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Multinacionais condenadas por desviar energia elétrica por 16 anos no Brasil

RESUMO: As multinacionais Alstom Holdings, Japan AE Power Systems, Mitisubishi Eletric Corporation, Siemens AG, Toshiba Corporation e VA Tech Transmission & Distribution GmbH & Co, dentre outras, foram condenadas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) por formação de cartel internacional com atuação no mercado de venda de equipamentos eletroeletrônicos para o setor de transmissão e distribuição de energia no Brasil. Segundo o Cade, o cartel atuou entre 1988 a 2004, fixando preços e reservando áreas geográficas específicas para cada uma das empresas que participavam do esquema, com o objetivo de permitir que seus integrantes conquistassem e preservassem as participações de mercado previamente estipuladas. 

O processo administrativo segue para julgamento pelo Tribunal do Cade, órgão responsável pela decisão final. Se condenadas, podem pagar multa no valor de até 20% de seu faturamento no ano anterior ao de instauração do processo.

Abaixo segue a notícia na íntegra tal como divulgada na Revista Brasileiros.

MULTINACIONAIS SÃO CONDENADAS POR DESVIAR ENERGIA ELÉTRICA POR 16 ANOS NO BRASIL
publicada originalmente na Revista Brasileiros | 31.dez.2015

Copel entrega nova linha entre Londrina e Figueira.Foto: Divulgação Copel

Após investigação iniciada em 2006, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) recomendou hoje (30) a condenação de 11 empresas por formação de cartel internacional com atuação no mercado de venda de equipamentos eletroeletrônicos para o setor de transmissão e distribuição de energia no Brasil. Além dos prejuízos causados a concessionárias de energia e empresas privadas, a prática impactou um dos elementos que compõem o custo da energia elétrica pago pelo consumidor brasileiro.

As empresas comercializavam equipamentos de direcionamento de fluxo de energia elétrica com isolamento a gás, conhecido como GIS (do inglês – gas-insulated switchgear), utilizados para proteção e isolamento de equipamentos elétricos, sendo o principal elemento de uma subestação de força.

As investigações apontam que o cartel causou prejuízo para o sistema elétrico brasileiro e também para empresas concessionárias de energia como a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista, Companhia Energética de Minas Gerais, Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia, Companhia de Energia Elétrica do Paraná, LIGHT – Serviços de Eletricidade S/A, Eletropaulo, Eletrosul, dentre outras. Também foram afetadas pela prática criminosa a Petrobras, a Companhia Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional.

De acordo com o Cade, o cartel atuou com “impressionante profissionalismo” no período compreendido entre os anos de 1988 a 2004. Segundo o órgão, o grupo atuava fixando preços e reservando áreas geográficas específicas para cada uma das empresas que participavam do esquema, com o objetivo de permitir que seus integrantes conquistassem e preservassem as participações de mercado previamente estipuladas.

“Durante os 16 anos seguintes, 1988 a 2004, os grandes fabricantes de GIS coordenaram a concessão de projetos  numa base internacional, de acordo com as regras e princípios acordados, respeitando quotas estimadas do mercado, fixando níveis de preços e reservando alguns territórios aos membros específicos do cartel”, diz trecho do processo de investigação do Cade.

As empresas integrantes do cartel são Alstom Holdings S.A., Alstom Hydro Energia Brasil Ltda, Areva T&D S.A, Alstom Grid Energia Ltda, Japan AE Power Systems Corporation, Mitisubishi Eletric Corporation, Siemens AG, Siemens Ltda, Toshiba Corporation, VA Tech Transmission & Distribuition GmbH & Co, VA Tech Transmissão e Distribuição Ltda.

Ainda de acordo com o órgão, o grupo também atuava em outros países, tendo sido julgado e condenado em países membros da Comissão Europeia e Estados como a Nova Zelândia, Hungria, Israel e República Tcheca.

O processo administrativo segue agora para julgamento pelo Tribunal do Cade, responsável pela decisão final. Caso sejam condenadas, as empresas deverão pagar multa que pode alcançar até 20% de seu faturamento no ano anterior ao de instauração do processo nos ramos afetados pela atividade.

