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Tese destaque USP: unidos pela escravidão

A página do Ciência USP lançou uma série de quatro vídeos buscando resumir uma das melhores teses da USP defendidas em 2016: a do doutor Tâmis Peixoto Parron, intitulada “A política da escravidão na era da liberdade: Estados Unidos, Brasil e Cuba, 1787-1846”. Como descrito na página, a tese mostra que esses países usaram laços comerciais para sustentar a política escravocrata, apesar de o século XIX ser marcado pela aspiração à liberdade.

Repercuto aqui os vídeos, sobretudo, por ver dia após dia inúmeros equívocos de interpretação sobre a escravidão africana e o escravismo sendo divulgados na Internet, alimentando pessoas que tentam minimizar os efeitos da escravidão na formação das sociedades americanas sob o argumento de que “eram os próprios africanos quem capturavam, escravizavam e vendiam os negros para os europeus”.

Portanto, recomendo vivamente a todos que dispuserem de alguns minutos para assistirem a esses vídeos, que o façam e reflitam sobre tudo o que têm ouvido por aí na Internet.

DICA: Lembrem-se, em primeiro lugar, que a “escravidão africana” não é um fenômeno homogêneo, isto é, diferentes períodos trazem particularidades que não permitem compreender o escravismo praticado nos séculos XV e XVI da mesma forma que aquele praticado no século XIX. Os vídeos aqui compartilhados tratam, sobretudo, do período final, que se estende de 1787 a 1846.

VÍDEO 1: Cuba, Estados Unidos, Brasil: unidos pela escravidão.

VÍDEO 2: Unidos pela escravidão: a crise do Misouri

VÍDEO 3: A crise da nulificação

VÍDEO 4: História Total: uma inovação na produção acadêmica

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[FOLHA] Brasil marcou um golaço ao financiar Mariel

por Patrícia Campos Mello | para a Folha de S. Paulo | 17.dez.2014

Com o porto de Mariel e outros inúmeros investimentos em Cuba, o Brasil é um dos países que estão mais bem posicionados para se beneficiar da queda do embargo americano à ilha, cuja negociação foi anunciada hoje.

Alvo de críticas ferrenhas, o porto de Mariel, que recebeu cerca de US$ 800 milhões de financiamento do BNDES e foi tocado pela Odebrecht, está a apenas 200 quilômetros da costa da Florida.

Depois da dragagem, poderá receber navios grandes como os Super Post Panamax, que Dilma citou várias vezes durante a cúpula da Celac este ano, e concorrer com o porto do Panamá.

Mesmo sem a dragagem, já será concorrente de portos como o de Kingston, na Jamaica, e das Bahamas, bastante movimentados.

O raciocínio do governo brasileiro sempre foi o de “entrar antes da abertura para já estar lá quando caísse o embargo”.

Essa estratégia se provou acertada.

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Arquivado em Jornais, Opinião, Política

Rússia se junta à China em projeto que prevê construção de canal na Nicarágua

Em notícia divulgada na Gazeta Russa (13.mai), o país governado por Vladimir Putin juntou-se à China em projeto que prevê a construção de um novo canal na América Central, dessa vez na Nicarágua (como já havíamos noticiado aqui anteriormente).

Segundo a notícia, a parceria entre Rússia, China e Nicarágua para a construção do Grande Canal Interoceânico poderá desafiar o controle dos Estados Unidos sobre a região: “Esse Canal promete ser a maior rede de transporte do hemisfério Ocidental, e levará os EUA a perderem significativamente o controle que tiveram sobre a região nos últimos cem anos”, afirmou Emil Dabaghian, pesquisador do Instituto Latino Americano da Academia de Ciências Russa.

Tal notícia revela o quão acertada foi a decisão do governo brasileiro, através do BNDS, em investir US$ 682 milhões na ampliação do Porto de Mariel, em Cuba,  bem como na construção de uma Zona de Desenvolvimento Econômico (ZDE) naquela região, com aporte de mais US$ 290 milhões do BNDS.

Como é de se imaginar, as empresas brasileiras que estiverem atuando na ZDE cubana seguramente estarão entre as grandes beneficiadas com a construção do canal (e, em consequência, o governo brasileiro através do aumento da arrecadação e do provável incremento que as obras prometem dar à exportação de produtos brasileiros). Não restam dúvidas de que, com todas essas obras ocorrendo na América Central e Caribe, a região está entre as que desfrutará de altos índices de crescimento econômico nas próximas décadas e, oportunamente, o governo brasileiro se adiantou em marcar sua posição na região.

Para os que criticaram a decisão do governo brasileiro, questionando quais os reais benefícios em investir quase US$ 1 bilhão de dólares naquela região, está aí uma boa justificativa que leva para bem longe a hipótese aventada pela oposição e setores da grande mídia, de que o governo brasileiro estaria fazendo as obras por questões ideológicas, em benefício do regime cubano dos irmãos Castro.

