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Indicação ou comentários a respeito de filmes.

O Oscar, o jornalismo e o racismo

por Fábio Nogueira para o blog Fazendo Media | 03.fev.2016

racismo oscarO ano mal iniciou e já começamos a levar uma série de baques. Mortes de personalidades que fizeram parte da minha juventude e simplesmente nos deixaram órfãos. A vida Continua. Fora isso, somos assolados por comentários que nos fazem duvidar de certos jornalistas. Um deles de certa emissora, ainda não conformado pela decisão massacrante do STF (Supremo Tribunal Federal) que deu parecer favorável à constitucionalidade das cotas raciais em universidades públicas, jorrou o seu veneno contra os alunos que optaram por essa política. Utilizou sua visibilidade televisa para afirmar que esses alunos seriam péssimos profissionais quando se formassem. É um daqueles periodistas mal intencionados que fizeram “profecias” catastróficas em referência à entrada de cotistas nas universidades. Tais previsões eram as piores possíveis, partiam dos conflitos raciais dentro das instituições de ensino superior, passavam pela queda da qualidade do ensino e divisão racial do país (como se esta não existisse ), até as desistências. A pergunta que fica é: cumpriram-se as profecias?

Doze anos já se passaram desde que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) adotou as políticas de cotas raciais. Para muitos, outras universidades públicas pareciam esperar quais seriam os primeiros resultados da UERJ para, somente então, seus conselhos universitários tomarem medidas similares. Como indica essa matéria publicada no portal Geledés.

De modo geral, as cotas são um sucesso. Tenho testemunhado a entrada de jovens e adultos que fazem parte da primeira geração da família a ingressar em uma universidade. Não entro mais naquela mesmice do contra ou a favor. Encerrou. Hoje a minha função é dizer o que são as políticas de ações afirmativas (incluindo cotas) e como outros países as têm adotado segundo suas necessidades e histórias.

Quanto àqueles que insistem em ficar na mesma discussão….. entendo que seja melhor deixar os cães latirem. Nunca saberão o que é viver em pé de igualdade e, aliás, a ideia de viver em uma sociedade que se pretende igualitária lhes causa pânico.

Tal como esses, há também quem pregue a meritocracia como parâmetro de igualdade. Soa como canto da sereia essa palavra. Chega a ser imoral pregar esta mentira num país tão desigual como o Brasil. Mesmo com os avanços sociais, ainda há muitos Brasis. Há um, bastante conhecido, em que se destaca uma minoria opressora que vem mandando há séculos no país. Esta, como se sabe, não está disposta a dividir os privilégios com ninguém. E há outro Brasil, o da maioria, que clama para que seja desatado o nó da desigualdade.

Atores e atrizes estadunidenses não perderam tempo em criticar a academia de arte e cinema de Hollywood. Pelo segundo ano consecutivo, a ausência negra (as) dentre todas as categorias foi percebida. Não há negros indicados sequer nas categorias técnicas. O resultado será o boicote de personalidades negras e brancas solidárias pela ausência da diversidade dentro da academia. Os protestos já estão gerando frutos. No próximo ano Hollywood fará várias alterações visando aumentar a pluralidade de sua premiação, buscando incluir mais negros e latinos.

Vale destacar o silêncio de nossos atores em relação a este assunto. Pouquíssimos abordam o tema, pois não há o compromisso de esconder e fingir que está tudo bem.Vejo atores veteranos repetindo os mesmos papéis em outras novelas, parecendo continuação da última interpretação. Talvez a regulamentação da mídia fosse umas das saídas para melhor trabalharmos a diversidade. Ainda tenho a esperança de que alguém da classe artística, sem vinculo com A ou B, toque nessa ferida e diga que há barreiras para que artistas negros possam mostrar seu valor.


Texto: Fábio Nogueira é  estudante de história da Universidade Castelo Branco e Militante da Educafro. E-mail. Historiadorfabioucb.49@outlook.com

Revisão: Rogério Beier é historiador, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo.

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O caso Hakani e as lições de Chinua Achebe: o mundo jamais parou de se despedaçar…

Neste mês de outubro, trechos de um documentário produzido em 2010 voltaram a circular vivamente nas redes sociais . Trata-se de trechos do documentário Hakani, de David Cunningham, produzido por uma organização estadunidense chamada Youth with a Mission, atuante no Brasil desde 1975 e mais conhecida aqui no Brasil pelo nome de Jocum.

Hakani foi produzido por um grupo de missionários protestantes que explorou a prática do infanticídio entre algumas tribos indígenas, não tão difundida entre os distintos grupos étnicos brasileiros, como instrumento para arrecadar fundos para a missão evangélica e aumentar a capacidade de disseminar sua crença religiosa na região, visando substituir não apenas esse aspecto da cultura dos grupos indígenas sob sua influência, mas praticamente toda a cultura ancestral dessas sociedades.

Ao deparar-me com tal notícia, foi impossível não recordar do livro magistral do nigeriano Chinua Achebe, O Mundo se Despedaça, publicado originalmente em 1958, e reeditado mais recentemente no Brasil pela Companhia das Letras (2009).

O objetivo desse post é, portanto, dar um pouco mais de detalhes sobre a repercussão do vídeo Hakani para, em seguida, destacar trechos da obra de Achebe visando promover uma reflexão sobre as culturas indígenas (a partir da cultura das tribos africanas) e de como esta última acabou substituída a partir da catequização promovida pelos missionários cristãos que, a partir da religião, introduziram os valores da cultura ocidental implementando nas localidades em que chegavam, além da própria instituição religiosa, as jurídico-administrativas.

O CASO HAKANI

O trecho do vídeo mostra índios enterrando crianças de sua própria tribo com problemas mentais ou físicos ainda vivas. As cenas mostram um índio adulto pegando uma criança, aparentemente portadora de uma deficiência física nas mãos, e atirando-a em uma vala recém-cavada. Após deixar a criança desacordada, o adulto joga terra sobre o corpo e o rosto da criança inconsciente até que ela esteja completamente enterrada.

O vídeo em questão trata-se de uma farsa. Hakani foi um filme produzido com indígenas de verdade, porém, pagos para atuarem no filme. Segundo o site do projeto Hakani, a terra utilizada para enterrar a criança que atuou no documentário é, na verdade, bolo de chocolate.

Foto: hakani.org

Embora o filme tenha sido encenado, a prática do infanticídio em comunidades indígenas ainda é uma realidade, cada vez menos comum, mais ainda realizada. O filme recebeu esse nome em função de uma pequena índio da tribo Suruwaha adotada por missionários evangélicos. Segundo os pais adotivos de Hakani, membros de sua própria tribo tentaram matá-la enterrando-a viva aos dois anos de idade, porque ela ainda não havia começado a andar e falar àquela época.

Apesar da afirmação da família, o jornal USA Today reportou que embora a família adotiva possua os registros hospitalares e fotos do estado debilitado de saúde na qual encontraram a garotinha, não há como verificar se o que dizem a respeito da tribo é verdade ou não.

Após adotar Hakani, a família decidiu juntar-se ao diretor David Cunningham para a produção do filme com o objetivo de recriar uma “tentativa de assassinato” de uma criança para ilustrar como o infanticídio é uma prática recorrente entre as tribos indígenas do Brasil.

Segundo noticiou o site e-farsas.com, o documentário foi exibido em diversas igrejas nos Estados Unidos para arrecadar fundos e chamar atenção para o infanticídio no Brasil. A Fundação Nacional do Índio (FUNAI), por sua vez, teria considerado “escusa” a origem do filme e teme a generalização inadequada de uma tradição indígena e garante que o assassinato de crianças com deficiência não é comum a todas as etnias. Mesmo entre as tribos que ainda tem esse costume, já existem alternativas de adoção das crianças doentes por outras famílias para evitar as mortes, afirma a fundação.

Ainda de acordo com a notícia do e-farsas.com, a ONG Survival International afirma que:

“Há décadas que os missionários evangélicos escondem seu trabalho, especialmente em lugares como América do Sul, que tem uma tradição católica muito forte. A Jocum foi expulsa de certas áreas do Brasil, mas continua lá ilegalmente.”

Banner do site hakani.org pede doação para instituição.

Banner do site hakani.org pede doação para instituição.

