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Os números das eleições presidenciais nas diferentes regiões da cidade de São Paulo

Com base no resultado divulgado ontem (26) pelo TSE que repercutiu em toda mídia impressa e online, preparei tabelas contendo os resultados da eleição no município de São Paulo, detalhando os números por zona/região da cidade.

Abaixo publicarei uma série de tabelas e gráficos que nos ajudam a visualizar melhor, não só a expressiva votação de Aécio, mas o relativo fracasso do PT nas eleições paulistanas, de onde saiu com apenas 36,2% do eleitorado. Digo relativo fracasso, pois ainda que a votação em Dilma tenha, de fato, sido menor do que o esperado, esses pouco mais de 36% de votos paulistanos são, na verdade, mais do que toda a votação que Dilma recebeu em Belo Horizonte e Rio de Janeiro somada. Cabe, portanto, aos cientistas sociais e à liderança do PT buscar uma explicação para essa guinada à direita de parte do seu tradicional eleitorado paulistano, mas ao mesmo tempo, comemorar a fidelidade desses 36% que ajudaram a reeleger Dilma Rousseff presidenta do Brasil.

OS NÚMEROS DE SÃO PAULO

Começo apresentando a distribuição dos votos segundo a divisão das zonas da cidade, classificados por ordem decrescente do total de votos válidos.

São Paulo_por Zonas

Resultado do segundo turno das eleições presidenciais na cidade de São Paulo segundo a divisão zonal. Fonte: TSE e Folha de S. Paulo

Vê-se que, em números absolutos, o candidato Aécio Neves teve maior votação nas Zona Leste e Sul da capital, embora em termos percentuais sejam exatamente estes os locais onde ele conquistou menos eleitores, 60,2 e 61%, respectivamente. Em contrapartida, Aécio teve esmagadora votação na Zona Oeste (75,4%) e na região central (68%), que é justamente onde se concentra os bairros mais nobres da capital. O gráfico abaixo ilustra melhor como foi esta distribuição dos votos na capital.

SegundoTurno_Grafico_Sao Paulo

Gráfico elaborado por J. R. Beier. Fonte: TSE e Folha de S. Paulo

Portanto, no conjunto geral, a presidenta reeleita, Dilma Rousseff, perdeu as eleições por margem expressiva na região central e em todas as quatro zonas de São Paulo. Sua melhor votação, na Zona Leste, chegou próximo aos 40% dos votos. Em cada uma dessas zonas, Dilma ganhou as eleições em apenas dez das 58 regiões eleitorais da capital, como destaca o quadro abaixo.

Quadro elaborado por J. R. Beier. Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Quadro elaborado por J. R. Beier. Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Dilma teve maior votação que Aécio, portanto, em cinco regiões eleitorais na Zona Leste (Cidade Tiradentes, Guaianazes, São Mateus, Itaim Paulista e Jardim Helena), quatro na Zona Sul (Parelheiros, Grajaú, Piraporinha e Valo Velho) e em apenas uma da Zona Norte (Perus). Fiz o destaque de Piraporinha que, além de ser a minha zona eleitoral, é a que concentrou o maior número de votos válidos na cidade de São Paulo (179.190).

Olhando a distribuição dos votos dentro de cada uma das zonas, veremos que esta eleições trouxeram algumas surpresas. Como no caso da Zona Sul, por exemplo.

Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Surpreende que em bairros como Capão Redondo, Campo Limpo, Pedreira e Jardim São Luiz o candidato Aécio Neves tenha conseguido mais votos que Dilma Rousseff. Isso porque estes são bairros periféricos da Zona Sul que, tradicionalmente, é um eleitorado do PT, como deixou claro os resultados das eleições para a prefeitura, em 2012. Por outro lado, a expressiva votação de Aécio em Santo Amaro (inclui Granja Julieta, Itaim, Vila Olímpia e Brooklin), Vila Mariana (inclui Vila Clementino), Saúde e Indianópolis (Inclui Moema e Campo Belo) já era esperada. Redutos da classe média e média alta paulistana que, há tempos, está fechada com os candidatos do PSDB.

Nos distritos eleitorais da Zona Oeste e central de São Paulo, a votação de Aécio Neves foi ainda mais expressiva, com destaque para a região dos Jardins (86,68%), Pinheiros (80,42%) e Butantã (74,99%). Nesta região, a surpresa ficou por conta da baixa votação da petista em Rio Pequeno (35,17%) e Pirituba (28,92%). Confira os números no quadro abaixo.

Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Já na Zona Norte, algumas surpresas também marcaram os resultados das urnas, como nos casos da vitória de Aécio Neves em Brasilândia e Jaraguá, regiões periféricas e bastante carentes da capital. Mesmo em Perus, onde Dilma ganhou, a diferença foi mínima (apenas 297 votos).

Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Por fim, na Zona Leste, os resultados demonstram que, tal como nas outras regiões, o PT perdeu força em áreas onde tradicionalmente vencia. Destaque aqui vão para regiões como Itaquera, Ermelino Matarazo, Conjunto José Bonifácio, Teotônio Vilela, Vila Jacuí e São Miguel Paulista. Todas essas regiões, muito populosas, fizeram muita diferença nos resultados dessa eleição, já que somadas, poderiam representar um acréscimo de 150 a 200 mil votos para Dilma.

Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Fonte: TSE e Folha de S. Paulo.

Por fim, embora os resultados de São Paulo tenham sido desastrosos para o PT, que no total conquistou pouco mais de 36% do eleitorado paulistano, no âmbito nacional eles ajudaram muito à reeleição de Dilma Rousseff, uma vez que por ser o maior colégio eleitoral do país, estes 36,2% de eleitores da capital representaram, na verdade, 2.345.465 votos para a presidenta. Somados, isto é mais do que os 521.042 votos que Dilma recebeu em Belo Horizonte e os 1.625.722 do Rio de Janeiro, capital onde Dilma bateu Aécio Neves.

