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Novas tentativas de relativizar os efeitos da escravidão africana na formação de sociedades contemporâneas da América

Tenho constatado com muita preocupação o aparecimento de muitas pessoas que, tomando como base péssimos livros de “história”, opiniões de Olavo de Carvalho e outros tantos vídeos mal intencionados divulgados pela Internet, buscam minimizar os efeitos nefastos que a escravidão africana legou à formação de sociedades contemporâneas na América. Para isso, utilizam basicamente três argumentos:

  1. Já havia escravidão na África antes da chegada dos europeus;
  2. Os próprios africanos eram os que entravam no interior do continente para capturar outros africanos e vendê-los aos europeus;
  3. Europeus também foram escravizados por africanos entre os séculos XVI e XVIII.

O objetivo de quem usa esse tipo de argumentação é claro, buscam, sobretudo, deslegitimar políticas de ações afirmativas movidas pelo Estado que visam corrigir desigualdades atuais cujas raízes remontam ao sistema escravista europeu. Ao fim de suas argumentações, quase sempre concluem acusando os afrodescendentes de serem “vitimistas” ou “coitadistas” que buscam tirar vantagens a partir da história de sofrimento de seus antepassados.

Pois bem, para não cairmos nessas falácias e argumentações rasas, considero que seja bastante importante dar um pouco mais de atenção a este assunto por aqui, pois percebi que ainda hoje há uma série de pessoas com muitas dúvidas na cabeça em relação ao tema.

Em primeiro lugar, e acho que nem precisaria dizer isso aqui, mas há quem questione quando não vê isso explícito em meus textos. Não estou discutindo a moralidade da escravidão, isto é, se a escravidão negra foi moralmente pior do que a branca ou vice-versa, nem tentando argumentar qual foi mais repugnante que a outra. Não se trata disso. Do ponto de vista moral e, sobretudo, por eu ser um homem da virada do século XX para o XXI, é evidente que eu julgo qualquer tipo de escravidão condenável. No entanto, a discussão a seguir é sobre os efeitos que o histórico da escravidão africana legou à conformação de sociedades americanas tais como o Brasil e os Estados Unidos, por exemplo, e não qual escravidão é pior ou melhor que outra.

Em seguida, é preciso lembrar que a escravidão existe desde a antiguidade, podendo ser observada na formação das diferentes sociedades do mundo antigo como os hititas, os babilônios, os egípcios, os gregos e os romanos, por exemplo. No entanto, a forma de escravização do mundo antigo estava relacionada com as guerras e batalhas que essas sociedades moviam umas contra as outras. Os indivíduos que fossem capturados em batalha, bem como mulheres e crianças presos após uma guerra, eram escravizados pelos vencedores. Não havia, por assim dizer, uma busca continuada por escravos em um determinado lugar para oferecê-los em um mercado e comercializá-los para servirem de mão-de-obra em outro.

Portanto, assim como existia no mundo antigo na Europa e no Oriente Médio, a escravidão também existia na África e na América mesmo antes dos europeus haverem chegado nesses continentes. Populações desses locais também moviam guerras contra seus inimigos e, aqueles que fossem capturados em batalhas, eram escravizados e obrigados a realizar trabalhos forçados, quando não fossem sacrificados em algum ritual religioso.

No entanto, com a chegada do europeu nos continentes africano e americano no decorrer do século XV, a escravidão mudará completamente de feição. Tanto que os historiadores passam a denominá-la de escravidão moderna para diferenciá-la do modelo antigo de escravidão praticado antes dela.

Com a descoberta de ouro e prata na América e o início da colonização europeia no continente, que trouxe consigo as grandes plantações de cana-de-açúcar, tabaco e outros produtos para abastecer o mercado europeu, logo se viu que seria necessário o emprego de grande número de mão-de-obra. Embora alguns nativos do continente americano tenham trabalhado, compulsoriamente ou não, nesses empreendimentos europeus, a demanda pelos produtos americanos eram tão grandes, sobretudo a de ouro e prata, que exigia o emprego cada vez maior de mão-de-obra. Como se sabe, a solução encontrada foi o emprego de escravos que, aprisionados na África, eram transplantados para a América a fim de trabalharem nas minas e plantações. A seguir, o mapa com as principais rotas do tráfico negreiro entre os séculos XVI e XIX.

Rotas do trafico negreiro

Principais rotas do tráfico negreiro entre séculos XVI e XIX.

Aqui é importante lembrar que a Igreja Católica teve um papel fundamental na determinação de que o escravo empregado nos trabalhos na América fossem africanos, uma vez que ela proibia a escravização de indígenas por considerar que esses grupos ainda não conheciam o cristianismo e deveriam ter a oportunidade de se catequizar. Por outro lado, a escravização dos africanos era justificada pela Igreja como um castigo divino, uma vez que os diversos povos daquele continente já havia travado contato com o cristianismo e, ainda assim, preferiam manter suas religiões politeístas ou o islamismo.

Vê-se, desta forma, que a escravidão moderna tinha três aspectos que lhe são bastante característicos:

  1. O escravo era uma mercadoria que podia ser comercializada e herdada;
  2. A existência de um mercado de escravos transatlântico;
  3. A racialização da escravidão.