Essa mesma organização acusa o filme de ser “uma ferramenta feita para grupos cristãos evangélicos aumentarem a sua capacidade de espalhar a sua crença religiosa, apesar das preocupações do governo brasileiro sobre os seus métodos!”. A ONG afirma ainda que a questão do infanticídio amazônico tem sido distorcida e inflada e, por isso, as pessoas pensam que a matança de bebês é comum entre os índios, enquanto que na prática isso é raro de acontecer. Segundo a Survival International:

“enquanto que as tribos indígenas do Brasil estão sendo expulsas de suas terras ou mortas por fazendeiros, mineradores e madeireiros… A questão do infanticídio é apenas uma distração destrutiva”.

CHINUA ACHEBE: O MUNDO SE DESPEDAÇA

Chinua Achebe, autor nigeriano morto em março de 2013. Foto: AP/Axel Seidemann

Chinua Achebe, autor nigeriano morto em março de 2013. Foto: AP/Axel Seidemann

Neste livro, Achebe descreve como era a sociedade dos ibos, a economia, seus líderes e, como não poderia deixar de ser, suas crenças mitológicas. Descreve como eram os deuses, os rituais de purificação, as festas, a plantação, a colheita, as interdições, o casamento, os chefes espirituais e muitos outros aspectos da vida daquela tribo. Como analisa Lucas Deschain, o mundo descrito por Achebe era “um mundo em que a sociedade ibo ainda mantinha-se “intocada” pela colonização europeia, de modo que havia uma preservação muito forte e socialmente endossada das tradições dos antepassados. Aquele arranjo social e histórico, que era mantido por gerações e gerações, havia se estabelecido e se arraigado fortemente nos corações e nas mentes de seus habitantes e cultivadores”. Contudo, mais marcante para este post é a descrição que Achebe faz da chegada do “homem branco” tal como observada pelos ibos. De princípio, os brancos se disseminaram através dos missionários cristãos e suas tentativas de catequização dos indivíduos mais fracos, rejeitados por doenças e/ou proscritos da tribo por alguma violação dos costumes.

Abaixo destacamos alguns trechos de como Achebe descreve a cultura de uma das vilas do povo ibo, na Nigéria, e de como os grupos de missionários ingleses conseguiram se infiltrar no meio deles, disseminando sua fé e, aos poucos, transformando a cultura dos ibos.

O COSTUME DE ABANDONAR OS GÊMEOS NA FLORESTA À PRÓPRIA SORTE

Voltavam para a casa com as cestas dos inhames desenterrados de uma roça distante, na outra margem do rio, quando ouviram uma criança chorando na densa floresta. Fizera-se um súbito silêncio entre as mulheres que vinham a conversar, e elas apressaram o passo. Nwoye tinha ouvido contar que os gêmeos eram colocados em potes de barro e atirados bem longe, na floresta, mas nunca lhe acontecera de encontrá-los no caminho. (p. 81).

* * *

Obirieka era um homem que costumava refletir sobre as coisas. Após a vontade da deusa da terra ter sido cumprida, sentou-se em seu obi e pôs-se a lamentar a desgraça do amigo. Por que alguém deveria passar por tamanho sofrimento por causa de uma ofensa cometida inadvertidamente? Porém, embora pensasse longo tempo sobre isso, não encontrou resposta. Tais pensamentos o levaram a refletir sobre problemas ainda mais complexos. Lembrou-se dos filhos gêmeos que sua mulher tivera e que ele jogara no mato. Que crime eles tinham cometido? A terra decretava que os gêmeos constituíam uma ofensa ao mundo e que precisavam ser destruídos. E se, por acaso, a tribo não punisse rigorosamente qualquer ultraje à poderosa deusa, sua ira cairia sobre toda a região, e não apenas sobre o ofensor, pois, como diziam os anciãos, se um dedo estiver sujo de óleo, manchará os demais. (pp. 144-145).

A CHEGADA DO HOMEM BRANCO

– Durante a última estação de plantio, um homem branco apareceu na terra deles.

– Um albino – sugeriu Okokwo.

– Não, não era um albino. Era um homem completamente diferente. – Bebericou o vinho. – E chegou montado num cavalo de ferro. (p. 158).

* * *

– Mas tudo isso me deixou receoso. Todos nós temos ouvido histórias sobre homens brancos que fazem espingardas poderosas e bebidas fortes, e que levam escravos para longe, através dos mares; mas nunca nenhum de nós pensou que fossem histórias verdadeiras. (p. 161).

CHEGADA DOS MISSIONÁRIOS EM UMUÓFIA

Os missionários tinham chegado a Umuófia. Ali construíram uma igreja, lograram algumas conversões e já começavam a enviar catequistas às cidades e aldeias vizinhas. Isso constituía motivo de grande pesar para os líderes do clã, embora muitos deles acreditassem que aquela estranha fé, bem como o deus do homem branco, não durariam. (…) Chielo, a sacerdotisa de Agbala, chamara os convertidos de excrementos da tribo, e a nova fé, para ela, era um cachorro raivoso que viera devorar os excrementos. (p. 163).

CATEQUIZANDO OS IBOS

A essa altura, um velho disse que tinha uma pergunta a fazer:

– Qual é esse deus de vocês? – indagou. – É a deusa da terra? O deus do céu? Amadiora, o do trovão? Qual é, afinal?

O intérprete transmitiu a pergunta ao homem branco, que imediatamente deu sua resposta.

Todos os deuses que o senhor citou não são deuses de forma alguma. São, isto sim, falsas divindades, que lhes ordenam que matem seus semelhantes e destruam crianças inocentes. Só existe um Deus verdadeiro, e Ele possui a terra, o céu, o senhor, eu e todos nós.

– Se abandonarmos os nossos deuses e resolvermos seguir o seu – indagou outro ouvinte -, quem vai nos proteger contra a ira dos nossos deuses abandonados e dos nossos ancestrais?

– Os deuses de vocês não existem e, portanto, não lhes podem causar nenhum mal – retrucou o homem branco. – São meros pedaços de madeira e de pedra.

Quando essas declarações foram traduzidas para os homens de Mbanta, eles se puseram a rir. Esses sujeitos devem ser doidos, pensaram. Caso contrário, como poderiam acreditar que Ani e Amadiora fossem inofensivos? E que também o fossem Idemili e Ogwugwu? E, assim pensando, alguns homens começaram a ir embora.

Então, os missionários puseram-se a cantar. Era uma dessas músicas alegres e animadas dos evangelistas, que têm o poder de tocar certas cordas mudas e empoeiradas do coração dos ibos. (pp. 166-167).

A INSTALAÇÃO DE IGREJAS E A CRISTIANIZAÇÃO DOS IBOS

– Agora, nós já construímos uma igreja – dizia o sr. Kiaga, o intérprete, que havia tomado a seu cargo a nascente congregação. O homem branco voltara para Umuófia, onde estabelecera seu quartel-general e de onde fazia visitas regulares à congregação de Kiaga, em Mbanta.

– Agora que já temos a nossa igreja – dizia o sr. Kiaga –, queremos que todos vocês venham para cá, de sete em sete dias, adorar o verdadeiro Deus. (p. 171).

OS IBOS QUE SE REFUGIAVAM ENTRE OS MISSIONÁRIOS

O Mundo se Despedaça. Companhia das Letras (2009).

O Mundo se Despedaça. Companhia das Letras (2009).

(…) Nneka engravidara quatro vezes anteriormente, e quatro vezes dera à luz. Em cada uma dessas vezes tivera gêmeos, e as crianças tinham sido jogadas fora logo após o nascimento. Tanto o marido quanto a família dele já começavam a olhar a mulher com desagrado e estranheza, e não ficaram nem um pouco perturbados ao descobrirem que ela havia fugido para juntar-se aos cristãos. Livraram-se de boa. (p. 172).

* * *

O homem branco trouxera não apenas uma religião mas também um governo. Dizia-se que os missionários tinham construído um local de julgamento em Umuófia, a fim de proteger os prosélitos de sua religião. Dizia-se até mesmo que tinham enforcado um homem que matara um dos missionários. (…) Tais problemas tiveram início com a admissão de parias em seu seio.

Esses párias, ou osu, ao verem que a nova religião recebia gêmeos e outras abominações semelhantes, pensaram que também poderiam ser aceitos por ela. (…) Um osu era uma pessoa dedicada a um deus, uma coisa posta de lado – um tabu para sempre, assim como todos os filhos que viesse a ter. Jamais poderia se casar com um nascido-livre. Na realidade era um proscrito que vivia numa área especial da aldeia, próxima ao Grande Santuário. Aonde quer que fosse, levava em si a marca de sua casta marginalizada: cabelos longos, emaranhados e sujos. As navalhas eram-lhe proibidas. Um osu não podia assistir a uma assembleia dos nascidos-livres, e estes, por sua vez, jamais poderiam abrigar-se sob o teto de um osu. (…) Quando ele morria, era enterrado pelos de sua espécie na Floresta Maldita. Como poderia um homem semelhante tornar-se um dos prosélitos de Cristo?

