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Arquitetura hostil busca livrar cidades de grupos considerados indesejadas

O portal Outras Palavras traduziu matéria interessante do jornal britânico The Guardian a respeito de uma “arquitetura hostil” que muitas cidades vem adotando para evitar a ocupação de determinados pontos da cidade por pessoas indesejadas.  No caso de Londres, os destaques vão para “espetos antimendigos” e bancos projetados para afastar skatistas e namorados, que demonstram o horror que urbanistas e autoridades municipais tem das interações pessoais nas cidades.

Em post intitulado Políticas higienistas ocorrendo a todo vapor em São Paulo, publicado em Ago.2012, o Hum Historiador já havia chamado atenção para construções semelhantes que vinham aparecendo em São Paulo durante a gestão de Gilberto Kassab. Agora, pela pertinência do assunto e para que nos atentemos ante esse verdadeiro atentado a nosso direitos de ocupar a cidade, entendo que vale a repercussão na íntegra da matéria, que segue abaixo.

ARQUITETURA HOSTIL: AS CIDADES CONTRA SERES HUMANOS
por Ben Quinn, The Guardian | Tradução por Maria Cristina Itozaku, Outras Palavras

Baco Camden, com os chamados “espetos antimendigos”, na cidade de Londres.

Ele é chamado de banco Camden, por causa do distrito londrino que primeiro encomendou esses assentos esculpidos em concreto cinza, que podem ser encontrados nas ruas da capital britânica. A superfície inclinada dos bancos, resistente a pixações, foi desenhada para afastar tanto os moradores de rua quanto os skatistas.

Ainda que menos óbvios do que os espetos “antimendigo” de aço inoxidável que apareceram há pouco, do lado de fora de um prédio de apartamentos de Londres, esses bancos fazem parte de uma fornada recente de arquitetura urbana planejada para influenciar o comportamento público e conhecida como “arquitetura hostil”.

Os skatistas tentam subverter os bancos fazendo aquilo que sabem melhor. “Hoje estamos mostrando que você ainda pode andar de skate aqui”, disse Dylan Leadley-Watkins, freando depois de se lançar com seu skate por sobre um dos bancos no Covent Garden. “O que quer que as autoridades façam para tentar destruir o espaço público, elas não podem se livrar das pessoas que frequentam a área sem ter que gastar dinheiro e fazer algo de que elas gostem.”

As ações dos skatistas e daqueles que se indignaram com os espetos – removidos depois que uma petição online conseguiu 100 mil assinaturas e o prefeito de Londres, Boris Johnson, aderiu às críticas – chegam num momento em que muitos argumentam que as cidades estão se tornando ainda menos acolhedoras para certos grupos.

Além dos dispositivos antiskate, os parapeitos das janelas ao nível do chão têm sido “enfeitados” com pontas ou espetos para impedir que as pessoas se sentem; assentos inclinados nos pontos de ônibus desencorajam a permanência e os bancos são divididos com apoio para os braços para evitar que as pessoas se deitem neles.

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Acrescentem-se a essa lista as áreas com pavimentação irregular, desconfortável, as câmeras de circuito fechado com auto-falantes e os intimidantes sonoros “antiadolescentes”, como o uso de música clássica nas estações e os chamados dispositivos mosquito, que emitem sons irritantes de alta frequência que só os adolescentes escutam.

“Uma grande parte da arquitetura hostil é adicionada posteriormente ao ambiente da rua, mas é evidente que “quem nós queremos neste espaço, e quem nós não queremos” é uma questão consideradas desde cedo, no estágio do design”, diz o fotógrafo Marc Vallée, que tem documentado a arquitetura antiskate.

Outros enfatizam o valor do design de ambiente na prevenção do comportamento criminoso, insistindo que o tempo das soluções brutas como os espetos de aço já passou. “Os espetos são parte de uma estética da fortaleza, já ultrapassada e nada bem-vinda nas comunidades para as quais o design urbano precisa ser inclusivo”, diz Lorraine Gamman, professora de design na Central St Martins (Faculdade de Artes e Design) e diretora do centro de pesquisas Design Contra o Crime, da mesma instituição.

