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Indicação, comentários ou resenhas de livros.

Antônio Cândido e a difícil arte de indicar dez livros [mais um] para se conhecer o Brasil

Republicado recentemente no Blog da Boitempo, em 17/05/2013, abaixo segue um artigo retirado da revista Teoria & Debate, no já longínquo ano 2000. Nele o sociólogo, crítico literário e ensaísta Antônio Cândido justifica sua escolha para a elaboração de uma lista de dez livros necessários para quem deseja conhecer o Brasil e, de modo bastante suave, burla a encomenda que lhe foi feita, nos presenteando com bem mais do que os dez livros da proposta original.

ANTÔNIO CÂNDIDO INDICA DEZ LIVROS [ou mais] PARA CONHECER O BRASIL

por Antônio Cândido*

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora.

São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.

Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.

Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução: História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.

Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.

Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler também Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material.

Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) e O movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).

Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império (1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II.

A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras.

Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas.

Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) é Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930).

O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política.

Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.

No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.

* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000

Antonio Cândido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.

Resumo das indicações de Antônio Cândido:

  1. O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro;
  2. Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda;
  3. História dos Índios do Brasil (1992), de Manuela Carneiro da Cunha;
  4. Ser escravo no Brasil (1982), de Kátia de Queirós Mattoso;
  5. Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre;
  6. Formação do Brasil contemporâneo, colônia (1942), de Caio Prado Júnior;
  7. A América Latina, males de origem (1905), de Manuel Bonfim;
  8. Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda;
  9. Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha;
  10. Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal;
  11. A revolução burguesa no Brasil (1974), de Florestan Fernandes.

Outras obras sugeridas à revelia do limite proposto:

  1. O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco;
  2. A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes;
  3. A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart;
  4. D. João VI no Brasil (1909), de Oliveira Lima;
  5. O movimento da Independência (1922), de Oliveira Lima;
  6. Um estadista do Império (1897, de Joaquim Nabuco;
  7. A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems;
  8. Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni;
  9. Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento.

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O Guia do Politicamente Incorreto da América Latina na visão de Maria Lígia Coelho Prado

Recentemente, durante uma festa de aniversário da filha de uma amiga, um colega sentou-se à mesa em que eu estava e, ao lembrar-se de que eu havia concluído minha formação em História, quis puxar assunto comigo, propondo discutirmos sobre alguns aspectos da História da América Latina. Usando como base de sua argumentação a recente leitura que havia feito do Guia Politicamente Incorreto da América Latina, este colega questionava a importância histórica concedida a personagens como Simón Bolívar, Pancho Villa e Che Guevara, por exemplo, especialmente por “essa gente da esquerda”, como ele preferia dizer.

Sabendo se tratar de uma prática recorrente dentre as pessoas que pouco se dedicam a ler ou estudar História a partir de uma bibliografia mais séria sobre o assunto, acho bastante relevante repercutir uma resenha preparada pela professora de História de América Latina da USP, Maria Lígia Coelho Prado, que foi publicada no jornal  O Estado de S. Paulo em setembro de 2011. Assim fica claro o meu posicionamento em relação ao livro de Narloch e Teixeira, bem como em relação àqueles que utilizam tal obra como fonte para reproduzir as “simplificações oportunas e interpretações discutíveis” que aparecem postuladas neste livro.

Resenha do Guia Politicamente Incorreto da América Latina
por Maria Lígia Coelho Prado
Publicada originalmente em O Estado de S. Paulo – 25/09/2011

Guia Politicamente Incorreto

Lombroso Oculto: livro sobre “falsos heróis latino-americanos” usa simplificações oportunas, omissões e interpretações discutíveis, avalia professora.

O principal objetivo desse Guia Politicamente Incorreto da América Latina, nas palavras dos autores, é derrubar do pedestal o que chamam de “falsos heróis latino-americanos”. São “falsos” porque deles se construíram injustas imagens laudatórias. O livro quer mostrar a “outra” face desses homens, indicando seus equívocos, fraquezas e incapacidades. Cada capítulo está dedicado a um dos personagens que será objeto de críticas, de Simón Bolívar a Che Guevara.

Sem dúvida, a decisão dos autores de centrar o texto nas figuras dos “heróis” ou dos assim denominados “grandes homens” é bastante decepcionante. A desmistificação de heróis – “falsos” ou não, latino-americanos ou europeus – foi tarefa já exaustivamente cumprida pelos historiadores. Para que o passado histórico seja compreendido, é indispensável que se faça uma cuidadosa análise dos pensamentos e ações de homens e mulheres envolvidos na complexa trama de questões sociais, políticas, culturais, religiosas e econômicas.

Para construir seus argumentos e ordenar sua narrativa, Leandro Narloch e Duda Teixeira se apoiam em muitas citações retiradas da bibliografia e indicam suas fontes em notas de rodapé, conferindo ao livro um pretenso ar de respeitabilidade acadêmica.

Todos os capítulos trazem afirmações polêmicas, simplificações oportunas e interpretações discutíveis que mereceriam ser esquadrinhadas. Repetem a equivocada estratégia de pinçar frases a esmo, retirando-as do contexto histórico, atribuindo-lhes valores positivos ou negativos sem as devidas explicações e restringindo, portanto, sua compreensão. Diante de tantas possibilidades para o exercício da crítica, analisamos dois procedimentos utilizados pelos autores para sustentar seus pontos de vista.

O primeiro deles é o de se apropriar de uma fonte bibliográfica contestada e corroída por suspeitas e apresentá-la ao leitor brasileiro como fidedigna e isenta. O capítulo sobre Salvador Allende, que é particularmente controverso e recheado de afirmações refutáveis, exemplifica tal utilização imprópria. Narloch e Teixeira, no item 6 do capítulo, retiram informações do livro do chileno Víctor Farías, Salvador Allende, Anti-semitismo e Eutanásia, para acusar o falecido presidente de racista e antissemita e para associá-lo a certas práticas nazistas. Essas rotulações já foram fortemente denunciadas e refutadas no Chile, inclusive com a publicação de documentos que demonstram os equívocos de todas as acusações.

Para mais clara compreensão do manuseio das fontes pelos autores, vamos nos ater à questão do racismo e antissemitismo. Sobre esse tema, Narloch e Teixeira reproduzem trechos retirados do livro de Farías, que supostamente teriam sido transcritos da tese Higiene Mental e Delinquência, que Allende escreveu para obter o título de médico em 1933. As frases atribuídas a Allende estão carregadas dos piores preconceitos sobre judeus, ciganos, árabes, italianos, homossexuais e alcoólatras. Entretanto, a Fundação Presidente Allende, da Espanha, para refutar as diatribes de Farías, publicou a tese original de Allende, que também está disponível na internet. O que se constata é que Allende estava, no trecho mencionado, reproduzindo frases do médico e criminologista italiano Cesare Lombroso – ele afirma isso literalmente – numa discussão sobre suas teorias, como ainda era usual no começo dos anos 30. A conclusão de Allende sobre as possíveis relações, defendidas por Lombroso, entre origem étnica e delito criminoso, é a de que não havia dados precisos para demonstrar tal influência “no mundo civilizado” (p. 115 da tese). Frase esta que não aparece na transcrição de Farías e do Guia. Como se sabe, o bom historiador e o bom jornalista devem checar suas fontes, estudá-las, compará-las, garantir sua credibilidade e depois transcrevê-las com correta isenção.

O segundo procedimento refere-se ao mecanismo de utilização de uma fonte bibliográfica de prestígio para referendar ou legitimar conclusões bastante diferentes daquelas defendidas pelos autores do Guia. O capítulo sobre Pancho Villa, líder da revolução mexicana, é, nesse sentido, exemplar. A intenção explícita de Narloch e Teixeira é demonstrar que Pancho Villa não era antiamericano e não foi um Robin Hood latino-americano (p. 239). Para alcançar seu objetivo, os autores fazem referências a trabalhos de historiadores de onde retiram informações pontuais e dados específicos. Entre eles, um se sobressai, pois é citado em 27 das 47 notas de rodapé: Friedrich Katz, historiador da revolução mexicana, homem de convicções esquerdistas e autor de uma monumental biografia de Pancho Villa. Nela, Katz salienta o lugar de Villa no movimento revolucionário e procura fugir das lendas e da construção do mito. A trajetória pessoal e política de Villa é analisada integrada ao contexto social do México. Assim, existe um fosso entre a abordagem e conclusões de Katz e aquelas encontradas no Guia. A voz de autoridade de Katz é utilizada apenas para conferir credibilidade aos argumentos do Guia.

Para terminar, uma observação de caráter geral. Os autores apresentam no Guia uma visão desdenhosa sobre a história da América Latina. Só se entende essa exacerbada desqualificação se ela for pensada como a outra face do real desconhecimento dos autores sobre o assunto.

* MARIA LIGIA COELHO PRADO É PROFESSORA DE HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA NA USP.

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A escravidão através dos olhos de uma parisiense em viagem pelo Brasil

Memórias, diários e relatos de viagens são fontes importantes que frequentemente são utilizadas por historiadores em suas pesquisas. Após a chegada da Corte portuguesa no Brasil, em 1808, e a consequente abertura dos portos às nações amigas, muitos viajantes vieram ao país e registraram suas impressões sobre a sociedade brasileira. Temas como a riqueza da fauna e da flora, do tamanho do país, a vida social nas principais cidades e no campo e, em especial, o tema da escravidão foram recorrentes  na literatura produzida por estes viajantes quando estes retornaram a seus países de origem. Um desses relatos de viagem, o qual gostaria de compartilhar com vocês, é o de uma francesa que, em viagem ao Brasil com o fim de enriquecer em 10 anos e voltar a França, fez um retrato bastante interessante da escravidão no Brasil em meados do século XIX.