– Ele precisa de Cristo muito mais do que você ou eu – retrucou o sr. Kiaga.

– Nesse caso, retornarei ao clã – declarou o convertido. E foi-se embora. O sr. Kiaga ficou firme, e foi essa sua firmeza que salvou a jovem igreja. Os convertidos hesitantes receberam inspiração e confiança dessa sua fé inquebrantável. (pp. 178-179).

* * *

[Após sete anos] não apenas os de baixa extração ou os proscritos tinham aderido à nova fé, mas também alguns homes de valor. Um exemplo era Ogbuefi Ugonna, que recebera dois títulos e que, num ato de loucura, cortara a tornozeleira de seus títulos e a jogara fora para se juntar aos cristãos. O missionário branco orgulhava-se muito dele, que fora um dos primeiros homens em Umuófia a receber o sacramento da Sagrada Comunhão, ou Sagrada Festa, como se dizia em ibo. (p. 196).

A REAÇÃO DOS PAIS QUANDO OS FILHOS ABANDONAVAM AS TRIBOS E SE RECOLHIAM NAS IGREJAS

Agora que tinha tido tempo para pensar no caso, o crime do filho destacava-se ainda mais em sua rematada enormidade. Ter abandonado os deuses do próprio pai e sair por aí com um bando de sujeitos efeminados, a cacarejarem como galinhas velhas, era atingir as profundezas da abominação. E se quando ele, Okonkwo, morresse, todos os seus filhos machos resolvessem seguir os passos de Nwoye e abandonassem os ancestrais? Okonkwo sentiu um calafrio diante de tão terrível probabilidade, probabilidade que, para ele, significava uma total aniquilação. Via-se a si próprio e a seu pai, juntos, no santuário dos antepassados, a esperarem inutilmente pelo culto ou pelos sacrifícios de seus descendentes, nada restando ali senão as cinzas do passado, enquanto seus filhos rezavam ao deus do homem branco. Se tal coisa acontecesse, ele, Okonkwo, os faria desaparecer da face terrestre. (p. 174).

O TEMOR DOS MAIS VELHOS PELO DESTINO DOS IBOS

(…) Mas temo por vocês, os jovens, porque vocês não compreendem como são fortes os laços de família. Não sabem o que é falar com uma só voz. E qual é o resultado disso? Uma religião abominável instalou-se entre vocês. De acordo com essa religião, um homem pode abandonar o pai e os irmãos. Pode blasfemar contra os deuses de seus pais e contra os antepassados, como se fosse um cachorro de caça que de repente ficasse louco e se voltasse contra o dono. Temo por vocês e temo pelo nosso clã. (p. 189).

A IMPOSSIBILIDADE DE EXPULSAR O HOMEM BRANCO DEPOIS DE ALGUNS ANOS

(…) Os antepassados deles jamais ousaram enfrentar os nossos ancestrais. Precisamos lutar contra aqueles homens e expulsá-los de nossa terra.

– Acho que agora é tarde demais – referiu Obierika, tristemente.  Nossos prórios canaradas e nossos filhos já se juntaram às fileiras do forasteiro. Adotaram a religião dele e ajudam a apoiar o seu governo. Não será difícil tentar expulsar os homens brancos de Umuófia, pois só há dois deles. Mas que dizer da nossa própria gente, que segue o mesmo caminho e a quem eles deram poder? Iriam a Umuru e trariam soldados, e aconteceria conosco o mesmo que aconteceu em Abame. – Fez uma longa pausa e, depois, continuou:  Penso que já lhe contei, em minha última visita a Mbanta, como foi que enforcaram Aneto.

– O que aconteceu, afinal, com aquele pedaço de terra em disputa?  perguntou Okwonkwo.

– A corte do homem branco decidiu que deverá pertencer à família de Nnama, que tem dado muito dinheiro aos funcionários e ao intérprete do homem branco.

– Por acaso o homem branco entende os nossos costumes no que diz respeito à terra?

– Como é que ele pode entender, se nem sequer fala a nossa língua? Mas declara que nossos costumes são ruins; e nossos próprios irmãos, que adotaram a religião dele, também declaram que nossos costumes não prestam. De que maneira você pensa que poderemos lutar, se nossos próprios irmãos se voltaram contra nós? O homem branco é muito esperto. Chegou calma e pacificamente com sua religião. Nós achamos graça nas bobagens deles e permitimos que ficasse em nossa terra. Agora, ele conquistou até nossos irmãos, e o nosso clã já não pode atuar como tal. Ele cortou com uma faca o que nos mantinha unidos, e nós nos despedaçamos. (p. 198).

A HISTÓRIA DE UMUÓFIA CONTADA POR UM DOS COMISSÁRIOS INGLESES

(…) Durante os muitos anos em que arduamente vinha lutando para trazer a civilização a diversas regiões da África, tinha aprendido várias coisas. Uma deles era que um comissário distrital jamais deveria presenciar cenas pouco dignas, como, por exemplo, o ato de cortar a corda de um enforcado. Se o fizesse, os nativos teriam uma pobre opinião dele. No livro que planejava escrever, daria ênfase a esse ponto. Enquanto percorria o caminho de volta ao tribunal, ia pensando em seu livro. Cada dia que passava trazia-lhe um novo material. A história desse homem que matara um guarda e depois se enforcara daria um trecho bem interessante. Talvez rendesse até mesmo um capítulo inteiro. Ou, talvez, não um capítulo inteiro, mas, pelo menos, um parágrafo bastante razoável. Havia tantas coisas mais a serem incluídos, que era preciso ter firmeza e eliminar os pormenores.

O comissário, depois de muito pensar, já havia escolhido o título do livro: A pacificação das tribos primitivas do Baixo Níger.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Prefiro deixar que os leitores façam suas próprias considerações finais [se é que chegaram até o fim do post] após comparar o caso Hakani com os trechos que destaquei do livro de Chinua Achebe. Acho que, de modo bastante claro, deixei minha opinião expressa no título deste post.

Entendo que  não é fácil posicionar-se em uma situação como esta, pois há, aqui, uma sobreposição [ou um choque] de valores fundamentais. Se acreditamos que a vida é um valor universal e, ao mesmo tempo, entendemos que devemos respeitar as culturas e tradições de outras sociedades, isto é, ter respeito pela alteridade cultural, como devemos nos posicionar diante de uma situação em que a cultura do outro, em algumas situações específicas, atentará contra a vida de alguns entes de seu próprio corpo social? Isso é ou não é de nossa conta? Devemos interferir? Se sim, o que nos leva a crer que nossos valores são superiores ao do outro? Não teremos nós, em nosso meio, costumes ou práticas tão abomináveis quanto essa? O preço que o outro deve pagar pelo azar de ter encontrado a nossa sociedade é a submissão de seus valores e a transformação absoluta dos mesmos pela assimilação dos nossos valores até um ponto onde a sua cultura ancestral vire apenas uma longínqua lembrança, traços e reminiscências, como o nome de uma praça, uma dança típica ou um prato de comida?

Quaisquer que sejam as respostas a essas perguntas, não creio que passem por um grupo de missionários evangélicos. Aliás, essa é a pior forma e a que trará maiores prejuízos aos Suruwahas. Tão ou mais violento que as mortes provocadas pelo infanticídio, é o maldito proselitismo cristão que, ao desrespeitar a alteridade cultural dos povos, transforma-os ao ponto de seus próprios membros não mais se reconhecerem como tal e, com o tempo e a catequização dos infantes, simplesmente deixarem de ter uma existência física.

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[PONDÉ] Sobre a ética das baratas e a eugenia…

Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem

Luiz Felipe Pondé é filósofo pela USP. Foto: Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem

Nessa última segunda-feira (16), o filósofo escreveu em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo texto intitulado “A ética das baratas“, no qual faz duras críticas aos militantes vegetarianos (veganos em especial) e defensores dos direitos dos animais que, segundo ele, ganharam força quando foram “abençoadas” pelo filósofo australiano Peter Singer e seu livro Animal Liberation.

