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O Senhor das Moscas e o mal inato do ser humano

Fim de semana chuvoso, com direito a feriado prolongado, então a ideia hoje é pegar leve por aqui no blog. Assim, achei melhor deixar apenas a recomendação de um bom livro para os amigos que ficarão de castigo em casa nesse feriadão de quatro dias.

Trata-se de O Senhor das Moscas (também adaptado para o cinema), escrito em 1954 por William Golding (1911-1993),  vencedor do Nobel de literatura, em 1983. Nas próximas linhas, pretendo fazer apenas algumas observações com o objetivo de instigar o leitor a buscar este livro para ter um fim de semana agradável. Portanto, este post é muito mais uma sinopse do que uma resenha propriamente dita do romance indicado.

Muito bem escrito e envolvente, O Senhor das Moscas tem um enredo brilhante, com um ritmo que faz seu leitor sentir-se como mais um dos personagens que se perdem numa ilha e terão que sobreviver duramente, se organizando em grupos para realizar as tarefas diárias até serem resgatados. Certamente inspirou muitos outros escritores e cineastas, havendo até quem diga que o programa Survivor (No Limite) e a série Lost tenham sido inspiradas nesta obra que, apesar do fracasso inicial, acabou por se tornar um clássico da literatura inglesa.

Escrito no pós-guerra, novo período de desencantamento com a humanidade, o livro faz uma série de analogias, a começar pelo título, que se refere a Belzebu (Baal-Zeboub), deus filisteu transformado em príncipe dos demônios por hebreus e cristãos, cujo significado etimológico do nome é justamente Senhor das Moscas.

Em termos gerais, para não estragar a surpresa, o livro trata da descoberta do mal que existe no coração do homem que, independente da idade e do meio onde este vive, surge como algo natural. Neste sentido, o autor pretende mostrar como crianças (entre 6 e 12 anos), se organizaram socialmente após terem sobrevivido a um acidente aéreo em uma ilha perdida sem a presença de adultos (autoridade). Qualquer semelhança com O Leviatã (1651), de Thomas Hobbes (1588-1679), não é mera coincidência. Resumindo de maneira bastante simplista, para Hobbes, sem a presença do Estado (autoridade), os homens não conseguem organizar a vida social e viveriam na mais profunda barbárie, daí a necessidade do Contrato Social.

A trama vai se desenvolvendo no intuito de contar como essas crianças vão criando, aos poucos, uma vida social baseada na violência e na força, atingindo altos requintes de crueldade. Um dos pontos chaves para o desenrolar do enredo deste romance, é a descoberta da presença de porcos na ilha que, inicialmente, servem como fonte de alimentos ao grupo, mas que mais adiante no livro, será utilizado pelo autor como a já referida metáfora do Senhor das Moscas, em alusão a Belzebú.

Um dos aspectos que me pareceu bastante interessante ao ler esta narrativa de Golding, foi perceber como estes garotos, apesar de terem recebido “fina educação inglesa” (portanto, não estamos lidando com “selvagens” africanos, asiáticos ou latino americanos), quando sozinhos acabam por estabelecer uma sociedade bastante “primitiva”, criando ritos e sacrifícios, desrespeitando as “leis” por eles mesmos estabelecidas, chegando até mesmo a matarem uns aos outros. Aqui, o medo do desconhecido desempenha um papel importante e, mais do que isso, a maneira como os líderes do grupo exploram este medo do mundo externo para fazer com que o restante do grupo os obedeçam.

Outra analogia que gostaria de apontar, sem me aprofundar muito, é que se percebermos bem, veremos que é possível relacionar alguns personagens chave com determinados valores e embates bastante em voga na época em que o livro foi escrito. Por exemplo, Ralph, um dos líderes do grupo, representa a democracia; Jack é a força tirânica e ditatorial; e Porquinho, a inteligência que apóia a democracia. Se considerarmos o contexto da Guerra Fria que, na década de 1950, vivia seus momentos mais quentes, podemos enxergar um embate bastante claro proposto pelo autor entre Democracia x Ditadura (ou, se preferirem, países ocidentais x URSS).

Contudo, o que vale mesmo a leitura e a recomendação desta breve sinopse, é justamente as reflexões que o livro levanta em relação a perda da inocência da humanidade (se é que isso existiu) e,  nesse sentido, o romance de Golding faz a caricatura perfeita do surgimento do mal no coração do homem.

Espero que aproveitem o fim de semana e o feriado prolongado, se possível, com uma boa leitura.

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O Dilema do Onívoro ou como o processo Haber-Bosch mudou o mundo

“Ao fertilizar o mundo, alteramos a composição das espécies do planeta e fazemos encolher a sua biodiversidade”.
Michael Pollan em O dilema do onívoro.
Rio de Janeiro, Intrínseca, 2007, p. 57

Com a proximidade cada vez maior da Rio+20, cabe cada vez mais produzirmos e compartilharmos textos que visam contribuir com os debates e discussões à respeito desta ideia (que me parece um tanto quanto fabulosa, diga-se de passagem) do desenvolvimento sustentável.

Abaixo um texto que produzi por volta de 2008 quando, para a realização de um seminário da disciplina História da Cultura II, com o professor Henrique Carneiro, fizemos a leitura da obra de Michael Pollan (1955- ), jornalista, ativista e professor de jornalismo da Universidade de Berkeley, especializado em alimentação, cultura e indústria alimentar.

Espero que gostem e que de alguma maneira, o texto que produzi sobre a leitura da obra de Pollan, possa estimular novas reflexões, não apenas sobre a maneira nada sustentável como passamos a produzir nossos alimentos a partir da II Guerra Mundial, mas também sobre como, invariavelmente, o desenvolvimento tecnológico associado a sociedade de consumo, sob a aparência de oferecer a solução de um problema, acaba criando outro muito maior e que, se não coloca a própria existência da humanidade em cheque, a deixa totalmente dependente da manutenção do modo de vida capitalista.

O DILEMA DO ONÍVORO

O título do livro, O Dilema do Onívoro, vem da constatação de seu autor de como o sentimento de ansiedade e receio que um onívoro sente ao ter que se decidir por qual alimento tomar como refeição quando se depara com uma ampla variedade de opções. Sentimento que não teríamos se fôssemos um Panda, ou um Coala, que se alimentam apenas de bambu ou eucalipto, respectivamente. Tal ansiedade diante da alimentação acaba se transformando em receio, sobretudo, em função de sabermos, de antemão, que algumas dessas opções podem nos fazer adoecer ou, até mesmo, nos matar.

O termo não foi cunhado por ele, mas sim por um psicólogo e pesquisador da Universidade da Pensilvânia chamado Paul Rozin. Pollan diz que pegou o termo emprestado, pois entende que o mesmo explica muito bem a atual situação do estadunidense em relação à comida. Assim, Pollan sugere que uma das maneiras de se compreender a atual desordem alimentar que existe nos Estados Unidos é encarando-a como um retorno ao dilema do onívoro, isto é, a superabundância de comida existente nos supermercados estadunidenses teria os levado a uma situação onde é natural que se tema a possibilidade de que um dos produtos ali vendidos possa matá-los. A falta de uma cultura alimentar estável, como a que existe em outros países, os deixam vulneráveis às “adulações dos cientistas ou do marqueteiro especializado em comida”, para quem a perplexidade do consumidor diante do supermercado é nada mais do que uma oportunidade.

Portanto, Michael Pollan parte da constatação de uma “Desordem Alimentar Nacional” nos Estados Unidos e, para compreendê-la, decide percorrer três das principais cadeias alimentares que atualmente abastecem a humanidade, dentre as quais destacamos a industrial, pois em sua análise, considera ser aquela que mais nos toca e preocupa de perto. Desta forma, centra seu foco em apenas um produto desta cadeia: o milho.

Observa que a cadeia do milho tem como marca registrada a monocultura e, depois de décadas, acabou se tornando a pedra fundamental da cadeia alimentar industrial e da dieta moderna nos Estados Unidos. Por conta dessa constatação, decidiu acompanhar o caminho de um alqueire de milho desde os campos do Iowa, onde é produzido, até uma auto-estrada na Califórnia, onde é consumido em uma refeição fast-food dentro de um carro em movimento.

Dos produtos disponíveis nas prateleiras de supermercados estadunidenses, Pollan percebeu que, invariavelmente, ao refazer a trajetória do produto desde o mercado até a produção, chegava a uma fazenda localizada no cinturão do milho no Meio-Oeste estadunidense, constatando que a grande variedade de opções oferecidas pelo mercado é, biologicamente, restrito a um pequeno grupo de plantas dominadas pelo milho. Dos 45 mil itens de um supermercado médio estadunidense, mais de 25% (ou aproximadamente 17 mil itens), contém milho.

Passa a contar como o milho se tornou, através do tempo, “uma das maiores histórias de sucesso do mundo das plantas”. No primeiro capítulo, dá grande destaque ao processo de ascensão do milho, da chegada de Colombo aos dias atuais e, no segundo capítulo, afirma que exagerou um pouco ao destacar o caminho do sucesso percorrido pelo milho, trazendo à tona a informação de que, para esse enorme sucesso, a planta precisou de uma ajudinha dos humanos na forma de dois subsídios: biológico, através dos fertilizantes nitrogenados e também econômicos, na forma de políticas públicas de fomento a produção. É no primeiro dos subsídios que entra o tal do processo Haber-Bosch.

O PROCESSO HABER-BOSCH: a síntese de amônia transforma o mundo

Foi em 1908 que Fritz Haber, segundo paper publicado por Jan Willem Erisman e colegas na revista Nature Geoscience em outubro/2008,  publicou artigo sugerindo a possibilidade de sintetizar amônia à partir de nitrogênio e hidrogênio atmosféricos (Prêmio Nobel em 1918). Em 1910, a Basf comprou a patente de Fritz Haber e um engenheiro metalúrgico desta companhia, chamado Carl Bosch, transformou a possibilidade prevista por Haber em realidade prática (Prêmio Nobel em 1931).

De modo resumido, o processo produz nitrato de amônio separando átomos de nitrogênio e ligando-os a átomos de hidrogênio em ambiente sob enorme pressão e calor, na presença de um catalisador.

  • Calor e Pressão são supridos por enormes quantidades de eletricidade
  • Hidrogênio é suprido por petróleo, carvão ou gás natural.
  • Catalisador é uma superfície de ferro.

