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Sobre o vereador eleito Fernando Holyday (DEM) e os capitães do mato

Repercutindo texto do cantor e compositor Nêggo Tom, publicado no portal Brasil 247 nessa última sexta (4).

O CAPITÃO DO MATO DO NEOLIBERALISMO GOLPISTA
por Nêggo Tom | publicado originalmente em Brasil 247 | 04.nov.2016

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A figura do capitão do mato surgiu na sociedade brasileira por volta de 1694, após a destruição do Quilombo dos Palmares, com o intuito de impedir a fuga de escravos e resgatar escravos fugidos. E ganhavam bem para isso. O pagamento poderia ser em dinheiro ou até mesmo algum pedaço de terra. Os senhores de engenho e outras autoridades da corte portuguesa, estavam preocupados com o número cada vez mais crescente de seres humanos escravizados querendo se libertar e resolveram criar uma espécie de política de segurança pública da época. Tanto é que não seria nenhuma bobagem afirmar que a figura do capitão do mato deu origem a policia militar, também criada ainda no período do Império, em 1809.

O capitão do mato, em sua maioria, eram escravos libertos, o que lhes dava uma falsa impressão de melhor posicionamento social e superioridade pessoal sobre os demais. Claro que a escolha de escravos libertos para policiar escravos não libertos foi proposital. É claro, também, que esses escravos “promovidos” a capitães do mato fizeram por merecer tal recompensa. Entregar a cabeça de seus pares, por exemplo. Pura meritocracia. Trazendo para os dias de hoje, é como aquele seu colega de trabalho que puxa o saco do chefe e cagueta a turma toda para subir na empresa. Digamos ainda que para chegar a capitão do mato, o indivíduo tinha que ter um perfil evolutivo.

O neo liberalismo vive tentando produzir remakes dessa personagem de nossa história. Pelé, mesmo não oficialmente, foi empossado no cargo e como se comporta bem do jeitinho que a casa grande gosta, nunca perderá sua Majestade. Tanto que ganhou o título de rei. O ministro Joaquim Barbosa foi “sondado” para ocupar essa função, mas graças a Deus e a sua inteligência acima da média, percebeu que estava sendo usado e declinou a tempo do convite. Tudo parecia ir bem, mas quando ele declarou apoiar a política de cotas, reconheceu resultados nas políticas afirmativas criadas pelo governo do PT e se posicionou publicamente contra o impeachment de Dilma, a decepção foi geral no reino de Dom João. Esse não serve mais! Precisamos de alguém com menos personalidade, com mais necessidade de ascensão, sem muita estima as suas origens e sem nenhum sentimento pelo sofrimento de seus antepassados.

Assim nasce Fernando Holiday. O capitão do mato do neo liberalismo. A escolha do rótulo do produto é sensacional. Negro, pobre e gay. Um legítimo representante das minorias exaltado pela direita conservadora, sempre acusada de preconceito e de elitismo. Como somos injustos com eles. Só que não! Não precisa raciocinar muito para perceber o que o jovem, coordenador nacional do movimento Brasil livre, tem por missão.Enquanto acusa a esquerda de promover uma divisão na sociedade, promovendo uma guerra entre classes, raças e gêneros, a direita promove a divisão entre os próprios membros das classes, das raças e dos gêneros. E eles são bons nisso.

Fernando Holiday publica vídeos cheios de atitude na internet, grita, sapateia, esperneia, põe o dedo em riste para a câmera. Seu discurso tem uma estrutura tucana, verbetes bolsonaristas e muitos malafaiagismos. Já rasgou o hino à negritude em plena tribuna da câmara dos deputados, já tentou desmoralizar Eduardo Suplicy, já se declarou contrário às cotas raciais, já disse que Zumbi era um assassino e que preto gosta de se fazer de vítima. Só faltou dizer que é branco. Talvez ele até acredite que seja, pelo fato de ser o capitão do mato do momento, movido pela vaidade e financiado por algum senhor de engenho preocupado com a perda de seus escravos e empenhado em captura-los ou recuperar alguns, através da lei da oferta e da procura.

Quando Holiday diz que os negros não precisam de favores ou de cotas e devem conquistar os seus objetivos apenas por mérito, ele não está querendo dizer que você pode e basta lutar. Na verdade ele apenas reproduz o discurso dos racistas, que de maneira inteligente, usam um negro para conter os outros descontentes, fazendo-os crer que toda luta por igualdade e respeito não passa de uma bobagem, afinal, somos todos iguais, as oportunidades são iguais e racismo é coisa da cabeça de gente complexada e incapaz. Ao mesmo tempo em que é “vendido” como o preto exemplar ou negro de alma branca, Fernando Holiday se submete ao que há de mais deprimente para a honra de um homem.