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A velha corrupção

CARTA ABERTA AOS JOVENS SOBRE AS ELEIÇÕES
por Sidney Chalhoub, historiador e professor da Unicamp

Sidney Chalhoub é professor de História na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A violência do debate eleitoral no momento causa perplexidade aos jovens de idade semelhante aos que tenho em casa, que talvez acompanhem pela primeira vez, “ligados” de verdade, uma campanha eleitoral dessa importância para o país. Especialmente em São Paulo, a grande imprensa produziu um verdadeiro clima de guerra civil midiática em torno desta eleição, desinforma o quanto pode, confunde e manipula. São anos a fio de fogo cerrado contra o governo, em matérias jornalísticas cujos autores assumem o ar arrogante de ilibados defensores da ética e do interesse público.

A insistência no tema da corrupção, como se o atual governo tivesse inventado semelhante mostrengo, é uma combinação ácida de ignorância e hipocrisia. Vamos primeiramente à ignorância histórica, na qual a grande imprensa chafurda com grande desenvoltura. A corrupção está, por assim dizer, no código genético do Estado brasileiro. Nas primeiras décadas após a Independência, período de formação do Estado nacional, a fonte principal da corrupção foi o tráfico ilegal de africanos escravizados. Ao negociar o reconhecimento de nossa Independência no exterior, o Brasil contou com o apoio da Inglaterra em troca do compromisso de não continuar a capturar e escravizar africanos por meio do tráfico negreiro. Em respeito aos acordos internacionais firmados pelo país, o parlamento brasileiro aprovou uma lei de proibição do tráfico africano em 7 de novembro de 1831. Todavia, os africanos continuaram a chegar. Entre 1831 e o início da década de 1850, quando o tráfico realmente acabou por força da aplicação de uma nova lei, 750 mil africanos foram introduzidos no Brasil por contrabando e escravizados à revelia das leis do país.

O tráfico negreiro ilegal coincidiu com o desenvolvimento da cafeicultura no Vale do Paraíba fluminense e paulista. Em meados do século XIX, era comum que cerca de 80% dos trabalhadores das fazendas de café dessa região fossem africanos ilegalmente escravizados. Para dizer as coisas com clareza: a riqueza dos barões do café e a prosperidade das províncias do Rio de Janeiro e de São Paulo foram construídas por meio da escravização em massa de africanos sequestrados em seu continente de origem e trazidos para o Brasil ilegalmente. O negócio contou com a prática de corrupção em todas as escalas do governo do país e envolveu amplos setores da sociedade, desde os empresários envolvidos no tráfico, outros empenhados em manter a clandestinidade das operações, até os intermediários e fazendeiros que adquiriam os escravizados.

Basta de informação, oferecida aqui apenas para contrabalançar a ignorância histórica de boa parte da mídia nativa. Em especial quanto aos jornalões do Estado de São Paulo, eles deviam enrubescer de vergonha cada vez que insinuassem a virtude própria para enfatizar a corrupção alheia. Um deles, àquela época chamado A Província de São Paulo, foi fiel defensor dos proprietários de gente criminosamente escravizada. Quanto a este assunto, desde a sua fundação, em 1875, foi conivente com a Velha Corrupção. Sim, “Velha Corrupção”, para marcar bem o tamanho histórico do problema que os jornalões cismam de atribuir ao atual governo, apenas no intuito de desinformar e tentar influir no resultado das eleições.

Portanto, chega de hipocrisia, de usar dois pesos e duas medidas. No país independente, a corrupção surgiu junto com o Estado em formação, nele se incrustou e é uma tragédia que aí continue. Assim como continua a grassar na sociedade, como parece óbvio, presente às vezes nas falas dos próprios sujeitos que, ao mesmo tempo, vociferam contra os corruptos no Estado e se dedicam com afinco a viciar concorrências públicas, a bolar estratégias para sonegar impostos diversos, até para ingressar nos aeroportos do país com muambas variadas e outras baixezas do gênero.

Chega de hipocrisia. Onde estava a disposição de investigação da grande mídia quando o governo do PSDB, segundo se dizia, comprava os votos de parlamentares para aprovar a lei que permitiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso? O chamado “mensalão do PSDB mineiro”, origem do outro do qual tanto se falou, por onde anda? As denúncias de irregularidades nas privatizações tucanas de empresas públicas –algumas vendidas a preço de banana – mereceram a devoção investigativa da grande imprensa? Trens? Metrô? Tudo anda assim tão dentro dos conformes em São Paulo, a nossa Tucanolândia?

A corrupção é tema complexo e difícil. Não há governante, no Brasil, que dê cabo disso numa penada. Muita coisa se pode e deve fazer para livrar o país da Velha Corrupção. Para começar, o governo precisa ter disposição para enfrentar o problema e tem de garantir a eficácia e a independência dos órgãos encarregados de investigar, processar e punir os responsáveis. O governo Dilma foi exemplar nesses quesitos. Por conseguinte, a hipocrisia de caluniá-lo por isto é especialmente danosa à democracia e ao atual processo eleitoral.

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Deputado Aécio Neves e seus votos contra o trabalhador

Antes de votar em Aécio Neves, convém aos trabalhadores saber como o deputado Aécio votava durante o período em que esteve na Câmara Federal. O blog Tijolaço pesquisou e encontrou como votou o então deputado. Repercuto o post de autoria de Fernando Brito na íntegra aqui no Hum Historiador como um serviço de utilidade pública para o próximo dia 26.out.

Aécio, isso não é conversa. São seus votos como deputado!
por Fernando Brito para o blog Tijolaço | publicado em 17.out.2014

diap

Por indicação do boletim da Federação dos Petroleiros, fui atrás do relatório do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) dos parlamentares da legislatura 1999-2003, a última da qual Aécio Neves participou como deputado, no Governo Fernando Henrique.

Em  10 matérias de interesse dos trabalhadores o senhor  votou contra eles em seis, viajou duas em missão oficial, fugiu de votar em uma e apenas em uma deu um voto favorável, assim mesmo hipócrita, porque foi a que proibia o nepotismo que, em Minas, praticaria a rodo.