Abaixo segue a íntegra da notícia tal como publicada no site da Gazeta Russa:

PROJETO CONJUNTO COM A CHINA PREVÊ CONSTRUÇÃO DE CANAL NA NICARÁGUA
por Iúri Paniev | especial para a Gazeta Russa | 13.mai.2014

Canal da Nicarágua será o mais profundo, largo e longo do mundo Foto: Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia.

“Depois de prolongadas reflexões, a Rússia finalmente concordou em tomar parte na construção do canal que promete ser a maior rede de transporte do hemisfério Ocidental. Dessa forma, os EUA perderão uma parte significativa do controle sobre esse território, que eles exerceram durante os últimos cem anos, graças ao Canal do Panamá”, disse Emil Dabaghian, pesquisador do Instituto da América Latina da Academia de Ciências Russa, à Gazeta Russa.

A nova hidrovia artificial, que irá se estender por 286 km (contra os atuais 81,5 km do Canal do Panamá), começará a ser construída no final do ano, conforme estipulado pelo acordo tripartido entre as autoridades da Nicarágua, Rússia e China. A entrega da obra concluída está prevista para 2029.

A verba para realização do projeto, estimada em 40 bilhões de dólares, dependerá sobretudo do grupo chinês HKND, que recebeu a concessão por um período de cem anos para a abertura e operação do canal.

A principal vantagem dessa rota é a largura de 83 metros e a profundidade de 27,5 metros, o que irá permitir a passagem de embarcações da classe superpesada, com um deslocamento de água de até 270 mil toneladas. Em comparação com seu análogo no Panamá, o Canal da Nicarágua será mais profundo, largo e longo. Além disso, planeja-se a construção de dois portos, um aeroporto e um oleoduto.

Na opinião do diretor-geral do Instituto Nacional de Energia, Serguêi Pravosudov, a Rússia será beneficiada não só economicamente, mas também no aspecto geopolítico. “A América do Norte controla os pontos básicos através dos quais seguem as rotas marítimas: os Canais do Panamá e de Suez, bem como as principais rotas comerciais que passam por Singapura, Gibraltar etc. Por isso, o surgimento de uma via navegável alternativa é um desafio direto aos EUA”, alega Pravosudov.

A ideia de construir um canal na Nicarágua surgiu ainda no século 19. Mas, naquela época, a situação política na América Central não era propícia devido à ocupação da Nicarágua por tropas americanas. Foi somente em setembro de 2013 que o Parlamento da Nicarágua aprovou as contas relativas à construção do canal.

Entre as perspectivas que se abrem, as autoridades nicaraguenses esperam um rápido crescimento do PIB, a expansão do mercado de trabalho, novas oportunidades para os negócios locais e receitas provenientes da exploração do canal.

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Documentário They Are We, de Emma Christopher, estabelece conexão cultural entre Cuba e Serra Leoa

Interessante matéria de Emma Christopher, publicada em abril na revista The Atlantic, destaca como o documentário They Are We, de Sérgio Leyva Seiglie, teria ajudado alguns cubanos a descobrirem que são descendentes de escravos sequestrados de uma pequena aldeia localizada em Serra Leoa.

De modo geral, a descoberta se deu há alguns anos, quando o chefe de uma pequena aldeia de Serra Leoa viu que um grupo de cubanos dançavam e cantavam canções em uma língua que, para eles próprios, era desconhecida, todavia muito familiar ao chefe Pokawa da vila de Mokpangumba.

Embora a matéria tenha o claro interesse utilizar essa história para fazer uma crítica ao governo de Cuba (especialmente no período de Fidel Castro), ainda assim achei que valia a pena traduzi-la e repercuti-la aqui no Hum Historiador, pois muitos dos leitores do blog não conseguem identificar nos posts que publico as relações entre o passado de um país que viveu intensamente o regime de escravidão e o presente. Não enxergam, sequer, as ligações entre América-África a partir de seu produto mais óbvio, a herança cultural africana que, após séculos e séculos de sucessivos ataques, ainda persiste.

Abaixo segue uma tradução livre que preparei da matéria tal como foi publicada na revista.

COMO MORADORES DE VILAREJOS DE CUBA DESCOBRIRAM QUE SÃO DESCENDENTES DE ESCRAVOS DE SERRA LEOA

A incrível história das canções e danças tradicionais, passadas por séculos, que ligaram um pequeno grupo étnico caribenho a uma remota tribo africana.

por Emma Christopher | publicado originalmente em 22 de abril de 2013 para The Atlantic

Barmmy Boy Mansaray, é um cameraman de Serra Leoa que trabalhou para o documentário “They Are We”. (Sergio Leyva Sieglie)

O chefe Mabadu Pokawa mal pode acreditar. Sua voz oscilava um pouco entre espanto e esperança, perguntando onde eu havia gravado as canções e danças que ele estava assistindo na tela de meu laptop em sua pequenina e isolada aldeia em Serra Leoa.

