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Antônio Cândido e a difícil arte de indicar dez livros [mais um] para se conhecer o Brasil

Republicado recentemente no Blog da Boitempo, em 17/05/2013, abaixo segue um artigo retirado da revista Teoria & Debate, no já longínquo ano 2000. Nele o sociólogo, crítico literário e ensaísta Antônio Cândido justifica sua escolha para a elaboração de uma lista de dez livros necessários para quem deseja conhecer o Brasil e, de modo bastante suave, burla a encomenda que lhe foi feita, nos presenteando com bem mais do que os dez livros da proposta original.

ANTÔNIO CÂNDIDO INDICA DEZ LIVROS [ou mais] PARA CONHECER O BRASIL

por Antônio Cândido*

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora.

São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.

Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.

Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução: História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.

Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.

Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler também Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material.

Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) e O movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).

Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império (1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II.

A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras.

Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas.

Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) é Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930).

O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política.

Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.

No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.

* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000

Antonio Cândido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.

Resumo das indicações de Antônio Cândido:

  1. O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro;
  2. Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda;
  3. História dos Índios do Brasil (1992), de Manuela Carneiro da Cunha;
  4. Ser escravo no Brasil (1982), de Kátia de Queirós Mattoso;
  5. Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre;
  6. Formação do Brasil contemporâneo, colônia (1942), de Caio Prado Júnior;
  7. A América Latina, males de origem (1905), de Manuel Bonfim;
  8. Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda;
  9. Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha;
  10. Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal;
  11. A revolução burguesa no Brasil (1974), de Florestan Fernandes.

Outras obras sugeridas à revelia do limite proposto:

  1. O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco;
  2. A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes;
  3. A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart;
  4. D. João VI no Brasil (1909), de Oliveira Lima;
  5. O movimento da Independência (1922), de Oliveira Lima;
  6. Um estadista do Império (1897, de Joaquim Nabuco;
  7. A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems;
  8. Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni;
  9. Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento.

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Pequenas Distrações

Peão Envenenado. Gregório Bacic. São Paulo: Escrituras, 2002.

Cada vez que vejo alguma notícia relacionada com a implantação de sistemas de câmaras de segurança em colégios, aviões, condomínios, elevadores ou em quaisquer espaços privados, comprometendo a privacidade das pessoas e mudando suas rotinas; ou então com com o aumento do número de carros blindados; ou ainda com o crescimento da nojenta indústria dos seguros, sempre relembro desse conto excepcional de Gregório Bacic, que foi publicado originalmente no livro Peão Envenenado e Outras Provocações, da editora Escrituras, em 2002.

Espero que tenham alguns minutos pra dedicarem à leitura desse conto, pois vale muito à pena. Caso não tenham, deixo também um vídeo contendo a interpretação do conto pela atriz Beth Goulart que passou no falecido e excelente Contos da Meia-Noite, da TV Cultura. Beth Goulart conseguiu interpretar magnificamente bem a ideia do conto e o vídeo, por si só, também vale a pena ser visto.

Espero que curtam tanto quanto eu. Divirtam-se!


PEQUENAS DISTRAÇÕES
por Gregório Bacic

A antiga mureta subiu com a rapidez com que sobem os tijolos de uma sepultura. As setas dos portões cresceram apontadas para o céu, e só não se perderam no espaço porque a laje do primeiro andar do sobrado as conteve… com determinação. Uma guarita se instalou na calçada entre as árvores moribundas na entrada dos automóveis, no chão cimentado que antes da reforma era um jardim ingênuo, de copos de leite e rosas vermelhas.

As janelas dão contra a vontade para a rua, a rua… envergando grades de puro aço que entre as frestas mal permitiria a passagem de um gato esguio. A casa antigamente singela, só não se transformou num bunker total de segurança máxima, porque permanecia vulnerável às quedas dos aviões, do jeito que as coisas iam; aos bombardeios aéreos, que mais cedo ou mais tarde o crime lançaria mão.

O patrimônio da família – o medo – estava provisoriamente a salvo; medo de ladrões, dos seqüestradores, dos estupradores, medo dos ventos, das enchentes, dos miseráveis, dos poderosos, dos fiscais, medo do terror, dos traficantes, dos negros, dos nordestinos, medo dos maloqueiros da favela, dos vendedores, dos cobradores, dos pregadores fanáticos, dos moto-boys que fumam maconha, dos ônibus lotados que despencam pela rua, medo da liberdade, medo da morte, medo da vida, medo do outro.

Apesar de já inexpugnável, a fortaleza crescia ainda mais – era preciso assegurar-se da confiabilidade dos guariteiros. Assim a família instituiu o uso doméstico do crachá, todos os novos residentes: pai, mãe, avó, tio avo, filho, duas filhas, nora e genro, deveriam portá-lo no peito, cabendo ao guariteiro liberar a entrada somente aquele que cumprisse a norma. E nisso as mulheres da casa questionaram a real eficácia do método, e protestaram contra o anúncio de que haveria crachás para os visitantes.

O que condenaria o fim ao gosto da filha mais nova de 15 anos, vista em casa como perigosamente distraída, à receber amigas da escola. Só assim pudera provar se os guariteiros eram cumpridores e responsáveis de suas tarefas – Sem crachá -ninguém entra! Nem o dono, por mais inconfundível que seja aos olhos de seus servidores.

Decidiu então pela obrigatoriedade dos guariteiros preencherem relatórios diários, enumerando horários de saída, entrada – e numa coluna de ocorrências extraordinárias, a passagem de terceiros, como carteiros, entregadores de jornais, mendigos, e outras pessoas vista com suspeita! Quem sabe não estaria ali se esboçando um crime hediondo de seqüestro!

O crescimento vertiginoso desses eventos nessas estatísticas determinavam a preferência da família por carros populares, os únicos capazes de não chamar a atenção dos criminosos a espreita. Mas como bastasse um único descuido para por tudo a perder, resolveu-se elidir os riscos providenciando a blindagem da frota familiar de Uno Mile!

Na manhã seguinte decidiu-se instalar uma câmera de vídeo voltada para os portões, evoluiu-se para um sistema completo de capitação de imagens e de sons, ocultando-se micro câmeras, microfones, nos pontos do lar considerados estratégicos.

Quando a filha mais nova, vista em casa como perigosamente distraída, esqueceu-se da vigilância eletrônica, e masturbando-se, foi surpreendida pela câmera, instalada na dispensa. Por não saber como abordar o assunto, o pai fingiu não ter visto nada! – e transferiu o fardo para a mãe. As mulheres da casa foram informadas que sua intimidade estava suspensa, não se sendo aconselhável banhar-se ou trocar de roupa sem antes reservarem horários apropriados, de curta duração, em que as gravações dos banheiros seriam interrompidas para revisão técnica!

