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[D.A.N.O.] Winter notes on summer impressions

Dupla_Dano

Winter notes on summer impressions, primeiro álbum da dupla D.A.N.O.

Acaba de sair do forno (08.nov) o primeiro álbum da dupla hardcore D.A.N.O. O duo é composto por Daniel Mafra (guitarra e vocal) e Leandro Nô (bateria).

Com influências de Bad Religion, Pennywise, Social Distortion e, claro, Ramones, o D.A.N.O. tem como proposta e desafio fazer um som rápido, agressivo e melódico ao mesmo tempo, abordando em suas letras diversas temáticas, como o retrato social atual, a formação dos padrões estabelecidos pela estrutura de poder da sociedade (capitalista) contemporânea, os questionamentos acerca da existência humana etc.

O primeiro álbum, Winter notes on summer impressions, tem seu título inspirado em um pequeno livro de ensaios do russo Fiódor Dostoiévsky. Publicado originalmente na edição de fevereiro de 1863 de Vremya (periódico editado pelo autor), o livro traz as impressões de Dostoiévsky em sua primeira excursão pela Europa Ocidental, na qual buscava ver, em primeira mão, a fonte das ideias que acreditava estar corrompendo a Rússia da década de 1860. No Brasil, ganhou uma edição recente da Editora 34, que publicou-o juntamente com o conto O Crocodilo em tradução direto do russo por Boris Schnaiderman.

Em entrevista publicada no site Punknet, Leandro Nô, ex-baterista do Dead Fish, comentou sobre sua decisão de formar a dupla e, também, sobre o lançamento do primeiro álbum:

Já faz 4 anos desde que saí do DF, banda que me completava musicalmente. Nunca fui de ter várias bandas. Decidi que só me envolveria em algo em que eu realmente acreditasse e que valesse a pena. Pois é, demorou, mas isso aconteceu. As coisas no Brasil não acontecem da noite pro dia, principalmente coisas boas… Demorou, mas saiu o disco do D.A.N.O, projeto no qual acredito e apliquei anos de bateria e conhecimento. Não faço nada pra agradar ninguém além de mim, musicalmente falando. E não foi diferente nesse disco. O que vocês vão ouvir é o meu melhor “baterísticamente” falando. Mais pressão do que o Contra Todos do DF. Se quiserem conferir, ouçam o disco! HC de primeira, pra quem gosta, e pra resgatar o “sentimento” perdido no meio dessa cena ridícula na qual nos encontramos. A gente faz porque ama, não porque é moda”.

Já Daniel Mafra, antes de ter assumido a guitarra e vocal do D.A.N.O., formou-se em História pela Universidade de São Paulo, onde nos conhecemos e fomos companheiros em diversas disciplinas e copos de cerveja. Sem sombra de dúvida, muito do que leu, estudou e compartilhou com os colegas durante os anos de faculdade, o influenciam na hora de compor as letras de suas canções, como em Power of Barricades ou The Darkest Side of Economic Crisis, que transcrevo abaixo:

DANO_Power of BarricadesThe Darkest Side of the Economic Crisis 

They load a gun and point it to your head

The one thing you don’t know is that you’re already dead

They instigate the worst that it’s inside

A state of rage based on xenophobia

Bring on the wage squeeze

More taxes over me

Some of conservatism

And the policy…

Of “public hygiene”

That’s how they work to clean (out)

Those who apparently

are not fit in dominant class

 That’s the darkest side of the economic crisis

Sobre o álbum, Daniel afirma que trata-se da …

“materialização de um diálogo híbrido que trafegava entre as percepções sensíveis de um passado remoto e a maturidade da análise no presente. Idéias, ideais, interpretações, aforismos, angústias, anseios, todos unidos num amálgama veloz e feroz; artisticamente perfeito, perfeitamente artístico”.

Para conhecer mais, visite a página da dupla D.A.N.O. no facebook. Já para ouvir as músicas de Winter Notes on Summer Impressions, clique aqui.