Analisadas em conjunto essas características revelam a existência de um verdadeiro sistema escravista que nos permite compreender a razão de mais de 12 milhões de africanos terem sido violentamente aprisionados, escravizados e trasladados para outros continentes: o acúmulo de riquezas na Europa. A escravidão moderna, portanto, é apenas uma engrenagem de um sistema muito mais amplo cujo principal fim era garantir o enriquecimento das monarquias europeias e dos muitos envolvidos nas atividades de exploração e colonização do continente americano.

Com isso em mente, podemos voltar à questão que deu origem a este post, isto é, o fato de algumas pessoas pretenderem minimizar os efeitos da escravidão africana na conformação de sociedades contemporâneas, tais como o Brasil e os Estados Unidos, por exemplo, argumentando que já havia escravidão na África muito antes de os europeus chegarem ao continente; que mesmo durante os séculos XV e XIX eram os próprios africanos quem aprisionavam os escravos para comercializá-los aos europeus e, por fim, que norte-africanos também escravizaram europeus por séculos, fazendo-os trabalhar compulsoriamente no norte da África.

Ora, como vimos, a escravidão antiga difere grandemente da escravidão moderna, de modo que alegar que já havia escravidão na África antes de os europeus chegarem ao continente, não diminui o fato de que o sistema escravista criado pelos europeus a partir do século XV foi o responsável pela transposição dos milhões de africanos para o continente africano e, em decorrência disso, pelas consequências do escravismo na formação das distintas sociedades americanas onde houve uso em grande escala de mão-de-obra africana. Mesmo a escravidão promovida pela expansão muçulmana sobre a Península Ibérica, por exemplo, pode ser classificada como uma escravidão de tipo antigo, uma vez que os europeus escravizados eram os indivíduos capturados após terem sido derrotados em batalhas, para não mencionar a existência de um mercado escravista.

Quanto à segunda argumentação, o fato dos próprios africanos irem ao interior do continente para aprisionar e, posteriormente, comercializar os prisioneiros como escravos aos europeus, ela apenas indica mais um agravante do sistema escravista criado pelos europeus que, ao entrar em vigor, transformou o modo de escravidão antiga que existia na África, para atender suas demandas e interesses. É a existência do mercado transatlântico de escravos que demanda a necessidade crescente de mão-de-obra e, por conseguinte, a busca de novos escravos no interior do continente africano. Se antes da chegada do europeu os escravos eram apenas aqueles que eram capturados nas batalhas constantes entre os diversos grupos que viviam na região, agora a captura de pessoas buscava, sobretudo, atender ao mercado negreiro.

Por fim, quanto a última argumentação, a de que norte-africanos muçulmanos escravizaram europeus por cerca de três séculos, uma vez mais se faz necessário comparar os modelos de escravidão empregados pelos norte-africanos e pelos europeus. No caso dos primeiros, trata-se de corsários que capturavam embarcações no Mar Mediterrâneo e aprisionavam suas tripulações, levando-as como escravos para trabalharem onde atualmente se encontram o Marrocos, a Líbia, a Tunísia e a Argélia. Outra forma de se obter escravos eram os ataques surpresas movidos a cidades europeias localizadas nas costas do Mediterrâneo ou do Atlântico, capturando centenas de pessoas que tinham o mesmo destino das anteriores.  Recentemente, Robert Davis, um historiador que estuda o tema levantou uma estimativa, bastante incerta, de que cerca de um milhão de europeus possam ter sido escravizados por norte-africanos entre os séculos XVI e XVIII (ver matéria sobre o assunto publicado na Folha e no The Guardian). No entanto, esses corsários não atacavam apenas europeus, mas também eslavos e africanos da costa oeste, o que torna os números reais de europeus ocidentais escravizados bastante controverso. Independentemente disso, deve-se considerar que no caso da escravidão promovida por norte-africanos:

  1. Os escravos eram capturados em ataques promovidos pelos corsários em mar ou na terra;
  2. Não havia um mercado de escravos;
  3. A escravidão não era racializada.

Tais características acabaram por determinar não apenas um número bastante menor de escravos europeus levados para o norte da África, mas também não teve consequências significativas para a formação de sociedades contemporâneas quer na África, quer na Europa Ocidental, ao contrário do que ocorreu no caso África – América. Assim, quando argumentar que os africanos escravizaram europeus buscando minimizar os efeitos da escravidão africana em sociedades contemporâneas na América você sempre poderá contestar perguntado:

  1. Há, ainda hoje, algum efeito perceptível da escravidão promovida por africanos a europeus nas sociedades americanas onde a força de trabalho desses escravos foi empregada?
  2. Nas sociedades americanas atuais, há descendentes desses europeus que foram escravizados por africanos que sejam discriminados em decorrência desse passado escravista?

As respostas a essas perguntas, evidentemente, serão dois “nãos”, o que nos ajuda a concluir facilmente que erra quem pretende minimizar os efeitos da escravidão africana em sociedades americanas contemporâneas argumentando que os africanos escravizaram europeus, já que os modelos de escravidão empregados por europeus e norte-africanos eram bem distintos e, como não podia deixar de ser, os efeitos da escravidão promovida por estes últimos é pouco significativa se comparada aos efeitos da escravização europeia que, ainda hoje, marcam profundamente a vida de afrodescendentes nascidos na América.