A mãe contornou o mal estar argumentando se aquele era um preço alto a ser pago, seria ainda muito baixo, caso um dia as câmeras viessem a registrar cenas de estupros! Quanto à filha mais nova de 15 anos, vista em casa como perigosamente distraída, foi severamente admoestada pela indecência que gerou a situação… mas ganhou da cunhada como consolo um filhote de Chiuaua, a quem deu o nome de Speed Gonzales. Tanto se apegou que passaram a ser tratados na casa como casal Gonzales!

Agora o sistema de segurança era comprovadamente perfeito… mas e se algo falhasse…? Foi necessário reforçar a segurança com pit bulls amestrados, Goebbels e Goering. Com penúltima instancia, sim porque havia uma penúltima instancia, metralhadoras de cano curto, Calachini Cov, adquiridas à um contrabandista para armar a família contra terríveis conseqüências de um porre, um surto de loucura, ou até mesmo da traição do segurança nordestino de plantão! Ah… a traição do segurança nordestino de plantão! A lógica imperava mais uma vez, para enfrentar o pior inimigo, somente com a mais poderosa arma do pior inimigo.

O recebimento de pizza, duas vezes por semana, mereceu o nome de Operação Marguerita 1, claro, depois se repetindo com 2, 3, 4, consistia na distribuição dos homens da família em pontos recônditos da casa, a espreita… com suas Calachini Covs em punhos, prontas para disparar. Escondendo-se o pai atrás da janela do sótão com uma granada na mão onde poderia observá-lo em torno e contra atacar se necessário! Enquanto o mulheril se postava em alerta na sala de jantar, empunhando talheres pontiagudos, especialmente afiados para a ocasião, com que deceparia os vilões acuados, os dedos, ou as mãos, ou que mais fosse preciso…

O tio avô recebia a entrega pelo vão da jaula de portões, não sem antes obrigar o entregador a provar um naco da pizza. Para certificar-se se não trazia soporíferos, barbitúricos, ou drogas de qualquer espécie, que pudessem arrefecer as trincheiras da família.

Por que atravessar a vida arrastando esse fardo cruel, que nada contém a não ser o medo do que poderia um dia… talvez… quem sabe… por ventura vir a acontecer? Por que não baixar a guarda e cuidar sem temor para que a vida pudesse correr solta lá fora… lá fora?

A filha mais nova de 15 anos chegou a fazer essas perguntas em casa, foi vista — é claro — como perigosamente distraída, ingênua! Como seria possível fechar os olhos para a realidade? E a realidade é que já não se respeitam mais os valores que fizeram o mundo caminhar até aqui, sabe onde se escondem os bandidos? Nem mais se escondem. Hoje em dia são as pessoas direitas que se escondem. É preciso desconfiar de tudo e de todos, porque o tiro perdido, a bala certeira vem, não se sabe de onde, mas vem! Chamar a policia?! Nem pensar, seria o mesmo de abrir as portas de casa e expor as fragilidades do nosso reduto a pessoas suspeitas. Que depois certamente darão serviço a sabe-se lá quem…

Por distração da filha mais nova de 15 anos vista em casa como perigosamente distraída, Speed Gonzales, o filhote de chiuaua escapou para o quintal… invadiu o cercado dos pit bulls, sendo estraçalhado por Goering, em atraso a filha mais nova de 15 anos, vista em casa como perigosamente distraída, não chegou a tempo, em estado de choque, seus olhos puderam apenas acompanhar os minutos finais do minúsculo Speed Gonzales, que era devorado pelo mastodonte que relutava para não dividir o petisco com o enfurecido Goebbels.

A família cachapou-se de tal forma com o estado da filha, que decretou por 3 dias o toque de recolher. Durante o qual se deveriam extrair lições da tragédia doméstica… estampado nos olhos esbugalhados e no silêncio estarrecido da bela menina recolhida à cama. O que seria deles, se a tragédia, viesse de fora?! Pelas mãos criminosas de estranhos? Já no segundo dia porem a consternação familiar se esvaziou, dando espaço a algo irrefreável, que tomava corpo, um discreto sentimento de orgulho para com a atuação de Goering, em sua primeira situação de risco enfrentada naquela casa, diante do cãozinho invasor, não negou fogo, mostrou a que veio!!

No terceiro alvorecer, a filha mais nova, de 15 anos, vista em casa como perigosamente distraída, trajando um baby-doll cor-de-rosa transparente sobre o corpo nu e calçando pantufas, desceu plácida para o quintal, rumo ao cercado de cães. Esganiçando Goebbels e Goering lançaram-se em sobressalto contra a grade. Uma Calachini Cov ergueu-se serena e calculadamente nas mãos da menina que metralhou os cães! Com a mão esquerda brandindo a arma para o alto, o braço direito e os quadris da menina iniciaram um meneio lento, sensual, evoluindo para a fúria lasciva de uma dança inebriante, orgástica em torno dos cães mortos. Os olhos azuis extasiados descobriram a câmara posta no alto. Num golpe arrebatado, a filha mais nova, vista como perigosamente distraída, rasgou a seda cor-de-rosa frontal que a cobria e, orgulhosa e provocadora, ofereceu os peitos assoberbados para o equipamento, após o que, o metralhou. Até aquele momento, toda cena poderia ter sido assistida pelo circuito interno de TV. Mas por quem, se já não havia sobreviventes?


Conforme prometido, para quem não puder ler o conto, segue o vídeo com a interpretação do mesmo pela Beth Goulart.

CONTOS DA MEIA-NOITE / PEQUENAS DISTRAÇÕES from Breno Fortes on Vimeo.

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Desembarque no porto do Inferno

Já ouviu falar de Lúcifer? Que veio do inferno, com moral, um dia!
No Carandiru, não, ele é só mais um, comendo rango azedo com pneumonia!

Racionais MC’s em Diário de um Detento

Não, amigos, não é necessário que se assustem, este foi apenas o título que dei a um texto despretensioso, em forma de conto, que preparei quando soube do falecimento do Coronel Ubiratan Guimarães, aos 09 de setembro de 2006.