Que o Pondé tenha se especializado em falar bobagens (se é que algum dia falou algo de útil), não é novidade para ninguém. Contudo, nesta coluna ele chega às raias da imbecilidade ao construir raciocínios como os que destaco abaixo:

“Às vezes me pergunto o que faz uma pessoa razoável cair num delírio como esse. Como assim “não se deve matar nenhuma forma de vida”?

A pergunta é: essa moçadinha seguidora de uma mistura de filosofia singeriana aguada e budismo light (com pitadas de delírio) já olhou para natureza a sua volta?

A natureza é a maior destruidora de vidas na face da Terra. Ela mata sem pena fracos, pobres e oprimidos. A natureza é a maior “opressora” da face da Terra”.

Ora. Tal raciocínio segue uma trilha muito perigosa que já levou muitos cientistas a justificarem práticas como esterilização em massa, a eugenia e limpezas étnicas, dentre outros crimes contra a humanidade. Não sei o que pensa Luiz Felipe Pondé sobre esses assuntos em particular, mas que suas ideias flertam com esses pensamentos extremistas que estavam, em exemplo mais marcante, na raiz da justificativa do holocausto, não há como negar.

Por trás desse discurso do século XIX, que Pondé usou para criticar vegetarianos (“o struggle for life”, de Spencer), há quem ainda hoje justifique que portadores de qualquer tipo de deficiência, doenças genéticas, ou pertençam a determinado grupo étnico ou social, sejam simplesmente impedidos de procriar ou, em casos extremos, sejam eliminados.

Pondé é provocador, e faz isso para chamar atenção. Não creio que ele, pessoalmente, seja capaz de usar tal raciocínio para justificar qualquer prática aplicada a seres humanos. No entanto, não tenho esta relativa segurança no que tange a seus leitores. Recentemente acompanhamos os casos dos incêndios em favelas de São Paulo e, ao ler os comentários das notícias que divulgavam as tragédias recorrentes durante a gestão Serra/Kassab, estarrecia-me a quantidade de pessoas que não se importavam com a prática higienista e criminosa de queimar favelas (levando algumas pessoas à morte) para tirar “aquelas pessoas” do centro da cidade. Segundo muitos comentaristas, “crackeiros” e “toda aquela gente miserável tem que ser impedida de ter filhos ou, até mesmo, sumir”. (Aliás, o mesmo se ouviu a respeito dos nordestinos e pobres de modo geral quando Lula foi reeleito e, mais recentemente, Dilma e Haddad ganharam suas eleições).

No mais, a argumentação de Pondé é fraca e rasteira. Ele conclui sua coluna com uma piada ridícula, que o Jô Soares adora repetir ad nauseam em seu programa global:

Pergunto a esses adoradores de baratas: ele já pensou que as alfaces também sofrem? ela já pensou que quando come uma alface está interrompendo toda uma vida feliz de fotossíntese? Que as alfaces também choram? Malvados e insensíveis…

Seria desnecessário lembrar, se não ouvisse esse argumento em cada conversa sobre vegetarianismo que presenciei na minha vida, que alfaces não tem um sistema nervoso central. É simplesmente uma imbecilidade sem tamanho comparar o tratamento dado a animais (especialmente mamíferos) com aquele que se dá aos vegetais.

Talvez Pondé desconsidere o fato de sermos seres dotados de inteligência e, como tal, termos a opção de refletir se devemos agir ou não como a natureza. Será que nós, como humanos, não deveríamos agir de modo cada vez menos instintivo e mais racional em nossos hábitos, de modo mais específico, e no modo de nos organizamos socialmente, de modo mais geral? Fica a pergunta…

MAIS SOBRE O MODO COMO TRATAMOS OS ANIMAIS

Pra quem jamais teve a oportunidade de ver e realmente quer entender um pouco mais sobre o assunto que Pondé ridiculariza de uma forma bisonha, recomendo o documentário A CARNE É FRACA, que disponibilizo abaixo.

MAIS SOBRE O ASSUNTO EM HUM HISTORIADOR

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O documentário PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS acaba de ser lançado na íntegra no YouTube

É com grande prazer que o Hum Historiador anuncia o lançamento da íntegra do documentário PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS no YouTube para todos que quiserem acompanhar o trabalho que o Lucas Lespier, eu e uma equipe de grandes amigos realizamos para dar voz aos moradores da antiga comunidade do Pinheirinho, de São José dos Campos, que foi massacrada pela Polícia Militar de São Paulo à mando do governador Geraldo Alckmin.

O filme é de livre divulgação e gostaríamos muito que cada um pudesse ajudar a espalhá-lo para tornar a história das pessoas que foram desalojadas do Pinheirinho ainda mais conhecida.

SOBRE O FILME

Pinheirinho – um ano depois é um documentário que tem o objetivo de registrar como vivem as famílias que moravam na antiga comunidade do Pinheirinho um ano após a violenta reintegração de posse realizada pela Polícia Militar de São Paulo, em 22 de janeiro de 2012.

Através desse registro documental, queremos dar voz  às pessoas que viveram o trauma da desocupação para que contem suas histórias e relembrem à sociedade que elas seguem vivendo sob o risco de retornarem à condição de desabrigadas, além de permanecerem sem nenhuma perspectiva de solução definitiva para o seu problema de habitação após a desocupação.

Ilustração final do Pinheirinho um ano depois

Arte: Juliana Amoasei Reis

O filme tem como foco central os ex-moradores da comunidade do Pinheirinho e seus depoimentos de como tem sobrevivido desde que foram retirados de suas casas. No entanto, para darmos uma ideia mais aprofundada sobre o que ocorreu logo após a desocupação e quais as reais oportunidades de resolução definitiva do acesso à moradia adequada, também demos voz a outros atores que participaram ativamente de todo o processo de desocupação, como os políticos envolvidos nas negociações que antecederam a reintegração de posse, intelectuais e estudiosos da questão da habitação e moradia no Brasil, jornalistas que cobriram o caso, representantes de órgãos de proteção aos Direitos Humanos, líderes comunitários, advogados, juízes, defensoria pública, promotores de justiça.

BREVE HISTÓRICO DO DOCUMENTÁRIO PINHEIRINHO – UM ANO DEPOIS

Num domingo, às 6 horas da manhã, Alckmin manda a PM desocupar violentamente a comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos. Era o dia 22 de janeiro. Acompanhei as notícias estarrecido pela Internet, jornal e televisão. No mesmo dia estava na Avenida Paulista me manifestando contra esse ato criminoso realizado contra cidadãos que lutam pelo direito de uma moradia adequada.

Os dias foram se passando e eu ia registrando no blog todas as atividades que participei no decorrer daquele mês logo após a desocupação do Pinheirinho (ver histórico abaixo). O amigo Lucas Lespier já tinha uma ideia de fazer um documentário, ao ver meus relatos no blog, me chamou para conversarmos e ver se eu topava fazer parte de um projeto para documentar a história daquelas pessoas. Daí por diante, foram várias reuniões para decidirmos qual linha seguiria o filme e como o realizaríamos. A ideia principal era que o filme não seria sobre o que ocorreu no Pinheirinho, mas sobre as pessoas que foram desocupadas e ainda sofriam, por tempo indeterminado, a violência da desocupação iniciada na truculenta ação da Polícia Militar de São Paulo à mando do governador do estado.

Em julho de 2012, ocorreu uma ato na Câmara Municipal de São José dos Campos, sobre os seis meses da desocupação do Pinheirinho. Foi a oportunidade que imaginamos de fazer contatos com as lideranças da comunidade e tentar ajeitar as primeiras entrevistas com moradores e alguns outros envolvidos, como defensor público, advogado da comunidade e ex-procurador do estado de São Paulo. Foi assim que eu e Lucas partimos pela primeira vez a São José dos Campos, como mostra o pequeno vídeo amador que eu fiz abaixo, em um caminho que ainda seria trilhado tantas outras vezes pela equipe.

Feitos os contatos iniciais, precisávamos levantar a grana para a realização do documentário. Dentre as opções possíveis, decidimos pelo financiamento coletivo através do sistema de crowdfunding, no Brasil muito conhecido através da plataforma Catarse. Através desse sistema, cadastramos um projeto no site da plataforma por um tempo determinado e, todos aqueles que se interessarem, podem colaborar com qualquer quantia para a realização do projeto. Nossa meta era a captação de R$ 10.000,00 para realizarmos o filme praticamente inteiro com trabalho voluntário dos envolvidos. Abaixo segue o vídeo que fizemos para chamar colaboradores que se interessassem em contribuir com projeto.

