Arquivo da tag: Al Jazeera

Cinco razões por que Stephen Hawking está certo ao boicotar Israel

Notícia divulgada pelo portal da Al Jazeera informa que o físico teórico e cosmólogo Stephen Hawking se recusou a participar de uma conferência que está sendo organizada em Israel atendendo a um boicote àquele país em função do tratamento que este vem dando aos palestinos.

Abaixo segue uma tradução livre que fiz da notícia que foi veiculada originalmente no portal em 09 de maio de 2013.

Hawking está de parabéns por ter se retirado de uma conferência israelense como forma de protesto ao tratamento que Israel concede aos palestinos.

por Ben White – 09/mai/2013

Cosmólogo britânico Stephen Hawking havia sido escalado a falar em uma conferência de alto nível em Junho organizada pelo presidente de Israel Shimon Peres [AP]

Conforme anunciado pelo Comitê Britânico para as Universidades da Palestina (BRICUP) e posteriormente pelo The GuardianReuters e outras, o renomado físico teórico e cosmólogo Professor Stephen Hawking decidiu atender o chamado palestino por boicote, e se retirar de uma conferência israelense organizada pelo presidente Shimon Peres em Junho. Após uma confusão inicial notícia foi confirmada – Hawking irá se manter afastado por razões políticas.Aqui estão cinco razões pelas quais o Professor Hawking está correto ao optar pelo boicote:5. Encobrimento do ApartheidO governo israelense e vários grupos de lobistas utilizam eventos como as “Conferências Presidenciais” para to encobrir os crimes cometidos por Israel no passado e no presente, uma tática algumas vezes referidas como “rebranding”. Como Ministro das Relações Exteriores informou oficialmente após o massacre de Gaza em 2009, este é o tipo de abordagem que significa enviar “romancistas e escritores famosos para o exterior, companhias de teatro, [e] exposições” com o objetivo de “mostrar a face bonita de Israel, de modo que nós não sejamos lembrados apenas no contexto da guerra”. “a marca Israel” é sobre criar uma imagem positiva para um país que é o alvo das campanhas de Direitos Humanos ao redor do planeta – como se inovações tecnológicas ou conferências de alto nível pudessem esconder a realidade da ocupação e limpeza étnica.4. Shimon Peres Apesar de sua reputação no ocidente como uma “pomba”,  a carreira de Peres até os dias de hoje inclui crimes de guerra no Líbano, apoio à punição coletiva de Palestinos em Gaza, e, em conversas privadas, incitação contra cidadãos não judeus. Qualquer um faria bem em evitar uma conferência organizada por tamanho hipócrita. Simplesmente não ser Ariel Sharon não basta; Peres deverá agendar uma viagem para Haia não atendendo dignatários estrangeiros e celebridades.

3. Boicote não é incompatível com ‘diálogo’ 

Na contramão da retórica de funcionários e simpatizantes do governo de Israel, boicote não é contrário ao diálogo. A decisão de Hawking, por exemplo, significará que as pessoas estão discutindo políticas israelenses e estratégias para acabar com a ocupação. Isso não é átipico – iniciativas BDS normalmente encorajam uma significativa troca de pontos de vista e perspectivas. No entanto, algumas pessoas abusam do conceito de diálogo para defender um status quo assimétrico, deixando intacto uma dinâmica de poder colonial na qual, segundo as palavras do poeta sul africano James Matthews, “o opressor permanece cauterizado com seus despojos/sem nenhum desejo de compartilhar igualdade/deixando o oprimido procurando o calor/no fogo frio do/Diálogo”. Boicote não tem nada a ver com ter, ou não ter, conversações – é sobre ser responsável , e se opor, violações básicas dos direitos das pessoas. Confrontar e resistir a realidade do apartheid israelense gera um diálogo que é completamente realizado no contexto da igualdade e descolonização.

