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América Latina: O último refúgio da humanidade

Norman G. Finkelstein

Norman Gary Finkelstein, durante uma palestra em 2005

Você pode discordar do título desse post, mas essa é a opinião do cientista político Norman Gary Finkelstein, que nessa última quinta-feira (30) postou um texto em sua página pessoal com título semelhante a este, louvando a atitude de cinco governos latino americanos por chamarem seus embaixadores de Tel Aviv após a campanha ofensiva de Israel na Faixa de Gaza.

Norman Gary Finkelstein (1958- ), cientista político estadunidense, graduou-se pela Universidade do Estado de Nova York, estudou na École Pratique de Hautes Estudes, em Paris, e doutorou-se em Ciências Políticas pela Universidade de Princeton. Filho de judeus sobreviventes do holocausto, suas ideias renderam-lhe uma deportação do Estado de Israel e uma proibição do governo daquele país de pisar em solo israelense por 10 anos.

Finkelstein ficou conhecido por seus textos sobre os conflitos israelo-palestinos e pela polêmica suscitada por seu livro A indústria do Holocausto, no qual faz duras críticas a organizações e personalidades judias que teriam instrumentalizado a Shoah com objetivos políticos, segundo o autor.

O Hum Historiador traz uma tradução livre do post publicado nessa última quinta (30) no blog do cientista político, Norman Gary Finkelstein, visando repercuti-lo entre seus leitores.

EM UM MUNDO DE ESTADOS-GANGSTERS, TODO LOUVOR À AMÉRICA LATINA, O ÚLTIMO REFÚGIO DA HUMANIDADE
por Norman Finkelstein | publicado originalmente em seu blog aos 30.jul.2014

Cinco países da América Latina retiram embaixadores de Israel

Foto de ataque israelense na Faixa de Gaza publicada no blog de Norman G. Finkelstein

A decisão de países latino americanos de chamar seus embaixadores em Tel Aviv é um “desapontamento profundo”, disse Israel.

El Salvador, na última quarta (29), tornou-se o quinto país latino americano a retirar seu embaixador de Israel em protesto à ofensiva militar em Gaza.

Brasil, Chile, Equador e Peru já tinham chamado seus embaixadores.

O porta-voz do ministério das relações exteriores de Israel, Yigal Palmor, disse que tal movimento encoraja o Hamas; “essa decisão encoraja o Hamas que foi reconhecido por vários países como uma organização terrorista. Os países que estão resistindo contra o terror devem agir responsavelmente e não devem recompensá-los. Enquanto o Hamas tem sido considerado o responsável por dificultar o fim do cessar-fogo, espera-se que El Salvador, Peru e Chile apoiem a atitude internacional pela paz e desmilitarização de Gaza”, disse o porta-voz do governo israelense.

Israel havia criticado o Brasil previamente sobre sua decisão de chamar o embaixador em protesto à ofensiva militar de Israel em Gaza.

Brasil foi um dos 29 países no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas que votaram na última quarta-feira (29) pela investigação de Israel por sua ofensiva militar em Gaza.

Durante uma visita de Estado do presidente chinês Xi Jinping em 17 de julho, a presidenta brasileira Dilma Rousseff disse que seu país estava “profundamente preocupado pelos eventos dramáticos” em Gaza.

O número de mortos palestinos ocorrido após um ataque devastador de Israel na Faixa de Gaza elevou para 1283, de acordo com o porta-voz do Ministério da Saúde de Gaza.

Segundo esse porta-voz, pelo menos 7120 palestinos também saíram feridos nos contínuos ataques perpetrados por Israel desde 7 de julho.

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Reflexões sobre a matança e a destruição na Palestina promovida pelo Estado de Israel

Excelentes as reflexões propostas pelos textos do prof. Vladimir Safatle (Direito de Matar), e por Aldo Cordeiro Sauda e Márcia Camargos na seção Tendências/Debates (Bienal da Destruição), ambos publicados na Folha dessa última terça (22). Especialmente porque rebatem ideias propostas por textos de colunistas e opinadores reacionários dessa mesma Folha, como João Pereira Coutinho (David e Golias), Luiz Felipe Pondé (Marketing Geopolítico) e Flávio Flores da Cunha Bierrenbach (Palestina), que infestam as redes sociais fornecendo respostas prontas à boa parte de quem jamais dedicou uma hora sequer para se informar sobre o assunto e, ainda assim, por viverem em um mundo que demanda opiniões sobre tudo, ainda que superficiais, desejam expressar seus achismos fiando-se em fragmentos de Pondés, Coutinhos e Bierrenbachs, podres de nascença.

