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O Riso dos Outros: há limites quando o assunto é humor?

o-riso-dos-outrosLançado em Dezembro de 2012 e veiculado pela TV Câmara, o documentário O Riso dos Outros (51:35), de Pedro Arantes é um filme que tem como objeto central o humor realizado no Brasil e aborda assuntos polêmicos e não menos interessantes como os tipos de piadas, a censura no humorismo, a tal da patrulha do politicamente correto, as piadas preconceituosas e os alvos desse tipo de piadas, dentre outros.

Com participações de Laerte, André Dahmer, Hugo Possolo, Antônio Prata, Jean Wyllys, Lola Aronovich, Idelber Avelar, Nany People, Rafinha Bastos, Danilo Gentili e Marcela Leal, dentre outros, o filme atinge plenamente o objetivo de levantar a discussão se deve haver limites e responsabilidades quando o assunto é o humorismo.

Dentre os muitos pontos positivos do documentário, de cara gostaria de mencionar a edição, pois ela consegue demonstrar exatamente como realmente são o Rafinha Bastos e o Danilo Gentili, por exemplo, enquanto profissionais do humor, isto é, verdadeiros babacas. Exemplo claro disso é um dado momento, mais para o final do filme, quando a equipe do documentário vai até Buenos Aires, onde entrevistam um produtor de stand-up, Gabriel Groswald, e uma comediante lésbica, Ana Carolina. Se nos dermos ao trabalho de comparar a visão que esses indivíduos tem sobre o papel do humor e dos comediantes com as opiniões de Danilo Gentili e Rafinha Bastos, por exemplo, fica bastante claro a razão do nível rasteiro das comédias e comediantes de sucesso que atingem as grandes massas no Brasil.

DANILO GENTILI: “O comediante tem que ser uma prostituta. O que eu quero é riso. Eu me vendo por riso. Se você riu, eu estou falando.”

GABRIEL GROSWALD: “O humor deve gerar uma mudança na conduta, na forma de ver o mundo e quando isso se realiza, está fazendo arte.”

ANA CAROLINA: “Não me interessa perpetrar estereótipos, nem mal entendidos e nem figuras discriminatórias.”

GABRIEL GROSWALD: “O humor do qual mais gosto, é o que não ri da vítima, mas do carrasco, mas este é um processo, é um trabalho do comediante, tem que ver com a ideologia do comediante. Eu vejo comediantes que riem, por exemplo, dos pobres, e não é algo que eu goste, porque se está rindo do pobre e não me parece que seja justo. “

RAFINHA BASTOS: “O meu papel é subir no palco e ser engraçado, só isso. Teorizar a respeito da função social do comediante… Acho lindo o questionamento, leio, acho legal, mas não sou eu que tenho que responder esse tipo de questão.”

PIADA DE RAFINHA BASTOS: “Fui num restaurante um dia e falei para o garçon: ‘Ô amigo você pode embrulhar?’, ele falou ‘é pra viagem?’ e eu falei ‘Não é pra presente! Vou dar meio bife parmegiana de natal pra uma pessoa'”

PIADA DE UM COMEDIANTE STAND-UP: “Quanto mais tempo você fica no ônibus para chegar no bairro, mais feias são as pessoas que estão ali dentro. Uma vez eu fui pra Itaquera. Puta que pariu, meu irmão. (…) Duas horas pra chegar lá, pra cada hora que passa, os passageiros tem dois dentes a menos.”

Não estou defendendo aqui que não existem humoristas e comediantes que façam humor de bom nível no Brasil. O próprio documentário traz considerações de cartunistas como o Laerte e o André Dahmer, por exemplo, que rechaçam esta ideia. Meu propósito ao fazer o destaque acima era mostrar, de modo bastante didático, como o documentário trabalhou a diferença de piadas que exploram as minorias, os preconceitos e os estereótipos. É certo que na Argentina também existem comediantes escrotos como o Danilo Gentili e o Rafinha Bastos, uma vez que a babaquice não respeita divisões políticas.

Marcela Leal

A comediante Marcela Leal é um dos destaques negativos do documentário ao aparecer defendendo a piada machista sobre estupro escrita por Rafinha Bastos e veiculada na Rolling Stones Magazine.

Há vários trechos interessantes a se destacar ainda no tema sobre piadas discriminatórias e/ou que exploram os estereótipos. O documentário aborda, por exemplo, a repercussão da piada sobre estupro feita pelo Rafinha Bastos, publicada na Rolling Stones, na qual ele dizia que uma mulher feia devia era agradecer ao estuprador por ela ter tido uma oportunidade de sexo. Como bem apontou Lola Aronovich, quer no documentário, quer em seu blog, trata-se de uma piada tão velha e tão infame, que certamente o tataravô do Bastos já devia fazer em sua época. Isso torna bastante evidente a falácia de quem se auto promove vinculando-se à ideia da renovação no gênero humorístico e da produção de textos inteligentes.