Minha ideia ao publicar esta breve resenha crítica do livro aqui no Hum Historiador é destacar, não apenas o olhar estrangeiro (europeu) sobre a escravidão no Brasil, mas também o olhar feminino. Em pleno século XIX, ainda eram poucas as mulheres que viajavam desacompanhadas de seus maridos da Europa para a América e, além disso, raríssimas eram também as escritoras que, muitas vezes, se escondiam atrás de pseudônimos masculinos para conseguirem publicar. Adèle Toussaint-Samson foi uma dessas mulheres que, não só viajou, mas escreveu. Seu registro é bastante importante e há pesquisadores, como Miriam Lifchitz Moreira Leite, que se dedicam a estudar as Mulheres Viajantes no Século XIX, como objeto de estudo.

Aqui vocês encontrarão apenas uma resenha crítica que preparei logo após a leitura deste livro em 2010, para destacar a visão de uma viajante sobre a escravidão no Brasil e a importância desta verdadeira instituição na construção da nação brasileira. Espero que gostem e que seja útil, de alguma forma.

1. Adèle Toussaint-Samson e seu livro: Uma parisiense no Brasil

Adéle Toussaint-Samson nasceu em Paris no ano de 1826. Filha de Joseph-Isidore Samson, ator, professor de teatro e autor de peças de grande sucesso em Paris, teve seus primeiros textos publicados na França em 1843, aos 17 anos de idade. Por volta dos vinte anos, casou-se com um dançarino de teatro chamado Jules Toussaint que, apesar de ser filho de franceses, havia nascido no Brasil.

Segundo Maria Ines Turazzi, historiadora que prefacia a segunda edição brasileira do livro de Mme. Samson, Adèle e Jules teriam vindo ao Brasil por volta dos anos de 1849 e 1850, tendo deixando a França em um período conturbado da história daquele país, já que haviam acabado de passar pela revolução de 1848 e por uma grave epidemia de cólera, em 1849, que fez com que o público do teatro, do qual o casal se sustentava, rareasse. O principal objetivo do casal ao vir para o Brasil era ganhar a vida e fazer fortuna, tal como um tio que eles tinham por aqui e que já tinha ganhado bastante dinheiro. Segundo a própria autora, logo no início do seu livro, “em dez anos, diziam-nos, devíamos estar ricos[1].

Em pouco tempo Jules e Adèle se estabeleceram na capital do Império. Ele como professor de dança e ela como professora de francês e italiano. Em 1856, Jules é contratado como professor de dança da família imperial, sendo tão bem remunerado que chega a comprar um amplo lote de terra entre as praias do Flamengo e do Catete, no Rio. Essa nova posição de Jules, além de prestígio, permitia a família Toussaint-Samson ter acesso à corte imperial. Segundo Turazzi, foi através desse acesso que Adèle travou conhecimento com a Condessa de Barral, aia das princesas Isabel e Leopoldina, e a senhorita Templier, institutrice francesa encarregada de completar a educação das princesas[2].

A data em que Adèle Toussaint-Samson deixou o Brasil não é bem certa. Maria Ines Turazzi nos diz que essa dúvida deve-se ao fato de Jules haver solicitado autorização ao imperador D. Pedro II de residir na França no ano de 1864, porém, seu nome e serviços continuaram sendo promovidos pelo Almanaque Laemmert até o ano de 1869. Tentando dirimir essa dúvida, Turazzi recorre a uma autobiografia de Isidore-Samson, pai de Adèle, organizada e lançada pela filha, em Paris, anos depois de seu retorno. Ali ela relata que ela e Jules teriam voltado a residir em Paris em 1870, o que poderia dar cabo a essa dúvida.

Embora Adèle tenha relatado em Uma parisiense no Brasil ter vivido doze anos no Brasil, sabemos pelas pesquisas de Turazzi que esse período em que ela viveu por aqui não se deu em anos sucessivos, mas sim, que ela teria ido e vindo, pelo menos umas cinco vezes, do Brasil a França, entre os anos de 1850 e 1870[3]. Tal fato é importante mencionar, pois embora ela tenha vivido doze anos no país, sua experiência se estende por um período maior, de duas décadas. Tal extensão permite que a autora teça considerações mais agudas quanto à situação política e social do Brasil, uma vez que entre o período vivido por ela na capital do Império e o período em que ela escreve suas memórias, muitas transformações, tanto políticas quanto sociais haviam ocorrido no país, inclusive uma guerra de grandes proporções com ampla participação da população afro-descendente. Se levarmos em conta que Adèle levou ainda alguns anos após o seu retorno definitivo a França, em 1870, para escrever suas memórias, concluiremos que sua perspectiva histórica se amplia para além dos vinte anos que mencionamos acima.

Uma parisiense no Brasil foi publicado em 1883 na forma de folhetim pelo jornal Le Figaro (França) e, no mesmo ano, no Jornal do Commercio (Brasil). Nesse mesmo ano, também ganhou uma publicação em forma de livro, tanto na França como no Brasil. Um dos fatos que talvez tenha levado Adèle a publicar o livro por essa época teria sido a morte de seu marido Jules, que segundo a hipótese de Turazzi, teria servido de estímulo para que a autora desse publicidade àquelas memórias dos tempos vividos com o Jules no Brasil. Contudo, um fato importante para motivar a publicação do livro, certamente, foi a segunda viagem do imperador D. Pedro II a Europa, no ano de 1877. Turazzi nos explica que, como essa viagem fora amplamente divulgada pelos jornais franceses da época, a presença do imperador teria estimulado os leitores europeus a saberem mais notícias sobre o Brasil, o que seria uma “oportunidade que ela [Adèle] não podia perder para a publicação de suas memórias[4].

Adèle morre em Paris, em 12 de outubro de 1911, aos 85 anos de idade, vítima de um trágico acidente, quando as brasas de sua lareira atearam fogo a sua roupa e acabaram queimando-a viva.

Depois da primeira edição em português, de 1883, o livro somente voltou a ser publicado no país 120 anos depois, saindo pela editora Capivara em 2003. Tal fato talvez justifique a pouca quantidade de trabalhos acadêmicos encontrados tanto tendo o texto de Mme. Samson como objeto central de estudo quanto como fonte para outros temas, uma vez que até o lançamento desta nova edição, o livro de 1883 era item raro mesmo nas melhores bibliotecas.

Segundo o levantamento de Maria Ines Turazzi, no Brasil apenas a professora Miriam L. Moreira Leite e a professora Zahidé Lupinacci Muzart, ambas com trabalhos ligados ao estudo da história das mulheres no Brasil no século XIX, vinham se dedicando ao estudo dessa memória de Adèle Toussaint-Samson quando do lançamento da edição de 2003[5].

2. A estrutura do livro

A nova edição de Uma parisiense no Brasil contém, além do prefácio de Maria Ines Turazzi, do qual viemos falando até o momento, um Prólogo que havia sido cortado da primeira edição, de 1883. Nesse prólogo a autora narra a verdadeira aventura que foi conseguir a publicação de seu livro de memórias em Paris. Desta parte do livro vale a pena mencionar a verdadeira obsessão da autora em fazer seus leitores crer que tudo aquilo que ela viria a narrar, dali por diante, era a mais pura expressão da verdade, fatos e eventos que haviam sido testemunhados por ela enquanto vivera no Brasil e transcritos no livro sem nenhuma alteração. Tal preocupação revela-nos que Adèle estava em linha com os demais autores que escreviam relatos de viagem durante o século XIX, já que essa era uma preocupação recorrente em todos eles.

Além do prólogo, o livro foi estruturado em quatro partes e um apêndice, onde a autora traduz algumas poesias de autores brasileiros para o público francês. Na primeira parte, intitulada Vida de bordo, a autora descreve como se deu a viagem a bordo do clíper Normandia, que os transportara de Le Havre, na França, ao Rio de Janeiro.

Já a segunda e terceira parte do livro, intituladas respectivamente de Rio de Janeiro e A fazenda, são as mais importantes para captarmos o tema proposto para este trabalho, que é a visão que a autora tinha sobre a escravidão no Brasil e sua importância no processo de formação da nação brasileira.

No capítulo intitulado Rio de Janeiro, a autora descreve como foi sua vida na cidade, as paisagens e a vida cotidiana que levou, fortemente marcada, a cada momento, pela presença dos negros que estavam em todos os cantos da cidade e, sem os quais, esta não funcionava.

Já em A Fazenda [não, não estamos falando do Reality Show], Adèle nos mostra como funcionava uma unidade produtiva no Brasil. Hospedada em uma fazenda com 120 escravos, a autora narra como os negros trabalhavam, como eram as senzalas, as punições, festas, religiosidade, enfim, a vida cotidiana que levavam no duro trabalho das lavouras brasileiras.

