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O liberalismo racista de Thomas Sowell divulgado pelo IMB

Thomas Sowell (reprodução)

Thomas Sowell, economista estadunidense e membro sênior da Hoover Institution da Universidade de Stanford, escreveu um texto sobre racismo e cotas raciais, que foi traduzido por Leandro Roque e publicado no portal do Instituto Ludwig von Mises Brasil (IMB).

Intitulado Afinal, quem são os racistas?, Sowell não faz nada além do que utilizar o velho recurso de culpar a vítima para, de modo bastante cruel, apontar o que ele julga ser prática de racismo por parte da liderança dos movimentos negros em sua luta pela aprovação de políticas públicas com adoção de ações afirmativas. Isto é, inverte a acusação de racismo que os movimentos negros fazem à sociedade estadunidense, acusando essa mesma liderança de praticar o racismo na busca de vantagens financeiras para si e/ou para o grupo que representam.

Com uma argumentação tacanha, o autor compara a situação dos afro-descendentes estadunidenses com a de imigrantes asiáticos que, após abandonarem seus países de origem e se estabelecerem em uma cultura bastante distinta da deles, conseguem prosperar e enriquecer sem auxílio de “favores”:

“(…) em vários países ao redor do mundo, inclusive naqueles países chamados de terceiro mundo, vários imigrantes extremamente pobres, principalmente oriundos da Ásia, não apenas conseguem prosperar mesmo sendo de uma cultura totalmente distinta, como também conseguem enriquecer sem jamais recorrer a favores especiais e a políticas de ação afirmativa”.

Em seu discurso ideologizante, Sowell faz questão de ignorar as diferenças inerentes dos processos históricos que levaram os africanos à América e condicionaram a situação dos afro-descendentes nos Estados Unidos nos séculos XX e XXI; e dos fenômenos que levaram ondas de asiáticos a imigrarem para os mais diferentes países. Para o liberal da Escola de Chicago, tais experiências seriam equivalentes e, justamente por isso, faz sua comparação absurda, para não dizer mal intencionada.

Sowell não para por aí. Como se não bastasse a comparação despropositada, continua a detalhar o exemplo do imigrante asiático, descrevendo a razão do sucesso desses grupos prosperarem e enriquecerem nos países para onde imigram. A receita de Sowell é a seguinte:

“Eles [imigrantes asiáticos] frequentemente começam trabalhando em empregos de baixa remuneração.  Mas trabalham muito.  A norma é trabalharem em mais de um emprego.  Trabalham tanto que conseguem poupar e, após alguns anos, utilizam esta poupança para empreender.  Muitos abrem um pequeno comércio, no qual continuam trabalhando longas horas e ainda continuam poupando, de modo que se tornam capazes de mandar seus filhos para a escola e para a faculdade.  Seus filhos, por sua vez, sabem que seus pais não apenas esperam, como também exigem, que eles sejam igualmente disciplinados, bons alunos e trabalhadores”.

Ao descrever a “receita do sucesso” do imigrante asiático em terras americanas, Sowell revela dois aspectos que não estão colocados explicitamente em seu discurso:

  • O afro-descendente não prospera e enriquece nos Estados Unidos porque é preguiçoso e não quer trabalhar do mesmo modo como fazem os asiáticos que imigraram para aquele país;
  • Um indivíduo só conseguirá “prosperar ou enriquecer” nessa sociedade ideal que ele defende, se ele mesmo permitir que o mercado faça uma exploração selvagem de sua força de trabalho e, como se isso não bastasse, em seguida, depositasse no sistema financeiro todo o fruto de seu trabalho para, uma vez mais, ser brutalmente explorado.

Esta é, portanto, a visão de Sowell sobre como os afro-descendentes deveriam proceder para prosperarem e enriquecerem nos Estados Unidos. Jamais deve ser através do Estado, isto é, da organização em associações e movimentos que reivindiquem de seus representantes no legislativo a votação de políticas públicas que adotem ações afirmativas para a superação da condição de marginalidade dos afro-descendentes naquele país, decorrente do processo histórico de escravização, discriminação, racismo e segregação vivido por esses grupos e seus descendentes desde o século XVII.

Tal posicionamento fica ainda mais evidente no texto de Sowell quando ele tenta explicar a razão dos asiáticos serem tão bem sucedidos:

“(…) seu sucesso pode ser atribuído a algo que eles não têm: “líderes” e autoproclamados porta-vozes lhes dizendo diariamente que são incapazes de prosperar por conta própria, que o sistema está contra eles, que eles não têm chance de ascender socialmente caso não sigam os slogans repetidos mecanicamente por estes líderes e sociólogos, e que por isso devem se juntar sob o rótulo de “vítimas do sistema” e exigir políticas especiais e tratamento diferenciado (…) infelizmente, é exatamente esta linha de raciocínio, só que em relação aos negros, que vem sendo diariamente propagada por acadêmicos e sociólogos irresponsáveis (…) que dizem precipitadamente que determinadas pessoas não podem ascender e prosperar a menos que haja um empurrão do governo”.

É aqui que Sowell revela o que aflige sua alma liberal, aquilo que ele denominou “o empurrão do governo”. Não vou sequer deter-me no fato dele considerar políticas públicas de ações afirmativas como “empurrão do governo”. O que realmente o incomoda é o fato de tais políticas serem financiadas com recursos do contribuinte e, por isso, servirem de justificativa para o governo aplicar recursos dos impostos em políticas sociais. Vê o tal iniciativa como um custo para o Estado, não um investimento. Na cabeça de gente como Sowell, se o governo tem mesmo que cobrar impostos, que esses recursos sejam revertidos em infraestrutura ou incentivos para o empreendedorismo, não em políticas sociais. Assim, entende-se a razão de Sowell descrever aqueles que lutam pelos direitos dos afro-descendentes da seguinte maneira:

“(…) as pessoas que dizem falar em prol do “movimento negro” sofreram uma mutação de caráter: se antes possuíam uma alma nobre, hoje não passam de charlatães descarados.  Após a implantação definitiva de políticas de ação afirmativa nos EUA, esses charlatães perceberam que era muito fácil ganhar dinheiro, poder e fama ao redor do mundo ao simplesmente se dedicarem à promoção de ações e políticas raciais que são totalmente contraproducentes aos interesses das pessoas que eles próprios dizem liderar e defender”.