Com a invenção deste processo químico, Pollan começa a descrever como tudo muda e que, se quiséssemos, poderíamos dividir a história recente em antes do processo Haber-Bosch e depois:

  • O milho é produzido em maiores quantidades e, consequentemente, as fazendas começam a diminuir o número de animais e de outras culturas para dar lugar a esta plantação;
  • O sistema de produção de alimentos passa a ser predominantemente o de monocultura;
  • Os alimentos passam, cada vez mais, a levar milho em sua composição;
  • Praticamente todas as refeições dos estadunidenses passam a ter ao menos um ingrediente a base de milho, além disso, o tempo e a qualidade da refeição diminui, sem mencionar no local onde elas são consumidas;
  • Por fim, a própria maneira como a vida se desenvolve na terra (número de habitantes, hábitos alimentares, paisagens, etc.).

COMO FAZÍAMOS SEM OS FERTILIZANTES SINTÉTICOS

Para sustentar sua afirmação acima, ao destacar como o milho foi o maior beneficiário da produção de fertilizantes sintéticos (ávido por fertilizante), passa a mostrar como a humanidade produzia alimentos antes da invenção dos fertilizantes químicos. Assim, destaca que sem estes insumos sintéticos, nem mesmo um acre do solo mais fértil do Iowa,  nos Estados Unidos, suportaria o cultivo de 30 mil pés de milho sem esgotar sua fertilidade, tal como é feito atualmente. Antes do fertilizante sintético quem determinava a quantidade de milho que um acre de solo podia produzir era a capacidade deste mesmo solo de fixar nitrogênio a partir das raízes de leguminosas, esterco de animais e raios elétricos.

Observa que não foi apenas o milho que se beneficiou dos fertilizantes sintéticos e que a própria quantidade de vida que a Terra podia sustentar era limitada pela quantidade de nitrogênio que bactérias e/ou raios podiam fixar no solo. Assim,  Pollan destaca como, em 1900, alguns cientistas diziam que o crescimento da população humana logo se veria diante de um limite se não fosse encontrado uma forma de potencializar o nitrogênio produzido naturalmente no solo. Neste sentido, Vaclav Smil, em seu trabalho Enriching the Earth, afirma que 2/5 da humanidade não estariam vivos, isto é, sequer teriam nascido se não houvéssemos descoberto uma maneira de fixar nitrogênio no solo e, assim, fertilizar a terra. Por isso chega a afirmar que o processo Haber-Bosch teria sido a descoberta científica mais importante do século XX.

O PACTO DE FAUSTO: os paradoxos da ciência

Acontece que, durante a II Guerra Mundial, a tecnologia desenvolvida por Fritz Haber permitiu que Alemanha fabricasse bombas à partir de nitrato sintetizado através de seu processo. Além de bombas, também se produziu gases venenosos como o amoníaco e cloro, que foram largamente utilizados na Primeira Guerra, e o Zyclon B, utilizado em milhões de judeus durante a Segunda Guerra (o próprio Haber era judeu). Neste ponto, Pollan aponta o caráter paradoxal da ciência que, ao mesmo tempo em que permite a descoberta de uma nova e vital fonte de fertilidade do solo, também permite a construção de novas e medonhas armas de destruição.

Tão logo termina a II Guerra, 1947 marcaria não só uma virada na história moderna do milho, mas o momento decisivo na industrialização dos alimentos. É neste momento da história que Pollan observa como uma fábrica de munição no Alabama é adaptada para produzir fertilizante químico a partir do excedente de Nitrato de Amônio, que era usado para fabricar bombas. O Nitrato de Amônio é uma excelente fonte de nitrogênio para as plantas e, a partir de então, passou a ser utilizado como matéria-prima nas indústrias de fertilizantes químicos, pesticidas, mas também, outros gases venenosos. Nesse sentido, uma observação bastante curiosa foi feita pela ambientalista indiana Vandana Shiva, que corretamente aponta como, desde então “ainda estamos comendo as sobras da Segunda Guerra Mundial”.

A AMBIVALÊNCIA DO BENEFÍCIO: a agricultura industrial teria sido o lado bom dessa descoberta?

Uma das principais consequências do uso de fertilizantes sintéticos na produção de alimentos é que a fertilidade do solo deixa de depender da energia solar e renovável e passa a depender da energia produzida por combustíveis fósseis, não renováveis, isto é, petróleo. Outra consequência importante é que esses novos produtos deram a autonomia ao fazendeiro de plantar milho todos os anos e no espaço que queira de sua propriedade, sem a necessidade do sistema de rodízio e de adubar a terra com esterco, como era feito antes. Sem as restrições biológicas, uma fazenda passa a ser administrada da mesma forma como uma indústria, onde o fertilizante é a matéria-prima e o milho o produto final. Desta forma, abre-se o caminho para a monocultura que, na visão do autor, é a introdução da economia de escala na natureza.

“A fixação do nitrogênio permitiu que a cadeia alimentar se afastasse da lógica da biologia para adotar a lógica da indústria. Em vez de comer exclusivamente das mãos do Sol, a humanidade agora começava a provar do petróleo.”

Michael Pollan – O dilema do onívoro, p. 54.

Alguns números interessantes nos permitem identificar a existência de um subsídio biológico à cultura do milho nos Estados Unidos. Pollan mostra como mais da metade de todo o nitrogênio sintético produzido atualmente (2007) é destinado ao milho. Mais do que isso, demonstra como:

  • Cada alqueire de milho industrial requer ¼ ou 1/3 de galão de petróleo;
  • 50 galões de petróleo para cada acre de milho;
  • Mais de uma caloria de combustível é gasta para produzir uma caloria de combustível;
  • Sendo que, antes do advento dos fertilizantes sintéticos, produziam-se mais de duas calorias de comida para cada caloria de combustível investida.

Neste sentido, suas conclusões apontam para o fato de que, enquanto a energia em forma de combustível fóssil for abundante e barata, continuará sendo economicamente viável produzir milho desta maneira.

ALIMENTAÇÃO INDUSTRIAL E POLUIÇÃO: tudo a ver

Ainda como conclusão dos números apresentados acima, Pollan demonstra que uma das consequências da alimentação industrial é, inevitavelmente, a poluição do meio-ambiente. Ao observar que os agricultores utilizam até o dobro de fertilizante sintético do que o recomendado por acre de terra (90 Kg), passa então a descrever o que ocorre com os 45Kg restantes e que não absorvidos pela terra.

  • Evapora no ar acidificando a chuva e contribuindo no aquecimento global;
  • Infiltra no lençol freático contaminando fontes de água potável da população;
  • Na água, os nitratos ligam-se às hemoglobinas e comprometem a capacidade do sangue de transportar oxigênio para o cérebro.
  • Lavado pelas chuvas que o carregam para os rios que acabam por desaguar nos oceanos, portanto, contaminação de mananciais de água potável (rios) e também dos oceanos
  • Proliferação de algas causando o fenômeno conhecido por Maré Vermelha, que mata peixes por asfixia.
  • Existe uma zona hipóxica hoje no Golfo do México tão extensa quanto o estado de New Jersey.

BOAS NOTICIAS?

Em 2004, pesquisadores da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, descobrirma um novo processo para a produção de amônia. Este processo sintetiza amônia a partir do Zircônio Metálico sem a necessidade de altas temperaturas ou altas pressões, sendo que a completa conversão da amônia foi realizada a apenas 85ºC. O problema é que eles precisam agora transformar o processo de laboratório, que age molécula a molécula, em um processo de larga escala. O líder do projeto, Dr. Chirik, afirma que dificilmente o novo processo substituirá o Haber-Bosch por causa da escala em que se consegue produzir amônia com a nova maneira. A limitação encontra-se no fato dos cientistas não haverem encontrado um catalisador para o novo processo e, portanto, a busca desse catalisador passa a ser o foco das pesquisas do grupo do Dr. Chirik.

REFERÊNCIAS:

  • ERISMAN, Jan Willem; Et. al. How a century of ammonia synthesis changed the world. In: Nature Geoscience. V. 1, n. 10, p. 636-639, oct. 2008.
  • POLLAN, Michael. O Dilema do Onívoro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.
  • _____. Em defesa da comida. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
  • Cientistas descobrem novo processo para produção de amônia. Inovação Tecnológica. São Paulo, SP, 04 março 2004. Disponível em: http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=010160040304. Acesso em: 24 novembro 2008.

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Santa Evita: realidade ou ficção?

Estava organizando os arquivos do computador e fazendo uma limpeza geral, passando para CDs tudo aquilo que não tenho utilizado com frequência, quando me deparei com um dos trabalhos que desenvolvi no período da graduação para a disciplina de América Independente I, do professor Júlio Pimentel, autor do excelente blog Paisagens da Crítica.

Trata-se de uma resenha crítica do livro Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez e pensei que, em tempos de Cristina Kirchner na Argentina, seria bastante interessante e proveitoso para alguns leitores disponibilizar essa resenha, escrita nos idos de 2007, quando Martínez ainda vivia e era diretor do programa de estudos latino-americanos da Universidade de Rutgers, nos EUA.

Espero que gostem e, até mesmo, que possa ser útil a alguns estudantes que, por intervenção do Santo Google, acabem caindo por estas páginas na busca desesperada por uma solução de última hora para um trabalho do gênero. =)

Resenha crítica de Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez
por José Rogério Beier (originalmente escrita em 2007)

A única coisa que se pode fazer com a realidade é inventá-la de novo.

Realidade ou ficção? Eis a questão que intriga todos aqueles que se aventuram a seguir o corpo embalsamado de Evita pelas labirínticas páginas de Santa Evita. Questão da qual o autor não descuida em passagem alguma de todo o romance e que pode ser aqui resumida através de uma provocação que o próprio Martínez nos faz em uma passagem de seu livro:

“Porque a história tem de ser um relato feito por pessoas sensatas e não um desvario de derrotados (…) Se a história é – como parece ser – mais um gênero literário, por que privá-la da imaginação, do desatino, da indelicadeza, do exagero e da derrota que constituem a matéria prima sem a qual não se concebe a literatura? [1]”.  

Lançado em 1995, Santa Evita logo se torna grande sucesso editorial, talvez o maior de seu autor, chegando a ser traduzido em várias línguas. No Brasil, foi editado pela Companhia das Letras, em 1996, ganhando cuidadosa tradução de Sérgio Molina.

Neste romance, Martínez narra simultaneamente quatro histórias que se imbricam sem uma ordem pré-estabelecida. Muitas vezes, uma serve de ponte para o início da outra, amarrando-a de modo que uma narrativa assimétrica e poliédrica forme um conjunto harmonioso no final.