Enquanto a grana não saía, começamos a realizar as primeiras entrevistas no final de julho de 2012 em São Paulo mesmo, para evitar grandes despesas. Começamos com a relatora da ONU para a moradia adequada e professora da FAU-USP, Raquel Rolnik. Foi uma ótima entrevista e, com base nela, começamos oficialmente nosso projeto.

Entrevistando o Suplicy

Foto: Jean Gold

Em agosto de 2012 já estávamos entrevistando algumas das personalidades que apareceram no filme, como o Senador Eduardo Suplicy.

Quando o projeto conseguiu atingir sua meta no Catarse, ficamos aliviados. Com o dinheiro foi possível comprar alguns equipamentos para poder fazer melhores entrevistas na realização do filme. Além disso, também seria possível pagar um lanche para a equipe que se deslocasse até São José dos Campos para as filmagens que duravam um dia inteiro.

Muitas entrevistas se sucederam até 22 de janeiro de 2013, data que marcaria o primeiro ano após a desocupação dos moradores do Pinheirinho e quando pretendíamos fazer as últimas gravações do documentário. Um ato foi marcado para ser realizado neste dia e lá estava nossa equipe fazendo as filmagens em diferentes locações e aproveitando para fazer mais contatos para garantir o lançamento do filme alguns meses depois em São José dos Campos e São Paulo.

Terminadas as filmagens, o filme entrou em período de edição, onde Lucas trabalhou muito para conseguir finalizar o filme com a qualidade que vocês podem verificar agora. O filme teve algumas exibições em pré-lançamento para verificarmos o resultado de como ficou a produção na tela-grande.

Assim, em homenagem aos moradores do Pinheirinho, a primeira projeção foi feita ao ar livre em São José dos Campos no Campão, local histórico de reunião dos moradores do Pinheirinho que fica no bairro do Campo dos Alemães, ao lado de onde era a comunidade que foi desocupada. Depois disso, tivemos uma pré-estréia no baixo-centro, também ao ar livre em São Paulo, e no Museu da Imagem e do Som, no MIS.

Agora o documentário está disponível na íntegra no YouTube para que todos possam acompanhar essa produção que começou há mais de um ano, que valeu muito esforço pessoal de cada um dos envolvidos, mas que nos enche de orgulho de ter participado.

Meu abraço carinhoso e sincero agradecimento à todos que participaram, em especial aos amigo Lucas Lespier, Felipe Gil, Patrícia Brandão e Juliana Lima.

Abaixo a foto do último dia de gravação que participei do filme, feita no começo de 2013, no escritório da revista Caros Amigos, quando entrevistávamos uma das jornalistas que cobriram o caso Pinheirinho para a revista.

Roger na CarosAmigos para PinheirinhoUmAnoDepois

POSTS NO HUM HISTORIADOR SOBRE O DOCUMENTÁRIO

Aqui segue uma relação de quatro posts que foram publicados no Hum Historiador referentes aos diferentes momentos em que estávamos produzindo o documentário.

Gostaria de lembrar que o projeto já foi concluído e, portanto, não há mais como colaborar com o mesmo. A relação dos posts abaixo é só para registrar o histórico do desenvolvimento do projeto.

POSTS NO HUM HISTORIADOR SOBRE O PINHEIRINHO

Abaixo segue uma relação de quinze posts publicados no Hum Historiador que tiveram como tema o Pinheirinho (em ordem decrescente de data de publicação). Os posts de janeiro e fevereiro de 2012 foram escritos no calor do momento e registram minha participação nos protestos e atividades de solidariedade aos antigos moradores do Pinheirinho. A partir de julho de 2012, nasce a ideia de fazer o documentário e há inclusive um post trazendo o primeiro vídeo amador que fizemos de nossa primeira ida a São José dos Campos para estabelecer os primeiros contatos.

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Documentário They Are We, de Emma Christopher, estabelece conexão cultural entre Cuba e Serra Leoa

Interessante matéria de Emma Christopher, publicada em abril na revista The Atlantic, destaca como o documentário They Are We, de Sérgio Leyva Seiglie, teria ajudado alguns cubanos a descobrirem que são descendentes de escravos sequestrados de uma pequena aldeia localizada em Serra Leoa.

De modo geral, a descoberta se deu há alguns anos, quando o chefe de uma pequena aldeia de Serra Leoa viu que um grupo de cubanos dançavam e cantavam canções em uma língua que, para eles próprios, era desconhecida, todavia muito familiar ao chefe Pokawa da vila de Mokpangumba.

Embora a matéria tenha o claro interesse utilizar essa história para fazer uma crítica ao governo de Cuba (especialmente no período de Fidel Castro), ainda assim achei que valia a pena traduzi-la e repercuti-la aqui no Hum Historiador, pois muitos dos leitores do blog não conseguem identificar nos posts que publico as relações entre o passado de um país que viveu intensamente o regime de escravidão e o presente. Não enxergam, sequer, as ligações entre América-África a partir de seu produto mais óbvio, a herança cultural africana que, após séculos e séculos de sucessivos ataques, ainda persiste.

Abaixo segue uma tradução livre que preparei da matéria tal como foi publicada na revista.

COMO MORADORES DE VILAREJOS DE CUBA DESCOBRIRAM QUE SÃO DESCENDENTES DE ESCRAVOS DE SERRA LEOA

A incrível história das canções e danças tradicionais, passadas por séculos, que ligaram um pequeno grupo étnico caribenho a uma remota tribo africana.

por Emma Christopher | publicado originalmente em 22 de abril de 2013 para The Atlantic

Barmmy Boy Mansaray, é um cameraman de Serra Leoa que trabalhou para o documentário “They Are We”. (Sergio Leyva Sieglie)

O chefe Mabadu Pokawa mal pode acreditar. Sua voz oscilava um pouco entre espanto e esperança, perguntando onde eu havia gravado as canções e danças que ele estava assistindo na tela de meu laptop em sua pequenina e isolada aldeia em Serra Leoa.

Há uma razão para sua descrença. Quando as pessoas da tela não estão cantando em uma língua que, de outro modo, já foi esquecida há muito tempo, estão falando o espanhol rápido à maneira cubana. Eles claramente não são da aldeia de Pokawa, onde poucos falam o inglês dos que passaram pelas escolas e ninguém fala o espanhol.

No entanto, por tudo isso, as pessoas de Perico, Cuba são daqui. São gente de Pokawa, ancestrais que foram exilados séculos atrás como escravos.

A vila de Mokpangumba do chefe Pokawa é implacavelmente pobre, condenada pela geografia assim como pela história. Deixada de fora das estradas ao redor pelas curvas e voltas do rio Taia, seus moradores não tem outra água se não a do fluxo acastanhado do rio e também não contam de nenhum modo com instalações sanitárias. Eletricidade está aquém de suas aspirações. Pokawa, como a maior parte dos homens, planta para sua subsistência, cultivando arroz, inhame e banana para suplementar o peixe que retira do rio.

Agora Pokawa e seu povo estão prontos para celebrar o retorno daqueles que se acreditava há muito terem se perdido. Os habitantes da vila estão todos ocupados se preparando. Cabanas estão sendo preparadas para os visitantes e sacos vazios de arroz estão sendo recheados com folhas para o preparo dos colchões. Um banheiro rudimentar foi cavado e algumas colheres foram colhidas para as refeições, cientes de que os visitantes estão acostumados a tais luxos. Insistindo que eles mesmos contribuem para a celebração pela chegada dos cubanos, os anciãos da vila deram metade do peixe necessário para um banquete para 800 pessoas. Uma coleção de contas sujas de pequeno valor foi tomado para pagar por metade do óleo de palma e pimentas que serão necessárias.

Eles foram inflexíveis sobre todos terem ido embora. Pessoas que cantam as canções da vila – ritmos e melodias que os unem a essa aldeia inacessível – são considerados gente da família. “Nossos avós que nos contaram as histórias sobre nossa gente indo daqui como escravos, sabemos agora que eles não estavam mentindo,” disse Joe Allie, um ancião da villa e tio de Pokawa.

“Esses devem ser nosso povo, “ diz Solomon Musa, um jovem que trabalha como professor na vila, “quando vimos as pessoas que praticam as mesmas coisas que nós costumamos fazer, ficamos muito felizes e cheios de alegria.”