A quarta e última parte do livro, intitulada Entre as gentes, traz as observações de Mme. Samson sobre os brasileiros. Seu temperamento, aparência e gostos. Junto com essas observações, vieram também os preconceituosos juízos de valor, tão característicos nos viajantes europeus do século XIX e que acabavam por adjetivar o brasileiro como indolente, feio e desonesto, para ficarmos apenas em alguns exemplos. Foi especialmente sobre esta parte do livro que se debruçaram as pesquisadoras Miriam Moreira Leite e Zahidé Muzart com o propósito de captarem as observações de Adèle sobre as mulheres brasileiras do século XIX. É nesse capítulo também, que a autora descreve como se deu sua despedida do Brasil e o estranhamento que vivenciou ao retornar à França, fazendo observações muito relevantes para quem deseja comparar as diferentes estruturas econômicas, políticas e sociais entre centro e periferia do capitalismo, o que não é o objetivo deste trabalho.

3. A escravidão vista através dos olhos de uma parisiense em viagem pelo Brasil

Adèle Toussaint-Samson nos deixa claro, em várias passagens de seu livro, o horror e repulsa que sentia ao testemunhar a escravidão no Brasil. Relata-nos, por exemplo, a que ponto sua revolta chegara com uma vizinha espanhola que, diariamente, torturava seus escravos, ao dizer-nos que a primeira palavra que aprendera em português fora “carrasco” apenas para poder gritar a esta vizinha no momento em que ela espancava os seus negros. Outra passagem relevante e que destacamos abaixo, é uma em que ela narra o horror que sentia pela escravidão ao testemunhar os leilões de escravos:

“Esse espetáculo da escravidão foi, durante os primeiros anos de minha estada no Brasil, um dos suplícios de minha vida, e não contribuiu pouco para que pensasse morrer de nostalgia. A cada instante minha alma revoltava-se ou sangrava quando eu passava diante de um daqueles leilãos [leilões] em que pobres negros, em cima de uma mesa, eram leiloados e examinados nos dentes e nas pernas como cavalos ou mulas; quando via o lance ser coberto e uma jovem negra ser entregue ao fazendeiro que a reservava ao seu serviço íntimo, enquanto seu negrinho era algumas vezes vendido a um outro senhor. Diante de todas essas cenas de barbárie, meu coração indignava-se, cóleras generosas inflamavam-se em mim e eu era obrigada a conter-me para não gritar a todos aqueles homens que faziam comércio de carne humana: ‘carrascos!’ como gritara a minha vizinha espanhola.[6]

Apesar dessa repulsa pela escravidão, desse sentimento de horror diante dessa barbárie inominável e que chegava a lhe causar uma sensação de nostalgia de seu país, também é possível ver nos relatos de Mme. Samson ela fazer uso de escravos sem o menor pudor, como na passagem que destacamos a seguir, onde ela narrava como a epidemia de febre amarela que atingiu o Rio de Janeiro havia afetado também seu núcleo familiar:

“Naquele dia, a negra que havíamos alugado caiu doente também e tivemos de devolvê-la ao seu senhor[7].”

Ou também nessa outra passagem, onde chega a cair no ridículo ao descrever os malefícios causados pelos dentes dos negros:

“O próprio dente dos negros é muitas vezes perigoso.Vi mais de um exemplo, no Brasil, de senhores europeus (…) que, ao bater em seus negros, haviam sido mordidos por eles, ou se haviam chocado contra seus dentes, e dos quais foi preciso amputar o braço[8]”.

Essa contradição que flagramos nas memórias de Mme. Samson não são exclusivas de uma viajante que passava pelo país, mas é característica de um Brasil que ainda vivia o regime escravista na segunda metade do século XIX, enquanto as nações consideradas mais avançadas da Europa, ou mesmo as recém independentes da América, já haviam deixado-o para trás, adotando o trabalho assalariado.

É possível flagrarmos sentimentos semelhantes aos de Adèle, especialmente após a década de 70 do século XIX, em políticos liberais brasileiros que, muitas vezes, mesmo advogando pela causa abolicionista, mantinham plantéis de escravos em suas fazendas. Algumas explicações para essa contradição, isto é, essa repulsa pela escravidão, mas a falta de ações que culminassem, efetivamente, na abolição desta, a própria autora daria mais adiante em seu livro, quando passa a inocentar o imperador D. Pedro II de manter a escravidão no país e a justificar, apesar do humanismo deste imperador, o regime de escravidão como necessário pela absoluta falta de mão de obra para as lavouras exportadoras brasileiras se a escravidão fosse abolida no Brasil, já que segundo se acreditava, apenas os negros eram capazes de fazer e suportar as duras condições de trabalho na lavoura.

“Não se deve acusar o imperador do Brasil por este estado de coisas [brutalidade dos castigos aos escravos na fazenda]. Ele é, ao contrário, cheio de humanidade, e seus escravos são tratados com muita brandura; mas, ao subir ao trono, encontrara esses usos estabelecidos, e não podia em um dia mudar os costumes do país; precisava fechar os olhos ao tráfico de negros, pois apenas eles eram capazes de suportar o trabalho de cultura sob aquele sol de fogo.[9]

Como dissemos, esse trecho revela uma visão comum da época, a de que a escravidão era um mal necessário, já que nem brasileiros nem imigrantes suportariam as condições de trabalho na agricultura de exportação:

“Haviam sido feito muitos esforços para trazer colonos de todos os países para substituir lentamente os negros; mas os franceses mal resistiam alguns meses; os ingleses, que pretendiam continuar seu regime de gim, logo morriam congestionados; os chineses, raça preguiçosa e deteriorada, não davam nenhum bom resultado (…) A única raça própria à cultura, no Brasil, é sem nenhuma dúvida a raça indígena. Mas, perseguida como foi, rejeitando a sujeitar-se, (…) não se espera poder domá-la tão cedo. Quanto à raça brasileira, mistura de sangue europeu, americano e africana, tem toda a indolência crioula, é fraca, abastardada, muito inteligente e não menos orgulhosa. É evidente que é ao comércio com os negros que se deve em parte a deterioração desta raça.[10]

Mais adiante ainda, ela segue justificando a razão pela qual a escravidão, apesar de brutal, era necessária no Brasil, chegando ao argumento central de sua exposição, que era aquele mesmo da elite governante do país, não importando se fossem conservadores ou liberais:

“Que fazer então? Se a escravidão fosse repentinamente abolida, o país estaria arruinado. (…) A raça brasileira não poderia suportar rudes labores; além disso, despreza todo trabalho manual. Não há brasileiro que jamais consinta em servir; todos querem ser senhores. Portanto, se a escravidão houvesse sido abolida bruscamente, a cultura teria parado: seria a fome a instalar-se. Era preciso preparar lentamente o país e os espíritos para essa grande revolução. Foi o que fez D. Pedro II; e quando, segundo ele, havia chegado a hora, declarou livre todo o filho de escravo a nascer dali em diante.[11]

Dominava, não apenas nos estrangeiros, mas também nessa elite governante e, mesmo nos homens e mulheres livres da época, a idéia de que sem a escravidão o Brasil não existiria. Não haveria quem trabalhasse nas culturas, que era responsável pela quase totalidade da economia brasileira. Mais ainda. Pior do que o medo de o Brasil cair na barbárie pela abolição da escravidão, consentida pela elite governante, era o medo de uma revolução dos negros que conquistasse essa abolição da escravatura à mão armada, tal como ocorrera em São Domingos, no Haiti. Adèle Toussaint-Samson nos deixa uma passagem onde revela claramente esse sentimento que ficou conhecido por “haitianismo” e que, desde a declaração da independência, assombrava a elite governante e justificava a permanência do escravismo no Brasil. Era da opinião da elite nessa época que um Brasil sem escravidão e, portanto, sem mão-de-obra para a lavoura, e ainda por cima com negros votando e sendo votados seria simplesmente ingovernável; máxima representação da barbárie.

“No entanto, este grande número de negros livres é um grande ponto escuro no horizonte brasileiro: seu número já ultrapassa o dos brancos. Seria de temer, talvez, que, quando se houverem contado, tirem uma terrível desforra e o futuro vingue o passado Esperemos, porém, que o Brasil não tenha o seu São Domingos.[12]

Até mesmo para os liberais brasileiros, os ideais da revolução francesa eram perfeitos, mas teriam que se adaptar a realidade do escravismo no Brasil, condição sem a qual não existiria o país.

 4. Considerações finais

Viemos tentando mostrar neste trabalho, como a percepção que uma estrangeira teve do Brasil ao viver no país por doze anos na segunda metade do século XIX, conseguiu captar a importância do papel desempenhado pelos escravos no processo de formação da nação brasileira. Mesmo através das memórias de uma viajante, foi possível perceber o papel central desempenhado pelos escravos na economia e na sociedade brasileira. Papel tão importante que era impossível a todos daquela época imaginar até mesmo a própria existência do país, não fosse através do sistema escravista. Por mais que essa percepção de Adèle e da elite governante brasileira sobre quem deveria ser a mão-de-obra das lavouras fosse equivocada, uma vez que cheia de preconceitos contra brasileiros, chineses e, até mesmo, europeus, ela nos revela a razão pela qual a escravidão persistiu no Brasil desde a sua independência até a abolição, em 1888. Não apenas porque a atividade comercial do tráfico de escravos era lucrativa, em si, até uma determinada época, mas também porque as próprias pessoas que viviam e governavam o país não conseguiam imaginar outra forma tão lucrativa de explorar o trabalho nas lavouras brasileiras. Não conseguiam sequer imaginar que europeus, asiáticos ou mesmo brasileiros assalariados pudessem trabalhar nas lavouras mantendo os níveis de produtividade e lucratividade dos escravos e, por isso, iam postergando o fim da escravidão enquanto temiam por uma revolução negra, a medida que cada vez mais escravos iam ganhando a liberdade com o tempo. Eis o que captou Mme. Samson em suas memórias e que nesse exíguo espaço busquei apontar.