A primeira das quatro histórias a aparecer no romance é o de Evita viva. Martínez prefere narrar a história da vida de Evita em sentido inverso, isto é, iniciando com o momento de sua morte, quando a mostra totalmente debilitada pelo câncer em seus últimos dias de vida, para chegar, nos derradeiros capítulos do livro, à história do seu nascimento, que foi narrada por sua mãe. No decorrer do romance, e sem seguir uma ordem definida, o autor vai revelando aos poucos a trajetória da saída de Evita, ainda jovem, de uma província do interior da Argentina, Junín, até chegar a Buenos Aires, onde passou a viver como atriz de rádios e teatros de segunda categoria, onde acabou por conhecer Juan Domingos Perón em um momento crucial da carreira política deste. Daí em diante, a vida de Evita muda de rumo, vai crescendo até se tornar uma das figuras mais importantes da Argentina e desembocar na sua trágica e prematura morte, aos 33 anos de idade, fato que colaborou enormemente para a formação do mito de Evita.

Assim, vemos que os dados biográficos de Evita são apresentados pelo autor aos poucos, no decorrer do romance e com grande riqueza de detalhes, o que demonstra, como nos diz Mario Vargas LLossa em sua resenha para o jornal La Nación:

“un trabajo de hormiga, una pesquisa llevada a cabo con tenacidad de sabueso y una destreza consumada para disponer el riquísimo material en una estructura novelesca que aproveche hasta sus últimos jugos las posibilidades de la anécdota[2]

A segunda história narrada em Santa Evita é a do destino errático do corpo de Eva Duarte de Perón. Tão logo esta foi dada como morta, Juan Perón, seu amantíssimo esposo, encaminha o corpo a um embalsamador espanhol cujo trabalho seria eternizá-la escondendo a morte presente em cada célula daquele corpo. Mais do que isso, ao narrar as aventuras pelas quais o corpo de Evita passou nos anos em que esteve desaparecido, o autor estava também se referindo à história da própria Argentina. No momento em que o corpo de Evita foi embalsamado, ele deixou de ser apenas um corpo para representar a Argentina. Segundo o Coronel Moori Koenig, um dos personagens do livro, ao embalsamá-la Pedro Ara acaba por confundir o corpo de Evita com a Argentina. Para o Coronel, o que está em jogo “não é mais o cadáver desta mulher, mas o destino da Argentina. Ou as duas coisas, que para tanta gente parecem uma só[3]”. Em uma conversa com o embalsamador ele confirmaria que este “ao embalsamá-lo (…)  tirou a história de lugar. (…) Quem tiver a mulher, terá o país em suas mãos[4]”. E mais adiante, no último capítulo do livro, é o próprio autor quem confirmaria como o corpo embalsamado de Evita foi usado como alegoria para representar a Argentina: “Esse cadáver somos todos nós. É o país[5].

A história de Evita morta, ao contrário da anterior, flui para frente, isto é, foi narrada do momento em que ela morreu em diante, seguindo o fluxo dos acontecimentos, a linha diacrônica. É do entrelaçamento destas duas histórias que surge, em sua maior parte, o romance de Martínez. É ele mesmo quem nos diz que contaria o romance tal como o sonhara um certo dia: “Não contaria Evita como malefício nem como mito. Iria contá-la tal como a sonhara: como uma mariposa que batia para a frente as asas de sua morte, enquanto as de sua vida voavam para trás[6]”. E junto à história de Evita, contaria também “o que foi sua pátria e aquilo que quis ser, mas não pôde[7].

A terceira história narrada neste romance é a de um grupo de militares destacados para, inicialmente, seqüestrar o corpo de Evita do local onde era exibida e, posteriormente, proteger o corpo dos fanáticos peronistas que queriam, a todo custo, resgatá-la. É neste momento, quando o corpo de Evita cai nas mãos dos militares, que ele começa a errar através de dois continentes, vários países e passar pelas aventuras mais patéticas, onde foi copiado, marcado como gado, reverenciado, mutilado, divinizado, acariciado, profanado, confundido com uma boneca, escondido em ambulâncias, cinemas, refúgios militares e porões de barcos até, enfim, ser sepultado no cemitério La Recoleta.

Por fim, a quarta história narrada em Santa Evita, é a do personagem Tomás Eloy Martínez, que se passa por um autor obsessivo e martirizado pelo desejo de desvendar o mistério do corpo de Evita. Um personagem que se intromete na história a todo o momento para nos contar a forma como logrou escrever seu romance, mesmo através de suas fontes duvidosas. Estratégia muito bem utilizada pelo autor Tomás Eloy Martínez que, ao mudar o foco narrativo de terceira pessoa onisciente, para primeira pessoa e voltar novamente a terceira pessoa, de acordo com a história que se está narrando, busca dar mais verossimilhança a sua história, transformando-se em um personagem que vivencia, que está presente, que conhece e entrevista outros personagens do romance embora, na realidade, talvez ele nunca tenha entrevistado todas as pessoas mencionadas no livro. Para Carlos Fuentes, “Tomás Eloy Martínez es el último guardián de la Difunta, el último enamorado de Persona, el último historiador de Esa Mujer[8]. Martínez se vê mais como o taxidermista Pedro Ara, alguém que eternizara Evita através de sua arte: “A arte do embalsamador se parece com a do biógrafo: os dois tentam imobilizar uma vida ou um corpo na pose em que deverá ser lembrado pela eternidade[9]”.

Estas são as quatro histórias que formam o texto labiríntico de Santa Evita. Labiríntico porque em cada capítulo as quatro histórias se entrelaçam e se sucedem aparentemente sem nenhuma ordem pré-estabelecida. Labiríntico porque não se limita às suas próprias páginas, mas também levam o leitor, constantemente, a outras obras, sejam sobre Evita ou não, fazendo referência a autores diversos tais como Appolinaire, Borges, Cortázar, Onetti, Perlongher, Walsh e Wilde e até mesmo a outro romance do próprio autor, A novela de Perón. É o próprio Martínez quem nos diz que entre A Novela de Perón e Santa Evita teve que lançar outros livros e reaprender seu ofício de escritor para que Santa Evita não fosse confundido com o primeiro. Assim, a intertextualidade construída neste romance é, também, mais uma estratégia do autor visando trazer mais verossimilhança ao seu livro. Ao dialogar constantemente com uma série de obras, Martínez busca convencer o leitor da veracidade dos fatos que ele apresenta.

Como podemos ver, de um modo ou outro, a trama toda acaba sempre levando à questão da realidade ou ficção dos dados apresentados no livro. Mário Vargas Llosa acerta quando diz que tudo o que está contado no livro não passa de “uma mentira, uma ficção que foram despojados de sua realidade e transportados à fantasia[10]. É o próprio autor quem diz, várias vezes no decorrer do livro, que o que ali se vai narrar não é a realidade, mas uma reconstrução, uma invenção. Por isso o livro não é uma biografia, mas sim um romance[11]. Um romance que, de fato, acaba sendo biográfico, mas que traz a biografia de uma Evita que é apenas mais uma das que surgiram desde quando a de carne e osso morreu, isto é, uma Evita que “deixou de ser o que disse e o que fez, para ser o que dizem que disse e o que dizem que fez[12].

Portanto, Tomás Eloy Martínez é apenas mais um copista do corpo morto de Evita. Para ele, ao multiplicar-se Evita não morreu, isto é, ressuscitou. “Transfigurada em mito, Evita era milhões[13]. É por isso que Martínez busca reproduzir, no decorrer de todo o romance, os “milhões” de Evita que existiram. Tenta fazer isso ao citar os diversos nomes que ela recebeu: Evita, Eva Duarte, Essa Mulher, Pessoa, Nômade, Ela, A Defunta, A Falecida, O Cadáver, O Corpo, Pupe, ED, EM, Égua, Santa Evita, Evitita, etc.

Outra forma de reforçar a multiplicação de Evita, é através do relato da memória que cada personagem tinha dela e que o autor buscou narrá-lo de modo que Evita, mesmo nessas memórias, aparecesse sempre como várias personagens distintas para cada um deles. Este é o caso do cabeleireiro, que tinha um museu com várias cabeças de vidro representando os diferentes Evitas que ostentavam diferentes penteados, ou então, o caso do mordomo que ao ler as cartas e manuscritos de Evita, reparou que a caligrafia era distinta de modo que cada caligrafia revelava uma Evita diferente da outra, ou ainda, o caso do operador de cinema que havia notado que a “Evita do filme” era diferente da “Evita da platéia”.

Assim, a Evita de Martínez é só mais uma entre milhões, é a invenção de uma realidade criada pela ficção. Mas isso, para ele, não é demérito para seu romance, uma vez que as fontes em que o romance é baseado são de confiança duvidosa apenas no sentido em que também o são a realidade e a linguagem, já que nelas se infiltram lapsos de memória e verdades impuras. Neste sentido, Martínez destaca que para os historiadores e biógrafos as fontes sempre foram uma dor de cabeça. Nunca se bastam a si mesmas e necessitam da confirmação de uma fonte e, esta, por sua vez, de mais outra. Para ele, esta cadeia de fontes confirmando fontes costuma ser infinita e inútil, porque a soma das fontes também pode ser um engano. Assim, não vê problema nenhum em utilizar como fonte Aldo Cifuentes, um personagem que ele mesmo descreve como mentiroso contumaz e fofoqueiro.

Se, como diz Martínez, é no meio do caminho onde se bifurcam as estradas do mito e da história que resiste o reino indestrutível e desafiante da ficção, ele acaba escrevendo sua ficção para salvar a protagonista de seu romance da História, que ele vê como trágica. Apesar disso, paradoxalmente através dessa mesma obra de ficção, o autor conta um pouco da história de seu país ou, como ele mesmo disse, “o que foi sua pátria e aquilo que quis ser, mas não pôde”. Como nos diz Carlos Fuentes:

“Santa Evita es la historia de un país latinoamericano auto engañado, que se imagina europeo, racional, civilizado, y amanece un día sin ilusiones, tan latinoamericano como El Salvador o Venezuela, más enloquecido porque jamás se creyó tan vulnerable, dolido de su amnesia porque debió recordar que también era el país de Facundo, de Rosas y de Arlt, tan brutalmente salvaje como sus militares torturadores, asesinos, destructores de familias, generaciones, profesiones enteras de argentinos[14]”.

Em Santa Evita, vemos que Martínez parece querer apontar para o fato de que a Argentina não pode continuar crendo que sua cultura está desconectada da latino-americana. Em um trecho onde o autor destaca como Evita é vista dos Estados Unidos, onde mora, comparando esta visão com a imagem que os próprios argentinos fazem dela, ele começa dizendo que “Na Argentina ela é a Cinderela das telenovelas, a nostalgia de ter sido o que nunca fomos, a mulher justiceira, a mãe celestial. Fora do país, é o poder, a morta jovem, a hiena compassiva declamando nos balcões do além: ‘Não chores por mim, Argentina[15]’”. E arremata concluindo: “Neste condado (…) em Nova Jersey, Evita é uma figura familiar, mas a história que dela se conhece é a da ópera de Tim Rice. Talvez ninguém saiba quem ela foi na realidade; a maioria imagina que Argentina é um subúrbio de Guatemala City[16]. Trecho que revela o quanto a cultura argentina está desconectada das culturas estadunidense e européia e muito mais próxima da latino-americana.