Os textos que serão repercutidos aqui, portanto, discutem pontos levantados por esses “pensadores conservadores” tais como: a pretensa cultura do martírio, o uso dos palestinos como escudos humanos, a operação de naturalização da morte dos palestinos, a realidade de milhões de palestinos que vivem como um povo apátrida e sem direitos, o extermínio simbólico dos palestinos e, desde 2006, o efetivo.

Por posicionar-se de modo análogo a Safatle, Sauda e Camargos, o Hum Historiador repercute a íntegra dos textos abaixo no intuito de promover uma discussão sobre.

DIREITO DE MATAR
por Vladimir Safatle para a Folha de S. Paulo | 22.jul.2014

Jake Tapper é jornalista da CNN norte-americana.

Ao entrevistar um representante da Autoridade Palestina, não lhe veio ideia melhor à cabeça do que acusar os palestinos que morrem atualmente em Gaza de serem possuídos por uma “cultura do martírio”, expressa por eles pretensamente se deixarem matar enquanto suas cidades são devastadas [refuta também ideias divulgadas no texto de Luiz Felipe Pondé].

Sim, Jake, você deve ter razão, palestinos não passam de fanáticos irracionais, cuja única razão de existência é obrigar perversamente os ocidentais a saciarem seu estranho desejo de martírio.

Enquanto Jake desfilava seu racismo sem complexos, o governo francês impedia sua população de se manifestar contra a mais recente ação de punição coletiva do governo israelense contra os palestinos. O argumento é que a última manifestação teve confrontes em frente a uma sinagoga envolvendo manifestantes e uma autonomeada Frente de Defesa Judaica (FDJ).

Difícil, neste caso, não lembrar de outra proibição, ocorrida na Inglaterra anos atrás.

Na ocasião, a BBC resolveu produzir uma campanha pedindo donativos para as vítimas de Gaza. No entanto, a mobilização foi vetada. Certamente porque, para a cúpula da emissora, ter compaixão por palestinos já é ser cúmplice do terrorismo internacional. Manifestar-se contra ações militares em um território transformado, segundo o próprio primeiro-ministro britânico, David Cameron, em “campo de concentração”, deve ser algo da mesma natureza.

Tudo isto demonstra como os palestinos são o verdadeiro sintoma da hipocrisia internacional. Já temos mais de 400 mortos, quase um quarto de crianças, e preferimos não apelar ao “direito de ingerência humanitária”, que permite ignorar soberanias nacionais em caso de catástrofes humanitárias ou lutar por campanhas de boicotes econômicos contra o governo israelense.

Talvez porque os palestinos já foram há muito retirados de sua humanidade. Para uma certa opinião internacional, eles morrerem é algo tão natural quanto as marés. Outros choram lágrimas de silicone ao afirmar que os dois lados estão envoltos em uma “espiral de violência”.

No entanto, não há simetria alguma nessa situação.

Os palestinos tem seu território invadido há décadas em flagrante violação de direito internacional. Hoje sua condição é de milhões de apátridas, desprovidos de qualquer direitos, segregados, vivendo em bantustãs sem cidadania ou sequer um reles passaporte.

Mas, afinal, como dizem alguns que escreveram nesta Folha, os palestinos sequer seriam um povo [referência a texto do juiz aposentado Flávio Flores da Cunha Bierrenbach]. Ou seja, eles já foram exterminados simbolicamente. Só falta exterminá-los efetivamente.


VLADIMIR SAFATLE é professor livre-docente do departamento de filosofia da USP.

BIENAL DA DESTRUIÇÃO
por Aldo Cordeiro Sauda e Márcia Camargos para a Folha de S. Paulo | 22.jul.2014

A punição à desobediência eleitoral palestina não se limita à sufocar Gaza. A cada dois anos, Israel bombardeia e invade o máximo possível.

Jogar bola na praia é algo que todos já fizemos. Brincadeira saudável, atrai qualquer criança. Mas não será assim que as peladas à beira- -mar serão lembradas pela família Bakr. Foi em meio a uma delas que os irmãos Zakaria e Ahed, além de dois primos chamados Mohamed, morreram após um bombardeio de navios de guerra israelenses à costa da faixa de Gaza na última quarta-feira (16). Os meninos tinham entre 9 e 11 anos. Somam-se aos mais de 500 mortos da atual agressão orquestrada por Israel.

A verdade é que a vida em Gaza nunca foi fácil, mas desde que os palestinos da região elegeram o Hamas, em 2006, o cotidiano tornou-se impossível. Assistimos à terceira guerra de Tel Aviv contra a faixa de Gaza, em meio a um cerco por ar, terra e mar que sufoca os palestinos há sete anos.