Há uma razão para sua descrença. Quando as pessoas da tela não estão cantando em uma língua que, de outro modo, já foi esquecida há muito tempo, estão falando o espanhol rápido à maneira cubana. Eles claramente não são da aldeia de Pokawa, onde poucos falam o inglês dos que passaram pelas escolas e ninguém fala o espanhol.

No entanto, por tudo isso, as pessoas de Perico, Cuba são daqui. São gente de Pokawa, ancestrais que foram exilados séculos atrás como escravos.

A vila de Mokpangumba do chefe Pokawa é implacavelmente pobre, condenada pela geografia assim como pela história. Deixada de fora das estradas ao redor pelas curvas e voltas do rio Taia, seus moradores não tem outra água se não a do fluxo acastanhado do rio e também não contam de nenhum modo com instalações sanitárias. Eletricidade está aquém de suas aspirações. Pokawa, como a maior parte dos homens, planta para sua subsistência, cultivando arroz, inhame e banana para suplementar o peixe que retira do rio.

Agora Pokawa e seu povo estão prontos para celebrar o retorno daqueles que se acreditava há muito terem se perdido. Os habitantes da vila estão todos ocupados se preparando. Cabanas estão sendo preparadas para os visitantes e sacos vazios de arroz estão sendo recheados com folhas para o preparo dos colchões. Um banheiro rudimentar foi cavado e algumas colheres foram colhidas para as refeições, cientes de que os visitantes estão acostumados a tais luxos. Insistindo que eles mesmos contribuem para a celebração pela chegada dos cubanos, os anciãos da vila deram metade do peixe necessário para um banquete para 800 pessoas. Uma coleção de contas sujas de pequeno valor foi tomado para pagar por metade do óleo de palma e pimentas que serão necessárias.

Eles foram inflexíveis sobre todos terem ido embora. Pessoas que cantam as canções da vila – ritmos e melodias que os unem a essa aldeia inacessível – são considerados gente da família. “Nossos avós que nos contaram as histórias sobre nossa gente indo daqui como escravos, sabemos agora que eles não estavam mentindo,” disse Joe Allie, um ancião da villa e tio de Pokawa.

“Esses devem ser nosso povo, “ diz Solomon Musa, um jovem que trabalha como professor na vila, “quando vimos as pessoas que praticam as mesmas coisas que nós costumamos fazer, ficamos muito felizes e cheios de alegria.”

Há uma ideia generalizada de que os africanos são indiferentes ao destino dos descendentes de escravos espalhados pelas Américas. Essa crença nasce em grande parte da tragédia de que a vasta maioria dos que saíram com a diáspora africana ficaram com muito pouco das línguas específicas, culturas, ou crenças que poderiam uni-los a um lugar particular de origem. A insensibilidade total da escravidão, a destruição sem fim das famílias, e o enorme peso das décadas que se passaram contribuíram para atenuar muito do que originalmente cruzou o oceano com os seus antepassados. Na ausência desses laços, alguns afro-americanos tem ido a locais centrais de comemoração, tais como a Ilha Gorée ou o Castelo Cape Coast, em busca de tudo o que foi perdido. Aqueles que esperaram por uma conexão individual com a terra de origem tem, por vezes, relatado um certo desapontamento com esses lugares. Eles são áreas de turismo, no fim das contas. Além disso, a pele escura aqui é norma, de modo que ela só é muito pouco para simbolizar parentesco ou afinidade se não estiver amparada por uma língua, cultura ou experiência partilhada.

Pokawa e seu povo, em contrapartida, encontrou alguns dos seus parentes perdidos nas Américas. Este pequeno grupo de pessoas em Cuba – um país que eles pouco ouviram falar a respeito – cantando e dançando suas músicas, foi um presente de Deus. Ou, mais apropriadamente, de Deus e Allah, ambos adorados aqui lado a lado. Mantidos de fora da mídia e de quase todo sistema educacional do ocidente, para eles as pessoas tomadas como escravas para o comércio transatlântico de escravos ainda são chamadas por seus nomes antigos, invocadas como os perdidos. Havia Gboyangi. Bomboai. Havia uma garota jovem que estava prestes a se casar.

Teaser oficial do documentário THEY ARE WE  de Emma Christopher no Vimeo.

Mas, com meu ceticismo acadêmico, duvidei que poderia ser verdade. Retornei a Cuba e aos arquivos e registros, buscando por alguma evidência escrita de como isso deve ter acontecido. A história inteira, exata provavelmente jamais será recuperada, mas uma mulher específica e seus descendentes preservaram uma série de canções e danças parecidas o bastante para serem claramente identificadas.