Assim, é possível compreender bem Martínez quando ele diz que “é preciso convencer o meu país de que ele tem um cordão umbilical com o resto do continente. Por isso, todos os meus livros estão dedicados a mostrar o nexo que a realidade argentina tem com a realidade latino-americana[17]”.

Martínez é ainda mais explícito no trecho a seguir, onde aponta claramente que os argentinos faziam questão de esconder suas origens indígenas e negras, além das mazelas de sua sociedade, no intuito de se desvincular de suas raízes latino-americanas para se aproximar mais da cultura européia:

“Os argentinos que se julgavam depositários da civilização viam em Evita uma ressurreição obscena da barbárie. Os índios, os negros candombeiros, os maltrapilhos, os malandros, os cafetões de Roberto Artl, os gaúchos renegados, as putas tísicas contrabandeadas em navios polacos, as andorinhas de província: todos já tinham sido devidamente exterminados ou confinados aos seus porões sombrios. Quando os filósofos europeus chegaram de visita, descobriram um país tão etéreo e espiritual que acreditavam que este houvesse evaporado. A súbita entrada em cena de Eva Duarte vinha desmanchar os prazeres da Argentina culta. Aquela mina barata, aquela copeira bastarda, aquela merdinha – como era chamada nos leilões de terras – era o último peido da barbárie. Enquanto passava, era preciso tapar o nariz”.

Desta forma, Martínez pretende buscar o nexo da realidade Argentina com a latino-americana através dos diferentes personagens que passaram por Santa Evita. Dos mais notórios, como Juan Perón, aos mais discretos e anônimos, como a filha do operador do cinema, o autor faz desfilar pelas páginas de seu livro todo o povo argentino, como num grande mosaico: humildes e poderosos, insignes e medíocres, dementes e equilibrados, afetuosos e carrascos, destemidos e covardes, de todas as classes sociais e de todos os tipos. Por meio destes personagens o autor tenta mostrar o verdadeiro rosto do seu país, que não é aquele que critica acima por esconder suas origens e suas misérias, mas aquele que ele mostra no capítulo Grandezas da Miséria. Neste capítulo os grasitas aparecem com toda a força e sem disfarce nas filas de miseráveis à espera de dentaduras e outras esmolas de Evita. Aparecem na humilhação das vigílias intermináveis e no inventário de padecimentos humanos que um de seus personagens testemunha ao esperar por uma casa prometida por Evita que jamais viria. É ali, na enxurrada de intermináveis desgraças que afligiam o povo, que aparece o verdadeiro rosto do povo argentino. Muito mais próximo da realidade de qualquer outro povo de um país latino-americano do que dos europeus ou estadunidenses.

Outro aspecto da história argentina que aparece como pano de fundo nas páginas de Santa Evita, marcando a personalidade dos argentinos, é a da influência dos militares no poder e, posteriormente, a da ditadura que acabaria por exilar Tomás Eloy Martínez de seu país em meados dos anos 70. Um trecho que exemplifica a passagem marcante dos militares na personalidade dos argentinos após o golpe de 1976 e, em conseqüência, a própria escrita de Martínez, já que fora um exilado político deste governo, é aquele onde o autor conversa com seu amigo Emílio sobre a filha deste, Irene, que vivia exilada: “não era culpada de nada e, no entanto, carregava a culpa do mundo nas costas como todos os argentinos da época[18]. Mais adiante, ao descrever a si mesmo, complementa a descrição dessa personalidade argentina, que em muito deve aos governos militares: “Sou um argentino (…), sou um espaço sem preencher, um lugar sem tempo que não sabe aonde vai[19]”.

Em seu romance, os militares aparecem sempre de maneira negativa. Exemplos disso são o coronel Moori Koenig que se converte em um alcoólatra inveterado, capaz de profanar o corpo de Evita seja urinando sobre ele ou mantendo relações sexuais com o mesmo; o louco Arancibia, que acaba assassinando sua mulher por flagrá-la no sótão onde havia escondido o corpo de Evita, ou ainda o Capitão Galarza, que conversava com a Defunta nos porões do navio que a levava para Milão.

Martínez escreve seu romance após a queda da ditadura na Argentina, assim, tem liberdade não só para dizer o que pensa sobre o assunto, mas também de criar novos personagens grotescos e caricaturais sobre personagens reais, como foi o caso do Coronel Moori Koenig. Para Martínez, “A vantagem da liberdade era poder transformar as mentiras em verdades e contar verdades em que tudo pareciam mentiras[20]. Não é por acaso que o próprio personagem do Coronel aparece pela primeira vez no romance dando uma aula sobre os usos do boato, destacando que estes últimos seriam “a precaução que os fatos tomam antes de se tornarem verdade[21].

E assim, novamente voltamos a questão com a qual iniciamos esta resenha e que perpassa toda a obra: realidade ou ficção? Preferimos dar a palavra final ao próprio autor que fecha seu romance deixando uma dica de como encarar esta questão em sua obra:

“É um romance, nos romances, o que é verdade também é mentira. Os autores constroem à noite os mesmos mitos que destruíram pela manhã[22].

PERFIL BIOGRÁFICO DO AUTOR

Tomás Eloy Martínez foi jornalista, professor de literatura e escritor. Nasceu na província de Tucumán, Argentina, em 1934, onde completou seus estudos até graduar-se em literatura espanhola e latino-americana pela Universidade de Tucumán. Mais adiante, complementaria sua graduação com o título de mestre em literatura que obteria pela Universidade de Paris VII em 1970.

Durante os anos 60, trabalha em Buenos Aires como jornalista em diferentes periódicos como La Nación, onde era crítico de cinema e Primera Plana, onde exerceu a função de chefe de redação. Já na primeira metade da década de 70, é correspondente do editorial Abril, na Europa e também dirige o seminário Panorama (1970-1972) e o suplemento cultural do diário La Opinión (1972-1975). A partir de 1975, passa a viver como exilado político em Caracas, Venezuela, onde segue sua carreira de jornalista até 1983, quando finda a ditadura na Argentina e também seu exílio. Na área do jornalismo, segue trabalhando até os dias correntes, colaborando com diários como La Nación, da Argentina, e The New York Times Syndicate, dentre outros.

Além de sua carreira de jornalista, Martínez também desenvolveu uma carreira acadêmica muito extensa, deu conferências e cursos em diferentes universidades da Europa, Estados Unidos e América do Sul. Faleceu aos 31 de janeiro de 2010 como professor na Universidade de Rutgers, em New Jersey, onde era diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos.


[1]  MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Santa Evita. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 126.

[2]  LLOSA, Mário Vargas. Los placeres de la necrofilia. In: La Nación (México), feb. 1996. Suplemento Cultura. Disponível em <http://sololiteratura.com/var/losplaceres.html&gt;. Acesso em 04 de dezembbro de 2007.

[3]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 31.

[4]  Ibid.

[5]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 331.

[6]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 67.

[7]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 56.

[8]  FUENTES, Carlos. Santa Evita. In: La Nación (México), feb. 1996. Suplemento Cultura. Disponível em <http://sololiteratura.com/var/losplaceres.html&gt;. Acesso em 04 de dezembbro de 2007.

[9]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 136.

[10]  LLOSA. Op. Cit.

[11]  Não deixa de ser curioso e significativo o fato de, na página de rosto da edição brasileira, logo abaixo do título, aparecer a palavra “Romance” para designar o gênero literário a que pertence o livro. Fato este que não é corriqueiro nos demais romances lançados pela mesma editora ou, até mesmo, por outras editoras no Brasil.

[12]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 20.

[13]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 57.

[14]  FUENTES, Carlos. Op. Cit.

[15]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 176.

[16]  Ibid.

[17]  MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Evita soy yo. Entrevista concedida a Albor Rodríguez. Disponível em <http://www.el-nacional.com/archivedata/1996/06/09/215.htm&gt;. Acesso em: 27 de novembro de 2007.

[18]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp 209.

[19]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 308.

[20]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 309.

[21]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 16.

[22]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 333.

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Cadernos do Cárcere, de Antônio Gramsci, está disponível online

É com enorme alegria que recebemos a informação através do blog Prestes a Surgir de que a obra Cadernos do Cárcere, de Antonio Gramsci, foi disponível para download através do Scribd. Trata-se da versão em espanhol da célebre “edição Gerratana”, isto é, a primeira edição efetivamente crítica dos Cadernos do Cárcere (org. Valentino Gerratana. Turim: Einaudi, 1975).

Leandro Konder, filósofo e professor da PUC/RJ, escreveu o seguinte sobre Gramsci e sua obra, em dezembro de 1999.

Gramsci, o dialético.

Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. V. 1: Introdução ao estudo da filosofia. A filosofia de Benedetto Croce. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. 494p.

Quando alguns professores e intelectuais já o davam por definitivamente soterrado sob as pedras da demolição do Muro de Berlim, o pensador comunista italiano Antonio Gramsci reaparece no palco da história das idéias vivas e volta a se tornar uma referência atual nas discussões teórico-políticas.

Graças ao cuidadoso trabalho de Carlos Nelson Coutinho, Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira, uma nova edição começa a ser publicada. Está prevista para dez volumes. Com ela, toda uma nova geração de estudiosos passa a ter acesso direto aos textos originais nos quais Gramsci expõe suas concepções a respeito do Estado e da sociedade civil, bem como sobre o bom senso e o senso comum, sobre hegemonia e coerção, sobre a revolução passiva e a democracia cosmopolita, sobre guerra de posições e guerra de movimentos, sobre o conformismo e o nacional-popular, ou sobre os intelectuais e a organização da cultura.

Nenhum marxista se empenhou tão radical e rigorosamente quanto ele, ao longo dos anos vinte e trinta, na avaliação da importância das contradições e da dinâmica da cultura no plano da luta pela transformação revolucionária da sociedade.

Nenhum marxista militante foi tão fundo na crítica ao reducionismo econômico, ao determinismo histórico, ao cientificismo e ao positivismo que se infiltraram no pensamento dos autodenominados discípulos de Marx (tanto dos comunistas como dos socialdemocratas).

As condições trágicas em que foi compelido a viver seus dez últimos anos, nos cárceres de Mussolini, afastaram-no das tarefas urgentes da direção do seu partido. Reagindo contra o aniquilamento que lhe estava sendo imposto, o teimoso prisioneiro empreendeu uma reflexão original, ousada, a respeito de temas que — embora cruciais — freqüentemente eram subestimados por seus companheiros.