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Em 2013, Brasil sonegou o equivalente a uma Suécia e uma Bolívia em impostos

Enquanto muitos apontam para as estatizações ocorridas em alguns estados brasileiros, a desoneração de impostos ou o piso salarial nacional dos professores como grandes vilões que impedem o país de gerar caixa para aumentar seus investimentos em infraestrutura, pouca gente andou comentando o escandaloso número divulgado por estudo da SINPROFAZ (Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional) em relação ao valor sonegado pelos brasileiros em impostos no ano passado.

Como conversávamos por aqui na última quarta-feira (26.fev), poucos analistas ou revistas especializadas em economia destacam como a sonegação de impostos e a corrupção (especialmente das pessoas jurídicas), são verdadeiramente os grandes gargalos desse paísAo buscar na internet o que alguns comentaristas de grandes veículos andaram postando em seus blogs sobre esse assunto, encontrei um post de Bob Fernandes (27.fev) dando especial destaque para essa questão utilizando o estudo da SINPROFAZ para o caso brasileiro (meu post concentrava-se no conjunto dos países em desenvolvimento).

Somente no ano de 2013, os brasileiros sonegaram R$ 415 bilhões (US$ 177,3 bilhões) em impostos. Mais que isso, se analisarmos todos os tributos devidos e não pagos por brasileiros que estão inscritos na Dívida Ativa da União, esse número salta para incríveis R$ 1 trilhão e 300 bilhões (US$ 555,5 bilhões).

Para se ter uma ideia dos valores com os quais estamos lidando, se considerarmos apenas o valor sonegado dos impostos no ano passado (R$ 415 bilhões), ele é maior do que a soma de todos os valores previstos no orçamento de 2013 destinados às pastas de saúde, educação, assistência social, trabalho, defesa nacional, transporte, agricultura, ciência e tecnologia, habitação, gestão ambiental, segurança pública, indústria, cultura, desporto e lazer, comunicações, direitos da cidadania e energia. Ainda sobraria um “troquinho” de R$ 6,9 bilhões, como demonstra a tabela que preparei com base no Projeto de Lei Orçamentária Anual – PLOA 2013.

Orçamento Brasil 2013

Se todo o dinheiro referente a tributos devidos e não pagos por brasileiros que estão inscritos na Dívida Ativa da União (R$ 1,3 trilhão ou US$ 555 bilhões) fosse uma economia mundial, ela estaria colocada na posição 21 do ranking, a frente de países como Suécia (US$ 520,2 bilhões), Noruega (US$ 499,8 bilhões) e Argentina (US$ 474, 8 bilhões). Ou seja, o Brasil sonegou uma Suécia e uma Bolívia ou um Paraguai, ou ainda, o equivalente a soma das economias de Peru, Equador, Uruguai, Bolívia, Paraguai, Suriname e Guiana (com sobra de R$ 160 bilhões), como demonstra tabela abaixo que preparei com base nos dados referentes ao PIB de 2012, divulgados pelo Banco Mundial.

Ranking economias sulamericanas

Para não me repetir, ou repisar o texto de Bob Fernandes, penso que o melhor é repercutir o texto dele por aqui para seguirmos refletindo sobre os temas da gestão das contas públicas e quem são, de fato, os grandes vilões que subtraem a maior parte do erário público que deveria ser utilizada para atender as principais demandas da população brasileira.

Abaixo, a íntegra do texto de Bob Fernandes tal como publicado em seu blog.

EM 2013, BRASILEIROS SONEGARAM R$ 415 BILHÕES EM IMPOSTOS
por Bob Fernandes | publicado originalmente em 27.fev.2014

Bob Fernandes, editor-chefe do Terra Magazine.

Os brasileiros sonegaram R$ 415 bilhões em impostos no ano passado. Todos os tributos devidos e não pagos pelos brasileiros, e inscritos na Dívida Ativa da União, já passam o R$ 1 trilhão e 300 milhões.

Cobertos de razão, cobramos governos municipais, estaduais e o federal. Talvez valha a pena refletir também sobre responsabilidades coletivas e individuais.

O estudo sobre sonegação é do Sinprofaz – Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional.

Sonegação de R$ 415 bilhões é igual a 10% do PIB do país. É maior, com muita sobra, do que a soma dos orçamentos da Educação, Saúde, Ciência e Tecnologia…

Existem, claro, motivos vários para tanta sonegação. Desde a falta de mão de obra para fiscalizar até o injusto sistema de tributação. Sistema regressivo, que penaliza os mais pobres e favorece os mais ricos.

