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Vivemos em uma sociedade doente que odeia conviver com suas crianças

Recentemente, eu e minha namorada decidimos ir até uma loja em um Shopping Center de São Paulo comprar um DVD para passarmos a noite de sábado assistindo a um bom filme, comendo pipoca e tomando vinho quando nos deparamos com um estabelecimento, ao lado de uma livraria, que parecia ser um Salão de Belezas para crianças. Neste local, uma menina que aparentava ter aproximadamente 3 ou 4 anos fazia as mãos em uma manicure, enquanto outra garotinha, com algo em torno de 6 anos, cortava os cabelos, fazia maquiagem e punha algum produto químico nas madeixas. Não vimos a presença dos pais dessas crianças no dito estabelecimento, o que nos fez julgar que, enquanto pais e mães faziam suas compras no shopping, manicures, cabeleileiros e animadores entretiam as crianças. No fim, após passarem algumas horas no shopping, os pais passavam no caixa e pagavam a conta pela comodidade de não terem que cuidar dos próprios filhos.

Uma das críticas que faço aqui, é voltada ao serviço dos “animadores de crianças” como símbolo de uma sociedade que não quer mais conviver com suas crianças. Eu não tenho filhos, apesar disso convivo com crianças devido a carreira que escolhi seguir como educador. Fiz estágio em escolas públicas e dei aulas de reforços para alunos da classe média-alta de São Paulo (Santo Américo, Pio XII, Miguel de Cervantes, Porto Seguro, etc. etc.). Além disso, tenho sobrinho e sobrinhas e vivo com uma pessoa que há anos dá aulas em escolas públicas, cursinhos e escolas particulares. Por isso acredito que ambos temos alguma propriedade ou conhecimento de causa quando falamos que esta sociedade não quer criar os próprios filhos. Pior que isso, é uma sociedade que não quer sequer conviver com eles.

A cada ano, é perceptível a presença cada vez maior de gente especializada em serviços para cuidar de crianças enquanto os pais trabalham ou fazem outras coisas. Quando dava aulas de reforço para os meninos da classe média-alta, sempre me surpreendia ao ver crianças de 10 a 14 anos com agendas repletas de segunda a sábado. Além da escola, tinham que fazer curso de um ou dois idiomas, aula de um ou dois instrumentos musicais, natação, balé, academia, etc. etc. Essas crianças diziam para mim que iam mal na escola, pois não tinham tempo de ler suas apostilas de História. O único horário que tinham disponível em suas agendas, e mesmo assim, nem todos os dias, era entre as 19h e as 22h, quando não queriam fazer nada, apenas ver TV ou jogar videogame. O que é perfeitamente compreensível.

Crianças que passam mais tempo com babás, seguranças, motoristas, guarda-costas, empregadas domésticas, professores de todos os tipos, personal trainers, e uma série de outros profissionais especializados do que com seus próprios pais. Durante a semana, no fim do dia, nos parcos momentos em que teriam para desfrutar da companhia dos pais, estes ainda estão trabalhando em seus empregos, ou levam serviço pra casa e se trancam em seus escritórios, enquanto os filhos, por sua vez, se trancam em seus quartos (isso quando os pais simplesmente não preferem ficar dormindo ou descansando em seus quartos). Dentro de casa, é comum que pais e filhos não convivam em um mesmo ambiente. Mal fazem uma refeição juntos. Um símbolo emblemático disso é que, em muitas casas, já é bastante comum que as salas de estar não tenham mais uma televisão. Estes aparelhos estão nos respectivos quartos das crianças e do casal.

Já no fim de semana, quando pais e filhos acabam saindo juntos e indo aos shoppings, os pais deixam seus filhos em Lan Houses ou nos salões de estética para crianças, como aquele que critiquei no início deste post. Segundo os depoimentos de alguns pais, é necessário que eles “dediquem algum tempo a si mesmos” e que possam desfrutar de “algumas horas de paz” no fim de semana. Ou seja, o convívio com as crianças não é visto como “um momento de paz”.