Alguns dos seus votos, senador:

1 – Absteve-se na votação sobre flexibilização da CLT – uma lei altera o artigo 618 da CLT, estabelecendo a prevalência de convenção ou acordo coletivo de trabalho sobre a legislação infraconstitucional. Isto é, autorizando um sindicato “camarada” do patronato a abrir mão de direitos já conquistados em lei;

2-  Votou a favor da criação do Fator Previdenciário,  este mesmo que o senhor diz agora que vai “discutir” com os trabalhadores para ver abolido. Conversa mole, não é?

3- Votou pelo fim do Regime Jurídico Único no serviço público, para reabrir a possibilidade de regime de contratação pela CLT no serviço público, sem direito à negociação, estabilidade ou aposentadoria integral.

4 – Votou pela redução do prazo para trabalhadores rurais reclamarem seus direitos trabalhistas;

5- Votou  a favor de projeto que privilegia pagamento de juros em detrimento às despesas com pessoal, custeio, investimento em infra-estrutura e principalmente nas áreas sociais.

6 – Votou contra projeto que garantia critérios objetivos  de avaliação   para fins  de dispensa de servidor estável por insuficiência de desempenho e contra a garantia a ele de ampla defesa

Quem quiser ver os dez, clique aqui.

Foi feito dez anos antes de Aécio ser candidato à Presidência e é até generoso com suas qualidades de articulador. Não é campanha eleitoral, portanto.

São fatos. É história, não historinha.

Este é o Aécio de verdade, não o de mentirinha que os marqueteiros botam prometendo na televisão.

Ah, e vem mais aí, sempre com documentos, senador, porque este “blog sujo” é limpíssimo

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Anatomia de um debate

por Pablo Villaça
publicado originalmente no Facebook | 15.out.2014

Foto: Filipe Redondo/Band

Assim que o debate entre Dilma e Aécio chegou ao fim [Debate da Band], li algumas pessoas criticando a dicção da presidente. Mesmo, amigos? Chegamos a isso? Não sabia que Dilma estava concorrendo ao posto de Mestre Intergaláctica de Oratória. Achei, sinceramente, que o mais importante fosse o CONTEÚDO do que estava sendo dito, não a forma – e, neste aspecto, Dilma moeu Aécio Neves.

Não que isto seja difícil: depois de uma carreira inteira em uma Minas Gerais com uma imprensa amordaçada, Aécio perdeu a capacidade de lidar com o contraditório – e, talvez por isso, em vários momentos ergueu a voz e o dedo para a presidente (assim como havia feito com Luciana Genro) e se mostrou descontrolado. Para debater, é preciso conteúdo e honestidade. E ajuda, também, se o candidato tiver ideias para apresentar e, principalmente, se puder falar com orgulho do que já fez. E Aécio não tem e não pode, como ficou muito claro neste confronto.

Não é à toa que, ao final do debate, Dilma sugeriu que os telespectadores fossem ao Google pesquisar e confirmar as informações que ofereceu, enquanto Aécio sugeriu que as pessoas fossem consultar… o site do PSDB.

Aliás, devo citar aqui o bom apontamento do cineasta Kléber Mendonça Filho (do magistral O Som ao Redor): “Nunca vi isso nos 20 anos que acompanho a política no Brasil. Um candidato de oposição que não quer propor mudança no sistema, mas dar seguimento a projetos revolucionários que o governo que ele quer desbancar conseguiu implantar.”

Esta foi a dinâmica de Aécio: depois de criticar por anos, ao lado do PSDB, o Bolsa-Família, chamando-a de Bolsa-Esmola, ele subitamente se mostrou determinado a dizer que esta foi invenção de seu partido. Agora imaginem: seus eleitores insistem em gritar contra o programa, seu partido o atacou por anos (até mesmo em editorial no site tucano)(1) e, subitamente, Aécio quer assumir sua paternidade. Anos e anos e anos com o PT explicando que a Bolsa Família era um grande avanço, os caras dizendo que era “esmola”, que era “assistencialismo barato”, e agora tentam se apropriar da autoria da ideia.

Mas me adianto.

O que vimos neste debate foi um espetáculo mentiras por parte de Aécio. E como na Internet mentira tem perna curta, creio ser fundamental, para os eleitores indecisos, constatarem como o presidenciável não se intimida em faltar com a verdade de maneira incrivelmente cínica. Analisemos sua participação no debate em ordem cronológica:

1) Já de início, antes mesmo de o debate começar, Aécio disse na porta da Band que fazia “uma campanha só de verdades”. Curioso, porque uma das coisas que vem dizendo é que vai transformar o Bolsa-Família em lei. Ora, ele não sabe que ela já é lei desde 2004, quando a Medida Provisória 132/2003 se transformou, em janeiro de 2004, na Lei 10836/04? (2)

2) Em seguida, Aécio afirmou que o Brasil “perdeu credibilidade no exterior”. Provavelmente não leu, entre outras coisas, a análise que a FORBES fez sobre Dilma e o país há poucos meses.(3)

3) Logo depois, o presidenciável afirmou, sem hesitar, que as contas da Saúde de seu governo foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado. Não. (4) Para piorar, quando Dilma afirmou que o parecer do TCE poderia ser verificado online, o site, que fica sob os cuidados do atual governo tucano de MG (que, felizmente, será substituído em janeiro), simplesmente SAIU DO AR E NÃO RETORNOU ATÉ O MOMENTO EM QUE PUBLICO ESTE POST, 8 horas depois. Mas há outras fontes.(5)(6)

4) Aécio diz que MG foi o Estado que mais investiu em Saúde durante seu governo. Opa: dos 26 estados (mais o DF) da União, MG ficou em 24o. lugar. Sim, 24o entre 27.(7)

5) Dilma apontou que Aécio ameaçava acabar com os bancos públicos e este negou veementemente. Ora, deveria ter consultado Armínio Fraga, que ele já anunciou que será seu Ministro da Fazenda e que declarou, quanto ao BNDES, Caixa Econômica e Banco do Brasil, que, se assumirem, “nem sabe o que vai sobrar deles”.(8) Aliás, há ÁUDIO de Fraga dizendo isso.(9)