Espero que esse post possa ter contribuído para esclarecer algumas dúvidas em relação aos modelos de escravidão empregados na antiguidade e na época moderna, bem como possa ajudar a refletir quando alguém pretender minimizar os efeitos da escravidão africana na formação de sociedades americanas contemporâneas argumentando a ocorrência de escravidão de europeus e que eram os próprios africanos que escravizavam os africanos. Como disse o poeta, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva, em entrevista à BBC Brasil, penso que…

(Foto: Guilherme Gonçalves/ABL)

“o importante não é que haja cota na universidade. Acho que tem de haver cota em tudo. Se você vai se candidatar a um cargo de atendente de hotel de primeira classe, se você for negro, você tem dificuldade. O preconceito é discriminatório. Ele não impede você de usar o mesmo banheiro, o mesmo bebedouro, mas dificulta o acesso (do negro) às camadas das classes média e alta”.

Para concluir gostaria de deixar um vídeo que preparei como material complementar às minhas aulas de escravidão africana no ensino fundamental e médio. Já havia preparado um post sobre este material aqui, mas entendo ser pertinente deixar o vídeo aqui também.

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Documentário They Are We, de Emma Christopher, estabelece conexão cultural entre Cuba e Serra Leoa

Interessante matéria de Emma Christopher, publicada em abril na revista The Atlantic, destaca como o documentário They Are We, de Sérgio Leyva Seiglie, teria ajudado alguns cubanos a descobrirem que são descendentes de escravos sequestrados de uma pequena aldeia localizada em Serra Leoa.

De modo geral, a descoberta se deu há alguns anos, quando o chefe de uma pequena aldeia de Serra Leoa viu que um grupo de cubanos dançavam e cantavam canções em uma língua que, para eles próprios, era desconhecida, todavia muito familiar ao chefe Pokawa da vila de Mokpangumba.

Embora a matéria tenha o claro interesse utilizar essa história para fazer uma crítica ao governo de Cuba (especialmente no período de Fidel Castro), ainda assim achei que valia a pena traduzi-la e repercuti-la aqui no Hum Historiador, pois muitos dos leitores do blog não conseguem identificar nos posts que publico as relações entre o passado de um país que viveu intensamente o regime de escravidão e o presente. Não enxergam, sequer, as ligações entre América-África a partir de seu produto mais óbvio, a herança cultural africana que, após séculos e séculos de sucessivos ataques, ainda persiste.

Abaixo segue uma tradução livre que preparei da matéria tal como foi publicada na revista.

COMO MORADORES DE VILAREJOS DE CUBA DESCOBRIRAM QUE SÃO DESCENDENTES DE ESCRAVOS DE SERRA LEOA

A incrível história das canções e danças tradicionais, passadas por séculos, que ligaram um pequeno grupo étnico caribenho a uma remota tribo africana.

por Emma Christopher | publicado originalmente em 22 de abril de 2013 para The Atlantic

Barmmy Boy Mansaray, é um cameraman de Serra Leoa que trabalhou para o documentário “They Are We”. (Sergio Leyva Sieglie)

O chefe Mabadu Pokawa mal pode acreditar. Sua voz oscilava um pouco entre espanto e esperança, perguntando onde eu havia gravado as canções e danças que ele estava assistindo na tela de meu laptop em sua pequenina e isolada aldeia em Serra Leoa.

Há uma razão para sua descrença. Quando as pessoas da tela não estão cantando em uma língua que, de outro modo, já foi esquecida há muito tempo, estão falando o espanhol rápido à maneira cubana. Eles claramente não são da aldeia de Pokawa, onde poucos falam o inglês dos que passaram pelas escolas e ninguém fala o espanhol.

No entanto, por tudo isso, as pessoas de Perico, Cuba são daqui. São gente de Pokawa, ancestrais que foram exilados séculos atrás como escravos.

A vila de Mokpangumba do chefe Pokawa é implacavelmente pobre, condenada pela geografia assim como pela história. Deixada de fora das estradas ao redor pelas curvas e voltas do rio Taia, seus moradores não tem outra água se não a do fluxo acastanhado do rio e também não contam de nenhum modo com instalações sanitárias. Eletricidade está aquém de suas aspirações. Pokawa, como a maior parte dos homens, planta para sua subsistência, cultivando arroz, inhame e banana para suplementar o peixe que retira do rio.

Agora Pokawa e seu povo estão prontos para celebrar o retorno daqueles que se acreditava há muito terem se perdido. Os habitantes da vila estão todos ocupados se preparando. Cabanas estão sendo preparadas para os visitantes e sacos vazios de arroz estão sendo recheados com folhas para o preparo dos colchões. Um banheiro rudimentar foi cavado e algumas colheres foram colhidas para as refeições, cientes de que os visitantes estão acostumados a tais luxos. Insistindo que eles mesmos contribuem para a celebração pela chegada dos cubanos, os anciãos da vila deram metade do peixe necessário para um banquete para 800 pessoas. Uma coleção de contas sujas de pequeno valor foi tomado para pagar por metade do óleo de palma e pimentas que serão necessárias.

Eles foram inflexíveis sobre todos terem ido embora. Pessoas que cantam as canções da vila – ritmos e melodias que os unem a essa aldeia inacessível – são considerados gente da família. “Nossos avós que nos contaram as histórias sobre nossa gente indo daqui como escravos, sabemos agora que eles não estavam mentindo,” disse Joe Allie, um ancião da villa e tio de Pokawa.