O que nós sabemos é que havia uma garota chamada Josefa, sequestrada de sua terra natal na década de 1830, que sobreviveu muito mais do que os sete anos típicos dos engenhos cubanos, em meados do século dezenove. Na verdade, ela viveu até uma idade avançada, tempo suficiente para experimentar a liberdade, e ensinar a sua bisneta Florinda sua herança africana. Forinda, por sua vez, ensinou seu neto, que ela criou desde a infância. Seu nome é Humberto Casanova, agora ele mesmo um bisavô. É a Casanova e três de seus amigos por quem Pokawa e seu povo estão esperando.

O esforço de manter as canções e danças vivas é especialmente notável, pois desde o começo da década de 1960 até o fim da década de 1980, suas performances foram proscritas de Cuba. Fidel Castro restringiu atividades culturais e religiosas afro-cubanas da mesma forma como barrou o catolicismo e outras fés. Foi apenas em tempos mais recentes que elas foram permitidas a ser celebradas abertamente, e poucos grupos lograram ressuscitar suas canções, danças e rituais. De alguma forma Humberto Casanova e sua fiel assistente Magdalena (Piyuya) Mora conseguiram realizar esse feito singular. (Aos 85 anos de idade, Piyuya está muito frágil para fazer a viagem a Serra Leoa, então será representada por seu sobrinho, o entalhador Alfredo Duquesne.)

Levou dois anos para se obter a permissão para a visita, e estas só foram possíveis recentemente em função do relaxamento das leis de viagem em Cuba. Nesses dois anos eu voltei a Serra Leoa diversas vezes para mantê-los a par do andamento da viagem, sem esquecer da ironia de que, 180 anos depois, os africanos são muito pobres para retirarem certidões de nascimentos que lhes permitiriam obter passaportes, enquanto os cubanos descendentes dos escravos não são tão livres para viajar como gostariam. O pessoal da aldeia jamais desistiram de ter esperanças. Eles esperaram por 170 anos pelo retorno de seus antepassados, afinal de contas, o que são alguns meses a mais?

O que esta visita significa para Pokawa e seu povo é quase impossível de compreender plenamente. As pessoas aqui são definidas por suas relações familiares, com muito pouco da pessoa existindo além da unidade familiar. Como reincorporar pessoas que se foram a tanto tempo, que agora falam uma língua diferente mas que, inescapavelmente, são seus parentes, é uma questão que pode apenas ser tratada através da aceitação de coração aberto. Apenas saber que eles estão vivos, que sua cultura floresceu em algum outro lugar, é maravilhoso. Pokawa estendeu o convite para que eles permanecessem na aldeia o quanto quisessem, o que para esta viagem será apenas uma semana.

Assim como os tambores da celebração estão sendo preparados, o “diabo” também está, uma dançarina fantasiada com ráfia dos pés à cabeça e com painéis de madeira em suas costas, representando todos os ancestrais. Pois os ancestrais estão, finalmente, dançando com prazer e alegria.

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Pedro Saraiva: Sobre a vinda dos 6.000 médicos cubanos

Ainda continuando o assunto da vida dos 6 mil médicos cubanos, aproveito para republicar matéria que li no VIOMUNDO e que foi retirada do Blog do Nassif. Acredito que o post abaixo respondem aos comentários de Maria Elizabeth Difini e Carvalho em minha postagem anterior.

A QUESTÃO DA VINDA DOS MÉDICOS CUBANOS AO BRASIL
Por Pedro Saraiva, no blog do Nassif

publicado em 9 de maio de 2013 às 9:43

Olá Nassif, sou médico e gostaria de opinar sobre a gritaria em relação à vinda dos médicos cubanos ao Brasil. Bom, como opinião inteligente se constrói com o contraditório, vou tentar levantar aqui algumas informações sobre a vinda de médicos cubanos para regiões pobres do Brasil que ainda não vi serem abordadas.

– O principal motivo de reclamação dos médicos, da imprensa e do CFM seria uma suposta validação automática dos diplomas destes médicos cubanos, coisa que em momento algum foi afirmado por qualquer membro do governo. Pelo contrário, o próprio ministro da saúde, Antônio Padilha, já disse que concorda que a contratação de médicos estrangeiros deve seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissional. Portanto, o governo não anunciou que trará médicos cubanos indiscriminadamente para o país. Isto é uma interpretação desonesta.