A sua eleição para a câmara dos vereadores de São Paulo, foi um prêmio à sua fidelidade canina a agenda golpista e uma tapa na cara dos movimentos esquerdistas. Uma forma de a direita conservadora dizer, falsamente, vinde a mim todos os pretos, pobres e outras minorias, e eu vos elegerei. Não temos nada contra vocês! Desde que estejam ao nosso lado. Desde que adotem o nosso discurso. Jesus Cristo também fora tentado de forma semelhante quando o diabo o levou ao topo de uma montanha e de lá, apresentando as belezas do seu reino, o propôs abandonar os seus e a sua missão, em troca de toda a riqueza e status que ele poderia lhe oferecer. Vai ficar nessa de lutar pelos pobres, pelas minorias e de ficar pregando justiça e igualdade social? Os ricos vão te odiar e os poderosos vão pedir a sua cabeça. Sai dessa! Eu tenho coisa melhor pra você. Como Jesus não era golpista e muito menos se esquecia de suas origens, seguiu em frente. Sai diabo!

A direita sempre contra ataca, e na maioria das vezes, o intuito é retroceder. Trazer o país que eles acham que é só deles, de volta. Quando os mais pobres começam a ter acesso à educação superior, eles cortam os investimentos. Quando as mulheres conquistam independência, eles dizem que elas devem ser belas, recatadas e do lar. Quando os negros e pobres decidem lutar por igualdade e respeito, sem hipocrisia e falsa meritocracia, eles apresentam Fernando Holiday. Essa postagem em sua página do Facebook, talvez diga alguma coisa:

“Como Vereador, lutarei para:

– Combater o vitimismo:

Todos, independente de cor de pele, podem alcançar o sucesso sem precisar de migalhas do Estado para isso.

– Acabar com as cotas raciais em concursos públicos municipais:

Chega de segregacionismo institucionalizado. Todos somos iguais!

– A revogação do dia da consciência negra em São Paulo:

É um absurdo que exista uma data como esta, e que acima de tudo, homenageie um homem assassino escravagista.”

É a personificação do padrão meritocrata dos golpistas. Ou seja, só está lá porque pensa como eles, age como eles, se sente como eles e gostaria de ter nascido como eles. Mas sabe que nunca será de fato, como eles. Será sempre visto como um agregado social, que deve favores aos seus senhores e mentores. Exagero? Ele que ouse a contrariá-los.

Até lá, ele seguirá como paradigma da elite para ilustrar como deve ser e se comportar, os pobres e os negros desse país, para serem bem aceitos pela casa grande. Ele é realmente um fenômeno. É negro e não sofre racismo. É pobre e é bem vindo à alta roda. É gay e agrada aos radicais conservadores da direita. Já prevejo um globo repórter especial com a tradicional chamada de Sergio Chapelin dizendo: quem é, onde vive, do que se alimenta e qual é o segredo de Fernando Holiday? Que não é feijão, mas se tornou o preto mais querido de alguns brasileiros.

Dez entre dez golpistas o preferem. Feijão, quer dizer, Fernando Holiday, tem gosto de festa, é melhor e mal não faz aos interesses dos senhores de engenho da nova era. E ainda combate o vitimismo. Oi?

Que não sirva de exemplo a resistência.

“Libertei mil escravos. Podia ter libertado mais mil, se eles soubessem que eram escravos.” Harriet Tubman


Nêggo TomNêggo Tom, é Cantor e compositor. É pobre, detesta doença e mais ainda camarão

 


Nota do Hum Historiador: Após ler esse texto, difícil não associar Fernando Holiday ao personagem Stephen, do filme Django Livre, de Quentinn Tarantino. Deixo a imagem do personagem para que reflitam no papel que esse indivíduo irá desempenhar na Câmara de Vereadores de São Paulo.

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MEC: Capes garante 90% da verba para pós-graduaçao em 2015

publicado originalmente no Geledés e no Brasil 247 | 12 de julho de 2015

O Ministério da Educação anunciou, na noite deste sábado (11), que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) garante que 90% da verba prevista para os programas de pós-graduação em 2015, o equivalente a R$ 1,65 bilhão, será mantida; o MEC diz ainda que nenhuma bolsa de estudo será interrompida; comunicado foi divulgado depois de universidades federais terem afirmado que o corte foi de 75%; em seu perfil no Facebook, o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, afirmou que a Capes vai manter o pagamento de 100% das bolsas para estudantes de mestrado e doutorado e que, apesar de a situação não ser ideal, não se justifica pânico ou alarme

Do Brasil247

O Ministério da Educação anunciou, na noite deste sábado (11), que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) garante que 90% da verba prevista para os programas de pós-graduação em 2015, o equivalente a R$ 1,65 bilhão, será mantida. Em nota, o MEC diz ainda que nenhuma bolsa de estudo será interrompida.

O comunicado foi divulgado depois que universidades federais terem criticado o anúncio da Capes de redução dos repasses previstos para as instituições. Em seu site, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) afirmou ter sido informada que o valor esperado para seus programas de pós-graduação seria de R$ 4,2 milhões, mas que recebeu da Capes a notícia de que o valor foi reduzido para R$ 1 milhão, uma redução de cerca de 75%.

Na Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um comunicado afirma que o Conselho Universitário da instituição (Consuni) aprovou uma moção em defesa aos programas de pós-graduação, onde afirma que o corte de verbas é “inaceitável”.

“O anúncio de cortes de 75% dos mencionados programas coloca em risco o trabalho de muitas gerações que se dedicaram à organização da pós-graduação e afeta de modo irreparável cada um dos programas de pós-graduação da UFRJ e das demais universidades públicas. O inaceitável corte torna-se mais grave quando inserido no quadro mais geral de cortes orçamentários das Federais e dos contingenciamentos de exercícios anteriores”, disse o Consuni.