6) Aliás, quando Dilma fez questionamentos sobre Armínio Fraga, Aécio disse que ela estava “preocupada” demais com este. Ora, e deveria mesmo estar – não só como ela, mas também o eleitor. Quando Fraga assumiu a presidência do BC, em 1999, elevou a taxa de juros a 45% ao ano. Nos três anos seguintes, sabem o que aconteceu com a inflação que os tucanos insistem em dizer que controlaram? Ela DOBROU de tamanho, indo de 6,5%, em 2000, para 12,5% em 2002.(10) Aécio, vale apontar, é bem corajoso ao tentar falar de inflação com Dilma, já que, ao contrário do que ele tenta fazer parecer, a média anual da inflação nos anos Dilma é a segunda MENOR em CINCO MANDATOS PRESIDENCIAIS, sendo bem próxima à de Lula e muito inferior à de FHC.(11)

7) Confrontado com relação ao “choque de gestão” em MG, Aécio afirmou que as finanças do estado estão saudáveis. Outra mentira: Minas está quebrada.(12) O mais incrível: ao voltar a falar sobre o Bolsa Família, Aécio disse que o Plano Real foi um programa de “redistribuição de renda” muito mais eficiente. De onde tirou isso, não sei, mas – claro – não é verdade.(13)

8) Quando o assunto mudou para Educação, Aécio deu outro show de desinformação. Em primeiro lugar, cobrou de Dilma resultados das escolas públicas MUNICIPAIS e ESTADUAIS, que, como já fica claro pelo… ora… pelo “municipais e estaduais”, são responsabilidade do município e dos estados – COMO DETERMINA A CONSTITUIÇÃO. O pior: Aécio afirmou que MG tem a “melhor educação do país” – mas como isto pode ser possível se, de novo, entre 26 estados (mais o DF), Minas ficou em 24o. em termos de investimento na Educação?(14) Além disso, os professores mineiros ABOMINAM Aécio Neves (15)(16)

9) A seguir, Dilma trouxe à baila a questão da corrupção. E apontou como, ao contrário do que houve nos anos FHC, a era Lula-Dilma criou mecanismos de investigação e condições para que a PF agisse de forma eficaz. Basta dizer que nos OITO anos de FHC, apenas 48 operação da PF foram feitas, enquanto nos doze anos de Lula e Dilma, foram realizadas MAIS DE DUAS MIL OPERAÇÕES. Isto para não mencionar o fato de que o procurador-geral da época engavetava todas as denúncias.(17) Dilma apontou também que nenhum tucano jamais foi investigado por todos os desmandos do mensalão tucano mineiro, do cartel do metrô, da privataria, do banco Marka, da SUDAM, etc, etc, etc.

10) Aécio insistiu em dizer que Dilma se mostrava obstinada em olhar pra trás, enquanto ele queria olhar pra frente. Dá pra entender por que ele prefere olhar para um futuro hipotético do que para o passado, com todos os seus dados e fatos registrados.(18)

11) Em seguida, Aecio disse que foi “inocentado” com relação ao aecioporto. Mentira. A procuradoria-geral disse que não havia indícios de ilícito em esfera FEDERAL, mas encaminhou a denúncia para o MPE para investigação de IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA do governo tucano.(19)

12) Veio, então, a parte mais inacreditável do debate. Dilma questionou os vários parentes que Aécio mantém empregados em seu governo. Ele negou que isto fosse verdade e disse, por exemplo, que sua irmã não trabalha com ele. Esta fez MG rir em conjunto, já que Andrea Neves foi uma das figuras mais poderosas do governo Aécio. Tanto que entrou numa lista das 60 pessoas MAIS PODEROSAS DO PAÍS (na 42a. posição)(20)(21) Isto para não mencionar que, sim, ele empregou outros parentes.(22)(23)

13) A seguir, Dilma perguntou a Aécio sobre “violência contra a mulher”. Do ponto de vista de estratégia de debate, era óbvio que ela fazia referência a algo específico para desconcertar o oponente.(24) Conseguiu.(A propósito: Aécio ameaçou, mas curiosamente não processou Kfouri pelo que este publicou em seu blog.)

14) Aécio criticou empréstimo do BNDES a Cuba. Ué, e o feito por FHC, podia?(25)

15) Aécio tenta criticar os investimentos de Dilma na área das escolas técnicas. O governo do PT criou 214. O de FHC? ZERO. Aécio nem deveria ter tocado neste assunto.(26) Como se não bastasse, Aécio disse que Dilma não cumpriu promessa de construir seis mil creches. Outra mentira.(27)

16) Logo a seguir, outro momento em que Aecio se perdeu totalmente. Dilma questionou – e atenção para isso – o investimento que o GOVERNO DE MG fez em anúncios nas rádios PERTENCENTES À FAMÍLIA DE AECIO. Ele negou que isto tenha acontecido. Ops.(28)(29)(30)(31)(32)

17) Dilma levantou, então, a questão dos quase CEM MIL servidores públicos contratados IRREGULARMENTE por Aécio no governo de MG. Ele mais uma vez negou qualquer irregularidade. Mentira. Uma mentira, aliás, que foi custar os empregos destas quase cem mil pessoas numa lei que Aécio tentou passar pra corrigir o problema, mas que era INCONSTITUCIONAL.(33)(34)

18) Neste ponto do debate, Aécio começou a falar repetidas vezes de “meritocracia”. Ele não é a melhor pessoa pra falar do assunto, já que, aos 17 ANOS, foi indicado por seu pai para um cargo de confiança em Brasília quando este era deputado do Arena, partido que apoiava o regime militar. Não só Aécio tinha 17 anos como aparentemente também desempenhou este cargo (em Brasília) do RIO DE JANEIRO, onde morava.(35) Poucos anos depois, Aécio foi nomeado para o cobiçado cargo de diretor de Loterias da Caixa quando seu primo, Francisco Dornelles, era Ministro da Fazenda.(36) Meritocracia. Sei.