Isso fica ainda mais evidente quando chegamos na época das férias escolares, o verdadeiro terror de muitos pais. É sempre aquele grande problema descobrir o que fazer com os filhos que vão passar mais tempo em casa. É comum vermos nos telejornais matérias dando opções aos pais de onde levar os filhos durante as férias. Programas educativos, museus, clubes, exposições, atividades mil que ocupem o tempo das crianças e as tirem de dentro de casa, mesmo nos fim de semana, enquanto os pais podem estar ausentes realizando suas atividades cotidianas ou, simplesmente, tendo alguns momentos de paz. Vejam alguns exemplos abaixo:

Todo este cenário pode ser observado mesmo por quem não tem filhos ou não seja educador. Basta observar a sociedade em que vivemos. Ao deparar-me com o salão de beleza para meninas de 3 a 10 anos, não pude deixar de imaginá-lo como símbolo mais que apropriado de uma sociedade que prefere pagar, e pagar caro, para que alguém passe tempo com seus filhos. Como professor e educador do filho alheio, convivo com isso cotidianamente. Há mesmo uma queixa constante entre diretores, coordenadores pedagógicos e de todo o professorado à respeito dos pais que não conseguem passar os valores básicos do convívio social para suas crianças, acreditando que isso é dever das escolas.

Além dessa, há outra crítica explícita no meu status, que é a sexualização precoce das meninas. Cada vez mais cedo vemos crianças de 3, 4 ou 5 anos se fantasiando de mulheres. Linhas de maquiagens sendo desenvolvida por empresas de cosméticos para atenderem crianças com menos de dez anos. Crianças nessa faixa etária tingindo cabelos, falando de cirurgias plásticas, desejando ter o corpo mais assim ou mais assado, praticando o bullying com “gordinhas” ou “feinhas” que não se adaptam ao modelo de beleza que constantemente veem na televisão ou em suas próprias bonecas. Ou seja, uma sociedade na qual mulheres menores de idade são objetificadas até mesmo com mais frequência do que as adultas.

Segundo notícia da Reuters divulgada pelo Estado de S. Paulo, entidade estadunidense alerta para sexualização das meninas na TV. Na reportagem, é tocante o depoimento da ex-modelo Nicole Clark, que fez um documentário em 2008 intitulado “Cover Girl Culture: Awakening the Media Generation”.

“Nossas meninas estão sendo objetificadas sexualmente a partir dos 6 anos”, disse Clar, que está grávida e chorou diversas vezes durante a apresentação. “Como que as coisas ficaram tão loucas?”.

“Executivos do mundo televisivo estão roubando a inocência das crianças — se alimentando delas — disse, e suas vítimas não são fortes o suficiente para rejeitar as mensagens destrutivas.”

Nos Estados Unidos, recentemente, a Walmart anunciou uma linha de cosméticos dirigida a crianças de 8 a 12 anos. Faixa etária que a gigante dos supermercados chama de “Tween”, e que movimenta cerca de 24 milhões de dólares por ano em produtos de beleza. Uma sexóloga e escritora consultada pela rede de TV ABC, dos Estados Unidos, lembrou sobre o estímulo precoce à vaidade:

“Não há problema em se maquiar para imitar as mães”, declarou Logan Levkoff . “Mas estamos criando uma geração que mede seu valor apenas pela aparência”.

Abaixo destaco algumas reportagens que tratam sobre esse assunto:

Além das reportagens, recomendo muito o documentário intitulado CRIANÇA A ALMA DO NEGÓCIO, dirigido pela cineasta Estela Renner e produzido pelo Instituto Alana, que discute a superexposição de crianças a mensagens publicitárias que são, cada vez maia, dirigidas especificamente a elas (mesmo para produtos como carro ou geladeiras). Abaixo disponibilizo uma versão editada de dez minutos (o documentário tem por volta de 47 minutos).

Embora o documentário todo seja interesossantíssimo, especialmente para quem tem filhos, para a discussão que estou fazendo recomendo que adiantem o filme até 0s 5:08 min do video no YouTube. Ali é feita a discussão sobre o uso de maquiagem e os procedimentos de estéticas com crianças já a partir dos 3 anos de idade.