Há uma ideia generalizada de que os africanos são indiferentes ao destino dos descendentes de escravos espalhados pelas Américas. Essa crença nasce em grande parte da tragédia de que a vasta maioria dos que saíram com a diáspora africana ficaram com muito pouco das línguas específicas, culturas, ou crenças que poderiam uni-los a um lugar particular de origem. A insensibilidade total da escravidão, a destruição sem fim das famílias, e o enorme peso das décadas que se passaram contribuíram para atenuar muito do que originalmente cruzou o oceano com os seus antepassados. Na ausência desses laços, alguns afro-americanos tem ido a locais centrais de comemoração, tais como a Ilha Gorée ou o Castelo Cape Coast, em busca de tudo o que foi perdido. Aqueles que esperaram por uma conexão individual com a terra de origem tem, por vezes, relatado um certo desapontamento com esses lugares. Eles são áreas de turismo, no fim das contas. Além disso, a pele escura aqui é norma, de modo que ela só é muito pouco para simbolizar parentesco ou afinidade se não estiver amparada por uma língua, cultura ou experiência partilhada.

Pokawa e seu povo, em contrapartida, encontrou alguns dos seus parentes perdidos nas Américas. Este pequeno grupo de pessoas em Cuba – um país que eles pouco ouviram falar a respeito – cantando e dançando suas músicas, foi um presente de Deus. Ou, mais apropriadamente, de Deus e Allah, ambos adorados aqui lado a lado. Mantidos de fora da mídia e de quase todo sistema educacional do ocidente, para eles as pessoas tomadas como escravas para o comércio transatlântico de escravos ainda são chamadas por seus nomes antigos, invocadas como os perdidos. Havia Gboyangi. Bomboai. Havia uma garota jovem que estava prestes a se casar.

Teaser oficial do documentário THEY ARE WE  de Emma Christopher no Vimeo.

Mas, com meu ceticismo acadêmico, duvidei que poderia ser verdade. Retornei a Cuba e aos arquivos e registros, buscando por alguma evidência escrita de como isso deve ter acontecido. A história inteira, exata provavelmente jamais será recuperada, mas uma mulher específica e seus descendentes preservaram uma série de canções e danças parecidas o bastante para serem claramente identificadas.

O que nós sabemos é que havia uma garota chamada Josefa, sequestrada de sua terra natal na década de 1830, que sobreviveu muito mais do que os sete anos típicos dos engenhos cubanos, em meados do século dezenove. Na verdade, ela viveu até uma idade avançada, tempo suficiente para experimentar a liberdade, e ensinar a sua bisneta Florinda sua herança africana. Forinda, por sua vez, ensinou seu neto, que ela criou desde a infância. Seu nome é Humberto Casanova, agora ele mesmo um bisavô. É a Casanova e três de seus amigos por quem Pokawa e seu povo estão esperando.

O esforço de manter as canções e danças vivas é especialmente notável, pois desde o começo da década de 1960 até o fim da década de 1980, suas performances foram proscritas de Cuba. Fidel Castro restringiu atividades culturais e religiosas afro-cubanas da mesma forma como barrou o catolicismo e outras fés. Foi apenas em tempos mais recentes que elas foram permitidas a ser celebradas abertamente, e poucos grupos lograram ressuscitar suas canções, danças e rituais. De alguma forma Humberto Casanova e sua fiel assistente Magdalena (Piyuya) Mora conseguiram realizar esse feito singular. (Aos 85 anos de idade, Piyuya está muito frágil para fazer a viagem a Serra Leoa, então será representada por seu sobrinho, o entalhador Alfredo Duquesne.)

Levou dois anos para se obter a permissão para a visita, e estas só foram possíveis recentemente em função do relaxamento das leis de viagem em Cuba. Nesses dois anos eu voltei a Serra Leoa diversas vezes para mantê-los a par do andamento da viagem, sem esquecer da ironia de que, 180 anos depois, os africanos são muito pobres para retirarem certidões de nascimentos que lhes permitiriam obter passaportes, enquanto os cubanos descendentes dos escravos não são tão livres para viajar como gostariam. O pessoal da aldeia jamais desistiram de ter esperanças. Eles esperaram por 170 anos pelo retorno de seus antepassados, afinal de contas, o que são alguns meses a mais?

O que esta visita significa para Pokawa e seu povo é quase impossível de compreender plenamente. As pessoas aqui são definidas por suas relações familiares, com muito pouco da pessoa existindo além da unidade familiar. Como reincorporar pessoas que se foram a tanto tempo, que agora falam uma língua diferente mas que, inescapavelmente, são seus parentes, é uma questão que pode apenas ser tratada através da aceitação de coração aberto. Apenas saber que eles estão vivos, que sua cultura floresceu em algum outro lugar, é maravilhoso. Pokawa estendeu o convite para que eles permanecessem na aldeia o quanto quisessem, o que para esta viagem será apenas uma semana.

Assim como os tambores da celebração estão sendo preparados, o “diabo” também está, uma dançarina fantasiada com ráfia dos pés à cabeça e com painéis de madeira em suas costas, representando todos os ancestrais. Pois os ancestrais estão, finalmente, dançando com prazer e alegria.

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Crimes de Guerra: o Massacre de Nanjing (Nanquim) – 1937

Recentemente tive minha atenção atraída ao assunto do Massacre de Nanjing após assistir um filme muito bonito (ao mesmo tempo muito triste) intitulado Flores do Oriente (Flowers of War), lançado em 2012, dirigido pelo cineasta chinês Zhang Yimou e estrelado pelo ótimo Christian Bale.

O filme todo se passa praticamente dentro de uma igreja católica na cidade de Nanjing que, em 1937, estava sob ataque brutal do exército japonês que invadia a cidade no contexto da II Guerra Sino-Japonesa.

Alguns amigos (Cido Araújo e Ximena Leon) me indicaram um blog bem interessante, chamado Deadlyblogque dentre outras matérias traz posts bastante informativos sobre alguns dos crimes de guerra mais hediondos ocorridos no século XX. Um deles é justamente sobre o Massacre de Nanjing, trazendo inclusive muitas fotos (algumas muito fortes) desse crime de guerra que, até hoje, não é reconhecido pelo Japão que, tal como a Turquia em relação aos armênios, prefere negar que o mesmo tenha ocorrido. Como se verá abaixo, segundo o post do Deadlyblog, em 2004 um Ministro da Educação japonês teria ordenado que este tema fosse retirado dos livros didáticos japoneses, por alegar que o fato nunca aconteceu.

Se há alguns meses atrás fiz um post neste blog criticando duramente o maior crime de guerra perpetrado contra a humanidade, quando os Estados Unidos da América decidiu despejar duas bombas atômicas sobre sobre o Japão para acabar com a II Guerra Mundial (Hiroshima e Nagasaki: maior crime de guerra contra a humanidade segue impune), não poderia deixar de fazer as mesmas duras críticas contra os japoneses que, apenas alguns anos antes, haviam perpetrado um crime de guerra bárbaro contra a população civil chinesa ao invadir Nanjing, em 1937, durante a II Guerra Sino-Japonesa.

Abaixo segue a íntegra do post tal como publicado no Deadlyblog.

2ªGM – O Massacre de Nanjing (Nanquim) – 1937

Os desentendimentos entre China e Japão são seculares, mas na história moderna, estes desentendimentos tiveram início em 1894, quando teve início a chamada “Primeira Guerra Sino-Japonesa”, que terminaria em 1895, com a vitória japonesa. Esta guerra marcaria o início da ascensão militar japonesa e o início da derrocada da China imperial.

As tensões entre os dois países continuaram ao longo dos anos seguintes até 1931, quando ocorreu o chamado “Incidente de Mukden”, a sabotagem ferroviária ocorrida em 18 de setembro de 1931, no sudoeste da Manchúria, onde militares japoneses explodiram uma seção da ferrovia do sul da província, de propriedade do Japão, nas proximidades de Mukden, atual Shenyang. O exército imperial japonês acusou dissidentes chineses pelo ato de sabotagem e utilizaram o fato como pretexto para a invasão e anexação da Manchúria.

A China já se via dividida internamente por uma guerra civil, onde comunistas e capitalistas de degladiavam para ver quem assumiria o poder. O exército chinês era mal equipado e mal treinado, sendo constituído inclusive por criminosos e simples camponeses. Já o exército japonês era muito mais profissional e melhor equipado.