Para aqueles que não se recordam, o Coronel Ubiratan foi o responsável pela invasão da Polícia Militar do Estado de São Paulo ao antigo Complexo Penitenciário do Carandiru, em 1992, na qual, segundo os números oficiais, 111 presidiários foram executados covardemente pela Polícia. Acusado de homicídio, foi julgado e condenado a 632 anos de prisão, em 2001, mas no ano seguinte os paulistanos demonstraram sua tradição histórica de heroicizar facínoras e o elegeram Deputado Estadual, o que acabou sendo fundamental para que Bira acabasse sendo absolvido em foro especial, em 2006.

Não durou muito. Por volta das 22h30 do dia 10 de setembro de 2006, foi encontrado morto por um assessor parlamentar, com um tiro, dentro de seu apartamento nos Jardins.


À GUISA DE EXPLICAÇÃO

Aos que me conhecem, é desnecessário dizer que não acredito no inferno ou no Diabo, portanto não acredito que os 111 detentos mortos foram condenados ao Inferno (mesmo porque o inferno era o Carandiru). A ideia do conto abaixo foi muito mais um desabafo e o desejo de que, ao menos em outro mundo imaginado, esse crápula filho da puta fosse punido e atormentado eternamente por ter comandado uma execução em massa, que o conservadorismo paulistano insiste em louvar, transformando vilões em heróis. Estão aí Anhangüera, Fernão Dias, Raposo Tavares, Borba Gato e Castello Branco que não me deixam mentir. Não me surpreenderia nada se alguém me dissesse que o nome desse psicopata já está batizando uma estrada, rua, praça, viaduto ou ponte nessa cidade.


DESEMBARQUE NO PORTO DO INFERNO
(Rogério Beier – Setembro/2006)

Ao desembarcar de sua barca no inferno, Bira percebeu que o Diabo tinha preparado uma baita recepção para ele: um belo tapete vermelho, as chamas eternas ao fundo emoldurando o momento e uma audiência composta de 111 almas perdidas que, de pé, organizadas em uma espécie de fila, apenas aguardavam com sorrisos maldosos nos cantos dos lábios, qualquer sinal de Lu pela oportunidade da tardia vingança que tanto ansiavam.

Bira caminhou vacilante em direção ao Diabo e, reconhecendo alguns dos rostos que lhe encaravam com os olhos fixos e brilhantes, finalmente entendeu o que estava prestes a lhe acontecer, já temendo por seu destino final.

Lúcifer, velho conhecedor da alma humana, foi buscar Bira todo satisfeito. Passando-lhe a mão pelos ombros, trouxe-o mais para perto de si e disse-lhe num sussurro tenebroso:

– Venha Ubiratan! Não há como fugir daqui, se é nisso que você está pensando agora. Sua chance de se arrepender expirou no momento de sua morte e agora você é meu convidado de honra nesse dia tão especial. Sua presença aqui é mais do que ansiada e, se lhe fiz esta recepção especial, foi por que cada minuto em que esteve na Terra desde que me mandou estes 111, era uma tortura infernal para eles, que tanto esperavam por este reencontro. No fim, sinto uma certa tristeza por sua morte, já que terei que encontrar outras formas de torturá-los daqui por diante, mas antes…

– Enquanto Lúcifer falava, Bira percebeu os olhares maliciosos daqueles que aguardavam um mínimo sinal do Diabo, que por sua vez, se deliciava com aquela situação.

Naquele mesmo instante, um dos 111 danados se aproximou de Bira e Lúcifer, interrompendo-os:

– E aí mano Lú, a bandidage ali tá querendo saber se nóis já pode começar os tormento do coronel. Você prometeu! Você prometeu! Tamo só pela ordem, mano.

Lúcifer olhou para Bira, um tanto chateado por ter sido interrompido, mas já satisfeito com o que estava por vir e acabou respondendo a pergunta do ex-detento, dando sua gargalhada aterrorizante:

– Pois é, Bira. Você conseguiu se livrar de sua pena na Terra, mas aqui quem manda sou eu. Nada de advogados corruptos, nada de juízes comprados, apenas eu e seus 111 colegas por toda a eternidade. Hahahahahahahaha.


Pra finalizar com chave de ouro, segue o clipe de DIÁRIO DE UM DETENTO, dos Racionais MC’s, inspirado no livro homônimo, de Jocenir, que conta como sobreviveu à mais uma chacina executada pelo Estado.

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a tarde nem ardia

Após a publicação do post sobre o covarde bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, ordenado pelo então presidente dos Estados Unidos da América, Harry Truman, a colega Renata Requião (que já havia colaborado com Balada triste para violoncelo e câmara escura, sobre o suicídio de Dimitris Christoulas) enviou novo poema para complementar brilhantemente o post sobre o maior crime de guerra contra a humanidade.

Como falei para ela, é um enorme prazer poder abrir o blog para colaborações tão relevantes e bonitas, além de poder servir como canal de divulgação de poemas inéditos.

Espero que gostem tanto ou mais do que eu.


a tarde nem ardia

A tarde nem ardia
(já sabíamos: a temperatura cairia dez graus).

No céu o que se via, num horizonte ainda alto,
eram três sóis.
E um arco-íris em círculo.

Tal fenômeno, informava a meteorologia
– a mineralogia das pedras mais secretas, ínfimas por líquidas –,
ocorre devido aos cirrus:
nuvem
formada por cristais de gelo.

As nuvens tipo cirrus assim refratam
e refletem a luz
em halos,
espécie de arco-íris
helicoidais.

Imagens que em

vértice
vórtice
voragem
vertigem

nos romantizam e nos levam
com little boy
o Japão da bomba atômica
a hiroshima mon amour
sem que nenhum homem – a truman – enfim informe a verdade.

Fácil de esquecer, impossível entender.

Renata Requião

Laranjal, Pelotas, julho de 2012

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FLIP 2012

Ontem começou a décima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP 2012 e neste ano o grande homenageado da festa é o escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Cartaz oficial da FLIP 2012

Desafortunadamente, não pude estar presente na FLIP desde a noite de abertura, mas nesta sexta-feira já estarei caminhando pelas ruas de pedras da charmosa cidade colonial localizada no sul do estado do Rio de Janeiro, bem na divisa com São Paulo.

A abertura ficou a cargo do escritor gaúcho, Luiz Fernando Veríssimo, que após brincar com a gafe que cometeu há quatro anos atrás, fez questão de destacar que na Festa “se celebra a permanência do livro”.

Abaixo destaco um trecho do texto lido por Luiz Fernando Veríssimo na abertura da FLIP, nesta última quarta-feira.