Enfim, ao deparar-me com o tal salão de belezas para crianças, não pude deixar de imaginá-lo como símbolo de uma sociedade doente que odeia conviver e passar tempo com suas crianças. A pergunta final que ainda bate em minha cabeça é: quando foi que passamos a odiar nossas crianças? Continuaremos a deixá-las de lado ao invés de integrá-las de fato em nossa sociedade?

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Entrevista com Giorgio Agamben: Deus não morreu, transformou-se em dinheiro

O Blog da Editora Boitempo disponibilizou a íntegra da tradução de uma entrevista do filósofo italiano Giorgio Agamben (concedida a um veículo italiano [Ragusa News] em 16.08.2012) no qual ele fala sobre o capitalismo, as crises na Europa e sobre História.

Segundo o blog da Boitempo, “Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.”

O Hum Historiador traz a íntegra dessa excelente entrevista, por acreditar que sua leitura é fundamental para quem quer compreender um pouco melhor as ideias de Agamben sobre o funcionamento do capitalismo, sobre as crises na Europa e tomar contato com o pensamento deste filósofo.

A tradução é de Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC [e tradutor de três das quatro obras de Agamben publicadas pela Boitempo].

Giorgio Agamben (2009)

***

O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itália. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado têm um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.

O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.

Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.

A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma  da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.

O mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição italiana ou é de algum modo inevitável?

Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.

O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmeras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão.

A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro será melhor do que o presente?

Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.

Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação  de como sair do xeque-mate no qual a arte contemporânea está envolvida.

Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.

Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.

Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercantilização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances em museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

***

Sobre o autor

Giorgio Agamben nasceu em Roma em 1942. É um dos principais intelectuais de sua geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin. Deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos. Foi diretor de programa no Collège International de Philosophie de Paris. Mais recentemente ministrou aulas de Iconologia no Istituto Universitario di Architettura di Venezia (Iuav), afastando-se da carreira docente no final de 2009. Sua obra, influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt, centra-se nas relações entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, política. Entre seus principais livros destacam-se Homo sacer (2005), Estado de exceção (2005), Profanações (2007), O que resta de Auschwitz (2008) e O reino e a glória (2011), os quatro últimos publicados no Brasil pela Boitempo Editorial.

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São Paulo e o conservadorismo que ainda louva os Bandeirantes

Vou contar um caso que acaba de acontecer comigo neste exato momento e que demonstra o nível do conservadorismo aqui no Tucanistão, cidade também conhecida pelo nome de São Paulo.

Placa que marca o túmulo de Fernão Dias Paes Leme, no Mosteiro de São Bento. Fonte: http://www.piratininga.org

Em pleno ano de 2012, indivíduo que mantém uma página chamada Sampa Histórica, posta foto do túmulo do Fernão Dias Paes Leme no Facebook, com um texto de elogios ao Bandeirante. Quando confrontei o mesmo perguntando sobre a razão de ele não postar as fotos de túmulos dos índios trucidados durante as Bandeiras, a resposta foi:

“Se você souber onde é, posso ir tirar… Os portugueses também mataram tantos índios quanto os bandeirantes, e porque não vejo críticas aos colonizadores?”.

Ou seja, justifica o assassinato dos índios pelos bandeirantes, pois portugueses também mataram índios e pouca gente critica…. Lógica “perfeita” (não para os índios, claro).

Para complementar o que já estava péssimo, outro indivíduo acessa a foto, vê a discussão e deixa o seguinte comentário:

“Mas como todos sabem, a nossa História é uma História de minorias… Há o túmulo de um índio na Praça da Sé também, na Catedral da Sé, do Cacique Tibiriçá, o ancestral de muitos paulistas. Se ficarmos remoendo o sangue do passado, nunca seremos patriotas, a nossa pátria sempre será “menorizada” diante das outras pátrias. Todos os países tiveram histórias violentas…”.

O uso de termos como “PATRIOTAS” e “PÁTRIA” para se referir a São Paulo, além da conclusão “todos os países tiveram histórias violentas”, me deixaram tão enfurecido que imediatamente retirei o comentário que havia feito na dita postagem.