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ROGER Waters divulga carta aberta em que pede boicote a Israel

Roger WatersRoger Waters, ex-integrante da banda Pink Floyd, publica carta aberta em sua conta do Facebook para pedir a seus colegas do rock que se juntem a ele e outros milhares de artistas ao redor do mundo em um boicote cultural a Israel.

Embora seja datado de 19 de agosto, o pedido foi feito no começo do ano, mas Waters havia dado entrevistas dizendo estar reconsiderando a ideia. A carta que divulgou agora, havia sido reescrita em julho, mas só foi revelada agora.

Waters afirmou que sua decisão foi tomada depois que o virtuoso violinista britânico Nigel Kennedy chamou Israel de um “Estado de Apartheid”, durante um show no famoso Albert Hall, em Londres.

Conforme noticiado por O Globo, crítico ferrenho do governo israelense, Waters chegou a acusar o país de promover um motim. Membro do Tribunal Russell para a Palestina, organização que se diz motivada a levar justiça ao Oriente Médio, Waters defende que a ocupação e os assentamentos em territórios palestinos são obstáculos para a paz. Durante sua turnê do The Wall no Brasil, Waters afirmou que Israel faz terrorismo de Estado.

Para Waters, o cancelamento de um show de Stevie Wonder para a organização Amigos das Forças de Segurança de Israel pode ser encarado como um caso de boicote bem sucedido. Wonder desistiu de participação do evento de arrecadação de fundos após sofrer pressões.

ÍNTEGRA DA CARTA ABERTA DE ROGER WATERS DIVULGADA NO FACEBOOK (EM INGLÊS)

A note from Roger Waters – August 18, 2013
19 de agosto de 2013 às 06:35

18th August 2013 Warsaw

To My Colleagues in Rock and Roll

Nigel Kennedy the virtuoso British violinist and violist, at The Recent Promenade Concerts at The Albert Hall in London, mentioned that Israel is apartheid. Nothing unusual there you might think, then one Baroness Deech, (Nee Fraenkel) disputed the fact that Israel is an apartheid state and prevailed upon the BBC to censor Kennedy’s performance by removing his statement. Baroness Deech produced not one shred of evidence to support her claim and yet the BBC, non political, supposedly, acting solely on Baroness Deech’s say so, suddenly went all 1984 on us.  Well!! Time to stick my head above the parapet again, alongside my brother, Nigel Kennedy, where it belongs.  And by the way, Nigel, great respect man. So here follows a letter last re-drafted in July

25th July 2013

To My Colleagues in Rock and Roll.

In the wake of the tragic shooting to death of un-armed teenager Travon Martin and the acquittal of his killer Zimmerman, yesterday, Stevie Wonder spoke at a gig declaring that he will not perform in the State of Florida until that State repeals it’s “Stand your ground” Law. In effect he has declared a boycott on grounds of conscience. I applaud his position, and stand with him, it has brought back to me a statement I made in a letter I wrote last February 14th, to which I have referred but have never published.

The time has come, so here it is.

This letter has been simmering on the back burner of my conscience and consciousness for some time.

It is seven years since I joined BDS (Boycott Divestment and Sanctions) a non violent movement to oppose Israel’s occupation of the West Bank ,and ,violations of international law and Palestinian human rights. The aim of BDS is to bring international attention to these Israeli policies, and hopefully, to help bring them to an end. All the people of the region deserve better than this.

To cut to the chase, Israel has been found guilty, independently, by international human rights organizations, UN officials, and the International Court of Justice, , of serious breaches of international law.  These include, and I will name only two:

1.The Crime of Apartheid:

The systematic oppression of one ethnic group by another.

On 9 March 2012, for instance, the UN Committee on the Elimination of Racial Discrimination called (http://www2.ohchr.org/english/bodies/cerd/docs/CERD.C.ISR.CO.14-16.pdf) on Israel to end its racist policies and laws that contravene the prohibition against racial segregation and apartheid.

2.The Crime of Ethnic Cleansing:

The forcible removable of indigenous peoples from their rightful land in order to settle an occupying population. For example, in East Jerusalem non Jewish families are routinely physically evicted from their homes to make way for Jewish occupants.

There are others.