Em seu perfil pessoal no Facebook, o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, afirmou que a Capes vai manter o pagamento de 100% das bolsas para estudantes de mestrado e doutorado e que, apesar de a situação não ser ideal, não se justifica pânico ou alarme. “Os programas continuarão a poder atender novos alunos e a dar-lhes bolsas. Onde está ocorrendo uma redução é no custeio”, afirmou ele, lembrando que, além do repasse da Capes, cada universidade tem seu próprio orçamento.

Ele lembrou que a Capes mantém 90% dos recursos previstos e que podem haver acréscimos “quando a economia melhorar”. “E isso, num momento de dificuldades na economia e na arrecadação. Se a situação não é ideal, nem por isso se justifica pânico ou alarme”, disse Janine.

Leia a íntegra da nota do MEC:

“A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) assegura o repasse de 1,65 bilhões de reais para os seus programas de pós-graduação (Proex, Prosup, Reuni e Proap). O montante é equivalente a 90% do valor previsto para 2015. O Ministério da Educação e a Capes enfatizam o compromisso com a pós-graduação e a pesquisa científica. Ressaltamos ainda que nenhuma bolsa de estudo será interrompida.”

Leia a matéria completa em: MEC: Capes garante 90% da verba para pós-graduação em 2015 – Geledés http://www.geledes.org.br/mec-capes-garante-90-da-verba-para-pos-graduacao-em-2015/#ixzz3fiGdSjiA
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Maria do Rosário afirma ter sido agredida como mulher, como parlamentar e como mãe, após ofensas de Jair Bolsonaro no plenário da Câmara

Deputada Maria do Rosário (PT-RS) informa que irá processar criminalmente o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que disse ontem em discurso na Câmara que só não a estupraria porque ela “não merece”; “Chego em casa e tenho que explicar isso para a minha filha”, disse a petista; “Vou processá-lo criminalmente”.

Publicado originalmente no portal Brasil 247

A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), agredida verbalmente pelo deputado Jair Bolsonaro ontem na Câmara, afirmou que pretende processá-lo criminalmente por sua declaração.

Bolsonaro subiu à tribuna logo após um discurso da petista sobre direitos humanos. Ela então deixou o plenário.

“Fica aí, Maria do Rosário, fica. Há poucos dias, tu me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir”, disse, aos gritos, o parlamentar.

“Fui agredida como mulher, como parlamentar, como mãe. Chego em casa e tenho que explicar isso para a minha filha”, declarou a ex-ministra dos Direitos Humanos, em entrevista à Rádio Gaúcha. “Vou processá-lo criminalmente”, anunciou.

Em seguida, ela se emocionou e disse não estar em condições de continuar a entrevista. “Não quero meu nome na voz de alguém que tem uma atitude como esta. Vocês me desculpem, fiquei bastante emocionada. Vou seguir meu trabalho. Não tenho mais condições de seguir a entrevista. Sugiro que as mulheres que tenham força e dignidade para seguir esta luta”, concluiu

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[FAVELA 247] Entrevista com o jornalista Jânio de Freitas

Recentemente, o amigo Artur Voltolini fez uma interessante entrevista com o jornalista Jânio de Freitas para o portal Brasil 247 (Favela 247). Por problemas de acesso à Internet, não consegui publicá-la antes por aqui, mas finalmente, depois de algumas semanas na peleja, consegui livrar um tempo da minha pesquisa e arranjar um local com acesso bacana para poder repercutir a íntegra dessa entrevista aqui no Hum Historiador.

Jânio de Freitas, jornalista político.

O decano do jornalismo brasileiro Janio de Freitas, de 82 anos, concede uma longa e enriquecedora entrevista ao Favela 247. Morador da favela do Vidigal há 29 anos, Janio discorre sobre as UPPs, as eleições para governador no Rio de Janeiro, a desmilitarização da polícia, a regulamentação das drogas e dá sua dica ao jovem jornalista de favela: “Vá em frente. Descubra o seu mundo e descubra o seu jornalismo. Leia criticamente jornais. Ler livros é fundamental. Ter noção de história é muito enriquecedor. Ler autores críticos é muito importante. Leia, leia, leia e leia. O que pintar na frente, leia”.

JÂNIO DE FREITAS FALA SOBRE UPPs, ELEIÇÕES E (MAU) JORNALISMO
Por Artur Voltolini, para o Favela 247 | publicado originalmente em 20.mai.2014

Janio de Freitas, de 82 anos, um dos mais importantes jornalistas políticos vivos do Brasil, recebeu o Favela 247 na varanda de sua casa. Morador do Vidigal há 29 anos, é de seu escritório repleto de livros, revistas e jornais amarelados – e com uma incrível vista para o mar e para a favela –, que Janio trava suas batalhas com Joaquim Barbosa e outras figuras importantes da política nacional em sua coluna para o jornal Folha de São Paulo, que mantém há 31 anos e de onde saem as análises mais coerentes e éticas do jornalismo contemporâneo.