A carga de impostos em relação ao PIB é de 36%. Mas, como o grosso disso é de tributos sobre produtos e serviços, paga mais quem tem menos.

No Brasil, quem ganha até 2 salários mínimos paga, no geral, tributos de 49% . Quem ganha até 20 salários, paga 26%. E assim por diante. Menos ganha, mais paga.

Com os tributos, uma água mineral em aeroporto, por exemplo, custa R$ 4. O peso é diferente para quem ganha 2 e para quem ganha 20 salários mínimos.

O “impostômetro” conhecido não explicita quem paga o quê. Quem sabe não é o caso de um “impostômetro” esmiuçando o que os mais pobres pagam em produtos e serviços?

Já a grande sonegação se dá na Pessoa Jurídica dos mais ricos. Sonegação encoberta por mecanismos sofisticados.

O apelido dado a isso costuma ser “planejamento tributário”, como diz Heráclio Camargo, presidente do Sinprofaz.

Sonegação no ISS, Cofins, PIS, mas especialmente nos tributos sobre Pessoa Jurídica. Sonegação que tem saída legal, abrigo e sede nos paraísos fiscais.

A carga tributária do Brasil é semelhante à da Alemanha. O problema está na contrapartida, diferente e muito melhor na Alemanha. E está no injusto imposto regressivo.

Mexer nesse sistema significaria enfrentar os que podem muito e pagam pouco, ou quase nada diante do que poderiam e deveriam pagar.

Com R$ 415 bilhões sonegados em um ano, e R$ 1 trilhão e 300 milhões devidos e não pagos, há muito para ser feito. E muito para debate e reflexão.

A saída mais fácil é discutir a tributação pelo volume, 36% do PIB, e não pelo que tem de injusta. Ou fazer de conta que problema são os R$ 24 bilhões do Bolsa-Família.

Esses R$ 24 bilhões socorrem 14 milhões de famílias; são, em média, R$ 152 por pessoa. Para cidadãos sem acesso a planejamentos que permitem a sonegação de R$ 415 bilhões em um ano.


Bob Fernades é jornalista e atualmente trabalha como editor-chefe da Terra Magazine, além de ser comentarista de política da TV Gazeta.

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Sonegação de impostos: crime e corrupção que não querem que você veja

sonegaçãoNo último post, comentei uma matéria especial publicada na revista Exame (17.fev) sobre como os gastos com as contas públicas no Brasil revelavam, na opinião da revista, uma situação epidêmica de descontrole das despesas que está espalhada por toda a federação. Para o autor da reportagem, para a revista e boa parte de seus leitores, tal situação impede/dificulta que os governos (federal e estaduais) façam caixa para poder investir em áreas que são estratégicas para o país e fundamentais para a população. Em boa medida, a culpa da situação estar do modo como a revista diagnosticou, deve-se a decisões como a do governador Tarso Genro (PT/RS), em criar uma estatal responsável pela gestão das estradas gaúchas, ou ainda, medidas como a do governo federal em desonerar impostos ou determinar a criação de um piso salarial nacional para os professores. (Veja a íntegra desse post).

Hoje (26), contudo, li uma reportagem publicada na revista Carta Maior, dando conta de que somente no ano passado, cerca de um trilhão de dólares foram sonegados dos cofres públicos de países em desenvolvimento para cair em bancos de paraísos fiscais espalhados pelo mundo. Não é de se espantar que a reportagem da revista Exame sequer tenha mencionado diretamente o problema da sonegação de impostos no diagnóstico da terrível “doença” espalhada por todo o Brasil. Sobre o assunto, apenas tocava na questão indiretamente ao falar que os governos deveriam buscar “crescimento de receita própria”, de onde se infere medidas para melhorar os sistemas de cobrança e fiscalização dos pagamentos de impostos. Contudo, a palavra sonegação sequer aparece uma única vez na matéria. Como pode?