[1] TOUSSAINT-SAMSON, Adèle. Uma parisiense no Brasil. Rio de Janeiro: Capivara, 2003, pp. 53.

[2] TURAZZI, Op. Cit., pp. 21.

[3] TURAZZI, Op. Cit., pp. 22-23.

[4] TURAZZI, Op. Cit., pp. 27.

[5] Ibidem, pp. 38.

[6] TOUSSAINT-SAMSON, Op.Cit., pp. 97-98.

[7] Ibidem, pp. 94-95.

[8] Ibidem, pp. 100-102.

[9] TOUSSAINT-SAMSON, Op. Cit., pp. 99.

[10] Ibidem.

[11] Ibidem, pp. 100-102.

[12] Ibidem, pp. 102.

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O Senhor das Moscas e o mal inato do ser humano

Fim de semana chuvoso, com direito a feriado prolongado, então a ideia hoje é pegar leve por aqui no blog. Assim, achei melhor deixar apenas a recomendação de um bom livro para os amigos que ficarão de castigo em casa nesse feriadão de quatro dias.

Trata-se de O Senhor das Moscas (também adaptado para o cinema), escrito em 1954 por William Golding (1911-1993),  vencedor do Nobel de literatura, em 1983. Nas próximas linhas, pretendo fazer apenas algumas observações com o objetivo de instigar o leitor a buscar este livro para ter um fim de semana agradável. Portanto, este post é muito mais uma sinopse do que uma resenha propriamente dita do romance indicado.

Muito bem escrito e envolvente, O Senhor das Moscas tem um enredo brilhante, com um ritmo que faz seu leitor sentir-se como mais um dos personagens que se perdem numa ilha e terão que sobreviver duramente, se organizando em grupos para realizar as tarefas diárias até serem resgatados. Certamente inspirou muitos outros escritores e cineastas, havendo até quem diga que o programa Survivor (No Limite) e a série Lost tenham sido inspiradas nesta obra que, apesar do fracasso inicial, acabou por se tornar um clássico da literatura inglesa.

Escrito no pós-guerra, novo período de desencantamento com a humanidade, o livro faz uma série de analogias, a começar pelo título, que se refere a Belzebu (Baal-Zeboub), deus filisteu transformado em príncipe dos demônios por hebreus e cristãos, cujo significado etimológico do nome é justamente Senhor das Moscas.

Em termos gerais, para não estragar a surpresa, o livro trata da descoberta do mal que existe no coração do homem que, independente da idade e do meio onde este vive, surge como algo natural. Neste sentido, o autor pretende mostrar como crianças (entre 6 e 12 anos), se organizaram socialmente após terem sobrevivido a um acidente aéreo em uma ilha perdida sem a presença de adultos (autoridade). Qualquer semelhança com O Leviatã (1651), de Thomas Hobbes (1588-1679), não é mera coincidência. Resumindo de maneira bastante simplista, para Hobbes, sem a presença do Estado (autoridade), os homens não conseguem organizar a vida social e viveriam na mais profunda barbárie, daí a necessidade do Contrato Social.

A trama vai se desenvolvendo no intuito de contar como essas crianças vão criando, aos poucos, uma vida social baseada na violência e na força, atingindo altos requintes de crueldade. Um dos pontos chaves para o desenrolar do enredo deste romance, é a descoberta da presença de porcos na ilha que, inicialmente, servem como fonte de alimentos ao grupo, mas que mais adiante no livro, será utilizado pelo autor como a já referida metáfora do Senhor das Moscas, em alusão a Belzebú.

Um dos aspectos que me pareceu bastante interessante ao ler esta narrativa de Golding, foi perceber como estes garotos, apesar de terem recebido “fina educação inglesa” (portanto, não estamos lidando com “selvagens” africanos, asiáticos ou latino americanos), quando sozinhos acabam por estabelecer uma sociedade bastante “primitiva”, criando ritos e sacrifícios, desrespeitando as “leis” por eles mesmos estabelecidas, chegando até mesmo a matarem uns aos outros. Aqui, o medo do desconhecido desempenha um papel importante e, mais do que isso, a maneira como os líderes do grupo exploram este medo do mundo externo para fazer com que o restante do grupo os obedeçam.

Outra analogia que gostaria de apontar, sem me aprofundar muito, é que se percebermos bem, veremos que é possível relacionar alguns personagens chave com determinados valores e embates bastante em voga na época em que o livro foi escrito. Por exemplo, Ralph, um dos líderes do grupo, representa a democracia; Jack é a força tirânica e ditatorial; e Porquinho, a inteligência que apóia a democracia. Se considerarmos o contexto da Guerra Fria que, na década de 1950, vivia seus momentos mais quentes, podemos enxergar um embate bastante claro proposto pelo autor entre Democracia x Ditadura (ou, se preferirem, países ocidentais x URSS).

Contudo, o que vale mesmo a leitura e a recomendação desta breve sinopse, é justamente as reflexões que o livro levanta em relação a perda da inocência da humanidade (se é que isso existiu) e,  nesse sentido, o romance de Golding faz a caricatura perfeita do surgimento do mal no coração do homem.

Espero que aproveitem o fim de semana e o feriado prolongado, se possível, com uma boa leitura.

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O Dilema do Onívoro ou como o processo Haber-Bosch mudou o mundo

“Ao fertilizar o mundo, alteramos a composição das espécies do planeta e fazemos encolher a sua biodiversidade”.
Michael Pollan em O dilema do onívoro.
Rio de Janeiro, Intrínseca, 2007, p. 57

Com a proximidade cada vez maior da Rio+20, cabe cada vez mais produzirmos e compartilharmos textos que visam contribuir com os debates e discussões à respeito desta ideia (que me parece um tanto quanto fabulosa, diga-se de passagem) do desenvolvimento sustentável.

Abaixo um texto que produzi por volta de 2008 quando, para a realização de um seminário da disciplina História da Cultura II, com o professor Henrique Carneiro, fizemos a leitura da obra de Michael Pollan (1955- ), jornalista, ativista e professor de jornalismo da Universidade de Berkeley, especializado em alimentação, cultura e indústria alimentar.

Espero que gostem e que de alguma maneira, o texto que produzi sobre a leitura da obra de Pollan, possa estimular novas reflexões, não apenas sobre a maneira nada sustentável como passamos a produzir nossos alimentos a partir da II Guerra Mundial, mas também sobre como, invariavelmente, o desenvolvimento tecnológico associado a sociedade de consumo, sob a aparência de oferecer a solução de um problema, acaba criando outro muito maior e que, se não coloca a própria existência da humanidade em cheque, a deixa totalmente dependente da manutenção do modo de vida capitalista.

O DILEMA DO ONÍVORO

O título do livro, O Dilema do Onívoro, vem da constatação de seu autor de como o sentimento de ansiedade e receio que um onívoro sente ao ter que se decidir por qual alimento tomar como refeição quando se depara com uma ampla variedade de opções. Sentimento que não teríamos se fôssemos um Panda, ou um Coala, que se alimentam apenas de bambu ou eucalipto, respectivamente. Tal ansiedade diante da alimentação acaba se transformando em receio, sobretudo, em função de sabermos, de antemão, que algumas dessas opções podem nos fazer adoecer ou, até mesmo, nos matar.

O termo não foi cunhado por ele, mas sim por um psicólogo e pesquisador da Universidade da Pensilvânia chamado Paul Rozin. Pollan diz que pegou o termo emprestado, pois entende que o mesmo explica muito bem a atual situação do estadunidense em relação à comida. Assim, Pollan sugere que uma das maneiras de se compreender a atual desordem alimentar que existe nos Estados Unidos é encarando-a como um retorno ao dilema do onívoro, isto é, a superabundância de comida existente nos supermercados estadunidenses teria os levado a uma situação onde é natural que se tema a possibilidade de que um dos produtos ali vendidos possa matá-los. A falta de uma cultura alimentar estável, como a que existe em outros países, os deixam vulneráveis às “adulações dos cientistas ou do marqueteiro especializado em comida”, para quem a perplexidade do consumidor diante do supermercado é nada mais do que uma oportunidade.

Portanto, Michael Pollan parte da constatação de uma “Desordem Alimentar Nacional” nos Estados Unidos e, para compreendê-la, decide percorrer três das principais cadeias alimentares que atualmente abastecem a humanidade, dentre as quais destacamos a industrial, pois em sua análise, considera ser aquela que mais nos toca e preocupa de perto. Desta forma, centra seu foco em apenas um produto desta cadeia: o milho.

Observa que a cadeia do milho tem como marca registrada a monocultura e, depois de décadas, acabou se tornando a pedra fundamental da cadeia alimentar industrial e da dieta moderna nos Estados Unidos. Por conta dessa constatação, decidiu acompanhar o caminho de um alqueire de milho desde os campos do Iowa, onde é produzido, até uma auto-estrada na Califórnia, onde é consumido em uma refeição fast-food dentro de um carro em movimento.