Na entrevista Janio discorre sobre o tráfico de drogas: “Essa coisa de pobre contra pobre é uma coisa horrorosa. Pobre armado contra pobre é algo insuportável”; e sobre as UPPs: “A UPP sofre por causa da origem da formação profissional do policial, que continua sendo difícil, viciada. A UPP sofre os efeitos da sociedade que ela faz parte.”

Janio diz achar ser uma “fantasia” a ideia de resolver a violência policial com a desmilitarização da polícia, e se diz cético em relação à regulamentação da venda de drogas: “O traficante de repente vai dizer: ‘Olha, aqui eu paro porque o Mujica resolveu agora que o Estado é o dono da maconha?'”.

O jornalista ainda reconhece os avanços sociais do governo Lula, critica o neoliberalismo do FHC e faz uma análise sobre os candidatos das eleições para governador do Rio de Janeiro.

Uma das vozes mais lúcidas do jornalismo brasileiro, Janio critica a nova geração: “Hoje em dia há esse fenômeno formidável no jornalismo: o jornalista que não lê jornal”, e dá dicas aos jovens jornalistas de favelas: “Vá em frente. Descubra o seu mundo e descubra o seu jornalismo. Leia criticamente jornais. E ler livros é fundamental. Ter noção de história é muito enriquecedor. Ler autores críticos é muito importante. Leia, leia, leia e leia. O que pintar na frente, leia”.

Após uma hora cravada de entrevista, Janio se despediu, precisava almoçar para assistir a mais uma sessão do STF.

Como era o Vidigal há 29 anos?

Quando eu me mudei para cá, minha rua não tinha nem calçamento nem iluminação. Essas casas aí não existiam [apontando para o alto do morro], aqui ao lado havia um começo de obra. Quem arranjou o primeiro calçamento que houve aqui foi minha mulher. Mas a iluminação pública só veio depois, também em parte pelo esforço dela, e ainda muito precária.

Como o senhor conheceu o Vidigal?

Eu já conhecia o Vidigal quando vim pra cá. Nos prédios pequenos moraram a Gal, o Caetano eu acho que morou – ou Caetano ou o Gil –, o Lima Duarte. No prédio grande morava minha filha. Ela chegou um pouco depois de mim. Comigo veio meu filho, morou aqui e depois foi para o exterior estudar por sete anos. Quando voltou, morou um tempo nos predinhos, depois foi para uma casa aqui em frente onde morou até recentemente.

O senhor frequenta o Vidigal?

Não, não vivo o Vidigal. Primeiro porque quando eu vim para cá, e durante muitos anos e até há pouco tempo atrás, eu trabalhava muito. Fazia uma coluna diária, uma coluna de informação de ponta, com uma relação muito complexa com as fontes. Ela me tomava um tempo gigantesco. Começava muito cedo, trabalhava em casa até mais ou menos duas horas da tarde, depois saía para a redação do jornal e aí não tinha hora para voltar. Tanto podia vir para casa quanto ir me encontrar com alguém para apurar alguma coisa.

O senhor percebeu um aumento no poder de compra dos moradores do Vidigal nos últimos 10 anos?

Percebi pela quantidade de casas construídas. Em parte é bom, e em parte lamentável porque criou-se a indústria da laje, que é uma forma covarde de pobre explorar o pobre. Numa ocasião eu estava comprando material de construção quando chegou um sujeito muito bem-vestido, com um tremendo de um anel de ouro, desses que chamam a atenção. Era nordestino. Fez suas compras, encomendou umas coisas. Quando ele saiu, o vendedor me disse: “Sabe do que ele vive? Ele compra laje aqui, sobre ela levanta mais um andar, manda vir gente do nordeste e os instala nessa laje. Imediatamente ele coloca a laje à venda, e os que estão ali podem morar até que ela seja vendida.  Enquanto isso ele está fazendo outras lajes, uns quatro ou cinco segundo andares. Ele vive de explorar laje. Resultou nisso aí [apontando para o alto do Vidigal]. Uma coisa inacreditável. Se você vir umas fotos que eu fiz na década de 1980 desse morro, você não acredita que seja o mesmo. Inclusive as árvores, era um beleza, árvores imensas, lindas, foi tudo abaixo.


Quando o senhor se mudou para o Vidigal, o tráfico já estava organizado?

Não sei dizer a você o quanto era organizado ou não. Mas não era ostensivo. O clima de tranquilidade existia. A pessoa que veio trabalhar comigo aqui em casa era do Vidigal, conhecia todo mundo. Lourdes me falava muito de um tal de seu Santinho, que ela dizia que era quem mantinha a ordem. Muito antes de o Comando Vermelho entrar.


O senhor percebeu a entrada das facções no Vidigal?

Eu não tenho muita noção de como as coisas se passaram. Mas isso de ver homens armados demorou a acontecer. Quando eu vim pra cá não existia. A primeira vez em que fui parado numa barricada por traficantes foi muito desagradável, muito chocante.

Qual é a sua visão sobre as UPPs?

Eu acho que a ideia em si é muito boa, necessária. Mas não pode ser só UPP, só polícia. Com a UPP têm que vir os demais serviços de administração pública. Isso é absolutamente fundamental. A militarização é uma etapa. Quando o nível de exigência dos próprios moradores aumentar,  eu acho vai haver um aumento na quantidade se serviços disponíveis. Tem de aumentar.