É a partir desse momento que Sowell partirá para a cruel estratégia de inversão de valores através da tática de culpar a própria vítima pela situação em que se encontra. É justamente aqui que ele passará a defender, como sugere o título, que racista é quem luta pelos direitos dos afro-descendentes em uma sociedade na qual os direitos civis já foram conquistados:

“Essa postura de dizer aos seus “seguidores” que eles são mais atrasados, tanto econômica quanto educacionalmente, por causa de outros grupos “opressores” — e que, portanto, eles devem odiar estas outras pessoas — tem paralelos na história recente.  Essa foi a mesma motivação utilizada pelos movimentos anti-semita no Leste Europeu no período entre-guerras, pelos movimentos anti-Ibo na Nigéria na década de 1960, e pelos movimentos anti-Tamil, que fizeram com que o Sri Lanka, outrora uma nação pacífica e famosa por sua harmonia intergrupal, se rebaixasse, por influência de intelectuais, à violência étnica e depois se degenerasse em uma guerra civil que durou décadas e produziu indescritíveis atrocidades”.

Em mais uma generalização absurda e criminosa, repleta de má fé, Sowell compara a liderança de movimentos negros que defendem a criação de políticas públicas para a adoção de ações afirmativas visando a mudança da condição de marginalidade do negro na sociedade estadunidense, à movimentos anti-semitas do Leste Europeu, movimentos anti-Ibo na Nigéria e movimentos anti-Tamil no Sri Lanka. Para Sowell é tudo a mesma coisa e, portanto, os verdadeiros racistas são essas pessoas, que ele então acusa formalmente em seu texto:

“Tais líderes possuem incentivos em demasia para promover atitudes e políticas polarizadoras que são contraproducentes para as minorias que eles juram defender e desastrosas para o país.  Eles se utilizam das minorias para proveito próprio, atribuindo a elas incapacidades crônicas que supostamente só podem ser resolvidas por políticas que eles irão criar.  Eles são os verdadeiros racistas”.

Se fizermos uma contraposição do que disse Thomas Sowell com os resultados da política estadunidense tocada nos últimos 50 anos após a legislação anti-segregacionista implementada após as lutas pelos direitos civis nas décadas de 1950 e 1960, veremos que, com muito esforço, os afro-descendentes vão conseguindo ascender socialmente cada vez mais, no entanto, ainda estão longe de terem uma situação de igualdade, além de persistir uma “segregação”, diferente da que existia na década de 60, mas muito perceptível nas principais cidades estadunidenses.

UM NOVO TIPO DE SEGREGAÇÃO ENTRE BRANCOS E NEGROS NOS ESTADOS UNIDOS 

Em matéria publicada na Folha de S. Paulo neste último dia 02 de julho, na qual Isabel Fleck comenta os 50 anos do fim do Apartheid estadunidense, um infográfico traz indicadores socioeconômicos sobre brancos e negros nos Estados Unidos na década de 1960 e atualmente. Veja abaixo um desses infográficos:

Fonte: Folha de S. Paulo (02.jul.2014)

Fonte: Folha de S. Paulo | Caderno Mundo | 02.jul.2014

Olhando para esses indicadores, vê-se claramente que mesmo depois de 50 anos, e com toda a luta travada por lideranças de diversos movimentos por direitos civis (Martin Luther King e Malcom X) e pela a adoção de ações afirmativas buscando alterar a condição do afro-descendente na sociedade estadunidense nesses últimos 50 anos (1964-2014), ainda assim, os progressos estão longe de serem os desejados, mostrando que os Estados Unidos ainda continuam segregados.

Pode-se destacar, ainda, que a diferença entre a parcela de negros e brancos desempregados, por exemplo, é maior hoje do que há 50 anos. Pior que isso, a renda média de uma família afro-descendente é dois terços menor do que a de uma família branca não hispânica. Também pode-se observar que o valor do acúmulo de bens desses brancos não hispânicos que há 30 anos era quatro vezes maior do que a dos afro-descendentes, em 2010 já era seis vezes maior. Por fim, pode-se destacar ainda que a diferença entre brancos e negros acima de 25 anos que concluíram o ensino superior nos EUA aumentou sete pontos percentuais, enquanto a população carcerária segue sendo majoritariamente negra.

Curiosamente, um colega de Sowell na Universidade de Stanford, Gavin Wright, afirmou para a reportagem da Folha:

“(…) a raça ainda é fator determinante nos EUA hoje, e isso é refletido nos indicadores econômicos. A combinação entre pobreza e isolamento racial é o que torna as expectativas de mobilidade econômica e social tão desanimadoras”.

Ainda nessa mesma reportagem, destaca-se a grande segregação existente entre brancos e negros nas grandes cidades americanas, nas quais cada grupo estão divididos em seus respectivos bairros. Segundo estudos da Brown University, destaca a reportagem, Nova York, Chicago e Miami estão entre as dez cidades mais “segregadas” entre brancos, negros e latinos dos EUA. Já outro estudo da Universidade da Califórinia demonstram que o estado de Nova York, por exemplo, apresenta as salas de aula mais “segregadas” de todo o país, sendo que apenas 8% das escolas podem ser consideradas, de fato, multirraciais.

FRUSTRAÇÃO COM O GOVERNO BARACK OBAMA

Uma análise de Carlos Eduardo Lins da Silva, também publicada na Folha, sobre os desejos de mudanças da população estadunidense em relação ao governo de Barack Obama. Nesse sentido, Lins da Silva afirma que os Republicanos, com maioria na Câmara, tem sistematicamente obstruído as iniciativas do Presidente. Segundo o texto de Lins da Silva:

“A Voting Right Acts de [Lyndon] Johnson tornou ilegais exigências que os Estados do sul faziam para obter título de eleitor, como testes de alfabetização e comprovantes de pagamentos de impostos.

Desde 2010, muitos Estados aprovaram leis com novos requisitos para o registro eleitoral, que dificultam os pobres e negros o exercício do direito do voto. Em junho de 2013, o Supremo derrubou partes da Voting Rights Act que impunha aos estados a obrigação de submeter ao governo federal quaisquer mudanças que viessem a fazer em sua legislação sobre eleições.

Com isso 22 estados passaram a restringir a inscrição de eleitores com obrigações como apresentação de documentos com fotos e/ou comprovante de residência, impedimento a condenados pela Justiça por crimes e outras.