Como é que se pode compreender um indivíduo que justifica o assassinato de um grupo com o argumento de que outros também assassinavam aquele mesmo grupo e ninguém disse nada??? Ou então, como dialogar com o outro indivíduo que acredita que São Paulo é uma pátria e argumenta que temos que valorizar e nos orgulhar da história violenta de nossa cidade, pois caso contrário jamais seremos patriotas e “nossa pátria” será inferiorizada por outras??? Esse não é o argumento que os israelenses usam para massacrar os palestinos???

Então é isso mesmo??? Vamos dar loas à violência, ao assassinato e ao extermínio étnico porque somos patriotas??? Este é mesmo o pensamento dos paulistanos??? QUE VERGONHA DE TER NASCIDO NESSA TERRA!!!!! Jamais quero ver MINHA HISTÓRIA e MEU NOME misturado com esse tipo de pensamento só por que nasci aqui. Esse é o tipo de pensamento e comportamento que está por trás daqueles que desejam criar e explorar essas identidades regionais para outros fins. O que torna especial um gaúcho, um paulista e um mineiro? A história desses lugares ou o seu caráter???

Pátria Que Pariu, pelo cartunista Tonho em  http://6vqcoisa.blogspot.com.br/2011/03/patria-que-pariu.html

Que fique claro a quem não é paulista ou paulistano: por favor, não me confundam com essas pessoas. Eu só nasci aqui, mas não penso como elas, muito pelo contrário, faço tudo o que posso para divulgar ideias completamente opostas a essas em tudo o escrevo. Podem até me acusar de que não sou patriota. Que me acusem!!! Não sou mesmo e sinto prazer em não sê-lo. Como dizia a música Lugar Nenhum, dos Titãs: “nenhuma pátria me pariu!” São Paulo não é pátria de ninguém, é só mais um lugar triste nesse mundo medonho que construímos e na qual, a cada dia que passa, tenho menos vontade de viver.


PS: Depois que publiquei este post em meu blog, o administrador da página ficou ofendido porque decidi fazer meus comentários neste fórum. Por conta disso, criou uma nova postagem na página dele, onde os apoiadores sentiram-se à vontade para fazerem comentários sobre minha pessoa: incompetente, invejoso, incapaz e muito chato são alguns dos elogios que estou recebendo.

Lembrei de um poema do matogrossense Manoel de Barros, a quem gostaria de dedicar aos colegas do Sampa Histórica. Mal sabem que tal como o poeta, sou fraco pra elogios.

POEMA
por Manoel de Barros

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

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A obscenidade da F1, a fome e Sísifo

Nesta semana muita gente festejou a notícia de que Bruno Senna vai permanecer por mais um ano no circo da Fórmula 1, após ter conseguido uma vaga na escuderia Williams. Infelizmente não posso celebrar tal notícia ao tomar conhecimento de que foi necessário comprar, à peso de ouro, esta vaguinha no cockpit da Williams. Nada contra Bruno Senna, que até parece ser um rapaz simpático e é só mais um que usa do expediente de recorrer a patrocinadores bilionários que tem na Fórmula 1 o seu hobby. Outro brasileiro que fez o mesmo no passado foi Pedro Paulo Diniz, filho de ninguém menos do que Abílio Diniz.

No caso mais recente, o negócio foi realizado por um pool de bilionários formado por OGX (Eike Batista), MRV (Rubens Menin) e Embratel (Carlos Slim), além da Procter & Gamble. Segundo levantou a reportagem da Folha de S. Paulo, especula-se que o valor para garantir a permanência de Bruno Senna na Fórmula 1 tenha girado em torno dos R$ 30 milhões.

A verdade é que essa notícia me passaria despercebida, não fosse uma frase bastante infeliz proferida meses atrás por Eike Batista, sobre o que pretende fazer em relação à sua fortuna pessoal depois de compará-la à de seu colega (e copatrocinador de Bruno Senna), Carlos Slim: “Preciso competir com o senhor Slim. Não sei se vou ultrapassá-lo pela direita ou pela esquerda, mas vou passá-lo.”