Infelizmente, o destaque negativo fica para o fato de a única comediante mulher, Marcela Leal, defender a piada sobre estupro do Rafinha Bastos e, pior que isso, ser registrada no documentário fazendo piadas tão escrotas quanto a dos outros dois já mencionados, sobre a vida sexual de sua vizinha gorda. Tal como disse Nany People no próprio documentário “Como a maioria dos atores que fazem humor são homens, eu cansei de ver o universo ser decantado, escaneado e sacaneado por eles. (…) e até as mulheres que fazem humor, e são poucas as que fazem, fazem humor muito machista. Elas reforçam toda a leitura que os homens já tem delas, entendeu?”

Assim, fica difícil selecionar aquele que foi o auge das piadas de mau gosto que acabaram por ser desveladas pelo documentário. Eu arriscaria, talvez, como não poderia deixar de ser, que foram duas participações do Danilo Gentili. A primeira quando ele aparece em seu stand-up no Comedians, fazendo uma piada de como os deficientes auditivos que tentam falar parecem ridículos, e a segunda é quando ele faz um ataque pessoal à presidenta Dilma Rousseff. Segue abaixo transcrição da piada sobre a Dilma:

DANILO GENTILI: “Eu lembro durante a campanha a Dilma falava uma coisa assim: ‘eu vou ser a mãe do brasileiro’ e eu falava ‘vai tomar no cu, Dilma, eu já tenho mãe. Você nem parece minha mãe. Talvez meu pai, minha mãe não. Se a Dilma fosse minha mãe, eu não estaria aqui hoje. Com seis meses de idade eu teria morrido, porque nem fodendo eu ia chupar aquela teta!”

Não aponto estes trechos como críticas ao documentário, muito pelo contrário. Considero que seja justamente por isso que este filme é extremamente relevante, pois são justamente essas passagens do documentário, que explicitam o extremo mau gosto das piadas produzidas em muitos shows de stand-ups, que nos fazem pensar no tipo de humor que consumimos e que, inevitavelmente, acabaremos reproduzindo em nossa vida cotidiana, nas mesas dos botecos, em nosso local de trabalho, em casa e nas redes sociais. É justamente ao nos deparar com essas piadas mais grosseiras no documentário que somos levados a refletir (ou pelo menos deveríamos) se queremos nos vincular com as representações que determinados tipos de piadas fazem a respeito das mulheres, dos negros, dos deficientes, das lutas sociais, dos mendigos, enfim, de todos esses alvos fáceis do tipo de piada mais rasteira que vem sido produzida e que tem alcançado a grande massa através da veiculação em programas de TV (Zorra Total, CQC e afins) ou de um público mais privilegiado, que pode pagar pelos Stand-Ups nas casas noturnas bacanas de suas cidades. E o pior disso tudo é que eles ainda tentam se eximir de toda e qualquer responsabilidade de ter produzido suas infâmias, jogando a culpa toda para cima de seu público, como o Danilo Gentili faz questão de deixar claro após fazer uma piada sobre a Preta Gil.

DANILO GENTILI: “Vocês não deviam rir dessa piada, sabia? É uma puta piada de bosta! Todo comediante, quando não tem o que falar, fala: Preta Gil e todo mundo ri. Eu não gosto de falar isso. ‘Então por que eu conto?’, vocês vão falar. Porque vocês dão risada. Quem é o filho da puta? Eu? Não! Vocês!”.

Tirinha do Laerte sobre o politicamente incorreto no humor.

Tirinha do Laerte sobre o politicamente incorreto no humor.

Por fim, gostaria de parabenizar a Lola Aronovich, ao Laerte, ao André Dahmer, ao Hugo Possolo, ao Idelber Avelar e, especialmente, ao Antonio Prata e ao Jean Wyllys, que aparecem no documentário deixando bastante claro que há limites sim para o humor e de que, tais limites não se tratam de censura, mas sim de respeito aos direitos que as minorias conquistaram após duras lutas contra a opressão da ideologia burguesa travestida de humor e servindo como instrumento de manutenção de valores tais como a família patriarcal, que subjuga as mulheres e repudia os homossexuais, além do valor máximo a defender, o domínio do homem branco sobre os demais grupos étnicos. Essas pessoas merecem os parabéns, pois se opor a tais comediantes não significa meramente mostrar como eles são babacas, mas significa ter a coragem de enfrentar a classe social que produziu tais representações, e lutar para tentar expor o que a ideologia burguesa tenta esconder através do trabalho medíocre de alguns comediantes. Não é a toa que estes são os comediantes escolhidos para aparecer na TV em horário nobre em pleno sábado, quando o pobre não tem dinheiro para sair e permanece em sua casa vendo a televisão.

Justamente por essa razão, dedico o fim deste post a destacar algumas frases de quem, durante o documentário, tomou a postura de expor o que a classe dominante tenta desesperadamente esconder.