“Há exatamente quatro anos eu fui convidado pela Flip para apresentar e entrevistar o dramaturgo inglês Tom Stoppard. Apesar do meu pavor de enfrentar o monstro, que é como eu chamo, carinhosamente, a plateia, qualquer plateia, me enchi de coragem, coloquei um Isordil preventivo embaixo da língua e subi no palco com o Tom Stoppard. E minhas primeiras palavras foram: “ É um grande prazer estar de volta aqui na CLIP”

Na hora, não me ocorreu nenhuma maneira de consertar meu erro. E vocês começam a entender por que fui o escolhido para fazer essa apresentação na décima Flip. Em primeiro lugar, queriam alguém que falasse pouco e não atrasasse a festa. Em segundo lugar, desconfio que quatro anos depois, a Flip quis, generosamente, me dar outra oportunidade de me redimir do vexame de ter trocado o F pelo C. Tive quatro anos para pensar numa explicação para minha gafe. Que, sem esta oportunidade, me perseguiria, inexplicada, até o túmulo.

E depois de pensar durante quatro anos decidi adotar uma máxima muito usada no futebol e por políticos  sob investigação, segundo a qual a melhor defesa é o ataque. Minha explicação para a gafe é que não foi uma gafe. Troquei o F pelo C conscientemente, confiando que a plateia entenderia minha sutileza. Quem errou foi a plateia, que não me entendeu.

A íntegra do texto de Luiz FernandoVeríssimo está disponível no blog do evento.

Esta foi apenas a abertura da FLIP que, nos próximos dias, ainda terá muitas mesas e discussões extrapolando o tema da literatura para propor reflexões sobre a sociedade em que vivemos e seus dilemas.

Abaixo aproveito para fazer apenas alguns destaques da programação principal que irá ocorrer entre sexta e domingo próximos.

O MUNDO DE SHAKESPEARE

Na sexta-feira, as 12h, teremos a MESA 6, composta por Stephen Greenblatt e James Shapiro, com mediação de Cassiano Elek Machado.

Segundo a programação do evento, “dois dos maiores estudiosos da obra de William Shakespeare mostram como a obra do escritor inglês ultrapassa o falso dilema entre particularidade histórica e universalidade literária. Nesta conversa sobre as criações de Shakespeare e os mitos que continuam a cercar sua figura, Stephen Greenblatt e James Shapiro discutem como as peças e poesias do autor se vinculam profundamente com as circunstâncias em que foram escritas, ao mesmo tempo que, ainda hoje, continuam a atrair novas leituras, adaptações e controvérsias”.

LITERATURA E LIBERDADE

Ainda na sexta-feira, as 17:15, teremos a MESA 8, com Adonis e Amin Maalouf, mediada por Alexandra Lucas Coelho.
Aqui, o destaque vai para a característica do trabalho destes escritores sírio e libanês que, segundo a curadoria do evento:  “uma perspectiva moderna e humanista caracteriza o trabalho do sírio Adonis e do libanês Amin Maalouf como escritores e intelectuais. Em ensaios, poemas, estudos históricos ou livros de ficção, esses dois grandes escritores constroem o novo a partir de um olhar original sobre a tradição, em oposição direta ao fundamentalismo que, nas últimas décadas, tem marcado a vida política e cultural de muitos países do mundo árabe. Eles conversam sobre os pontos em comum de suas trajetórias, ambas marcadas pelos conflitos da região, e avaliam as promessas e os riscos do momento atual.

CIDADE E DEMOCRACIA

O sábado já começa com a excelente mesa Cidade e Democracia, com a presença de Suketu Mehta e Roberto DaMatta, tendo de bônus a mediação de Guilherme Wisnik.

O programa faz o seguinte destaque para esta mesa: “Ao mesmo tempo que mostram o potencial de mobilização dos meios digitais, protestos recentes no mundo árabe e nos países europeus reafirmam a força da rua (e da praça) como palco de manifestação da vontade popular. O espaço urbano pode ser um local de encontro e convivência das diferenças, mas também a expressão mais visível da desigualdade social. A partir dessa contradição, o indiano, radicado nos Estados Unidos, Suketu Mehta, e o brasileiro Roberto DaMatta discutem o papel das cidades na vida democrática contemporânea”.

MESA LOS AMIGOS

Contudo, certamente o maior destaque do SÁBADO será a mesa composta por Angeli e Laerte Coutinho, intitulada “Quadrinhos para maiores” e que terá a mediação de Claudiney Ferreira, as 21h30.

Como descreve a curadoria da FLIP, “nesse encontro entre dois artistas que mudaram de maneira definitiva a cara dos quadrinhos brasileiros, Laerte e Angeli sobem ao palco da Tenda dos Autores acompanhados por históricos decididamente nada respeitáveis de personagens inesquecíveis, como Rê Bordosa e os Piratas do Tietê. Os dois falam sobre os pontos em comum de suas trajetórias e discutem os principais elementos do caldo de referências culturais e políticas presentes em seus trabalhos, nos quais a crítica de costumes assume um viés anárquico e satírico às vezes próximo do surreal”.

ENTRE FRONTEIRAS
Já no DOMINGO, último dia da FLIP, destaco a MESA 18, com Gary Shteyngart e Hanif Kureishi, com a mediação de Ángel Gurría-Quintana.

“Deslizando habilmente entre os pontos de vista do nativo e do estrangeiro, o norte-americano (nascido na Rússia) Gary Shteyngart e o inglês (filho de pai paquistanês) Hanif Kureishi criaram algumas das mais brilhantes sátiras da ficção contemporânea. Na obra desses dois premiados escritores, a perspectiva de viés, que mesmo ao tomar parte dos acontecimentos é capaz de considerá-los de um ponto de vista ironicamente distanciado, torna-se uma forma de expor ao mesmo tempo as tensões do mundo atual e a histeria vazia dos discursos que habitualmente pretendem descrevê-las.”

Para quem não puder ir até Paraty, mas tiver um tempo para ver/ouvir as palestras online, a organização do evento disponibilizou um link para transmissão ao vivo das mesas e também um blog, onde pode acompanhar tudo o que estiver ocorrendo por lá.

Serão dois dias cheios de muitas mesas e discussões sobre literatura. Acima fiz destaques apenas da programação principal, mas a FLIP é muito mais que isso. Além das programações paralelas, tem muita coisa acontecendo nas ruas e um ambiente agradabilíssimo que é quase impossível descrever, só se sente mesmo quando se está caminhando e absorvendo tudo o que está rolando ali, naquele lugar mágico que é Paraty. Muita cultura, no meio de praias lindíssimas, uma floresta exuberante, uma cidade colonial e aconchegante.