“Esses devem ser nosso povo, “ diz Solomon Musa, um jovem que trabalha como professor na vila, “quando vimos as pessoas que praticam as mesmas coisas que nós costumamos fazer, ficamos muito felizes e cheios de alegria.”

Há uma ideia generalizada de que os africanos são indiferentes ao destino dos descendentes de escravos espalhados pelas Américas. Essa crença nasce em grande parte da tragédia de que a vasta maioria dos que saíram com a diáspora africana ficaram com muito pouco das línguas específicas, culturas, ou crenças que poderiam uni-los a um lugar particular de origem. A insensibilidade total da escravidão, a destruição sem fim das famílias, e o enorme peso das décadas que se passaram contribuíram para atenuar muito do que originalmente cruzou o oceano com os seus antepassados. Na ausência desses laços, alguns afro-americanos tem ido a locais centrais de comemoração, tais como a Ilha Gorée ou o Castelo Cape Coast, em busca de tudo o que foi perdido. Aqueles que esperaram por uma conexão individual com a terra de origem tem, por vezes, relatado um certo desapontamento com esses lugares. Eles são áreas de turismo, no fim das contas. Além disso, a pele escura aqui é norma, de modo que ela só é muito pouco para simbolizar parentesco ou afinidade se não estiver amparada por uma língua, cultura ou experiência partilhada.

Pokawa e seu povo, em contrapartida, encontrou alguns dos seus parentes perdidos nas Américas. Este pequeno grupo de pessoas em Cuba – um país que eles pouco ouviram falar a respeito – cantando e dançando suas músicas, foi um presente de Deus. Ou, mais apropriadamente, de Deus e Allah, ambos adorados aqui lado a lado. Mantidos de fora da mídia e de quase todo sistema educacional do ocidente, para eles as pessoas tomadas como escravas para o comércio transatlântico de escravos ainda são chamadas por seus nomes antigos, invocadas como os perdidos. Havia Gboyangi. Bomboai. Havia uma garota jovem que estava prestes a se casar.

Teaser oficial do documentário THEY ARE WE  de Emma Christopher no Vimeo.

Mas, com meu ceticismo acadêmico, duvidei que poderia ser verdade. Retornei a Cuba e aos arquivos e registros, buscando por alguma evidência escrita de como isso deve ter acontecido. A história inteira, exata provavelmente jamais será recuperada, mas uma mulher específica e seus descendentes preservaram uma série de canções e danças parecidas o bastante para serem claramente identificadas.

O que nós sabemos é que havia uma garota chamada Josefa, sequestrada de sua terra natal na década de 1830, que sobreviveu muito mais do que os sete anos típicos dos engenhos cubanos, em meados do século dezenove. Na verdade, ela viveu até uma idade avançada, tempo suficiente para experimentar a liberdade, e ensinar a sua bisneta Florinda sua herança africana. Forinda, por sua vez, ensinou seu neto, que ela criou desde a infância. Seu nome é Humberto Casanova, agora ele mesmo um bisavô. É a Casanova e três de seus amigos por quem Pokawa e seu povo estão esperando.

O esforço de manter as canções e danças vivas é especialmente notável, pois desde o começo da década de 1960 até o fim da década de 1980, suas performances foram proscritas de Cuba. Fidel Castro restringiu atividades culturais e religiosas afro-cubanas da mesma forma como barrou o catolicismo e outras fés. Foi apenas em tempos mais recentes que elas foram permitidas a ser celebradas abertamente, e poucos grupos lograram ressuscitar suas canções, danças e rituais. De alguma forma Humberto Casanova e sua fiel assistente Magdalena (Piyuya) Mora conseguiram realizar esse feito singular. (Aos 85 anos de idade, Piyuya está muito frágil para fazer a viagem a Serra Leoa, então será representada por seu sobrinho, o entalhador Alfredo Duquesne.)

Levou dois anos para se obter a permissão para a visita, e estas só foram possíveis recentemente em função do relaxamento das leis de viagem em Cuba. Nesses dois anos eu voltei a Serra Leoa diversas vezes para mantê-los a par do andamento da viagem, sem esquecer da ironia de que, 180 anos depois, os africanos são muito pobres para retirarem certidões de nascimentos que lhes permitiriam obter passaportes, enquanto os cubanos descendentes dos escravos não são tão livres para viajar como gostariam. O pessoal da aldeia jamais desistiram de ter esperanças. Eles esperaram por 170 anos pelo retorno de seus antepassados, afinal de contas, o que são alguns meses a mais?

O que esta visita significa para Pokawa e seu povo é quase impossível de compreender plenamente. As pessoas aqui são definidas por suas relações familiares, com muito pouco da pessoa existindo além da unidade familiar. Como reincorporar pessoas que se foram a tanto tempo, que agora falam uma língua diferente mas que, inescapavelmente, são seus parentes, é uma questão que pode apenas ser tratada através da aceitação de coração aberto. Apenas saber que eles estão vivos, que sua cultura floresceu em algum outro lugar, é maravilhoso. Pokawa estendeu o convite para que eles permanecessem na aldeia o quanto quisessem, o que para esta viagem será apenas uma semana.

Assim como os tambores da celebração estão sendo preparados, o “diabo” também está, uma dançarina fantasiada com ráfia dos pés à cabeça e com painéis de madeira em suas costas, representando todos os ancestrais. Pois os ancestrais estão, finalmente, dançando com prazer e alegria.