Gramsci se debruçou sobre os problemas da subjetividade, sobre as complicações da teoria, sobre a formação e o poder das convicções.

Contra um ponto de vista acentuadamente elitista, cheio de desprezo pela cultura popular, o nosso autor observou que em toda manifestação de qualquer modo peculiar de ver, em toda expressão de linguagem, mesmo entre os de “baixo”, nas camadas sociais mais ignorantes, existe uma “filosofia”, uma certa concepção do mundo.

E, por outro lado, contra um ponto de vista que idealiza romântica e ingenuamente a filosofia espontânea do povo, atribuindo-lhe um vigor crítico que ela não tem (nem poderia ter), Gramsci chamou a atenção para o fato de que cabe aos intelectuais revolucionários manterem — sem arrogância! — um diálogo com seus interlocutores das camadas populares, ajudando-os (e ajudando-se a si mesmos) a superar pelo fortalecimento do bom senso (o senso crítico e autocrítico) os limites estreitos do senso comum, isto é, as fronteiras que dependem da ampliação dos horizontes teóricos para serem ultrapassadas.

Gramsci sublinha tanto o que os teóricos precisam aprender com a prática, com a percepção empírica, como a responsabilidade que eles têm em face da tarefa que lhes cabe de contribuir para aperfeiçoar a construção consistente do conhecimento teórico (que, no entanto, jamais esgotará a riqueza da realidade).

Mestre do pensamento dialético, Gramsci ensinou que, para que a nossa história seja efetivamente um processo de libertação, o ponto de vista mais avançado — aquele que desejamos alcançar — precisa ser também o mais abrangente.

Na lógica de um conflito bélico, o sujeito procura golpear o inimigo em seus pontos mais fracos. Quando se trata, porém, de um esforço para compreender melhor, para conhecer mais profundamente a realidade (e poder transformá-la de acordo com um projeto mais conseqüente), o sujeito precisa reconhecer os pontos fortes do interlocutor, para incorporá-los criticamente à ampliação de seus próprios horizontes.

FONTE: http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=139


Abaixo seguem os links para download da versão em espanhol da obra Cadernos do Cárcere. Aproveitem!

Para saber um pouco mais sobre Gramsci, recomenda-se a leitura do texto Gramsci: uma introdução, escrito por Valentino Gerratana para a Enciclopédia Italiana e traduzida ao português por Luiz Sérgio Henriques.

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Lilia Moritz Schwarcz rebate bobagens de Demétrio Magnoli no Programa do Jô

Nesta última sexta-feira, dia 11/05/2012, o Programa do Jô exibiu entrevista com a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, que está dirigindo a coleção História do Brasil Nação, sobre a qual já falamos em outro post aqui no Hum Historiador.

A entrevista foi disponibilizada na íntegra no site do programa e acabou girando em torno do lançamento da nova coleção dirigida por Lilia Schwarcz. Para assisti-la basta clicar na imagem ao lado e será redirecionado até o portal da emissora.

A conversa fluía normalmente até que, por volta dos 10min50 da entrevista, em um procedimento incomum  do programa, Jô Soares pede licença a Lilia e faz uma inserção contendo um comentário gravado por um convidado que deseja propor “um ponto de partida para se pensar a ideia do Brasil como Nação”. O tal convidado é ninguém menos do que Demétrio Magnoli.

Percebam que um pouco antes da inserção do Magnoli, lá por volta dos 09min40, o Jô introduz o tema da formação do povo brasileiro a partir da integração de índios, negros e europeus só para poder incluir o comentário de Magnoli, que vai falar justamente sobre este assunto. Não por acaso, todos devem se lembrar, Demétrio Magnoli é o intelectual que há alguns anos tem feito campanha contra as cotas raciais e tem aparecido em todos os lugares para tratar sobre o assunto. Ele e, também sem nenhuma coincidência, o seu colega Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo e autor do livro Não Somos Racistas.

Como era de se esperar, Demétrio Magnoli fez uma participação vergonhosa a um intelectual ao fazer um comentário totalmente equivocado mencionando a monografia escrita por Carl Friedrich von Martius sobre como se deveria escrever a história do Brasil. Tal inserção, com o comentário feito por Magnoli justamente sobre este assunto, nos permite suspeitar de uma interferência da direção de jornalismo da Globo (Ali Kamel) ao pautar o Programa do Jô.

Ao citar Carl von Martius em seu comentário, Magnoli faz uma leitura absurda de que este autor defendia a escrita de uma História do Brasil como uma mescla de raças, que deveria ser contada como se fosse a confluência harmoniosa de três rios: o rio dos africanos, o rio dos europeus e o rio dos índios, justamente em um momento no qual Europa e Estados Unidos estavam pensando em segregar as raças. Portanto, Magnoli interpreta mal (ou distorce, se preferirem) a monografia de Martius para fazer a defesa de que há uma divergência de trajetória entre o Brasil e as “principais nações do ocidente” na construção da ideia de nação e de povo: o Brasil, segundo a leitura enviesada de Magnoli, opta pela trajetória da mescla de raças enquanto os EUA, a Inglaterra e as “principais nações do ocidente” optam pela segregação das raças.

Oras, quem leu a monografia sabe muito bem que não é nada disso e Lilia Schwarcz foi muito bem ao dar sua resposta ao comentário de Magnoli. Em primeiro lugar, e de modo bastante elegante, já deixou claro que Magnoli provavelmente não leu o texto para fazer tal interpretação (eu já penso que ele leu a monografia sim e a está distorcendo para que ela possa atender às suas intenções). Em segundo lugar, Schwarcz lembra muito bem que o texto de Martius é bastante claro em como se deveria considerar as diferentes contribuições das três raças  para se contar a História do Brasil: um rio enorme e caudaloso e, portanto, o mais importante era o rio dos europeus; um rio médio e tortuoso era a representação do rio dos africanos e, por fim, um rio pequenino era o que representava o rio dos indígenas. Para Martius, quem fosse escrever a história do Brasil deveria levar esta hierarquia em consideração que, como Lilia diz, faz parte da nossa tradição “de um país que mistura inclusão com exclusão social”.

Há algum tempo eu havia disponibilizado esta monografia na página de TEXTOS do blog, já que o mesmo se trata de um dos marcos iniciais da historiografia brasileira. Quem tiver interesse em conferir, basta clicar na imagem da capa do livro acima para acessar as pouco mais de 20 páginas da monografia de Martius e verificar o tamanho da bobagem falada por Demétrio Magnoli em rede nacional ao utilizar este texto para louvar a trajetória brasileira de integração étnica desde meados do século XIX (quando ainda eramos escravistas).

Uma vez mais é de se lamentar o posicionamento que este acadêmico tem tomado em um profundo alinhamento com o a manutenção do racismo vigente em nossa sociedade. É uma vergonha que dos bancos da universidade haja representantes que forneçam argumentos que alimentem a sanha de grupos que não querem mais do que manter a exclusão social dos negros no Brasil. O mínimo que poderíamos fazer, seria propor que Demétrio Magnoli fosse agraciado com o título de Persona non grata na FFLCH-USP.

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Nem tudo era italiano…

Este brilhante trabalho foi apresentado originalmente em 1995 como dissertação de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em História da PUC-SP com o título : “A população pobre nacional na cidade de São Paulo – virada do século (1890-1915). Foi publicado pela Annablume/FAPESP apenas três anos depois da defesa, em 1998 e, dez anos depois, já ganhava sua terceira edição, que é esta da foto ao lado.

Carlos José Ferreira dos Santos é historiador e professor universitário da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus-BA, tendo se graduado em história pela Unesp-Franca, mestrado pelo Programa em Estudos Pós-Graduados em História pela PUC-SP e doutorado pela FAU-USP.

Nem tudo era italiano é uma pesquisa bastante original sobre as populações pobres nacionais que viviam na cidade de São Paulo na virada do século XIX para o XX.

Intrigado pela imagem da São Paulo que emergia tanto de documentos oficiais da época quanto da historiografia produzida no período posterior, Carlos José parte da pergunta-chave “Era tudo italiano em São Paulo na virada dos séculos XIX e XX” para tentar localizar onde viviam e o que faziam os brasileiros que estavam em São Paulo na virada do século. Portanto, um dos objetivos do trabalho é demonstrar que, ao contrário do que era veiculado pela elite paulistana da época, através dos censos, anuários e demais documentos oficiais produzidos pelos governos municipais e provinciais, nem tudo era italiano nesta cidade ente os anos de 1890-1915.

No decorrer de sua pesquisa, Carlos José mostra a presença de outras cores e matizes de outras experiências étnicas e culturais, como bem disse Heloísa de Faria Cruz na apresentação do livro, e complementa:

“Questionando à contrapelo à Belle Époche paulistana, desvela a construção ‘em negativo’ de outros sujeitos, os pobres, ‘todos pretos ou quase pretos de tão pobres’, os trabalhadores pobres nacionais”.

Além das fontes oficiais, Carlos José também faz bom uso de memorialistas, cronistas, periódicos e fotografias da época como fontes importantíssimas no intuito de identificar onde estavam as camadas populares nacionais na cidade de São Paulo, propositalmente suprimida e excluída do progresso da desejada metrópole. O esforço do autor é localizar, nos silêncios destes documentos ou escondidos nos cantos das fotos, como se fossem figurantes, quem eram esses sujeitos esquecidos da história, onde eles trabalhavam, como subsistiam e, de sua maneira, como resistiam às transformações impostas por uma São Paulo que crescia cada vez mais e que, através deste crescimento, buscava a substituição de toda esta camada social composta por negros, mestiços, caboclos, mulatos, índios e caipiras, dentre outros, pelos celebrados imigrantes europeus (italianos, na maioria).

No primeiro capítulo, “Os elementos indiscutíveis de nosso progresso”, o autor busca fazer uma recuperação crítica do projeto modernizante e de branqueamento para a cidade. Nesta parte inicial do trabalho suas fontes principais são as estatísticas, nas quais analisa minuciosamente os censos e anuários, buscando os silêncios, omissões e inversões, para dar visibilidade as transformações étnicas e demográficas da população paulistana num período mais alargado do que o da pesquisa (1872-1920).