BOA FLIP PARA TODOS!!!

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Santa Evita: realidade ou ficção?

Estava organizando os arquivos do computador e fazendo uma limpeza geral, passando para CDs tudo aquilo que não tenho utilizado com frequência, quando me deparei com um dos trabalhos que desenvolvi no período da graduação para a disciplina de América Independente I, do professor Júlio Pimentel, autor do excelente blog Paisagens da Crítica.

Trata-se de uma resenha crítica do livro Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez e pensei que, em tempos de Cristina Kirchner na Argentina, seria bastante interessante e proveitoso para alguns leitores disponibilizar essa resenha, escrita nos idos de 2007, quando Martínez ainda vivia e era diretor do programa de estudos latino-americanos da Universidade de Rutgers, nos EUA.

Espero que gostem e, até mesmo, que possa ser útil a alguns estudantes que, por intervenção do Santo Google, acabem caindo por estas páginas na busca desesperada por uma solução de última hora para um trabalho do gênero. =)

Resenha crítica de Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez
por José Rogério Beier (originalmente escrita em 2007)

A única coisa que se pode fazer com a realidade é inventá-la de novo.

Realidade ou ficção? Eis a questão que intriga todos aqueles que se aventuram a seguir o corpo embalsamado de Evita pelas labirínticas páginas de Santa Evita. Questão da qual o autor não descuida em passagem alguma de todo o romance e que pode ser aqui resumida através de uma provocação que o próprio Martínez nos faz em uma passagem de seu livro:

“Porque a história tem de ser um relato feito por pessoas sensatas e não um desvario de derrotados (…) Se a história é – como parece ser – mais um gênero literário, por que privá-la da imaginação, do desatino, da indelicadeza, do exagero e da derrota que constituem a matéria prima sem a qual não se concebe a literatura? [1]”.  

Lançado em 1995, Santa Evita logo se torna grande sucesso editorial, talvez o maior de seu autor, chegando a ser traduzido em várias línguas. No Brasil, foi editado pela Companhia das Letras, em 1996, ganhando cuidadosa tradução de Sérgio Molina.

Neste romance, Martínez narra simultaneamente quatro histórias que se imbricam sem uma ordem pré-estabelecida. Muitas vezes, uma serve de ponte para o início da outra, amarrando-a de modo que uma narrativa assimétrica e poliédrica forme um conjunto harmonioso no final.

A primeira das quatro histórias a aparecer no romance é o de Evita viva. Martínez prefere narrar a história da vida de Evita em sentido inverso, isto é, iniciando com o momento de sua morte, quando a mostra totalmente debilitada pelo câncer em seus últimos dias de vida, para chegar, nos derradeiros capítulos do livro, à história do seu nascimento, que foi narrada por sua mãe. No decorrer do romance, e sem seguir uma ordem definida, o autor vai revelando aos poucos a trajetória da saída de Evita, ainda jovem, de uma província do interior da Argentina, Junín, até chegar a Buenos Aires, onde passou a viver como atriz de rádios e teatros de segunda categoria, onde acabou por conhecer Juan Domingos Perón em um momento crucial da carreira política deste. Daí em diante, a vida de Evita muda de rumo, vai crescendo até se tornar uma das figuras mais importantes da Argentina e desembocar na sua trágica e prematura morte, aos 33 anos de idade, fato que colaborou enormemente para a formação do mito de Evita.

Assim, vemos que os dados biográficos de Evita são apresentados pelo autor aos poucos, no decorrer do romance e com grande riqueza de detalhes, o que demonstra, como nos diz Mario Vargas LLossa em sua resenha para o jornal La Nación:

“un trabajo de hormiga, una pesquisa llevada a cabo con tenacidad de sabueso y una destreza consumada para disponer el riquísimo material en una estructura novelesca que aproveche hasta sus últimos jugos las posibilidades de la anécdota[2]

A segunda história narrada em Santa Evita é a do destino errático do corpo de Eva Duarte de Perón. Tão logo esta foi dada como morta, Juan Perón, seu amantíssimo esposo, encaminha o corpo a um embalsamador espanhol cujo trabalho seria eternizá-la escondendo a morte presente em cada célula daquele corpo. Mais do que isso, ao narrar as aventuras pelas quais o corpo de Evita passou nos anos em que esteve desaparecido, o autor estava também se referindo à história da própria Argentina. No momento em que o corpo de Evita foi embalsamado, ele deixou de ser apenas um corpo para representar a Argentina. Segundo o Coronel Moori Koenig, um dos personagens do livro, ao embalsamá-la Pedro Ara acaba por confundir o corpo de Evita com a Argentina. Para o Coronel, o que está em jogo “não é mais o cadáver desta mulher, mas o destino da Argentina. Ou as duas coisas, que para tanta gente parecem uma só[3]”. Em uma conversa com o embalsamador ele confirmaria que este “ao embalsamá-lo (…)  tirou a história de lugar. (…) Quem tiver a mulher, terá o país em suas mãos[4]”. E mais adiante, no último capítulo do livro, é o próprio autor quem confirmaria como o corpo embalsamado de Evita foi usado como alegoria para representar a Argentina: “Esse cadáver somos todos nós. É o país[5].

A história de Evita morta, ao contrário da anterior, flui para frente, isto é, foi narrada do momento em que ela morreu em diante, seguindo o fluxo dos acontecimentos, a linha diacrônica. É do entrelaçamento destas duas histórias que surge, em sua maior parte, o romance de Martínez. É ele mesmo quem nos diz que contaria o romance tal como o sonhara um certo dia: “Não contaria Evita como malefício nem como mito. Iria contá-la tal como a sonhara: como uma mariposa que batia para a frente as asas de sua morte, enquanto as de sua vida voavam para trás[6]”. E junto à história de Evita, contaria também “o que foi sua pátria e aquilo que quis ser, mas não pôde[7].

A terceira história narrada neste romance é a de um grupo de militares destacados para, inicialmente, seqüestrar o corpo de Evita do local onde era exibida e, posteriormente, proteger o corpo dos fanáticos peronistas que queriam, a todo custo, resgatá-la. É neste momento, quando o corpo de Evita cai nas mãos dos militares, que ele começa a errar através de dois continentes, vários países e passar pelas aventuras mais patéticas, onde foi copiado, marcado como gado, reverenciado, mutilado, divinizado, acariciado, profanado, confundido com uma boneca, escondido em ambulâncias, cinemas, refúgios militares e porões de barcos até, enfim, ser sepultado no cemitério La Recoleta.