A ultrapassagem a qual Eike Batista se refere não tem nada a ver com Fórmula 1. Segundo a Forbes, o Sr. Batista seria o oitavo homem mais rico do planeta, com uma fortuna pessoal estimada em US$ 30 bilhões, enquanto seu concorrente mexicano, dono de Claro, Embratel e Net, dentre outras, é o homem mais rico com uma fortuna estimada em US$ 72 bi.

Os números das fortunas dos senhores Batista e Slim, além de OBSCENOS, servem para explicitar AINDA MAIS a crueldade do sistema em que vivemos, especialmente por estes indivíduos virem de países tão marcados por injustiças sociais.

As normas do CAPITALISMO regem, como há séculos estamos aprendendo pela experiência,  que para ser possível a existência de alguns Batistas e Slims ao redor do mundo, é condição sine qua non a co-existência de milhões de pessoas vivendo na mais absoluta miséria. E, para não deixar de lembrar aqui o saudoso MILTON SANTOS, este desejo de Eike Batista em acumular mais outros tantos bilhões de dólares,  para ultrapassar seu concorrente nessa verdadeira competição macabra, escancara de vez que a questão da fome no mundo não deixa de ser uma questão de decisão. Apenas decidimos que alguns não devem comer. É, portanto, uma opção. Nós decidimos que seja assim.

Gosto demais da frase extraída do livro de JOSUÉ DE CASTRO, o Geopolítica da Fome, escolhida para abrir o trecho selecionado do vídeo acima: “A humanidade está dividida em dois grupos: o grupo dos que não comem e o grupo dos que não dormem, com receio da revolta dos que não comem.” 

O grande problema é que este segundo grupo conseguiu convencer o primeiro de que, para garantir a segurança de todos, eles deveriam deter o monopólio da violência. Não por acaso, todas as revoltas populares são reprimidas com extrema violência pelo braço armado que o grupo dos que não dormem criou para defender seus próprios interesses. Isso para não mencionar que este grupinho seleto conta ainda com o apoio inestimável de outros indivíduos, cooptados a fazer parte do grupo com o propósito de executarem a estratégica tarefa de se comunicar com “a ralé”.

O papel destes últimos é fazer com que os milhões e milhões que não pertencem ao grupo dos Batistas e Slims, acreditem na ilusão de que, se trabalharem duro e batalharem pra valer por toda a vida, talvez um dia possam fazer parte da patotinha. Estes agentes de que estou falando são ninguém menos do que os Marinhos, os Civitas, os Mesquitas, os Frias e toda essa gente boa que nos diz, cotidianamente, o que devemos assistir, ler e comprar, ou ainda, como devemos nos comportar e, até mesmo, o que devemos pensar a respeito de tudo o que acontece no mundo. Tal como no ensaio filosófico do mito de Sísifo, de Albert Camus, ao invés de nos rebelarmos, seguimos empurrando nossa pedra para cima do morro só para vê-la rolar para baixo e, no dia seguinte, voltar à árdua tarefa de empurrá-la novamente até o topo.

No capitalismo fomos transformados em seres condenados a realizar diariamente uma mesma tarefa enfadonha e sem sentido: viver.

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Década do desencanto

VLADIMIR SAFATLE escreveu hoje sua coluna semanal na Folha sobre os afetos que caracterizam cada época. Para ele, a década de 90 foi marcada pela euforia; já a década da virada do século XX para XXI, inaugurada com o 9/11, foi o medo quem prevaleceu e observa que é o desencanto quem parece que vai prevalecer na década que principiou com o ano de 2011. Ao falar sobre este ano que está se encerrando, destaca a força produtiva do desencanto, que levou muitas pessoas às ruas a reivindicarem a saída de líderes políticos em quem já não mais acreditavam.Sentimento que pode ser resumido pela frase: “Aqueles que transformaram 2011 no ano das revoltas sabem que todo verdadeiro movimento sempre começa com a mesma frase: “Não acreditamos mais”. Não acreditamos mais em suas promessas de desenvolvimento social, de resolução de conflitos dentro dos limites da democracia parlamentar, de consumo para todos.”