Hostile architecture: benches

“Se quisermos usar o design para reduzir comportamentos antissociais, a democracia deve ser visível no design para a prevenção do crime que incorporamos às nossas ruas”, diz ela. “Não tenho problemas com o banco Camden – cuja estética outros têm criticado – mas em muitos lugares, os bancos, banheiros e lixeiras parecem ter sido removidos para reduzir crimes presumíveis, às custas da maioria das pessoas, que costuma respeitar das leis”.

Inovações atualmente em desenvolvimento na Central St Martins incluem “arte para caixa eletrônico” – marcadores de piso que visam aumentar a privacidade e a segurança dos usuários de caixas eletrônicos.

Outros criaram projetos relacionados com o graffiti (“Graffiti Dialogues”), ganchos antifurto para pendurar bolsas e mochilas nos bares e cafés e o suporte Camden para bicicletas, que facilita a vida do ciclista por manter a bicicleta na posição vertical e prender as duas rodas e o quadro ao suporte.

Hostile architecture: spikes

A indignação contra os tipos mais grosseiros de arquitetura hostil está crescendo. Há semanas, ativistas derramaram concreto sobre os espetos instalados na frente de uma unidade da rede de supermercados Tesco na região central de Londres. A empresa disse que pretendia prevenir comportamentos antissociais e não afastar moradores de rua, mas concordou, dias depois, em retirar os espetos.

O historiador da arquitetura Iain Borden disse que o surgimento da arquitetura hostil tem suas raízes no design urbano e na gestão do espaço público dos anos 1990. Esse aparecimento, afirmou ele, “sugere que somos cidadãos da república apenas na medida em que estamos trabalhando ou consumindo mecadorias diretamente”.

“Por isso é aceitável, por exemplo, ficar sentado, desde que você esteja num café ou num lugar previamente determinado onde podem acontecer certas atividades tranquilas, mas não ações como realizar performances musicais, protestar ou andar de skate. É o que alguns chamam de ‘shoppinização’ do espaço público: tudo fica parecendo um shopping”.

Rowland Atkinson, co-diretor do Centro para a Pesquisa Urbana da Universidade de York, sugere que os espetos e a arquitetura relacionada são parte de um padrão mais abrangente de hostilidade e desinteresse em relação à diferença social e à pobreza produzida nas cidades.

Hostile architecture: seat

“Sendo um pouco cínico mas também realista, é um tipo de ataque aos pobres, uma forma de tentar deslocar sua angústia”, diz ele. “São vários processos que se somam, incluindo os processos econômicos que tornam as pessoas vulneráveis em primeiro lugar, como o imposto por quarto extra e os limiares do bem-estar, mas o próximo passo parece ser afirmar que ‘não vamos permitir que você se acomode nem mesmo do modo mais desesperado’.”

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Raio X do sistema de transporte municipal de São Paulo

O Hum Historiador abre espaço para repercutir importante matéria publicada no ((o)) eco DataCidades, a plataforma de jornalismo de dados sobre as cidades do site ((o)) eco.

RAIO X DO SISTEMA DE TRANSPORTE MUNICIPAL DE SÃO PAULO

Confira como funciona a rede de ônibus da cidade, uma distribuição que envolve interesses poderosos e afeta todo meio ambiente urbano.