Por fim, a quarta história narrada em Santa Evita, é a do personagem Tomás Eloy Martínez, que se passa por um autor obsessivo e martirizado pelo desejo de desvendar o mistério do corpo de Evita. Um personagem que se intromete na história a todo o momento para nos contar a forma como logrou escrever seu romance, mesmo através de suas fontes duvidosas. Estratégia muito bem utilizada pelo autor Tomás Eloy Martínez que, ao mudar o foco narrativo de terceira pessoa onisciente, para primeira pessoa e voltar novamente a terceira pessoa, de acordo com a história que se está narrando, busca dar mais verossimilhança a sua história, transformando-se em um personagem que vivencia, que está presente, que conhece e entrevista outros personagens do romance embora, na realidade, talvez ele nunca tenha entrevistado todas as pessoas mencionadas no livro. Para Carlos Fuentes, “Tomás Eloy Martínez es el último guardián de la Difunta, el último enamorado de Persona, el último historiador de Esa Mujer[8]. Martínez se vê mais como o taxidermista Pedro Ara, alguém que eternizara Evita através de sua arte: “A arte do embalsamador se parece com a do biógrafo: os dois tentam imobilizar uma vida ou um corpo na pose em que deverá ser lembrado pela eternidade[9]”.

Estas são as quatro histórias que formam o texto labiríntico de Santa Evita. Labiríntico porque em cada capítulo as quatro histórias se entrelaçam e se sucedem aparentemente sem nenhuma ordem pré-estabelecida. Labiríntico porque não se limita às suas próprias páginas, mas também levam o leitor, constantemente, a outras obras, sejam sobre Evita ou não, fazendo referência a autores diversos tais como Appolinaire, Borges, Cortázar, Onetti, Perlongher, Walsh e Wilde e até mesmo a outro romance do próprio autor, A novela de Perón. É o próprio Martínez quem nos diz que entre A Novela de Perón e Santa Evita teve que lançar outros livros e reaprender seu ofício de escritor para que Santa Evita não fosse confundido com o primeiro. Assim, a intertextualidade construída neste romance é, também, mais uma estratégia do autor visando trazer mais verossimilhança ao seu livro. Ao dialogar constantemente com uma série de obras, Martínez busca convencer o leitor da veracidade dos fatos que ele apresenta.

Como podemos ver, de um modo ou outro, a trama toda acaba sempre levando à questão da realidade ou ficção dos dados apresentados no livro. Mário Vargas Llosa acerta quando diz que tudo o que está contado no livro não passa de “uma mentira, uma ficção que foram despojados de sua realidade e transportados à fantasia[10]. É o próprio autor quem diz, várias vezes no decorrer do livro, que o que ali se vai narrar não é a realidade, mas uma reconstrução, uma invenção. Por isso o livro não é uma biografia, mas sim um romance[11]. Um romance que, de fato, acaba sendo biográfico, mas que traz a biografia de uma Evita que é apenas mais uma das que surgiram desde quando a de carne e osso morreu, isto é, uma Evita que “deixou de ser o que disse e o que fez, para ser o que dizem que disse e o que dizem que fez[12].

Portanto, Tomás Eloy Martínez é apenas mais um copista do corpo morto de Evita. Para ele, ao multiplicar-se Evita não morreu, isto é, ressuscitou. “Transfigurada em mito, Evita era milhões[13]. É por isso que Martínez busca reproduzir, no decorrer de todo o romance, os “milhões” de Evita que existiram. Tenta fazer isso ao citar os diversos nomes que ela recebeu: Evita, Eva Duarte, Essa Mulher, Pessoa, Nômade, Ela, A Defunta, A Falecida, O Cadáver, O Corpo, Pupe, ED, EM, Égua, Santa Evita, Evitita, etc.

Outra forma de reforçar a multiplicação de Evita, é através do relato da memória que cada personagem tinha dela e que o autor buscou narrá-lo de modo que Evita, mesmo nessas memórias, aparecesse sempre como várias personagens distintas para cada um deles. Este é o caso do cabeleireiro, que tinha um museu com várias cabeças de vidro representando os diferentes Evitas que ostentavam diferentes penteados, ou então, o caso do mordomo que ao ler as cartas e manuscritos de Evita, reparou que a caligrafia era distinta de modo que cada caligrafia revelava uma Evita diferente da outra, ou ainda, o caso do operador de cinema que havia notado que a “Evita do filme” era diferente da “Evita da platéia”.

Assim, a Evita de Martínez é só mais uma entre milhões, é a invenção de uma realidade criada pela ficção. Mas isso, para ele, não é demérito para seu romance, uma vez que as fontes em que o romance é baseado são de confiança duvidosa apenas no sentido em que também o são a realidade e a linguagem, já que nelas se infiltram lapsos de memória e verdades impuras. Neste sentido, Martínez destaca que para os historiadores e biógrafos as fontes sempre foram uma dor de cabeça. Nunca se bastam a si mesmas e necessitam da confirmação de uma fonte e, esta, por sua vez, de mais outra. Para ele, esta cadeia de fontes confirmando fontes costuma ser infinita e inútil, porque a soma das fontes também pode ser um engano. Assim, não vê problema nenhum em utilizar como fonte Aldo Cifuentes, um personagem que ele mesmo descreve como mentiroso contumaz e fofoqueiro.

Se, como diz Martínez, é no meio do caminho onde se bifurcam as estradas do mito e da história que resiste o reino indestrutível e desafiante da ficção, ele acaba escrevendo sua ficção para salvar a protagonista de seu romance da História, que ele vê como trágica. Apesar disso, paradoxalmente através dessa mesma obra de ficção, o autor conta um pouco da história de seu país ou, como ele mesmo disse, “o que foi sua pátria e aquilo que quis ser, mas não pôde”. Como nos diz Carlos Fuentes:

“Santa Evita es la historia de un país latinoamericano auto engañado, que se imagina europeo, racional, civilizado, y amanece un día sin ilusiones, tan latinoamericano como El Salvador o Venezuela, más enloquecido porque jamás se creyó tan vulnerable, dolido de su amnesia porque debió recordar que también era el país de Facundo, de Rosas y de Arlt, tan brutalmente salvaje como sus militares torturadores, asesinos, destructores de familias, generaciones, profesiones enteras de argentinos[14]”.