As tensões entre as nações só fizeram aumentar, numa espécie de guerra não-declarada, culminando com outro incidente, o “Incidente da Ponte Marco Pólo, ocorrido em 7 de julho de 1937, considerado o início da Segunda Guerra Sino-Japonesa, que só terminaria em 1945, com a derrota do Império do Japão.

Bebê abandonado em Xangai após a ocupação japonesa, em 1937.

O Japão então dá início à sua campanha de conquista da China em agosto do mesmo ano, sem uma declaração formal de guerra, bombardeando Xangai. Durante quase um mês, o exército japonês desembarca tropas e equipamentos na costa chinesa, afim de estruturar nove unidades de infantaria e duas unidades de artilharia. Estas unidades marchariam a Xangai, conquistando a cidade após quatro meses de combates, ao final de novembro de 1937. O Exército Imperial do Japão estava agora a apenas 300 quilômetros de Nanjing, a capital chinesa. Com a queda de Xangai, a população civil e o remanescente do exército chinês, batem em retirada em direção à capital, adotando a tática da “Terra Arrasada”, destruindo todos os recursos que possam auxiliar o exército inimigo a se estruturar e ganhar força.

O exército chinês, se divide então para combater em três frontes, ao norte, ao sul e ao leste de Nanjing. Já o exército japonês divide suas forças em dois frontes, norte e sul e inicia sua marcha a Nanjing.

As forças chinesas se batem contra as forças japonesas, mas a superioridade militar japonesa se faz sentir, as tropas chinesas são derrotadas e seus remanescentes são obrigados a recuar a Nanjing, onde se agrupam sob o comando do general Tang Shengzhi, com a missão de defender a cidade. Ele então declara publicamente que irá manter o fronte com suas tropas e que se for necessário, ele e seu exército morrerão na defesa da capital. É realizado então o recrutamento de 100’000 novos soldados na cidade. A grande maioria sequer tem algum treinamento militar.

Além disso, as tropas do general Tang não contavam com nenhum apoio aéreo e terrestre e nenhuma comunicação entre elas. Estas foram as tropas que tiveram a ingrata tarefa de impedir o avanço das forças inimigas, numa batalha que teve início em 05 de dezembro e que se estendeu até a queda da cidade em 13 de dezembro do mesmo ano.

As forças militares japonesas, sob o comando do Príncipe Tenente-General Asaka Yasuhiko, recebem a ordem para tomar a cidade de assalto, além disso, veio a ordem para que o exército imperial japonês eliminasse imediatamente todos os prisioneiros de guerra, fossem eles homens, mulheres ou crianças.

Segundo o Deadlyblog: A faixa diz: Nanjing caiu – A Vitória do Exército Imperial Japonês

Quando a cidade foi tomada, em 13 de dezembro, as ruas estavam repletas de civis desesperados e soldados chineses que tentavam resistir sem qualquer espécie de organização. Os soldados japoneses iniciaram o fuzilamento indiscriminado de chineses, em busca da neutralização de qualquer espécie de resistência.

Em poucas horas, o exército japonês obtêm o controle da cidade, com uma fúria bárbara e brutal. Todos os militares chineses sobreviventes são então identificados e separados dos demais prisioneiros, sendo então torturados, fuzilados, enforcados ou decapitados.

A organização civil também é brutal, as pessoas são separadas por sexo e idade. O exército japonês inicia a busca sistemática em toda a cidade. As execuções são realizadas em todos os cantos, inclusive nos templos. Num vislumbre de bestialidade, centenas de pessoas são obrigadas e se dirigir a uma pedreira, onde são obrigados a entrar em um imenso buraco, formado pela extração do material, que se transformaria em sua sepultura. Quando já estavam no interior do buraco, soldados japoneses cercaram o local e abriram fogo com metralhadoras e fuzis. Como muitas pessoas não morreram em virtude deste primeiro ataque, os soldados japoneses receberam a ordem para procurar sobreviventes e executá-los.

Infelizmente, a brutalidade não estava perto de se findar. Sob o comando do general Iwane Matsui, a brutalidade tomou formas ainda piores:

  • Como numa prática esportiva, soldados japoneses disputavam entre si para saberem quem era o mais rápido e eficiente em decapitar prisioneiros;
  • Prisioneiros eram usados como alvo-vivo em exercícios de assalto com baionetas.

Na tentativa de justificar os assassinatos de civis, oficiais japoneses alegaram se tratar de militares disfarçados. Entre algumas das brutalidades descritas por testemunhas sobreviventes, podemos destacar que em diversas ocasiões, os soldados japoneses obrigavam os filhos a estuprarem sua próprias mães. Os que se recusavam, eram assassinados imediatamente.

As mulheres em especial, eram também “caçadas” por soldados japoneses, para que estas servissem como “escravas sexuais” de oficiais e soldados, em Nanquim e nas imediações. Além disso, muitas mulheres foram “exportadas” como escravas sexuais, para os mais de 2000 bordéis militares criados pelo Japão.

John Rabe posa na esntrada do abrigo que utilizou para salvar centenas de chineses

Curiosamente, um nazista seria uma das figuras mais importantes no auxílio aos chineses. O alemão John Rabe, então representante da empresa alemã Siemens na China, valeu-se do fato de ser filiado ao partido nazista, para pedir que Berlim pressionasse o Japão, para que este respeitasse a região onde a propriedade alemã estava, como uma “Zona Neutra”. Ele chegou ao ponto de pendurar no teto de sua casa uma enorme suástica pintada em tecido, para que os japoneses não usassem a desculpa de não saber qual era sua casa. Rabe conseguiu reduzir os assaltos dos soldados japoneses à zona neutra em busca de chineses refugiados e mulheres para serem usadas como escravas sexuais, o que lhe valeu postumamente o título de “Schindler de Nanjing”.

A bestialidade durou cerca de seis semanas, estendendo-se até fevereiro de 1938, embora não se possa precisar com exatidão. De 150 a 300 mil pessoas foram executadas nas mais atrozes condições (mulheres estupradas, homens torturados, crianças enterradas vivas). A cidade foi saqueada e incendiada. Um sem número de corpos foi queimado junto com a cidade, outros foram jogados no rio Yang Tsé e outros enterrados aos montes.

O massacre de Nanquim seria o único crime de guerra a ser tratado em separado pelo Tribunal de Tóquio. O general Iwane Matsui foi condenado à morte por não ter impedido a carnificina cometida pelas tropas que comandava.

Embora existam muitas provas sobre tamanha brutalidade, o governo japonês se recusa a reconhecer ainda hoje, os crimes cometidos pelo seu exército, a exemplo da Turquia, que também se recusa a reconhecer o genocídio cometido contra os armênios em 1915. Em 2004 o Ministro da Educação japonês ordenou que este tema fosse retirado dos livros didáticos japoneses, por alegar que o fato nunca aconteceu.

Cliquem no link ao lado para verem todas as fotos do Massacre de Nanjing disponibilizadas pelo Deadlyblog. Por muitas imagens serem ofensivas, sugere-se cautela na visualização das mesmas.

FONTES UTILIZADAS PELO DEADLYBLOG

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Uma história de amor e fúria: uma narrativa da história brasileira através do desenho animado

Estréia hoje (05/04/2013) nos cinemas brasileiros a animação Uma História de Amor e Fúria. Segundo seu diretor, Luiz Bolognesi, um longa-metragem que reflete a história do Brasil ao narrar a trajetória de um personagem que viveu quase 600 anos e testemunhou diversos momentos da história do Brasil.

Segundo Bolognesi, o projeto nasceu de um desejo pessoal de unir história do Brasil com HQ, na tentativa de contar uma história “que nunca foi contada”. Em entrevista a Revista Brasileira de Cinema, Bolognesi, que é jornalista de formação, afirma que a história do Brasil que aparece em seu filme, não é a história que se costuma ver nos livros didáticos, mas sim uma história de quem foi além das versões da história oficial e de quem foi ouvir a versão dos perdedores e dos massacrados e não a de quem massacrou e construiu a estátua para o general responsável pelo massacre.

De modo bastante sucinto, explica ainda que para escrever o roteiro de seu filme, ele foi “visitar a história” para questioná-la, no intuito de desvelar como era esse outro lado da história que foi “varrido para debaixo do tapete”. Portanto, segundo o autor do longa-metragem, “a pegada geral” de seu filme é contar um pouco essa história que foi varrida para debaixo do tapete, isto é, levantar o tapete e mostrar ao seu público a verdadeira história do Brasil que estava escondida e que ninguém havia revelado ainda. Abaixo segue a entrevista de Luiz Bolognesi à Revista Brasileira de Cinema.