A conclusão a que Vladimir Safatle chegou em sua coluna foi bastante interessante e vale a pena ser reproduzida aqui:

“Mas todo acontecimento vem sempre acompanhado de um contra-acontecimento. Se o grande acontecimento de 2011 foi essa nova economia afetiva no campo político, o grande contra-acontecimento ocorreu na Grécia e na Itália: a expulsão dos políticos do centro de decisão em prol de meros estafetas do sistema financeiro.

Como se, de um lado, tivéssemos em marcha a dinâmica de reconstrução do político. De outro, sua anulação completa através da falácia gerencial de empregados do Goldman Sachs travestidos de primeiros-ministros. Estas são as duas vias às quais a década que agora nasce será confrontada.”

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Boas Festas

Bom amigos, tempo de festas e visitar parentes. Dia 27 teremos novos posts por aqui, por enquanto fica o meu Feliz natal e o desejo de ótimas festas a todos vocês.

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Boicotar a Festa do Livro da USP

Panfleto Original da Festa do Livro

Depois de doze anos de sucesso sendo realizada no prédio de História e Geografia da FFLCH-USP, a tradicional festa do livro deste ano não será realizada no mês de novembro naquele prédio. Segundo o grupo organizador da festa, que enviou e-mail a toda comunidade uspiana, o evento teve que ser adiado em razão de um problema de “LOGÍSTICA” e seria reagendado para uma nova data a ser confirmada. O tal problema de logística ao qual se referem os organizadores, foi a GREVE DE ESTUDANTES decretada logo depois da desastrada reintegração de posse realizada pela Polícia Militar que, após ser autorizada pelo reitor, invadiu o campus universitário prendendo 73 alunos que ocupavam a reitoria.

Claro que todos ficamos desapontados e sem entender o motivo do adiamento, uma vez que a greve, em si só, não era uma razão para adiar a realização da Festa do Livro. Vários outros eventos, como seminários, foram realizados nos prédios de História e Geografia da USP durante a greve sem nenhum problema de “segurança”, que era o principal receio dos organizadores.

Passamos a entender melhor a razão por trás do adiamento da Festa algumas semanas depois do aviso de adiamento. A reitoria da Universidade de São Paulo, através do grupo que organiza a festa do livro e de sua maneira tão característica, isto é, sem conversar com a comunidade, decidiu transferir o local de realização da tradicional Festa de Livros para os prédios da Mecânica e da Civil da Escola Politécnica da USP. Essa medida foi tomada claramente como forma de retaliação a greve dos estudantes e chega às raias do caricato por esta festa ser, em sua grande maioria, um evento que vende LIVROS DE HUMANIDADES com grandes descontos e se há um local onde esta festa deve ocorrer é nos prédios da FFLCH e não nos da POLI. Prova de que a reitoria está disposta a provocar e retaliar seus estudantes que ousaram reivindicar por mais democracia dentro da Universidade é o próprio panfleto divulgando a nova data e local da Festa, que traz em grande destaque a frase AGORA NA POLI. Não por acaso, a Poli foi uma das unidades da USP que não aderiu à greve dos estudantes logo depois da invasão da PM e a prisão de nossos colegas.

Assim, conclamo a todos que pretendiam ir à festa do livro a BOICOTAR o evento deste ano por acreditar que a Universidade não deve utilizar este evento da maneira política como está utilizando. Entendo perfeitamente que esta é uma oportunidade para que muitos estudantes comprem, pela metade do preço, aqueles livros caríssimos que ficam pegando nas bibliotecas o ano todo, mas é inadmissível que este evento seja utilizado pela reitoria CONTRA OS ESTUDANTES que reivindicam melhorias estrutura de poder da Universidade. O tom provocativo é óbvio e os estudantes devem responder esta provocação com BOICOTE. Espalhem a notícia, não vamos aceitar mais essa decisão arbitrária e provocativa do nosso magnífico reitor. BOICOTE JÁ.

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