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O assassinato de Patrice Lumumba no contexto da guerra-fria.

Texto de ELIO GASPARI publicado na FOLHA DE S. PAULO de hoje, 03 de abril de 2013, trata sobre o assassinato de Patrice Lumumba, primeiro-ministro eleito do Congo (antigo Congo Belga e Zaire), em 1961, que foi deposto, preso e fuzilado com o auxílio do serviço secreto inglês e anuência das tropas da ONU.

OS INGLESES E A MORTE DE LUMUMBA
por Elio Gaspari

Patrice Lumumba

A CENA não podia ser mais chique. Em 2010, Lord Lea de Crondall tomava chá com a baronesa Park de Monmouth e comentou um trecho de um livro que discutia o envolvimento do serviço secreto britânico no assassinato do primeiro-ministro congolês Patrice Lumumba, em 1961. O mistério completaria meio século. Lumumba tinha 35 anos e parecia um Fidel Castro (versão 1.0) africano. Vencera uma eleição e mal completara três meses como primeiro-ministro quando foi deposto e preso. Fugiu e foi capturado. Seu assassinato foi um crime que superou, de longe, a execução do Che Guevara. Primeiro, porque estava no seu país. Ademais, porque foi filmado apanhando, até mesmo quando soldados tentavam fazê-lo comer um documento que assinara. A imagem de sua altaneira resignação, com as mãos amarradas, está no YouTube (http://youtu.be/HtzfCMHX1Yg). Tropas da ONU que policiavam o Congo poderiam tê-lo libertado. Lumumba foi martirizado durante duas semanas. Apanhou de soldados, generais e até mesmo do presidente de uma província rebelada. Finalmente, no dia 17 de janeiro de 1961, militares congoleses e mercenários europeus encostaram-no numa arvore e fuzilaram-no.

A execução foi uma espécie de Assassinato no Expresso Oriente da Guerra Fria. Os americanos tentaram envenená-lo, os belgas tratavam-no pelo codinome de Satan e planejaram seu assassinato. O primeiro-ministro inglês discutira sua “eliminação” com o presidente americano Eisenhower, mas o dedo de Londres só apareceu durante o chá dos lordes. Faltava uma peça: quem armou a cena final?

“Fomos nós. Eu organizei a coisa”, disse a octogenária baronesa de Monmouth. Aos 39 anos ela era Daphne Park e chefiava a estação da inteligência inglesa no Congo. Para quem se habituou com a cenografia de James Bond, Park encarnava o anticlímax. Com jeitão de missionária gorda, dirigia um Citroën velho. Até chegar à Câmara dos Lordes, passaria por Moscou, Zâmbia e Hanói. Nunca falou de sua carreira, ria do Bond de Ian Fleming e não gostava das tramas de John Le Carré. Daphne morreu aos 88 anos, poucos meses depois de seu breve comentário com Lord Crondall. Ele narrou a conversa numa carta recente ao London Review of Books.

Recompondo-se os fatos de janeiro de 1961, é possível que Daphne tenha organizado e instruído a ida de um ex-assessor de Lumumba à prisão onde ele estava, transferindo-o para a capital de uma província rebelada, onde seu fim estaria selado. Semanas antes, ela salvara a vida desse novo colaborador escondendo-o na porta-malas de seu carro.

Passados 52 anos do assassinato de Lumumba, ficou o saldo. De 1961 a 1997, o Congo foi governado por Joseph Mobutu, um policial transformado em coronel, queridinho da Central Intelligence Agency americana. O embaixador inglês achava-o incapaz de se tornar ditador. Foi um arquétipo dos cleptocratas africanos, intitulando-se Messias, Supremo Combatente e O Grande Leopardo. Juntou algo como US$ 5 bilhões, mais um castelo na França. Desde então o Congo viveu meio século de guerras civis (numa das quais se meteu Che Guevara) e nelas morreram milhões de pessoas. País de imensos recursos naturais, o Congo é um dos mais pobres e corruptos do mundo.

No aniversário de 39 anos da morte de Lumumba, em 17/01/2010, o portal OPERA MUNDI trouxe um texto sobre quem foi Patrice Lumumba e quais as circunstâncias de sua morte. Ao final, destaca uma carta-testamento que o ex primeiro-ministro deixara com sua mulher:

“Morto sob tortura, à noite, Lumumba deixara com sua mulher Pauline Opangu uma carta-testamento:”

“Minha fé se manterá inquebrantável. Eu sei e eu sinto no fundo de mim mesmo que cedo ou tarde meu país se libertará de todos os seus inimigos internos e externos, que ele se levantará, como um só homem para dizer não ao vergonhoso e degradante colonialismo e reassumir sua dignidade sob um sol puro”.

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Um herói jamaicano: Marcus Mosiah Garvey

Não, não é um corredor olímpico jamaicano e nem um cantor de Reggae a quem vamos dedicar este post. Estamos falando de outro tipo de heroísmo. Um tipo que, no mundo contemporâneo, talvez não seja mais tão valorizado, já que neste mundo atual tudo é muito rápido e a cada minuto queremos tornar as coisas ainda mais instantâneas. Nesse ritmo alucinante, até os heróis de nosso século são criados e destruídos em questão de dias.