Essas mudanças ocorrem especialmente nos Estados do sul, a maioria sob controle do Partido Republicano, que passou a dominar a região após John Kennedy e Lyndon Johnson combaterem a segregação racial”.

Se era esperado que com a administração de Barack Obama, o Congresso estadunidense aprovasse novas leis que diminuíssem a “segregação” entre brancos e negros que persiste nos Estados Unidos, ficou evidente que a oposição imposta pelo Partido Republicano, através de sua maioria na Câmara, vem aprovando leis que, ao invés de diminuir, estão aprofundando a “segregação” racial nos Estados Unidos. Liberais e/ou conservadores tais como Thomas Sowell que, ao fingirem não ver o racismo de seus posicionamentos, simplesmente impedem a ascensão social de afro-descendentes nos Estados Unidos, usando as mentiras mais absurdas para rotular grupos que lutam pela implantação de políticas públicas que adotem ações afirmativas de “racistas”, os beneficiários de tais leis de “preguiçosos” e a própria legislação de um “empurrão do Estado”.

Para concluir, entendo que talvez fosse mais apropriado que Sowell mudasse o título de seu texto para “Afinal, quem somos racistas?”. Assim, o texto estaria mais adequado ao conteúdo apresentado e, de brinde, abriria espaço para que os colegas divulgadores do IMB e, também, aqueles que apoiaram o texto nos comentários da publicação, pudessem se identificar claramente.

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Empregadas domésticas e a escravização de crianças no Brasil

Voltando ao tema das empregadas domésticas, acabo de ver uma reportagem estarrecedora, publicada em outubro de 2012 no portal da Pública, uma agência independente de jornalismo investigativo. A reportagem trata de famílias do interior do Pará que enviam suas filhas para estudar em Belém, onde trabalham como empregadas domésticas, mas com o tempo, o serviço vira cativeiro e essas meninas mal conseguem ir a escola.

Para a historiadora Célia Regina da Silva, a questão colocada por esta reportagem, em contraponto aos textos de Joel Pinheiro da Fonseca e Danuza Leão, “é como aquela posta pelos escravocratas mais renitentes do século XIX: Se os pretos forem livres quem vai cuidar deles, afinal? A história se repete duas vezes, uma como tragédia e a outra como farsa, a farsa liberal das oportunidades iguais que eu nuca consigo ver…”.

Entendo que a reportagem deve ser divulgada e repercutida o máximo possível nos diferentes canais da Internet (blogs, twitter, facebook, etc.) para humanizar a palavra “empregadas domésticas”, utilizadas com crueldade por Pinheiro da Fonseca e Danuza Leão, na busca vã de justificar suas preocupações com a possibilidade de extinção das empregadas domésticas. Ao mostrar os rostos e as histórias pessoais de empregadas domésticas como Iara e Cenira, esta reportagem lembra que são de pessoas que estamos falando. Pessoas que também tem sonhos, que também possuem direitos e que, em razão de uma demanda nefasta da sociedade doente em que vivemos, estes passam a ser relativizados por filósofos e socialites que insistem em dizer que, para o próprio bem das empregadas domésticas, não se deve estender os mesmos direitos trabalhistas de outras categorias a estas pessoas.

Espero que muitas pessoas possam ler, refletir, compartilhar a história dessas mulheres para que não nos deixemos persuadir por uma argumentação liberal, desumanizadora, que visa manter os privilégios das classes dominantes e incute nos trabalhadores a ideologia que faz com que Cenira, uma das empregadas domésticas retratadas na reportagem, afirmar:

“Sei que fui lambaia [escrava], eu tirava sangue pra fazer tudo naquela casa, cansei de lavar vaso sanitário com as mãos. Mas aprendi o serviço, depois tive orgulho de virar arrimo da minha família”. E conclui com a voz firme da convicção: “Eu acho um absurdo essa lei que criança não pode trabalhar. Trabalhar é bom, não mata ninguém”. 

A declaração de Cenira, revela em sua crueza a ideologia de dominação de classe já incutida no discurso dos próprios trabalhadores e faz lembrar  um escravo do século XIX que, antes de cometer o suicídio, insistiu que pedissem perdão por ele ao seu senhor já que seu ato iria privá-lo de seus serviços e causaria grande prejuízo do investimento que aquele havia feito ao comprá-lo.

Cenira começou a trabalhar como doméstica aos 10 anos. “Tive orgulho de ser arrimo da minha família”.

“EU QUERO ESTUDAR”, DIZ IARA, EMPREGADA DOMÉSTICA DESDE OS 14 ANOS
Por Ana Aranha, publicada originalmente em PÚBLICA
em 01.10.2012.

Iara*, 18 anos, e Cenira Sarmento, 66, viveram experiências parecidas quando adolescentes. Elas não tiveram o luxo de levar bronca dos pais pela bagunça do quarto, como acontece com as meninas dessa idade. Aos 14 anos, eram elas que arrumavam a bagunça dos outros. Apesar da diferença de gerações, as duas tiveram a mesma sina: foram enviadas por seus pais para trabalhar como empregadas domésticas em Belém como continua a acontecer com muitas meninas do interior do Pará.

Iara tinha 14 anos quando deixou a casa da família em Viseu (305 quilômetros da capital). Cenira tinha 10 quando saiu de São Caetano de Odivelas (110 quilômetros de Belém). Embaladas pela expectativa de um futuro melhor graças aos estudos na capital, desembarcaram assustadas na cidade onde não conheciam ninguém. Foram direto para a casa onde trabalhariam, morariam e aprenderiam lições mais duras do que a rotina diária de limpar a casa, lavar a roupa, fazer o almoço, lustrar a prata.

O  primeiro ensinamento foi sobre disciplina rígida. Iara não gosta de lembrar dos gritos que a humilhavam quando esquecia de limpar um canto da casa. Cenira levava cascudos, quando errava o lugar da louça.

Nas tardes em que Iara insistia em ir à escola, a patroa ralhava e cinicamente ameaçava chamar o conselho tutelar. “Trabalho infantil é crime, tu quer prejudicar seus pais?”. A menina se calava. Como ela, que não tinha nem documento de identidade, poderia argumentar sobre a interpretação das leis? E assim recebia o segundo ensinamento: a submissão.