Como morador do Vidigal, o que o senhor vê de impactos pós-UPP?

Eu não tenho percebido nada ostensivo e intimidador como havia antes. Não tenho notícias de que tenha o tipo de intimidação que a Lourdes, que trabalhou muitos anos aqui comigo, passou. De vez em quando ela chegava aqui muito triste, aborrecida, por que na véspera um grupo havia subido na laje dela e passou a noite fumando maconha, fazendo barulho, e Lourdes não conseguia dormir. Depois eles foram se tornando mais audaciosos ainda, entravam na casa de Lourdes e retiravam comida da geladeira. E mais tarde, a fizeram cozinhar para eles. E não era só com ela. Eu acho que isso, por exemplo, se não acabou, diminui. Não só aqui, acredito que várias outras UPPs tiveram um resultado semelhante quanto à melhoria da convivência, de certa forma ainda problemática, contudo menos tensa do que era antes. Afinal, essa coisa de pobre contra pobre é uma coisa horrorosa. Pobre armado contra pobre é algo insuportável.

Os policiais também são pobres.

Policial é pobre, tem a mesma origem social, econômica, ou pelo menos muito próxima. É uma coisa muito violenta, covarde, revoltante. Por essa razão é que a iniciativa da UPP é boa, mas há muito o que fazer para que ela produza bons  resultados. Pode não ser o esperado, mas pelo menos melhor.

A UPP sofre por causa da origem da formação profissional do policial, que continua sendo difícil, viciada. A UPP sofre os efeitos da sociedade de que ela faz parte. Esse caso do Amarildo… Nós sabemos que há, desde o começo da UPP, um esforço gigantesco para selecionar policiais não viciados pela ação nas ruas. E no entanto, veja o caso do Amarildo, tem até major envolvido, tem capitão, tenente, sargento. É a própria sociedade representada.


O senhor é a favor da desmilitarização da polícia?

Eu acho que é uma fantasia imaginar que isso vai terminar com o fim da Polícia Militar. Não é por aí. Pura e simplesmente a nova polícia – tenha o nome que tiver, com as armas que já estão aí, com os chefes, capitães, comandantes, com estes delegados – vai continuar praticando a mesma violência.


Como se rompe com essa violência policial?

Rompe-se com o rigor penal sobre os praticantes de deslizes policiais. Falta perícia? A solução é fazer a perícia. Tá faltando punir? Tem de punir. Não adianta apenas substituir a farda por uma camisa esporte, vai continuar a mesma coisa. O que aconteceu é que a educação não acompanhou o aumento da população. Então temos toda uma deterioração educacional na população de uma geração que cresceu muito mais que o processo educativo e civilizatório. Daí vem toda essa polícia comprometida, ela própria, com o crime.


O ex-governador Sergio Cabral se reelegeu em cima do sucesso das UPPs, e colocou a segurança pública no centro do debate eleitoral. Há uma politização da segurança pública? 

Não foi o Cabral quem trouxe essa discussão. Foi o Moreira Franco, do PMDB. Ele se elegeu em 1986 com o seguinte tema de campanha: “Em seis meses eu acabo com a violência no Rio de Janeiro”. Ele foi eleito com base nessa campanha. Até a Globo, os jornais O Globo e Jornal do Brasil apoiaram intensamente sua candidatura que iria acabar com a violência, que estava começando no Rio. E o Brizola tinha feito algo que irritou profundamente os jornais e TVs. A polícia, antes do governo dele, entrava nas favelas matando gente, cometendo violências. E por se opor a isso Brizola foi acusado de ter provocado o aumento da violência. O Moreira fez a campanha em cima disso pra derrotar o Darcy Ribeiro, candidato do Brizola. Derrotou, e trouxe um advogado chamado Marcos Heuzi, que seria o homem do milagre da segurança pública. Em seis meses ele iria acabar com tudo. Mas a violência cresceu brutalmente, e o Moreira teve que despachar o Marcos Heuzi. E aí foi a degringolada total, ele entregou a segurança pública ao Hélio Saboya, que era um advogado criminalista. Saboya não conseguiu resolveu coisíssima nenhuma.

Qual era o plano dele?

Nenhum. O plano dele era ganhar a eleição e fazer negócio. E ele se dedicou muito a fazer negócios, e ganhou muito dinheiro. Eu mesmo denunciei resultados prévios de várias obras dele. Só do Metrô eu anulei cinco ou seis concorrências, além do complexo Tabajaras. Enquanto ele ganhava dinheiro, e a violência ficou comendo solta. E claro que a partir daí ela tomou um embalo que dificilmente alguém seguraria.

O Renato Meirelles, do Data Popular, diz que as eleições desse ano serão definidas pela classes C, D e E. As favelas irão definir as eleições no Rio de Janeiro?