Ora, se sabemos de antemão que o interesse da revista é justamente formar opinião em favor do capital privado em detrimento da gestão pública dos recursos e serviços, logo entende-se que não teria cabimento apontar o grau escandaloso de corrupção das empresas privadas. Essas sempre tem que aparecer como a solução para todos os problemas, nunca como um problema ainda maior. Além disso, falar de sonegação de impostos como um ato de corrupção em uma revista com o público leitor da Exame não seria de bom tom, afinal de contas, não se deve cuspir no prato de quem nos alimenta, não é mesmo? Alguém aqui colocaria a mão no fogo para afirmar que boa parte dos leitores da dita revista jamais sonegou impostos?

Enfim, se os governos federal e estadual estão passando por um “grande aperto”, como diz a revista Exame, será que os grandes vilões desse aperto são mesmo medidas como a criação de uma estatal para gerir as estradas, a desoneração de impostos ou a determinação de uma lei para a criação de um piso salarial para os professores? Ou são muito mais a corrupção, essa sim doentia, das empresas privadas e dos grandes milionários que sonegaram dos cofres públicos brasileiros, apenas no ano passado, bilhões de dólares que poderiam ser utilizados para fazer, dentre outras prioridades, o tal caixa de investimento tão reclamado pela reportagem da revista?

Abaixo, o Hum Historiador repercute a reportagem de Marcelo Justo tal como publicada na revista Carta Maior contendo a entrevista concedida pelo professor da London School of Economics, Jason Hickel, sobre a corrupção dos países desenvolvidos, um problema muito mais grave, em termos sistêmicos, para a economia mundial.

SONEGAÇÃO DOS RICOS É 25 VEZES MAIOR QUE A CORRUPÇÃO NOS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO

No ano passado, cerca de um trilhão de dólares fugiram dos países em desenvolvimento e terminaram em paraísos fiscais. Conheça as capitais da corrupção.

por Marcelo Justo para a Carta Maior | publicado originalmente em 25.fev.2014

Londres – Uma visão muito difundida sobre o desenvolvimento econômico afirma que os problemas enfrentados pelas economias em desenvolvimento e os países pobres se devem à corrupção. Essa visão se choca com um dado contundente da realidade internacional: a China. Nem mesmo o Partido Comunista põe em dúvida que a corrupção é um dos grandes problemas nacionais, o que não impediu um crescimento médio de dois dígitos nas últimas três décadas.

No entanto, segundo Jason Hickel, professor da London School of Economics, esta perspectiva oculta um problema muito mais fundamental em termos sistêmicos para a economia mundial: a corrupção dos países desenvolvidos. Trata-se de uma corrupção do colarinho branco, invisível e refinada, que foi uma das causas do estouro financeiro de 2008.Carta Maior conversou com Hickel sobre o tema.

Segundo a Convenção da ONU sobre Corrupção, ela custa aos países em desenvolvimento entre 20 e 40 bilhões de dólares anuais. É uma soma considerável. Mas você diz que, comparativamente, a corrupção do mundo desenvolvido é muito maior e tem um impacto sistêmico muito maior. Como chegou a essa conclusão?

Jason Hickel: O presidente do Banco Mundial, Jim Kim, fez este cálculo sobre o custo da corrupção no mundo em desenvolvimento. Mas esta soma, sem dúvida importante, constitui apenas cerca de 3% do total de fluxos ilícios que abandonam os países em desenvolvimento a cada ano. A evasão fiscal é 25 vezes maior que essa soma. No ano passado, cerca de um trilhão de dólares fugiram dos países em desenvolvimento e terminaram em paraísos fiscais por meio de uma prática  conhecida como re-faturamento, através da qual as empresas falsificam documentos para que seus lucros apareçam em paraísos fiscais nos quais não pagam impostos, ao invés de aparecer nas jurisdições onde as empresas realizaram esses lucros. É claro que isso é só parte do problema. Há outras práticas como o chamado preço de transferência. As multinacionais comercializam seus produtos entre suas próprias subsidiárias para pagar na jurisdição onde o imposto é mais baixo, algo que envolve cerca de um trilhão de dólares anuais, mais ou menos a mesma coisa que o re-faturamento.

Por que a evasão fiscal é tão fácil?

Jason Hickel: Porque as regras da Organização Mundial do Comércio permitem aos exportadores declarar o que bem entendam em suas declarações alfandegárias. Isso lhes permite subavaliar seus produtos para que paguem menos impostos. Isso não deveria nos surpreender dada a ausência de democracia interna da OMC.
O poder de negociação na OMC está determinado pelo tamanho do mercado e as decisões mais importantes são tomadas em reuniões do chamado “quarto verde”, administrado pelos países mais poderosos, de maneira que o comércio mundial termina sendo manipulado em favor dos ricos.