LAERTE: “Acho que nenhum bom humorista vai perder tempo fazendo uma piada leviana sobre raça, sobre gênero, sobre o que for.”

JEAN WYLLYS: “Existem outras formas de fazer humor. Existem outras maneiras de fazer rir sem humilhar os outros. Alguém de talento, de verdade, consegue fazer isso. E mesmo quando você traz essas minorias para a piada, ela não precisa ser, necessariamente, humilhando a pessoa.”

ANDRÉ DAHMER: “Se o humor precisa de uma vítima, façamos a vítima certa, não é? Porque tem tanta gente que merece apanhar. Por que bater nos negros ou nas mulheres, não é? Que já apanharam bastante. Essa é a verdade.”

JEAN WYLLYS: “As pessoas tentam naturalizar isso, como se fosse natural a mulher ser inferior ao homem. Que é da natureza da mulher ser inferior ao homem. Não é da natureza nada, isso é da cultura. E se é da cultura, e a cultura muda no tempo e no espaço, esse tipo de mentalidade pode mudar também. A gente se organiza politicamente para isso.”

ANTONIO PRATA: “Quando você ofende alguém que não pode ser ofendido pelo poder dessa pessoa, esse humor é grande, que é passar a mão na bunda do guarda, que é uma imagem antiga do cara que não está nem aí, do libertário, digamos assim, que vai lá e passa a mão na bunda do guarda. Essa é uma piada que eu acho ofensiva, pro guarda, pra mãe do guarda, pra mulher do guarda, mas o guarda tem uma arma e um cassetete. Se você passa a mão na bunda do guarda e ele tem uma arma e um cassetete, isso é engraçado porque você está se arriscando. Agora, passar a mão na bunda do mendigo???”

ANTONIO PRATA: “Então, quando você faz uma piada politicamente incorreta, no sentido, quando você é racista, você não está fazendo nada de transgressor. Nada de transgressor. Você está assinando embaixo da realidade. Você está falando assim: o mundo é desigual e eu estou rindo disso.”

IDELBER AVELAR: “Vivemos ainda uma situação de brutal desigualdade na qual, as pequenas conquistas dos grupos historicamente excluídos, não podem ser apresentadas como uma espécie de nova ditadura, de nova ortodoxia.”

LOLA ARONOVICH: “O próprio termo, politicamente correto, é um termo da direita usado para criticar as pessoas de esquerda que começaram a ter essa preocupação.”

IDELBER AVELAR: “É um termo [politicamente correto] que designa uma relação fantasmática de uma camada social dominante com uma suposta opressão vinda de baixo, que na verdade nunca teve realidade nenhuma.”

Tirinha Andre Dahmer

Tirinha de André Dahmer abordando o tema do politicamente correto.

LAERTE: “Atrás da pressão pra que se mude o termo… chamar de crioulo, negão, me traz isso aí… existe toda uma prática social que é racista sim, onde os brancos estão no poder. Onde brancos estão por cima e excluem negros. Quem nega isso, é um mentiroso do caralho. Só pode ser!!!”

JEAN WYLLYS: “Eu acho que os humoristas e comediantes eles tem que ter a liberdade mesmo para fazerem as piadas. Agora, eles não podem achar que não tem que ser contestados, porque este é o problema: é querer fazer a piada e não ser contestado. É fazer uma piada, ofender um coletivo e querer que esse coletivo não reaja. Olha, desculpe aí querido, mas não pode ser uma via de mão única. É uma via de mão dupla! Você tem todo o direito de fazer sua piada, agora pague o preço de ser chamado de babaca, de racista, de homofóbico, de sexista, se defenda, se explique, refaça, reveja seu humor.”

JEAN WYLLYS: “É curioso quando as pessoas evocam a liberdade de expressão, como se a liberdade de expressão fosse também ilimitada. Não. As liberdades elas tem limites. A minha liberdade se encerra no direito do outro, no reconhecimento do outro. Aí termina a minha liberdade. Por isso eu não sou livre para matar.”

ANTONIO PRATA: “O humor é sempre um conteúdo disfarçado, então ele pode dizer que foi só uma brincadeira. Eu não acredito nisso do só uma brincadeira, porque eu levo a brincadeira muito a sério. As piadas não tem um fundo de verdade, elas são a verdade. São a verdade com um nariz de palhaço!”

HUGO POSSOLO: “Um humorista não pode se apoiar simplesmente na resposta do riso do público. Ele precisa ter visão crítica. Quem se curva demais ao público, fica de quatro pra ele e nunca mais se ergue!!!”

ANDRÉ DAHMER: “Parece que não é possível fazer coisa melhor, e aí fica aquele segredo de Tostines, né: ‘será que é um humor imbecil porque dá mais audiência, ou dá mais audiência porque é um humor imbecil?'”

Deixo a questão para quem chegou até o fim deste post…

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