Given the inability or unwillingness of our governments, or the United Nations Security Council to put pressure on Israel to cease these violations, and make reparations to the victims, it falls to civil society and conscientious citizens of the world, , to dust off our consciences, shoulder our responsibilities, and act. I write to you now, my brothers and sisters in the family of Rock and Roll, to ask you to join with me, and thousands of other artists around the world, to declare a cultural boycott on Israel, to shed light on these problems and also to support all our brothers and sisters in Palestine and Israel who are struggling to end all forms of Israeli oppression and who wish to live in peace, justice, equality and freedom.

I am writing to you all now because of two recent events.

  1. Stevie Wonder.

Word came to me, the first week of last December that Stevie Wonder had been booked to headline at a gala dinner for the Friends of The Israeli Defence Force in LA on 6th December 2012. An event to raise money for the Israeli armed forces, as if the $4.3,000,000,000 that we the US tax payers give them each year were not enough? This came right after The Israeli defence Force  had concluded yet another war on Gaza, (Operation Pillar of Defence), according to human rights watch, committing  war crimes against the besieged 1.6 million Palestinians there.

Anyway, I wrote to Stevie to try to persuade him to cancel.  My letter ran along these lines, “Would you have felt OK performing at the Policeman’s Ball in Johannesburg the night after the Sharpeville massacre in 1960 or in Birmingham Alabama, to raise money for the Law Enforcement officers, who clubbed, tear gassed and water cannoned those children trying to integrate in 1963?”

Archbishop Desmond Tutu also wrote an impassioned plea to Stevie, and  3,000 others appended their names to a change .org petition. Stevie, to his great credit, cancelled!

2.    Earlier that week I delivered a speech at The United Nations. If you are interested you can find this speech on YouTube.

The interesting thing about these two stories is that there was NOT ONE mention of either story in the mainstream media in the United States.

The clear inference would be that the media in the USA is not interested in the predicament of the Palestinian people, or for that matter the predicament of the Israeli people,. We can only hope they may become interested as they eventually did in the politics of apartheid South Africa.

Back in the days of Apartheid South Africa at first it was a trickle of artists that refused to play there, a trickle, that exercised a cultural boycott, then it became a stream, then a river then a torrent and then a flood, ( Remember Steve van Zant, Bruce and all the others? “We will not Play in Sun City?”) Why? Because, like the UN and the International Courts of Justice they understood that Apartheid is wrong.

The sports community joined the battle, no one would go and play cricket or rugby in South Africa , and eventually the political community joined in as well. We all as a global, musical, sporting and political community raised our voices as one and the apartheid regime in South Africa fell.

Maybe we are at the tipping point now with Israel and Palestine. These are good people both and they deserve a just solution to their predicament. Each and every one of them deserves freedom, justice and equal rights. Just recently the ANC, the ruling party of South Africa, has endorsed BDS. We are nearly there. Please join me and all our brothers and sisters in global civil society in proclaiming our rejection of Apartheid in Israel and occupied Palestine, by pledging not to perform or exhibit in Israel or accept any award or funding from any institution linked to the government of Israel, until such time as Israel complies with international law and universal principles of human rights.

Roger Waters

Em breve o Hum Historiador traz uma tradução livre da Carta Aberta de Roger Waters.

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Roger Waters, Maggie e as Malvinas

Hospedado na casa de amigos aqui no extremo sul do Brasil, a apenas dois quilômetros da fronteira com a Argentina, percebo que as notícias sobre as Malvinas repercutem com um pouco mais de força do que em São Paulo.

Embora este post não seja exatamente sobre a Guerra das Malvinas, mas sim sobre o comentário de Roger Waters sobre ela em músicas que foram gravadas no disco The Final Cut (1982), sugiro aos amigos que não se lembram muito bem do assunto, que leiam um pouco sobre esta guerra, apenas para poder entender sobre o que e quem as letras  abaixo estão falando. Pode ser o verbete da wikipedia mesmo.  