Em Santa Evita, vemos que Martínez parece querer apontar para o fato de que a Argentina não pode continuar crendo que sua cultura está desconectada da latino-americana. Em um trecho onde o autor destaca como Evita é vista dos Estados Unidos, onde mora, comparando esta visão com a imagem que os próprios argentinos fazem dela, ele começa dizendo que “Na Argentina ela é a Cinderela das telenovelas, a nostalgia de ter sido o que nunca fomos, a mulher justiceira, a mãe celestial. Fora do país, é o poder, a morta jovem, a hiena compassiva declamando nos balcões do além: ‘Não chores por mim, Argentina[15]’”. E arremata concluindo: “Neste condado (…) em Nova Jersey, Evita é uma figura familiar, mas a história que dela se conhece é a da ópera de Tim Rice. Talvez ninguém saiba quem ela foi na realidade; a maioria imagina que Argentina é um subúrbio de Guatemala City[16]. Trecho que revela o quanto a cultura argentina está desconectada das culturas estadunidense e européia e muito mais próxima da latino-americana.

Assim, é possível compreender bem Martínez quando ele diz que “é preciso convencer o meu país de que ele tem um cordão umbilical com o resto do continente. Por isso, todos os meus livros estão dedicados a mostrar o nexo que a realidade argentina tem com a realidade latino-americana[17]”.

Martínez é ainda mais explícito no trecho a seguir, onde aponta claramente que os argentinos faziam questão de esconder suas origens indígenas e negras, além das mazelas de sua sociedade, no intuito de se desvincular de suas raízes latino-americanas para se aproximar mais da cultura européia:

“Os argentinos que se julgavam depositários da civilização viam em Evita uma ressurreição obscena da barbárie. Os índios, os negros candombeiros, os maltrapilhos, os malandros, os cafetões de Roberto Artl, os gaúchos renegados, as putas tísicas contrabandeadas em navios polacos, as andorinhas de província: todos já tinham sido devidamente exterminados ou confinados aos seus porões sombrios. Quando os filósofos europeus chegaram de visita, descobriram um país tão etéreo e espiritual que acreditavam que este houvesse evaporado. A súbita entrada em cena de Eva Duarte vinha desmanchar os prazeres da Argentina culta. Aquela mina barata, aquela copeira bastarda, aquela merdinha – como era chamada nos leilões de terras – era o último peido da barbárie. Enquanto passava, era preciso tapar o nariz”.

Desta forma, Martínez pretende buscar o nexo da realidade Argentina com a latino-americana através dos diferentes personagens que passaram por Santa Evita. Dos mais notórios, como Juan Perón, aos mais discretos e anônimos, como a filha do operador do cinema, o autor faz desfilar pelas páginas de seu livro todo o povo argentino, como num grande mosaico: humildes e poderosos, insignes e medíocres, dementes e equilibrados, afetuosos e carrascos, destemidos e covardes, de todas as classes sociais e de todos os tipos. Por meio destes personagens o autor tenta mostrar o verdadeiro rosto do seu país, que não é aquele que critica acima por esconder suas origens e suas misérias, mas aquele que ele mostra no capítulo Grandezas da Miséria. Neste capítulo os grasitas aparecem com toda a força e sem disfarce nas filas de miseráveis à espera de dentaduras e outras esmolas de Evita. Aparecem na humilhação das vigílias intermináveis e no inventário de padecimentos humanos que um de seus personagens testemunha ao esperar por uma casa prometida por Evita que jamais viria. É ali, na enxurrada de intermináveis desgraças que afligiam o povo, que aparece o verdadeiro rosto do povo argentino. Muito mais próximo da realidade de qualquer outro povo de um país latino-americano do que dos europeus ou estadunidenses.

Outro aspecto da história argentina que aparece como pano de fundo nas páginas de Santa Evita, marcando a personalidade dos argentinos, é a da influência dos militares no poder e, posteriormente, a da ditadura que acabaria por exilar Tomás Eloy Martínez de seu país em meados dos anos 70. Um trecho que exemplifica a passagem marcante dos militares na personalidade dos argentinos após o golpe de 1976 e, em conseqüência, a própria escrita de Martínez, já que fora um exilado político deste governo, é aquele onde o autor conversa com seu amigo Emílio sobre a filha deste, Irene, que vivia exilada: “não era culpada de nada e, no entanto, carregava a culpa do mundo nas costas como todos os argentinos da época[18]. Mais adiante, ao descrever a si mesmo, complementa a descrição dessa personalidade argentina, que em muito deve aos governos militares: “Sou um argentino (…), sou um espaço sem preencher, um lugar sem tempo que não sabe aonde vai[19]”.

Em seu romance, os militares aparecem sempre de maneira negativa. Exemplos disso são o coronel Moori Koenig que se converte em um alcoólatra inveterado, capaz de profanar o corpo de Evita seja urinando sobre ele ou mantendo relações sexuais com o mesmo; o louco Arancibia, que acaba assassinando sua mulher por flagrá-la no sótão onde havia escondido o corpo de Evita, ou ainda o Capitão Galarza, que conversava com a Defunta nos porões do navio que a levava para Milão.

Martínez escreve seu romance após a queda da ditadura na Argentina, assim, tem liberdade não só para dizer o que pensa sobre o assunto, mas também de criar novos personagens grotescos e caricaturais sobre personagens reais, como foi o caso do Coronel Moori Koenig. Para Martínez, “A vantagem da liberdade era poder transformar as mentiras em verdades e contar verdades em que tudo pareciam mentiras[20]. Não é por acaso que o próprio personagem do Coronel aparece pela primeira vez no romance dando uma aula sobre os usos do boato, destacando que estes últimos seriam “a precaução que os fatos tomam antes de se tornarem verdade[21].

E assim, novamente voltamos a questão com a qual iniciamos esta resenha e que perpassa toda a obra: realidade ou ficção? Preferimos dar a palavra final ao próprio autor que fecha seu romance deixando uma dica de como encarar esta questão em sua obra:

“É um romance, nos romances, o que é verdade também é mentira. Os autores constroem à noite os mesmos mitos que destruíram pela manhã[22].

PERFIL BIOGRÁFICO DO AUTOR

Tomás Eloy Martínez foi jornalista, professor de literatura e escritor. Nasceu na província de Tucumán, Argentina, em 1934, onde completou seus estudos até graduar-se em literatura espanhola e latino-americana pela Universidade de Tucumán. Mais adiante, complementaria sua graduação com o título de mestre em literatura que obteria pela Universidade de Paris VII em 1970.