– Acho estranho o governo ter falado em atrair médicos cubanos, portugueses e espanhóis, e a gritaria ser somente em relação aos médicos cubanos. Será que somente os médicos cubanos precisam revalidar diploma? Sou médico e vivo em Portugal, posso garantir que nos últimos anos conheci médicos portugueses e espanhóis que tinham nível técnico de sofrível para terrível. E olha que segundo a OMS, Espanha e Portugal têm, respectivamente, o 6º e o 11º melhores sistemas de saúde do mundo (não tarda a Troika dar um jeito nesse excesso de qualidade). Profissional ruim há em todos os lugares e profissões. Do jeito que o discurso está focado nos médicos de Cuba, parece que o problema real não é bem a revalidação do diploma, mas sim puro preconceito.

– Portugal já importa médicos cubanos desde 2009. Aqui também há dificuldade de convencer os médicos a ir trabalhar em regiões mais longínquos, afastadas dos grandes centros. Os cubanos vieram estimulados pelo governo, fizeram prova e foram aprovados em grande maioria (mais à frente vou dar maiores detalhes deste fato).

A população aprovou a vinda dos cubanos, e em 2012, sob pressão popular, o governo português renovou a parceria, com amplo apoio dos pacientes. Portanto, um dos países com melhores resultados na área de saúde do mundo importa médicos cubanos e a população aprova o seu trabalho.

– Acho que é ponto pacífico para todos que médicos estrangeiro tenham que ser submetidos a provas aí no Brasil. Não faz sentido importar profissionais de baixa qualidade. Como já disse, o próprio ministro da saúde diz concordar com isso. Eu mesmo fui submetido a 5 provas aqui em Portugal para poder validar meu título de especialista. As minhas provas foram voltadas a testar meus conhecimentos na área em que iria atuar, que no caso é Nefrologia. Os cubanos que vieram trabalhar em Medicina de família também foram submetidos a provas, para que o governo tivesse o mínimo de controle sobre a sua qualidade.

Pois bem, na última leva, 60 médicos cubanos prestaram exame e 44 foram aprovados (73,3%). Fui procurar dados sobre o Revalida, exame brasileiro para médicos estrangeiros e descobri que no ano de 2012, de 182 médicos cubanos inscritos, apenas 20 foram aprovados (10,9%). Há algo de estranho em tamanha dissociação. Será que estamos avaliando corretamente os médicos estrangeiros?

Seria bem interessante que nossos médicos se submetessem a este exame ao final do curso de medicina. Não seria justo que os médicos brasileiros também só fossem autorizados a exercer medicina se passassem no Valida? Se a preocupação é com a qualidade do profissional que vai ser lançado no mercado de trabalho, o que importa se ele foi formado no Brasil, em Cuba ou China?

O CFM se diz tão preocupado com a qualidade do médico cubano, mas não faz nada contra o grande negócio que se tornaram as faculdades caça-níqueis de Medicina. No Brasil existe um exército de médicos de qualidade pavorosa. Gente que não sabe a diferença entre esôfago e traqueia, como eu já pude bem atestar. Porque tanto temor em relação à qualidade dos estrangeiros e tanta complacência com os brasileiros?

– Em relação este exame de validação do diploma para estrangeiros abro um parêntesis para contar uma situação que presenciei quando ainda era acadêmico de medicina, lá no Hospital do Fundão da UFRJ.

Um rapaz, se não me engano brasileiro, tinha feito seu curso de medicina na Bolívia e havia retornado ao país para exercer sua profissão. Como era de se esperar, o rapaz foi submetido a um exame, que eu acredito ser o Revalida (na época realmente não procurei me informar). O fato é que a prova prática foi na enfermaria que eu estava estagiando e por isso pude acompanhar parte da avaliação.

Dois fatos me chamaram a atenção, o primeiro é a grande má vontade dos componentes da banca com o candidato. Não tenho dúvidas que ele já havia sido prejulgado antes da prova ter sido iniciada. Outro fato foi o tipo de perguntas que fizeram.

Lembro bem que as perguntas feitas para o rapaz eram bem mais difíceis que aquelas que nos faziam nas nossas provas. Lembro deles terem pedidos informações sobre detalhes anatômicos do pescoço que só interessam a cirurgiões de cabeça e pescoço. O sujeito que vai ser médico de família, não tem que saber todos os nervos e vasos que passam ao lado da laringe e da tireoide. O cara tem que saber tratar diarreia, verminose, hipertensão, diabetes e colesterol alto. Soube dias depois que o rapaz tinha sido reprovado.

Não sei se todas as provas do Revalida são assim, pois só assisti a uma, e mesmo assim parcialmente. Mas é muito estranho os médicos cubanos terem alta taxa de aprovação em Portugal e pouquíssimos passarem no Brasil. Outro número que chama a atenção é o fato de mais de 10% dos médicos em atividade em Portugal serem estrangeiros. Na Inglaterra são 40%. No Brasil esse número é menor que 1%. E vou logo avisando, meu salário aqui não é maior do que dos meus colegas que ficaram no Brasil.