2. Impunidade e responsabilidade 

O boicote é fundado firmemente em fatos bem documentados sobre as políticas de Israel. O Departamento de Estado dos Estados Unidos fala de “discriminação institucional” sofrida por cidadãos palestinos, enquanto o  Human Rights Watch diz que Israel mantém um “sistema de dois níveis” na Cisjordânia. Do controle “discriminatório” e  distribuição dos recursos hídricos (Anistia Internacional) até as “transferências forçadas da população nativa” (União Européia), não surprende que o Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial relatou Israel por ter violado proibições contra “segregação racial e apartheid”.

Assentamentos ilegais são utilizados para colonizar a Cisjordânia, palestinos em Gaza são bloqueados e bombardeados, palestinos em Jerusalém Oriental tem suas casas demolidas – e ao mesmo tempo, é claro, os refugiados palestinos expulsos a apenas algumas milhas de suas propriedades ainda são impedidos de retornar a suas casas sob a alegação de que não são judeus. E percebam que o argumento “mas o que aconteceu em China/Myanmar/Síria etc” perde o ponto (assim como coloca Israel em uma companhia bastante interessante). Um boicote é uma tática, recomendável em alguns contextos, e não em outros. Não é sobre uma escala de injustiças ou de ilegalidade. Trata-se de uma estratégia cujo alvo são os abusos de direitos humanos e violações do direito internacional, solicitado pelo colonizado. O que nos traz a…

1. O chamado palestino por solidariedade 

Palestinos sofrendo sob o apartheid israelenses estão clamando por Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) como uma estratégia na realização de seus direitos básicos, um fato que muitos sionistas optam por ignorar quando atacam as campanhas de boicote. O chamado da sociedade civil palestina por BDS foi lançado oficialmente em 9 de julho de 2005, um ano após a opinião do consultor da Corte Internacional de Justiça sobre a ilegalidade do Muro de Separação de Israel. O clamor dos signatários do BDS partiram de representantes dos palestinos na Cisjordânia e Faixa de Gaza, cidadãos palestinos de Israel, e refugiados palestinos. Desde então, números crescentes de pessoas da academia, mundo da arte, sindicatos e comunidades religiosas atenderam o chamado de BDS com iniciativas que colocaram o foco firmemente nas violações rotineiras de Israel do direito internacional e terminando com a cumplicidade nesses crimes. O professor Hawking está de parabéns em seguir os conselhos de acadêmicos palestinos, e atender seu pedido de solidariedade internacional em um luta de décadas por liberdade e justiça.

Ben White é um jornalista freelance, escritor e ativista, especializado na questão Palestina/Israel. Ele é graduado pela Universidade de Cambridge.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Cultura, Política, Universidade

Open Arms, Closed Doors: o racismo no Brasil pelo olhar de um angolano

O Blog do Sakamoto acaba de publicar um post divulgando o documentário Open Arms, Closed Doors, dirigido por Fernanda Polacow e Juliana Borges para a rede de TV Al Jazeera.

O documentário tem como personagem principal um imigrante angolano chamado Badharó que vive como rapper na favela da Maré, lar da maior concentração de angolanos no Rio de Janeiro. Segundo Fernanda e Juliana, diretoras do filme, “uma parcela significativa da nossa população insiste em dizer que este é um problema que não enfrentamos. Somos miscigenados, multirraciais, coloridos. Como um país assim pode ser racista?” Essa é uma das perguntas que o documentário, através do personagem Badharó, busca responder.

Abaixo segue a íntegra do post publicado originalmente no Blog do Sakamoto dia 18/02/2012 às 14:39

Leonardo Sakamoto

“Open Arms, Closed Doors” é um filme sobre um imigrante angolano que vive na favela da Maré, no Rio de Janeiro, e compõe rap para combater o preconceito sofrido diariamente. Pedi para as diretoras, as brasileiras Fernanda Polacow e Juliana Borges, um texto sobre a experiência de produzir o documentário, que estreia, nesta segunda (18), pela rede de TV Al Jazeera.