Lição que era reforçada no cotidiano, até nos “conselhos” que recebia dos patrões. Iara ganhava 100 reais mensais para trabalhar das 6 horas da manhã até a meia noite, de segunda a domingo. Quando falava sobre o desejo de cursar uma faculdade, ouvia da patroa: “Para com isso, menina, pobre tem que se conformar com o seu lugar”.

Cenira, que cresceu em um tempo ainda mais duro com as trabalhadoras domésticas, também recebia aulas diárias sobre o “seu lugar”. Dos 10 aos 15 anos, comia os restos da comida da família, vestia-se com as roupas usadas pelas crianças de quem cuidava e dormia em um quartinho no fundo do quintal. Esse era o seu pagamento pelo trabalho diário.

Mas ela não reclama da sorte: “Sei que fui lambaia [escrava], eu tirava sangue pra fazer tudo naquela casa, cansei de lavar vaso sanitário com as mãos. Mas aprendi o serviço, depois tive orgulho de virar arrimo da minha família”. E conclui com a voz firme da convicção: “Eu acho um absurdo essa lei que criança não pode trabalhar. Trabalhar é bom, não mata ninguém”.

Seu jeito de pensar reflete a opinião de grande parte da população paraense, para quem trabalhar cedo pode ser uma parte importante da formação. E ajuda a explicar porque Iara e Cenira, que nasceram com quase 40 anos de distância, viveram experiências ainda bastante parecidas.

Mas há ao menos uma diferença fundamental entre as duas trajetórias, que pode determinar destinos distintos para as duas.

Cenira só começou a estudar aos 38 anos, quando sua filha também já trabalhava como doméstica. Já Iara, apesar das proibições da patroa, sempre esteve matriculada na escola. Mesmo com mais faltas do que presenças, no contato com colegas e professores ela descobriu que poderia escolher uma profissão diferente daquela que a aprisionava.

Por isso tem planos para o futuro, por enquanto sonhos, que revelam como conseguiu subverter as lições da patroa: “Vou cursar faculdade de direito. Quero ser advogada para dar conforto aos meus pais, pagar a faculdade dos meus irmãos e defender as crianças que são exploradas por adultos, como eu fui”, diz.

Em busca dos estudos, Iara deixou a casa dos pais aos 14 anos de idade e virou empregada doméstica. Fotos: Ana Aranha.

GRADES INVISÍVEIS

A escola é um dos poucos espaços onde as meninas que trabalham como empregadas domésticas se relacionam com pessoas fora do círculo dos empregadores. Mas, mesmo lá, há barreiras que as isolam do convívio social. Com receio do preconceito que ronda a profissão, além do estigma de ser do interior, muitas evitam contato com os colegas.

Nos primeiros anos em Belém, Iara ficava na sala durante o recreio. Não “dava confiança” a ninguém. Hoje, quatro anos depois, ela só se abre com as colegas que vivem ou já viveram a mesma situação. “Eu não falo porque as pessoas não vão dar jeito nos meus problemas”, diz.

A invisibilidade foi o maior entrave encontrado por Maria Luiza Nobre Lamarão, professora e pesquisadora de ciências sociais na Universidade Federal do Pará e uma das maiores especialistas em trabalho infantil doméstico no país, quando começou a pesquisar o tema. As meninas com esse perfil negavam sua condição. “Diziam que não tinham patroa, que moravam na casa da tia e ajudavam com as crianças”, conta Maria Luiza.

Depois de muitas entrevistas, ela conseguiu levantar um detalhado perfil de 16 meninas na mesma condição que Iara. A maior parte delas era do interior e foi para Belém entre 10 e 14 anos. Sem contato com a família ou amigos, criaram laços confusos com os patrões, que misturavam o papel de chefe com o de pai e mãe – com quem quase não têm contato.

Iara só fala com sua família uma vez por ano, quando os visita. Ou muito raramente, quando a mãe viaja à cidade mais próxima do lugar onde vivem. Por isso mesmo depois de ouvir a patroa desdenhar de seus sonhos, era a ela que recorria quando precisava de conselhos. “Ela (a patroa) dizia que queria me ajudar, que falava aquilo porque gostava de mim. Eu acreditava”, lembra.

Para Maria Luiza, os empregadores buscam se beneficiar dessa mistura de papéis quando escolhem meninas nessa faixa etária. “Eles pegam a menina para criar”, afirma. “Não pode ser muito pequenininha, que aí não dá conta do trabalho; mas raramente elas são maiores, quando a socialização já está sedimentada”.

Essa “formação” prejudica o desenvolvimento da autoestima dessas meninas, que só recebem incentivos para cumprir tarefas domésticas, além dos abusos a que estão sujeitas. Como aconteceu com Iara, muitas são humilhadas, privadas de frequentar a escola regularmente e desestimuladas a desenvolver outras habilidades.

Hoje, trabalhando em outra casa, Iara tem condições de compreender melhor o que passou. “Ela (a patroa) não queria que eu saísse dali. Eu me sentia sufocada, presa, não podia conversar com ninguém. Era só trabalho, muito trabalho. Mas eu achava que ia mudar”. Além de cuidar da casa, a menina tinha que limpar a loja de roupas da família e, no fim do dia, dobrar e guardar as peças reviradas pelas clientes.

Iara diz que na nova casa o serviço diminuiu e que ela é estimulada a frequentar a escola. Mesmo assim, há noites em que chega na aula exausta. Uma de suas colegas, que também trabalhou como doméstica e hoje está no caixa de uma papelaria, percebe as olheiras da amiga e lhe dá conselhos para buscar outro emprego. Mas Iara não se sente confiante. “Primeiro tenho que terminar a escola, fazer cursos, quem vai querer me contratar assim?”.

SEM FISCALIZAÇÃO NEM ASSISTÊNCIA ÀS VÍTIMAS

 O trabalho infantil doméstico é o mais difícil de combater. São poucos os mecanismos de fiscalização. “Sabemos do isolamento psicológico, submissão, que tem criança que acaba escravizada. Mas não podemos fiscalizar porque somos vedados de entrar nas residências”, afirma Deise Mácola, coordenadora da fiscalização do trabalho infantil na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Pará.

As poucas denúncias sobre trabalho infantil doméstico recebidas por Deise são encaminhadas ao Ministério Público do Trabalho, que tem autorização para entrar nas casas. Segundo o procurador Rafael Marques, que coordena essas fiscalizações, as famílias flagradas reagem sempre com surpresa. “Eles se assustam, entendem que estavam fazendo um bem por dar teto e comida à criança”, afirma. Nas entrevistas com as vítimas, porém, o procurador ouve relatos de humilhação, isolamento, violência e até assédio sexual.