Na semana passada, o Data Cidades mostrou alguns dos fatores que impulsionaram os protestos em favor da priorização do transporte coletivo em São Paulo, lembrando que a maneira como o sistema é organizado afeta o meio ambiente urbano e a qualidade de vida de todos que vivem na cidade. A insatisfação com a rede municipal de ônibus está relacionada não só com o aumento das tarifas, mas também com a sobrecarga e ineficácia do sistema. A crise no transporte coletivo faz com que cada vez mais gente busque alternativas e é um dos motivos do aumento do número de carros e motos circulando, tendência que não só resulta em mais emissões de poluentes, como mas também agrava os congestionamentos. O trânsito parado prejudica a circulação de ônibus e alimentando um perigoso ciclo vicioso de lentidão, fumaça e insatisfação. Junto dos protestos, cresceu também o interesse em entender e discutir como funciona o sistema de transporte coletivo municipal, quem são os atores neste processo e quais os interesses que levaram ele a ser configurado desta maneira. Após a importante conquista do cancelamento do aumento de 20 centavos na passagem, as pessoas agora cobram mais transparência e possibilidade de participar das decisões. Sob pressão popular, a Câmara dos Vereadores discute a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o sistema e a Prefeitura de São Paulo primeiro adiou e depois cancelou a consulta pública sobre a renovação das concessões, um processo bilionário com contratos de mais de uma década que não vinha recebendo a atenção devida. Com o intuito de contribuir com o debate, ((o)) eco agora apresenta este raio-X do sistema de transporte municipal da cidade, com informações detalhadas sobre as movimentações financeiras e a maneira como a rede foi distribuída e organizada. Os dados reunidos são um resumo de um conjunto gigante de informações, disponíveis tanto nas pastas para download na página da consulta pública que acabou cancelada, quanto naspágina da SPTrans (pela lei número 11.379/1993, a empresa tem que divulgar mensalmente o relatório de receitas e despesas do sistema). As informações nos dois endereços podem servir de base para investigações detalhadas.Como funciona o sistema?Primeiro é preciso entender a dimensão da rede de transporte municipal da maior capital do Brasil. O sistema conta com 1.321 linhas de ônibus, que levam cerca de 9,6 milhões de passageiros por dia útil. São 10 corredores de ônibus, 28 terminais e 18 mil pontos de parada. O mapa abaixo ajuda a ter uma ideia de quão complexa é a configuração atual.

Imagem: Reprodução/SPTrans

Quem opera a rede?

Hoje, a cidade é dividida em oito áreas operacionais organizadas em torno da região central. São, ao todo, 16 consórcios que gerenciam as linhas municipais. Eles são dividos entre concessionários, responsáveis por cuidar das linhas estruturais, e permissionários, responsáveis pelas linhas locais. Entre os primeiros estão empresários poderosos e conglomerados de empresas do setor. Entre os segundos, cooperativas e organizações que são base política para muitos dos vereadores da cidade. Tais grupos operam em oito áreas diferentes, conforme a divisão do mapa abaixo. Cada uma das áreas conta com um concessionário e um permissionário, responsável, respectivamente, pelas redes estruturais e locais.

Imagem: Reprodução/SPTrans


Quanto ganha cada empresa?

Em 2012, as empresas receberam R$ 5,5 bilhões, sendo R$ 3,7 bilhões para as concessionárias e R$ 1,7 bilhão para as permissionárias. Alguns grupos ganharam mais do que outros no valor recebido por passageiro transportado conforme aponta o gráfico abaixo, que é um indicativo de como a distribuição se dá. Vale a ressalva de que, para uma avaliação técnica mais aprofundada, é preciso considerar que há diferenças entre as redes estruturadas, como área percorrida e frota utilizada, fatores que geram custos operacionais diferentes de região para região, e que também devem ser levados em conta.

A matéria publicada no site ((o)) eco DataCidades traz dois infográficos interessantíssimos onde você pode ver, detalhadamente, quanto ganhou cada uma das concessionárias e permissionárias por Valor Recebido, Total de Passageiros Transportados, Média dos Dias Úteis e Valor Recebido por Passageiro no Ano. Recomendo vivamente que visitem a matéria e deem uma olhada nos infográficos para entender melhor quem ganha e quanto ganha com o sistema atual de transporte coletivo em São Paulo.

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Combustão espontânea tem hora e local marcado em São Paulo

Em post publicado no blog do Programa de Estudos Tutoriais do curso de Relações Internacionais da PUC-SP, João Finazzi divulga um estudo estatístico mostra a existência de uma “coincidência” entre os incêndios em favelas em São Paulo e as áreas de  interesses do mercado imobiliário. Por acreditar que o post traz informações relevantes ao leitor deste blog, tomamos a liberdade de reproduzi-lo por aqui.


NÃO ACREDITE EM COMBUSTÃO ESPONTÂNEA
Por João Finazzi, no PET RI-PUC

Segundo a física, propelente ou propulsante é um material que pode ser usado para mover um objeto aplicando uma força, podendo ou não envolver uma reação química, como a combustão.