Dos produtos disponíveis nas prateleiras de supermercados estadunidenses, Pollan percebeu que, invariavelmente, ao refazer a trajetória do produto desde o mercado até a produção, chegava a uma fazenda localizada no cinturão do milho no Meio-Oeste estadunidense, constatando que a grande variedade de opções oferecidas pelo mercado é, biologicamente, restrito a um pequeno grupo de plantas dominadas pelo milho. Dos 45 mil itens de um supermercado médio estadunidense, mais de 25% (ou aproximadamente 17 mil itens), contém milho.

Passa a contar como o milho se tornou, através do tempo, “uma das maiores histórias de sucesso do mundo das plantas”. No primeiro capítulo, dá grande destaque ao processo de ascensão do milho, da chegada de Colombo aos dias atuais e, no segundo capítulo, afirma que exagerou um pouco ao destacar o caminho do sucesso percorrido pelo milho, trazendo à tona a informação de que, para esse enorme sucesso, a planta precisou de uma ajudinha dos humanos na forma de dois subsídios: biológico, através dos fertilizantes nitrogenados e também econômicos, na forma de políticas públicas de fomento a produção. É no primeiro dos subsídios que entra o tal do processo Haber-Bosch.

O PROCESSO HABER-BOSCH: a síntese de amônia transforma o mundo

Foi em 1908 que Fritz Haber, segundo paper publicado por Jan Willem Erisman e colegas na revista Nature Geoscience em outubro/2008,  publicou artigo sugerindo a possibilidade de sintetizar amônia à partir de nitrogênio e hidrogênio atmosféricos (Prêmio Nobel em 1918). Em 1910, a Basf comprou a patente de Fritz Haber e um engenheiro metalúrgico desta companhia, chamado Carl Bosch, transformou a possibilidade prevista por Haber em realidade prática (Prêmio Nobel em 1931).

De modo resumido, o processo produz nitrato de amônio separando átomos de nitrogênio e ligando-os a átomos de hidrogênio em ambiente sob enorme pressão e calor, na presença de um catalisador.

  • Calor e Pressão são supridos por enormes quantidades de eletricidade
  • Hidrogênio é suprido por petróleo, carvão ou gás natural.
  • Catalisador é uma superfície de ferro.

Com a invenção deste processo químico, Pollan começa a descrever como tudo muda e que, se quiséssemos, poderíamos dividir a história recente em antes do processo Haber-Bosch e depois:

  • O milho é produzido em maiores quantidades e, consequentemente, as fazendas começam a diminuir o número de animais e de outras culturas para dar lugar a esta plantação;
  • O sistema de produção de alimentos passa a ser predominantemente o de monocultura;
  • Os alimentos passam, cada vez mais, a levar milho em sua composição;
  • Praticamente todas as refeições dos estadunidenses passam a ter ao menos um ingrediente a base de milho, além disso, o tempo e a qualidade da refeição diminui, sem mencionar no local onde elas são consumidas;
  • Por fim, a própria maneira como a vida se desenvolve na terra (número de habitantes, hábitos alimentares, paisagens, etc.).

COMO FAZÍAMOS SEM OS FERTILIZANTES SINTÉTICOS

Para sustentar sua afirmação acima, ao destacar como o milho foi o maior beneficiário da produção de fertilizantes sintéticos (ávido por fertilizante), passa a mostrar como a humanidade produzia alimentos antes da invenção dos fertilizantes químicos. Assim, destaca que sem estes insumos sintéticos, nem mesmo um acre do solo mais fértil do Iowa,  nos Estados Unidos, suportaria o cultivo de 30 mil pés de milho sem esgotar sua fertilidade, tal como é feito atualmente. Antes do fertilizante sintético quem determinava a quantidade de milho que um acre de solo podia produzir era a capacidade deste mesmo solo de fixar nitrogênio a partir das raízes de leguminosas, esterco de animais e raios elétricos.

Observa que não foi apenas o milho que se beneficiou dos fertilizantes sintéticos e que a própria quantidade de vida que a Terra podia sustentar era limitada pela quantidade de nitrogênio que bactérias e/ou raios podiam fixar no solo. Assim,  Pollan destaca como, em 1900, alguns cientistas diziam que o crescimento da população humana logo se veria diante de um limite se não fosse encontrado uma forma de potencializar o nitrogênio produzido naturalmente no solo. Neste sentido, Vaclav Smil, em seu trabalho Enriching the Earth, afirma que 2/5 da humanidade não estariam vivos, isto é, sequer teriam nascido se não houvéssemos descoberto uma maneira de fixar nitrogênio no solo e, assim, fertilizar a terra. Por isso chega a afirmar que o processo Haber-Bosch teria sido a descoberta científica mais importante do século XX.

O PACTO DE FAUSTO: os paradoxos da ciência

Acontece que, durante a II Guerra Mundial, a tecnologia desenvolvida por Fritz Haber permitiu que Alemanha fabricasse bombas à partir de nitrato sintetizado através de seu processo. Além de bombas, também se produziu gases venenosos como o amoníaco e cloro, que foram largamente utilizados na Primeira Guerra, e o Zyclon B, utilizado em milhões de judeus durante a Segunda Guerra (o próprio Haber era judeu). Neste ponto, Pollan aponta o caráter paradoxal da ciência que, ao mesmo tempo em que permite a descoberta de uma nova e vital fonte de fertilidade do solo, também permite a construção de novas e medonhas armas de destruição.

Tão logo termina a II Guerra, 1947 marcaria não só uma virada na história moderna do milho, mas o momento decisivo na industrialização dos alimentos. É neste momento da história que Pollan observa como uma fábrica de munição no Alabama é adaptada para produzir fertilizante químico a partir do excedente de Nitrato de Amônio, que era usado para fabricar bombas. O Nitrato de Amônio é uma excelente fonte de nitrogênio para as plantas e, a partir de então, passou a ser utilizado como matéria-prima nas indústrias de fertilizantes químicos, pesticidas, mas também, outros gases venenosos. Nesse sentido, uma observação bastante curiosa foi feita pela ambientalista indiana Vandana Shiva, que corretamente aponta como, desde então “ainda estamos comendo as sobras da Segunda Guerra Mundial”.

A AMBIVALÊNCIA DO BENEFÍCIO: a agricultura industrial teria sido o lado bom dessa descoberta?

Uma das principais consequências do uso de fertilizantes sintéticos na produção de alimentos é que a fertilidade do solo deixa de depender da energia solar e renovável e passa a depender da energia produzida por combustíveis fósseis, não renováveis, isto é, petróleo. Outra consequência importante é que esses novos produtos deram a autonomia ao fazendeiro de plantar milho todos os anos e no espaço que queira de sua propriedade, sem a necessidade do sistema de rodízio e de adubar a terra com esterco, como era feito antes. Sem as restrições biológicas, uma fazenda passa a ser administrada da mesma forma como uma indústria, onde o fertilizante é a matéria-prima e o milho o produto final. Desta forma, abre-se o caminho para a monocultura que, na visão do autor, é a introdução da economia de escala na natureza.

“A fixação do nitrogênio permitiu que a cadeia alimentar se afastasse da lógica da biologia para adotar a lógica da indústria. Em vez de comer exclusivamente das mãos do Sol, a humanidade agora começava a provar do petróleo.”

Michael Pollan – O dilema do onívoro, p. 54.

Alguns números interessantes nos permitem identificar a existência de um subsídio biológico à cultura do milho nos Estados Unidos. Pollan mostra como mais da metade de todo o nitrogênio sintético produzido atualmente (2007) é destinado ao milho. Mais do que isso, demonstra como:

  • Cada alqueire de milho industrial requer ¼ ou 1/3 de galão de petróleo;
  • 50 galões de petróleo para cada acre de milho;
  • Mais de uma caloria de combustível é gasta para produzir uma caloria de combustível;
  • Sendo que, antes do advento dos fertilizantes sintéticos, produziam-se mais de duas calorias de comida para cada caloria de combustível investida.

Neste sentido, suas conclusões apontam para o fato de que, enquanto a energia em forma de combustível fóssil for abundante e barata, continuará sendo economicamente viável produzir milho desta maneira.

ALIMENTAÇÃO INDUSTRIAL E POLUIÇÃO: tudo a ver

Ainda como conclusão dos números apresentados acima, Pollan demonstra que uma das consequências da alimentação industrial é, inevitavelmente, a poluição do meio-ambiente. Ao observar que os agricultores utilizam até o dobro de fertilizante sintético do que o recomendado por acre de terra (90 Kg), passa então a descrever o que ocorre com os 45Kg restantes e que não absorvidos pela terra.

  • Evapora no ar acidificando a chuva e contribuindo no aquecimento global;
  • Infiltra no lençol freático contaminando fontes de água potável da população;
  • Na água, os nitratos ligam-se às hemoglobinas e comprometem a capacidade do sangue de transportar oxigênio para o cérebro.
  • Lavado pelas chuvas que o carregam para os rios que acabam por desaguar nos oceanos, portanto, contaminação de mananciais de água potável (rios) e também dos oceanos
  • Proliferação de algas causando o fenômeno conhecido por Maré Vermelha, que mata peixes por asfixia.
  • Existe uma zona hipóxica hoje no Golfo do México tão extensa quanto o estado de New Jersey.