A família flagrada por explorar trabalho infantil é obrigada a levar a criança de volta para a sua casa. Mas não há uma punição. A lei estabelece sanções para empresas, mas não para pessoas físicas.

“Essa questão está adormecida dentro das políticas públicas na nossa região. Há uma tolerância enorme em relação às crianças que trabalham”, diz Roseane Costa de Souza, diretora da divisão de Assistência Social dentro da Secretaria Estadual de Assistência Social do Pará.

Enquanto os números do trabalho infantil caem em todo o país, na região norte, e especialmente no Pará, o problema cresce. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a região foi a única a registrar aumento no percentual de crianças e adolescentes trabalhando entre 2009 e 2011. Todas as outras tiveram queda.

A comparação entre o Censo 2010 e 2000 é preocupante. O Pará teve o segundo maior aumento na quantidade de pessoas de 10 a 13 anos engajadas em atividades econômicas do país. Em uma década, o estado registrou um acréscimo de 12 mil crianças e adolescentes no mercado, um crescimento de 28% em relação a 2000.

A maior dificuldade no combate ao trabalho infantil no Pará é a barreira cultural, acredita Sueli Mendonça, coordenadora Fórum de Erradicação do Trabalho Infantil no estado. “Sempre que colocamos o tema em reuniões ou palestras, as pessoas têm uma reação contra muito forte, elas contam com orgulho sobre como trabalharam desde cedo e conseguiram progredir”, afirma. É difícil quebrar o ciclo.

As meninas que trabalham como domésticas também são as que menos recebem benefícios de políticas de assistência social.

O primeiro entrave são as distâncias. Em pesquisa feita em Belém sobre os locais de origem das meninas que trabalham como domésticas, o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Emaús identificou três cidades, duas na Ilha de Marajó. Na segunda etapa do projeto, as escolas dessas cidades receberiam cursos de prevenção e os próprios alunos montariam peças de teatro sobre trabalho infantil. Mas uma das cidades identificadas na ilha, Breves, fica a 12 horas de barco de Belém. Devido à distância, o centro teve de escolher outro município para receber o projeto.

A prevenção no interior é fundamental porque, em geral, essas meninas já trabalhavam em casa antes na mudança: na roça, no beneficiamento da farinha de mandioca e, principalmente, na colheita do açaí. Como a palmeira do açaí é fina e alta, os adultos podem tombar a árvore quando sobem. Por isso, as crianças de sete a doze anos são chamadas para subir na árvore e colher o cacho.

“Elas sobem com a faca enfiada na cintura, tem muitos acidentes”, afirma Luiz Carlos Figueiredo, gerente do Centro de Referência Especializada que monitora esses casos dentro da secretaria de assistência social. Ele ressalta que, durante o atendimento, os hospitais não registram que o acidente foi fruto de trabalho infantil. Assim, as crianças voltam a trabalhar mesmo depois do acidente.

Iara era tão pequena que nem lembra quando começou a colher açaí. No fim do dia na casa dos pais, vencia quilômetros com as latas da fruta na cabeça e ia dormir com dor nas costas. “Eu achava que ia ficar velha rápido trabalhando assim, com sol ou com chuva, isso acaba com a gente”, ela lembra.

A menina trabalhava sempre que não estava na escola, e essas ocasiões estavam se tornando cada vez mais frequentes nos anos antes da mudança para Belém. “Lá é interior do interior, os professores davam aula um mês e depois ficavam  vários sem aparecer”, ela lembra.  Aos 13 anos, Iara ainda não sabia ler.

Na região norte, um dos maiores catalizadores do trabalho infantil é a deficiência da rede pública de educação, principalmente no interior e comunidades ribeirinhas. Essa é uma das interpretações de Renato Mendes, coordenador do programa de combate ao trabalho infantil da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “Até a década de 90 e começo dos anos 2000, a pobreza era a causa fundamental. Com a melhoria do acesso à renda, percebemos a falta de acesso e a baixa qualidade da educação como os novos determinantes para o trabalho infantil”, afirma.

Iara diz que a busca pelos estudos foi o único fator que a fez deixar a casa dos pais. “Foi a professorinha mesmo que deu a ideia pro papai, porque ela viu que eu queria aprender”, lembra.

Quando saiu de casa, todos os vizinhos já tinham mandado pelo menos um filho para a capital “para estudar e trabalhar”. “Trabalhar porque as pessoas não vão receber ninguém de graça, né? Mas eu vim mesmo pra estudar”.

NO FINAL DO DIA DE TRABALHO, A ESCOLA

Como ela, a maior parte das crianças e adolescentes que trabalham estão na escola. Dos 704 mil trabalhadores de 5 a 13 anos no país, 97% estudavam em 2011, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mas o que significa “estar na escola” para eles?

Hoje Iara trabalha das 6 horas da manhã até às 7 da noite, hora de ir para a aula. Ela entra na sala tão cansada que senta num canto e não levanta “nem para tomar água”. No intervalo, faz a lição de casa.

As contas são as que mais lhe dão dor de cabeça. “Matemática já é difícil pra todo mundo, eu cansada não consigo raciocinar”, ela justifica. E lembra de uma noite que passou em claro, no primeiro ano em Belém, para tentar recuperar o conteúdo perdido.

Cursando a 3a série, suas notas em matemática variavam entre 2 e 3. “Eu expliquei minha situação pro professor e ele mandou juntar todas as provas e resolver em casa. Se eu conseguisse terminar, valia como nota final”. Depois que a patroa foi dormir, Iara pegou o material e passou a madrugada batalhando para resolver as questões. “Fiz tudinho. Na hora que fui deitar, o dia amanheceu”.

Iara conseguiu a nota de matemática, mas mesmo assim repetiu de ano, devido às faltas. Aos 15, teve que refazer a 3a série.

A repetência é ponto comum na trajetória de meninas que trabalham como domésticas, diz a especialista em trabalho infantil Maria Luiza Nobre Lamarão. “Isso acontece muito na 3a série, elas engatam e não conseguem avançar dessa etapa”, afirma.

Iara é persistente. “As vezes dá um desespero, vontade de jogar tudo pro alto. Aí eu rezo pra Deus me dar coragem pra continuar os estudos”.