De acordo com o Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, até o dia 3 de setembro de 2012, houve 32 incêndios em favelas do estado – cinco somente nas últimas semanas. O último, no dia 3, na Favela do Piolho (ou Sônia Ribeiro) resultou na destruição das casas de 285 famílias, somando um total de 1.140 pessoas desabrigadas por conta dos incêndios em favelas.

O evento não é novo: em quatro anos foram registradas 540 ocorrências. Entretanto, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada em abril deste ano para investigar os incêndios segue parada, desrespeitando todos os trabalhadores brasileiros que tiveram suas moradias engolidas pelo fogo.

Juntamente com o alto número de incêndios, segue-se a suspeita: foram coincidências?

O Município de São Paulo apresenta 1565 favelas ao longo de seu território, distribuídas, majoritariamente na região Sul, Leste e Norte. Os distritos que possuem o maior número de favelas são: Capão Redondo (5,94% ou 93), Jardim Angela (5,43% ou 85), Campo Limpo (5,05% ou 79), Grajaú (4,66% ou 73). O que significa que 21,08% de todas as favelas de São Paulo estão nessas áreas.

Somando as últimas 9 ocorrências de incêndios em favelas (São Miguel, Alba, Buraco Quente, Piolho, Paraisópolis, Vila Prudente, Humaitá, Areão e Presidente Wilson), chega-se ao fato de que elas aconteceram em regiões que concentram apenas 7,28% das favelas da cidade.

Em uma área em que se encontram 114 favelas de São Paulo, houve 9 incêndios em menos de um ano, enquanto que em uma área em que se encontram 330 favelas não houve nenhum. Algo muito peculiar deve acontecer com a minoria das favelas, pois apresentam mais incêndios que a vasta maioria. Ao menos que o clima seja mais seco nessas regiões e que os habitantes dessas comunidades tenham um espírito mais incendiário que os das outras, a coincidência simplesmente não é aceitável.

Àqueles que ainda se apegam às inconsistências do destino, vamos a mais alguns fatos.

A Favela São Miguel, que leva o nome do bairro, divide sua região com apenas outras 5 favelas, representando todas apenas 0,38% das favelas de São Paulo. Desse modo, a possível existência de um incêndio por ali, em comparação com todas as outras favelas da cidade é extremamente baixa. Porém, ao pensar somente de modo abstrato, estatístico, nos esquecemos do fator principal: a realidade. O bairro de São Miguel é vizinho do bairro Ermelino Matarazzo, o qual, de acordo com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), teve a maior valorização imobiliária na cidade de São Paulo entre 2009 e novembro de 2011, 213,9%. Lá, o preço do metro quadrado triplicou – mas não aumentou tanto quanto a possibilidade real de um incêndio em favelas por ali.

As favelas Alba e Buraco Negro também estão na rota do mercado imobiliário. Dividindo o bairro do Jabaquara com o restante dos imóveis, a favela inviabiliza um maior investimento do mercado na região, que se valorizou em 128,40%. Mas nada como um incêndio para melhorar as oportunidades dos investidores.

Todas as 9 favelas citadas estão em regiões de valorização imobiliária: Piolho (Campo Belo, 113%), Comunidade Vila Prudente (ao lado do Sacomã, 149%) e Presidente Wilson (a única favela do Cambuci, 117%). Sem contar com Humaitá e Areião (situadas na Marginal Pinheiros) e a já conhecida Paraisópolis.

Soma-se a tudo isso, o fato de que as favelas em que não houve incêndios (que são a vasta maioria), estão situadas em regiões de desvalorização, como o Grajaú (-25,7%) e Cidade Dutra (-9%). Cai, juntamente com o preço dos terrenos, a chance de um incêndio “acidental”.

Pensar em coincidência em uma situação dessa é querer fechar os olhos para o mundo. Resta aos moradores das comunidades resistirem contra as forças do mercado imobiliário, pois quem brinca com fogo acaba por se queimar. Enquanto isso, como disse Leonardo Sakamoto, “…favelas que viram cinzas são um incenso queimando em nome do progresso e do futuro.”

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