Vale a pena assistir e compartilhá-lo nas redes sociais. O resultado acaba funcionando como um espelho do que somos, mostrando que, não raro, agimos com o mesmo preconceito utilizado contra nós por alguns cidadãos e governos do centro do mundo.

O racismo no Brasil pelo olhar de quem veio de fora, por Fernanda Polacow e Juliana Borges*

Discutir o racismo na sociedade brasileira sempre é um assunto controverso. Para início de conversa, uma parcela significativa da nossa população insiste em dizer que este é um problema que não enfrentamos. Somos miscigenados, multirraciais, coloridos. Como um país assim pode ser racista?

Foi essa a pergunta que o angolano Badharó, protagonista do documentário “Open Arms, Closed Doors” (Braços Abertos, Portas Fechadas), que dirigimos para a rede de TV Al Jazeera e que será veiculado a partir de hoje em 130 países, se fez quando chegou ao Brasil em 1997 esperando encontrar o Rio de Janeiro que ele via nas novelas.

Badharó é um dos milhares de angolanos que vieram viver no Brasil. Depois de fugir da guerra civil no seu país de origem, escolheu aqui como novo lar – um país sem conflitos, alegre, aberto aos imigrantes e cuja barreira da língua já estava ultrapassada à partida. Foi parar no Complexo da Maré, onde está localizada a maior concentração de angolanos do Rio de Janeiro.

Para quem defende que o Brasil não é um país racista, vale ouvir o que ele, um imigrante negro, tem a dizer sobre a nossa sociedade. Badharó não nasceu aqui, não carrega nossos estigmas, não foi acostumado a viver num lugar em que muitos brancos escondem a bolsa na rua quando passam ao lado de um negro. Depois de 15 anos vivendo numa comunidade carioca, ele tem conhecimento de causa suficiente para afirmar: “O Brasil é um dos países mais racistas do mundo, mas o racismo é velado”. O documentário segue a rotina deste rapper de 35 anos e mostra o dia a dia de quem sofre na pele uma cascata de preconceitos, por ser pobre, negro e imigrante.

Além de levantar o tema do nosso racismo disfarçado, o documentário propõe, também, uma outra discussão: agora que estamos nos tornando um país alvo de imigrantes, será que estamos recebendo bem esses novos moradores?

Com a ascensão do Brasil como potência econômica e o declínio da Europa, principal destino de imigração dos africanos, nos tornamos um foco para quem não apenas procura uma situação melhor de vida, mas para quem procura uma melhor educação ou mesmo um bom posto de trabalho. São muitos os estudantes africanos de língua portuguesa que desembarcam no Brasil. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, Angola foi o quarto país do mundo que mais solicitou visto de estudantes no Brasil em 2012. Com esta nova safra de imigrantes, basta saber como vamos nos comportar.

Europeus e norte-americanos encontram nossas portas escancaradas e nossos melhores sorrisos quando aportam por aqui, mesmo que estejam vindo de países falidos e em situação irregular. No entanto, um estudante angolano com visto e com dinheiro no bolso, continua sofrendo preconceito. Foi este o caso da estudante Zulmira Cardoso, baleada e morta no Bairro do Brás, em São Paulo, no ano passado. Vítima de um ato racista, a estudante virou o mote de uma musica que Badharó compôs para que o crime não fique impune. Isto porque tanto as autoridades brasileiras quanto as angolanas não deram sequência nas apurações e o crime segue impune.

A tentativa de abafar qualquer problema de relacionamento entre as duas nações pode afetar as interessantes parceiras comercias que existem entre os dois governos. Para todos os efeitos, continuamos sendo ótimos anfitriões e estamos de braços abertos para quem quer aqui entrar.

Abaixo disponibilizamos o documentário Open Arms, Closed Doors, de Fernanda Poliacow e Juliana Borges. Compartilhe, divulgue!!!

Deixe um comentário

Arquivado em Documentários, Filmes, Preconceito, Racismo, Sociedade, Videos