senna), Carlos Slim: “Preciso competir com o senhor Slim. Não sei se vou ultrapassá-lo pela direita ou pela esquerda, mas vou passá-lo.”

A ultrapassagem a qual Eike Batista se refere não tem nada a ver com Fórmula 1. Segundo a Forbes, o Sr. Batista seria o oitavo homem mais rico do planeta, com uma fortuna pessoal estimada em US$ 30 bilhões, enquanto seu concorrente mexicano, dono de Claro, Embratel e Net, dentre outras, é o homem mais rico com uma fortuna estimada em US$ 72 bi.

Os números das fortunas dos senhores Batista e Slim, além de OBSCENOS, servem para explicitar AINDA MAIS a crueldade do sistema em que vivemos, especialmente por estes indivíduos virem de países tão marcados por injustiças sociais.

As normas do CAPITALISMO regem, como há séculos estamos aprendendo pela experiência,  que para ser possível a existência de alguns Batistas e Slims ao redor do mundo, é condição sine qua non a co-existência de milhões de pessoas vivendo na mais absoluta miséria. E, para não deixar de lembrar aqui o saudoso MILTON SANTOS, este desejo de Eike Batista em acumular mais outros tantos bilhões de dólares,  para ultrapassar seu concorrente nessa verdadeira competição macabra, escancara de vez que a questão da fome no mundo não deixa de ser uma questão de decisão. Apenas decidimos que alguns não devem comer. É, portanto, uma opção. Nós decidimos que seja assim.

Gosto demais da frase extraída do livro de JOSUÉ DE CASTRO, o Geopolítica da Fome, escolhida para abrir o trecho selecionado do vídeo acima: “A humanidade está dividida em dois grupos: o grupo dos que não comem e o grupo dos que não dormem, com receio da revolta dos que não comem.” 

O grande problema é que este segundo grupo conseguiu convencer o primeiro de que, para garantir a segurança de todos, eles deveriam deter o monopólio da violência. Não por acaso, todas as revoltas populares são reprimidas com extrema violência pelo braço armado que o grupo dos que não dormem criou para defender seus próprios interesses. Isso para não mencionar que este grupinho seleto conta ainda com o apoio inestimável de outros indivíduos, cooptados a fazer parte do grupo com o propósito de executarem a estratégica tarefa de se comunicar com “a ralé”.

O papel destes últimos é fazer com que os milhões e milhões que não pertencem ao grupo dos Batistas e Slims, acreditem na ilusão de que, se trabalharem duro e batalharem pra valer por toda a vida, talvez um dia possam fazer parte da patotinha. Estes agentes de que estou falando são ninguém menos do que os Marinhos, os Civitas, os Mesquitas, os Frias e toda essa gente boa que nos diz, cotidianamente, o que devemos assistir, ler e comprar, ou ainda, como devemos nos comportar e, até mesmo, o que devemos pensar a respeito de tudo o que acontece no mundo. Tal como no ensaio filosófico do mito de Sísifo, de Albert Camus, ao invés de nos rebelarmos, seguimos empurrando nossa pedra para cima do morro só para vê-la rolar para baixo e, no dia seguinte, voltar à árdua tarefa de empurrá-la novamente até o topo.

No capitalismo fomos transformados em seres condenados a realizar diariamente uma mesma tarefa enfadonha e sem sentido: viver.

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