Durante os anos 60, trabalha em Buenos Aires como jornalista em diferentes periódicos como La Nación, onde era crítico de cinema e Primera Plana, onde exerceu a função de chefe de redação. Já na primeira metade da década de 70, é correspondente do editorial Abril, na Europa e também dirige o seminário Panorama (1970-1972) e o suplemento cultural do diário La Opinión (1972-1975). A partir de 1975, passa a viver como exilado político em Caracas, Venezuela, onde segue sua carreira de jornalista até 1983, quando finda a ditadura na Argentina e também seu exílio. Na área do jornalismo, segue trabalhando até os dias correntes, colaborando com diários como La Nación, da Argentina, e The New York Times Syndicate, dentre outros.

Além de sua carreira de jornalista, Martínez também desenvolveu uma carreira acadêmica muito extensa, deu conferências e cursos em diferentes universidades da Europa, Estados Unidos e América do Sul. Faleceu aos 31 de janeiro de 2010 como professor na Universidade de Rutgers, em New Jersey, onde era diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos.


[1]  MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Santa Evita. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 126.

[2]  LLOSA, Mário Vargas. Los placeres de la necrofilia. In: La Nación (México), feb. 1996. Suplemento Cultura. Disponível em <http://sololiteratura.com/var/losplaceres.html&gt;. Acesso em 04 de dezembbro de 2007.

[3]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 31.

[4]  Ibid.

[5]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 331.

[6]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 67.

[7]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 56.

[8]  FUENTES, Carlos. Santa Evita. In: La Nación (México), feb. 1996. Suplemento Cultura. Disponível em <http://sololiteratura.com/var/losplaceres.html&gt;. Acesso em 04 de dezembbro de 2007.

[9]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 136.

[10]  LLOSA. Op. Cit.

[11]  Não deixa de ser curioso e significativo o fato de, na página de rosto da edição brasileira, logo abaixo do título, aparecer a palavra “Romance” para designar o gênero literário a que pertence o livro. Fato este que não é corriqueiro nos demais romances lançados pela mesma editora ou, até mesmo, por outras editoras no Brasil.

[12]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 20.

[13]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 57.

[14]  FUENTES, Carlos. Op. Cit.

[15]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 176.

[16]  Ibid.

[17]  MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Evita soy yo. Entrevista concedida a Albor Rodríguez. Disponível em <http://www.el-nacional.com/archivedata/1996/06/09/215.htm&gt;. Acesso em: 27 de novembro de 2007.

[18]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp 209.

[19]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 308.

[20]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 309.

[21]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 16.

[22]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 333.

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Blade Runner e a questão da morte

Durante uma breve conversa via Facebook com a amiga e historiadora Célia Regina, estava dizendo que tinha que cumprir uma leitura para uma pesquisa que estou conduzindo, mas que lá pelo fim da noite provavelmente iria pegar um livrinho de ficção científica para dar uma relaxada. A colega, em uma empreitada mais nobre, disse que estava em vias de concluir a leitura da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Falava com ela sobre minha paixão, desde menino, pelo gênero da ficção científica. Gosto muito, pois acho que os autores deste gênero conseguem abordar temas muitas vezes complexos com uma simplicidade que só vejo semelhança nos autores de histórias em quadrinhos. Sabemos de muitos professores que dão aulas de filosofia e ensinam Sócrates, Descartes e até mesmo Jean Baudrillard utilizando filmes como Matrix.

Seguindo essa linha, um autor de ficção que foi adaptado inúmeras vezes para cinema é Philip K. Dick (1928-1982). São baseados em suas obras filmes como Blade Runner, Total Recall (Vingador do Futuro), Minority Report e muitos outros. É justamente sobre o primeiro destes filmes que eu gostaria de tratar aqui, só para dar um singelo exemplo do que eu estava conversando com a Célia hoje, isto é, a simplicidade com que esses autores conseguem abordar temas que, muitos outros tornam extremamente complexos e árduos de ler.

Embora tenha sido lançado originalmente como livro, Blade Runner, o caçador de andróides ficou mais conhecido por sua versão cinematográfica lançada em 1982. Quem já assistiu ao filme, sabe que o tema principal da obra é a questão da finitude do ser humano, isto é, a morte. Nós, humanos, sempre fomos inconformados com o fato de termos uma data de validade que, seja por qual razão for, desconhecemos. Justamente por isso, vivemos nossos dias sempre a tentar postergar aquele que será o nosso encontro final com a morte. Está aí todo o progresso da medicina que não me deixa mentir sozinho.

O filme dirigido por Ridley Scott é uma adaptação baseada no livro Do Androids Dream of Electric Sheep (1968) do já citado Philip K. Dick.

Fiz este pequeno preâmbulo, pois gostaria de propor um jogo imaginativo ao leitor deste blog, baseado em uma passagem do filme, para que possamos captar a maneira simples e direta como a ficção retrata este inconformismo que os humanos sentem frente a sua própria finitude. Vamos lá?

Pois bem, imagine então que você saiba o dia exato de sua morte e que, antes disso ocorrer,  tenha a oportunidade única de conhecer o seu criador, sem que para isso, obviamente, fosse necessário morrer…….

Imaginou?

Muito bem! Agora pense que mais além do que meramente vê-lo, você poderá falar com ele, isto é, você poderia trocar umas palavrinhas com aquele ser que te criou e, até mesmo, fazer pedidos e discutir as possibilidades da criação….pegou a ideia?

Pois bem, nessas condições, se essa oportunidade fosse realmente dada a você, o que você falaria ao criador? Quais seriam suas palavras a ele? Consegue pensar nesse diálogo hipotético?

Para Roy Batty, personagem vivido por Rutger Hauer no filme Blade Runner, não foi tão difícil assim. Ao encontrar Tyrell, seu criador e também dono da Tyrell Corporation, a produtora dos replicantes Nexus 6, mandou uma frase que ficaria clássica entre os admiradores de Blade Runner:

“I want more life, fucker!”

“Eu quero mais vida, seu escroto!”.

Simples e contundente! Demonstra perfeitamente o drama vivido pelos humanos diante da possibilidade da própria morte.

Certamente, se muitos de nós tivéssemos a mesma oportunidade, pediríamos a nosso criador uma extensão de nossa data de validade. Não sei se a maioria das pessoas teria a coragem de chegar diante do mesmo e chamá-lo carinhosamente de Fucker, mas certamente pediriam uma prorrogaçãozinha no seu tempo de vida e, se ele não concordasse, também ficaríamos muito chateados.


PS: Outro filme que trata do mesmo tema de forma simples e muito bonita é o excelente Peixe Grande (2003), dirigido por Tim Burton, com Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup e Jessica Lange.

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