No passado, grandes guerreiros, reis e santos eram os heróis do povo. Heróis que viraram lenda e cujos feitos, lutas e exemplos chegam até nós, ainda hoje, das mais variadas formas, seja através da tradição oral (Zumbi), da literatura clássica (Ulysses), ou, em alguns casos, suas biografias viram peças de Hollywood e alcançam a grande população. Assim foi com William Wallace, herói escocês, São Francisco de Assis, herói italiano e de Joana D’Arc, heroína e guerreira francesa, para citarmos apenas três. Heróis que lutaram por ideais de liberdade, fraternidade e igualdade entre os homens.

Em contrapartida, no século XX, o capitalismo se estabelece e, com sua chegada, fomos testemunhando a mudança de perfil que os heróis foram sofrendo. Ao invés de homens lutando por grandes ideais, hoje temos heróis que foram nada mais do que esportistas de destaque em sua modalidade, cantores ou escritores que, apesar de terem sido muito bons e admiráveis, quase nada contribuíram para a humanidade, para o seu país ou sequer para a sua comunidade. Homens cujos feitos mais marcantes foram ganhar algumas copas do mundo, conquistar títulos mundiais de automobilismo, cantar algumas músicas com “ié, ié, ié” ou escrever alguns romances e poemas profundos.

Enquanto isso, outros heróis vão sendo esquecidos ou seguem solenemente ignorados pela grande massa, muitas vezes, por campanhas intencionais de silêncio sobre suas vidas e obras. Homens que derramaram seu sangue e deram suas vidas pelos mesmos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que os heróis de antigamente, mas cujas figuras e lutas acabam não inspirando tanto os produtores de Holywood, o que acaba relegando a esses homens que sejam recordados apenas durante as aulas de História, quando muito, e com grande desinteresse dos alunos.

É justamente sobre um desses homens que quero falar neste post. Seu nome é Marcus Mosiah Garvey que, apesar da imensa luta pela liberdade e igualdade do negro , segue ainda como um verdadeiro desconhecido em todo o mundo. Homem sobre o qual muito pouco, ou quase nada, ouvimos falar em nossos meios de comunicação, mas cujo o trabalho foi forte e influente o bastante para fazer com que Malcom X e Martin Luther King se inspirassem em sua luta e movimentassem os Estados Unidos inteiro. Homem que chacoalhou o mundo de tal forma o fato dele sequer ser mencionado nos meios de comunicação, impressiona, embora já fosse de se imaginar.

O HOMEM

Marcus Mosiah Garvey nasceu em 17 de agosto de 1887 na Baía de Santa Ana, Jamaica. Logo aos 14 anos de idade, largou a escola e foi trabalhar com seu padrinho que complementou sua educação e lhe deu emprego como aprendiz da gráfica. Nessa mesma gráfica teve contato com as diversas pessoas que por lá discutiam política e as questões da comunidade com seu padrinho.Garvey tinha grande paixão por livros, gosto que herdou do pai, um culto maçom e seu padrinho, dono de uma biblioteca particular da qual Garvey fez muito uso durante sua educação. Participou das primeiras organizações nacionalistas da Jamaica, e, em 1908, fez parte de uma greve promovida pelo sindicato tipográfico, seu primeiro movimento sindical. Como resultado da greve, perdeu seu emprego e foi colocado em uma lista negra dos empregadores privados da Jamaica. Contudo, conseguiu emprego na imprensa do governo.

Após algum tempo na Jamaica, decidiu viajar pela América Central e do Sul onde tomou contato com a situação deplorável e calamitosa dos negros nessas localidades. Viajou em 1910 para a Costa Rica, tendo trabalhado como fiscal em uma plantação de bananas onde, dentre outras coisas, pôde observar de perto a situação dos negros nesse país. Decidiu que iria mudar a condição de vida dessas pessoas. Continuou suas viagens trabalhando e observando a situação do negro por regiões como o Canal do Panamá e em países como Equador, Honduras, Nicarágua, Guatemala, Colômbia, Chile e Peru. Em todos esses países, viu os negros sofrendo com o desemprego e passando fome e miséria, além, é claro, de sofrerem sobremaneira com o preconceito racial. Após suas viagens, voltou à Jamaica e apelou ao governo colonial jamaicano que fizesse algo pela situação dos trabalhadores nesses países, mas nada conseguiu do seu governo.

OS IDEAIS E A LUTA

Em 1912, partiu para a Inglaterra onde, em Londres, aprendeu muito sobre cultura africana. Teve especial interesse pela situação do negro nos Estados Unidos da América. Freqüentou a Casa dos Comuns (parlamento inglês) e entrou em contato com africanos provindos de outras colônias britânicas que iam estudar em Londres. Dessa convivência, percebeu que a situação do Negro no mundo todo era muito parecida. Em Londres, Garvey entrou em contato com os líderes do movimento Pan-Africano.

UNIA

Ao retornar para a Jamaica em 1914, Marcus Garvey fundou a UNIA (Associação para o Progresso Negro Universal) que tinha o lema “Um Deus, Um Objetivo, Um Destino”. Garvey era presidente da associação que pretendia unir “todas as pessoas de ascendência africana do mundo em uma grande massa estabelecida em um país e governo absolutamente autõnomos”.

Inicialmente a UNIA foi ridicularizada na Jamaica pelos próprios negros. Como resposta, ele disse que aqueles que o ridicularizavam eram os negros “que não queriam ser reconhecidos como negros, mas como brancos.”