Muito se fala sobre as ditaduras do Oriente Médio. Porém, quando experiências democráticas produzem governos antipáticos a Israel, passa a prevalecer a tese da “guerra ao terrorismo”, que justifica qualquer ação, até mesmo uma campanha consciente de destruição por completo de uma sociedade.

Segundo a Anistia Internacional, o bloqueio não somente impede a maioria da população de Gaza de sair ou exportar mercadorias, como permite apenas a importação bastante restrita de itens básicos. Não por acaso, materiais como cimento, madeira, canos, vidro, barras de aço, alumínio e peças de reposição são extremamente raros ou indisponíveis. Mas a par de insumos para a construção civil, a lista de proibições israelenses barra produtos tão perigosos quanto grão-de-bico, chá, macarrão, geleia, biscoitos, molho de tomate, quebra-cabeça, lápis e canetinhas de colorir.

A punição à desobediência eleitoral palestina não se limita à política de sufocar Gaza, que se tornou um campo de concentração a céu aberto. De dois em dois anos, Israel bombardeia, invade e destrói o máximo possível da faixa. De acordo com o relatório Goldstone, produzido a pedido da Assembleia Geral da ONU, e de documentos de organizações internacionais de direitos humanos como a Human Rights Watch, destruir Gaza parece ter-se convertido em um dos objetivos preferenciais de Tel Aviv.

Ao longo da incursão israelense de 2009, além de mais de 1.400 mortos e de dezenas de milhares de feridos, Israel destruiu ou danificou 58 mil casas, 280 escolas e creches (18 das quais foram inteiramente pulverizadas junto de seis prédios universitários), 1.500 fábricas e oficinas, as principais instalações de água e esgoto, 80% dos grãos armazenados e quase um quinto da terra cultivável. Os bombardeios israelenses resultaram em 600 mil toneladas de entulho, US$ 900 milhões em destruição e aproximadamente US$ 3,5 bilhões de prejuízo aos palestinos, segundo a Unctad, braço da Organização das Nações Unidas para o desenvolvimento [contra os argumentos de João Pereira Coutinho].

Já em Israel, cuja destruição física em seu território custou em torno de US$ 15 milhões, segundo documento divulgado pelo Estado de Israel, os foguetes do Hamas danificaram “diversas casas de civis e outras estruturas, uma foi quase inteiramente destruída”, conforme a Anistia Internacional.

Ainda segundo a entidade, “ao contrário das afirmações dos representantes israelenses sobre a utilização de escudos humanos’, […]não foram encontradas provas de que o Hamas ou que outros grupos armados locais utilizaram-se de civis para proteger objetivos militares dos ataques”.

O problema, explica o relatório, é que neste território de 360 km2, com 1,8 milhões de habitantes, caracterizando uma das mais densas concentrações humanas do planeta, as instalações do Hamas e os guerrilheiros palestinos misturam-se naturalmente aos civis [contra a pobre argumentação de Luiz Felipe Pondé em seu texto sobre o marketing geopolítico].

A nova aventura israelense em Gaza certamente seguirá seus padrões de destruição bienal, a despeito das críticas que ecoam de todo o mundo. Resta saber se a repetida estratégia vai ter sucesso em minar a independência e a autodeterminação palestinas.


ALDO CORDEIRO SAUDA é cientista político e MÁRCIA CAMARGOS, jornalista e escritora, tem pós-doutorado pela USP.

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Crimes de Guerra: o Massacre de Nanjing (Nanquim) – 1937

Recentemente tive minha atenção atraída ao assunto do Massacre de Nanjing após assistir um filme muito bonito (ao mesmo tempo muito triste) intitulado Flores do Oriente (Flowers of War), lançado em 2012, dirigido pelo cineasta chinês Zhang Yimou e estrelado pelo ótimo Christian Bale.

O filme todo se passa praticamente dentro de uma igreja católica na cidade de Nanjing que, em 1937, estava sob ataque brutal do exército japonês que invadia a cidade no contexto da II Guerra Sino-Japonesa.

Alguns amigos (Cido Araújo e Ximena Leon) me indicaram um blog bem interessante, chamado Deadlyblogque dentre outras matérias traz posts bastante informativos sobre alguns dos crimes de guerra mais hediondos ocorridos no século XX. Um deles é justamente sobre o Massacre de Nanjing, trazendo inclusive muitas fotos (algumas muito fortes) desse crime de guerra que, até hoje, não é reconhecido pelo Japão que, tal como a Turquia em relação aos armênios, prefere negar que o mesmo tenha ocorrido. Como se verá abaixo, segundo o post do Deadlyblog, em 2004 um Ministro da Educação japonês teria ordenado que este tema fosse retirado dos livros didáticos japoneses, por alegar que o fato nunca aconteceu.