BOAS NOTICIAS?

Em 2004, pesquisadores da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, descobrirma um novo processo para a produção de amônia. Este processo sintetiza amônia a partir do Zircônio Metálico sem a necessidade de altas temperaturas ou altas pressões, sendo que a completa conversão da amônia foi realizada a apenas 85ºC. O problema é que eles precisam agora transformar o processo de laboratório, que age molécula a molécula, em um processo de larga escala. O líder do projeto, Dr. Chirik, afirma que dificilmente o novo processo substituirá o Haber-Bosch por causa da escala em que se consegue produzir amônia com a nova maneira. A limitação encontra-se no fato dos cientistas não haverem encontrado um catalisador para o novo processo e, portanto, a busca desse catalisador passa a ser o foco das pesquisas do grupo do Dr. Chirik.

REFERÊNCIAS:

  • ERISMAN, Jan Willem; Et. al. How a century of ammonia synthesis changed the world. In: Nature Geoscience. V. 1, n. 10, p. 636-639, oct. 2008.
  • POLLAN, Michael. O Dilema do Onívoro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.
  • _____. Em defesa da comida. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
  • Cientistas descobrem novo processo para produção de amônia. Inovação Tecnológica. São Paulo, SP, 04 março 2004. Disponível em: http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=010160040304. Acesso em: 24 novembro 2008.

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Santa Evita: realidade ou ficção?

Estava organizando os arquivos do computador e fazendo uma limpeza geral, passando para CDs tudo aquilo que não tenho utilizado com frequência, quando me deparei com um dos trabalhos que desenvolvi no período da graduação para a disciplina de América Independente I, do professor Júlio Pimentel, autor do excelente blog Paisagens da Crítica.

Trata-se de uma resenha crítica do livro Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez e pensei que, em tempos de Cristina Kirchner na Argentina, seria bastante interessante e proveitoso para alguns leitores disponibilizar essa resenha, escrita nos idos de 2007, quando Martínez ainda vivia e era diretor do programa de estudos latino-americanos da Universidade de Rutgers, nos EUA.

Espero que gostem e, até mesmo, que possa ser útil a alguns estudantes que, por intervenção do Santo Google, acabem caindo por estas páginas na busca desesperada por uma solução de última hora para um trabalho do gênero. =)

Resenha crítica de Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez
por José Rogério Beier (originalmente escrita em 2007)

A única coisa que se pode fazer com a realidade é inventá-la de novo.

Realidade ou ficção? Eis a questão que intriga todos aqueles que se aventuram a seguir o corpo embalsamado de Evita pelas labirínticas páginas de Santa Evita. Questão da qual o autor não descuida em passagem alguma de todo o romance e que pode ser aqui resumida através de uma provocação que o próprio Martínez nos faz em uma passagem de seu livro:

“Porque a história tem de ser um relato feito por pessoas sensatas e não um desvario de derrotados (…) Se a história é – como parece ser – mais um gênero literário, por que privá-la da imaginação, do desatino, da indelicadeza, do exagero e da derrota que constituem a matéria prima sem a qual não se concebe a literatura? [1]”.  

Lançado em 1995, Santa Evita logo se torna grande sucesso editorial, talvez o maior de seu autor, chegando a ser traduzido em várias línguas. No Brasil, foi editado pela Companhia das Letras, em 1996, ganhando cuidadosa tradução de Sérgio Molina.

Neste romance, Martínez narra simultaneamente quatro histórias que se imbricam sem uma ordem pré-estabelecida. Muitas vezes, uma serve de ponte para o início da outra, amarrando-a de modo que uma narrativa assimétrica e poliédrica forme um conjunto harmonioso no final.

A primeira das quatro histórias a aparecer no romance é o de Evita viva. Martínez prefere narrar a história da vida de Evita em sentido inverso, isto é, iniciando com o momento de sua morte, quando a mostra totalmente debilitada pelo câncer em seus últimos dias de vida, para chegar, nos derradeiros capítulos do livro, à história do seu nascimento, que foi narrada por sua mãe. No decorrer do romance, e sem seguir uma ordem definida, o autor vai revelando aos poucos a trajetória da saída de Evita, ainda jovem, de uma província do interior da Argentina, Junín, até chegar a Buenos Aires, onde passou a viver como atriz de rádios e teatros de segunda categoria, onde acabou por conhecer Juan Domingos Perón em um momento crucial da carreira política deste. Daí em diante, a vida de Evita muda de rumo, vai crescendo até se tornar uma das figuras mais importantes da Argentina e desembocar na sua trágica e prematura morte, aos 33 anos de idade, fato que colaborou enormemente para a formação do mito de Evita.

Assim, vemos que os dados biográficos de Evita são apresentados pelo autor aos poucos, no decorrer do romance e com grande riqueza de detalhes, o que demonstra, como nos diz Mario Vargas LLossa em sua resenha para o jornal La Nación:

“un trabajo de hormiga, una pesquisa llevada a cabo con tenacidad de sabueso y una destreza consumada para disponer el riquísimo material en una estructura novelesca que aproveche hasta sus últimos jugos las posibilidades de la anécdota[2]

A segunda história narrada em Santa Evita é a do destino errático do corpo de Eva Duarte de Perón. Tão logo esta foi dada como morta, Juan Perón, seu amantíssimo esposo, encaminha o corpo a um embalsamador espanhol cujo trabalho seria eternizá-la escondendo a morte presente em cada célula daquele corpo. Mais do que isso, ao narrar as aventuras pelas quais o corpo de Evita passou nos anos em que esteve desaparecido, o autor estava também se referindo à história da própria Argentina. No momento em que o corpo de Evita foi embalsamado, ele deixou de ser apenas um corpo para representar a Argentina. Segundo o Coronel Moori Koenig, um dos personagens do livro, ao embalsamá-la Pedro Ara acaba por confundir o corpo de Evita com a Argentina. Para o Coronel, o que está em jogo “não é mais o cadáver desta mulher, mas o destino da Argentina. Ou as duas coisas, que para tanta gente parecem uma só[3]”. Em uma conversa com o embalsamador ele confirmaria que este “ao embalsamá-lo (…)  tirou a história de lugar. (…) Quem tiver a mulher, terá o país em suas mãos[4]”. E mais adiante, no último capítulo do livro, é o próprio autor quem confirmaria como o corpo embalsamado de Evita foi usado como alegoria para representar a Argentina: “Esse cadáver somos todos nós. É o país[5].

A história de Evita morta, ao contrário da anterior, flui para frente, isto é, foi narrada do momento em que ela morreu em diante, seguindo o fluxo dos acontecimentos, a linha diacrônica. É do entrelaçamento destas duas histórias que surge, em sua maior parte, o romance de Martínez. É ele mesmo quem nos diz que contaria o romance tal como o sonhara um certo dia: “Não contaria Evita como malefício nem como mito. Iria contá-la tal como a sonhara: como uma mariposa que batia para a frente as asas de sua morte, enquanto as de sua vida voavam para trás[6]”. E junto à história de Evita, contaria também “o que foi sua pátria e aquilo que quis ser, mas não pôde[7].

A terceira história narrada neste romance é a de um grupo de militares destacados para, inicialmente, seqüestrar o corpo de Evita do local onde era exibida e, posteriormente, proteger o corpo dos fanáticos peronistas que queriam, a todo custo, resgatá-la. É neste momento, quando o corpo de Evita cai nas mãos dos militares, que ele começa a errar através de dois continentes, vários países e passar pelas aventuras mais patéticas, onde foi copiado, marcado como gado, reverenciado, mutilado, divinizado, acariciado, profanado, confundido com uma boneca, escondido em ambulâncias, cinemas, refúgios militares e porões de barcos até, enfim, ser sepultado no cemitério La Recoleta.

Por fim, a quarta história narrada em Santa Evita, é a do personagem Tomás Eloy Martínez, que se passa por um autor obsessivo e martirizado pelo desejo de desvendar o mistério do corpo de Evita. Um personagem que se intromete na história a todo o momento para nos contar a forma como logrou escrever seu romance, mesmo através de suas fontes duvidosas. Estratégia muito bem utilizada pelo autor Tomás Eloy Martínez que, ao mudar o foco narrativo de terceira pessoa onisciente, para primeira pessoa e voltar novamente a terceira pessoa, de acordo com a história que se está narrando, busca dar mais verossimilhança a sua história, transformando-se em um personagem que vivencia, que está presente, que conhece e entrevista outros personagens do romance embora, na realidade, talvez ele nunca tenha entrevistado todas as pessoas mencionadas no livro. Para Carlos Fuentes, “Tomás Eloy Martínez es el último guardián de la Difunta, el último enamorado de Persona, el último historiador de Esa Mujer[8]. Martínez se vê mais como o taxidermista Pedro Ara, alguém que eternizara Evita através de sua arte: “A arte do embalsamador se parece com a do biógrafo: os dois tentam imobilizar uma vida ou um corpo na pose em que deverá ser lembrado pela eternidade[9]”.