Curiosamente, no índice mais difundido em nível global sobre corrupção, o da Transparência Internacional, se apresenta um panorama exatamente oposto, ou seja, o mundo desenvolvido sofrendo nas mãos do mundo em desenvolvimento por causa dos estragos da corrupção. Qual sua opinião sobre esse índice?

Jason Hickel: Ele tem uma série de problemas. Em primeiro lugar, se baseia na percepção da corrupção que há no próprio país. De maneira que os pesquisados não podem dizer nada sobre o que pensam acerca de outros modos de corrupção como, por exemplo, os paraísos fiscais ou a OMC. Em segundo lugar, como o índice mede mais percepções do que realidades, está exposto às narrativas dos departamentos de relações públicas.

A narrativa dominante é promovida por um complexo de organizações, desde o Banco Mundial até a USAID e passando por muitas ONGs, que centram o tema da pobreza na corrupção dos próprios países em desenvolvimento. De maneira que não surpreende que os entrevistados terminem refletindo essa visão. Além disso, os índices se baseiam em dados de instituições como o Banco Mundial e o Fórum Econômico Mundial. Estas instituições, que representam países ricos ocidentais, tem interesse direto em manter essa narrativa sobre a corrupção.

Dois países que costumam estar na vanguarda de todas estas denúncias sobre a corrupção no mundo em desenvolvimento são Estados Unidos e o Reino Unido. Qual é a situação real destes países a respeito da corrupção?

Jason Hickel: Segundo a Transparência Internacional, os Estados Unidos estão bastante livres da corrupção. Segundo a Rede Tax Justice, em troca, os Estados Unidos estão em sexto lugar no ranking da corrupção mundial, devido ao fato de que têm jurisdições secretas que permitem que funcionem como centros de evasão tributária. Além disso, sabemos que a corrupção atravessa o sistema político estadunidense. As corrupções podem gastar dinheiro sem limites nas campanhas políticas para assegurar que seus candidatos sejam eleitos. Assim, não surpreende que mais da metade dos congressistas sejam multimilionários. E há outras formas de lobby político muito mais diretas.

Segundo a Rádio Nacional Pública, para cada dólar gasto pelas corporações em tarefas de lobby, elas obtêm um retorno de 220 dólares. E os sistemas regulatórios costumam ser capturados por gente dessas corporações que devem ser reguladas. O exemplo mais óbvio é Henry Paulson, o CEO de Goldman Sachs, que foi Secretário de Tesouro dos EUA e artífice do resgate que canalizou trilhões de dólares dos contribuintes para a banca privada.

Em resumo, as corporações abusam do Estado para seu próprio proveito, o que é a definição de corrupção da Transparência Internacional. O Reino Unido é outro grande exemplo. A City de Londres é um dos centros de funcionamento dos paraísos fiscais, de maneira que surpreende que o Reino Unido seja classificado pela Transparência Internacional como um país sem corrupção. E não é a única instância de corrupção. A privatização da infraestrutura pública, tanto do sistema nacional de saúde como a dos trens, permitiu que pessoas como o multimilionário Richard Bransen ganhassem milhões em subsídios estatais para sua empresa Virgin Trains.

Isso não elimina o fato de que a corrupção no mundo desenvolvido é real e tem um forte impacto social, econômico e institucional. Como deveria ser um índice neutro e justo sobre o tema da corrupção?

Jason Hickel: Certamente que a corrupção no mundo em desenvolvimento é real e não deve ser subestimada como problema. Mas é importante concentrar o olhar em formas de corrupção ocultas. No momento, o mais próximo que temos de um índice objetivo é o elaborado pela Rede Tax Justice. Neste índice, o ranking é elaborado considerando países responsáveis por ocultar cerca de 30 trilhões de dólares de riqueza em países fiscais. Se você olhar a lista verá que os países que encabeçam o ranking são Reino Unido, Suíça, Luxemburgo, Hong Kong, Singapura, Estados Unidos, Líbano, Alemanha e Japão. Estes são os principais centros de corrupção que devemos enfrentar.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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REVISTA FÓRUM: Palmério Dória lança “O Príncipe da Privataria”, livro sobre a era FHC

Revista Fórum dá destaque ao lançamento do livro “O Príncipe da Privataria”, de Palmério Dória, conforme notícia divulgada por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador.