Obviamente, na entrevista não há menção de métodos ou das fontes utilizadas para a escrita desse roteiro que pretende contar uma história do Brasil jamais escrita. Tampouco se revela quem são os responsáveis por varrer a história do Brasil para debaixo do tapete e ali deixá-la até que Bolognesi e sua equipe conseguissem levantá-lo para exibir a verdadeira história do Brasil através de sua animação. Há apenas uma presunção de que há uma história não contada, que não há interesse em contá-la e que foi necessário um jornalista/cineasta se interessar no assunto para que ela saísse debaixo do tapete onde era mantida. Além disso, claro, há uma confusão pueril de que a história dos livros didáticos é a “história oficial” e uma maneira bastante ultrapassada de narrar a história do Brasil, narrativa que, pelos avanços da História, já não cabe mais em nosso século, para quem pretende escrever qualquer trabalho que se pretende histórico (na verdade, já não cabia no século passado).

Ambientado num Rio de Janeiro do futuro, com imagens do Cristo Redentor com os braços caídos, o filme volta no tempo e pretende mostrar a verdadeira história do Brasil a partir do fio condutor de uma história de amor, que começa no século XVI e vai se arrastando no tempo até o final do século XXI, graças a um personagem que não morre em todo esse tempo, tendo vivido e testemunhado esses quase 600 anos de história, apaixonado por Janaína, que geração após geração vai reencarnando no Brasil para, assim, continuar sua história de amor através do tempo.

Segundo Daniel Grecco, supervisor de produção do filme, a animação visa atingir um público jovem, em idade escolar, mas sua mensagem atinge a todos os públicos. Portanto, se o objetivo é fazer com que o filme seja visto pelo maior número de pessoas, como disse Luiz Bolognesi em uma sessão de lançamento exclusiva para professores e alunos da rede pública de ensino do Rio de Janeiro, não poderia haver melhor escolha do que Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro para fazerem as vozes dos principais personagens da animação.

Abaixo o teaser para divulgação da animação:

Do teaser acima, gostaria de destacar as seguintes frases, que aparecem logo no princípio:

Viver sem conhecer o passado é andar no escuro”.

“Nossas memórias não são datas num livro, são histórias vivas, cheias de amor e fúria. Como eu sei disso? Estou vivo há quase 600 anos. Eu vi muita coisa.”

Pelas frases acima, percebe-se um flerte com ideia de “História mestra da vida”, segundo a qual a história serve para ensinar os homens os erros do passado para que não se volte a cometê-los no futuro. Na sessão exclusiva realizada com alunos e professores da rede pública de ensino do Rio de Janeiro, as palavras do estudante Yuri, não deixam dúvidas (avançar o filme até o 2:22 para ver a declaração de Yuri):

“Historia magistra vitae” é um conceito antigo, que aparece em Cícero e que foi bem analisado por Fernando Cartoga, da Universidade de Coimbra, em artigo publicado na revista Estudos Ibero-Americanos, da PUC-RS. Artigo, aliás, que recomendo aos que se interessarem por saber mais sobre alguns problemas da historiografia. Aqui neste espaço, gostaria apenas de deixar algumas perguntas ao diretor e roteirista do filme, Luiz Bolognesi, que são apenas uma amostra mínima dos questionamentos com os quais um historiador de ofício deve se preocupar antes de pensar em escrever uma narrativa que se pretende histórica:

  1. Será que a melhor forma de contar uma história do Brasil que jamais foi escrita é através de uma narrativa do tipo “historia magistra vitae”, já utilizada por um historiador romano um século antes de Cristo e que passa a ser questionada pela historiografia do século XIX e XX?

    Cicero

    Marco Túlio Cícero (106 a.C – 43 a.C.)

  2. Será mesmo que hoje, em pleno século XXI, aquele que vai escrever uma narrativa histórica deve continuar a enxergar o devir histórico, ou se preferir, o tempo histórico, da mesma forma como Cícero o encarava para contar a história de Roma?
  3. Nós, que escrevemos História hoje, devemos continuar representando o tempo histórico como um itinerário possível de ser determinado e, portanto, que impede o surgimento do novo, já que todas as respostas estão no passado?
  4. Por fim, tal como pergunta Fernando Cartoga em seu artigo: “poderá acolher a experiência do novo, quando a história é apresentada como um encadeamento necessário, no qual, em última análise, a ideia apriorística de fim se encontra insinuada desde a origem?”

Quanto a escolha do narrador dessa “história dos perdedores”, Luiz Bolognesi optou por fazer uso de uma TESTEMUNHA OCULAR da história que, por ter vivido quase 600 anos, viu tudo (ou muita coisa) e, em função disso, poderia contar essa história com [mais] propriedade do que qualquer outro. Aqui, parte-se também de um antigo pressuposto de que, por ser narrada por quem viu e testemunhou os acontecimentos no calor do momento, a história narrada por este indivíduo seria verdadeira e não poderia ser contestada por alguém que não tivesse visto o que se passou. Como os historiadores costumam dizer, trata-se de uma visão muito positivista da História. A valorização do documento histórico acima de tudo, ou em outras palavras, é o documento histórico quem conta o que se passou. O trabalho do historiador é apenas encontrar o documento e jogar luz em seu conteúdo.

No mundo artístico brasileiro, a ideia explorada pelo filme não é nova, Raul Seixas já brincava com ela na década de 1970 quando escreveu “Eu nasci há 10 mil anos atrás”. Em sua música, Raul descreve ter testemunhado diversos momentos históricos vividos pela humanidade, desde a queda da Babilônia, passando pelo nascimento de Jesus, até o extermínio dos judeus pela Alemanha nazista. Contudo, no fim da canção, Raul Seixas ironiza a versão da história que ele próprio está contando ao levantar a possibilidade de haver algumas mentiras em sua narrativa: “(…) e para aquele que provar que eu estou mentindo, eu tiro o meu chapéu”. Abaixo o clipe da música de Raul Seixas.

Gostaria de finalizar o post, deixando apenas essas considerações registradas por ter me incomodado com a maneira como Luiz Bolognesi fala da história do Brasil e do papel dos historiadores na entrevista que concedeu a Revista Brasileira de Cinema. Escrever história é bastante complexo, requer uma erudição muito grande e, ao contrário do que se pensa, não é algo que se pode fazer simplesmente consultando enciclopédias e ouvindo um par de pessoas nas ruas. Bolognesi me pareceu bastante leviano ao confundir a “história oficial” (se é que existe uma história oficial) com a história dos livros didáticos, e mostrar um profundo desconhecimento da existência de inúmeros trabalhos de historiadores brasileiros à respeito das minorias massacradas nas diferentes temporalidades abarcadas por seu filme.

Ao contrário do que ele pensa, a história que ele pretendia contar com seu filme, já foi escrita sim e não apenas por um, mas por centenas e centenas de trabalhos de historiadores que estudaram anos a fio e pormenorizadamente seus objetos para, ao fim e ao cabo, escreverem suas narrativas que jamais pretendem esgotar o assunto ao qual se propuseram estudar. Aquilo que ele alega estar debaixo do tapete e que jamais foi escrito pela “história oficial”, tendo sido necessário ser desvelado por um jornalista/cineasta com sua animação, já foi revelado por tantos e tantos trabalhos de historiadores há décadas, não havendo, portanto, novidade histórica alguma em seu filme.

Cabe agora assistir ao filme na íntegra para ver se há alguma surpresa ou outras maneiras como o diretor optou por contar sua história do Brasil. Por enquanto, fico com a sensação de que a ideia é interessante, o formato escolhido para o filme também, mas a visão que o diretor tem sobre História, bem como as escolhas de narrativa para contar a sua versão dos oprimidos, deixaram muito a desejar, especialmente para quem tinha a pretensão de contar uma história do Brasil que nenhum historiador tinha descoberto ainda ou, no pior dos casos, preferido deixar debaixo do tapete. Nesse sentido (revelar uma história do Brasil inédita), mesmo sem tê-lo visto na íntegra posso afirmar que o objetivo do autor não se concretizou e, portanto, trata-se de um retumbante fracasso. Quanto ao filme em si, entendo que no fim, pode até ser uma boa diversão. Apenas isso, um bom entretenimento.

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