Quanto ao álbum The Final Cut, do Pink Floyd, ele foi gravado entre julho e dezembro de 1982, sob o forte impacto da participação britânica na Guerra das Malvinas, ocorrida entre os meses de abril e junho daquele mesmo ano. Por isso as letras fazem muitas referências diretas a personagens centrais do Conflito, como Margaret Tatcher (Maggie) e Leopoldo Fortunado Galtieri (Galtieri).

Como já mencionei anteriormente, acho uma oportunidade excelente quando artistas abordam temas históricos ou políticos em suas obras, pois elas também passam a ser ótimos registros da perspectiva desses artistas sobre a Guerra no momento em que ela ocorria, neste caso específico. Apenas para ilustrar o que falei, abaixo destaco as letras de duas músicas deste disco que tocam diretamente no assunto da Guerra das Malvinas:

GET YOUR FILTHY HANDS OFF MY DESERT
por Roger Waters 

Brezhnev took Afghanistan. 
Begin took Beirut. 
Galtieri took the Union Jack. 
And Maggie, over lunch one day, 
Took a cruiser with all hands. 
Apparently, to make him give it back

The Post War Dream
por Roger Waters 

Tell me true tell me why was Jesus crucified
is it for this that daddy died?
Was it for you? was it me?
Did i watch too much t.v.?
Is that a hint of accusation in your eyes?
If it wasn’t for the nips
being so good at building ships
the yards would still be open on the clyde
and it can’t be much fun for them
beneath the rising sun
with all their kids committing suicide
What have we done maggie what have we done?
What have we done to england?
Should we shout should we scream
“what happened to the post war dream?”
oh maggie, maggie what have we done?

Se considerarmos apenas estas duas letras, já é possível percebermos que o autor tem uma postura totalmente crítica em relação à participação da Grã Bretanha na Guerra das Malvinas, chegando mesmo a se perguntar o que havia acontecido com o sonho britânico do pós-guerra. Essas perguntas se justificam justamente porque naquele momento, em 1982, além da Guerra das Malvinas simbolizar um duro retorno dos ingleses a  campos de batalhas, o que não ocorria desde a II Guerra Mundial, havia também a política econômica que estava sendo tocada por Margaret Tatcher, que desregulamentava o setor financeiro, flexibilizava o mercado de trabalho e privatizava as estatais, fazendo com que os trabalhadores vissem as duras conquistas que garantiram o bem-estar social dos ingleses após a II Guerra Mundial serem limitados.  Por isso as pergunta angustiada de Waters:

“What Happened to the post war dream? Oh Maggie, Maggie what have we done?” 

Enfim, vendo novamente as notícias sobre toda essas movimentações de ingleses e argentinos em relação a soberania das Ilhas Malvinas, não pude pensar em fazer um post melhor aqui de onde estou, a apenas dois quilômetros de Paso de los Libres. Espero que tenham gostado.

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Aprendendo História com Jorge Ben Jor

Não é nenhuma novidade que muitas canções populares vem sendo utilizadas por professores como uma ferramenta extra na hora de preparar suas aulas nas mais diferentes disciplinas. Seja porque muda o esquema de aula giz/quadro-negro, ou porque os alunos gostam das músicas escolhidas, a verdade é que quando professores levam aparelhos de som para a sala de aula, é sempre aquele rebuliço. Quase sempre, os alunos ficam animados, ajudam a preparar a sala e ficam ansiosos para ver o que o professor preparou para eles.

Durante minha formação na licenciatura em História, e também nos estágios que realizei na rede pública, testemunhei algumas experiências levadas adiante por professores que, quase sempre, obtiveram mais êxito ao ensinar o conteúdo utilizando músicas do que recorrendo ao material didático tradicional. Inspirado por essas experiências, eu também planejava preparar um material que pudesse utilizar, mas ainda não tinha o principal: a música que iria explorar. Claro que no cancioneiro brasileiro há várias músicas que podem ser utilizadas, mas até um tempo atrás nenhuma canção em especial tinha me motivado a preparar algum material tomando-a como base, até que ouvi pela primeira vez Zumbi, de Jorge Ben Jor.