Segue abaixo a reprodução da matéria divulgada pela Revista Fórum.

Jornalista resgata fatos dos dois mandatos do tucano e entrevista o Senhor X, que denunciou  o escândalo da compra de votos para aprovar a reeleição no Congresso

Por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador

Palmério Dória, jornalista.

Quem conhece a história recente do Brasil (e também o passado ‘republicano’ de nossas elites – com Convênio de Taubaté, Encilhamento etc…) sabe bem que o tal “mensalão do PT” está longe de ter sido o “maior escândalo da história política brasileira” – como pretendem augustos, mervais e outros quetais do jornalismo elitista. Mas quem ainda tinha dúvidas ganha, agora, mais uma chance para desfazê-las: o novo livro do jornalista Palmério Dória.

Se Amaury Ribeiro Jr (com “A Privataria Tucana“) já havia lançado luzes sobre a vertente serrista do tucanismo, Palmério agora vai ao centro do esquema: O Príncipe da Privataria(Geração Editorial) traça, em quase 400 páginas de texto saboroso, o perfil de um homem vaidoso, simpático, com fama de mulherengo, e que dirigiu o Brasil com o propósito declarado de “enterrar a Era Vargas”. Fazia parte do pacote tucanista vender estatais a preços ridículos e, se fosse preciso, mudar as regras do jogo democrático usando todos os artifícios possíveis. FHC foi o presidente que fez o Real? Não. Este foi Itamar Franco. Mas FHC foi o presidente que quebrou o Brasil, vendeu nosso patrimônio público e transformou o Congresso Nacional numa feira de mascates.

Esse é o ponto alto do livro: a feira da reeleição. Em 1997, o repórter Fernando Rodrigues produzira uma série de reportagens históricas publicadas pela “Folha de S. Paulo”: nelas, um certo “senhor X” apresentava gravações de reuniões em que deputados federais falavam abertamente sobre a venda de votos para aprovar a reeleição de Fernando Henrique no Congresso. O preço do voto: 200 mil reais.

Capa do jornal que trazia reportagem de Fernando Rodrigues sobre a compra de votos para garantir a aprovação da emenda da reeleição (Reprodução)

O “senhor X” entregou as gravações ao Fernando Rodrigues, mas jamais mostrou o rosto. Palmério Dória agora mostra quem é o “senhor X”. Ele tem nome, sobrenome e 16 anos depois dos fatos aceitou dar entrevista de peito aberto. Narciso Mendes, 67 anos, é empresário no Acre, e na época da reeleição de FHC era deputado federal. Por isso tinha acesso às reuniões em que se deu a tramóia.

Narciso Mendes recebeu o jornalista Palmério Dória, e relembrou toda a história – incluindo a forma como a base tucanista (no Congresso e na imprensa) conseguiu frear uma CPI para investigar a compra dos votos denunciada em 97:

“Nem Sérgio Motta queria CPI, nem FHC queria CPI, nem Luis Eduardo Magalhães queria CPI, ninguém queria porque sabiam que, estabelecida a CPI, o processo de impeachment ou no mínimo de anulação da emenda da reeleição teria vingado, pois seria comprovada a compra de votos“, disse Narciso a Palmério Dória.

O fim dessa história qual foi? CPI jamais foi instalada. O MPF jamais investigou nada. Havia um relato escandaloso, com gravações e tudo: pelos menos seis deputados do Acre teriam vendido seus votos pela reeleição. A classe média indignada não moveu uma palha. Nada se fez…

Numa conversa recente entre Palmério Dória e alguns blogueiros sujos, um observador maldoso chegou a afirmar: “200 mil reais era o preço pelo voto acreano, imagine quanto não deve ter custado o voto de um deputado de São Paulo ou Minas para aprovar a reeleição?”Quanto? Quanto? Sergio Mota talvez pudesse esclarecer. Mas levou para o túmulo o segredo de polichinelo…