19) Outras mentiras pontuais: Aécio disse que não foi contra o Mais Médicos (que ele agora afirma que vai melhorar). Opa, foi, sim.(37)

20) Aécio acusou Dilma de não cuidar da segurança pública nos estados. Desconhece que, SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO, esta é de competência dos governos estaduais – ou seja: dele. Então, Dilma apontou que a violência em MG subiu 52% durante governo de Aécio. Ele negou veementemente. Estava mentindo.(38)

21) Aécio disse, em certo momento, que “todas as eleições que disputei em MG, venci”. Opa. Em 1992, concorreu à prefeitura de BH. Perdeu para Patrus Ananias, do PT.

22) Aécio afirmou que o Brasil teve queda “em todos os indicadores sociais”. Deveria ter lido o relatório do IBGE, que mostrou melhora na renda, no acesso ao ensino fundamental, queda na mortalidade infantil, entre outros.(39)

Pra finalizar, Dilma mencionou brevemente Montezuma, mas acabou se concentrando no aeroporto de Cláudio. Pena. Há muito que falar sobre Montezuma.(40)

Talvez no próximo debate, embora, se julgarmos pelo que ocorreu nesse, Aécio provavelmente não hesite em negar a existência de qualquer problema.

(P.S: vi gente compartilhando foto de Dilma cercada de assessores, no intervalo do debate, e Aécio sozinho. A sugestão é a de que ele não precisa de assessores. Ops:https://twitter.com/pablovillaca/status/522321107438014464)

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FONTES:

1.http://www.cartacapital.com.br/politica/por-que-o-psdb-agora-e-a-favor-do-bolsa-familia-8786.html
2.http://www.m.vermelho.org.br/noticia/251305-1#.VDz4MhHrJNU.twitter
3.http://www.forbes.com/sites/kenrapoza/2014/10/05/in-brazil-elections-president-dilma-has-a-better-country-on-her-side/
4.http://t.co/k4FdNNx9Ba
5.http://amp-mg.jusbrasil.com.br/noticias/100647784/minas-investe-menos-do-que-define-a-constituicao-em-educacao-e-saude
6.https://twitter.com/fernandocabral/status/522221808867872768
7.http://t.co/rq0bpEM66X
8.http://t.co/VF1krtF32O
9.http://t.co/VF1krtF32O
10.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi05039906.htm
11.http://achadoseconomicos.blogosfera.uol.com.br/2014/01/10/inflacao-anual-de-dilma-e-proxima-a-de-lula-e-inferior-a-de-fhc/
12.http://t.co/gl7X2CdsyS
13.http://goo.gl/FwFxJQ
14.http://t.co/Fi6xi9imFO
15.http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/10/professores-de-minas-alertam-sobre-riscos-de-eleger-aecio-neves.html
16.http://www.sindutemg.org.br/novosite/files/11-09-BoletimEspecial-Geral.pdf
17.https://t.co/yKJurCmrAS
18.http://goo.gl/yLuARu
19.http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/10/pgr-arquiva-representacao-contra-aecio-por-construcao-de-aeroporto.html
20.http://t.co/zdbVLJ971t
21.http://t.co/zNnl4pfaOG
22.http://t.co/TIciOuWa1M
23.http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/07/aecio-usa-lei-para-contratar-parentes-no-governo-de-mg-6376.html
24.http://t.co/rB3mgwiC7G
25.http://t.co/Kuooc4vuLL
26.http://t.co/9fomImiyYa
27.http://t.co/P8LPR0OUL6
28.http://www.valor.com.br/eleicoes2014/3735146/aecio-desconversa-sobre-gastos-publicos-com-radios-de-sua-familia
29.http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/190765-aecio-diz-que-nao-sabe-valor-que-seu-governo-pagou-a-suas-radios.shtml
30.http://www.blogdacidadania.com.br/2014/10/escandalo-das-radios-de-aecio-foi-descoberto-em-blitz-da-lei-seca/
31.http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,aecio-diz-desconhecer-repasse-do-governo-a-radio-de-sua-familia,1576768
32.http://www.diariodocentrodomundo.com.br/e-decente-um-governador-colocar-dinheiro-publico-em-radios-da-familia/
33.http://t.co/gwJ7iOVI93
34.http://t.co/l71W6ByB1L
35.http://t.co/hHNPJMQbve
36.http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/10/aecio-critica-mas-ja-foi-beneficiado-por-aparelhamento-em-divisao-da-caixa-8080.html
37.https://www.youtube.com/watch?v=8pKZAnji68k
38.http://www.pautandominas.com.br/en/May2013/minas_gerais/771/Em-dez-anos-n%C3%BAmero-de-homic%C3%ADdios-cresce-52-no-Estado.htm
39.http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv66777.pdf
40.http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/helena/2014/07/como-aecio-ficou-dono-de-latifundio-de-terras-publicas-do-estado-de-minas-9863.html

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Mangabeira Unger explica por que vai votar em Dilma no dia 26/10

Nesta última segunda-feira (13), o professor Roberto Mangabeira Unger escreveu na seção Tendências e Debates da Folha de S. Paulo um texto elencando suas razões para voltar em Dilma Rousseff no próximo dia 26.out.2014, quando se realiza o segundo turno das eleições para presidente do Brasil.

O Hum Historiador repercute abaixo a íntegra do texto do professor Mangabeira Unger.

POR QUE VOTAR EM DILMA
por Roberto Mangabeira Unger | Publicado originalmente em 13.out.2014

Roberto Mangabeira Unger

O povo brasileiro escolherá em 26 de outubro entre dois caminhos.

As duas candidaturas compartilham três compromissos fundamentais, além do compromisso maior com a democracia: estabilidade macroeconômica, inclusão social e combate à corrupção. Diferem na maneira de entender os fins e os meios. Diz-se que a candidatura Aécio privilegia estabilidade macroeconômica sobre inclusão social e que a candidatura Dilma faz o inverso. Esta leitura trivializa a diferença.