Mas nem todos os adolescentes são tão abnegados.

“Por quanto tempo a menina ou menino de 16 anos que trabalha vai aceitar conviver com uma turma de 12 anos? Ele começa a desvincular a escola do projeto de vida, que faz mais sentido pelo trabalho”, diz Maria de Salete Silva, pesquisadora do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e coordenadora de estudo sobre a permanência na escola.

O efeito imediato do trabalho e excesso de repetências é o abandono da escola, tanto é que a a região norte também é campeã de evasão escolar. O Pará tem o segundo pior índice da região.

Para reverter esse processo, as escolas de Belém estão tentando ser mais flexíveis com os alunos que trabalham. “Se for seguir o cronograma e cobrar frequência, eles percebem que não vão conseguir passar e desistem”, diz Edson Moura, o professor de matemática de Iara.

Outra frente visa diminuir o atraso escolar. Para colocar os adolescentes na série que corresponde à sua idade, as escolas estão transferindo os alunos para a Educação de jovens e Adultos (EJA) – turmas tipo supletivo que condensam duas séries em um ano. Em Belém, quem tem mais de 15 anos e está ao menos 2 anos atrasado é transferido para essa modalidade, que só acontece à noite.

Embora resolva o problema do fluxo (excesso de alunos na série errada) a transferência pode trazer problemas para os adolescentes, que passam a assistir aula planejadas para adultos. “Temos um número crescente de jovens no EJA e isso gera um conflito de gerações”, observa Celso Oliveira, assessor pedagógico da secretaria municipal para essa modalidade.  “Os jovens vêm do ensino regular com muita energia, é difícil prender sua atenção. Já os adultos estão há 20 anos sem estudar, têm outro ritmo”.

Iara caiu nessa rede. Até o ano passado, estudava à tarde no ensino regular. Ao concluir a 5asérie com 17 anos, foi transferida para uma turma de jovens e adultos à noite. Ela teve que refazer a 5a série no começo do ano, e agora está cursando a 6a série no segundo semestre.

Para Maria de Salete, do Unicef, a escola precisa aprender a lidar melhor com esses casos. “Ou os meninos ficam repetindo e são tratados como criança grande ou vão para o EJA e são tratados como adulto pequeno”, afirma. “Eles são adolescentes, têm direito de serem atendidos como tal”.

Mas o que, então, a escola deveria fazer com esses alunos?

MUDAR O BOLSA FAMÍLIA?

Uma das principais ferramentas para manter os alunos na escola são os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Para Sueli Mendonça, que além de ser coordenadora do Fórum de Erradicação do Trabalho Infantil também é professora de escola pública, é preciso avançar nas condicionalidades desses programas (as exigências que tem de ser cumpridas para ter direito ao benefício) para que os alunos parem de trabalhar e melhorem o rendimento escolar. Hoje as condições estipuladas são manter a carteira de vacinação em ordem e os filhos na escola.

Ela defende que as escolas identifiquem os alunos que recebem o Bolsa Família (o que quase não acontece hoje),  chamem as famílias dos alunos que trabalham para reuniões sobre os danos que isso traz para o desenvolvimento da criança. No limite, as escolas devem avisar que eles podem perder o beneficio se a criança continuar trabalhando, acredita Sueli.

Mas aumentar o rigor tem seus riscos. Segundo Iacirema Bahia Cardoso, técnica da Funpapa, a fundação municipal responsável pelo monitoramento e assistência de população de rua em Belém, a maior parte das crianças que trabalham na rua recebem Bolsa Família. Mas, quando os técnicos procuram as famílias e dizem que elas não podem trabalhar, os pais dizem que preferem suspender o programa. “Os meninos ganham muito mais trabalhando do que pelo Bolsa Família”, diz Iacirema.

EM BUSCA DOS ALUNOS

Uma segunda solução apontada por Sueli seria um acompanhamento caso a caso na escola. “Hoje o trabalho infantil é algo naturalizado pelos educadores, todos sabem que os alunos trabalham e nada é feito”, afirma.

Ela lembra de um episódio na sua escola, quando uma tia chegou dizendo que sua sobrinha havia fugido de casa. Sueli localizou uma parente da aluna na cidade e descobriu que a “tia” era, na verdade, patroa. E que a menina fugiu da casa onde morava e trabalhava como doméstica porque não aguentava mais a grande quantidade de serviço que era obrigada a fazer.

“Chamei a mulher para uma reunião e levei o Estatuto da Criança e do Adolescente. Apontei tudo que ela tinha feito de errado e disse que tinha de levar a meninas de volta pra casa da família dela”. A patroa pagou a passagem para a adolescente, que morava na Ilha de Marajó.

Mas será que todas as escolas e educadores são capazes de acompanhar seus alunos com tanto cuidado?

“Não sabemos o que fazer. São tantos os problemas, que nos sentimos incapazes.”, diz Ioleta Gomes Orquiza, vice-diretora de um colégio de Marabá que perdeu 30% dos alunos em 2011.

Ioleta e sua equipe veem os alunos trabalhando em feiras como ambulantes. “Entre as meninas é ainda pior, há muita prostituição”. A escola fica em um dos bairros mais pobres da cidade, que tem 233 mil habitantes

A solução encontrada pela direção foi enviar cartas às famílias convocando-as para uma reunião. “Escrevemos que, se os pais não tomassem providências sobre o abandono, nós tomaríamos as nossas”, afirma. Mesmo assim, foram poucos as famílias que compareceram na reunião. “Ainda estamos tentando levá-los de volta. Se não acontecer, vamos encaminhar os nomes para o Ministério Público”.

Não só os alunos, mas toda a população de Marabá sofre com a violência e aumento das redes de exploração sexual. Polo da indústria siderúrgica, a cidade atrai contingente populacional incompatível com sua estrutura.

Quando contrastada com os impactos dos problemas políticos e sociais do estado, a escola fica pequena. Para cenários assim, cresce a percepção entre os especialistas em política educacional que a melhor alternativa para a escola é crescer e ocupar mais espaço na vida dos alunos.

ESCOLA EM PERÍODO INTEGRAL TRAZ BONS RESULTADOS EM MOJU

É o que tenta fazer uma secretária municipal de educação a 260 quilômetros de Belém. Moju, cidade de 70 mil habitantes, também sentiu o impacto dos projetos federais no estado. Lá, empresas foram incentivadas a instalar fábricas para processar o óleo de dendê, atraindo famílias em busca de trabalho. Além disso, pequenos proprietários da zona rural venderam suas terras para fazendeiros interessados em produzir em maior escala, o que inchou ainda mais a periferia da cidade.