Nunca antes na história desse país, a não ser em ditadura, um presidente mudou as regras do jogo eleitoral de forma tão escandalosa. Um atentado contra a Democracia. Documentado. Como se sabe, FHC obteve o segundo mandato, quebrou o país, tentou vender todo o patrimônio público e – ao fim – saiu do poder com o rabo entre as pernas. Nem Serra em 2002, nem Alckmin em 2006 tiveram coragem de defender o legado fernandista. Hoje, o ex-presidente tem coragem de sair por aí a dizer o que os tucanos devem ou não fazer na próxima eleição. Serra deve se remoer. Sabe bem quem é o ex-presidente que posa de príncipe de Higienópolis. Terminados os oito anos de FHC, o neoliberalismo estava em frangalhos na América Latina: Fujimori foi preso no Peru, Salinas exilado do México, Menem jogado no lixo da história argentina. FHC tinha virado um príncipe. O livro de Palmério mostra que de príncipe ele tem muito pouco.

O livro também volta às privatizações, relembra a venda (ou doação?) da Vale, debruça-se sobre meandros e transações tenebrosas na telefonia… Mas a obra não é uma coleção de fatos e notícias do octanato fernandista. Não. O jornalista costura a crônica política (e financeira) com o perfil privado do marido de Dona Ruth. Fofocas? Também não.

Por que o Brasil não ficou sabendo que FHC era apontado – já ao chegar ao poder – como pai do filho de uma repórter da TV Globo? Que favores FHC ficou devendo à família Marinho (e ao grupo seleto de políticos que lhe deu ‘cobertura’ na história do filho) quando a Globo aceitou “exilar” a tal repórter num posto sem importância em Lisboa (e depois na Espanha)?

“Rameira, ponha-se daqui para fora”? Quem disse essa frase principesca, após um ataque de cólera dentro do Senado Federal?

“Olha, Fernando, quando você conversar comigo, por favor, nivele teus olhos aos meus.”Quem foi o homem que acusava FHC de ser um príncipe esquivo e escorregadio?

Não são meros detalhes. Dezesseis anos depois de ter aparecido como “senhor X”, Narciso Mendes ressurge e confirma que a reeleição foi comprada. FHC pode “nivelar os olhos” e encarar Narciso de frente? Parece que não. E o Brasil, FHC pode encarar de frente? Leiam o livro do Palmério antes de dar a resposta definitiva.

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A “farsa” do Mensalão, por Bob Fernandes para o Jornal da Gazeta

O comentarista de política do Jornal da Gazeta, Bob Fernandes (@Bob_Fernandes) faz comentário certeiro sobre o que se está chamando de “a farsa do mensalão” ou “o maior julgamento da história”. Acompanhem o comentário de Bob Fernandes em texto ou em vídeo.


Há quem diga ser uma farsa o julgamento do chamado “mensalão”. Não, não é uma farsa. É fruto de fatos. Ou era mesada, o tal “mensalão”, ou era caixa dois. Mas não há como dizer que há uma farsa. E quem fez, que pague o que fez. A farsa existe, mas não está nestes fatos.

Farsa é, 14 anos depois, admitir a compra de votos para aprovar a reeleição em 98 -Fernando Henrique-, mas dizer que não sabe quem comprou. Isso enquanto aponta o dedo e o verbo para as compras agora em julgamento. A compra de votos existiu em 97. Mas não deu em CPI, não deu em nada.

Farsa é fazer de conta que em 98 não existiram as fitas e os fatos da privatização da Telebras. É fazer de conta que a cúpula do governo não foi gravada em tramóias escandalosas num negócio de R$ 22 bilhões. Aquilo derrubou um pedaço do governo tucano. Mas não deu em CPI. Ninguém foi preso. Não deu em nada.

Farsa é esquecer que nos anos PC Farias se falava em corrupção na casa do bilhão. Isso no governo Collor; eleito com decisivo apoio da mídia. À época, a polícia federal indiciou 400 empresas e 110 grandes empresários. A justiça e a mídia esqueceram o inquérito de 100 mil páginas, com os corruptos e os corruptores. Tudo prescreveu. Fora o PC Farias, ninguém pagou. Isso foi uma farsa.

Farsa foi, é o silêncio estrondoso diante do livro “A Privataria Tucana”. Livro que, em 115 páginas de documentos de uma CPI e investigação em paraísos fiscais, expõe bastidores da privatização da telefonia. Farsa é buscar desqualificar o autor e fazer de conta que os documentos não existem ou “são velhos”. Como se novas fossem as denúncias agora repisadas nas manchetes na busca de condenações a qualquer custo.