Em 1916, Garvey partiu para os Estados Unidos onde virou ativista ensinando os negros daquele país a buscarem seus direitos. Viajou praticamente todo os Estados Unidos até 1927, trabalhando arduamente para consolidar a UNIA em uma organização verdadeiramente internacional.

Seus esforços foram bem sucedidos, em 1920 a UNIA contava com mais de 1 milhão de afiliados em 1100 filiais, espalhados em mais de 40 países. A maioria das filiais estavam localizadas nos Estados Unidos, mas também havia uma grande filial em Cuba e outras em países como Panamá, Costa Rica, Equador, Venezuela, Gana, Serra Leoa, Libéria, Namíbia e África do Sul.

Em uma tentativa de atingir seu objetivo de criar uma nação autônoma e independente na África, Garvey lançou em 1919 uma companhia de navegação a vapor chamada Black Star Line Steamship Corporation. Entre os anos de 1919 e 1925. A Black Star Line e sua sucessora, a Black Cross Navigation and Trading Company, operaram com quatro navios que carregaram passageiros e carga entre os EUA, Cuba, Haiti, Jamaica, Costa Rica e Panama.

Ainda em 1920, a primeira convenção da UNIA, realizada em sua sede, no Harlem, alterou significativamente o curso da associação. Um programa baseado na Declaração dos Direitos dos Povos Negros do Mundo foi adotado, marcando a evolução do movimento que passa a ser um movimento nacionalista negro, buscando enaltecer a raça negra, encorajando a autoconfiança e o patriotismo africano.

A declaração detalhava as injustiças cometidas contra os negros, especialmente nos Estados Unidos, e condenava a discriminação e privação dos direitos que incidiam sobre todas as pessoas. Estes direitos foram organizados em uma série de 54 artigos. As cores oficiais da associação também foram escolhidas nessa convenção: vermelho, negro e verde.

Convencido de que os negros deveriam ter um lar permanente na África, o movimento de Garvey tentou realizar sua idéia colonizando (Levando negros da Associação) e auxiliando o desenvolvimento da Liberia. De acordo com as palavras de Garvey “nosso sucesso educacional, industrial e político é baseado sob a proteção de uma nação fundada por nós mesmos. E essa nação não pode ser em nenhum outro lugar do que na África”.

O projeto da Libéria, lançado em 1920, tencionava construir colégios, universidades, fábricas industriais e ferrovias entre outras coisas, mas o projeto teve de ser abandonado no meio dos anos 20 depois de muita oposição dos poderes Europeus com interesses diversos na Libéria.

Garvey foi eleito presidente provisório da África durante a convenção organizada pela UNIA em 18 de agosto de 1920. Era primariamente uma posição cerimonial, por várias razões; os países da África eram colônias de países europeus, na sua maioria, e Garvey não tinha visto para entrar em qualquer lugar da África, nem mesmo nas colônias britânicas (Garvey era cidadão inglês pois a Jamaica também era colônia).

A MORTE

Garvey é considerado por muitos a liderança negra mais influente dos anos 1920, mas sua importância foi colocada em questão por conta do que se considerou mau uso de recursos para fundar a companhia de navios à vapor, o que acabou resultando a Garvey uma condenação por fraude nos Estados Unidos. Garvey foi preso em 1925 e, dois anos depois, deportado para a Jamaica, que ainda era colônia do Reino Unido (independência se daria apenas em 1962).

Em junho de 1940, Marcus Garvey morre em decorrência de dois derrames sendo seu corpo enterrado no cemitério Kendal Green em Londres. Em 1964, seus restos mortais foram transladados para a Jamaica e enterrados no National Heroes Park, sendo Garvey proclamado o primeiro herói nacional jamaicano.

Estrela negra e escultura em memória a vida e luta de Marcus Garvey. National Heroes Park, Kingston, Jamaica.

Marcus Garvey foi um guerreiro internacional em defesa do nacionalismo negro. Ele despertou a consciência do povo negro clamando por orgulho racial e dignidade entre todos os negros ao redor do mundo. Em um singelo tributo a ele, alguém disse: “Marcus Garvey foi a maior esperança negra de encontrar dignidade”. (retirado do site do UNIA).

O MOVIMENTO RASTAFARI

A filosofia Rastafari se expandiu muito na década de 30 sob forte influência dos discursos inflamados de Marcus Garvey. As idéias de Garvey encontraram eco entre os líderes religiosos da Jamaica e ele ganhou fama de profeta. Sua pregação combinou-se a uma interpretação livre da Bíblia, especialmente do Velho Testamento. Garvey e seus seguidores identificavam-se com a história das tribos perdidas de Israel, vendidas aos senhores de escravos da Babilônia. Essa metáfora inicial gerou uma série de imagens simbólicas que se tornaram constantes na tradição oral dos rastas: “Babilônia”, “Zion”, entre outras.