Se há alguns meses atrás fiz um post neste blog criticando duramente o maior crime de guerra perpetrado contra a humanidade, quando os Estados Unidos da América decidiu despejar duas bombas atômicas sobre sobre o Japão para acabar com a II Guerra Mundial (Hiroshima e Nagasaki: maior crime de guerra contra a humanidade segue impune), não poderia deixar de fazer as mesmas duras críticas contra os japoneses que, apenas alguns anos antes, haviam perpetrado um crime de guerra bárbaro contra a população civil chinesa ao invadir Nanjing, em 1937, durante a II Guerra Sino-Japonesa.

Abaixo segue a íntegra do post tal como publicado no Deadlyblog.

2ªGM – O Massacre de Nanjing (Nanquim) – 1937

Os desentendimentos entre China e Japão são seculares, mas na história moderna, estes desentendimentos tiveram início em 1894, quando teve início a chamada “Primeira Guerra Sino-Japonesa”, que terminaria em 1895, com a vitória japonesa. Esta guerra marcaria o início da ascensão militar japonesa e o início da derrocada da China imperial.

As tensões entre os dois países continuaram ao longo dos anos seguintes até 1931, quando ocorreu o chamado “Incidente de Mukden”, a sabotagem ferroviária ocorrida em 18 de setembro de 1931, no sudoeste da Manchúria, onde militares japoneses explodiram uma seção da ferrovia do sul da província, de propriedade do Japão, nas proximidades de Mukden, atual Shenyang. O exército imperial japonês acusou dissidentes chineses pelo ato de sabotagem e utilizaram o fato como pretexto para a invasão e anexação da Manchúria.

A China já se via dividida internamente por uma guerra civil, onde comunistas e capitalistas de degladiavam para ver quem assumiria o poder. O exército chinês era mal equipado e mal treinado, sendo constituído inclusive por criminosos e simples camponeses. Já o exército japonês era muito mais profissional e melhor equipado.

As tensões entre as nações só fizeram aumentar, numa espécie de guerra não-declarada, culminando com outro incidente, o “Incidente da Ponte Marco Pólo, ocorrido em 7 de julho de 1937, considerado o início da Segunda Guerra Sino-Japonesa, que só terminaria em 1945, com a derrota do Império do Japão.

Bebê abandonado em Xangai após a ocupação japonesa, em 1937.

O Japão então dá início à sua campanha de conquista da China em agosto do mesmo ano, sem uma declaração formal de guerra, bombardeando Xangai. Durante quase um mês, o exército japonês desembarca tropas e equipamentos na costa chinesa, afim de estruturar nove unidades de infantaria e duas unidades de artilharia. Estas unidades marchariam a Xangai, conquistando a cidade após quatro meses de combates, ao final de novembro de 1937. O Exército Imperial do Japão estava agora a apenas 300 quilômetros de Nanjing, a capital chinesa. Com a queda de Xangai, a população civil e o remanescente do exército chinês, batem em retirada em direção à capital, adotando a tática da “Terra Arrasada”, destruindo todos os recursos que possam auxiliar o exército inimigo a se estruturar e ganhar força.

O exército chinês, se divide então para combater em três frontes, ao norte, ao sul e ao leste de Nanjing. Já o exército japonês divide suas forças em dois frontes, norte e sul e inicia sua marcha a Nanjing.

As forças chinesas se batem contra as forças japonesas, mas a superioridade militar japonesa se faz sentir, as tropas chinesas são derrotadas e seus remanescentes são obrigados a recuar a Nanjing, onde se agrupam sob o comando do general Tang Shengzhi, com a missão de defender a cidade. Ele então declara publicamente que irá manter o fronte com suas tropas e que se for necessário, ele e seu exército morrerão na defesa da capital. É realizado então o recrutamento de 100’000 novos soldados na cidade. A grande maioria sequer tem algum treinamento militar.

Além disso, as tropas do general Tang não contavam com nenhum apoio aéreo e terrestre e nenhuma comunicação entre elas. Estas foram as tropas que tiveram a ingrata tarefa de impedir o avanço das forças inimigas, numa batalha que teve início em 05 de dezembro e que se estendeu até a queda da cidade em 13 de dezembro do mesmo ano.

As forças militares japonesas, sob o comando do Príncipe Tenente-General Asaka Yasuhiko, recebem a ordem para tomar a cidade de assalto, além disso, veio a ordem para que o exército imperial japonês eliminasse imediatamente todos os prisioneiros de guerra, fossem eles homens, mulheres ou crianças.