Eu acredito que os analistas que moram na cidade do Rio de Janeiro só olham pro Rio, como os paulistanos só olham pra São Paulo. A eleição é no estado, e a gente não sabe como é que estão as coisas no interior. O PMDB, por exemplo, que é um partido forte no Rio, tem agora uma divisão, algo que não houve na eleição anterior. Tem a corrente Picciani, a ex-corrente Cabral da qual sabemos ainda muito pouco, se ela ainda existe, se deixou de ser, e ainda se ela irá se transformar na corrente Pezão. Até agora não vi nenhum dado que indique a sua dimensão. O Garotinho tem muito eleitor no interior, o quanto essa corrente Garotinho vai influir nessa eleição, eu não sei. O Crivella é muito vivo, não é bobo não, e está trabalhando muito, e com muito dinheiro inclusive. As igrejas evangélicas vão influir mais ainda agora do que nas eleições anteriores. O quanto, e de que maneira, até agora eu não sei. Mas quem quiser analisar a eleição no estado tem que parar de olhar apenas para a cidade do Rio de Janeiro. As favelas vão decidir? Que favela? E o interior ninguém leva em conta?


O que o senhor acha da candidatura do Lindbergh?

O PT fluminense pode ter com o Lindbergh uma oportunidade de aparecer nessa eleição disputando o governo estadual, caso haja um empenho do Lula, particularmente do Lula e, subsidiariamente, da Dilma.


A Dilma prefere o Pezão?

Eu não sei. Com franqueza eu acho que ela não pode falar e não pode agir contra o Pezão, porque ela é candidata. Vai chutar o PMDB para a lua e ficar com o risco do PT que, no Rio, tem sido um sucessivo insucesso?


O que houve com o PT carioca?

Ele se desmontou todo. Teve a oportunidade com a Benedita e chutou pro alto, fez milhões de besteiras. O partido dividiu-se todo, desarticulou-se e focou em pequenas disputas: a corrente Vladimir contra a corrente Gabeira, e foi se desestruturando e caindo aos pedaços. Nunca chegou a se estruturar propriamente no Rio de Janeiro.


O senhor acredita nessa definição de nova classe média?

Eu não acredito nos índices que determinam essa divisão entre classes: classe C1, C3, média-média. Isso é absolutamente fajuto. Coisa de economista, e economista está em outra, não está pensando na sociedade. Nessas denominações eu não acredito, não adoto e não pratico. Mas é evidente que houve um ganho de salário, um ganho de oportunidade de emprego, um ganho de pequenas iniciativas, e isso resultou numa melhoria econômica de uma grande parte da população. E não só do Rio, mas da população brasileira. No Nordeste, por exemplo, há modificações sensíveis.


Quando essas mudanças se deram?

Foi durante o governo Lula. O governo Fernando Henrique foi um arrocho desgraçado. Arrocho salarial pesado, sem obra social, apenas propaganda. A política econômica foi inspirada por americanos, pelo Consenso de Washington e pelo neoliberalismo. Nas sociedade latino-americanas onde o neoliberalismo penetrou, ele penetrou cruelmente, de maneira perversa. E o FHC e o Malan são ainda representantes políticos do neoliberalismo.


Já que estamos falando em governo FHC, me lembrei da privatização das telecomunicações. O que o senhor achou da ocupação e reintegração do prédio da antiga Telerj?

Eu acho muito triste despertar esperanças em pessoas pouco ou nada informadas, incentivando-as a ocupar uma área que você já sabe que vai ser desocupada, e na raça. Porque quando a Justiça diz “desocupa”, a polícia vai para desocupar mesmo. Alguns grupos ficam explorando essa ingenuidade alheia ao invés de definir um programa de trabalho, de ação permanente, de propaganda e de luta política. Falta trabalho de base, eles ficam fazendo esses espetáculos em que se satisfazem muito. A Sininho, por exemplo, vai lá e agita. Mas quem apanha não é ela. Se apanhasse, saberia o que os outros sofrem por conta da agitação que ela faz. Depois ela vai pro apartamento dela, toda elegante quando não está agitando, mantida pelos papais. Aí bota os outros na frente, levando porrada da polícia, para uma coisa que não tem futuro. Qual era o futuro daquela ocupação? Os caras chagam lá e dizem: “Vai ser aqui, vai ser ali”. Você acha que a Justiça ia permitir? Que a polícia ia deixar de ir lá? Para conseguir aluguel social ou inscrição no Minha Casa Minha Vida não precisa disso. É só ir um grupo para a frente da prefeitura e fazer uma fila. No terceiro dia, eles descem e inscrevem todo mundo.


O senhor é contra a ocupação de prédios desocupados por movimentos sem-teto?

Olhe para experiência do Stédile. Ele deve ser ouvido a respeito de tudo isso, um dos caras que mais devem ser ouvidos no Brasil, e que menos o é. O Stédile parou de fazer invasão de fazenda à toa e mudou o discurso: “Olha, vamos partir pra outra, a briga tem que ser outra. Não é por esse caminho”. E ele está certo porque, as invasões fazem surgir novos Zé Rainhas – que é a Sininho com calça de homem. O que aconteceu no pontal do Paranapanema, que era área comandada pelo Rainha? Nada. Houve gente que sofreu pra burro ali, perdeu o lugar onde morava, o trabalho que tinha, pra ir ocupar a fazenda de não sei quem, e que a Justiça devolveu. A polícia de São Paulo, que é muito mais violenta que a do Rio, foi lá e baixou o cacete pra valer. Morreu gente, aconteceu o diabo. Morreu até criança nas invasões que o Rainha inventava no Pontal do Paranapanema. Até que ele mesmo se picou e foi pro Espírito Santo, e largou o pessoal lá no pepino. E não deu em nada, ninguém ali ganhou nada. Agora veja, o trabalho do Stédile é absolutamente sensacional. Não é à toa que não fazem propaganda do trabalho dele.