Estas são as quatro histórias que formam o texto labiríntico de Santa Evita. Labiríntico porque em cada capítulo as quatro histórias se entrelaçam e se sucedem aparentemente sem nenhuma ordem pré-estabelecida. Labiríntico porque não se limita às suas próprias páginas, mas também levam o leitor, constantemente, a outras obras, sejam sobre Evita ou não, fazendo referência a autores diversos tais como Appolinaire, Borges, Cortázar, Onetti, Perlongher, Walsh e Wilde e até mesmo a outro romance do próprio autor, A novela de Perón. É o próprio Martínez quem nos diz que entre A Novela de Perón e Santa Evita teve que lançar outros livros e reaprender seu ofício de escritor para que Santa Evita não fosse confundido com o primeiro. Assim, a intertextualidade construída neste romance é, também, mais uma estratégia do autor visando trazer mais verossimilhança ao seu livro. Ao dialogar constantemente com uma série de obras, Martínez busca convencer o leitor da veracidade dos fatos que ele apresenta.

Como podemos ver, de um modo ou outro, a trama toda acaba sempre levando à questão da realidade ou ficção dos dados apresentados no livro. Mário Vargas Llosa acerta quando diz que tudo o que está contado no livro não passa de “uma mentira, uma ficção que foram despojados de sua realidade e transportados à fantasia[10]. É o próprio autor quem diz, várias vezes no decorrer do livro, que o que ali se vai narrar não é a realidade, mas uma reconstrução, uma invenção. Por isso o livro não é uma biografia, mas sim um romance[11]. Um romance que, de fato, acaba sendo biográfico, mas que traz a biografia de uma Evita que é apenas mais uma das que surgiram desde quando a de carne e osso morreu, isto é, uma Evita que “deixou de ser o que disse e o que fez, para ser o que dizem que disse e o que dizem que fez[12].

Portanto, Tomás Eloy Martínez é apenas mais um copista do corpo morto de Evita. Para ele, ao multiplicar-se Evita não morreu, isto é, ressuscitou. “Transfigurada em mito, Evita era milhões[13]. É por isso que Martínez busca reproduzir, no decorrer de todo o romance, os “milhões” de Evita que existiram. Tenta fazer isso ao citar os diversos nomes que ela recebeu: Evita, Eva Duarte, Essa Mulher, Pessoa, Nômade, Ela, A Defunta, A Falecida, O Cadáver, O Corpo, Pupe, ED, EM, Égua, Santa Evita, Evitita, etc.

Outra forma de reforçar a multiplicação de Evita, é através do relato da memória que cada personagem tinha dela e que o autor buscou narrá-lo de modo que Evita, mesmo nessas memórias, aparecesse sempre como várias personagens distintas para cada um deles. Este é o caso do cabeleireiro, que tinha um museu com várias cabeças de vidro representando os diferentes Evitas que ostentavam diferentes penteados, ou então, o caso do mordomo que ao ler as cartas e manuscritos de Evita, reparou que a caligrafia era distinta de modo que cada caligrafia revelava uma Evita diferente da outra, ou ainda, o caso do operador de cinema que havia notado que a “Evita do filme” era diferente da “Evita da platéia”.

Assim, a Evita de Martínez é só mais uma entre milhões, é a invenção de uma realidade criada pela ficção. Mas isso, para ele, não é demérito para seu romance, uma vez que as fontes em que o romance é baseado são de confiança duvidosa apenas no sentido em que também o são a realidade e a linguagem, já que nelas se infiltram lapsos de memória e verdades impuras. Neste sentido, Martínez destaca que para os historiadores e biógrafos as fontes sempre foram uma dor de cabeça. Nunca se bastam a si mesmas e necessitam da confirmação de uma fonte e, esta, por sua vez, de mais outra. Para ele, esta cadeia de fontes confirmando fontes costuma ser infinita e inútil, porque a soma das fontes também pode ser um engano. Assim, não vê problema nenhum em utilizar como fonte Aldo Cifuentes, um personagem que ele mesmo descreve como mentiroso contumaz e fofoqueiro.

Se, como diz Martínez, é no meio do caminho onde se bifurcam as estradas do mito e da história que resiste o reino indestrutível e desafiante da ficção, ele acaba escrevendo sua ficção para salvar a protagonista de seu romance da História, que ele vê como trágica. Apesar disso, paradoxalmente através dessa mesma obra de ficção, o autor conta um pouco da história de seu país ou, como ele mesmo disse, “o que foi sua pátria e aquilo que quis ser, mas não pôde”. Como nos diz Carlos Fuentes:

“Santa Evita es la historia de un país latinoamericano auto engañado, que se imagina europeo, racional, civilizado, y amanece un día sin ilusiones, tan latinoamericano como El Salvador o Venezuela, más enloquecido porque jamás se creyó tan vulnerable, dolido de su amnesia porque debió recordar que también era el país de Facundo, de Rosas y de Arlt, tan brutalmente salvaje como sus militares torturadores, asesinos, destructores de familias, generaciones, profesiones enteras de argentinos[14]”.

Em Santa Evita, vemos que Martínez parece querer apontar para o fato de que a Argentina não pode continuar crendo que sua cultura está desconectada da latino-americana. Em um trecho onde o autor destaca como Evita é vista dos Estados Unidos, onde mora, comparando esta visão com a imagem que os próprios argentinos fazem dela, ele começa dizendo que “Na Argentina ela é a Cinderela das telenovelas, a nostalgia de ter sido o que nunca fomos, a mulher justiceira, a mãe celestial. Fora do país, é o poder, a morta jovem, a hiena compassiva declamando nos balcões do além: ‘Não chores por mim, Argentina[15]’”. E arremata concluindo: “Neste condado (…) em Nova Jersey, Evita é uma figura familiar, mas a história que dela se conhece é a da ópera de Tim Rice. Talvez ninguém saiba quem ela foi na realidade; a maioria imagina que Argentina é um subúrbio de Guatemala City[16]. Trecho que revela o quanto a cultura argentina está desconectada das culturas estadunidense e européia e muito mais próxima da latino-americana.

Assim, é possível compreender bem Martínez quando ele diz que “é preciso convencer o meu país de que ele tem um cordão umbilical com o resto do continente. Por isso, todos os meus livros estão dedicados a mostrar o nexo que a realidade argentina tem com a realidade latino-americana[17]”.

Martínez é ainda mais explícito no trecho a seguir, onde aponta claramente que os argentinos faziam questão de esconder suas origens indígenas e negras, além das mazelas de sua sociedade, no intuito de se desvincular de suas raízes latino-americanas para se aproximar mais da cultura européia:

“Os argentinos que se julgavam depositários da civilização viam em Evita uma ressurreição obscena da barbárie. Os índios, os negros candombeiros, os maltrapilhos, os malandros, os cafetões de Roberto Artl, os gaúchos renegados, as putas tísicas contrabandeadas em navios polacos, as andorinhas de província: todos já tinham sido devidamente exterminados ou confinados aos seus porões sombrios. Quando os filósofos europeus chegaram de visita, descobriram um país tão etéreo e espiritual que acreditavam que este houvesse evaporado. A súbita entrada em cena de Eva Duarte vinha desmanchar os prazeres da Argentina culta. Aquela mina barata, aquela copeira bastarda, aquela merdinha – como era chamada nos leilões de terras – era o último peido da barbárie. Enquanto passava, era preciso tapar o nariz”.

Desta forma, Martínez pretende buscar o nexo da realidade Argentina com a latino-americana através dos diferentes personagens que passaram por Santa Evita. Dos mais notórios, como Juan Perón, aos mais discretos e anônimos, como a filha do operador do cinema, o autor faz desfilar pelas páginas de seu livro todo o povo argentino, como num grande mosaico: humildes e poderosos, insignes e medíocres, dementes e equilibrados, afetuosos e carrascos, destemidos e covardes, de todas as classes sociais e de todos os tipos. Por meio destes personagens o autor tenta mostrar o verdadeiro rosto do seu país, que não é aquele que critica acima por esconder suas origens e suas misérias, mas aquele que ele mostra no capítulo Grandezas da Miséria. Neste capítulo os grasitas aparecem com toda a força e sem disfarce nas filas de miseráveis à espera de dentaduras e outras esmolas de Evita. Aparecem na humilhação das vigílias intermináveis e no inventário de padecimentos humanos que um de seus personagens testemunha ao esperar por uma casa prometida por Evita que jamais viria. É ali, na enxurrada de intermináveis desgraças que afligiam o povo, que aparece o verdadeiro rosto do povo argentino. Muito mais próximo da realidade de qualquer outro povo de um país latino-americano do que dos europeus ou estadunidenses.

Outro aspecto da história argentina que aparece como pano de fundo nas páginas de Santa Evita, marcando a personalidade dos argentinos, é a da influência dos militares no poder e, posteriormente, a da ditadura que acabaria por exilar Tomás Eloy Martínez de seu país em meados dos anos 70. Um trecho que exemplifica a passagem marcante dos militares na personalidade dos argentinos após o golpe de 1976 e, em conseqüência, a própria escrita de Martínez, já que fora um exilado político deste governo, é aquele onde o autor conversa com seu amigo Emílio sobre a filha deste, Irene, que vivia exilada: “não era culpada de nada e, no entanto, carregava a culpa do mundo nas costas como todos os argentinos da época[18]. Mais adiante, ao descrever a si mesmo, complementa a descrição dessa personalidade argentina, que em muito deve aos governos militares: “Sou um argentino (…), sou um espaço sem preencher, um lugar sem tempo que não sabe aonde vai[19]”.