Segundo o Deadlyblog: A faixa diz: Nanjing caiu – A Vitória do Exército Imperial Japonês

Quando a cidade foi tomada, em 13 de dezembro, as ruas estavam repletas de civis desesperados e soldados chineses que tentavam resistir sem qualquer espécie de organização. Os soldados japoneses iniciaram o fuzilamento indiscriminado de chineses, em busca da neutralização de qualquer espécie de resistência.

Em poucas horas, o exército japonês obtêm o controle da cidade, com uma fúria bárbara e brutal. Todos os militares chineses sobreviventes são então identificados e separados dos demais prisioneiros, sendo então torturados, fuzilados, enforcados ou decapitados.

A organização civil também é brutal, as pessoas são separadas por sexo e idade. O exército japonês inicia a busca sistemática em toda a cidade. As execuções são realizadas em todos os cantos, inclusive nos templos. Num vislumbre de bestialidade, centenas de pessoas são obrigadas e se dirigir a uma pedreira, onde são obrigados a entrar em um imenso buraco, formado pela extração do material, que se transformaria em sua sepultura. Quando já estavam no interior do buraco, soldados japoneses cercaram o local e abriram fogo com metralhadoras e fuzis. Como muitas pessoas não morreram em virtude deste primeiro ataque, os soldados japoneses receberam a ordem para procurar sobreviventes e executá-los.

Infelizmente, a brutalidade não estava perto de se findar. Sob o comando do general Iwane Matsui, a brutalidade tomou formas ainda piores:

  • Como numa prática esportiva, soldados japoneses disputavam entre si para saberem quem era o mais rápido e eficiente em decapitar prisioneiros;
  • Prisioneiros eram usados como alvo-vivo em exercícios de assalto com baionetas.

Na tentativa de justificar os assassinatos de civis, oficiais japoneses alegaram se tratar de militares disfarçados. Entre algumas das brutalidades descritas por testemunhas sobreviventes, podemos destacar que em diversas ocasiões, os soldados japoneses obrigavam os filhos a estuprarem sua próprias mães. Os que se recusavam, eram assassinados imediatamente.

As mulheres em especial, eram também “caçadas” por soldados japoneses, para que estas servissem como “escravas sexuais” de oficiais e soldados, em Nanquim e nas imediações. Além disso, muitas mulheres foram “exportadas” como escravas sexuais, para os mais de 2000 bordéis militares criados pelo Japão.

John Rabe posa na esntrada do abrigo que utilizou para salvar centenas de chineses

Curiosamente, um nazista seria uma das figuras mais importantes no auxílio aos chineses. O alemão John Rabe, então representante da empresa alemã Siemens na China, valeu-se do fato de ser filiado ao partido nazista, para pedir que Berlim pressionasse o Japão, para que este respeitasse a região onde a propriedade alemã estava, como uma “Zona Neutra”. Ele chegou ao ponto de pendurar no teto de sua casa uma enorme suástica pintada em tecido, para que os japoneses não usassem a desculpa de não saber qual era sua casa. Rabe conseguiu reduzir os assaltos dos soldados japoneses à zona neutra em busca de chineses refugiados e mulheres para serem usadas como escravas sexuais, o que lhe valeu postumamente o título de “Schindler de Nanjing”.

A bestialidade durou cerca de seis semanas, estendendo-se até fevereiro de 1938, embora não se possa precisar com exatidão. De 150 a 300 mil pessoas foram executadas nas mais atrozes condições (mulheres estupradas, homens torturados, crianças enterradas vivas). A cidade foi saqueada e incendiada. Um sem número de corpos foi queimado junto com a cidade, outros foram jogados no rio Yang Tsé e outros enterrados aos montes.

O massacre de Nanquim seria o único crime de guerra a ser tratado em separado pelo Tribunal de Tóquio. O general Iwane Matsui foi condenado à morte por não ter impedido a carnificina cometida pelas tropas que comandava.

Embora existam muitas provas sobre tamanha brutalidade, o governo japonês se recusa a reconhecer ainda hoje, os crimes cometidos pelo seu exército, a exemplo da Turquia, que também se recusa a reconhecer o genocídio cometido contra os armênios em 1915. Em 2004 o Ministro da Educação japonês ordenou que este tema fosse retirado dos livros didáticos japoneses, por alegar que o fato nunca aconteceu.

Cliquem no link ao lado para verem todas as fotos do Massacre de Nanjing disponibilizadas pelo Deadlyblog. Por muitas imagens serem ofensivas, sugere-se cautela na visualização das mesmas.

FONTES UTILIZADAS PELO DEADLYBLOG

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