Como o nome indica, Zumbi fala sobre este famoso líder negro do Quilombo dos Palmares, que durante anos resistiu à frente de sua comunidade contra a autoridade portuguesa. Lançada em 1974, no álbum A Tábua de Esmeralda,  Zumbi é a oitava faixa deste disco que ficou conhecido por abrir o que o próprio Jorge Ben denominava de uma “fase alquímica”. Várias canções de sucesso fazem parte deste álbum, como Os Alquimistas Estão Chegando, Menina Mulher da Pele Preta e Hermes Trimegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda.

É importante que, antes de qualquer coisa, o professor que vá utilizar alguma música para dar aulas, também faça uma pesquisa preliminar sobre a história daquela música em si. Faz bastante diferença saber, por exemplo, não só que Jorge Ben Jor é negro, claro, mas que justamente a década de 1970, quando o disco foi lançado, há um crescimento de organizações que lutam por melhores condições de vida para a população negra brasileira, vítima de todo tipo de discriminação.

Certamente, dentre outras influências e inspirações, as organizações brasileiras também foram influenciadas por grupos e movimentos que surgiram com bastante força nos Estados Unidos, na década de 1950, na luta dos afrodescendentes em garantir igualdade de direitos civis e contra a segregação racial vigente naquele país. As ações afirmativas levadas adiante por estes grupos, repercutiram na sociedade e ganharam visibilidade de diferentes formas: no comportamento, jovens passam a se vestir com roupas que entendiam afirmar uma identidade negra, da qual se orgulhavam, assim como utilizar penteados e cortes de cabelo que valorizavam as características físicas dos negros, como o cabelo Black Power.

No campo da música, TV ou cinema, muitos artistas passaram a utilizar as roupas e cortes de cabelos valorizados por estes movimentos, criando uma tendência a ser seguida pelos fãs e multiplicada nas ruas. No Brasil, Wilson Simonal, Jorge Ben Jor, Jair Rodrigues e Tim Maia são apenas alguns exemplos que inspiravam os jovens dos anos 70. É claro que toda essa problemática vivenciada pela sociedade da época, apareceria nas letras das músicas produzidas então. Nada mais significativo do que Zumbi, um líder negro que lutava contra as injustiças perpetradas por uma sociedade escravocrata em prejuízo dos negros, ser justamente o tema central de uma canção composta por Jorge Ben Jor exatamente nesta época. Afinal de contas, Zumbi é um exemplo de luta, um exemplo de resistência a ser seguido.

A letra da música é bastante visual e, a cada estrofe cantada por Ben Jor, é natural que se imagine a cena que está sendo descrita. Aliás esta é a primeira atividade planejada para os alunos executarem, isto é, escutar a música atentamente e, somente com o auxílio da letra, descrever as imagens que a canção traz à cabeça.

Passada esta etapa, é chegado o momento de levantarmos o que os alunos já sabem, antes mesmo da exposição do conteúdo, sobre o tema da escravidão no Brasil. Aqui a ideia é estimular com perguntas bastante específicas, como por exemplo: porque a canção se chama Zumbi? O que vocês sabem sobre Zumbi dos Palmares? Como os negros eram trazidos da África para o Brasil? Com quais objetivos? Na canção ele menciona uma princesa negra, o que isso faz pensar? Porque o compositor menciona justamente plantações de cana-de-açúcar e café? O que vocês acham que são os nomes Angola, Congo, Benguela, Monjolo, Cabinda, Mina, Quiloa e Rebolo, que ele repete em toda a canção? Havia formas de resistência à escravidão que era imposta aos negros? Que tipo de herança deixou ao Brasil e aos brasileiros a presença de africanos por tantos séculos no Brasil? Podemos falar de heranças culturais e de uma participação marcante na elaboração de uma identidade brasileira? Enfim, todo tipo de pergunta que a canção pode suscitar e o professor queira explorar na aula expositiva.