Farsa é continuar se investigando os investigadores e se esquecer dos fatos que levaram à operação Satiagraha. Operação desmontada a partir da farsa de uma fita que não existiu. Fita fantasma que numa ponta tinha Demóstenes Torres e a turma do Cachoeira. E que, na outra ponta da conversa que ninguém ouviu, teve o ministro Gilmar Mendes.

Farsa é, anos depois de enterrada a Satiagraha, o silêncio em relação a US$ 550 milhões de dólares. Sim, por não terem origem comprovada, US$ 550 milhões continuam retidos pelo governo dos EUA e da Inglaterra. E o que se ouve, se lê ou se investiga? Nada. Tudo segue enterrado. Em silêncio.

O julgamento do chamado “mensalão” não é uma farsa. Farsa é isolá-lo desses outros fatos todos e torná-lo único. Farsa é politizá-lo ainda mais. Farsesco é magnificá-lo, chamá-lo de “maior julgamento da história do Brasil”.

Farsa não porque esse não seja o maior julgamento. Farsa porque se esquecem de dizer que esse é o “maior” porque não existiram outros julgamentos. Por isso, esse é o “maior”. Existiram, isso sempre, alianças ideológicas, empresariais, na luta pelo Poder. Farsa porque ao final prevaleceu, sempre, o estrondoso silêncio cúmplice.

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Privataria Tucana

Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr.

Para muitos vai parecer notícia velha, mas não poderia deixar de começar o ano disponibilizando o link para download da versão digital de PRIVATARIA TUCANA, de Amaury Ribeiro Jr, publicado pela Geração Editorial em dezembro de 2011.

Para quem ainda não conhece e nem ouviu falar, a obra apresenta documentos inéditos de lavagem de dinheiro e pagamento de propina, todos recolhidos em fontes públicas, entre elas os arquivos da CPI do Banestado. O ex-prefeito e ex-governador de São Paulo, José Serra, é o personagem central dessa história. Amigos e parentes do ex-governador paulista, como a própria filha e seu genro, operaram um complexo sistema de maracutaias financeiras que prosperou no auge do processo de privatização.

Logo após a publicação do livro no princípio de dezembro, a GRANDE MÍDIA resolveu ignorar o lançamento, mas não contava com o fenômeno da divulgação via redes sociais. Facebook e Twitter repercutiram amplamente não só o lançamento, mas uma versão digital para download, o que não impediu que o livro esgotasse sua primeira edição em apenas dois dias.

Exemplo da atitude parcial da imprensa golpista, o Correio do Brasil reportou como a revista Veja ignorou A Privataria Tucana na lista dos livros mais vendidos: “O ranking semanal de livros mais vendidos da revista semanal de ultradireita Veja desprezou a vice-liderança de A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, na categoria de não-ficção.”

Como reporta o Correio do Brasil, nas livrarias Cultura, Publifolha e Saraiva e no site especializado Publishnews, “A Privataria Tucana” aparece na segunda colocação entre as principais vendas não-ficção, atrás apenas da biografia sobre o empresário Steve Jobs, da Apple, morto em 2011, escrito por Walter Isaacson. O livro do jornalista brasileiro está em 10ª colocação no ranking anual da Fnac. Em sua operação de camuflagem do Privataria Tucana, reporta ainda o CB, Veja manteve o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch, no lugar em que, segundo as livrarias, estava A Privataria Tucana. “Nas outras listas, o livro de Narloch aparece apenas na 15ª posição”, indica o site.

Amaury Ribeiro Jr.Em entrevista à revista Carta Capital, Ribeiro Jr. explica como reuniu os documentos para produzir o livro, refaz o caminho das disputas no PSDB e no PT que o colocaram no centro da campanha eleitoral de 2010 e afirma: “Serra sempre teve medo do que seria publicado no livro”.

Para ter acesso a versão digital do livro, basta clicar na capa do livro acima. Não estranhem, ele demora para baixar e até parece que o download está parado, mas não está não. Deixem baixando em outra aba enquanto continuam navegando. Quando terminar o download, o livro já aparece em formato .PDF e é só salvar em seu computador. Aproveitem para divulgar!!!

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