“O problema começou a ser visto a olhos nus: muitas crianças na rua vendendo e pedindo, adolescentes nos bares e voltando das carvoarias”, diz a secretária de educação Sandra Helena Ataíde. Dentro das escolas, estouravam os índices de repetência, abandono e atraso.

Para tentar reverter o processo, a prefeitura investiu na construção de uma escola em tempo integral destinada aos alunos em vulnerabilidade. Pela manhã, o Centro Municipal de Educação Integral Oton Gomes de Lima oferece aulas regulares da 5a à 8a série para 150 alunos, enquanto os outros 150 participam de atividades esportivas e culturais, como capoeira, música, teatro, natação e esportes. Depois do almoço, as turmas invertem. Das 7 horas da manhã até às 17 horas da tarde há professores disponíveis para tirar dúvidas ou ajudar na lição de casa.

Para formar as primeiras turmas, em 2009, houve uma triagem em todas as escolas da cidade em busca do público alvo: alunos que trabalhavam, sofriam violência em casa, estavam envolvidos com o tráfico ou outras situações de risco. Em geral, aqueles que mais acumulavam repetência e notas baixas.

“Eu quis desistir no primeiro dia”, Sandra confessa. Uma escola especial para alunos vulneráveis fazia todo sentido na teoria. Na prática, virou um caldeirão explosivo. “Eles brigavam por qualquer motivo”, lembra a diretora  Laurimary Mendonça. “Se esmurravam na fila do lanche, davam soco só porque um olhou pro outro, faziam guerra de açaí. Teve um dia em que registramos 46 ocorrências de brigas e discussões”.

Ao invés de virar uma boa referência na cidade, a escola era o lugar onde os pais não queriam matricular seus filhos. “Diziam que era um centro para menores infratores”, diz Laurimary.

Com o tempo, a escola foi aprendendo que concentrar todos os perfis com problemas não seria sustentável e passou a abrir matrículas para todos os interessados. Hoje, segundo os próprios alunos, a vaga naquela escola é o sonho de muitos adolescentes da cidade.

Não é fácil reproduzir a experiência. A diretora calcula que cada aluno do Oton deve custar cerca de cinco vezes o valor das outras escolas da cidade. “Uma escola ainda é pouco, mas a gente precisava começar, para a sociedade assimilar que é possível”, diz a secretária.

Hoje, percorrendo as salas de aulas, não é difícil achar alunos que ainda trabalham. A maior parte, porém, deixou o serviço na semana e faz bicos aos sábados e domingos.

É o caso de Raimunda*, 17 anos. Ela saiu da casa da mãe na zona rural com 12 anos para trabalhar como doméstica na cidade. Foi quando descobriu que teria de voltar a cursar a 1a série, pois ainda não sabia ler e escrever. Atrasada na escola e cansada do trabalho, foi escolhida para estudar no Oton.

Como Iara, ela sempre foi dedicada aos estudos, mas tinha dificuldade para progredir. Hoje seu esforço é bem melhor aproveitado. Nas últimas provas Raimunda tirou dez em todas as matérias, menos geografia e artes, que ficou com 8 e 8,5.

Nos finais de semana, ela ainda faz bicos como recepcionista em uma churrascaria para ter o seu dinheiro. Mas só depois do final das aulas do curso profissionalizante em administração dado por uma das empresas de biodiesel da cidade. “Eles querem profissionalizar os jovens pra trabalhar lá, eu aproveito, é uma chance de um emprego melhor quando terminar os estudos”.

Andando pela escola, Raimunda transborda autoconfiança. “Não sei explicar por que, mas eu me sinto bem aqui”, diz. Esse ano ela passou na primeira fase da Olimpíada de Matemática. “Eu gosto que posso contar com os professores quando tenho dificuldade. E que posso levar os livrinhos de contos da biblioteca pro meu pai. Ele pede pra me ouvir lendo, acho que tem orgulho”.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade das adolescentes

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A hipocrisia humana de cada dia

Mestrando em filosofia e editor da revista Dicta&Contradicta, Joel Pinheiro da Fonseca publicou texto, em janeiro deste ano, sobre o fenômeno do “extermínio das empregadas domésticas” no Brasil. Seu texto ganhou espaço no portal do Instituto Ludwig von Mises Brasil (IMB), cujo lema é “Liberdade – Propriedade – Paz”.

O site do próprio IMB define o Instituto como “uma associação voltada à produção e à disseminação de estudos econômicos e de ciências sociais que promovam os princípios de livre mercado e de uma sociedade livre”. Diz mais, segundo o próprio site, entre suas ações o instituto busca:

  1. promover os ensinamentos da escola econômica conhecida como Escola Austríaca;
  2. restaurar o crucial papel da teoria, tanto nas ciências econômicas quanto nas ciências sociais, em contraposição ao empirismo;
  3. defender a economia de mercado, a propriedade privada, e a paz nas relações interpessoais, e opor-se às intervenções estatais nos mercados e na sociedade.

Esclarecido quem são e o que defendem os que trabalham para o IMB, vamos a Joel Pinheiro da Fonseca e seu texto sobre as empregadas domésticas. Para Pinheiro da Fonseca, “as empregadas domésticas entrarão em extinção”, pois apesar de elas quererem trabalhar e não terem outras opções de emprego, “existe algo que as proíbe de fazê-lo. (…) [São] nossos políticos, bem como sindicalistas e todos aqueles que defendem a ideia para lá de perniciosa dos direitos trabalhistas”.

Como se vê, logo nos primeiros parágrafos, Pinheiro da Fonseca revela seu total alinhamento com a proposta do IMB ao afirmar que há pessoas querendo trabalhar, mas são impedidas pela ação governamental através da “perniciosa ideia dos direitos trabalhistas”. Para o autor, a recente conquista do direito de estender o FGTS e hora extra para empregadas domésticas é, na verdade, uma grande derrota para os brasileiros. Não por acaso, a imagem associada com essa parte do texto de Pinheiro da Fonseca, é a de uma mulher branca, loira, vestida com luvas de borracha e um produto de limpeza na mão, em um gesto de não saber o que fazer em sua cozinha moderna, agora que ficou sem empregada doméstica.