Duas circunstâncias definem o quadro em que se dá o embate. A primeira circunstância é o esgotamento do modelo de crescimento econômico no país. Este modelo está baseado em dois pilares: a ampliação de acesso aos bens de consumo em massa e a produção e exportação de bens agropecuários e minerais, pouco transformados. Os dois pilares estão ligados: a popularização do consumo foi facilitada pela apreciação cambial, por sua vez possibilitada pela alta no preço daqueles bens. Tomo por dado que o Brasil não pode mais avançar deste jeito.

A segunda circunstância é a exigência, por milhões que alcançaram padrões mais altos de consumo, de serviços públicos necessários a uma vida decente e fecunda. Quantidade não basta; exige-se qualidade. As duas circunstâncias estão ligadas reciprocamente. Sem crescimento econômico, fica difícil prover serviços públicos de qualidade. Sem capacitar as pessoas, por meio do acesso a bens públicos, fica difícil organizar novo padrão de crescimento.

O país tem de escolher entre duas maneiras de reagir. Descrevo-as sumariamente interpretando as mensagens abafadas pelos ruídos da campanha. Ficará claro onde está o interesse das maiorias. O contraste que traço é complicado demais para servir de arma eleitoral. Não importa: a democracia ensina o cidadão a perceber quem está do lado de quem.

1. Crescimento econômico.

Realismo fiscal e manutenção do sacrifício consequente são pontos compartilhados pelas duas propostas.

Aécio: Ganhar a confiança dos investidores nacionais e estrangeiros. Restringir subsídios. Encolher o Estado. Só trará o crescimento de volta quando houver nova onda de dinheiro fácil no mundo.

Dilma: Induzir queda dos juros e do câmbio, contra os interesses dos financistas e rentistas, sem, contudo, render-se ao populismo cambial. Usar o investimento público para abrir caminho ao investimento privado em época de desconfiança e endividamento. Apostar mais no efeito do investimento sobre a demanda do que no efeito da demanda sobre o investimento.

Construir canais para levar a poupança de longo prazo ao investimento de longo prazo. Fortalecer o poder estratégico do Estado para ampliar o acesso das pequenas e médias empresas às práticas, às tecnologias e aos conhecimentos avançados. Dar primazia aos interesses da produção e do trabalho. Se há parte do Brasil onde este compromisso deve calar fundo, é São Paulo.

2. Capital e trabalho.

Aécio: Flexibilizar as relações de trabalho para tornar mais fácil demitir e contratar.

Dilma: Criar regime jurídico para proteger a maioria precarizada, cada vez mais em situações de trabalho temporário ou terceirizado. Imprensado entre economias de trabalho barato e economias de produtividade alta, o Brasil precisa sair por escalada de produtividade. Não prosperará como uma China com menos gente.

3. Serviços públicos.

Aécio: Focar o investimento em serviços públicos nos mais pobres e obrigar a classe média, em nome da justiça e da eficiência, a arcar com parte do que ela custa ao Estado.

Dilma: Insistir na universalidade dos serviços, sobretudo de educação e saúde, e fazer com que os trabalhadores e a classe média se juntem na defesa deles. Na saúde, fazer do SUS uma rede de especialistas e de especialidades, não apenas de serviço básico. E impedir que a minoria que está nos planos seja subsidiada pela maioria que está no SUS. Na segurança, unir as polícias entre si e com as comunidades. Crime desaba com presença policial e organização comunitária. A partir daí, encontrar maneiras para engajar a população, junto do Estado, na qualificação dos serviços de saúde, educação e segurança.

4. Educação.

Aécio: Adotar práticas empresariais para melhorar, pouco a pouco, o desempenho das escolas, medido pelas provas internacionais, com o objetivo de formar força de trabalho mais capaz.

Dilma: A onda da universalização do ensino terá de ser seguida pela onda da qualificação. Acesso e qualidade só valem juntos. Prática empresarial, porém, tem horizonte curto e não resolve. Os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia indicam o caminho: substituir decoreba por ensino analítico. E juntar o ensino geral ao ensino profissionalizante em vez de separá-los. Construir, do fundamental ao superior, escolas de referência. A partir delas, trabalhar com Estados e municípios para mudar a maneira de aprender e ensinar.

5. Política regional.

Aécio: Política para região atrasada é resquício do nacional-desenvolvimentismo. Tudo o que se pode fazer é conceder incentivos às regiões atrasadas.

Dilma: Política regional é onde a nova estratégia nacional de desenvolvimento toca o chão. Não é para compensar o atraso; é para construir vanguardas. Projeto de empreendedorismo emergente para o Nordeste e de desenvolvimento sustentável para a Amazônia representam experimentos com o futuro nacional.

6. Política exterior.

Aécio: Conduzir política exterior de resultados, quer dizer, de vantagem comerciais. E evitar brigar com quem manda.

Dilma: Unir a América do Sul. Lutar para tornar a ordem mundial de segurança e de comércio mais hospitaleira às alternativas de desenvolvimento nacional. E, num movimento em sentido contrário, entender-nos com os EUA, inclusive porque temos interesse comum em nos resguardar contra o poderio crescente da China. Política exterior é ramo da política, não do comércio. Poder conta mais do que dinheiro.

7. Forças Armadas.

Aécio: O Brasil não precisa armar-se porque não tem inimigos. Só precisa deixar os militares contentes e calmos.

Dilma: O Brasil tem de armar-se para abrir seu caminho e poder dizer não. Não queremos viver em um mundo onde os beligerantes estão armados e os meigos, indefesos.

8. O público e o privado.

Aécio: Independência do Banco Central e das agências reguladoras assegura previsibilidade aos investidores e despolitiza a política econômica.

Dilma: A maneira de desprivatizar o Estado não é colocar o poder em mãos de tecnocratas que frequentam os grandes negócios. É construir carreiras de Estado para substituir a maior parte dos cargos de indicação política. E recusar-se a alienar aos comissários do capital o poder democrático para decidir.