– Até agora não vi nem o CFM nem a imprensa irem lá nas áreas mais carentes do Brasil perguntar o que a população sem acesso à saúde acha de virem 6000 médicos cubanos para atendê-los. Será que é melhor ficar sem médico do que ter médicos cubanos? É o óbvio ululante que o ideal seria criar condições para que médicos brasileiros se sentissem estimulados a ir trabalhar no interior. Mas em um país das dimensões do Brasil e com a responsabilidade de tocar a medicina básica pulverizada nas mãos de centenas de prefeitos, isso não vai ocorrer de uma hora para outra.

Na verdade, o governo até lançou nos últimos anos o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), que oferece salários mensais de R$ 8 mil e pontos na progressão de carreira para os médicos que vão para as periferias. O problema é que até hoje só 4 mil médicos aceitaram participar do programa. Não é só salário, faltam condições de trabalho. O que fazemos então? Vamos pedir para os mais pobres aguentar mais alguns anos até alguém conseguir transformar o SUS naquilo que todos desejam? Vira lá para a criança com diarreia ou para a mãe grávida sem pré-natal e diz para ela segurar as pontas sem médico, porque os médicos do sul e sudeste do Brasil, que não querem ir para o interior, acham que essa história de trazer médico cubano vai desvalorizar a medicina do Brasil.

– É bom lembrar que Cuba exporta médicos para mais de 70 países. Os cubanos estão acostumados e aceitam trabalhar em condições muito inferiores. Aliás, é nisso que eles são bons. Eles fazem medicina preventiva em massa, que é muito mais barata, e com grandes resultados. Durante o terremoto do Haiti, quem evitou uma catástrofe ainda maior foram os médicos cubanos. Em poucas semanas os médicos dos países ricos deram no pé e deixaram centenas de milhares de pessoas sem auxílio médico.

Se não fosse Cuba e seus médicos, haveria uma tragédia humanitária de proporções dantescas. Até o New England Journal of Medicine, a revista mais respeitada de medicina do mundo, fez há poucos meses um artigo sobre a medicina em Cuba. O destaque vai exatamente para a capacidade do país em fazer medicina de qualidade com recursos baixíssimos (http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1215226).

– Com muito menos recursos, a medicina de Cuba dá um banho em resultados na medicina brasileira. É no mínimo uma grande arrogância achar que os médicos cubanos não estão preparados para praticar medicina básica aqui no Brasil. O CFM diz que a medicina de Cuba é de má qualidade, mas não explica por que a saúde dos cubanos, como muito menos recursos tecnológicos e com uma suposta inferioridade qualitativa, tem índices de saúde infinitamente melhores que a do Brasil e semelhantes à avançada medicina americana (dados da OMS).

– Agora, ninguém tem que ir cobrar do médico cubano que ele saiba fazer cirurgia de válvula cardíaca ou que seja mestre em dar laudos de ressonância magnética. Eles não vêm para cá para trabalhar em medicina nuclear ou para fazer hemodiálises nos pacientes. Medicina altamente tecnológica e ultra especializada não diminui mortalidade infantil, não diminui mortalidade materna, não previne verminose, não conscientiza a população em relação a cuidados de saúde, não trata diarreia de criança, não aumenta cobertura vacinal, nem atua na área de prevenção. É isso que parece não entrar na cabeça de médicos que são formados para serem superespecialistas, de forma a suprir a necessidade uma medicina privada e altamente tecnológica. Atenção! O governo que trazer médicos para tratar diarreia e desidratação! Não é preciso grande estrutura para fazer o mínimo. Essa população mais pobre não tem o mínimo!

Que venham os médicos cubanos, que eles façam o Revalida, mas que eles sejam avaliados em relação àquilo que se espera deles. Se os médicos ricos do sul maravilha não querem ir para o interior, que continuem lutando por melhores condições de trabalho, que cobrem dos governos em todas as esferas, não só da Federal, melhores condições de carreira, mas que ao menos se sensibilizem com aqueles que não podem esperar anos pela mudança do sistema, e aceitem de bom grado os colegas estrangeiros que se dispõe a vir aqui salvar vidas.

Infelizmente até a classe médica aderiu ao ativismo de Facebook. O cara lê a Veja ou O Globo, se revolta com o governo, vai no Facebook, repete meia dúzia de clichês ou frases feitas e sente que já exerceu sua cidadania. Enquanto isso, a população carente, que nem sabe o que é Facebook morre à mingua, sem atendimento médico brasileiro ou cubano.

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Por que os médicos cubanos assustam

Publicado orignalmente no Blog do Porfírio em 07/mai/2013

De Pedro Porfírio

ELITE CORPORATIVISTA TEME MUDANÇA DE FOCO QUE ABALE O NOSSO SISTEMA MERCANTIL DE SAÚDE 

A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha, que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.

Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós.

Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.

A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero.

Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.

NO BRASIL, O APEGO ÀS GRANDES CIDADES

Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste. Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só  está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.

E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.

Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de  clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.

Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.

SEM COMPROMISSO EM RETRIBUIR OS CURSOS PÚBLICOS

Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto  não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.

Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.

Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.

Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.

CONCENTRADOS NO SUDESTE, SUL E GRANDES CIDADES

Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades.  Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.

Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho,  se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.

A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.

Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536.Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.

A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.

A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença.  Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical  nos seus índices de saúde.

CUBA É RECONHECIDA POR SEUS ÊXITOS NA MEDICINA E NA BIOTECNOLOGIA

Em  sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.

Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde.  Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.

Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.

Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuídos por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.

Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.

O Brasil forma 13 mil médicos por ano em  200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.

FORMANDO MÉDICOS DE 69 PAÍSES

Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.

Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.

Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.

Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue.  Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.

PRESENÇA DE MÉDICOS CUBANOS NO EXTERIOR

Desde 1963,  com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.

No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.

No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.

Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o  regime de Havana,  segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.

Fonte: Blog do Porfírio

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“Liberdade de Expressão” o caso da visita de Yoani Sanchez ao Brasil

O portal Viomundo publicou, em 22 de fevereiro último, artigo de Joana Salém, mestranda em desenvolvimento econômico na Unicamp, que trata sobre a passagem de Yoani Sanchez pelo Brasil em sua tour mundial.

Em seu artigo, Salém fala sobre a “liberdade de expressão” defendida pelos simpatizantes brasileiros de Yoani Sanchez. Simpatizantes que, conforme sugere a autora, talvez ocultem seus interesses ao defenderem essa liberdade de expressão em abstrato, tal como o fazem ao falar de Yoani Sanchez. “Os interesses do Instituto Milenium, por exemplo, que expõe o retrato da cubana entre seu rol de “especialistas (…) dando a liberdade de expressão uma dimensão da liberdade de mercado, movida pela sacralização dos princípios individualistas e consumistas do capitalismo”.

Abaixo segue a íntegra do artigo de Joana Salém tal como publicado pelo portal Viomundo no dia 22 de Fevereiro de 2013.

INTERNET RÁPIDA E 14 MILHÕES DE ANALFABETOS
por Joana Salém Vasconcelos, especial para o Viomundo

Desde que a blogueira cubana Yoani Sanchez chegou ao Brasil no último dia 18 de fevereiro, seu percurso por algumas cidades tem causado polêmicas, entre protestos e defesas apaixonadas. A bandeira carregada por Yoani é a “liberdade de expressão” que, segundo ela, é extremamente limitada em seu país.

Entre seus primeiros comentários na sua conta do twitter, com mais de 440 mil seguidores, Yoani se mostrou deslumbrada com a velocidade da internet no Brasil. Escreveu: “Mi primer tweet conectada a #Internet en #Brasil … waooo que conexión más rápida”. Logo depois, completou: “cada día que pasa y no se le permite el acceso masivo a Internet para los cubanos, la Isla se hunde más en el siglo XX”. Ao ler suas palavras, imediatamente, emerge a certeza de que Yoani Sanchez não conhece o Brasil. Provavelmente não sabe, por exemplo, que no Brasil 70% dos domicílios não tem acesso à internet, nem rápida, nem lenta, como constatou o IBGE em 2010. A maior parte do Brasil estaria, na concepção de Yoani, afundando no século XX – junto com Cuba.

Os defensores de Yoani, que a acompanham e, provavelmente, a financiam em suas andanças pelo país, são também paladinos brasileiros da “liberdade de expressão”. Curiosamente, muitos deles são os jornalistas que mais se expressam nos meios de comunicação do país e repetem, cotidiana e livremente, o mesmo discurso sobre a liberdade. A palavra “liberdade”, contudo, faz parte daquele universo de palavras sagradas, que todos podem reivindicar sem dar precisão exata ao que estão se referindo. Contudo, quando desacompanhada de qualquer conteúdo social, a palavra “liberdade” não passa de um cosmético do discurso. Isso porque, em uma nação socialmente segregada como a nossa, não existe liberdade sem conflito de interesses. O que determina, por exemplo, a liberdade dos sem-terra e a liberdade do latifundiário? Toda liberdade possui conteúdo social, e defendê-la como uma bandeira política neutra é uma atitude falsificadora.

No Brasil, portanto, a liberdade de expressão é um fato proporcional à nossa segregação social. Há que se supor que quando defendem a liberdade de expressão em abstrato, os amigos brasileiros de Yoani, na realidade, ocultem seus interesses. Talvez os interesses do Instituto Millenium, que expõe o retrato da cubana entre seu rol de “especialistas”. Nesse caso, liberdade de expressão seria uma dimensão da liberdade de mercado, movida por uma sacralização dos princípios individualistas e consumistas do capitalismo.