Dizem que a ocupação do prédio da Oi/Telemar não foi organizada pelo movimento sem-teto, e muito menos pela Sininho.

Eu não disse que foi organizada por ela. Eu não sei quem foi, não estive lá. Mas de qualquer modo, naquelas coisas lá mais pra trás, como no ato na Central, ela estava envolvida, e acabou muito mal. Um besteirol total. Invadir a Central do Brasil é ir contra o operário que saiu do trabalho e quer ir para casa.


Organizaram um “catracasso” para a população não pagar a tarifa.

Sim, e com que resultado? Deu no quê?  Quando você age politicamente, tem que olhar antes de tudo o resultado que você quer, definir perfeitamente o resultado que se pretende atingir, e ver se esse resultado justifica a ação que você vai fazer. Isso que é ação política e isso que é ação social. Ação física social. Agora, se você não parte dessa premissa, vai dar em besteira. Ou pelo menos a margem que dê em besteira é enorme.


Nesse ato específico morreram duas pessoas.

Morreu o cinegrafista, um senhor foi atropelado, e houve gente que apanhou pra burro na Central do Brasil. Um monte de mulher grávida inalando gás lacrimogênio dentro da Central sem poder sair, porque não deixavam sair, e sem pular catraca, porque grávida não vai pular catraca. Idosa vai pular catraca? Essa coisa é muito primária, e é esse primarismo que me incomoda. Me dá uma imensa tristeza ver que a gente não evoluiu em termos de luta política e social no Brasil.


A esquerda brasileira esqueceu suas tecnologias políticas?

Já se sabia pouco, e aí perdeu-se aquele pouco que se sabia. Eu acho, num certo sentido, natural. Não houve uma transmissão de conhecimento. A ditadura interrompeu tudo. Foi uma coisa devastadora, muito maior do que esses artigos, documentários e os poucos livros sobre a ditadura têm dito. Foi algo gigantesco. Acabou com a Universidade, com o Instituto Oswaldo Cruz… Nesse período de 20 anos, a pesquisa científica foi pro brejo, atrasou 50. Um horror. E com a imprensa? O pessoal que vinha fazendo um jornalismo mais avançado, melhorado, inteligente, técnico. De repente ficou um buraco. As pessoas que foram chegando não puderam recolher o conhecimento, não o receberam dos anteriores. A mesma coisa na luta sindical.


Por quê?

Porque ficou um buraco. Foram afastados. Eu fiquei anos e anos sem poder trabalhar em jornal. E fui me virando. Por dez anos trabalhei com produção de livros, gráfica.


O que o senhor acha da mídia independente que está surgindo nas favelas?

Acho muito bom. Despertar interesse por informação é mais importante do que supor que já está informando. Isso porque, até você chegar a produzir a informação que leva à melhoria de nível cultural, de reflexão, de convívio e de aprendizado social, demora. Não é de um dia para o outro. E não é que demore só para o leitor não. Demora também para quem produz jornalismo, leva tempo até entender qual é seu público, como é que esse público elabora uma notícia. Isso tudo se perdeu no jornalismo brasileiro. E os que estão fazendo esse jornalismo independente, não comercial, também sentem falta disso. Mas não falta algo importante: o interesse do leitor por obter informação, o gosto de saber as coisas, o gosto de ser informado. E isso é fundamental.


O senhor acredita que essa mídia independente das favelas pode alterar a visão estereotipada que a imprensa tem dos territórios populares?

Ela pode começar a pautar a imprensa, mudar a relação de poder. Em certo sentido ela já tem alguma influência. Mas o que se passa nos meios de comunicação brasileiros –  televisão, rádio, jornal e revista –, não é só em relação à favela. Veja O Globo, que é esse poderosíssimo jornal do Rio de Janeiro. Se você assistir a um jogo de futebol, e no dia seguinte você for ver as notas que o repórter do Globo dá aos jogadores, você fica besta. Como ele pode dar nota sete para um cara que errou todos os passes? Ele é apenas um garoto que está sentado lá – na redação ou na frente das câmeras da TV-  falando como se fosse  doutor em futebol há 30 anos, uma experiência fantástica! Começou anteontem, tem de dois a quatro anos de jornal, e de futebol não tem nada. É a mesma coisa que se passa com o assunto favela, com o assunto violência urbana ou com economia.  Se você parar pra pensar nesse caso da compra de Pasadena pela Petrobrás, o besteirol que sai a respeito disso é uma coisa inacreditável. E a Polícia Federal deita e rola explorando essa garotada. Essa turma que não estuda nada, não lê nada. Hoje em dia há esse fenômeno formidável no jornalismo: o jornalista que não lê jornal. É uma coisa inacreditável como eles se repetem. Quantas vezes você não vê n’O Globo de hoje uma noticia que já saiu ontem, como se fosse algo novo? E vira manchete de página interna!