Numa das profecias atribuídas a Marcus Garvey, previa-se que um Rei Negro seria coroado na África e que esse rei seria o líder que conduziria os negros do mundo inteiro `a redenção. Quando, em 1930, Ras Tafari Tafari Makonnen foi proclamado rei da Etiópia, adotando o pomposo título de “Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Sua Majestade Imperial, Leão Conquistador da Tribo de Judá, Eleito de Deus”, os líderes religiosos e seguidores de Garvey na Jamaica reconheceram nele o Rei Negro de que o profeta havia falado. Ras Tafari, que adotou o nome de Haile Selassie I, proclamava-se legítimo herdeiro da antiga linhagem do Rei Salomão (que teve um filho com a rainha do reino etíope de Sabá) e seria o messias que libertaria os negros do mundo inteiro e os levaria de volta à terra de seus pais. Mais do que isso, ele passou a ser considerado por esses pregadores a própria encarnação de Deus, que, segundo sua interpretação da Bíblia, haveria de ser negro. Um trecho do Apocalipse de São João foi invocado como confirmação do destino do novo Rei da Etiópia: “Não chores! Eis aqui o Leão da Tribo de Judá, a raiz de David, que pela sua vitória alcançou o poder de abrir o livro e desatar os seus sete selos” (5:5).

Quando se fala de Jamaica e de Rastafari, impossível não mencionar Bob Marley e sua música,  que foi completamente influenciada completamente pelo movimento Rastafari e, consequentemente, por Marcus Garvey. Abaixo disponibilizamos uma apresentação de Bob Marley de sua canção AFRICA UNITE (com legendas traduzidas), onde podemos perceber claramente ambas influências: o conteúdo pan-africanista (Garvey) e da filosofia Rastafari.

Vale dizer que que Haile Selassie I nunca foi muito favorável ao Rastafarianismo, solicitando a hierarquia da Igreja Ortodoxa da Etiópia que mandasse missionários para a Jamaica para que se oporem ao movimento. O fundador Marcus Garvey, considerado profeta pelos Rastafaris, posteriormente também negou associação com o movimento.

A POESIA ENGAJADA DE MARCUS GARVEY

Marcus Garvey, além de ativista e excelente orador, era poeta. Em sua vida produziu vários poemas sempre com a mesma temática, a libertação, o respeito e o orgulho negro. Em poema intitulado Say! Africa for the Africans, conclama os negros de todo mundo a formar uma nação autônoma e independente na África, exigindo a cooperação das nações que seqüestraram e forçaram-nos a trabalhar como escravos e construir a riqueza da América e da Europa.

Não poderia haver melhor maneira do que finalizar este post com a poesia de Garvey, que infelizmente, não pude encontrar tradução. De qualquer modo, para quem não tem muita proximidade com a língua inglesa, fica um incentivo a mais para traduzi-lo e buscar compreender sua mensagem.


Say! Africa for the Africans
By Marcus Garvey

Say! Africa for the Africans,
Like America for the Americans:
This the rallying cry for a nation,
Be it in peace or revolution.

Blacks are men, no longer cringing fools;
They demand a place, not like weak tools;
But among the world of nations great
They demand a free self-governing state.

Hurrah! Hurrah! Great Africa wakes;
She is calling her sons, and none forsakes,
But to colors of the nation runs,
Even though assailed by enemy guns.

Cry it loud, and shout it Ion’ hurrah!
Time has changed, so hail! New Africa!
We are now awakened, rights to see:
We shall fight for dearest liberty.

Mighty kingdoms have been truly reared
On the bones of blackmen, facts declared;
History tells this awful, pungent truth,
Africa awakes to her rights forsooth.

Europe cries to Europeans, ho!
Asiatics claim Asia, so
Australia for Australians,
And Africa for the Africans.

Blackmen’s hands have joined now together,
They will fight and brave all death’s weather,
Motherland to save, and make her free,
Spreading joy for all to live and see.

None shall turn us back, in freedom’s name,
We go marching like to men of fame
Who have given laws and codes to kings,
Sending evil flying on crippled wings.

Blackmen shall in groups reassemble,
Rich and poor and the great and humble:
Justice shall be their rallying cry,
When millions of soldiers pass us by.

Look for that day, coming, surely soon,
When the sons of Ham will show no coon
Could the mighty deeds of valor do
Which shall bring giants for peace to sue

Hurrah! Hurrah! Better times are near;
Let us front the conflict and prepare;
Greet the world as soldiers, bravely true:
“Sunder not,” Africa shouts to you.

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Coleção História Geral da África

Depois de ter falado tanto sobre cotas raciais, o papel e a posição do negro na sociedade brasileira hoje e também sobre as particularidades do processo histórico de formação do povo brasileiro, especialmente da miscigenação deste com as populações de africanos que aqui foram introduzidos, entendo ser de grande valia a divulgação da excelente iniciativa que a Representação da UNESCO no Brasil tomou em disponibilizar gratuitamente para download a Coleção História Geral da África.


Em sua página na Internet, a Representação da UNESCO no Brasil disponibilizou links para que o usuário possa baixar a coleção completa de História Geral da África em língua portuguesa. A coleção é composta por oito volumes e além de ter sido publicada em nossa língua, ela também já havia sido vertida para o árabe, o inglês e o francês, em sua versão completa,  e para o inglês, o francês e várias outras línguas, como hausa, peul e swahili em uma versão condensada.

Segundo informações do próprio site da UNESCO, este é um dos projetos editoriais mais importantes da instituição nos últimos trinta anos, sendo um grande marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África, já que permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrônica e objetiva, obtida de dentro do continente. A coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos.

Abaixo seguem os links para download direto do site da Representação da UNESCO no Brasil:

HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA. Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010.

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