O capítulo II, intitulado“Em busca da presença dos nacionais pobres”, é o mais marcante da obra, pois nele o autor busca estabelecer os espaços e modos de viver e pensar das populações nacionais pobres, relacionando suas vivências aos processos de luta que constituíam a cidade. Ainda mencionando a apresentação de Heloísa Faria Cruz:

“Através da leitura detalhada de fotos que, em geral, destacavam o progresso e a modernindade da vida urbana, em segundo plano, nos cantos, fora do foco central, o autor identifica os homens negros descalços transportando sacos, conduzindo carroças, mulheres com tabuleiros, trouxas ou embrulhos, crianças descalças em trajes caseiros.
Busca remapear socialmente o centro e outros espaços da cidade, indo além da representação elegante e europeia do Triângulo e encontra becos, ruas alagadas, quiosques, mercados, igrejas, terreiros, batuques, congadas, caipós, na Várzea do Carmo, no Largo das Casinhas, no Largo do Rosário, no sul da Sé.”
Abaixo disponibilizamos duas fotos para exemplificar o método utilizado por Carlos José para analisar as fotos da cidade em busca da presença dos nacionais pobres.

Na foto acima, cuja intenção era mostrar o melhor do comércio da cidade, é possível flagrar um carroceiro circulando na rua bem ao fundo da imagem e, um pouco mais adiante, um negro está parado observando o movimento.

Já nesta outra foto, o autor destaca as lavadeiras negras que desciam até a Várzea do Carmo para exercerem seu ofício. Como destaca Carlos José, alguns espaços da cidade, como o Carmo, eram marcados pela presença dos nacionais pobres que, poucos anos depois, foram vítimas de processos de higienização na virada do século, sob a desculpa da modernização e do progresso da cidade, que acabou expulsando-os dali para outras regiões mais periféricas da cidade.

No Capítulo III, “Serviços de Negros: na cadência de Modas indígenas e africanas”, Carlos José faz a crítica ao discurso da desqualificação dos “serviços de negros” e aponta muito bem a natureza “subversiva e inventiva das formas de sobrevivência e práticas culturais dos nacionais pobres”. Aqui seu objetivo é apontar ofícios, biscates e ocupações casuais e temporárias que pouco foram examinadas pela historiografia do trabalho e considerado como serviços de negros.

“São carroceiros autônomos, coletores de lixo, lavadores de casa, cavoqueiros, limpadores de trilhos, empregados das cocheiras, quitandeiras e quituteiras, lavadeiras e vendedores ambulantes, como os flagrados em algumas fotos publicadas em seu livro”.

Na foto acima, o detalhe de trabalhadores negros no ofício de catadores de lixo e, abaixo, um limpador de trilhos é flagrado no exercício de sua atividade por volta de 1917.

PALAVRAS FINAIS

Embora o livro tenha como tema a São Paulo da virada do século XIX para o XX, ele é bastante atual, pois mostra como se deu os processos de exclusão dos brasileiros pobres, em sua maioria negros, que viviam no centro da cidade no período pesquisado. Hoje, uma vez mais, estamos em pleno processo de higienização do centro onde as camadas mais pobres da população estão sendo retiradas com extrema violência para liberarem o espaço para os grandes especuladores imobiliários. Além disso, ainda tem a questão da posição do negro em uma sociedade pós-abolição, apontando claramente a condição em que viviam e os ofícios aos quais foram relegados, determinando sua condição de extrema pobreza e a imensa dificuldade de romperem com esse quadro por não terem acesso à educação. Tema este que viemos tratando nos últimos meses ao falarmos da necessidade da implementação do sistema de cotas raciais.

Para concluir essa breve e despretensiosa resenha, nada melhor do que as palavras da orientadora da pesquisa, a já citada Heloísa de Faria Cruz, que diz:

“Com seu trabalho, Carlos José nos propõe uma São Paulo onde nem tudo era italiano e contribui para uma compreensão dos processos de exclusão, ontem e hoje, pois joga luz nos silêncios da historiografia que tratou sobre o tema das cidades e do trabalho no período”.

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Elisée Reclus e a Anarquia Pela educação

Este post foi criado para falar de um livro de Élisée Reclus (Anarquia pela educação), lido nesta última semana e cujas ideias gostaria de divulgar no meu blog. Portanto, não é meu objetivo aqui falar da obra de Reclus enquanto geógrafo e de sua importância para esta área do conhecimento humano. Quero apenas falar de alguns dos textos políticos que li deste autor, isto é, sobre seus textos anarquistas e desta ideologia política que ainda engatinhava na segunda metade do século XIX, quanto os textos foram publicados nos periódicos europeus (1879-1901).

BREVÍSSIMO HISTÓRICO DA EVOLUÇÃO DO ANARQUISMO ANTES DE ÉLISÉE RECLUS

Me baseando em um texto (Anarquismo e sua polissemia) escrito pelo colega blogueiro Munhoz, dono do excelente Tempos Safados, vou traçar um breve histórico da evolução do anarquismo até os textos anarquistas escritos por Reclus agora em questão.

Começando pelos filósofos gregos pré-socráticos, Munhoz lembra que a palavra grega arkhé significa princípio, origem, relativa a uma determinada “entidade” sempre presente na existência de todos os seres. Contudo, arkhé não apresenta apenas este significado de princípio, como sinônimo de começo, mas também quer dizer comando, como aquilo que governa. Desta maneira, conclui Munhoz, podemos dizer então que a an-arkhé é a recusa do princípio natural presente em todos os seres (ou seja, a desigualdade entre todos os seres), correlativa por isso a impossibilidade de governo fundado sob a arkhé. Acontece que, como acontece com todos os conceitos com o passar do tempo, os anarquistas que apareceram no século 19 deram outros significados para o termo an-arkhé.

O próprio Reclus recorda que o termo anarquia já era empregado antes do século XIX e de Proudhon, considerado o precursor. Antes dele haviam os ácratas e, mais do que isso, lembra que em todos os tempos houve homens livres, contendores da lei, homens vivendo sem senhor em decorrência do direito primordial de sua existência e de seu pensamento. Nas palavras de Reclus, “homens gerindo a seu bel-prazer, sem lei imposta não tendo outra regra de conduta senão seu ‘querer e franco arbítrio'”.

Mas a partir do século XIX, Proudhon (1809-1865), o primeiro dos anarquistas, confessa em seu livro que existe um princípio natural de organização da sociedade, sem necessidade de haver autoridade sobre a sociedade. A anarquia apresentada por Proudhon é, portanto, a negação da an-arkhé. Antes deste filósofo, o significado de anarquia nos círculos políticos era relativo à desordem, ao caos, à falta de princípio e ao desgoverno. Com ele, a anarquia deixa de ter esse sentido pejorativo e passa a significar a ordem natural das coisas, o princípio que elas obedecem espontaneamente sem necessidade de autoridade (humana); a partir daí a “anarquia é a ordem”. Vejam a definição que Munhoz destacou do livro “O que é a propriedade?” de autoria do próprio Proudhon:

Anarquia, ausência de mestre, de soberano, tal é a forma de governo de que todos os dias nos aproximamos e que o hábito inveterado de tomar o homem por regra e a sua vontade por lei nos faz olhar com o cúmulo da desordem e a expressão do caos. […] como o homem procura a justiça na igualdade, a sociedade procura a ordem na anarquia (PROUDHON, 1975, p. 239).

Ainda segundo Munhoz, na cronologia tradicional, Bakunin (1814-1876) deu o segundo passo. Através da inspiração das ideias e dos seguidores  de Proudhon e em contraposição às teses socialistas de Marx, Bakunin reuniu pela primeira vez um grupo que não tinha medo de se assumir anarquista. Contudo, algumas importantes ideias de Bakunin eram bem diferentes das defendidas por Proudhon. Se entendermos o anarquismo como sinônimo de tudo o que é revolucionário no sentido clássico, que prega a coletivização dos instrumentos de produção (as máquinas, as ferramentas, a terra, etc.), que defende a conspiração para abolir o Estado e a violência como prática política caso necessária, então esse anarquismo é o de Bakunin. Proudhon era contra todos estes postulados, ele acreditava na revolução como um progresso evolutivo sem necessidade de violência e do uso de força, pois era preciso que as pessoas quisessem abolir o Estado e transformar a sociedade. Antes de fazer era preciso querer. Pois, para ele, tomar tudo a força representava um autoritarismo contra-revolucionário, um contrassenso, um retrocesso.

Por fim, depois de Proudhon e Bakunin vieram outros pensadores que reformaram (ou modificaram) suas ideias. Como os anarquistas comunistas Kropotkin (1842-1921), Reclus (1830-1905) e Malatesta (1853-1932). Destes três anarquistas nascidos no século XIX, passaremos a falar um pouco mais detalhadamente de Élisée Reclus.

BREVE PERFIL BIOGRÁFICO DE ÉLISÉE RECLUS

Os breves traços do perfil biográfico abaixo foi baseado na resenha escrita por Beatriz Scigliano Carneiro ao livro de Jean Didier Vincent: Élisée Reclus, géographe, anarchiste, écologiste. Paris: Robert Laffont, 2010, 426 páginas.

Jean-Jacques Élisée Reclus foi um geógrafo e anarquista francês, nascido em Sainte-Foy la Grande, na região da Aquitânia, aos 15 de março de 1830. Foi o segundo filho de um pastor protestante que construiu uma família composta por doze filhos.

Sua educação se iniciou na Prússia e continuou num colégio protestante da região francesa de Montauban, de onde foi afastado por motivos políticos. Completou seus estudos na Universidade de Berlin, onde foi aluno e discípulo do grande geógrafo alemão Carl Ritter.

Entre 1851 e 1857, vive exilado da França, fugindo de perseguições políticas em decorrência do golpe promovido por Luís Bonaparte em dezembro de 1851 para acabar com a República e se tornar o monarca. Foge inicialmente para a Londres e depois para Irlanda, onde permanece por pouco tempo. Dali viaja para os Estados Unidos, onde ficaria até 1857. Morou na Louisiana, visitou Chicago, Panamá, Cuba e tentou implantar sem sucesso uma colônia agrícola na Colômbia. Durante sua estadia no continente americano, empenhou-se em descrever paisagens e tipos humanos, posteriormente usados em suas obras. Observou com interesse a mestiçagem e a convivência em um mesmo espaço entre pessoas de procedências diversas: negros, índios, europeus. Entretanto, na Lousiana, encontrou os mercados de escravos, alimentando a prática que ele considerava um horror absoluto.

Retorna à França em 1857, onde permaneceria até ser novamente exilado, em 1872, por sua participação na Comuna de Paris, um ano antes de seu banimento. Foi morar na Suíça com a família, país que havia se transformado em refúgio de militantes de esquerda procedentes de várias nações, alguns muito conhecidos pela atuação anarquista, como Bakunin e Kropotkin.