Aécio propõe seguir o figurino que os países ricos do Atlântico Norte nos recomendam, porém nunca seguiram. Nenhum grande país se construiu seguindo cartilha semelhante. Certamente não os EUA, o país com que mais nos parecemos. Ainda bem que o candidato tem estilo conciliador para abrandar a aspereza da operação.

Dilma terá, para honrar sua mensagem e cumprir sua tarefa, de renovar sua equipe e sua prática, rompendo a camisa de força do presidencialismo de coalizão. E o Brasil terá de aprender a reorganizar instituições em vez de apenas redirecionar dinheiro. Ainda bem que a candidata tem espírito de luta, para poder aceitar pouco e enfrentar muito.

Estão em jogo nossa magia, nosso sonho e nossa tragédia. Nossa magia é a vitalidade assombrosa e anárquica do país. Nosso sonho é ver a vitalidade casada com a doçura. Nossa tragédia é a negação de instrumentos e oportunidades a milhões de compatriotas, condenados a viver vidas pequenas e humilhantes. Que em 26 de outubro o povo brasileiro, inconformado com nossa tragédia e fiel a nosso sonho, escolha o rumo audacioso da rebeldia nacional e afirme a grandeza do Brasil.


ROBERTO MANGABEIRA UNGER, 67, professor na Universidade Harvard (EUA), é autor do manifesto de fundação do PMDB e ativista em Rondônia. Foi ministro de Assuntos Estratégicos (governo Lula)

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Contra as milícias marinistas: Rogério Cézar de Cerqueira Leite

O professor emérito da Unicamp, Rogério Cézar de Cerqueira Leite, publicou hoje (9) na sessão Tendências/Debates, da Folha de S. Paulo, uma resposta aos inúmeros textos que o atacaram após ele ter publicado texto na mesma Folha (Desvendando Marina), onde se dizia:

“desconfortável em ter como presidente uma pessoa que acredita concretamente que o Universo foi criado em sete dias há apenas 4.000 anos, aproximadamente”.

Ok, vá lá, se formos justos a gritaria das “milícias marinistas”, como bem as caracterizou hoje o professor, se deu muito mais pelo fato de ele haver qualificado Marina como fundamentalista. Evangélicos e intelectuais se levantaram contra Cerqueira Leite havia quando este disse que “percebia no fundamentalista cristão uma arrogância incomensurável, que apenas pode ser entendida como uma perversão intelectual”. Imagino que pior devem ter se sentido os “milicianos” quando o autor arrematou seu texto afirmando que “o fundamentalismo de Marina Silva não decorre da ignorância, mas de um defeito de percepção”, que os especialistas chamam de desordem do desenvolvimento neural.

Parece que foi um “deus nos acuda” (perdoem o trocadilho). Segundo Cerqueira Leite, mais de 50 blogs reproduziram sue texto, quatro colunistas da Folha o comentaram e houve até um artigo publicado como direito de resposta na mesma seção Tendências/Debates. Ao que parece, o professor botou mesmo o dedo na ferida.

O Hum Historiador repercute abaixo a íntegra da excelente resposta dada por Rogério Cézar de Cerqueira Leite às “milícias marinistas” e chama atenção especial para a maneira como o professor qualifica Demétrio Magnoli, o queridinho da extrema direita brasileira. Para vocês verem como estou em boa companhia quando critico as diatribes de Magnoli, Villa e companhia limitada.

DESVENDANDO AS MILÍCIAS MARINISTAS
por Rogério Cézar de Cerqueira Leite | Folha de S. Paulo em 09.set.2014

Acreditar em Deus é uma coisa. Ser fundamentalista é outra. Equacionar coisas tão distintas ou é profunda ignorância, ou é má-fé

Rogério Cézar de Cerqueira Leite, 83, é professor emérito de física da Unicamp.


Em artigo publicado nesta Folha, revelo minha preocupação em ter como presidente da República Marina Silva, uma missionária de igreja pentecostal que, consequentemente, é fundamentalista (e criacionista) cristã. Um maremoto adveio. Mais de 50 blogs reproduziram o texto. Pelo menos quatro colunistas deste jornal o comentaram, além de um artigo publicado como direito de resposta nesta seção.

Milhares de comentários surgiram na internet. Até um desses partidos de aluguel, caudatário do PSB, me agrediu. Ora, se o que foi dito em meu artigo fosse algum absurdo ou irrelevante, ninguém lhe teria dado atenção. Parece que, como escreveu Hélio Schwartsman, botei o dedo na ferida.

No que segue, respondo aos principais argumentos dos marinistas. Comecemos pela primeira dessas manifestações. Aparentemente falando em nome do comitê de campanha de Marina Silva, Edson Barbosa entrega a candidata. Se a finalidade do artigo era convencer o leitor de que Marina não é criacionista, então falhou. Ele afirma que “Marina não está entre aqueles que acreditam que os seres vivos vieram de uma ameba, de uma gosma, de uma seleção natural”. Pois não é por aí que começa o criacionismo?

Em seguida, vêm aqueles que procuram confundir o leitor com um sofisma elementar equacionando a crença em um Deus com o fundamentalismo. O pedante e ávido candidato a ministro de qualquer coisa e colunista desta Folha Eduardo Giannetti (Ciência e Fé) conclui sua diatribe com um exemplo de três cientistas que acreditavam em Deus.

Mais uma vez, a falácia. Acreditar em Deus é uma coisa, ser criacionista, fundamentalista, é outra. Equacionar coisas tão distintas ou é ignorância, ou é má-fé. Aliás, parece que o colunista não tem a mínima percepção da história do pensamento. Newton viveu na primeira metade do século 17 e começo do 18. O próprio Darwin, tendo vivido no século 19, não foi exposto à montanha de dados, acumulados principalmente no século 20, que comprovam inequivocamente a evolução, a própria teoria de Darwin.

Como descobriu o marinista que Einstein era deísta? Einstein disse uma vez que não acreditava que Deus jogasse dados. Uma metáfora contra a interpretação prevalecente à época e ainda hoje de que a variável fundamental da mecânica quântica expressaria uma probabilidade, e não uma certeza.