Em seu romance, os militares aparecem sempre de maneira negativa. Exemplos disso são o coronel Moori Koenig que se converte em um alcoólatra inveterado, capaz de profanar o corpo de Evita seja urinando sobre ele ou mantendo relações sexuais com o mesmo; o louco Arancibia, que acaba assassinando sua mulher por flagrá-la no sótão onde havia escondido o corpo de Evita, ou ainda o Capitão Galarza, que conversava com a Defunta nos porões do navio que a levava para Milão.

Martínez escreve seu romance após a queda da ditadura na Argentina, assim, tem liberdade não só para dizer o que pensa sobre o assunto, mas também de criar novos personagens grotescos e caricaturais sobre personagens reais, como foi o caso do Coronel Moori Koenig. Para Martínez, “A vantagem da liberdade era poder transformar as mentiras em verdades e contar verdades em que tudo pareciam mentiras[20]. Não é por acaso que o próprio personagem do Coronel aparece pela primeira vez no romance dando uma aula sobre os usos do boato, destacando que estes últimos seriam “a precaução que os fatos tomam antes de se tornarem verdade[21].

E assim, novamente voltamos a questão com a qual iniciamos esta resenha e que perpassa toda a obra: realidade ou ficção? Preferimos dar a palavra final ao próprio autor que fecha seu romance deixando uma dica de como encarar esta questão em sua obra:

“É um romance, nos romances, o que é verdade também é mentira. Os autores constroem à noite os mesmos mitos que destruíram pela manhã[22].

PERFIL BIOGRÁFICO DO AUTOR

Tomás Eloy Martínez foi jornalista, professor de literatura e escritor. Nasceu na província de Tucumán, Argentina, em 1934, onde completou seus estudos até graduar-se em literatura espanhola e latino-americana pela Universidade de Tucumán. Mais adiante, complementaria sua graduação com o título de mestre em literatura que obteria pela Universidade de Paris VII em 1970.

Durante os anos 60, trabalha em Buenos Aires como jornalista em diferentes periódicos como La Nación, onde era crítico de cinema e Primera Plana, onde exerceu a função de chefe de redação. Já na primeira metade da década de 70, é correspondente do editorial Abril, na Europa e também dirige o seminário Panorama (1970-1972) e o suplemento cultural do diário La Opinión (1972-1975). A partir de 1975, passa a viver como exilado político em Caracas, Venezuela, onde segue sua carreira de jornalista até 1983, quando finda a ditadura na Argentina e também seu exílio. Na área do jornalismo, segue trabalhando até os dias correntes, colaborando com diários como La Nación, da Argentina, e The New York Times Syndicate, dentre outros.

Além de sua carreira de jornalista, Martínez também desenvolveu uma carreira acadêmica muito extensa, deu conferências e cursos em diferentes universidades da Europa, Estados Unidos e América do Sul. Faleceu aos 31 de janeiro de 2010 como professor na Universidade de Rutgers, em New Jersey, onde era diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos.


[1]  MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Santa Evita. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 126.

[2]  LLOSA, Mário Vargas. Los placeres de la necrofilia. In: La Nación (México), feb. 1996. Suplemento Cultura. Disponível em <http://sololiteratura.com/var/losplaceres.html&gt;. Acesso em 04 de dezembbro de 2007.

[3]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 31.

[4]  Ibid.

[5]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 331.

[6]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 67.

[7]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 56.

[8]  FUENTES, Carlos. Santa Evita. In: La Nación (México), feb. 1996. Suplemento Cultura. Disponível em <http://sololiteratura.com/var/losplaceres.html&gt;. Acesso em 04 de dezembbro de 2007.

[9]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 136.

[10]  LLOSA. Op. Cit.

[11]  Não deixa de ser curioso e significativo o fato de, na página de rosto da edição brasileira, logo abaixo do título, aparecer a palavra “Romance” para designar o gênero literário a que pertence o livro. Fato este que não é corriqueiro nos demais romances lançados pela mesma editora ou, até mesmo, por outras editoras no Brasil.

[12]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 20.

[13]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 57.

[14]  FUENTES, Carlos. Op. Cit.

[15]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 176.

[16]  Ibid.

[17]  MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Evita soy yo. Entrevista concedida a Albor Rodríguez. Disponível em <http://www.el-nacional.com/archivedata/1996/06/09/215.htm&gt;. Acesso em: 27 de novembro de 2007.

[18]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp 209.

[19]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 308.

[20]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 309.

[21]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 16.

[22]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 333.

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Cadernos do Cárcere, de Antônio Gramsci, está disponível online

É com enorme alegria que recebemos a informação através do blog Prestes a Surgir de que a obra Cadernos do Cárcere, de Antonio Gramsci, foi disponível para download através do Scribd. Trata-se da versão em espanhol da célebre “edição Gerratana”, isto é, a primeira edição efetivamente crítica dos Cadernos do Cárcere (org. Valentino Gerratana. Turim: Einaudi, 1975).

Leandro Konder, filósofo e professor da PUC/RJ, escreveu o seguinte sobre Gramsci e sua obra, em dezembro de 1999.

Gramsci, o dialético.

Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. V. 1: Introdução ao estudo da filosofia. A filosofia de Benedetto Croce. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. 494p.

Quando alguns professores e intelectuais já o davam por definitivamente soterrado sob as pedras da demolição do Muro de Berlim, o pensador comunista italiano Antonio Gramsci reaparece no palco da história das idéias vivas e volta a se tornar uma referência atual nas discussões teórico-políticas.

Graças ao cuidadoso trabalho de Carlos Nelson Coutinho, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira, uma nova edição começa a ser publicada. Está prevista para dez volumes. Com ela, toda uma nova geração de estudiosos passa a ter acesso direto aos textos originais nos quais Gramsci expõe suas concepções a respeito do Estado e da sociedade civil, bem como sobre o bom senso e o senso comum, sobre hegemonia e coerção, sobre a revolução passiva e a democracia cosmopolita, sobre guerra de posições e guerra de movimentos, sobre o conformismo e o nacional-popular, ou sobre os intelectuais e a organização da cultura.

Nenhum marxista se empenhou tão radical e rigorosamente quanto ele, ao longo dos anos vinte e trinta, na avaliação da importância das contradições e da dinâmica da cultura no plano da luta pela transformação revolucionária da sociedade.

Nenhum marxista militante foi tão fundo na crítica ao reducionismo econômico, ao determinismo histórico, ao cientificismo e ao positivismo que se infiltraram no pensamento dos autodenominados discípulos de Marx (tanto dos comunistas como dos socialdemocratas).

As condições trágicas em que foi compelido a viver seus dez últimos anos, nos cárceres de Mussolini, afastaram-no das tarefas urgentes da direção do seu partido. Reagindo contra o aniquilamento que lhe estava sendo imposto, o teimoso prisioneiro empreendeu uma reflexão original, ousada, a respeito de temas que — embora cruciais — freqüentemente eram subestimados por seus companheiros.

Gramsci se debruçou sobre os problemas da subjetividade, sobre as complicações da teoria, sobre a formação e o poder das convicções.

Contra um ponto de vista acentuadamente elitista, cheio de desprezo pela cultura popular, o nosso autor observou que em toda manifestação de qualquer modo peculiar de ver, em toda expressão de linguagem, mesmo entre os de “baixo”, nas camadas sociais mais ignorantes, existe uma “filosofia”, uma certa concepção do mundo.

E, por outro lado, contra um ponto de vista que idealiza romântica e ingenuamente a filosofia espontânea do povo, atribuindo-lhe um vigor crítico que ela não tem (nem poderia ter), Gramsci chamou a atenção para o fato de que cabe aos intelectuais revolucionários manterem — sem arrogância! — um diálogo com seus interlocutores das camadas populares, ajudando-os (e ajudando-se a si mesmos) a superar pelo fortalecimento do bom senso (o senso crítico e autocrítico) os limites estreitos do senso comum, isto é, as fronteiras que dependem da ampliação dos horizontes teóricos para serem ultrapassadas.

Gramsci sublinha tanto o que os teóricos precisam aprender com a prática, com a percepção empírica, como a responsabilidade que eles têm em face da tarefa que lhes cabe de contribuir para aperfeiçoar a construção consistente do conhecimento teórico (que, no entanto, jamais esgotará a riqueza da realidade).

Mestre do pensamento dialético, Gramsci ensinou que, para que a nossa história seja efetivamente um processo de libertação, o ponto de vista mais avançado — aquele que desejamos alcançar — precisa ser também o mais abrangente.

Na lógica de um conflito bélico, o sujeito procura golpear o inimigo em seus pontos mais fracos. Quando se trata, porém, de um esforço para compreender melhor, para conhecer mais profundamente a realidade (e poder transformá-la de acordo com um projeto mais conseqüente), o sujeito precisa reconhecer os pontos fortes do interlocutor, para incorporá-los criticamente à ampliação de seus próprios horizontes.

FONTE: http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=139


Abaixo seguem os links para download da versão em espanhol da obra Cadernos do Cárcere. Aproveitem!

Para saber um pouco mais sobre Gramsci, recomenda-se a leitura do texto Gramsci: uma introdução, escrito por Valentino Gerratana para a Enciclopédia Italiana e traduzida ao português por Luiz Sérgio Henriques.

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