O jornal impresso está acabando?

Não acredito nisso. Quem acreditou nos EUA está caindo do cavalo. A tiragem lá aumentou 3% no ano passado. Se você pensar que em uma grande quantidade de jornais estaduais americanos seus donos deixaram de investir, embarcados nessa onda de que o jornal impresso vai acabar, e ainda assim a média de crescimento foi de 3%,  você pode deduzir com facilidade que há um grupo de jornais e uma linha de jornalismo que cresceu expressivamente.


Mas dá pra comparar a credibilidade do The New Tork Times com a do O Globo?

Dá, porque o nível do leitor também acompanha essa diferença. Para comparar o New York Times com O Globo, temos que comparar os leitores dos dois em relação de confiabilidade. É a classe média brasileira. Vá ao Grajaú e fale mal d’O Globo pra ver se você sai de lá incólume.


Qual dica o senhor dá para um jovem jornalista de favela?

Eu só diria a ele: Vá em frente. Descubra o seu mundo e descubra o seu jornalismo. Leia criticamente jornais. E ler livro é fundamental. Ter noção de história é muito enriquecedor. Ler autores críticos é muito importante. Leia, leia, leia e leia. O que pintar na frente, leia. E depois você faz a seleção do tipo de coisa que mais te interessa, e vá em frente. Faça o seu jornalismo. E veja o que nele tem melhorado, o que não tem melhorado. O auto-aprendizado em jornalismo é muito importante. Reler e analisar o que você fez. Ouvir o que alguém possa dizer a respeito do que você escreveu. Isso nos orienta.


O senhor é a favor da descriminalização e regulamentação da venda de drogas?

Eu acho esse tema dificílimo, e não tenho uma posição definida. Eu vejo vantagens possíveis e prováveis desvantagens em proporções pelo menos iguais. Então eu não sei que tipo de projeto pode sair disso.


Muitos pesquisadores dizem que o ônus da guerra às drogas é maior que o ônus do consumo de drogas em si.

Ninguém sabe calcular esse ônus, é um chute, ninguém tem como avaliar. Como alguém vai saber a quantidade de usuários de drogas no Brasil, um país com 200 milhões de habitantes? Pesquisa científica é igual pesquisa eleitoral, ouve duas mil pessoas… E o consumidor vai responder com honestidade a esse tipo de pergunta?


O senhor teme que com a descriminalização aumente o número de pessoas viciadas?

Não, não é isso. É que você vai criar mais um mercado capitalista, propriamente instituído capitalistamente. E não vai acabar com o outro mercado não, o outro simplesmente vai baixar o preço, na medida que precisar baixar o preço. Como a margem para os intermediários e produtores é muito grande, e a quantidade de pessoas que não querem entrar no mercado formal de trabalho porque acham que podem viver, pobremente, mas viver sem se aporrinhar com trabalho, carteira e horário é gigantesca num país de 200 milhões de habitantes, e com as condições sociais do Brasil, no meu ponto de vista, o mercado paralelo vai continuar. Pode resolver um problema aqui, outro ali. Um problema de maior conflito com traficante em algum lugar, mas no geral vai continuar, porque os intermediários e os produtores vão continuar.


No Uruguai, o Mujica quer que o Estado tenha o controle da produção e venda de maconha.

Ele acha que vai ter controle. Até agora não se sabe se vai ter. E eu pessoalmente não acredita que vá. O traficante de repente vai dizer: “Olha, aqui eu paro porque o Mujica resolveu agora que o Estado é o dono da maconha?”. O intermediário vai dizer: “agora perdemos a boca do Uruguai, vamos pra Taiwan?”. É não conhecer o animal humano.


O senhor é otimista em relação ao futuro do Brasil?

Eu sou cético em relação a tudo, não só ao Brasil, mas ao animal humano.


Eu tenho uma impressão, pode ser romântica, de que a geração que virá depois da inclusão social do governo Lula, das cotas raciais e sociais e do Prouni já vai nascer com livros em casa. E essa geração, que receberá o dinheiro do Pré-Sal para educação, será incrível, e que talvez ela consiga transformar até o Congresso. O senhor não divide essa visão otimista?

Não. Tomara que você a mantenha, e sobretudo tomara que a realidade justifique o seu otimismo e não o meu ceticismo. Mas eu acho que o Brasil ao mesmo tempo que evolui em vários sentidos, se degrada em outros. A corrupção, por exemplo. Hoje fala-se sempre dos governos. As oposições falam muito dos governos. E os meios de comunicação, se esses governos não são conservadores – sejam  estaduais, municipais ou federais – se encarregam de depositar nesses governos todas as responsabilidades por tudo que seja de errado e de ruim. Mas a verdade é que a corrupção varre esse país de cima a baixo. O Brasil está completamente minado pela corrupção. Ninguém sabe a dimensão que isso tem nem a que isso vai levar, mas certamente essa corrupção não leva a nada que preste.


Essa corrupção me parece estrutural, como se muda esse quadro?

É uma boa pergunta, para a qual seu otimismo deve dar a resposta. Porque meu ceticismo não responde não.

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