Feito o debate inicial, sugere-se a apresentação do videoclipe que contém imagens com um posicionamento bastante claro sobre o tema. O objetivo é, sob um determinado ponto de vista, tentar endereçar as questões feitas antes da exibição do vídeo para, após a conclusão desta etapa, promover novo debate sobre o que acham após terem visto as imagens apresentadas. Por fim, tendo realizado todas as etapas e desenvolvido junto com os alunos um conteúdo inicial, o professor utiliza todo este material para fazer sua exposição de conteúdo, sem se esquecer de utilizar os pontos trazidos pelos alunos e adotar uma postura crítica em relação à própria letra da música, seu compositor e o momento em que fez a canção, além do videoclipe em si, as imagens que foram selecionadas para compô-lo e as diferentes perspectivas que podem ser observadas ao abordar este tema.

Ufa… eis aí, à grosso modo, alguns passos para a preparação de uma aula de história.


LETRA
Zumbi – Jorge Ben Jor

Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há
Um princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados num carro de boi
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola Congo Benguela
Monjolo Cabinda Mina
Quiloa Rebolo
Aqui onde estão os homens
Dum lado cana de açúcar
Do outro lado o cafezal
Ao centro senhores sentados
Vendo a colheita do algodão tão branco
Sendo colhidos por mãos negras
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
È senhor das demandas
Quando Zumbi chega e Zumbi
É quem manda
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver

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Música gospel e Lei Rouanet: a verdadeira pornografia

Dia 09/01/2012 não ficou marcado “apenas” pela agressão do policial ao estudante da USP, mas também pelo fato de a presidenta Dilma Rousseff ter sancionado Lei que transformou a música gospel em manifestação cultural.

A alteração na lei número 8.313, também conhecida como Lei Rouanet, incluiu o artigo 31-A, que diz textualmente: “Para os efeitos dessa Lei, ficam reconhecidos como manifestação cultural a música gospel e os eventos a ela relacionados, exceto aqueles promovidos por igreja.”

Na prática, essa alteração permite que a música gospel e eventos relacionados com este segmento sejam beneficiados por incentivos fiscais. Isso mesmo, a partir de agora, dinheiro do contribuinte poderá ser utilizado para financiar shows e demais eventos de música gospel.

Para mim foi impossível não relacionar a alteração da Lei Rouanet com notícia que abalou o mundo evangélico nesta semana, divulgada na Revista Salvador e que chegou a mim através do blog do Marcelo Rubens Paiva: o PORNÔ GOSPEL. Segundo a reportagem, os organizadores da indústria cinematográfica pornô-cristã, revelaram que os filmes produzidos deverão ser fundamentados no maior respeito, chegando a estabelecer regras para as filmagens (abaixo segue link para reportagem da revista na íntegra).

A relação pode não parecer óbvia, mas para este que vos fala a verdadeira pornografia gospel foi a alteração da Lei Rouanet e não esta besteira de indústria pornográfica cristã. Vai dizer que não é uma baixaria saber que daqui por diante, amparadas por esta lei, as milionárias Igrejas neo-petencostais vão recorrer a dinheiro público para bancar seus eventos? Já houve quem me dissesse que essa alteração não passou de uma questão de igualdade de tratamento, uma vez que a Lei de Incentivo já considerava como manifestação cultural músicas ligadas a outras denominações religiosas, tais como músicas afrobrasileiras ligadas ao candomblé. Acho desnecessário me aprofundar muito em dizer que tal comparação é descabida, seja pela quantidade de dinheiro movimentada por produções ligadas ao Candomblé e as produções dos evangélicos, seja pela riqueza da cultura africana e afrobrasileira quando comparada com a assim denominada “cultura gospel”.

Já recebi mensagens de evangélicos trazendo definições de dicionários para o verbete “cultura”, justificando e comemorando a sanção da nova lei. Embora eu mesmo reconheça que a definição seja própria para a produção deste grupo específico de pessoas, ainda assim não concebo que a Lei Rouanet incentive eventos de música gospel. Em país que se diz laico, injetar dinheiro público em eventos religiosos é, além de uma grande contradição, uma verdadeira pornografia.

ARTIGOS RELACIONADOS:

Íntegra da Lei 12.590, de 09 de janeiro de 2012

Folha – Dilma sanciona artigo que fortalece música gospel na Lei Rouanet

Marcelo Rubens Paiva – Oh! God.

Revista Salvador – Filme pornô cristão

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