Mesmo antes de continuar a leitura do texto, já se percebe quais interesses o Sr. Pinheiro da Fonseca está defendendo e, obviamente, não é o da empregada doméstica, mas a da mulher representada na foto acima. Em um completo exercício de inversão de valores, seu texto passa a tentar demonstrar como a ação do governo, ao tentar regulamentar a profissão e estender as garantias mínimas dos trabalhadores também às empregadas domésticas (FGTS, Hora Extra, etc), faz com que a profissão de empregada doméstica entre em extinção, tal como dizia o título do texto. Vejam o exemplo abaixo:

“Impor a hora extra é um golpe particularmente nefasto porque quebra a relação de confiança na qual o trabalho de empregada doméstica se dá: ele deixa de ser um trabalho no qual favores podem ser dados de parte a parte e se transforma numa relação calculista, num cabo de guerra em que uma parte busca tirar mais da outra dando o mínimo possível.  Patrão e empregado tornam-se inimigos. (…) É via legislação trabalhista que a luta de classes (…) vira realidade”

Aqui, de modo inacreditável, Pinheiro da Fonseca tenta fazer crer que trabalhar horas a mais do que o estipulado no contrato ou no acordo, trata-se de um favor que uma empregada doméstica pode fazer a seus patrões e, como tal, não deve ser remunerado. Pior, sendo mestrando de filosofia, o autor não se envergonha ao dizer que, com a instituição da hora extra, a relação de trabalho se transforma numa relação calculista na qual uma parte busca a tirar mais da outra dando o mínimo possível. Que a luta de classes vira realidade através da legislação trabalhista.

Oras, caro Pinheiro da Fonseca, parece-me necessário que volte aos manuais da faculdade para que compreenda que esta é a situação normal de relações de trabalho em uma sociedade capitalista. Ou o senhor desconhece o conceito da mais-valia? Uma relação de trabalho assalariado, caro Pinheiro da Fonseca, já é, por natureza, uma relação calculista onde um lado (o patrão) busca tirar mais do outro (trabalhador) dando o mínimo possível. A atuação dos governos ao criar legislações trabalhistas, intervém justamente em defesa do trabalhador (e não gratuitamente, mas a partir de muita luta) para que o mesmo tenha garantido o mínimo para viver com alguma dignidade. A legislação trabalhista, diferentemente do que o senhor afirma em seu texto, não torna real a luta de classes, muito pelo contrário, tal luta é a realidade que, com o seu desenvolvimento, causa o atravancamento do sistema a um ponto em que é necessário conceder o mínimo para que seja possível manter a exploração da mão-de-obra do trabalhador.

No trecho seguinte a sua argumentação, Pinheiro da Fonseca demonstra de modo cabal sua má intenção de intelectual em defesa do Capital ao apontar que:

“O mecanismo que instaura essa luta [de classes] é simples. Ao aumentar a remuneração obrigatória de uma função, o estado cria uma disjunção falsa na mente da maioria dos empregados: “se eu não estou recebendo tudo o que a lei demanda, ainda que eu tenha concordado plenamente com os termos do contrato, estou sendo explorado”.”

Oras, o mecanismo que instaura a luta de classes não é o aumento de salários via legislação trabalhista, mas sim o valor que o patrão deixa de pagar do salário do trabalhador, isto é, a exploração da mais-valia. Não é o Estado quem cria na mente dos empregados a ilusão de que ele está sendo explorado, mas é o próprio mecanismo de funcionamento do capitalismo quem institui a exploração do trabalhador, caso contrário não haveria lucro. Pinheiro da Fonseca opera, descaradamente, uma inversão para, uma vez mais, atacar o Estado em linha com os valores do Instituto que publica o seu texto.

As inversões e má intenções de Pinheiro da Fonseca continuam por todo artigo, dos quais insisto em destacar apenas mais uma, logo na conclusão do texto:

“Felizmente, o mercado sempre encontra meios de burlar as ineficiências e pesos mortos criados pela intervenção estatal. (…) no setor das domésticas vem ganhando peso a função da diarista para trabalhos específicos. Esse processo é em parte independente das leis trabalhistas: com o encarecimento da mão-de-obra, serviços especializados com tempos estritamente determinados tornam-se mais vantajosos. Não dá para pagar uma mulher para ficar o dia todo em casa, grande parte do tempo apenas de stand-by caso alguém precise de algo. Mas dá para pagar para essa mesma mulher passar uma hora produtiva dentro da casa toda semana.”

No trecho destacado, o autor defende que o aparecimento das diaristas é um feliz achado do mercado para burlar a ação do Estado, isto é, pode-se continuar pagando pouco e desrespeitando os direitos do trabalhador, recorrendo a uma trabalhadora que, graças à “feliz” ação do mercado, aceita continuar sendo explorada, não se enquadrando em sua categoria profissional, fragmentando o valor de sua hora de trabalho e, retirando dela, todas conquistas trabalhistas pelas quais seu grupo lutou. É essa a atitude valorizada pelo autor do texto e pelo Instituto para o qual escreve.

Gostaria de finalizar o post apontando a HIPOCRISIA do Sr. Joel Pinheiro da Fonseca, o autor que odeia tanto o Estado e ataca as “intervenções estatais nos mercados e nas sociedades”, ter feito sua pós-graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), uma instituição estadual e, portanto, financiada com dinheiro público. Mais do que isso, esse mesmo Joel Pinheiro da Fonseca foi bolsista da FAPESP para obtenção de seu título de mestre em filosofia. Parece-me que, como sói ocorrer com uma parte importante dos defensores dos princípios liberais, o Sr. Pinheiro da Fonseca só é contra o Estado quando este não o favorece ou ao seu grupo. Ao escrever um texto mal intencionado como este, publicado no portal de um grupo que defende as posições que diz defender, revela claramente o quão hipócrita pode ser, ao ter sua própria formação financiada pelo Estado, a quem agora achincalha.  Duro não é só aguentar as opiniões que este indivíduo tem a respeito do mundo e de como o mercado deve regular a nossa sociedade, mas sim aguentar tamanha falta de coerência e hipocrisia que ele e os demais defensores de tais modelos vomitam sobre nós diariamente. É a esta hipocrisia humana de cada dia a que me refiro ao falar de Joel Pinheiro da Fonseca e do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

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