Em 1894, mudou-se para a Bélgica, convidado a dar aulas na Universidade Livre que mantinha uma orientação liberal diversa da tendência católica predominante no país. No entanto, um atentado a bomba na França, feito pelo anarquista Vaillant, recolocou Reclus na lista dos suspeitos de cumplicidade com ações violentas. Seu curso foi então recusado. No entanto, outros intelectuais, de tendência socialista libertária, formaram uma Universidade Nova, em Bruxelas, e depois o Instituto de Altos Estudos, onde se tornou professor de Geografia. Os cursos não foram reconhecidos oficialmente pelo Estado belga, mas isso não impediu a afluência de estudantes, especialmente estrangeiros.

No período final de sua vida, foi professor de geografia comparativa na Universidade de Bruxelas (1895-1905) e morreu na cidade de Thourout, nas proximidades de Bruges, Bélgica.

Filho de pastor, Reclus fora educado para ser um pastor como o pai, mas tornou-se ateu convicto; enquanto militante libertário, foi preso, exilado e vigiado constantemente pelo Estado francês e sua geografia não pode ser dissociada das práticas anarquistas de liberdade.

Se a obra de Reclus ainda não é suficientemente conhecida em seu país natal, no Brasil, afora em circuitos anarquistas e em alguns nichos acadêmicos, ele hoje praticamente parece esquecido na poeira de seus volumes depositados nas seções de livros raros das bibliotecas. Entretanto, a Geografia Universal em francês fora item imprescindível de muitas bibliotecas da elite brasileira no século XIX. O próprio Reclus, esteve no Brasil em 1893, e foi homenageado na Sociedade Geográfica do Rio de Janeiro.

SOBRE O LIVRO

Agora que já falamos, ainda que brevemente, sobre o anarquismo e sobre o autor do livro que queremos comentar, vamos partir para falar do livro em si: Anarquia pela educação.

Trata-se de uma coletânea de artigos políticos escritos por Élisée Reclus (1830-1905) e publicados em periódicos entre os anos de 1879 e 1901. Estes artigos foram compilados e traduzidos por Plínio Augusto Coêlho, que se dedicou a publicação de obras libertárias, e publicado em 2011 pela editora Hedra.

Como diz a resenha da primeira página do livro, todos os artigos tratam de suas concepções sobre o Anarquismo utilizado como base para suas posições nos mais diferentes assuntos, todos tendo a educação como pano de fundo.

São sete artigos que foram compilados nesta edição. São eles:

  • A anarquia (1894)
  • Por que somos anarquistas? (1886)
  • A revolução (1893)
  • A anarquia e a igreja (1901)
  • Algumas palavras de história (1894)
  • A meu irmão camponês (1899)
  • A pena de morte (1879)

Em A anarquia (1894), Reclus define em linhas gerais o que é, quais os objetivos e o que defendem os anarquistas. Lembra que embora tenha algumas semelhanças com os socialistas, o que difere ambos é que os anarquistas lutam contra todo o poder oficial, cada individualidade parece aos anarquistas o centro do universo, e cada uma tem os mesmos direitos ao desenvolvimento integral, sem a intervenção de um poder que a dirige, repreende ou castiga.

Neste artigo, Reclus lembra que, até mesmo nos dias em que escrevia seu texto [e ouso a dizer que até hoje], o princípio que rege o Estado é a hierarquia, cujo significado do termo a “autoridade sagrada” e que a supressão deste Estado está naturalmente implicada na extinção do respeito, tema que vai tratar mas detalhadamente em outro artigo.

Já em Por que somos anarquistas (1886), como o próprio título do artigo deixa claro, Reclus expõe as razões pelas quais os anarquistas escolheram este caminho de luta e a justificativa principal está no fato de eles desejarem a justiça social em um mundo onde reina a injustiça por todos os lados. É o fato de terem se dado conta de que os frutos do trabalho serem distribuídos no sentido inverso do trabalho e de que, nesta sociedade, o senhor é aquele que possui a “carteira abarrotada” e, neste caso, acaba tendo em seu poder o destino de outros homens. Explica que ao anarquista tudo isso parece infame e que estes desejam mudar este estado de coisas através da revolução.

“Das duas coisas, uma: ou a justiça é o ideal humano, e neste caso, nós a reivindicamos para todos; ou só a força governa a sociedade e, neste caso, usaremos a força contra nossos inimigos. Ou a liberdade dos iguais, ou a lei do Talião”. (p. 44).

Explica que o anarquista quer se livrar da opressão do Estado, não ter superiores que possa comandar-lhes, lembrando que ao suprimir o Estado, junto com ele suprime-se também a moral oficial, recordando que para o anarquista só há moral na liberdade. É neste momento que explica que o anarquista, por compreender que a vida é impossível sem um agrupamento social, é também um comunista-internacional. Que eles associam-se, uns com os outros, como homens livres e iguais, trabalhando numa obra comum e regulando as relações mútuas pela justiça e pela benevolência recíproca.

Por fim, explica que no anarquismo é impossível a existência de ódios religiosos ou nacionais, pois não possuem religião e o mundo é a pátria do anarquista. A terra será expropriada de seus proprietários e se tornará coletiva, sem cercas e ordenada para a satisfação de todos. E conclui dizendo-se consciente de que toda a injustiça e todo ciúme de lesa-majestade humana, se levantarão para combater o anarquista-comunista-internacional e é justamente por isso que, enquanto durar a iniquidade, que os anarquistas devem estar em estado de revolução permanente.

Em A Revolução (1893), Reclus explica que a anarquia jamais poderá emanar da República e que, por este motivo, tal mudança so poderá se realizar através da revolução: “Nada de bom para nós pode advir da República e dos republicanos”. E o responsável por realizar a revolução é o povo, isto é, o trabalhador, como fica bem claro neste trecho:

“O veículo do pensamento moderno da evolução intelectual e moral é a parte da sociedade que sofre, que trabalha e é oprimida. É ela que elabora a ideia, que a realiza, que de tremor em tremor, recoloca constantemente em marcha este carro social que os conservadores tentam incessantemente imobilizar na estrada, entravar seu caminho ou afundá-lo nos pântanos de direita ou de esquerda”.

Em A Anarquia e a Igreja (1901), Reclus expõe o posicionamento dos anarquistas perante esta instituição: “Enquanto os padres, monges e todos os detentores de um poder pseudodivino estiverem constituídos como liga de dominação, é preciso combatê-los sem trégua, com toda a energia de sua vontade e com todos os recursos de sua inteligência e sua força”. Explica como os anarquistas rejeitam absolutamente a doutrina católica e todas as religiões conexas, amigas ou inimigas; e de como devem combater suas instituições e obras, além de trabalharem para destruírem os efeitos de todos seus atos. Apesar disso, explica que os anarquistas não pretendem entrar nas consciências dos fiéis para delas expulsar suas perturbações e devaneios, mas que devem trabalhar com todas as energias para afastar do funcionamento social tudo o que não se coaduna com as verdades científicas estabelecidas:

“podemos combater incessantemente o erro de todos aqueles que sustentam ter encontrado fora da humanidade e do mundo um ponto de apoio divino, permitindo que castas parasitas se disfarcem de intermediários fervorosos entre o criador fictício e suas criaturas (…) E não esqueçamos de bloquear o vil pagamento dos impostos direto que o clero nos extorque (…) Sequemos a fonte desses milhões que, de todas as partes, afluem para o grande mendigo de Roma e para os submendigos inumeráveis de suas congregações (…) Descristianizemos o povo!”. (p. 55-56).

No artigo Algumas palavras de História (1894), Reclus fala sobre como os anarquistas, através da revolução, pretendem atingir o seu triplo ideal de garantir a conquista do pão, da instrução e da moralidade (entendida como liberdade e fraternidade).

Em primeiro lugar, os anarquistas devem garantir a conquista do pão, isto é, que cada homem tenha o que comer, não o mínimo para sobreviver, mas a possibilidade de viver em condições perfeitas  de bem-estar material. O segundo ponto do ideal anarquista é, uma vez suprida as necessidades de alimento e bem-estar, a falta de necessidade de empregar crianças nas fábricas e utilizar todo o período de preparação ao estudo da vida pela educação completa, integral do indivíduo. Por fim, o terceiro ideal anarquista, que também está ligado aos outros dois. Segundo Reclus, “o homem que sacia sua fome e que se instrui a seu bel-prazer é um homem livre e para todos um igual, mas faltaria outro ideal a satisfazer: a fraternidade”.

“Tendo em vista uma humanidade composta de seres livres, iguais, instruídos, é impossível imaginá-la com milhões de soldados sem vontade pessoal, aguardando o gesto ou o grito que lhes dirá para matarem-se mutuamente, com outros milhões de escravos obedientes, passando sua vida a escrevinhar, com a turba daqueles: sacerdotes, magistrados, policiais, denunciadores e carrascos, que tem a atribuição de ensinar pelo terror e assegurar pelo gládio a moral das nações”.

Em A Meu Irmão Camponês (1899), Reclus alerta os trabalhadores, em especial aos agricultores, da necessidade de se unirem para combater aqueles que os exploram. É através da união dos trabalhadores que se conseguirá a revolução e a reversão do atual estado de miséria dos trabalhadores. Aqui destaco um trecho desta carta aberta aos trabalhadores onde Reclus chega a ser profético ao prever, em 1899, o que ocorreria aos trabalhadores se estes não se unissem para combater seus opressores, os donos do Capital:

“Se não sabei unir-vos, não apenas de indivíduo a indivíduo e de comuna a comuna, mas também de país a país em uma grande internacional de trabalhadores, logo partilhareis o destino de milhões e milhões de  homens que já estão despojados de todos os direitos à semeadura e à colheita e que vivem na escravidão do salariato, encontrando trabalho quando patrões tem interesse em dar-lhes. (…) Uni-vos todos em vossa desgraça ou vosso perigo. Defendei o que vos resta e reconquistai o que perdeste. Caso contrário, vosso destino futuro será horrível, pois estamos em uma época de ciência e método e nossos governantes, servidos pelo exército dos químicos e dos professores, preparam-vos uma ordenação social na qual tudo será regulado como numa fábrica, onde a máquina dirigirá tudo, inclusive os homens, onde estes serão simples engrenagens que serão substituídos como ferro-velho quando se puserem a raciocinar e querer”. (pp. 86-87).

Por fim, em A Pena de Morte (1879), Reclus tece suas considerações à respeito das razões pelas quais os anarquistas devem ser contrários à pena de morte. Para ele, a pena capital sempre esteve à serviço da tirania, ao lado dos reis e das classes dominantes e contra os homens que reivindicavam a liberdade de pensar e de agir.

“Nossos tribunais são escolas de crime. Quais seres são mais vis do que todos aqueles dos quais a vindita pública se serve para a repressão: alcaguetes e carcereiros, carrascos e policiais?”