Porta-vozes de um elitismo atroz, os líderes do Instituto Millenium, essa versão pós-moderna do complexo IPES/IBAD, pouco se importam, por exemplo, com o fato de que no Brasil haja mais de 14,6 milhões de habitantes não alfabetizados (IBGE, Censo 2010). É preciso abrir os olhos: Cuba possui pouco mais de 11 milhões de habitantes. Isso significa que o Brasil, esse país de cidadãos livres, contém mais do que uma Cuba inteira de analfabetos dentro de si, uma população ofuscada pela euforia consumista dos nossos tempos.

Não se importam, tampouco, com o fato de que o trabalho infantil atinge mais de 3,6 milhões de crianças e adolescentes brasileiros em idade escolar (entre 5 a 17 anos). Que hoje, em pleno século XXI, 50% de população brasileira com mais de 10 anos é considerada sem instrução ou não conseguiu concluir o Ensino Fundamental. Estamos falando de mais de 80 milhões de pessoas, ou ainda, mais de sete vezes a população de Cuba (IBGE, Censo 2010). Diante dos fatos, cabe perguntar: qual liberdade de expressão é possível em um país que não garante a seu povo o direito efetivo ao conhecimento e à informação, naturalizando a existência do analfabetismo em massa?

A armadilha retórica da “liberdade de expressão”, tecida pelos adoradores do mercado, precisa ser urgentemente desfeita. Infelizmente, a aquecida troca de insultos de parte a parte ocasionada pela visita de Yoani Sanchez ao Brasil não pôs em relevo aquilo que é fundamental. Primeiro, que qualquer liberdade é limitada e excludente quando não há um patamar mínimo de igualdade social. Segundo, que a democracia brasileira, enquanto estiver refém do financiamento privado, não pode ser a garantia de liberdade de expressão, enquanto os condicionantes materiais dessa liberdade permanecem sob o controle de uma casta de privilegiados. Terceiro, que o capitalismo latino-americano, em todas as suas fórmulas e regimes, se mostrou incapaz de romper com a lógica da segregação social. Cuba foi, neste sentido, o único país capaz de construir de uma sociedade igualitária.

Em Cuba, poucas necessidades básicas dos cidadãos dependem exclusivamente do poder de compra. Como resultado da escassez de divisas decorrente do bloqueio econômico dos Estados Unidos erguido em 1960, surgiu em Cuba um princípio de distribuição do excedente completamente distinto do modelo segregacionista latino-americano. Trata-se do princípio da “remuneração coletiva do trabalho”: os salários se reduziram ao mínimo, enquanto o Estado garantiu a todos, igualitariamente, as suas necessidades básicas. O poder de compra individual foi limitado e convertido em desenvolvimento social. Foi assim que muitos cubanos, incluindo a maioria dos trabalhadores rurais, passaram a se alimentar melhor do que antes da revolução. Com a queda da União Soviética, o sistema atravessou um período de austeridade, o “período especial”, que foi aliviado com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela em 1998.

Imagino que Yoani Sanchez compreenda a importância histórica de superar a segregação social numa região como a América Latina. Ao superá-la, o governo cubano cometeu diversos erros: perseguiu os homossexuais, afastou intelectuais críticos, censurou escritores, criou um enorme sistema de vigilância política enraizado nos Comitês de Defesa da Revolução, que intimidam a cidadania a manifestar suas críticas. Entretanto, apesar destes defeitos nada desprezíveis, Cuba continua sendo a única experiência latino-americana de superação do modelo segregacionista.

No limiar dessa contradição, a esquerda latino-americana tem o dever de aprender com os erros do socialismo real, seja em Cuba, seja em qualquer outra parte. Se o igualitarismo é condição imprescindível para a realização das liberdades humanas, é também insuficiente. Quando enganchado em dogmas e intolerância política, pode resultar em uma explosiva equação de violência, cujas vítimas foram, incontáveis vezes, aliadas do próprio igualitarismo. Sobre isso, é a esquerda que deve se responsabilizar e produzir sua autocrítica. A equação justa entre igualdade e liberdade é sua tarefa do futuro.

Em tempo: que os próceres da mídia que ciceroneiam Yoani tenham a bondade de levá-la a um hospital público sem máquina de raio X ou a uma escola sem biblioteca. Talvez assim, conhecendo um pouco mais o Brasil, Yoani possa conter seu inocente deslumbramento com o capitalismo subdesenvolvido.

Joana Salém Vasconcelos faz Mestrado em Desenvolvimento Econômico na UNICAMP sobre história econômica cubana.

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