Não conheço nenhum testemunho de que Einstein acreditasse em Deus. Cerca de 30% dos físicos americanos dizem que acreditam em Deus, mas não conheço nenhum que seja fundamentalista.

A mais fantástica das interpretações de meu texto vem da extrema direita. Demétrio Magnoli (Fogueiras da Razão) inventa uma definição de fundamentalismo que não é senão uma consequência extrema do caso do fundamentalismo islâmico. Tudo para concluir que ele próprio, narcisista e pretensioso, é agnóstico. Quem se interessaria? Agnóstico é aquele que fica em cima do muro. Já foi moda.

Para não perder a oportunidade, os professores da Unicamp Alcir Pécora e Francisco Foot Hardman (0,1% do corpo docente da universidade), legítimos representantes da mediocridade que se instalou na Unicamp, concluem que minhas desconfianças em relação à maturidade de Marina Silva dão “ao racismo uma máscara pseudocientífica”. Repetem o besteirol fascistoide de Demétrio Magnoli. Que falta de imaginação! Que vergonha para a Unicamp!

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Falta de memória parece afligir eleitores de Aécio Neves

Alguns colegas  que recomendam o voto em Aécio Neves – por serem contrários ao governo da presidenta Dilma Rousseff (ou do PT) – andaram publicando em perfis de redes sociais imagens retiradas de um telejornal da Globo trazendo alguns indicadores macroeconômicos como Taxa de Juros (SELIC) e Inflação (IPCA) para criticar a política econômica do governo Dilma.

GloboNews_Inflação_Juros_PIB

Foto de infográfico apresentado em telejornal da Globo News que circula nas redes sociais.

Na imagem, como se pode observar, os analistas da Globo e seus reprodutores comparam indicadores macroeconômicos do Brasil com os de outros países latino-americanos, como México, Chile, Peru e Colômbia levando o observador a concluir que a situação econômica brasileira é pior do que a desses outros países.

Sem entrar no mérito das críticas que se poderiam fazer a esse tipo de abordagem comparativa, gostaria de questionar apenas o que levaria alguém a acreditar que a eleição do candidato tucano mudaria o quadro da política econômica. Certamente, o histórico de políticas implantadas durante a última gestão do PSDB não é, uma vez que a receita era exatamente a mesma, só que com índices mais altos, como demonstram os dados na planilha que elaborei abaixo.

SELIC e IPCA_FHC x Dilma

Planilha que preparei com base em dados históricos sobre a Taxa SELIC e o IPCA fornecidos pelo Banco Central do Brasil e IBGE.

Eu, particularmente, não devo votar em Dilma Rousseff no primeiro turno. A muitos que me acusam de petista, adianto desde já que meu voto será em Luciana Genro, do PSOL. No entanto, a questão que propus acima diante do que me pareceu a incoerência de alguns colegas, me levou a preparar uma planilha contendo os dados da Taxa SELIC e do IPCA (Inflação) durante os quatro anos da última gestão de FHC (1999-2002) e os quatro anos da gestão de Dilma (2011-2014). Meu objetivo era apenas colocar em perspectiva o ponto que os eleitores de Aécio estão criticando no atual governo da Dilma Rousseff e, diante do resultado, vê-se que aquilo que hoje criticam era, com índices ainda mais elevados, a política econômica que o PSDB levou a cabo durante toda sua gestão.

Se olharem bem na planilha acima, perceberão que no ano em que FHC deixou o governo, a Taxa SELIC anual foi de 25% ao ano e a inflação a 12,53%. Em contrapartida, se considerarmos os dados do mês passado, veremos que a SELIC estava em 11% e o IPCA em 6,52%. Sim, a política econômica pode ser melhorada, não tenho dúvidas (embora os índices tenham caído gradativamente, como se viu), mas minha questão persiste: o que me levaria a crer que o candidato tucano mudaria o quadro atual?

Para facilitar a visualização da tabela acima, preparei dois gráficos comparativos com base nos mesmos dados.

SELIC_FHC x Dilma

Gráfico comparativo da taxa SELIC praticada durante os governos Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff no último mês de cada ano da gestão de cada presidente.

IPCA_FHC x Dilma

Gráfico comparativo do IPCA anual durante os quatro anos das gestões de Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff.

Por fim, gostaria de propor uma reflexão que vai em linha com esse tipo de estratégia para direcionar eleitores incautos a votar em determinado candidato. Trata-se da “tática do terror”, isto é, argumenta-se que se não se votar em determinado candidato, a situação econômica do Brasil vai piorar ainda mais. Tática que não é nova e que vemos ser utilizada reiteradamente em eleições polarizadas cujo resultado ainda está aberto. Durante a campanha de 1989, por exemplo, o empresário Mario Amato disse, em entrevista, que caso o candidato Luís Inácio Lula da Silva ganhasse as eleições, 800 mil empresários deixariam o Brasil. Em 2002 foi ainda pior. O mercado viu-se abalado com a possibilidade real de Lula vencer as eleições e todos os índices econômicos do país despencaram. Hoje, o Blog do Fernando Rodrigues traz um post revelando uma carta enviada aos clientes ricos do Banco Santander avisando-os de que, caso a presidenta Dilma Rousseff seja reeleita, a economia do Brasil irá piorar ainda mais (na mesma linha, embora mais explícita, que a notícia do telejornal da Globo replicada nas redes sociais).

Mensagem do Banco Santander aos Clientes Acima de 10mil

Carta enviada pelo Banco Santander a clientes que movimentam mais de R$10 mil mensais, publicada no Blog do Fernando Rodrigues.

Portanto, caro colega, preste atenção no que você lê, escuta e assiste por aí. Não se deixe intimidar por táticas de “terrorismo econômico” como essas que estão infestando jornais, tv’s e internet.  Avalie seu candidato, reflita, veja qual é o que tem propostas de governo que lhe representam melhor. Não vote no menos pior, tampouco vote com medo. Vote consciente!

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