Em seguida, passa a argumentar como, além de tudo, a pena de morte é injusta, uma vez que a sociedade, tomada em seu conjunto, deve compreender o laço de solidariedade que a une com todos os seus membros, virtuosos e criminosos, e reconhecer que em cada crime ela também tem sua parte. Para reforçar sua argumentação, passa a fazer uso de perguntas retóricas que explicitam sua tese, tais como:

“a sociedade tomou conta da infância do criminoso? Deu-lhe uma educação completa? Facilitou-lhe os caminhos da vida? Deu-lhe sempre bons exemplos? Zelou para que ele tivesse todas as oportunidades de permanecer honesto ou de fazer com que torna-se a sê-lo após um primeiro escorregão? E se ela não o fez, o criminoso não pode taxá-la de injusta?”

Enfim, este é um breve resumo dos artigos de Élisée Reclus que foram compilados e publicados no livro Anarquia Pela Educação. Reler suas ideias e discuti-la, em um momento de intensa transformação cultural e social, é mais do que recomendado, é necessário. Philippe Pelletier, responsável pela introdução do livro, recorda que há aproximadamente dez anos está ocorrendo em todo o mundo uma retomada dos textos libertários, dentre eles, os de Elisée Reclus e seu companheiro de anarquismo e geografia, Kropotkin, que traziam proposições profundas em relação a questões fundamentais como as relações do homem com seu meio ambiente e a sociedade dos homens, sempre em uma perspectiva radical: anarquista. Só por essa razão, entendo estar plenamente justificada essa breve e singela resenha que publico agora no meu blog.

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[Textos Clássicos] A Ideologia Alemã

Atendendo a sugestão da amiga e também historiadora Célia Regina, estou inaugurando uma nova página no blog que é a de TEXTOS. A ideia é publicar neste espaço alguns textos clássicos da historiografia cuja leitura foi recomendada pelos professores do curso de História da FFLCH-USP.

A IDEOLOGIA ALEMÃ

Em homenagem ao 129º ano do falecimento de Karl Marx, ocorrida em 14/03/1883, o texto de estréia da página é extraído da obra A ideologia alemã, escrita em parceria com seu amigo Friedrich Engels.

Filósofo alemão, Karl Marx nasceu em Trier em 5 de Maio de 1818 e morreu em Londres a 14 de março de 1883. Estudou Direito nas universidades de Bonn e Berlim, mas dedicou-se principalmente a filosofia hegeliana, tendo se formado em 1841, com a tese Sobre as diferenças da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro.

O livro A ideologia alemã, foi escrito nos anos de 1845-46 e, censurado, não foi publicado em uma edição completa até o ano de 1932.

Segundo o site da Boitempo Editorial, que recentemente publicou uma edição integral do livro, A ideologia alemã:

(…) é considerada por muitos estudiosos a obra de filosofia mais importante de Marx e Engels. Representa a primeira exposição estruturada da concepção materialista da história e é o texto central dos autores acerca da religião. Nela eles concluem um acerto de contas com a filosofia de seu tempo – tanto com a obra de Hegel como com os chamados “hegelianos de esquerda”, entre os quais Ludwig Feuerbach. Esse ajuste passou antes pelos Manuscritos econômico-filosóficos, por A sagrada família, por A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, para alcançar em A Ideologia Alemã sua primeira formulação articulada como método próprio de análise. 

A crítica – quase toda em tom sarcástico – dos dois filósofos ridiculariza o idealismo alemão e articula as categorias essenciais da dialética marxista (como trabalho, modo de produção, forças produtivas, alienação, consciência), constituindo assim um novo corpo teórico.  

FONTE: Boitempo Editorial

O trecho selecionado é apenas um aperitivo, já que tratam-se apenas de algumas poucas páginas do primeiro capítulo no qual Marx & Engels  fazem a crítica ao filósofo alemão Feuerbach, estabelecendo uma oposição entre as concepções materialista e idealista.

Como não poderia deixar de ser, como se pode supor pelo nome deste blog, destaco aqui um pequeno trecho, que foi riscado no manuscrito original, no qual Marx fala da história como ciência:

1. A ideologia em geral, e a filosofia alemã em especial

Conhecemos apenas uma ciência, a ciência da história. A história pode ser examinada sob dois aspectos. Pode ser dividida em história da natureza e história dos homens. Os dois aspectos, entretanto, são inseparáveis; enquanto existirem os homens, sua história e a da natureza se condicionaram reciprocamente. A história da natureza, que designamos como ciência da natureza, não nos interessa aqui; em compensação, teremos que nos ocupar pormenorizadamente da história dos homens; com efeito, quase toda a ideologia ou se reduz a uma concepção falsa dessa história, ou procura fazer dela total abstracção. A própria ideologia não passa de um dos aspectos dessa história.

Espero que gostem desta novidade e que os textos ali disponíveis possam ser de proveito não apenas para quem estuda História, mas para todos que se interessem por boa leitura.

DOWNLOAD DO TEXTO

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David Harvey em São Paulo

David Harvey é um geógrafo marxista britânico, formado na Universidade de Cambridge. Foi professor de Geografia nas universidades de Bristol (Reino Unido), John Hopkins (EUA), Oxford (Reino Unido) e atualmente leciona na City University of New York (EUA).

Desde 1980, seus trabalhos vem sendo traduzidos para a língua portuguesa e são mais do que recomendáveis para quem quer entender melhor o funcionamento do capitalismo desde a década de 1970 aos dias atuais. Abaixo a lista de suas obras traduzidas e publicadas por editoras brasileiras:

  • A Justiça Social e a Cidade. Tradução: Armando Corrêa da Silva, São Paulo: Hucitec, 1980.
  • Condição Pós-moderna. Tradução: Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves, São Paulo: edições Loyola, 1993.
  • “Espaços de Esperança”. Tradução: Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves, São Paulo: edições Loyola, 2004.
  • “O Novo Imperialismo”. Tradução: Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves, São Paulo: edições Loyola, 2004.
  • “A produção capitalista do espaço” (Titulo original:Spaces of capital: Towards a critical geography). Tradução: Carlos Szlak, São Paulo: Annablume, 2005
  • “O enigma do capital e as crises do capitalismo” (Titulo original:The enigma of capital: and the crises of capitalism). Tradução: João Alexandre Peschanski, São Paulo: Boitempo, 2011

A boa notícia é que, a convite da Boitempo Editorial, nos dias 27 e 28 de fevereiro, David Harvey estará em São Paulo para o lançamento do seu livro mais recente, O enigma do Capital e as crises do Capitalismo. No dia 27/02 Harvey estará no Teatro TUCA, da PUC-SP e no dia 28/02 é a vez do auditório da FAU-USP recebê-lo. O evento é gratuito e sem necessidade de inscrição prévia, e acontece no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Abaixo segue imagem do convite e a programação completa.

Como aquecimento da palestra de lançamento do livro, nesta próxima terça-feira, compartilho por aqui a entrevista que ele concedeu ao programa Milênio da Globo News.

Não deixem de conferir também a página oficial da visita de David Harvey ao Brasil.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA:

27/02 | Segunda-feira | 19h30 – São Paulo (SP)
Teatro TUCA da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Rua Monte Alegre, 1024 – CEP 05014-001, Perdizes – Tel. (11) 3670-8458
Com a presença de Leda Paulani (FEA/USP) e João Ildebrando Bocchi (FEA, PUC-SP)
Realização: APROPUC, Núcleo de Estudo de História: Trabalho, Ideologia e Poder (NEHTIPO), Departamento de História da PUC-SP, Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP e Boitempo Editorial
Apoio: PUC-SP e Teatro TUCA

28/02 | Terça-feira | 18h30 – São Paulo (SP)
Auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU/USP)
Rua do Lago, 876 – CEP 05508-900, Cidade Universitária – Tel. (11) 3091-4801
Com a presença de Ermínia Maricato (FAU/USP) e Mariana Fix (LabHab)
Realização: FAU/USP, Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da FAU (LabHab), Pós-Graduação FAU/USP e Boitempo Editorial

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Privataria Tucana

Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr.

Para muitos vai parecer notícia velha, mas não poderia deixar de começar o ano disponibilizando o link para download da versão digital de PRIVATARIA TUCANA, de Amaury Ribeiro Jr, publicado pela Geração Editorial em dezembro de 2011.

Para quem ainda não conhece e nem ouviu falar, a obra apresenta documentos inéditos de lavagem de dinheiro e pagamento de propina, todos recolhidos em fontes públicas, entre elas os arquivos da CPI do Banestado. O ex-prefeito e ex-governador de São Paulo, José Serra, é o personagem central dessa história. Amigos e parentes do ex-governador paulista, como a própria filha e seu genro, operaram um complexo sistema de maracutaias financeiras que prosperou no auge do processo de privatização.

Logo após a publicação do livro no princípio de dezembro, a GRANDE MÍDIA resolveu ignorar o lançamento, mas não contava com o fenômeno da divulgação via redes sociais. Facebook e Twitter repercutiram amplamente não só o lançamento, mas uma versão digital para download, o que não impediu que o livro esgotasse sua primeira edição em apenas dois dias.

Exemplo da atitude parcial da imprensa golpista, o Correio do Brasil reportou como a revista Veja ignorou A Privataria Tucana na lista dos livros mais vendidos: “O ranking semanal de livros mais vendidos da revista semanal de ultradireita Veja desprezou a vice-liderança de A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, na categoria de não-ficção.”

Como reporta o Correio do Brasil, nas livrarias Cultura, Publifolha e Saraiva e no site especializado Publishnews, “A Privataria Tucana” aparece na segunda colocação entre as principais vendas não-ficção, atrás apenas da biografia sobre o empresário Steve Jobs, da Apple, morto em 2011, escrito por Walter Isaacson. O livro do jornalista brasileiro está em 10ª colocação no ranking anual da Fnac. Em sua operação de camuflagem do Privataria Tucana, reporta ainda o CB, Veja manteve o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, no lugar em que, segundo as livrarias, estava A Privataria Tucana. “Nas outras listas, o livro de Narloch aparece apenas na 15ª posição”, indica o site.

Amaury Ribeiro Jr.Em entrevista à revista Carta Capital, Ribeiro Jr. explica como reuniu os documentos para produzir o livro, refaz o caminho das disputas no PSDB e no PT que o colocaram no centro da campanha eleitoral de 2010 e afirma: “Serra sempre teve medo do que seria publicado no livro”.

Para ter acesso a versão digital do livro, basta clicar na capa do livro acima. Não estranhem, ele demora para baixar e até parece que o download está parado, mas não está não. Deixem baixando em outra aba enquanto continuam navegando. Quando terminar o download, o livro já aparece em formato .PDF e é só salvar em seu computador. Aproveitem para divulgar!!!

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